"Jornal comunitário e educação não-formal: uma estratégia de comunicação"

Amarildo B. Carnicel
Faculdade de Jornalismo – Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas)
Centro de Memória -  Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

Corpo do trabalho

A criação de um jornal comunitário feito por adolescentes consiste, historicamente, em enorme desafio, tanto do ponto de vista de quem se proponha a dirigir as ações como do ponto de vista dos atores que serão os responsáveis pela elaboração da nova publicação. Dentre as inúmeras dificuldades que devem ser vencidas, há uma, em especial, que pode ser destacada: a busca de um mecanismo de produção e de diálogo que minimize aquele que se constitui no maior entrave para uma produção dessa natureza, ou seja, o nível sociocultural em que estão inseridos os adolescentes, protagonistas dessa ação. O presente artigo, resultado de trabalho em oficina de jornalismo que integra o projeto intitulado “Memória, qualidade de vida e cidadania: história dos bairros populares de Campinas”, desenvolvido por pesquisadores do Centro de Memória-Unicamp, apresenta os percursos e condutas (com erros e acertos) e resultados de três experiências coordenadas por um jornalista e realizadas em instituições sediadas em bairros periféricos de Campinas, interior de São Paulo.[1]  

As experiências aqui narradas integram trabalho de pesquisa-ação desenvolvido no Centro de Pastoral da Igreja de São Benedito, na Vila Costa e Silva (em 2001), na ONG Direito de Ser, no Complexo São Marcos (em 2002)[2] e no Projeto Gente Nova (Progen), na Vila Castelo Branco (em 2003 e 2004). Neste trabalho, pesquisadores e voluntários do Centro de Memória-Unicamp vêm coordenando uma série de oficinas em diferentes áreas[3] que proporcionam aos adolescentes auto-conhecimento, melhor compreensão sobre o local onde residem e reconstrução da auto-estima. O presente trabalho tem como recorte a oficina de jornalismo, analisa os percursos e os resultados das atividades desenvolvidas e mostra como a relação educação não-formal e jornal comunitário, tendo como produto a elaboração de um fanzine, pode despertar sentimentos e aflorar talentos e habilidades que ficam em repouso por falta de oportunidade.

Para melhor compreensão, consideramos válido apresentar as definições de educação não-formal, jornal comunitário e fanzine, modalidade  jornalística utilizado no trabalho na Vila Castelo Branco e que gerou o melhor resultado dentre as três experiências realizadas. Por conta disso, esse estudo, com base no trabalho realizado na Vila Costa e Silva, que teve como resultado a produção de um jornal mural e no Complexo São Marcos, que culminou com a elaboração de uma brochura, procura detalhar e analisar com maior profundidade a atividade realizada na Vila Castelo Branco materializada na publicação do fanzine Conexão Jovem, conforme veremos mais adiante.

Educação não-formal – Começamos, então, por educação não-formal, área do conhecimento que norteou todas as atividades, não apenas no campo do jornalismo, como também em todas as oficinas do projeto. O que é, afinal, educação não-formal?  Para uma melhor tentativa de explicação, optamos pela definição concisa elaborada por AFONSO (1989: 78) sobre os termos educação formal, educação não-formal e educação informal:

“Por educação formal, entende-se o tipo de educação organizada com uma determinada seqüência e proporcionada pelas escolas enquanto que a designação de educação informal abrange todas as possibilidades educativas no decurso da vida do indivíduo, constituindo um processo permanente e não organizado. Por último, a educação não-formal, embora obedeça também a uma estrutura e a uma organização (distintas, porém, das escolas) e possa levar a uma certificação (mesmo que não seja essa a finalidade), diverge ainda da educação formal no que respeita à não fixação de tempos e locais e à flexibilidade na adaptação dos conteúdos de aprendizagem a cada grupo completo”.

Convém salientar que educação não-formal e educação não-escolar não são sinônimos. SIMSON, PARK e FERNANDES (2001: 10) explicam que “o termo não-escolar é mais amplo e inclui o não-formal e o informal”.

A atividade da educação não-formal, portanto, ocorre paralelamente à escola, fora do horário escolar. Para a obtenção de melhores resultados, convém realizar as atividades fora do ambiente escolar – as experiências na Vila Costa e Silva, no Jardim Campineiro e na Vila Castelo Branco revelaram que os adolescentes têm resistência a qualquer iniciativa que remeta à escola, espaço normalmente marcado pela falta de liberdade, repreensão, cobrança e avaliação. Cabe, no momento, fazer uma análise do trabalho realizado nos três espaços que abrigaram as oficinas de jornalismo. Enquanto no Centro de Pastoral da Igreja de São Benedito (Vila Costa e Silva) e no salão comunitário Espaço Esperança, cedido à ONG Direito de Ser (Jardim Campineiro), o mobiliário era composto de lousa, mesa do professor e carteiras para alunos – reprodução exata do ambiente em que os adolescentes viveram no período da manhã – no Progen (Vila Castelo Branco) a disposição dos móveis elimina, de imediato, o estabelecimento de uma hierarquia. O pesquisador que coordena a oficina e os adolescentes sentam-se ao redor da mesa em que acontecem as atividades. Essa proximidade elimina as barreiras, quebra hierarquias e, conseqüentemente, facilita o diálogo. A disposição dos móveis na sala, bem como a dinâmica aplicada durante as atividades, permitem a configuração de um cenário proposto por SIMSON, PARK e FERNANDES (2001: 11), quando sugerem:

“Os espaços de educação não-formal deverão ser desenvolvidos seguindo alguns princípios básicos como: apresentar caráter voluntário, proporcionar elementos para a socialização e a solidariedade, visar ao desenvolvimento social, evitar formalidades e hierarquias, favorecer a participação coletiva, proporcionar a investigação e, sobretudo, proporcionar a participação dos membros do grupo de forma descentralizada”.  

O que se constata a partir dessa fundamentação é que os adolescentes querem desenvolver atividades prazerosas e assimilar conhecimentos por meio de mecanismos diferentes daqueles historicamente aplicados no espaço escolar, embora muitas vezes – e esse não é o objetivo – as iniciativas de educação não-formal acabem compensando as falhas cometidas pelo sistema de ensino aplicado nas escolas. Para melhor compreensão da atividade de educação não-formal, convém lembrar que a prática normalmente ocorre em instituições, associações, ONGs, etc. que atuam junto as camadas mais pobres da sociedade, tendo como público-alvo crianças e adolescentes muitas vezes afastados da escola formal pelo processo denominado de exclusão escolar, portanto, mais próximos ao mundo da rua – cenário que se aplica à ONG Direito de Ser, no Jardim Campineiro. Há, entretanto, instituições que atuam na área da educação não-formal com um caráter mais preventivo e que, entre outras exigências, apresentam como condição à inclusão em seus programas, o vínculo – e muitas vezes um bom desempenho – na escola formal. As experiências realizadas nas vilas Costa e Silva e Castelo Branco revelam essa preocupação.

Jornal comunitário: características e atribuições – O projeto de oficina de jornalismo vislumbra a produção de jornal comunitário como estratégia de educação não-formal. Entretanto, quais são as características e atribuições que fazem do jornal comunitário um segmento específico da mídia impressa? São muitas as peculiaridades que distinguem o jornal comunitário do jornal de médio ou de grande porte. Trata-se de um veículo cujo objetivo principal é dar voz aos membros da comunidade e estabelecer um fórum de diálogo, de exposição de idéias, de divergências e de reivindicações, conforme assinalam CALLADO e ESTRADA (1986: 8): “A função do jornal comunitário transcende o caráter da informação, tornando-se um instrumento de mobilização que estabelece a verdadeira comunicação entre os membros da comunidade, o debate de seus problemas e a participação de todos nas soluções a serem dadas”. BAHIA (1990: 245) segue a mesma linha de raciocínio ao afirmar que “o jornal comunitário não na medida em que concentra notícias e opiniões, mas na proporção em que evoca a cidadania, se diversifica e se multiplica para dar voz ao maior número de correntes numa comunidade”.

O jornal comunitário também pode cumprir a função de buscar atender aos anseios da comunidade e divulgar as suas realizações, podendo se constituir em fonte de promoções comunitárias, oferecer caminhos para soluções de problemas, organizar eventos e liderar campanhas para a construção de escolas e postos de saúde, etc. Nesse sentido, WONDRACEK (1978: 24) afirma: “São iniciativas que comportam a liderança de um jornal, desde que tenham a finalidade de promover o bem coletivo”. Cabe lembrar que para muitos leitores que se informam em outros periódicos, o jornal comunitário tem função complementar. Segundo BUENO (s/d: 12), “leitura de jornais em geral e a leitura de jornais comunitários reforça a velha tese de que os meios de comunicação não se excluem mas se sobrepõem”. De fato, segundo CARNICEL (2003) as formas de abordagem e as reflexões sobre um determinado assunto, contidas eventualmente nos dois veículos (o de grande circulação e o comunitário), podem ampliar o leque de informações e oferecer elementos distintos para a formação de opinião do público leitor.                 

Fanzine: conteúdo e história – Há diferentes modalidades que podem ser aplicados no segmento  jornal comunitário e a definição certamente procurará atender ao público-alvo. Após duas tentativas em oficinas realizadas na Vila Costa e Silva, que culminou com a publicação de um jornal-mural, e no Complexo São Marcos, que teve como resultado a produção de uma brochura, propusemos aos adolescentes elaborar na Vila Castelo Branco um fanzine, modalidade de publicação mais apropriada para o diálogo com o público jovem. Não são muitos os autores brasileiros[4] que se debruçaram sobre conceitos que pudessem explicar o termo fanzine com maior propriedade. O termo, cunhado em 1942 por Russ Chauvenet, vem da junção das palavras inglesas fanatic (fanático) e magazine (revista).  Há autores que definem fanzine como o trabalho de elaboração de um  veículo de comunicação, feito por amadores, sobre um tema específico ou superespecífico ligado ao mundo das artes. Há fanzines, por exemplo, que falam de ficção científica, cinema, televisão, teatro, fotografia, design, quadrinhos (HQ), artes plásticas, literatura, música, etc. Há fanzines que se caracterizam pela superespecialização quando no mundo da música, por exemplo, optam pelo recorte do rock, ou seja, nenhum outro gênero musical tem espaço na publicação, conforme afirma DUNCOMBE (1997: 9) “são publicações devotadas a discutir as particularidades e nuanças de um gênero cultural”. Mas cultura não é o único mote que dá origem à produção de fanzines. Temas ligados à política (anarquismo, nazismo, comunismo), comportamento (movimento punk, feminismo e mundo GLS), astronomia (lua, marte, cometas), entre outros, têm originado publicações em diferentes países.

Há, contudo, autores que estendem a definição de fanzine para a produção de publicações, também amadoras, que não dão foco somente a uma determinada arte ou hobby. MAGALHÃES (2003), busca em BELTRÃO (1980) elementos que apontam que o fanzine também é o espaço para a manifestação de grupos que estão à margem da grande imprensa.

“Em seus estudos sobre a comunicação popular, Luiz Beltrão entende que esta não deve se restringir à expressão de grupos marginalizados cultural e geograficamente. Para ele, as pesquisas devem se estender a outros setores excluídos, sem acesso aos meios de massa, pela sua posição filosófica e ideológica contrária às normas culturais dominantes, setores que se poderiam classificar de contraculturais. Essa definição contempla a produção dos fanzines, que não são só veículos de grupos de fãs, mas também de grupos que não possuem acesso à grande imprensa”. (MAGALHÃES, 2003: 2).

É esta a definição que fundamenta a criação e norteia o trabalho no fanzine Conexão Jovem, feito pelos adolescentes da Vila Castelo Branco, pessoas que têm acesso mais restrito aos meios de comunicação. A publicação é pautada pela ampla liberdade de criação, de novas idéias, de experimentação de estéticas e linguagens – atributos impossíveis de serem testados e realizados simultaneamente nos meios de comunicação de massa.   

Se por um lado o Conexão Jovem é concebido valendo-se de teorias desenvolvidas e publicadas há mais de duas décadas, conforme citamos BELTRÃO (1980), a sua forma atual de elaboração,  no entanto, foge ao purismo que sempre norteou os meios de produção artesanal dos fanzines. Pesquisadores apontam que o surgimento do fanzine no Brasil remonta a 1965, quando o grupo ‘Intercâmbio ciência-ficção Alex Raymond’, de Piracicaba (SP) publicou o primeiro exemplar na área de ficção científica. O meios de produção eram extremamente rudimentares – e assim permaneceram por décadas, apesar do advento da informática que veio facilitar o processo de confecção e de reprodução das publicações. Textos e títulos manuscritos ou produzidos em máquinas de escrever, recortes de artigos e de fotografias publicadas em jornais e revistas, desenhos produzidos à mão compunham basicamente o conteúdo editorial dos fanzines. Cola, tesoura e uma folha de papel eram utilizadas na montagem. Mimeógrafos e fotocopiadoras eram os meios de impressão. Muitos ‘zineiros’ (pessoas envolvidas no processo de produção, desde o texto até a distribuição), fiéis ao modo artesanal de produção, resistiram aos avanços da informática e mantiveram, durante anos, esse sistema artesanal. Em Conexão Jovem, esse purismo é mantido apenas na forma de expressão, em que os adolescentes são os autores dos textos publicados – embora submetidos a um trabalho de copidesquee dos desenhos feitos a lápis, meio muito distante dos recursos de informática como o Corel Draw, um dos softwares mais utilizados na área da ilustração. Afora isso, dentro das limitações de recursos, o fanzine da Vila Castelo Branco valeu-se dos avanços da tecnologia. Os textos manuscritos foram digitalizados no software de redação Word. Alguns foram transmitidos ao editor via e-mail. As  fotos e as ilustrações passaram pelo software de tratamento de imagem Photoshop e a etapa de paginação foi realizada no software Pagemaker. No sistema de impressão também se percebe um avanço em relação aos meios tradicionais: o mimeógrafo e a fotocopiadora foram substituídos pelo sistema off-set, permitindo maior agilidade na impressão (a primeira edição teve 1.000 exemplares) e melhor qualidade do material, uma vez que foram produzidos fotolitos de todas as páginas. O uso da tecnologia pelo fanzine vem gerando novas formas de comunicação. Se o advento da fotocopiadora provocou uma revolução nos fanzines nos anos 70 – até então as produções eram feitas em mimeógrafos à tinta e a álcool – e a informática facilitou os meios de elaboração e de reprodução nas décadas seguintes, a Rede Mundial de Computadores, a Internet, nos anos 90, chegou para derrubar todos os limites que faziam desse tipo de publicação um produto underground. Surgiram os e-zines, ou fanzines virtuais. Alguns chegaram até a assumir o formato de newsletter, informativos enviados por e-mail com certa regularidade.

Os fanzines são essencialmente amadores, livres de censura. São produções elaboradas por adolescentes que querem se expressar mas que não têm outro espaço para fazê-lo. Produzem uma comunicação gerada por um desejo de transpor o tédio, de encontrar pessoas em situação semelhante e a partir desse encontro compartilhar idéias, opiniões e, conseqüentemente, elevar a auto-estima. DUNCOMBE (1997: 44) afirma: “Parte da motivação é a solidão, pura e simples. Zineiros podem não ser capazes de se comunicar bem cara a cara, mas como a maioria das pessoas eles querem companhia”. Esse traço psicológico é facilmente percebido entre os adolescentes que fazem o Conexão Jovem. Uma parcela não superior a 20% dos adolescentes mostrou-se desinibida. Esses adolescentes, de fato, foram os que mais produziram, os que apresentaram maior número de sugestão de pauta. Os demais, por seu turno, inibidos, limitavam-se a atender aos pedidos. Isolados, elaboraram produções intimistas, introspectivas, como poesias e ilustrações. Os ‘inibidos’ geraram a arte, a produção livre, sem censura, que deve ser o principal produto de um fanzine. Os ‘inibidos’ geraram elementos para a elaboração de um jornal com apresentação gráfica mais bonita, mais leve, com um discurso visual mais próximo não apenas de quem produz, como, principalmente, do público-alvo. Os ‘inibidos’, marcados por um constante processo de subestimação, ficaram orgulhosos quando viram suas produções impressas nas páginas do jornal e sentiram-se valorizados junto à comunidade. Dessa forma, constata-se, então, o atributo do fanzine assinalado por DUNCOMBE (1997), quando afirma que o veículo “dá voz” aos exilados cultural e socialmente.

Três experiências: percursos e resultados – Durante as oficinas de jornalismo foram apresentados os objetivos e a dinâmica das atividades. Foi exposto que o projeto deveria culminar com a produção de um jornal comunitário. Houve discussão com os adolescentes sobre a importância do jornal enquanto agente transformador da sociedade e sua função enquanto órgão de prestação de serviço junto à sociedade a que se destina. Foram apresentados alguns conceitos para o trabalho do jornalista como notícia, reportagem entrevista pingue-pongue, lead, título, legenda e reunião de pauta. As funções do repórter e do editor bem como o tratamento que deve ser dado às fontes também foram mote para as discussões.

Foram transmitidos conceitos inerentes ao jornal comunitário e sua importância enquanto porta-voz da sociedade que o produz. Procurou-se analisar o veículo como instrumento de comunicação que vai muito além de um informativo que narra fatos ocorridos no bairro. Durante o desenvolvimento dos trabalhos alguns adolescentes mostraram-se atentos à importância do jornal como meio de integração social, de aprendizado profissional, e acima de tudo, como veículo de mobilização da comunidade. Durante os encontros, quando foram distribuídos exemplares dos dois principais jornais locais de Campinas, Correio Popular e Diário do Povo, os adolescentes, indistintamente, perceberam que o jornal comunitário pode preencher a lacuna deixada por esses veículos, publicações em que essas comunidades não se reconhecem, conforme demonstraram alguns integrantes do projeto. Razão: a Vila Costa e Silva, o Complexo São Marcos e a Vila Castelo Branco somente  figuram na pauta desses jornais quando a notícia é ruim. Sob a ótica da mídia, a localização periférica desses bairros e a baixa renda de seus moradores fazem com que fiquem relegados a um segundo plano. Quando noticiados, o espaço reservado, invariavelmente, é o da página de polícia.

Feita essa constatação, foi exposto aos adolescentes que deveriam produzir notícias diferentes daquelas estampadas no Correio Popular e no Diário do Povo. Foram solicitadas sugestões de pautas que poderiam figurar nas páginas do jornal. A partir das sugestões (espontâneas e orientadas) e discussão dos temas, foram constituídos grupos para a realização de tarefas específicas que compreendiam atividades de reportagem, redação, registro fotográfico e ilustração. Era o início de uma integração social que extrapolava o relacionamento escolar. Os adolescentes, a partir de então, poderiam se engajar numa tarefa de grande responsabilidade que tinha além do caráter informativo, a missão de oferecer ao leitor elementos para a formação de opinião. Foi proposto que se empenhassem  na produção de material que valorizasse as coisas e as pessoas da comunidade. Guardadas as proporções e as peculiaridades de cada bairro, essa proposta de trabalho foi repetida nas três experiências. Apesar da semelhança metodológica, as respostas,  no entanto, foram muito diferentes, conforme poderemos observar a seguir.

Vila Costa e Silva – As atividades na Vila Costa e Silva foram realizadas no Centro de Pastoral da Igreja de São Benedito em 2001. Nesta experiência participaram 72 adolescentes com idades entre 11 e 16 anos. Filhos de pais com baixa qualificação profissional, os participantes eram alunos do período matutino em escolas estaduais. Reservaram, portanto, o período da tarde para a participação de oficinas. Os 72 adolescentes (selecionados de um universo de 119 interessados) foram distribuídos em quatro grupos (A, B, C e D), sendo as turmas A e B com adolescentes com idades entre 11 e 13 anos e as turmas C e D com adolescentes com idades entre 14 e 16 anos.  

Em razão do grande número de participantes e da diferença de idade entre os adolescentes, definiu-se pela elaboração de dois jornais, ainda que produzidos simultaneamente e com algumas pautas repetidas. Os parcos recursos financeiros nos obrigaram a optar pela elaboração de jornal no formato mural em formato A-3 (33 cm x 45 cm) e que permite tiragem significativamente inferior a de qualquer outro formato. Afixado em pontos estratégicos (de grande concentração ou circulação de pessoas), o jornal mural caracteriza-se pela publicação de textos telegráficos e em letras grandes.  

O apelo de pertencimento social ao local onde residem esses adolescentes torna-se evidente  antes mesmo da materialização do veículo, quando da votação e escolha do nome do veículo: Jornal da Costa e Silva. Este mesmo apelo está refletido na pauta em que todos os assuntos estão inseridos no cotidiano do bairro. Em trabalho dessa natureza, duas situações são muito evidentes quando se observa a reação dos entrevistados. Há aqueles que querem ser notícia e, portanto, não põem obstáculos diante da abordagem do ‘repórter’ e há os que, por inúmeras razões, preferem permanecer no anonimato. No primeiro caso, podem ser incluídos textos como o da campanha de diabetes que contém embutido o caráter de prestação de serviço à população; o do o grupo de pagode que denota a preocupação de valorizar pessoas do bairro; e sobre a programação da Semana Santa que registra momentos de fé e devoção da comunidade. No segundo pode ser incluído perfeitamente o texto sobre os Narcóticos Anônimos (NA). Trata-se de uma situação que denota um trabalho de perseverança de alguns adolescentes que mesmo diante da recusa inicial dos integrantes da entidade em conceder a entrevista, não se acomodaram, insistiram e ganharam a confiança desses usuários que acabaram consentindo com a realização da entrevista. Veja a seguir trecho de texto (as perguntas são antecipadas pelas iniciais JCS, Jornal da Costa e Silva, e as respostas pelas iniciais NA, Narcóticos Anônimos):

JCS Como é feito o atendimento?

NA Nós não chamamos de atendimento, pois aqui não é feito um atendimento. Nós nos ajudamos com nossas trocas de experiências, falando um com o outro e trocamos idéias.

JCS – Quem pode participar?

NA – Não somos filiados a nenhuma outra organização, não temos matrículas nem taxas, não há compromissos escritos, nem promessas a fazer a ninguém. Não estamos ligados a nenhum grupo político, religioso ou policial e, em nenhum momento, estamos sob vigilância. Qualquer pessoa pode juntar-se a nós, independentemente da idade, raça, identidade sexual, crença ou falta de religião.

JCS – Em que momento as pessoas percebem que precisam de ajuda?

NA – Quando chegam no fundo do poço. Quando começam a perder o controle, perder a namorada, o emprego, enfim, quando a família fica mais distante...”

Como pode ser observado, o texto extrapola a técnica da entrevista e acaba estabelecendo um diálogo, onde os entrevistadores sentem-se à vontade para fazer os questionamentos e os entrevistados demonstram confiança nos interlocutores quando assumem que chegaram ao ‘fundo do poço’. É aquilo que se pode classificar, segundo Edgard Morin, como ‘entrevista-diálogo’, em que “o entrevistador e o entrevistado colaboram no sentido de trazer à tona uma verdade que pode dizer respeito à pessoa do entrevistado ou a um problema”. (MEDINA, 1995: 15)

As páginas do jornal não estamparam apenas os resultados alcançados pelos adolescentes na oficina de jornalismo – deram visibilidade também à produção de outras oficinas constantes do projeto. Envolvidos numa programação multidisciplinar, esses adolescentes viram impressos nas páginas do jornal mural[5] uma mostra dos conhecimentos assimilados não apenas na oficina de jornalismo, como também nas oficinas de fotografia, de criatividade e de história oral.

Complexo São Marcos – Proposta semelhante foi apresentada no Complexo São Marcos em 2002. Em parceria com a ONG Associação Beneficente Direito de Ser, localizada no Jardim Campineiro, pesquisadores do Centro de Memória-Unicamp coordenaram oficinas de jornalismo, história oral, fotografia e criatividade que contaram com a participação de 20 adolescentes com idades entre 14 e 17 anos. Nas quatro oficinas realizadas, os adolescentes tiveram a oportunidade de conhecer melhor o bairro onde vivem e perceberam, entre outras descobertas, aspectos positivos que podem melhorar a auto-estima de seus moradores. Porém, o despreparo e a pouca disposição revelada por esses adolescentes ficaram expressas na brochura Complexo São Marcos: memória e identidade, publicação que reflete e materializa um pouco do que assimilaram durante as atividades. O número reduzido de textos (apenas seis), a baixa qualidade do material produzido (faltaram as informações básicas, transmitidas anteriormente a eles,  que regem a estrutura de um texto jornalístico) e a falta de iniciativa para buscar as informações não permitiram a elaboração de uma publicação nos moldes daquela produzida na Vila Costa e Silva.

Embora com idades avançadas e com grau de escolaridade que atingia a sétima série do ensino fundamental, muitos desses adolescentes não iam além da escritura do próprio nome. Outros haviam sido banidos da escola por mau comportamento e nenhum rendimento escolar. Adolescentes infratores também figuravam entre os participantes das oficinas – muitos ali estavam por obrigação, como uma espécie de pena cobrada pelo juiz que os colocara em liberdade assistida. Outros participavam como pré-condição para o recebimento de uma bolsa oferecida pelo Fundo de Solidariedade da Prefeitura Municipal de Campinas aos adolescentes em situação de risco integrados a trabalhos desenvolvidos por instituições do terceiro setor.

Na tentativa de um envolvimento de todo o grupo, mesmo considerando as limitações mencionadas, foi proposta a elaboração de texto conjunto em que os adolescentes procuravam apontar aspectos positivos e negativos do bairro. No início, houve por parte desses adolescentes muita resistência ao trabalho quando afirmavam que não havia o que destacar no aspecto positivo. Foi necessário fazê-los perceber a existência de instituições empenhadas em proporcionar uma melhoria na qualidade de vida dos moradores do local. Devagar, as ‘coisas’ boas foram surgindo e permitindo alimentar uma possível discussão de pauta. No texto coletivo, produzido a partir dos elementos apontados pelos adolescentes, nota-se que não foi necessário muito esforço para que reconhecessem algumas boas iniciativas como a Casa da Sopa, o Espaço Esperança e a abertura das escolas públicas aos finais de semana para práticas esportivas. Também foram produzidos textos que valorizam as pessoas do local, como as entrevistas feitas com uma artesã e com um artista plástico. Até uma espécie de ‘informe publicitário’ não pago (situação jamais imaginada em atividade daquela natureza)  foi produzido por um adolescente que pretendia fazer do texto um instrumento que facilitasse a obtenção de emprego em uma serralheria do bairro, como se pode observar a seguir: 

“Título: Serralheria Campineira. Texto: Alcir Barbosa é dono da Serralheria Campineira, fundada em fevereiro de 1992. Ele possui apenas um funcionário, mas sua mulher o auxilia no trabalho. Segundo Alcir, 44 anos, na época em que abriu sua oficina, nem imaginava conseguir tanto serviço no bairro São Marcos. Alcir conta que enfrentou muitos obstáculos e dificuldades, mas com união de sua esposa e após muitos anos de esforço, o serralheiro foi ganhando espaço e admiração por parte dos moradores e dos  freqüentadores de sua oficina. Sua oficina oferece os mais variados serviços. Faz grades, portões, lixeiras, etc”. 

Como se pode observar, o adolescente fez, guardadas as limitações, uso de artifícios para desferir elogios ao proprietário da referida serralheria, quando afirma que Alcir superou barreiras, ganhou espaço e admiração de moradores e que não imaginava conseguir ‘tanto’ serviço. Faz propaganda quando cita os itens produzidos e procura sensibilizar o proprietário ao afirmar que a oficina tem ‘apenas’ um funcionário. Texto como esse certamente não seria publicado em jornal comercial sem pagamento pelo espaço. Entretanto, diante da insistência do ‘repórter’ junto à coordenação da oficina de jornalismo e da proposta da publicação em abrigar diferentes textos, optamos por proporcionar ao autor o prazer (uma das atribuições da educação não-formal) de ver seu texto estampado na página 17 da brochura, precedido do indicativo “informe publicitário”. Dentre os aspectos negativos, a violência foi o tema predominante. Tiros à luz do dia, corpos baleados nas calçadas e o poder paralelo dos traficantes no bairro são ocorrências que não causam muito espanto entre os moradores.

Vila Castelo Branco – Das três experiências realizadas, a da Vila Castelo Branco foi a que alcançou melhores resultados: culminou com a publicação do fanzine Conexão Jovem[6], formato A-4 e tiragem de 1.000 exemplares. O trabalho realizado em 2003 no Projeto Gente Nova (Progen) – instituição voltada à educação não-formal que vem há 19 anos atuando no bairro –  contou com a participação de 23 adolescentes com idades entre 15 e 17 anos, divididos em dois grupos. A divisão das equipes foi feita pelos participantes, levando em consideração a amizade e a afinidade entre os adolescentes. De início, cada adolescente se apresentou, dizendo nome, idade, série e o nome da escola em que estuda. Em seguida, o coordenador da oficina explicou que o objetivo principal era a elaboração de um jornal comunitário que se apropriasse dos elementos do fanzine, com projeto gráfico leve, de fácil leitura e regido pela liberdade de expressão e de criação. Com o propósito de que todos contribuíssem de forma prazerosa para a elaboração do jornal, foi dada a eles a liberdade de escolha. Assim, foram surgindo os ‘fotógrafos’, os ‘ilustradores’, os ‘críticos’, os ‘poetas’, os ‘repórteres’. A partir da não imposição de tarefas aos participantes, a prática atendia a uma das características básicas da educação-formal, ou seja, procurou-se evitar a configuração de qualquer semelhança com a escola formal, afinal, a exemplo dos adolescentes das oficinas até então realizadas, os participantes da Vila Castelo Branco demonstraram aversão às iniciativas que remetiam às práticas em sala de aula.

Na primeira reunião de pauta o grupo sugeriu temas que abordassem fatos (violência, drogas, namoro, etc.), pessoas (moradores antigos, lideranças comunitárias, líderes espirituais, etc.) e instituições (Progen, Casa de Cultura Tainã, etc.) do bairro, além de seções que pudessem tornar a publicação mais leve como piadas, culinária, paródias, etc. Para conhecer melhor o perfil desses adolescentes, foram lançadas as seguintes perguntas: ‘O que é e para que serve um jornal impresso?’, ‘Você lê jornal? Com que freqüência e onde?’ e ‘Qual assunto de que mais gosta no jornal?’. As respostas traçam um perfil negativo, porém esperado: poucos possuem o hábito de ler, e quando assim o fazem, é por intermédio da escola ou do próprio Progen. Nota-se que, apesar de definirem o jornal como meio de comunicação social impresso que mostra as principais notícias do dia, o acesso à leitura é muito restrito e a maioria prefere se informar por meio de telejornais. Para muitos, a leitura de jornais, quando ocorre, se dá de forma obrigatória, como atividade em sala de aula.

No segundo encontro, foram distribuídas aos grupos as edições do dia dos dois jornais da cidade de Campinas, o Diário do Povo e o Correio Popular. Nessa atividade, os adolescentes tinham que escolher duas matérias de interesse. A atividade permitiu observar o comportamento dos adolescentes diante dos encartes dos jornais. Poucos foram aqueles que leram completamente as reportagens escolhidas, muitos deles se interessavam apenas pelos encartes de publicidade, pelas seções de horóscopo ou resumos de novelas. Quando abriam mão dessas ‘amenidades’, os textos sobre violência predominavam entre os temas escolhidos: de oito reportagens selecionadas pela turma 1, cinco delas abordavam o tema da violência. Uma outra notícia abordava o tema ‘novelas’, outra era sobre uma arma fabricada nos EUA e a última informava sobre o uso de preservativo pelos adolescentes. Na turma 2,  a atividade obteve resultados semelhantes: das oito reportagens escolhidas, três eram sobre violência e as demais abordavam esportes e outros assuntos variados.

Durante a discussão sobre o assunto violência – o mais escolhido por esses adolescentes –  percebeu-se que esse é o tema predominante quando os bairros onde vivem (Vila Castelo Branco e Vila Padre Manuel da Nóbrega) são notícia. A imprensa local (Diário e Correio) apenas apresenta os fatos negativos dos bairros, ou seja, os jornais somente publicam acontecimentos trágicos e polêmicos. Enquanto folheava o Diário do Povo, um aluno lembrou de uma edição em que o jornal estampava reportagem sobre o tráfico de drogas e de um plantio de alguns pés de maconha em uma praça pública do bairro. Outros lembraram que o bairro normalmente ganha as páginas dos jornais quando o assunto é droga, violência ou crime.[7] Têm consciência de que são raras as notícias sobre cidadania, educação, cultura ou aquelas que informam sobre os eventos e atividades do local – notas que permitem que a comunidade se reconheça nas páginas dos jornais. Não raro essa comunidade só é alvo de notícia em grandes jornais e revistas quando ocorrem fatos de muita importância ou quando uma grande tragédia abala ou comove a opinião pública. É exatamente a mesma coisa que acontece no sistema mundial de informação. “Um país pobre só é notícia para as grandes agências que monopolizam a informação internacional quando ali ocorrem desastres, golpes de estado ou fatos insólitos”. (CALLADO e ESTRADA, 1986: 07).

Feita essa constatação, foi explicada a importância de desenvolver, como produto da oficina de jornalismo, um jornal que fosse na contramão de tudo aquilo que é publicado pela imprensa local (basicamente violência e criminalidade) sobre os bairros periféricos de Campinas. Os adolescentes perceberam a importância de destacar temas que abordassem o cotidiano do local, temas que elevassem a auto-estima e que despertassem o sentimento de pertencimento social ao espaço da cidade onde residem. As experiências desenvolvidas nos três bairros mostram que esse sentimento só se torna possível por meio do conhecimento aprofundado dos bairros e da cidade, constituindo a base fundamental para a formação do espírito de cidadania entre os adolescentes, ao permitir que eles se sintam como membros atuantes da comunidade nesses bairros. A produção de um jornal comunitário que destaque os aspectos locais positivos é um reflexo desse sentimento.

A primeira edição do Conexão Jovem[8] expressa essa busca pela valorização das pessoas e de fatos do bairro e adjacências. Nas 12 páginas da publicação há, por exemplo, textos sobre a Casa de Cultura Tainã, entidade localizada na Vila Padre Manoel da Nóbrega, sobre a Escola de Samba Rosas de Prata, que completa 30 anos em 2005 e sobre o Projeto Gente Nova (história da entidade e entrevistas com pessoas que atuam na ONG). Há espaço em que os adolescentes expressam opinião sobre educação, drogas, violência, namoro, juventude e cidadania. Crítica de cinema, paródia, poesia e ilustrações projetam uma faceta ainda mais leve da publicação. ‘Poetas’, ‘articulistas’ e ‘ilustradores’, em trabalho conjunto (o ilustrador expressa por meio do desenho a leitura que faz do texto), percebem sua arte reproduzida e apreciada pela comunidade. Orgulhosos, sentem-se valorizados. Concedem entrevistas à emissora Espaço Aberto (rádio-escola local) e são citados por professores em sala de aula como ex-alunos e exemplos a serem seguidos[9].  

Um dos artigos faz uma relação entre drogas, violência e morte. Sob o título “As drogas no Brasil”, o texto revela não apenas a opinião do adolescente sobre o tema como apresenta a sua interpretação ao afirmar que a droga afeta a vida do cidadão brasileiro. Eis a íntegra do texto:

“No decorrer dos anos, as mortes pelo uso de drogas aumentaram no Brasil. Enquanto em outros países algumas drogas são usadas como remédios, no Brasil, oferecem mais e mais drogas que não têm valor medicinal, só alucinógeno. As drogas mais usadas são a maconha, a cocaína e o crack. Prejudicam a vida dos usuários porque quando a pessoa adquire o vício e não tem dinheiro para mantê-lo, ela muitas vezes rouba tanto outras casas como também a sua própria. Além disso, podemos citar os danos mentais e físicos que causam em seus dependentes. As mortes também são causadas pelos usuários como em acertos de conta e vingança contra os que não pagam os traficantes. Ou seja, as drogas agravam o nível de vida da sociedade brasileira”.

Como se observa, o artigo reflete uma das linhas que regem os princípios da educação não-formal, ou seja, foram respeitadas a bagagem cultural e a habilidade dos participantes. O autor, consciente da realidade em que vive, optou por se expressar por meio de um artigo pois sabia dos riscos se partisse para a realização de uma entrevista. Portanto, a seu modo, não fez vistas grossas para um assunto corrente em seu cotidiano. Conexão Jovem permitiu, também, dar visibilidade aos trabalhos feitos pelos adolescentes em outras oficinas coordenadas pelos pesquisadores do Centro de Memória-Unicamp. As páginas centrais apresentam imagens legendadas que revelam o olhar dos adolescentes sobre o bairro a partir da orientação assimilada oficina de fotografia. Houve também uma interação com a oficina de história oral em que na reportagem com o presidente da escola de samba local, foram inseridos trechos de depoimentos concedidos aos entrevistadores daquela oficina.

Nas oito semanas de atividades[10] foi possível observar o envolvimento e o interesse de cada um dos participantes e também as dificuldades individuais durante o trabalho de redação de textos. Se, por um lado, as limitações e a pouca disposição apresentadas por alguns adolescentes para a produção de um texto jornalístico tornavam difícil realização da proposta, por outro lado, foi dada a eles a oportunidade de livre criação. Aqueles que se dispuseram à realização de um trabalho jornalístico foram orientados, fizeram as entrevistas e redigiram os textos, curtos, diretos, às vezes em tom de relatório, mas com a carga informativa que atendia a proposta da atividade. Para que os textos ‘jornalísticos’ apresentassem as mínimas condições de publicação, o trabalho foi desenvolvido seguindo algumas etapas: sugestão de temas inseridos no cotidiano da comunidade,  discussão do conteúdo produzido, questionamento das idéias dúbias ou incompletas e acréscimo de dados que complementassem as informações.[11]

Conclusão – A partir das três experiências realizadas, percebe-se claramente que o trabalho se deu num processo contínuo de aprendizado mútuo. Se a iniciativa de elaboração de um jornal consistiu em novidade para os adolescentes, a transmissão do conhecimento e o meio utilizado para a materialização dos ensinamentos também foi uma atividade inédita para o jornalista. Buscamos detectar e corrigir falhas cometidas na Vila Costa e Silva e no Complexo São Marcos, principalmente no que diz respeito ao interesse demonstrado pelos participantes. Numa primeira análise convém ressaltar que a prática da educação não-formal nunca havia sido aplicada com os adolescentes da Vila Costa e Silva – tanto é que eles insistiam em se reportar ao coordenador como ‘professor’. No processo de seleção ficou evidente que almejavam cursos profissionalizantes com entrega de certificado que os qualificassem num processo de busca de empregos. Embora tivessem apresentado uma produção – foram elaboradas duas edições do Jornal da Costa e Silva por turmas diferentes – a devolução dos textos (reportagens, artigos, etc.) deu-se num processo semelhante à entrega de redação (‘dever de casa’) ao ‘professor’ para posterior avaliação.  

No Espaço Esperança, no Jardim Campineiro, os adolescentes tinham duas procedências: do próprio Espaço Esperança, que a exemplo dos adolescentes da Costa e Silva desconheciam totalmente práticas de educação não-formal e os adolescentes da ONG Direito de Ser, organização que tem incluídas entre suas atividades práticas no campo da educação não-formal. Não por acaso, os adolescentes que apresentaram efetiva produção para a realização da brochura eram aqueles inseridos nos programas da ONG. Os adolescentes vinculados ao Espaço Esperança nada produziram e não se sentiram incomodados por isso. 

Percebemos que a aplicação dos conceitos que norteiam a conduta da educação não-formal efetivou-se, realmente, no Progen, na Vila Castelo Branco. Da postura do jornalista no tratamento direto com os adolescentes à distribuição espacial dos móveis na sala onde ocorreram os encontros, todo o processo visou a realização de um trabalho feito com prazer, sem cobranças ou repreensões. Mostra disso é que o quarto número de Conexão Jovem está em curso, com a participação daqueles que solicitaram a continuidade do trabalho e de outros adolescentes que por meio da boa repercussão da primeira edição do jornal pediram sua inclusão no projeto. É a efetiva abertura de espaço a grupos marginalizados cultural e geograficamente.    

Referências Bibliográficas

AFONSO, Almerindo Janela. “Sociologia da educação não-escolar: reactualizar um objetivo ou construir uma nova problemática?”, in A. J. Esteves e S. R. Stoer (orgs.), A sociologia na escola. Porto: Afrontamento, 1989.
BAHIA, Juarez. Jornal, história e técnica – as técnicas do jornalismo (2). São Paulo: Ática, 1990.

BELTRÃO, Luiz. Folkcomunicação: a comunicação dos marginalizados. São Paulo: Cortez, 1980.
BUENO, Wilson. “A imprensa comunitária do interior: uma tentativa de sistematização” in Cadernos de jornalismo e editoração (n.11), ECA-USP, s/d.

CALLADO, Ana Arruda; ESTRADA, Maria Ignez Duque. Como se faz um jornal comunitário. Petrópolis: Vozes, 1986.

CARNICEL, Amarildo. “Jornal comunitário e integração social: elementos para a realização de trabalhos em comunidades de bairro”, in Revista de estudos do curso de jornalismo, n. 7 Campinas: Gráfica da Puccamp, 2003.

DUNCOMBE, S. Notes from underground: zines and the politics of alternative culture. London: Verso, 1997.

GUIMARÃES, Edgard.
Fanzine. Brasópolis: edição do autor, 2000.

MAGALHÃES, Henrique. “A mutação radical dos fanzines”. In: Anais do XXVI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. Belo Horizonte: Intercom, 2003.
_____.O que é fanzine. São Paulo: Brasiliense, 1993.
_____. O rebuliço apaixonante dos fanzines. João Pessoa: edição do autor, 1994.
MEDINA, Cremilda de Araújo. Entrevista: o diálogo possível. São Paulo: Ática, 1995.
SIMSON, Olga R. de Moraes; PARK, Margareth Brandini; FERNANDES, Renata Sieiro. Educação não-formal – cenários da criação. Campinas: Editora da Unicamp, 2001.
WONDRACEK, Claude. “O jornal do interior na era tecnológica” in Cadernos de jornalismo e editoração – Estudos Sobre a Imprensa Comunitária (n. 10). São Paulo: COM-ARTE, 1978.


[1] O projeto vem recebendo sistematicamente apoio do CNPq e da Fapesp.

[2] O Complexo São Marcos é formado pelos bairros Jardim São Marcos, Jardim Campineiro, Recanto Fortuna, Jardim Santa Mônica e Chácara dos Amarais.

[3] Além da oficina de jornalismo, o projeto oferece oficinas de fotografia, história oral, criatividade, hip-hop, vídeo, samba de raiz, teatro de rua e informática.

[4] Quando o assunto é fanzine, quatro trabalhos produzidos por dois autores devem ser consultados: O que é fanzine (Brasiliense, 1993), O rebuliço apaixonante dos fanzines (edição do autor, 1994), A mutação radical dos fanzines (paper apresentado no Intercom, realizado em 2003, em Belo Horizonte), de Henrique Magalhães; e Fanzine (edição do autor, 2003), de Edgard Guimarães.

[5] As duas edições foram apresentadas aos adolescentes no encerramento das oficinas no Centro de Pastoral da Igreja de São Benedito. As edições também foram impressas em formato A-4 e entregues aos adolescentes.

[6] O nome do jornal, Conexão Jovem, foi escolhido a partir de votação feita entre todos os participantes da oficina. ‘Agente Adolescente’, ‘Jornal da Comunidade’, ‘Nosso Jornal’ e ‘Correio da Vila’ foram algumas das sugestões submetidas à votação.

[7] Está em de curso um levantamento que venho realizando a partir de recortes dos jornais de Campinas Correio Popular e Diário do Povo no período de 05 de novembro de 2003 a 01 janeiro de 2004. Uma primeira amostragem evidencia que os três bairros pesquisados são notícia quando o assunto é violência e criminalidade. Neste período, a única matéria positiva foi publicada em 1o. de janeiro de 2004 quando o Correio Popular destinou uma página (com foto principal de capa) ao trabalho que o Centro de Memória-Unicamp realiza no Progen. Deve ser ressaltado que a pauta surgiu a partir de sugestão feita pelo Centro de Memória à reportagem do jornal.

[8] A primeira edição do jornal com tiragem de 1.000 exemplares, a pedido do Serviço de Assistência Social do Progen, foi custeado pela presidência da Câmara Municipal de Campinas. Seguindo a premissa de que o veículo comunitário em desenvolvimento não deve servir de palanque, tampouco de instrumento na mão de político, a contrapartida do jornal em reconhecimento à ação do Legislativo não foi além de uma breve citação (neutra e sem adjetivos) no texto de apresentação da edição.

[9] A repercussão gerada pelo Conexão Jovem vai além dos dois exemplos ora citados (o assunto vem sendo tratado com mais atenção em pesquisa em curso para posterior reflexão em artigo a ser produzido).   

[10] O tempo destinado para a realização das Oficinas de Jornalismo (oito encontros) é suficiente apenas para a publicação da primeira edição do jornal em desenvolvimento. Ou seja, é o tempo de plantar a semente e sugerir que seja o início de um trabalho que pode ter continuidade, atendendo, dessa forma, à proposta inicial do projeto geral coordenado pelo Centro de Memória-Unicamp.

[11] O trabalho dos adolescentes não inclui a atividade de editoração eletrônica (paginação). Dessa forma, a montagem do jornal foi feita pelo coordenador da atividade.