"Imprensa e educação"
Cecília de Godoy Camargo
Pavani
Coordenadora do Depto. Educação
Rede Anhangüera de Comunicação - RAC
Os meios de comunicação fazem
parte de nossas vidas. A escola também está presente na formação e
conhecimento em nossas vidas.
História comum se pensarmos em
leitura e escrita e seus objetivos: informar e formar pessoas críticas e
atuantes na comunidade. Nesta perspectiva, dois elementos fundamentais: o
professor e o jornalista.
Todas as manhãs, ambos se
encaminham para um árduo trabalho no sentido de promover emoções, suscitar
paixões, reflexões, questionamentos e saciar a curiosidade. No entanto, se o
jornalista ou o professor não estiverem devidamente comprometidos e competentes
para a sua jornada diária, seu trabalho não produzirá o
resultado esperado.
Jornais e escolas têm se empenhado
sempre pela leitura, mas quando o jornal impresso é introduzido na sala de
aula, se busca incitar o gosto pela leitura, o ler mais e, sobretudo, entender o
que se lê. Pesquisas comprovam que o jornal na sala de aula atende à
curiosidade da criança e do jovem pelos fatos do cotidiano, porque faz parte de
sua vivência e também porque a leitura de notícias pode levar o aluno a se
interessar por mais dados a respeito deste ou daquele assunto, abraçando a
pesquisa.
Utilizar os meios de comunicação,
entre eles o jornal impresso, como objeto de estudo, significa nos acercarmos e
incorporarmos um conjunto de abordagens sociológicas, lingüisticas e tecnológicas,
além de questionarmos os fatos e lermos nas entrelinhas das notícias, vendo
mais do que simples imagens ou fatos.
Desde 1990, os jornais têm-se
modificado sensivelmente: a inserção da cor, a cadernização, nova
diagramação tanto no jornal impresso quanto no on-line e à medida que a
informática chegou às Redações, multiplicou-se infinitamente o acesso às
informações em tempo real, exigindo do jornalista, maior competência em
termos de seleção e discernimento entre o que o leitor quer ler ou precisa
para a sua vida diária num espaço de tempo cada vez mais curto.
Em relação à escola, a presença
da informática não foi assimilada totalmente, uma vez que o que era previsível
passou para um ritmo novo, escapando ao controle tradicional da informação e
acelerando de forma ininterrupta o processo
de transformação.
Hoje temos alunos fortemente
influenciados pela WEB, máquinas digitais e principalmente celulares que
ampliaram o âmbito da informação a limites nunca imaginados em nossa história,
causando forte impacto em nossa formação profissional de século XIX. Muitos
de nós, professores, ainda não consegue entender a Internet e daí a sua
dificuldade em dimensionar que a WEB exige leitores mais competentes, capazes de
tomar decisões rápidas frente à enorme quantidade de opções e manter o seu
rumo para não se perder no espaço virtual.
Prof. Ezequiel Theodoro da Silva, em
recente palestra aos professores do Correio Escola, citou um pedagogo espanhol,
Jose Maria Estève, que vem estudando os reflexos das mudanças contemporâneas
na vida e no comportamento dos professores espanhóis, importante para
compartilhar com vocês.
Estève cunhou a expressão
“mal-estar docente” para representar a dificuldade e até a frustração de
muitos professores espanhóis (e que se adaptam perfeitamente a nós,
professores brasileiros), em acompanhar as mudanças e as inovações que
rapidamente entram em circulação em sociedade e que, de uma forma ou de outra,
afetam as práticas docentes levando ao surgimento de fenômenos como a
“tecnofilia” (apego cego à tecnologia) e muitas escolas no sentido de
modernizar o ensino se apegaram à
aulas virtuais, e a “tecnofobia” (recusa a qualquer tecnologia no ensino),
até mesmo à leitura de jornais impressos.
Analisar a Imprensa (os meios de
comunicação), significa ensinar a professores e alunos seus objetivos, a
composição e funcionamento dos diferentes meios, entre eles o jornal impresso,
e conhecer seus códigos de linguagem para uma análise crítica de sua produção
e formação de um competente emissor (aluno) capaz de produzir textos
opinativos próprios, independentes. No entanto, não podemos enquanto
professores, nos utilizarmos e analisarmos uma ferramenta como o jornal
impresso, por exemplo, sem conhecermos previamente este meio de comunicação,
sua impressão, redação e seus jornalistas para podermos entender a quem se
dirige sua mensagem e seu perfil. Também precisamos entender que todos os meios
de comunicação são importantes e não competem entre si, mas se complementam
24 horas por dia.
Na escola, em termos de
aprendizagem, no novo panorama de acelera÷ão informacional e tecnológica, as
funções da escola e professores é a de “ensinar os alunos a aprender, a
desaprender e a reaprender”. Somente desta forma pode-se aumentar o alcance
das relações de ensino significativo, envolvendo as necessidades das pessoas
num mundo acelerado em suas transformações.(Ezequiel Theodoro da Silva,
palestra/idem).
Por outro lado, a Imprensa de modo
geral, passou a prestar mais atenção ao mundo jovem, explorando novos espaços
em seus cadernos de cidades, buscando conhecer seus códigos e a interagir com
eles, uma vez que vivemos numa sociedade em que a juventude é idolatrada e com
alto poder de decisão.
O jornalismo tem se esmerado em
estabelecer também novas formas de interação com seus leitores (ex. Seção
de leitores, pautando matérias para o jornal).
Os meios de comunicação, em
especial o jornal impresso, têm enfrentado constante pressão para produção
de novas idéias e enfoques que lhes permitam manter sua audiência e leitura
como utilidade aos “leitores”, em meio à abundância de informações e
emergência de novas tecnologias.
Pesquisas do Instituto de Leitura de
Mídia da Universidade de Northwestern em Illinois, demonstram que com relação
a jovens leitores, os jovens de modo geral se sentem desconectados de temas e
histórias presentes nas notícias que entusiasmam a jornalistas. Daí a
aproximação de alunos às Redações de jornais que participam do jornal e
Educação, programas brasileiros de jornais afiliados à Associação
Brasileira de Jornais. Sua proximidade com os jornalistas levam-nos a conhecê-los
melhor e às possíveis falhas na emissão de notícias em curto espaço de
tempo, trabalhando sua criticidade para com um jornal impresso, telejornal ou
radiojornalismo.
Trabalhamos, enquanto coordenadores
de tais programas, para que os
jovens e crianças vejam o jornal diário como um meio que reflete de forma
relevante os interesses e vidas das pessoas, muitos dos quais conhecemos.
Participando de suas pautas, (idéias, sugestões para matérias), o aluno busca
a sua inserção na comunidade de forma direta, produzindo notícias próprias e
atraentes. Também são chamados ao questionamento e reflexão com relação a
muitas manipulações políticas e sociais presentes nos meios de comunicação.
Jornais, programas de televisão, rádio
e revistas buscam atender diariamente à inovação, diversão e
energia próprios dos leitores mais jovens, buscando constantemente
entender as necessidades de mudanças constantes dos leitores e manter seu conteúdo
com informações vitais para essas necessidades.
Os jovens utilizam a informação de
multimeios e muitas vezes ao mesmo tempo. Cada vez mais considerarão a Internet
como um meio sem o qual não conceberão viver. É
ferramenta para comprar, pesquisar e comunicar-se. Isto torna a
Imprensa, de modo geral, exposta à necessidade constante de grandes transformações
e evolução. Tem que se reexaminar a cada curto espaço de tempo para poder
atrair e se relevante à audiência e leitores jovens.
Num paralelo entre escola e empresas
de comunicação, podemos dizer que:
▪O sucesso das empresas
depende de sua capacidade de dar ao leitor o que ele quer ler ou imagina que
quer ou necessita para o seu cotidiano.
▪O
sucesso das escolas também depende da capacidade de dar ao aluno o que ele
espera da escola ou imagina que quer, bem como o acesso à toda informação
possível e formação social, sendo que, cada vez mais, com as modificações
da família, a escola se torna o único
reduto saudável para sua formação. Neste sentido, torna-se imperioso a formação
continuada do professor, orientador de vivências na escola e insubstituível.
▪Os
jornais sensacionalistas, muitas vezes vão atrás de supostas demandas de
mercado, podendo conseguir sucesso imediato, mas também podendo perder prestígio
e credibilidade a longo prazo.
▪A
escola na “ideologia da pressa”, preocupa-se mais com quantidade, sem
adentrar criticamente e reflexivamente no âmago da razão de ser das coisas,
voltando-se para a “contabilidade pedagógica” e avaliações de
produtividade a qualquer custo sem dedicar tempo ao ensino e produzir com ele as
aprendizagens, aproveitando os espaços sociais, os meios midiáticos para que
possam servir para gerar conhecimentos.
▪No
tocante à informação, a Imprensa se fortalece à medida que as empresas têm
a coragem de mudar e ao mesmo tempo, crê que tem uma mensagem a transmitir. O
verdadeiro crescimento sustentado rejeita o imediatismo do vale-tudo mercadológico.
▪A
formula de um bom jornal e de uma boa escola resume-se a uma equilibrada combinação
de mudança e coerência. As mudanças devem ser contínuas, porque necessárias,
mas sem perder o âmago da sua identidade editorial e pedagógica.
▪Tanto
para a Imprensa quanto para a Educação, não há nada pior que a teimosia de
comportamentos imobilistas: na escola, é preciso exercitar a flexibilidade de
planejamento, da interação entre professores e a leitura contínua de jornais,
revistas, livros, da literatura, contextualizadas nas notícias de cada dia, sem
perder o ideal de formação de seu aluno.
▪Na
Imprensa, é preciso – e esta é a dificuldade maior – conquistar novos
leitores sem perder a fidelidade dos antigos.
▪Estratégias
se tornam necessárias: travar uma verdadeira revolução nos conteúdos; a
conquista não se dá pelo artificialismo, mas pela qualidade tanto editorial,
credibilidade para o jornal quanto pedagógico e credibilidade da escola na
comunidade.
▪A
ousadia resultante em sucesso de uma publicação ou de melhores leitores na
escola depende de uma fina sintonia com as verdadeiras necessidades do
“mercado” para (publicação e ensino). Tanto o jornal de prestígio quanto
a escola de prestígio são resultantes da sinergia entre políticas
editoriais/educacionais e as possibilidade do mercado/educação.
▪Os
recursos humanos são peça-chave nas empresas informativas modernas e também
na educação de qualidade: é a qualificação das pessoas que faz a diferença
bem como entre dois jornais, duas revistas, duas TV’s, duas escolas:
o importante não é suporte
tecnológico, mas o talento, a criatividade e competência dos seus quadros
humanos resultantes do investimento em formação de pessoas.
▪O
leitor e cidadão cada vez mais seletivo e crítico, cobra qualidade informativa
e educacional.
▪Por
isso, o futuro na Imprensa e na Educação reclama por um profissional
(jornalista/professor) que saiba pensar, investigar sem preconceitos, escrever
bem, ler bem e informar com clareza, facilidade e precisão sobre a verdade dos
fatos de ontem e de hoje, o que não ocorrerá sem uma reformulação profunda
nos conceitos vigentes e no próprio corpo de ação informativa e educativa.
▪Outro
fator se refere ao comodismo de um jornalismo “mcdonaldizado”: a ausência
de boas investigações geram reportagens insossas, de mesmices, provenientes de
fones, internet e gravações, sem
um cara-a-cara com as pessoas.
▪No
tocante ao ensino, a aula virtual pode provocar a ausência da curiosidade por
novas formas de pensar e agir provenientes de enfoques de conteúdos que geram
aulas insossas, sem sabor e sem interesse por um conhecimento conectado aos
verdadeiros interesses dos alunos.
▪Na
cobertura de ensino, um repórter disse-me que um aluno contou-lhe que boa parte
do ensino na escola não servia para nada: não resolvia nada, não questionava
nada e não melhorava a sua vida.
▪O
desinteresse crescente de leitores nas escolas e também dos jornais têm relação
com este desabafo. O uso rotineiro das mesmas “táticas” ou ferramentas
tanto na escola quanto no jornal, geram conteúdos que da mesma forma que são
passados, vão embora. O curioso é que quem os repassa, (jornalista/professor)
não se sente obrigado a dar nenhuma satisfação ao leitor e ao aluno.
▪Estamos
numa perigosa era de jornalismo sem jornalistas (Internet) e de um ensino sem
professores devido à tecnologia da aula virtual, das reproduções de frases
vazias e do copismo. Enquanto esperamos resultados, tratamos de reproduzir noções
e declarações sem clareza e didatismo, que não fazem diferença na vida do
aluno e do cidadão. É preciso ensinar/cobrir com qualidade sobre as questões
que influenciam o dia-a-dia das pessoas/ alunos. Ler, entender as diferenças óticas
dos fatos, questionar, refletir e buscar formas de solução com interação,
comprometimento com a informação e formação de leitores, com metodologia
precisa.
O leitor/aluno nota a diferença e
sente/vê o jornal/a escola como seu parceiro no exercício da cidadania.
Finalmente, tanto a Imprensa quanto
a Educação têm um compromisso para com seus leitores e alunos: a opção pela
análise séria e profunda da vida, em detrimento do culto ao denuncismo, ao do
levar vantagem, o da contabilidade pedagógica e avaliações de produtividade a
qualquer custo, ao do sensacionalismo.
Sabemos que a vida é feita de luzes
e sombra. O mal sempre nos espreita, mas a boa notícia o bom ensino também
existe. Não devemos nunca creditar a perda de leitores à suposta midiação
para os meios audiovisuais.
Devemos é questionar a qualidade do
que estamos fazendo. Um bom produto é imbatível. Experiências significativas
de aprendizagem surgem a partir das possibilidades humanas e tornam o ensino
imbatível.
Acreditamos que só a Revolução
nos conteúdos e nos recursos humanos garantirá o crescimento sustentado e a
liderança na Imprensa e na Educação.