"Jornal Escolar: Fundamentos e Experiências"

PROPOSTA DE DINÂMICA PARA REFLEXÃO CRÍTICA SOBRE O ENSINO/APRENDIZADO DAS CARACTERÍSTICAS DO TEXTO JORNALÍSTICO

Wagner Geribello
PUC-Campinas

Através das técnicas de ação e envolvimento direto (Oficina de Trabalho), a apresentação estimula a reflexão sobre algumas características fundamentais e particulares do texto jornalístico. A idéia é conscientizar o professor que a criação e publicação do jornal escolar (tema da Mesa Redonda) requer atividades prévias diversas, entre elas o conhecimento e o exercício do texto jornalístico, tanto da parte do professor como dos alunos. Nesse sentido, foram selecionados dois aspectos peculiares do texto jornalístico como elementos de reflexão e exercício prático de ação: a estrutura básica inicial e a objetividade.

O TEXTO JORNALÍSTICO COMO NARRATIVA

Ao tratar da noção de discurso, citando Émile Benveniste, o professor Dominique Maingueneau, da Universidade Paris XII estabelece uma diferenciação clara e de certa forma funcional entre discurso e narrativa, tomando como elemento de distinção a situação da enunciação: "Ela [a distinção] opõe um tipo enunciação ancorado na situação de enunciação (...) a um outro, isolado da situação de enunciação (...)." (2002, p. 52). A este segundo tipo ou gênero de enunciação, Maingueneau chama narrativa ou história, em oposição ao termo discurso. Assim, assumindo a validade dessa argumentação, pode-se deduzir que existe um tipo especial de discurso que, pelas suas características de situação de enunciação, é chamado narrativa. Este trabalho toma por base que o texto jornalístico enquadra-se nesse tipo especial de discurso e, portanto, caracteriza-se como narrativa, que, entre outras particularidades, busca a construção de universos autônomos e desligados de sua situação de enunciação (cf. Maingueneau: 2002, p. 114). Outra característica da narrativa fundamental para o tema que será discutido à frente é a pressuposição de que seu enunciado  "é considerado como sempre verdadeiro (grifado no original), em todas as situações de enunciação e para qualquer enunciador." (ibid, p. 115).  

Considerado como narrativa, o texto jornalístico pode ser visto como forma de contar história. A ressalva a ser considerada é que o jornalismo tem modos específicos de contar histórias, sendo o primeiro deles o fato de que o conteúdo das histórias contadas ou narradas no jornal é conhecido na nomenclatura específica do jornalismo como matéria. A partir daqui, o objetivo é refletir sobre algumas técnicas que norteiam a produção do texto jornalístico, ou seja, da elaboração de matérias.

De modo geral, o jornal pode ser considerado, na sua essência, um conjunto determinado de matérias. Portanto, a elaboração do jornal, apesar de incluir diversas fases e atividades, está centrada na confecção das matérias que vão compor determinada edição. Essa afirmação vale e serve de norte para a confecção dos jornais que integram os chamados sistemas de comunicação de massa, sejam de circulação local, regional, estadual, nacional ou mesmo internacional e independente de sua dimensão e características peculiares (por exemplo, jornais segmentados de acordo com áreas específicas de atividade humana: ciência, esporte, tecnologia, etc.). Mas, além disso, ela norteia, também, os chamados veículos internos, que têm sua circulação atrelada a instituições específicas, como é o caso dos chamados veículos corporativos ou jornais de empresa. Ou seja, a confecção e o agrupamento de matérias, visando sua publicação/circulação, é o caracterizador essencial do conceito de jornal (e por extensão de jornalismo), o que justifica e legitima a adoção do mesmo critério como orientação para a produção do jornal escolar, seja aquele dirigido para os alunos, seja o modelo produzido pelos alunos.

Uma vez aceito que no âmbito do jornalismo a matéria representa forma especial de narrativa, configurando a própria essência do jornal/jornalismo, fica praticamente implícito ou pelo menos decorrente que o item primeiro do planejamento do jornal escolar deve ser representado pela matéria.

Por outro lado, considerando que matéria é um tipo específico de narrativa e que esta, por sua vez, está intimamente ligada à noção de texto[1], é bastante lógico pressupor que as atividades de planejamento e implantação do jornal escolar devem começar pelo trabalho de texto, ou seja, pelo conhecimento (análise crítica) e pelo exercício redacional. Basicamente o objetivo desse passo inicial é a familiarização dos agentes envolvidos com a (ainda pretensa) confecção do jornal (fase de planejamento), seja no sentido de conhecer e reconhecer em textos jornalísticos já prontos suas caracterýsticas e peculiaridades, seja objetivando a própria redação desse gênero de texto, para análise crítica e reflexão posterior. A proposta, didaticamente falando, é que a elaboração do jornal escolar somente se viabiliza quando, entre outros aspectos, os agentes executores se reconhecem no domínio do texto jornalístico, ou seja, da capacidade de produzir matérias do ponto de vista textual[2].

Definida como ponto fundamental da técnica de produção jornalística e aceita como passo inicial para o aprendizado dessa técnica, o estágio seguinte da reflexão aqui proposta aponta na direção do conhecimento das particularidades e peculiaridades da matéria jornalística, enquanto forma específica de texto.

Assim como, na proposta de Ferdinand Saussure, a língua é um fato social, portanto moldador e ao mesmo tempo amoldado ao ambiente social em que se manifesta, em termos de tempo e espaço (cf Beltrão, Quirino: 1986), o texto jornalístico também sofre mutações (por vezes radicais) em função do meio no qual se manifesta. Marshall McLuhan (2001) certamente está entre os teóricos da comunicação que mais se ocupou da verificação desse fenômeno, apontando as transformações estruturais das mensagens comunicativas de massa, de acordo com o meio social no qual elas são produzidas e circulam. Portanto, quando se fala de texto jornalístico ou do perfil (forma mais conteúdo) da matéria jornalística é preciso falar, também, do contexto em que essa matéria está inserida, para que suas características sejam acessíveis ao questionamento, à investigação e, por fim, ao conhecimento. Noutro sentido, mas de certa forma decorrente dessa conexão entre meio comunicacional e meio social, está a ampla e variada gama de elementos formadores em que o texto jornalístico pode ser desdobrado. Para dar conta dessa mobilidade e flexibilidade peculiares ao texto jornalístico, sem deixar de respeitar propósitos, disponibilidades e particularidades do cenário em que este trabalho se apresenta, mais sua configuração de apresentação na forma de Oficina, serão tratados aqui somente dois aspectos pertinentes à confecção da matéria de jornal, uma delas definida pelo chamado modelo estrutural básico desse gênero de narrativa e outra pela objetividade pertinente ao texto jornalístico.

MODELO PRIMORDIAL DA MATÉRIA JORNALÍSTICA

O que está sendo chamado aqui de modelo básico da matéria jornalística (principalmente, mas não exclusivamente, da reportagem) origina-se dos estudos pioneiros de Harold Lassell, nos anos 30/40 do século passado, apresentados no bojo da "Teoria Hipodérmica" (cf Wolf: 1992). A partir desses estudos, que, embora de forma rudimentar e muito superficialmente, emprestaram os primeiros contornos científicos e teóricos à comunicação de massa, os comunicadores passaram também a buscar a formalização de sua atividade, focando elementos que permitissem compreender a comunicação desde uma postura racional e crítica e, a partir daí, desenvolver técnicas capazes de otimizar a comunicação. No caso do jornalismo, concluiu-se que esse gênero de comunicação fundamenta--se na informação e que, portanto, o modo mais eficiente de produzir o texto jornalístico é formular/responder questões básicas sobre o tema da matéria. Surgem assim as seis questões básicas, cujas respostas formam o alicerce da matéria jornalística: o que, quem, quando, onde, como e por que? (Martins: 1990, p. 18). De acordo com esse modelo, tanto mais se aproxima do ideal quanto mais a matéria jornalística (vale dizer o texto da matéria) dá conta de responder organizadamente cada uma dessas questões. Destarte, ao confeccionar a matéria, cumpre ao redator reunir as informações que dão resposta a essas seis perguntas, apresentando/explicando o fato (o que?), as pessoas com ele envolvidas (quem?), a localização temporal (quando?) e espacial (onde?), a descrição (como?); mais o jogo de causa e efeito que levaram à ocorrência (por que?).

OBJETIVIDADE

O segundo elemento caracterizador da matéria jornalística de que este trabalho pretende dar conta refere-se à objetividade, tomada como componente essencial do texto jornalístico.

Certamente o conceito de objetividade não se encontra pronto, em sua versão definitiva e integral, em um ponto qualquer do conhecimento humano. Ao contrário, tanto a instância filosófica, como as elucubrações mais materialistas e imediatas mostram que o conceito e mesmo o termo objetividade dão margem a interpretações muito variadas, não raro diferentes e às vezes até mesmo contraditórias. Este trabalho, de forma consciente e proposital, esquiva-se de penetrar esse campo de discussão, relegando a objetividade a um patamar muito simples (talvez até mesmo simplório) de consideração que, no entanto, é o que basta para os propósitos aqui almejados. Ou seja, considerando que o texto é o ambiente de reflexão aqui conduzido, mais a elementar constatação de que a formação do texto se dá pelo uso da palavra, para os efeitos desse trabalho define-se como objetividade a economia de palavras, vale dizer, a possibilidade de eliminar quantitativamente palavras da narrativa, mantendo inalterado seu objetivo comunicacional, incluindo a resposta otimizada de todas as questões propostas acima (formadoras do modelo básico da matéria jornalística). Portanto, do ponto de vista da técnica redacional, o caminho para atingir a objetividade na elaboração da matéria jornalística é representado pela capacidade de reunir o maior volume de informação pertinente, com o uso mais reduzido possível de palavras, o que significa que, em termos jornalísticos, escrever objetivamente, portanto escrever bem, significa cortar palavras do texto.

EXERCÍCIO DE APLICAÇÃO PRÁTICA

Feitas as considerações teóricas pertinentes, o módulo final desta Oficina propõe um exercício prático cuja meta é consolidar, através do exemplo, a introjeção e o pleno entendimento dos conceitos tratados nas fases anteriores, bem como apresentar um caminho de prática didática que os professores imbuídos do objetivo de criar jornais escolares poderão realizar junto aos agentes envolvidos com a condução desse mister.

A idéia central do exercício é, através da ação direta (fazer), visualizar (entender, compreender) o texto jornalístico nos seus aspectos estruturais e objetivos.

O exercício consiste de cinco fases principais:

a) Apresentação de texto não jornalístico
b) Análise do texto dado, observando seus elementos informativos, através da aplicação das questões básicas - o que, quem, quando, onde, como e porque?
c) Redação de texto jornalístico (matéria) a partir da análise/observação do item anterior
d) Análise crítica do texto redigido no item c), aplicando o conceito de objetividade (reduzir/eliminar palavras desnecessárias).
e) Redação final da matéria, observando os conceitos de estrutura e objetividade

Considerando que qualquer modalidade de texto, desde que não jornalístico, presta-se ao exercício aqui proposto, a seleção recaiu sobre meia dúzia de linhas magistrais que o recifense Manuel Carneiro de Souza Bandeira Filho inseriu na coletânea Libertinagem, publicada em 1930, sob o título Poema tirado de uma notícia de jornal[3].

            João Gostoso era carregador de feira-livre e morava no morro da Babilônia
   
         num barracão sem número
            Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
            Bebeu
            Cantou
            Dançou
            Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado

A idéia, então, é aplicar ao poema as questões que norteiam o texto jornalístico e, a partir daý, redigir, evidentemente em prosa, matéria jornalística que responda a todas essas questões.

Segue uma proposta (não a única nem a melhor) resultante desse exercício:

MORTE POR AFOGAMENTO

O carregador de feira-livre João Gostoso atirou-se na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado. Ele morava em um barracão sem número, no morro da Babilônia. Antes, João esteve no bar Vinte de Novembro onde bebeu, cantou e dançou. O suicídio aconteceu à noite e foi noticiado pelo jornal.

Como poder ser observado, a partir do poema, todas as informações possíveis de serem obtidas da fonte foram consideradas e agregadas ao texto: o que: suicídio; quem: João Gostoso, carregador de feira-livre, morador do morro da Babilônia (barraco sem número); quando: ontem à noite; onde: Lagoa Rodrigo de Freitas; como: afogamento; além de informações adicionais que tecnicamente se enquadram no item por que: a passagem pelo bar Vinte de Novembro e o que o suicida fez ali (bebeu, cantou, dançou); por fim, o poeta informa - e a matéria reproduz - que o fato foi noticiado pela mídia (ver o título do poema).

 Assim analisada, a matéria tecnicamente configura o modelo estrutural desejado, na medida em que nenhum componente informativo presente no poema foi desconsiderado no texto jornalístico dele derivado[4].

O passo seguinte segue na direção de conferir se o texto elaborado a partir do poema abriga de modo otimizado o conceito de objetividade, ou seja, resguarda-se da economia de palavras para configurar o relato do fato em pauta.

A contagem das palavras constantes do poema na sua forma original mostra que Bandeira recorreu a 45 unidades para compor sua obra, o que pode ser considerado um feito jornalístico, além de poético, se for observado que a reprodução do fato na forma de matéria precisou de 52 unidades para assumir seu formato final. Ora, se o poeta se satisfez com 45 palavras, nada justifica a necessidade de outras 7 para narrar o mesmo fato. Portanto, reside aí indício de que o texto jornalístico pode ser refeito, com vistas à objetividade, ou seja, pode ser reduzido no quesito quantidade de palavras usadas.

Aplicando-se a recomendação técnica jornalística de que escrever objetivamente é cortar palavras[5], a matéria pode, então, ser refeita, tendo como norte a busca da objetividade. Uma, entre as muitas propostas possíveis, é a seguinte:

SUICÍDIO

Segundo o jornal, João Gostoso, carregador de feira-livre do morro da Babilônia - barracão sem número, atirou-se na lagoa Rodrigo de Freitas, à noite, depois de beber, cantar e dançar no Bar Vinte de Novembro.

A contagem das palavras revela que, agora sim, o redator levou em consideração a objetividade, reproduzindo a totalidade das informações constantes do poema com uso de 35 unidades, vale dizer, 10 a menos que a fonte original.

REPETINDO EM SALA

O exercício aqui reproduzido, devidamente adaptado a condições didáticas específicas e integrado a objetivos pedagógicos definidos, pode ser reproduzido em sala de aula como elemento complementar do ensino de técnicas redacionais jornalísticas e pode representar um componente importante dos módulos que devem proceder a implantação do Jornal Escolar. A expectativa é que, a partir da prática, aliada à análise crítico-reflexiva, os agentes que estarão encarregados da redação do jornal poderão ampliar a compreensão das características e objetivos do texto jornalístico e, a partir daí, atirar-se com mais segurança e habilidade à envolvente aventura de escrever jornal.

BIBLIOGRAFIA

BANDEIRA, Manoel Estrela da vida inteira 2a. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1970.
BELTRÃO, Luiz e QUIRINO, Newton O. Subsídios para uma teoria da comunicação de massa São Paulo: Summus, 1986.
BERLO, David K. O processo da comunicação: introdução à teoria e à prática 7a. ed. São Paulo: Martins fontes, 1991. BURGELIN, Olivier A comunicação social Lisboa: Edições 70, 1981.
DeFLEUR, Melvin L. e BALL-ROKEACH, Sandra Teorias da comunicação de massa 5a. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993. DIMBLEY, Richard e BURTON, Graeme Mais que palavras: uma introdução à teoria da comunicação São Paulo: Summus, 1990. MAINGUENEAU, Dominique Análise de textos de comunicação 2a. ed. São Paulo: Cortez, 2002.
MARTINS, Eduardo Manual de Redação e estilo - O Estado de S. Paulo São Paulo: O Estado de S. Paulo, 1990.
McLUHAN, Marshall Os meios de comunicação como extensões do homem 14a. ed. São Paulo: Cultrix, 2001.
WOLF, Mauro Teorias da comunicação 2a. ed. Lisboa: Editorial Presença, 1992.


[1] Notar que texto, neste contexto, significa, sobretudo, organização de idéias, configurando aquilo que as teorias clássicas de comunicação chamam mensagem (cf De Fleur: 1993). Sobre o tema ver também: Berlo: 1991; Dimbley e Burton: 1990, Beltrão e Quirino: 1986 e Burgelin: 1981. Ver ainda Wolf: 1992.

[2] Insiste-se, aqui, no aspecto exclusivamente textual, na medida em que a produção de matéria jornalística pressupõe outras atividades, como o levantamento de temas, produção de pautas, seleção de fontes, etc. as quais não serão tratadas neste trabalho.

[3] Reprodução a partir de BANDEIRA, Manoel Poesias Reunidas - Estrela da Vida Inteira 2a. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1970.

[4] Evidentemente o exercício não pressupõe, nem opera, análises subjetivas e/ou interpretativas do poema, a partir das quais os elementos informativos podem assumir as mais diferentes conotações. Vale dizer, mesmo sob o risco de ferir as intenções originais do poeta, o poema é aqui tomado exclusivamente como relato de um fato (fonte de informação, portanto) e não como obra artística crítica, embora seja muito difícil negar-se o devaneio das interpretações subjetivas quando se trata de obra poética em geral e de Manoel Bandeira em especial.

[5] É primordial considerar que a proposta associando a qualidade do texto (no caso uma qualidade específica representada pela objetividade) à redução de palavras não pode e não deve ser tomada como norma redacional geral, sobretudo no ambiente escolar, sob pena de provocar no estudante a falsa e errônea assertiva de que as palavras representam um problema e não a solução e a própria essência da comunicação. Ou seja, as orientações para elaboração do texto jornalístico noticioso não devem ser consideradas na apreciação de outras formas de texto (poético, literário, etc.) e mesmo do texto jornalístico não noticioso (crônicas, editoriais, etc.).