"Aspectos Teórico-Práticos do Uso do Jornal na Escola"


Antonio Alberto Trindade
UBC

Quero agradecer aos organizadores do evento pelo convite e quero dizer que é um prazer poder estar aqui com vocês discutindo um tema tão importante. Vou iniciar essa conversa elogiando os diversos trabalhos com o uso do jornal trazidos por vocês. Nós estamos notando um crescimento muito expressivo do número de professores e escolas que se dedicam ao desenvolvimento de atividades utilizando o jornal. Isso nos revela que professores e estudantes estão descobrindo a possibilidade e a viabilidade de utilizar esse material como recurso pedagógico; precisamos então tentar entender melhor o que exatamente está acontecendo.  

Hoje nós vamos discutir os aspectos teórico-práticos do uso do jornal na escola. Para desenvolver o tema vou partir de uma pergunta: como fazer uso do jornal na escola unindo teoria e prática? Como fundamentar o uso pedagógic do jornal? Essa pergunta faz sentido porque apesar de termos um significativo aumento das ações pedagógicas com o uso do jornal, penso que ainda estams realizando um trabalho no nível do senso comum. Isso quer dizer que aioda não conhece}os muito sobre  uso do jornal como material pedagógico e não entendemos ainda de forma profunda as razões que explicam o aumento do us deste material por professores e estudaotes. Estamos n nível do senso comum porque para trabalhar com o jornal ainda estamos sendo guyados pela  “sensação” de que o material serve, de que é bom, sem que tenhamos justificativas mais fundamentadas para apoiar um tal uso. Aí entra o aspecto teórico nesta questão. Precisamos dominar melhor esse campo para que nossas ações sejam a união da teoria com a prática.

As ações com o uso do jornal estão ainda muito “soltas”. Isso quer dizer que são ações ainda pouco articuladas com o currículo e com o projeto político-pedagógico das escolas. Por conta disso, as práticas são isoladas e dependem basicamente da dedicação do professor que se simpatiza com esse tipo de atividade. Nada disso tira a validade e importância do que se está fazendo com o jornal hoje, mas precisamos encarar essa questão de outra perspectiva; se estamos “percebendo” que o jornal é um bom material, precisamos provar isso, precisamos apresentar estudos que demonstram a importância desse uso. Em outras palavras, precisamos sistematizar nossas práticas para que possamos extrair delas os fundamentos teóricos que precisamos para poder fazer do uso do jornal algo mais sistemático; para que possamos nos apropriar de verdade desse novo recurso pedagógico.

Talvez possamos começar esse processo tentando entender a crescente importância que se têm dado a esse material; por que cresce a simpatia pelo trabalho com jornal na escola? As respostas, ainda que num nível de senso comum, já começam a aparecer quando falamos com professores. Eles nos dizem que gostam de usar o jornal porque “o aluno gosta de ler e discutir as notícias”; porque com o jornal “abre-se uma porta para conversar melhor com o aluno”; porque o jornal “ajuda a trabalhar o conteúdo curricular”; ou ainda, porque  “para dar aula é bom estar atualizado” ou porque o jornal auxilia na formação do “aluno crítico”. Não há dúvidas de que tudo isso é verdadeiro; é a sensação que não vem à toa, mas que tem explicação na constatação de que a aula e as relações se tornam melhores quando se desenvolve trabalho com jornal. Isso nos leva a pensar que talvez o uso do jornal esteja atendendo a necessidades reais do professor e do aluno; o uso deste material pode estar tocando em demandas nunca antes atendidas. Todos gostam de usar porque “alguma coisa” fica melhor. O que será que está acontecendo?

Claro que temos uma sugestão. Vamos pensar novamente nas respostas dos professores citadas acima, mas façamos delas novas perguntas: por que o aluno gosta de ler e discutir notícias? Do que exatamente o aluno gosta quando “estuda” com jornal? Porque e como o jornal ajuda a trabalhar o conteúdo curricular? Por que é bom estar atualizado para dar aulas e atualizado sobre o que? Em que sentido o jornal ajuda a formar o aluno crítico? Quem quer um aluno crítico e por que? Por que o trabalho com jornal ajuda na relação com a aluno, ou “abre uma porta” para dialogar com ele? Que porta está fechada e por que? Todas essas questões devem ser feitas se queremos encontrar as verdadeiras razões que hoje levam à maior aceitação do uso do jornal em sala de aula. O caminho para a construção teórica neste campo é esse; temos que investigar isso tudo que para o professor, no momento, aparece ainda como “sensação”, mas que “guarda” as respostas que queremos conhecer.

Nossa sugestão é a de que o jornal está trazendo algo novo para a escola; sua utilização parece estar tocando em alguns dos problemas importantes que a escola vive hoje:

1- sensação generalizada - por parte dos alunos principalmente - de que o que acontece na escola não tem relação com o mundo real; é a velha questão da distância entre escola e realidade que acaba gerando também a sensação da “falta de sentido” de ensinar e estudar. 2- a impressão – por parte dos professores – de que os estudantes são “desinteressados”, algo que torna problemática a relação com estes e que sufoca o professor que no fundo sente-se questionado quanto à qualidade do trabalho que realiza. Isso gera a necessidade de buscar novos caminhos, novas dinâmicas para ensinar, para dar aula. 3- a necessidade que todos sentem, professores, alunos, comunidade local, de acreditar na escola como espaço onde se aprende para poder viver melhor; para adquirir conhecimentos que servem para resolver problemas, conquistar espaços, tornar-se instruído para enfrentar as disputas e dificuldades da sociedade etc.

A escola, já há muito, tem perdido sua “potência” na visão da comunidade que não tem encontrado nela – mas nunca deixa de lá procurar – as ferramentas de que necessita para satisfazer suas necessidades. Estaria o trabalho com jornal tocando nestes pontos? Pode ser que sim. Vamos pensar um pouco no que é o jornal e no que possivelmente o trabalho com este material esteja trazendo para a escola, para o professor, para o aluno, para a relação pedagógica, para o currículo etc.

Enquanto produto cultural, o jornal traz informação atual, artigos de opinião, reportagens; em resumo, traz o movimento político, econômico e cultural da vida social. O que acontece no mundo, no país, no estado, na cidade, no bairro está no jornal. O jornal não é neutro, defende interesses, forma opinião, “dita” o que importa mais, o que importa menos e até o que não importa etc. Não há ingenuidade nesse material. Enquanto material pedagógico: o material “tem um movimento” (é atualizado); tem “forma” interdisciplinar, multidisciplinar; gera repercussão (mexe com a realidade); pode ser apropriado (podemos escrever lá); possibilita “formular hipóteses” do que será o amanhã (exercýcio de previsão); é rico em informação. Por que queremos isso na escola, esse material que é como é? (o jornal não mudou só porque resolvemos fazer uso pedagógico dele). Será que esse produto cultural, enquanto material pedagógico, oferece algo realmente novo? É isso que temos que investigar; parece que o jornal “cai como uma luva” nas necessidades atuais da escola, do aluno, da comunidade, do professor.

Mas o que quer da escola o estudante? Quer informação e conhecimentos. Mas não a toa; ele tem necessidades reais de informação organizada e de organizar informações. Quando encontra isso sente-se feliz e preparado. Por que? Porque ele consegue entender o que acontece com ele, com a família dele, com os amigos, com sua vida etc. Ele quer encontrar na escola, espaço do conhecimento, ferramentas que o ajudem a superar as dificuldades e necessidades.  Quer aproveitar assim o tempo que fica na escola, aprendendo o que importa porque ele não tem tempo a perder, porque tudo lá fora é complicado e ele precisa se virar. Ele quer saber por quais caminhos seguir; quer poder descobrir esses caminhos, ser mais “potente” para ver o amanhã, para se articular. Quer discutir sobre tudo isso e planejar. Na escola, com os amigos e professores, isso pode acontecer recheado de conhecimentos, informações etc.  Quer interpretar o mundo e agir. É isso que faz da escola algo vivo e o uso do jornal parece favorecer a um trabalho de ensino-aprendizagem mais de acordo com essas necessidades. Talvez por isso esteja ocorrendo hoje uma grande aceitação do material e a ampliação de seu uso como recurso pedagógico.

Então vamos voltar à questão da prática com teoria. O quer precisamos saber? Como vamos usar bem o jornal, afastando a prática do simples improviso? Como vamos saber mais sobre essa prática? Como vamos entender melhor isso que parece estar acontecendo lá na escola e que mexe com o currículo e com o projeto político-pedagógico da escola? Por que o jornal serve como material pedagógico? Como vamos entender o que está acontecendo (com professor e aluno) quando usam jornal na aula? O que queremos compartilhar com todos é essa necessidade de nos debruçarmos sobre essas questões para responde-las; hoje, ainda estamos no nível do senso comum mesmo estando nossas impressões sobre a viabilidade e adequabilidade do uso do material apoiadas no reflexo positivo que estamos obtendo em sala de aula. Se nos apropriamos disso, vamos fazer uma prática melhor e bem articulada.

Para avançar no campo teórico-prático

Para avançar na questão do uso do jornal na escola precisamos produzir fundamentos teóricos que justifiquem melhor esse uso. Isso significa que precisamos realizar pesquisas para responder algumas questões centrais, dentre as quais:

1- a validade do jornal enquanto material pedagógico (a pergunta aqui seria: o que ele traz e porque queremos – se queremos – esse conteúdo na escola?) Esta questão nos remete à discussão sobre Projeto Político-Pedagógico e currículo, algo que nos leva a indagar sobre que homem e que sociedade queremos construir. Essa é uma discussão profunda que precisamos fazer com calma e com mais tempo, mas que está no centro de tudo o que dissemos até agora nesta exposição.

2- a contribuição do uso do jornal para ensinar e aprender o currículo formal (o que o jornal acrescenta ou em que favorece no processo de ensino e aprendizagem dos conteúdos curriculares considerados importantes?) Esta questão foi em partes respondida com minha pesquisa[1], e continuamos colhendo importantes informações e analisando experiências em desenvolvimento nas escolas e a partir dos programas Jornal na Educação.

3- os impactos de ensinar e aprender usando jornal – para professor e aluno (o que isso modifica (se modifica) da dinâmica do trabalho do professor e no processo de formação do aluno? Muda algo na relação pedagógica? Muda algo nos papeis assumidos por cada sujeito do processo educativo?).

É preciso que o trabalho pedagógico com o uso do jornal tenha um “formato” que garanta um acompanhamento sistemático do processo para que possamos tirar conclusões de valor científico. Isso quer dizer que, seja uma ação isolada do professor, seja um programa, precisa ser pensado de forma a garantir o acompanhamento da qualidade e resultados das ações em diversos níveis.

É preciso que as ações, além de bem fundamentadas e bem acompanhadas, sejam duradouras – o que exige uma estruturação sólida dos projetos  “soltos”  - realizados pela escola ou pelos professores isoladamente - ou vinculados ao setor público e a empresas jornalísticas. Só assim poderemos verificar verdadeiros impactos e transformações.

Agradeço a atenção de todos e continuaremos falando de tudo isso no debate que se iniciará após as exposições. Obrigado.  
Obs:
leia transcrição de palestra sobre o uso do jornal na escola onde falo mais sobre a articulação entre o jornal e o projeto político pedagógico.
Endereço: http://www.diarionaescola.com.br/19se12.pdf


[1] Veja o trabalho O uso do jornal como material educativo no endereço www.prociencia.com.br