"Gêneros
textuais de imprensa no livro didático"[1]
Juvenal
Zanchetta Jr.[2]
Departamento de Educação da UNESP – Assis
Introdução
Mesmo
com prestígio crescente no circuito educacional, os suportes midiáticos não têm
papel definido no estatuto pedagógico e participam dos mais diversos – e por
vezes equivocados - esforços na formação dos estudantes. A presente exposição
faz considerações acerca das características do trabalho proposto pelos LD
com os gêneros de imprensa, a partir de pesquisa realizada nas coleções de Língua
Portuguesa recomendadas pelo PNLD em 2002 e 2005[3] (Brasil, 2001 e 2004).
O
texto de imprensa no LD
Procuramos
observar os seguintes aspectos: a) o perfil e o modo de apresentação dos
textos utilizados; b) as propostas de trabalho para com esses textos; c) o
perfil das questões relacionadas a eles; d) o uso de expedientes da técnica
jornalística; e) a informação do LD sobre o papel social da imprensa na
sociedade. Em primeiro lugar, destacamos características de ordem política
acerca dos estudos sobre a linguagem:
▪Exercício
gramatical: manipulados com
liberdade, em termos gráficos, de conteúdo, de atividades etc., os textos de
imprensa servem para treino ortográfico, gramatical e sintático. De alguma
maneira, compensam a relativa inflexibilidade dos textos de ficção e de
poesia, preservados (em conteúdo ou excessiva mutilação, por exemplo), graças
à observação atenta dos avaliadores do PNLD, em geral saídos da academia -
que durante décadas criticu a esterilidade diversas vezes fraudulenta do
tratamento dispensado pelos LDs à literatura.
▪Sugestão
de atualidade: problemas sociais, comportamento (sobretudo juvenil),
curiosidades e meio ambiente ocupam boa parte do espaço da imprensa nos LDs. Um
grupo bem menor de textos trata de cultura, mídia, ciência e tecnologia. Mesmo
‘envelhecidos’, os textos jornalísticos são capazes de garantir dinamismo
às coleções, com assuntos pretensamente interessantes, de modo a mostrarem-se
mais próximas do cotidiano. Embora haja uma relativa progressão temática e de
gênero (o que não impede de se apresentar artigos acadêmicos para alunos de 5ª
ou 6ª séries), a combinação desses temas segue, com poucas exceções, o
critério da atratividade;
▪Veículo de
cidadania: em boa parte das coleções, os textos de imprensa surgem como
ponte para conscientização sobre questões como o respeito a diferenças, a
conscientização sobre o meio ambiente e o combate à violência. Compõe-se um
discurso de responsabilidade social por vezes problemático, pois tende a
enviesar a característica da cidadania como conjunto de direitos e deveres de
ordem política, tornando difuso o fato de que os menores de idade não são
cidadãos plenos.
▪Observação acrítica:
os textos noticiosos são apresentados como exemplos bem acabados de manifestações
informativas, neutras, explicativas (em contraposição aos textos opinativos).
Não se nota a informação noticiosa como resultante de recursos que conferem a
impressão de isenção, mas que se vale de pontos de vista dos vários agentes
envolvidos na construção e publicação desses textos. Omite-se que o
jornalismo é, por si mesmo, sensacionalista. A instrução predominante é a de
que ‘um jornal é o ‘retrato’ de um dia, em determinada cultura’ (Gonçalves
& Rios, 1997, 6ª série, p.171). O tratamento de textos opinativos também não observa a contradição,
a opinião divergente, o contra-argumento.
▪Faça
fácil’: boa parte dos manuais sugere a produção de jornais e
revistas, além de notícias e reportagens, convidando o estudante a reproduzir
expedientes desenvolvidos por veículos empresariais. No entanto, além de
instrução precária (quando não equivocada) quanto aos agentes e aspectos do
jornal, insinua-se algo improvável em sala de aula: a reprodução da dinâmica
e das pressões diversas que atuam na prática do jornalismo. A sugestão de
jornal na escola aparece infantilizada ou irrefletida, atrapalhando o exercício
de apropriação desses expedientes. Como na sugestão de atividade transcrita
abaixo, em que o aluno de 7ª série é convidado a construir uma reportagem:
‘1. Você é um repórter
que vai acompanhar um dia na vida de um mendigo das ruas de São Paulo... Seu
texto deverá ser objetivo. Crie dados pessoais sobre o mendigo, faça a
transcrição de algum depoimento dele. Fale de sua origem, diga sua idade,
conte se já teve um emprego, se tinha famýlia. Seu texto poderá ter marcas
subjetivas: acrescente um adjetivo, na hora de contar um fato; selecione conteúdos
que mostrem, nas entrelinhas, sua simpatia ou suas reservas em relação à história
que ele conta.
2. Comece sua
reportagem indicando o local. Indique também quando tudo aconteceu, logo no
primeiro parágrafo. Também no primeiro parágrafo dê nome completo a seu
personagem, descreva-o, faça com que ele pareça de verdade.
3. No segundo parágrafo,
conte um pouco da origem, da história do personagem. Transcreva, nesse momento,
um depoimento dele. Use aspas na transcrição do discurso direto.
4. Conclua sua
reportagem mostrando os sonhos, as esperanças do mendigo.
5. Releia, veja se a
subjetividade ficou bem escondida. Veja se seu texto ficou com cara de
reportagem. Se ficou, dê um título bem chamativo, um título que chame a atenção
de um leitor em potencial. Passe a limpo e entregue ao professor. (Discini &
Teixeira, 1999, p.121)
Nesse
tipo de proposta, constitui-se um discurso edificante sobre a informação midiática:
ela denuncia, conscientiza, sentencia, propõe uma verdade quase inquestionável.
▪Desequilíbrio:
os LDs concentram-se nos conteúdos da imprensa escrita, secundarizando meios
como a televisão, o rádio e a internet. O tratamento dos gêneros de imprensa,
por seu turno, é bastante desigual. Há coleções que priorizam textos de
imprensa, escanteando inclusive os literários; outras reduzem tais publicações
a um mínimo necessário para atender ao critério da variedade de gêneros,
solicitada pelo PNLD. Finalmente, não há consenso quanto ao espaço e ao modo
de tratamento de tais gêneros. Notícias e reportagens disputam lugar com
textos ‘estáticos’, como currículos, ofícios e certidões, todos eles
ocupando, em boa parte das coleções, espaço menor que o destinado à
literatura. Um dos fatores que determinam a falta de critérios claros para o
tratamento de tais gêneros é justamente o fato de o PNLD não se ocupar da
maior parte das questões levantadas neste estudo.
Informação técnica
Há também questões
de ordem técnica que, além de mascararem a perspectiva quase idealizada da
imprensa, prejudicam a compreensão de conteúdos e de expedientes jornalísticos,
impedindo o contato do aluno com os gêneros textuais de imprensa em suas
características específicas:
▪Uso
excessivo de notas, textos curtos ou fragmentos: há coleções que operam
demasiadamente com textos curtos, ou abusam de notas originárias de revistas
como Superinteressante e Globo Ciência.
O expediente da fragmentação dos textos dificulta a distinção entre os
diversos gêneros, sugerindo ainda a prática jornalística como algo simples,
marcado pelo inusitado e pelo entretenimento.
▪Alta freqüência
de textos não integrais: isso
ocorre sobretudo com matérias mais extensas, muitas vezes cortadas ou adaptadas
sem aviso. Para priorizar determinado conteúdo social ou noção de gramática,
diversas coleções apresentam fragmentos de textos maiores, com encadeamento
truncado, referências descontextualizadas, títulos, subtítulos e ilustrações
alterados ou suprimidos. A mutilação ocorre em notícias, artigos e
reportagens, fazendo-os perder o equilíbrio original. Em matérias sobre meio
ambiente, destacam-se os problemas, mas tendem-se a suprimir a reflexão e as
propostas de encaminhamento. Resta apenas o conteúdo denunciatório. O
fragmento abaixo, parte de reportagem com cinco páginas publicada na revista Superinteressante
(agosto, 1994), exemplifica este e vários outros aspectos aqui mencionados. Mesmo reduzida no LD a apenas
alguns quadros, dispostos em pouco mais de uma página, a reportagem ainda
sofreu corte no texto que restou (a frase em destaque foi suprimida):
A saga de Sullivan
‘Talvez ninguém
tenha sido tão perseguido pelos raios quanto o azarado Roy Sullivan,
guarda-florestal no estado americano da Virgínia. Ele foi atingido sete vezes.
Na primeira, em 1942, ele perdeu a unha de um dedão do pé. Em 1969, 1970, 1972
e 1973 escapou com queimaduras leves. Em 1976, feriu o tornozelo. Em 1977, ficou
com o peito e a barriga queimados.
Aguentou todo esse tranco, mas acabou se suicidando em 1983’.’ (Lopes
& Lara, 2000, 6ª série, p.43)
▪Falta de identificação
clara de gêneros como notícia, reportagem, editorial, artigo, crônica,
entrevista e fotojornalismo: a
utilização de fragmentos e textos curtos dificulta a visualização dos gêneros
textuais. Escolhas não apropriadas agravam esse problema. É freqüente a
confusão entre gêneros jornalísticos, como notícias tratadas por artigos. O
expediente de mutilar textos chega a desfigurar e propiciar inversões de gênero.
São comuns exemplos de notícias reduzidas a dois ou três parágrafos e de
reportagens complexas reduzidas a poucas linhas.
Desprezo
em relação às ilustrações originais e às legendas das fotos jornalísticas:
na grande maioria das coleções, são raras as fotos jornalísticas que
preservam legendas e seu contexto original. De maneira geral, suprime-se a
legenda ou propõe-se legenda feita pelo autor do LD. Perde-se a referência das
fotos, que passam a valer pela capacidade de impressionar o leitor ou pelo seu
‘potencial de conscientização’ (como no caso de ilustrações alusivas à
miséria, à infância desprotegida, ao meio ambiente). Contribui-se para
perpetuar o expediente de colagem, tão comum na escola, em detrimento do estímulo
à análise da imagem propriamente dita. Grande parte das fotos jornalísticas
aparecem diminuídas ou servindo de ilustração ou pretexto para outras
atividades.
▪Simplificação
da informação técnica: as noções sobre técnica jornalística, além
de despolitizadas, são superficiais e beiram o erro. A simplificação quanto
às características da notícia e da reportagem é comprometedora. Não se
respeitam as articulações internas dos textos. Surge reforçado o caráter da
imprensa como ‘entidade’ e também a dificuldade de se construir uma notícia,
posto estar reduzida a um esquematismo incompreensível para o leitor iniciante
e para o professor.
▪Predomínio
de questões desligadas do núcleo de informação: a maior parte das
questões propostas em relação aos textos de imprensa referem-se a conteúdos
gramaticais, considerações de ordem pessoal do aluno e aspectos pontuais dos
textos. Uma parte menor das questões divide-se entre elementos identificativos
(de gênero, por exemplo) e de compreensão do conteúdo. São raras as
atividades que observam a articulação estrutural dos textos informativos.
▪Falta
de continuidade: a continuidade do trabalho se dá apenas com a mudança
dos gêneros, tratando-se primeiro daqueles considerados mais simples, como a
notícia, para, em seguida, mostrarem-se a reportagem e os textos opinativos.
Raras são as propostas que buscam continuar a análise, mostrando, por exemplo,
aspectos diversos de um mesmo gênero. O trabalho parece sempre estar começando.
▪Informação
lacunar sobre a origem dos textos: embora menos recorrentes nas coleções
mais recentes, são comuns textos não datados ou com data errada, sem nome de
autor e, alguns casos, sem o local de origem da publicação. No caso de
fotografias, é comum a falta de data da publicação no original.
As
diferentes abordagens encontradas nos LDs dificultam a sistematiza֋o e mesmo
o enquadramento pleno dos livros em todas e mesmo em uma ou outra característica
das mencionadas acima. Isso ocorre em razão do caráter difuso e lacunar de boa
parte das propostas, que atribuem ao professor a responsabilidade pela articulação
do trabalho, pressupondo que ele tem domínio sobre a redação jornalística.
É preciso também frisar que em algumas obras mais recentes, sobretudo
elencadas no PNLD 2005, já se percebe uma estatura própria aos gêneros de
imprensa. O cuidado com o aspecto documental dos textos é evidente, com
respeito à integridade dos gêneros e ilustrações originais. Aumenta a
preocupação com o estudo das características desses gêneros, embora sejam
atividades ainda iniciantes: os
modos de articulação textual, por exemplo, continuam pouco explorados.
O
exemplo do lide
O enfrentamento do
lide é representantivo do caráter incipiente do tratamento dos gêneros de
imprensa no LD. Expediente convencional do jornalismo, o lide ou abertura é o
primeiro parágrafo de uma matéria jornalística[4], trazendo as informações
consideradas mais relevantes para o conjunto que se pretende com a notícia. Eis
alguns problemas de abordagem:
Esquematismo:
estratégia comum em diversas coleções, o lide é posto como um conjunto de
questões a serem respondidas isoladamente e não como uma introdução que faz
sublinhar dados considerados mais relevantes pelo veículo de comunicação num
determinado momento do processo de exposição de um fato;
Narração:
a notícia é tomada como uma estrutura narrativa, acrescida de detalhes,
quando, na verdade, o texto noticioso contemporâneo tem particularidades.
Embora desenvolvida a partir da característica narrativa, a notícia é
expositiva: as informações são alinhavadas menos a partir da cronologia do
que pela relevância, recência ou interesse do veículo de comunicação;
Camisa-de-força: em sua versão canônica ou integral, o lide
responde às questões quem – o que –
quando – onde – como – por que. Entretanto, há inúmeras maneiras de
dispor o lide, enfatizando-se os diferentes ingredientes da informação,
dependendo-se da criatividade de quem escreve e das opções editoriais do veículo
de informação. Boa parte das coleções observa apenas o lide integral;
Localização
equivocada das informações: a identificação das informações (quem
– o que...) gera freqüentemente equívocos, por não se levar em conta a
organização textual e sim os dados isolados. Por exemplo, a informação quem não raramente é percebida como a soma de todos os sujeitos
que apareceram no lide, desde os efetivos agentes (responsáveis pela ação
principal), até as vítimas, testemunhas e outros envolvidos no episódio
noticiado;
Resumo:
em vários LDs, o lide é compreendido apenas como resumo da notícia.
Entretanto, ainda que pretenda a síntese, o lide nem sempre consegue isso, além
de ter outras funções mais destacadas sobretudo para o entendimento do leitor,
como a) anotar as informações mais recentes (e não necessariamente as mais
importantes) de um fato em processo; b) organizar os conteúdos que serão
tratados no decorrer do texto; c) situar o leitor no quanto ao contexto que
envolve a notícia. Para chamar a atenção do leitor, por exemplo, pode-se
iniciar o lide com uma frase de efeito, uma pergunta, uma informação
interessante (e não importante);
Lide
fora do lugar: diversos manuais tratam abertura, chamada[5]
e subtítulo[6] como lide. Embora guardem
semelhança e sejam mostrados de maneira diversa e muitas vezes híbrida, tendo
em vista a multiplicidade e
especialização gráfica dos veículos de imprensa, a função básica de um
lide é iniciar um texto noticioso. Chega-se, por outro lado, a situar o lide até
mesmo em artigo de opinião (Sarmento, 7ª série, p.162).
Dissociação
com o corpo da notícia: de
maneira geral, o trabalho sempre introdutório de análise dos gêneros
noticiosos faz com que o exercício do LD esteja limitado ao lide. Este, por sua
vez, aparece dissociado do corpo da notícia. A organização estrutural da notícia
e da reportagem tende a ser esquecida, dificultando a percepção das características
desses textos.
Considerações finais
Não é possível
responsabilizar apenas os LDs pela precariedade do trabalho feito com os gêneros
textuais de imprensa na sala de aula. Os manuais acabam por refletir a relação
havida entre a universidade e outros centros de formação de professores, a
escola e as manifestações de imprensa: o estudo dos meios de comunicação
ainda não faz parte do estatuto da formação e da prática do professor. Os
estudos lingüísticos ainda são iniciantes no Brasil quanto à articulação
entre as manifestações midiáticas e a sala de aula. Essa preocupação também
é secundária na orientação oficial, haja vista a própria avaliação do
PNLD, antes preocupada com a diversidade dos textos do que com as características
intrínsecas dos gêneros textuais. Não por acaso, grande parte da iniciativa
de levar os meios de comunicação para a sala de aula parte da área de
Comunicação.
Coleções como a de Soares (2002), Takazaki (2002), entre outras, mostram avanços significativos em relação a pontos básicos importantes: a) o respeito à integridade dos textos e imagens noticiosos; b) o trabalho menos pretextual e mais conteudístico com os textos reproduzidos; c) a atenção para com as características técnicas intrínsecas aos gêneros textuais de imprensa; d) a reflexão sobre o papel dos meios de comunicação na sociedade contemporânea. Entretanto, talvez não seja possível ir adiante nesse aprofundamento mesmo por conta das limitações físicas dos LDs, pois estes não conseguem substituir a experiência direta do leitor com um jornal ou revista. O enfrentamento dos meios de comunicação exige uma política específica de Estado para a área. Investir na melhoria da qualidade do trabalho feito pelos manuais pode ser um passo importante nesse sentido.
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[1]
Uma versão ampliada deste texto foi encaminhada para apreciação do
Conselho Editorial da revista Leitura:
Teoria e Prática.
[2]
Departamento de Educação da UNESP – Assis.
[3]
Foram observadas as 22 coleções recomendadas pelo MEC no guia para 2002,
em versões publicadas predominantemente entre 1998 e 2001. Em alguns casos,
não foi possível o acesso a todos os volumes das coleções. Também
fizeram parte da análise 25 das 28 coleções propostas no guia para 2005.
Importante frisar que a metade das coleções sugeridas para 2005 já faziam
parte do guia em 2002.
[4]
Pode compreender também o segundo parágrafo (sublide).
[5]
Texto quase telegráfico situado na primeira página, acompanhado por título,
subtítulo, ilustrações e indicação da página interna em que está a
notícia. O texto da chamada pode referir-se, por exemplo, a mais de um
texto sobre um mesmo assunto.
[6]
Informação que complementa o título de uma matéria jornalística.