"Leitura
indigente de jornais impressos"
A baixa circulação dos jornais brasileiros é também um indicativo social do
nível da escolaridade da população.
Prof.
Marcel J. Cheida
Jornalista, Mestre em Filosofia Social,
Professor na Faculdade de Jornalismo da Puc-Campinas.
O
brasileiro pouco lê jornais impressos. País incluído entre os pares
emergentes, o Brasil ainda busca construir costumes inspirados pela modernidade,
entre eles a melhoria da educação laica e a expansão dos índices de leitura,
tarefas indispensáveis para atingir um grau de desenvolvimento em campos estratégicos
como o da ciência e o da tecnologia. São desafios que exigem enormes
investimentos e uma política de prioridade à educação formal. O Brasil
apresenta, ainda, preocupantes índices de desenvolvimento humano[i],
apesar de abrigar ilhas de riqueza, onde a demanda por leitura não pode ser
considerada proporcional aos valores econômicos. A educação formal é estratégica
para situar um povo entre aqueles que mais lê no mundo. E o brasileiro não se
encontra entre aqueles que mais estuda[ii],
pois o índice de presença do indivíduo nos bancos escolares é relativamente
baixo frente a tantos outros países.
O
brasileiro lê pouco. E muito do que se lê é de baixa qualidade. Em dados
comparados, a circulação paga de jornais brasileiros não ultrapassa a circulação[iii]
dos primeiros cinco jornais norte-americanos.
|
Jornal |
Circulação |
|
USA
Today |
2.603.000 |
|
The
Wall Street Journal |
1.821.000 |
|
New
York Times |
1.673.000 |
|
Los
Angeles Times |
1.396.000 |
|
The
Washington Post |
1.049.000 |
|
Total |
8.542.000 |
Fonte:
Associação
Mundial de Jornais (WAN) 2003.
No
Brasil, a soma da circulação paga dos jornais impressos é de 6.470.000
exemplares, conforme dados de 2003 da Associação Nacional dos Jornais (ANJ),
entidade representativa das empresas publicadoras de jornais impressos.
Os
números apresentam diferenças brutais. E revelam a importância do sistema
educacional eficiente como parceiro das grandes circulações. Nos países onde
o sistema educacional apresenta um desenvolvimento bastante eficaz no ensino
combinado com a pesquisa, os índices de consumo de leitura de jornais impressos
são elevados. Os países denominados de emergentes, como China, Coréia do Sul
e mesmo a Índia, apontam os mesmo caminho, pois registram tiragens elevadas
comparadas com o Brasil.
Os
cinco jornais de maior circulação na China, em 2003, atingiram mais de nove
milhões de exemplares, número superior ao Brasil, mas que deve ser lido também
em relação ao índice populacional. Com cerca de um bilhão e 300 mil
habitantes, a China[iv]
tem uma história gráfica milenar, o que contribui decisivamente para a tradição
da leitura. Além disso, nas últimas duas décadas, a China apresenta índices
de crescimento médio do PIB em torno de 10%, o que contribui para entender o
desenvolvimento daquele país.
| Jornal |
Circulação |
| Canako
Xiaoxi (Beijing) |
2.530.000 |
| People’s
Daily (Beijing) |
1.773.000 |
| Yangtse
Evening News (Nanjing) |
1.650.000 |
| Guangzhou Daily | 1.600.000 |
| Yangcheng Evening News (Guangzhou) | 1.500.000 |
| Total |
9.053.000 |
Fonte:
Associação
Mundial de Jornais (WAN)
2003.
A
China possui uma população sete vezes maior que a brasileira, porém, essa
relação não equivale proporcionalmente à circulação dos jornais. Tanto que
entre os 100 maiores jornais em circulação no mundo, 15 são chineses[v],
enquanto que nenhum título brasileiro se encontra nesse clube privilegiado.
Nota-se, porém, que o número absoluto da circulação atinge em média três
leitores por exemplar, segundo dados estatísticos sobre comportamento de
leitura dos jornais. O índice de pessoas que lêem jornais, portanto, pode ser
considerado proporcionalmente à população de cada país para efeitos
comparativos, mas não se deve desconsiderar o número absoluto, pois implica
numa quantidade superior de leitores entre países. Por exemplo, os cinco
maiores jornais chineses atingem cerca de 27 milhões de leitores enquanto que
os cinco maiores jornais brasileiros atingem menos de quatro milhões de
leitores (ver tabela abaixo).
A
quantidade de leitores e de exemplares não correspondem, todavia,
necessariamente, a uma qualidade de conteúdo editorial. Deve-se fazer uma
ressalva quanto a esse aspecto, pois a China apresenta jornais orientados
editorialmente pela visão estatal e partidária. A tradição socialista ainda
imprime as linhas editoriais, sempre sob a vigilância da censura governamental.
Se no Brasil a censura do Estado não deixou saudades, pelo menos para os
jornalistas e jornais, bem como para os brasileiros com espírito democrático,
a autocensura sobrevive e até aperfeiçoa os mecanismos de controle dos conteúdos
editoriais. Se os grandes e tradicionais títulos jornalísticos no Brasil, em
especial aqueles que se encontram em Estados como o Rio de Janeiro, São Paulo e
Rio Grande do Sul, procuram manter a aura de independência em relação aos
governos e partidos, o mesmo não ocorre na grande parte dos pequenos e médios
jornais. Geralmente, sob a propriedade de políticos ou de grupos econômicos
com interesses bastante específicos e regionais, essas folhas mantêm tiragens
pequenas e colhem suas receitas, em muitos casos, dos anúncios governamentais
pagos por prefeituras, câmaras de vereadores, de empresas estatais e dos
governos de estado. Casos como na Bahia, onde os jornais são controlados pelos
grupos de influência do senador Antônio Carlos Magalhães, no Maranhão,
controlados pela família Sarney, em Alagoas, pela família Collor de Mello, são
exemplos da mídia dependente, cujo conteúdo é autocensurado com a finalidade
de manter a propaganda em favor dos líderes ou grupos políticos e econômicos
regionais. Esse é um cenário que merece uma atenção especial em outro
estudo, porém deve ser considerado como referência contextual neste caso.
Caso
extremo – O
Japão pode ser considerado um caso extremo quanto à circulação de jornais.
Os números são brutais. Nenhum país se compara ao Japão, onde somente um título,
o Yumiuri Shimbun chega a tirar mais
de 14,4 milhões de exemplares por dia, em duas edições, uma matutina e outra
vespertina, além de 150 mil exemplares em inglês, destinados à Europa e
Estados Unidos. Somente o Yumiuri Shimbun
tira quase o dobro de todos os jornais de circulação paga no Brasil. A discrepância
monumental pode ser explicada por várias razões, entre elas a tradição
milenar e os elevados investimentos em educação formal naquele país. Dados do
Banco Mundial[vi]
mostram que o Japão registra 578 exemplares de jornais diários para cada 1.000
habitantes, enquanto que o Brasil fica com a marca de 47 exemplares de jornais
diários para o mesmo número de habitantes.
ABREU
(2004, 36) informa que o jornal pertence a um conglomerado poderoso, o Yomiuri
Group, “que controla uma editora de livros e revistas, canais de televisão como
a NTV, serviços on-line, um jornal
esportivo – Sports Hochi -, parques
de diversões, a Orquestra Sinfônica Japão Yomiuri e até um time de beisebol
– o Tókio Yomiuri Giantes – e a equipe de futebol do Verdi.” Tais
recursos estão enraizados na tradição do jornal, conforme ABREU (2004, 35):
Com
129 anos de existência, o Yumiuri é uma instituição nacional, mais antigo do
que a democracia e do que o fenômeno da ocidentalização que tomou conta do
Japão ao longo do século XX. Fundado em 1874, simboliza os valores de um Japão
conservador, liderado no pós-guerra de forma quase ininterrupta pelo Partido
Liberal Democrata, no poder agora com o primeiro-ministro Junichiro Koizumi. O
logotipo da primeira página, usando um estilo clássico de caligrafia, não
muda desde 1946. O jornal representa o lado da tradição numa sociedade cada
vez mais ameaçada pela frivolidade da cultura pop.”
A
tradição não se reduz aos valores políticos e à nacionalidade. O Japão é
um dos países que conseguiram superar no século XIX o analfabetismo (era Meiji).
Segundo ABREU, “hoje,
para uma população de 127 milhões de pessoas, cerca de 120 diários são
impressos no país, com uma tiragem total de 72 milhões de exemplares.”
Esses
números posicionam sozinho o povo japonês no alto do pódio da disputa pela
maior circulação de jornais impressos. É importante notar que a invasão dos
eletro-eletrônicos como a televisão, o vídeo e os computadores com a variável
gama de modelos não é, pelo menos até agora, motivo para justificar uma possível
queda nos índices de leitura, como se afirma em outros países, entre eles o
Brasil. Verifica-se a relativa queda de tiragem dos jornais é motivada por
outras razões, entre elas a falta de credibilidade combinada com a ausência de
renovação nos conteúdos editoriais. Mesmo o Japão já sente as vagas que
atingem os jornais impressos em todo o mundo e despertam a hipótese sobre uma
inevitável e gradual queda nos índices de leitura, tendência detectada nos últimos
anos em vários países europeus principalmente.
Mesmo
assim, vale destacar os números grandiosos desse portentoso jornal:
| Tiragem
matutina |
10,4
milhões |
| Tiragem
vespertina |
4
milhões |
| Tiragem
da edição em língua inglesa |
150 mil |
| Assinantes |
10,6
milhões |
| Jornalistas
no Japão |
1.300 |
| Jornalistas
no Exterior |
40 |
| Número
de rotativas de alta velocidade |
60 |
| Número
de oficinas |
22
(em Osaka, Nagoya e Fukuoka) |
| Pontos
de distribuição |
8.600 |
| Número
de entregadores para assinantes |
106.000 |
| Número
de aeronaves para transporte de jornalistas (jatos e helicópteros) |
7 |
Fonte:
ABREU, Marcelo. O maior jornal do mundo, in Continente Multicultural, Recife:
Companhia Editora de Pernambuco, ano IV, nº 36, janeiro de 2004.
Mas
as tiragens excepcionais não param aí. O Japão tem outros quatros diários
que circulam com tiragens elevadas para os padrões mundiais. Os títulos e
circulação são os seguintes:
| Yumiuri
Shimbun |
14,4
milhões |
| Asahi
Shimbun |
12,3 milhões (8,3 milhões na edição matutino e 4 milhões na vespertina) |
| Mainichi Shimbun | 5,6 milhões |
| Nihon Keizai Shimbun | 4,7 milhões |
| Chunichi Shimbun | 4,5
milhões |
Fonte:
Associação Mundial de Jornais (WAN) 2003.
Os
cinco jornais com maior circulação no Japão somam 41,5 milhões de
exemplares, quantidade inatingível por qualquer outro país até hoje.
Destaca-se ainda o Tokyo Sports,
jornal especializado em esportes, cuja circulação média é de dois milhões
425 exemplares, um número bastante elevado para uma publicação desse
segmento.
Europa
– Apesar
de o jornalismo industrial, massivo[vii],
ter sido inventado nos EUA, a Europa é o berço da imprensa, das folhas
volantes e dos libelos que no final do século XVIII passaram a ser chamados de
jornais. A Revolução Francesa foi o marco político e social que encontra
nesse tipo de publicação contundente e panfletária o meio pelo qual as idéias
sobre o Estado de Direito e sobre a cidadania sustentada no lema “liberdade,
igualdade e fraternidade” tomam conta dos cafés e das praças. Ainda não se
vivia a era da imprensa de massa, mas periódicos como o Gazette
Universelle era produzido em prensas de madeira, o que exigia tempo, paciência
e um número elevado de trabalhadores para confeccionar os 11 mil exemplares diários[viii]. Nesse ano de 1792, o
Brasil colônia desconhecia a prensa e muito menos o periódico, artigos
censurados pela corte portuguesa impermeável a qualquer arroubo de democracia.
Popkin ( in DARTON & ROCHE, 1996, 207) afirma que “O
catálogo da Bibliothèque Nationale lista 184 periódicos lançados em Paris em
1789 e 335 em 1790. A maioria era de empreendimentos efêmeros que duravam um ou
dois números, mas em vários momentos durante a Revolução os leitores podiam
escolher entre uma centena ou mais de jornais políticos (...) Em 1791, uma
grande e bem estabelecida sala de leitura de jornais em Paris esperava
satisfazer sua clientela com uma oferta de 33 jornais; uma concorrente mais
barata contentava-se com apenas dezesseis.”
A
França, porém, não possui um título que, sozinho, concorra em circulação
com os grandes norte-americanos, japoneses e até alemães. A maior tiragem
francesa encontra-se no Ouest France, com uma circulação média de 785 mil
exemplares. Esse número é alcançado pela soma das edições regionais
produzidas para a Baixa Normandia, Bretanha e Pays-de-la-Loire
Mesmo o Le Monde, um dos mais
respeitados diários franceses, não atinge a marca de circulação média próxima
ao Ouest France. Le Monde[ix] fica com uma média de
395 mil exemplares, algo pouco acima da tiragem da Folha de São Paulo, no
Brasil. O número, porém, não representa qualquer indício de desprezo por
esse que é ainda um dos mais conceituados jornais da Europa.
De
modo geral, a crise que abateu sobre a mídia impressa[x]
obrigou as empresas publicadoras a rever as linhas editoriais e os projetos gráficos,
com a finalidade atrair novos leitores e reverter a queda de circulação.
Apesar das tendências, muitos analistas não vêem com pessimismo a sobrevivência
dos jornais impressos, pelo menos em médio prazo.
No
Reino Unido, os grandes jornais ingleses, incluindo os tablóides ditos
sensacionalistas, apresentaram uma queda geral na circulação entre 2002 e
2003, ao contrário dos anos anteriores, marcados pelo crescimento das tiragens.
A queda foi compensada, porém, pelo lançamento de alguns títulos com perfil
mais popular. Ainda assim, os jornais ingleses, especialmente, se mantêm entre
os de maior circulação na Europa, o que confirma o hábito de leitura do inglês.
O título que mais se destacou nessa mudança estratégica foi o tradicional The
Independent, que adotou uma linha editorial voltada à cultura popular, com
títulos mais apelativos e uso intensificado de imagens. Entre os jornais de
maior tiragem se encontram:
|
|
2002 |
2003 |
Variação |
|
The
Sun |
3.447.108
|
3.276.454
|
-4,95
|
|
Daily
Mirror |
2.031.596
|
1.900.155
|
-6,47
|
|
Daily
Star |
819.203
|
828.825
|
1,17
|
|
Daily
Record |
522.388
|
484.894
|
-7,18
|
|
Daily
Mail |
2.327.732
|
2.299.043
|
-1,23
|
|
Daily
Express |
916.055
|
851.199
|
-7,08
|
|
Daily
Telegraph |
923.815
|
888.613
|
-3,81
|
|
Times
|
619.682
|
594.134
|
-4,12
|
|
Finantial
Times |
440.036
|
425.387
|
-3,33
|
|
Guardian
|
378.516
|
359.273
|
-5,08
|
|
The
Independent |
181.933
|
205.303
|
12,85
|
Fonte:
ABC, Audit Bureau of Circulation
Na
Alemanha, Bild Zeitung é imbatível.
Com uma circulação de mais de 4 milhões de exemplares, é um jornal tablóide
de grande apelo popular. Com uma linha editorial focada no comportamento,
turismo, esportes e sexo. Bastante polêmico nos meios acadêmicos, que o acusam
de excesso de sensacionalismo[xi],
o Bild pertence à editora Axel
Springer Verlag, de Berlim, a qual também publica o jornal dominical Bild
am Sonntag, cuja tiragem chega aos dois milhões de exemplares.
Na
Alemanha, são publicados diariamente 356 jornais, num total de 22,6 milhões de
exemplares, além de 24 jornais semanais que somam dois milhões de exemplares e
mais oito títulos dominicais que tiram 4,3 milhões de exemplares. A Alemanha
tem 82 milhões de habitantes e as pesquisas[xii]
sobre leitura de jornais indicam que 80% da população acima dos anos têm o hábito
da leitura de pelo menos um jornal. É interessante notar, porém, que o elevado
índice de circulação de um jornal tachado de sensacionalista, como o Bild,
ocorra num país com elevado nível educacional, berço de importantes
pensadores e cientistas. Isso confirma a demanda por diversidade de informações,
mesmo aquelas contaminadas pela ficção, pelo boato, pela maledicência, pela
provocação, como ocorrem com diversos periódicos populares, sensacionalistas.
O recurso da figuração hiperbólica é comum nesses jornais, nos quais o
exagero é justificado pela necessidade mercadológica ou pela visão
popularesca do editor. A manipulação das informações é um fenômeno
presente no exercício do jornalismo, em maior ou menor grau, em jornais
considerados respeitáveis e críveis como em publicações assumidamente
sensacionalistas[xiii],
as quais apresentam forte apelo popular.
As
revistas também apresentam circulação expressiva. E uma delas inspirou o
projeto de uma revista brasileira, a Época, cujo projeto deriva da Focus,
uma das influentes publicações alemãs. Ela registra uma circulação de 766
mil exemplares semanais, quase duas vezes mais que a circulação da revista Época,
que reproduz o formato editorial de sua confrade, a Focus.
Mas
a campeã de vendas na Alemanha é a Der
Spiegel, de Hamburgo, cuja circulação média de de 1,1 milhão de
exemplares/semana. Depois, há a Stern,
que atinge 1,09 milhão de exemplares por semana. Em seguida, vem a Focus.
No caso brasileiro[xiv],
a Veja é a maior tiragem, com 1,1 milhão de exemplares semanais, para uma
população de 180 milhões de habitantes, mais de duas vezes a população alemã.
Os
alemães se encontram na terceira colocação mundial entre os povos que
apresentam maior índice de leitura dos jornais. Só perdem para os japoneses,
ingleses e norte-americanos. Os
franceses vêm em seguida.
Coréia
- Outro
país que se notabiliza pela elevada circulação de jornais é a Coréia do
Sul. Os elevados investimentos em educação nas quatro últimas décadas
contribuíram para ampliar o índice de consumo e leitura dos jornais. Deve-se
salientar que os jornais do país enfrentam situações difíceis quanto aos
conflitos com a Coréia do Norte, cuja simpatia de jornalistas da Coréia do Sul
motivou ameaças e pressões diversas. A Coréia do Sul tem 47 milhões de
habitantes e a renda per capita é de mais de oito mil dólares, o que a coloca
num patamar quase três vezes mais rica que o Brasil nesse índice econômico.
| The
Chosun Ilbo |
2.428
milhões |
| The
Joongang Ilbo |
2.200 milhões |
| The
Dong-A Ilbo |
2.100
milhões |
| The
Hankook Ilbo |
1.500milhão |
| The
Maeil Business Newspaper |
1.110
milhão |
Fonte:
Obercon e WAN
As
grandes empresas coreanas de eletrônicos e de automóveis são as principais
investidoras em publicidade e propaganda na mídia do país, o que lhes dá um
poder de influência significativo sobre a linha editorial de vários jornais.
Isso porque, essas empresas se tornaram estratégicas para a economia coreana, o
que implica em pesada influência política no campo doméstico e também no
internacional.
Brasil
– Nenhum
jornal impresso do Brasil se inclui entre as maiores circulações do mundo. O título
que pode sustentar a maioria tiragem e circulação é a Folha de São Paulo. E
essa posição foi alcançada com muitos investimentos e mudanças ocorridas na
década de 80, com a transição na diretoria da empresa Folha da Manhã.
A
soma da circulação dos cinco maiores jornais impressos brasileiros é
insignificante comparada com os países citados acima. A Folha de São Paulo
registra a maior circulação em 2003, depois de uma queda em relação a 2002.
Em 2003, a Folha marcou 314 mil exemplares/dia em média. Seu maior concorrente,
O Estado de São Paulo, não
ultrapassou a 242,7 mil exemplares de circulação média, abaixo do carioca O
Globo. As empresas editoras desses jornais se debatem com uma crise econômico-financeira
que atinge com maior densidade o grupo Estado, enquanto que a Folha procurou
cortar severamente despesas, reduzindo o corpo de jornalistas no segundo
semestre de 2004, o que atingiu em cheio a qualidade editorial do diário.
Pioneira na crítica interna, a Folha de São Paulo dispõe de um ombudsman[xv]
que diariamente analisa e critica a produção jornalística, de modo a criar um
contraponto à política editorial da FSP. Isso favorece a leitura que o público
faz do jornal e contribui para ampliar os níveis de informação e conhecimento
possíveis entre os leitores da FSP.
Em
2003, as dez marcas de circulação incluíam em especial os jornais de São
Paulo, do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul. Nenhum outro estado da federação
registrou índices de circulação próximos aos três, o que revela, também,
os níveis de consumo de informação relacionados à qualidade de ensino
relativa nessas regiões.
| Folha
de São Paulo |
314.918 |
São
Paulo |
| O Globo | 253.410 |
Rio
de Janeiro |
| O Estado de São Paulo | 242.755 |
São
Paulo |
| Extra |
228.728 | São
Paulo |
| O
Dia |
196.846 |
Rio
de Janeiro |
| Correio
do Povo |
181.560 |
Rio
Grande do Sul |
| Zero
Hora |
176.696 |
Rio
Grande do Sul |
| Diário
Gaúcho |
119.221 |
Rio
Grande do Sul |
| Gazeta
Mercantil |
103.095 |
São
Paulo |
| Diário
de São Paulo |
81.143 | São
Paulo |
Fonte:
Associação Nacional dos Jornais (ANJ) – Dados divulgados no primeiro
semestre de 2004,
com base nas informações pesquisadas pelo IVC
Apesar
de conseguir uma média positiva de crescimento na circulação na década de
90, em razão de vários fatores, os jornais impressos apresentam uma queda de
tiragem entre 2002 e 2003. A recessão econômica é um dos argumentos
apresentados pelos analistas para explicar a queda da circulação. Mas essa
argumentação não é suficiente, pois outros fatores influem para a definição
desse cenário. Nos últimos anos, a crise por que passa a educação formal, em
especial a escola pública, combina-se com a forte presença da televisão num
país que saltou da fase oral para a imagética, sem ter aprofundado – como
Europa, alguns países asiáticos e os EUA – o ensino fundamento e médio para
a escrita. O Brasil se encontra entre os países de baixo consumo de leitura
impressa, comparado com outros povos, fato que permite comparar com os índices
de ocupação dos bancos escolares. Dados do IBGE/MEC apontam que dos 180 milhões
de habitantes, apenas 3,3 milhões se encontram matriculados no 3º grau, para
35 milhões que ingressam no ensino fundamental. Há cerca de 2% da população
nas universidades e faculdades, um índice baixíssimo frente aos países mais
desenvolvidos. Mesmo na América Latina alguns países apresentam índices de
freqüência nos bancos escolares maiores que os do Brasil.
População
matriculada e população freqüentando a escola, Brasil 2001
| Primeiro
Grau |
Segundo Grau | Terceiro Grau | |
| População
freqüentando a escola (*) |
33.504.918 | 8.983.866 | 3.732.225 |
| População matriculada (**) | 35.621.488 | 12.175.997 | 3.030.754 |
Fonte: micro dados
da PNAD
2001.
Fonte: Ministério da Educação.
Os
números indicam uma proximidade persuasiva entre o nível escolar médio do
brasileiro e o consumo da leitura de jornais impressos. A baixa circulação dos
grandes diários, porém, pode ser explicada por outros fatores marginais. O
crescimento do número de periódicos regionais com melhor qualidade editorial
é uma das razões apontadas. À medida que os jornais vêm se
profissionalizando no Interior, a demanda por leitura é favorável a eles.
Assim, pode se afirmar que ocorre um deslocamento da atenção dos leitores. Porém,
os números nesse caso ainda são incipientes, apesar da evidência registrada
por estudos sobre o amadurecimento e a oferta de títulos regionais.
A
circulação média dos dez maiores jornais impressos brasileiros atinge
1.898.362, algo em torno da circulação isolada do The Wall Street Journal, nos EUA. Mas o que chama a atenção nesses dados comparativos
entre os jornais brasileiros é que somente os três Estados, São Paulo, Rio de
Janeiro e Rio Grande do sul se encontram entre os de maior consumo de diários
impressos. São os Estados com índices de desenvolvimento humano dos mais
elevados. No Brasil, os Estados que apresentam melhor índice são os seguintes:
Distrito Federal (0,844), São Paulo (0,814), Rio Grande
do Sul (0,809), Santa Catarina (0,806) e Rio de Janeiro (0,802).
Santa
Catarina e o Distrito Federal não possuem, porém, jornais que concorram em
tiragem com seus confrades paulistas, cariocas e gaúchos, mas abrigam títulos
influentes, como o Correio Braziliense, que passou por uma profunda reforma em
meados da década de 90. Em 2003, o Correio registrava uma tiragem em torno de
60 mil exemplares.
Rio
de Janeiro se destaca entre os Estados com maior circulação de impressos pois
foi a Capital do País. A presença de dezenas de jornais diários no Rio, ao
longo dos séculos XIX e XX, revela a importância desse meio como suporte para
o debate político. Hoje, o Rio de Janeiro, capital do Estado, possui 10 jornais
diários, herança de épocas áureas, nas quais até Dom Pedro I se aventurava
em redigir artigos[xvi]
com pseudônimos para defender seu governo ou atacar adversários.
Considerações
finais – A
circulação dos jornais impressos no Brasil revela, de certo modo, a baixa
demanda por leitura. Isso pode ser explicada pelo nível escolar da população,
que ainda não atingiu números semelhantes aos países desenvolvidos. Para se
ter uma idéia, em São Paulo 56% da população (36 milhões de habitantes)
acima de 25 anos de idade freqüentou[xvii]
menos de oito anos os bancos escolares.
Para
tentar reverter tal quadro, as empresas editoras de jornais impresso
desencadearam na década de 90 amplas campanhasdirigidas aos jovens, em
especial, na busca de cultivar novos leitores. E fizeram isso ao criar também
departamentos para a promoção da leitura de jornais nas escolas públicas, em
especial. A medida é estratégica, pois de um lado permite o cultivo da leitura
habitual dos jornais como também estimula a formação de uma demanda
rejuvenescida de consumidores.
Esse
esforço institucional e mercadológico, porém, ainda não encontrou as medidas
mais eficientes para reverter o quadro de queda na circulação. Por serem muito
recentes, os resultados buscados não se materializaram como pretendem as
empresas editoras, pois enfrentam números negativos em especial de 2001 a 2003.
A
interferência das novas tecnologias é outro fator delimitador, segundo
pesquisas que demonstram a multiplicidade de mídias pelas quais as pessoas
procuram se informar. Assim, a oferta variada de informações nem sempre
significa que o brasileiro está lendo menos. Mas isso ocorre com os jornais
impressos. E com os livros também. De 2002 a 2003, a venda geral de exemplares
de livros apresentou uma redução[xviii]
de 20%. Isso, apesar de um faturamento maior, o que indica o aumento nos preços
de capa. Outro dado inibidor do consumo de leitura.
A
leitura de jornais nas escolas, porém, deve considerar outros aspectos
fundamentais para ampliar um novo comportamento entre os brasileiros. A
profissionalização das redações e empresas publicadoras, um forte
investimento na qualidade informativa e um compromisso ético com a notícia e
com o público são objetivos necessários à maior credibilidade dos títulos.
Junto a esses procedimentos, as empresas editoras devem cuidar do planejamento
estratégico, de modo a entender melhor o mercado de consumo dos jornais. Um bom
desafio.
Notas
[i] http://www.undp.org/hdr2003/portugues/pdf/hdr03_por_HDI.pdf - Dados capturados em 25 de novembro de 2004. Ao compararmos os índices de circulação de jornais com os de desenvolvimento humano, o Brasil apresenta uma posição um pouco melhor naqueles, pois se encontra em 55º lugar enquanto que no IDH fica em 65º.
[ii]
http://www.unesco.org.br/noticias/releases/colocacao/mostra_documento.
O Brasil ficou em 72º lugar entre 127 países pesquisados pela Unesco. A
pesquisa considerou os seguintes fatores: “O
índice é baseado em indicadores para as quatro metas de Dakar mensuráveis:
educação primária universal, alfabetização entre adultos, qualidade da
educação (usando a taxa de permanência de alunos até a 5ª série como
indicador) e paridade de gênero. O Brasil fica na 72ª posição entre os
127 países analisados. O país aparece em 32º em educação primária
universal, 67º em alfabetização entre adultos e 66º no quesito paridade
de gênero. Na taxa de permanência de alunos até a 5ª série, o Brasil
fica em 87º lugar.”
[iii] Deve-se atentar para o significado técnico da palavra circulação, pois esta indica o número de exemplares que chega, de fato, às mãos dos leitores, enquanto que tirarem designa a quantidade de exemplares confeccionados industrialmente e colocados à venda. O termo “encalhe” designa a diferença entre a tiragem e a circulação. Aliás, informações sobre a média de encalhe dos grandes jornais são tidas como estratégicas, por isso raramente uma empresa divulga a diferença entre tiragem e circulação. E como a tiragem sempre é maior que a circulação, por razões de propaganda, as empresas preferem divulgar publicitariamente os índices médios de tiragem. No Brasil, o Instituto Verificador de Circulação (IVC) é responsável por medir a circulação média dos jornais impressos.
[iv] A tradição cultural gráfica da China registra não apenas a invenção do papel por volta do século II, como também o conhecimento e o uso restrito, para fins artísticos e sagrados, principalmente, dos tipos móveis, em porcelana, já no século VIII.
[v]
World Association Newspaper, 2003. Capturado em www.obercom.pt.
[vi] http://www.worldbank.org/data/countrydata/countrydata.html - os dados publicados são de 2001.
[vii] Apesar de a primeira publicação de massa ter sido criada nos EUA, o The New York Sun, de Benjamin Day, cuja tiragem por volta de 1835 era de 30 mil exemplares/dia, para uma média de 2 a 3 mil exemplares/dia de seus concorrentes, a Inglaterra e França, em especial, na segunda metade do século XIX, registraram tiragens elevadíssimas para a época. O jornal semana fancês Lê Petit Journal atingia 300 mil exemplares, enquanto que o Lloyd’s Wekly News, também semanal, por volta de 1860, atingiu a soma de 2 milhões de exemplares ao noticiar o caso de Jack, o estripador.
[viii] Vários foram os periódicos panfletários e revolucionários que disseminavam os ideais em favor do fim da monarquia. Muitos deles eram lidos em voz alta em cafés e praças. Censurados, muitos não sobreviveram por muito tempo.
8 Le
Monde é um jornal que enfrenta nos últimos anos a concorrência da mídia
eletrônica e vem fazendo mudanças profundas nas sua linha editorial. Até
2002, havia edições nas quais predominavam o texto. Numa delas
(11/01/2002) das 32 páginas, 24 não tinham fotos. Após a reforma, Le
Monde apresentou mais imagens, gráficos e passou a dispor de editorias
sobre Ciência e Tecnologia, com o objetivo de atrair o leitor mais jovem.
Fundado em 1944, é dos mais influentes jornais europeus.
[x]
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos/asp160120025.htm
- o avanço das novas tecnologias midiáticas é uma das fortes e aceitas
hipóteses para explicar a redução das tiragens dos jornais impressos em
todo mundo. A concorrência com a televisão aberta, a cabo e a internet e
suas variáveis midiáticas (micro-computadores, note-books, hand-held,
palms e até celulares) impõe aos jornais impressos um cenário mecadológico
desafiador. As mudanças editoriais e gráficas introduzidas nos últimos
anos chegam em momentos nos quais grandes grupos publicadores apresentam
prejuízos orçamentários ameaçadores.
[xi] Para conhecer um pouco mais sobre esse matutino, uma indicação é o livro Fábrica de Mentiras, Editora Globo, do jornalista e escritor Günter Wallraff, que passou nove meses na redação do Bild, disfarçado de redator e repórter, para conhecer a rotina do que ele denominou de “sistema de violência espiritual”.
[xii] Ver http://www.dw-world.de/dw/article/0,1564,1152251,00.html.
[xiii] O termo sensacionalista é aqui aplicado pelo sentido adotado pelo senso comum. Sensacionalista é o jornal que exagera na notícia, distorce intencionalmente os fatos noticiados com o objetivo de “vender mais” ou proteger alguém ou alguma organização ou fazer o inverso, atacar alguém ou alguma organização. Duas obras podem ser lidas para melhor compreensão desse fenômeno: ANGRIMANI, D. Espreme que sai sangue – um estudo do sensacionalismo na imprensa. São Paulo: Summus Editorial, 1995; ABRAMO, Perseu. Padrões de manipulação na grande imprensa. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo,2003.
[xiv] http://emrevista.com/edicoes/7/artigo4310-6.asp - pesquisa da Associação Nacional dos Editores de Revistas (ANER) indica que a Veja é a de maior circulação em 2003, com mais de um milhão de exemplares semanais, seguida da Época com 419 mil exemplares e da IstoÉ com 362 mil exemplares semanais.
[xv]Ver http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ombudsman/ - a coluna semana impressa nas edições de domingo e a diária, na internet, relatam em vários momentos as dificuldades enfrentadas pela empresa Folha de Manhã, e como isso afeta a qualidade editorial do jornal.
[xvi] Para saber um pouco mais sobre as aventuras de jornalista de D. Pedro I, ver: CHAGAS, Carlos. O Brasil sem retoque: 1808 – 1964 – A História contada por jornais e jornalistas, voluma I. Rio de Janeiro: Record, 2001.
Bibliografia
ALBERT, P. & TERROU, F. História da
imprensa. São Paulo: Martins Fontes, 1990
CHAGAS, Carlos. O Brasil sem retoque: 1808 – 1964, a História contada por
jornais e jornalistas, vol. 2. Rio de Janeiro: Record, 2001.
DARTON,
Robert & ROCHE, Daniel (orgs.) A Revolução Impressa – A
imprensa na França 1775-1800. São
Paulo: Edusp, 1996.
WALLRAFF, Günter. Fábrica de mentiras. São Paulo: Globo, 1990.