“Estendendo
o Jornal e a Informação à Comunidade”
Carmen
Lozza
Jornal O Globo, RJ
A
Mesa-redonda “Estendendo o Jornal e a Informação à Comunidade” teve um
caráter amplo, pois contou com integrantes de diferentes segmentos sociais: um
representante do Poder Público – a gerente geral do Projeto Farol do Saber,
da Secretaria Municipal de Educação de Curitiba/PR, sra. Rosane Carvalho Polli
, um representante de uma empresa jornalística, o jornal A NOTÍCIA, de
Joinville, coordenador do programa de Jornal-Educação, o ANEscola, sr. Marcelo
Garcia Serpa e um professor/pesquisador da PUC- Campinas, sr. Amarildo B.
Carnicel, tendo sido moderadora da mesma a professora Carmen Lozza, diretora do
Programa Jornal-Educação, da Associação Nacional de Jornais e coordenadora
pedagógica do Programa QUEM LÊ JORNAL SABE MAIS, de O GLOBO – Rio de
Janeiro/RJ.
A
principal intenção da Mesa foi apresentar três experiências que tratam do
acesso à informação por parte da população e, apesar de ter tido um
reduzido público (cerca de 30 pessoas), contou com um interessante momento
final de debate entre os integrantes da Mesa e os presentes.
O
relato de Rosane tratou, por meio de uma apresentação acompanhada de imagens
ilustrativas, dos espaços de leitura (bibliotecas) que hoje funcionam na
capital paranaense, os quais (são 48) também se constituem em locais que
facilitam o acesso à Informática por parte dos usuários de diversos bairros
da cidade.
Marcelo
Serpa explicou para os presentes o projeto que coordena, a orientação dada aos
professores que se inscrevem e o alcance da ação do ANESCOLA no estado de
Santa Catarina. São realizadas visitas de acompanhamento do trabalho nas
escolas e desenvolvidas oficinas diversas sobre a utilização do jornal em sala
de aula.
Já o professor Amarildo (texto anexo) apresentou o processo de produção de um jornal comunitário, por ele compreendido como uma estratégia de educação não-formal. São atividades em forma de oficinas de jornalismo realizadas na Vila Costa e Silva, em 2001, no Complexo São Marcos, em 2002 e na Vila Castelo Branco, em 2003 e 2004 – bairros periféricos de Campinas (SP). Reflete os percursos e os resultados alcançados, evidenciando, entre outros aspectos, que a atividade, à medida que se afasta do modelo praticado na escola formal, ganha em qualidade e interesse dos adolescentes envolvidos.
ANEXO
Jornal
comunitário e educação não-formal: uma estratégia de comunicação
Amarildo
B. Carnicel
Faculdade
de Jornalismo – Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas)
Faculdade
de Educação - Universidade
Estadual de Campinas (Unicamp)
Resumo
O artigo analisa três experiências que mostram, por meio de uma pesquisa-ação, o processo de produção do jornal comunitário como estratégia de educação não-formal. São atividades em forma de oficinas de jornalismo realizadas Vila Costa e Silva, em 2001, no Complexo São Marcos, em 2002 e na Vila Castelo Branco, em 2003 e 2004 – bairros periféricos de Campinas (SP). Reflete os percursos e os resultados alcançados, evidenciando, entre outros aspectos, que a atividade, à medida que se afasta do modelo praticado na escola formal, ganha em qualidade e interesse dos adolescentes envolvidos.
Palavras-chave
Comunicação
e educação; Jornal comunitário; Educação não-formal
Corpo
do trabalho
A
criação de um jornal comunitário feito por adolescentes consiste,
historicamente, em enorme desafio, tanto do ponto de vista de quem se proponha a
dirigir as ações como do ponto de vista dos atores que serão os responsáveis
pela elaboração da nova publicação. Dentre as inúmeras dificuldades que
devem ser vencidas, há uma, em especial, que pode ser destacada: a busca de um
mecanismo de produção e de diálogo que minimize aquele que se constitui no
maior entrave para uma produção dessa natureza, ou seja, o nível
sociocultural em que estão inseridos os adolescentes, protagonistas dessa ação.
O presente artigo, resultado de trabalho em oficina de jornalismo que integra o
projeto intitulado “Memória, qualidade de vida e cidadania: história dos
bairros populares de Campinas”, desenvolvido por pesquisadores do Centro de
Memória-Unicamp, apresenta os percursos e condutas (com erros e acertos) e
resultados de três experiências coordenadas por um jornalista e realizadas em
instituições sediadas em bairros periféricos de Campinas, interior de São
Paulo.[1]
As
experiências aqui narradas integram trabalho de pesquisa-ação desenvolvido no
Centro de Pastoral da Igreja de São Benedito, na Vila Costa e Silva (em 2001),
na ONG Direito de Ser, no Complexo São Marcos (em 2002)[2]
e no Projeto Gente Nova (Progen), na Vila Castelo Branco (em 2003 e 2004). Neste
trabalho, pesquisadores e voluntários do Centro de Memória-Unicamp vêm
coordenando uma série de oficinas em diferentes áreas[3]
que proporcionam aos adolescentes auto-conhecimento, melhor compreensão sobre o
local onde residem e reconstrução da auto-estima. O presente trabalho tem como
recorte a oficina de jornalismo, analisa os percursos e os resultados das
atividades desenvolvidas e mostra como a relação educação não-formal e
jornal comunitário, tendo como produto a elaboração de um fanzine, pode
despertar sentimentos e aflorar talentos e habilidades que ficam em repouso por
falta de oportunidade.
Para
melhor compreensão, consideramos válido apresentar as definições de educação
não-formal, jornal comunitário e fanzine, modalidade
jornalística utilizado no trabalho na Vila Castelo Branco e que gerou o
melhor resultado dentre as três experiências realizadas. Por conta disso, esse
estudo, com base no trabalho realizado na Vila Costa e Silva, que teve como
resultado a produção de um jornal mural e no Complexo São Marcos, que
culminou com a elaboração de uma brochura, procura detalhar e analisar com
maior profundidade a atividade realizada na Vila Castelo Branco materializada na
publicação do fanzine Conexão Jovem, conforme veremos mais adiante.
Educação
não-formal – Começamos,
então, por educação não-formal, área do conhecimento que norteou todas as
atividades, não apenas no campo do jornalismo, como também em todas as
oficinas do projeto. O que é, afinal, educação não-formal?
Para uma melhor tentativa de explicação, optamos pela definição
concisa elaborada por AFONSO (1989: 78) sobre os termos educação formal, educação
não-formal e educação informal:
“Por
educação formal, entende-se o tipo de educação organizada com uma
determinada seqüência e proporcionada pelas escolas enquanto que a designação
de educação informal abrange todas as possibilidades educativas no decurso da
vida do indivíduo, constituindo um processo permanente e não organizado. Por
último, a educação não-formal, embora obedeça também a uma estrutura e a
uma organização (distintas, porém, das escolas) e possa levar a uma certificação
(mesmo que não seja essa a finalidade), diverge ainda da educação formal no
que respeita à não fixação de tempos e locais e à flexibilidade na adaptação
dos conteúdos de aprendizagem a cada grupo completo”.
Convém
salientar que educação não-formal e educação não-escolar não são sinônimos.
SIMSON, PARK e FERNANDES (2001: 10) explicam que “o termo não-escolar é mais
amplo e inclui o não-formal e o informal”.
A
atividade da educação não-formal, portanto, ocorre paralelamente à escola,
fora do horário escolar. Para a obtenção de melhores resultados, convém
realizar as atividades fora do ambiente escolar – as experiências na Vila
Costa e Silva, no Jardim Campineiro e na Vila Castelo Branco revelaram que os
adolescentes têm resistência a qualquer iniciativa que remeta à escola, espaço
normalmente marcado pela falta de liberdade, repreensão, cobrança e avaliação.
Cabe, no momento, fazer uma análise do trabalho realizad nos três espaçs
que abrigaram as oficioas de jornalismo. Enquanto no Centro de Pastoral da
Igreja de São Benedito (Vila Costa e Silva) e no salão comuoitário Espaço
Esperança, cedido à ONG Direito de Ser (Jardim Campineiro), o mobiliário era
composto de lousa, mesa do professor e carteiras para alunos – reprodução
exata do ambiente em que os adolescentes viveram no período da manhã – no
Progen (Vila Castelo Branco) a disposição dos móveis elimina, de imediato, o
estabelecimento de uma hierarquia. O pesquisador que coordena a oficina e os
adolescentes sentam-se ao redor da mesa em que acontecem as atividades. Essa
proximidade elimina as barreiras, quebra hierarquias e, conseqüentemente,
facilita o diálogo. A disposição dos móveis na sala, bem como a dinâmica
aplicada durante as atividades, permitem a configuração de um cenário
proposto por SIMSON, PARK e FERNANDES (2001: 11), quando sugerem:
“Os
espaços de educação não-formal deverão ser desenvolvidos seguindo alguns
princípios básicos como: apresentar caráter voluntário, proporcionar
elementos para a socialização e a solidariedade, visar ao desenvolvimento
social, evitar formalidades e hierarquias, favorecer a participação coletiva,
proporcionar a investigação e, sobretudo, proporcionar a participação dos
membros do grupo de forma descentralizada”.
O
que se constata a partir dessa fundamentação é que os adolescentes querem
desenvolver atividades prazerosas e assimilar conhecimentos por meio de
mecanismos diferentes daqueles historicamente aplicados no espaço escolar,
embora muitas vezes – e esse não é o objetivo – as iniciativas de educação
não-formal acabem compensando as falhas cometidas pelo sistema de ensino
aplicado nas escolas. Para melhor compreensão da atividade de educação não-formal,
convém lembrar que a prática normalmente ocorre em instituições, associações,
ONGs, etc. que atuam junto as camadas mais pobres da sociedade, tendo como público-alvo
crianças e adolescentes muitas vezes afastados da escola formal pelo processo
denominado de exclusão escolar, portanto, mais próximos ao mundo da rua –
cenário que se aplica à ONG Direito de Ser, no Jardim Campineiro. Há,
entretanto, instituições que atuam na área da educação não-formal com um
caráter mais preventivo e que, entre outras exigências, apresentam como condição
à inclusão em seus programas, o vínculo – e muitas vezes um bom desempenho
– na escola formal. As experiências realizadas nas vilas Costa e Silva e
Castelo Branco revelam essa preocupação.
Jornal
comunitário: características e atribuições – O
projeto de oficina de jornalismo vislumbra a produção de jor~al comunitário
como estratégia de educa÷ão não-formal. Eotretanto, quais são as características
e atribuições que fazem do jornal comunitário um segmento específico da mídia
impressa? São muitas as peculiaridades que distinguem o jornal comunitário do
jornal de médio ou de grande porte. Trata-se de um veículo cujo objetivo
principal é dar voz aos membros da comunidade e estabelecer um fórum de diálogo,
de exposição de idéias, de divergências e de reivindicações, conforme
assinalam CALLADO e ESTRADA (1986: 8): “A função do jornal comunitário
transcende o caráter da informação, tornando-se um instrumento de mobilização
que estabelece a verdadeira comunicação entre os membros da comunidade, o
debate de seus problemas e a participação de todos nas soluções a serem
dadas”. BAHIA (1990: 245) segue a mesma linha de raciocínio ao afirmar que
“o jornal comunitário não na medida em que concentra notícias e opiniões,
mas na proporção em que evoca a cidadania, se diversifica e se multiplica para
dar voz ao maior número de correntes numa comunidade”.
O
jornal comunitário também pode cumprir a função de buscar atender aos
anseios da comunidade e divulgar as suas realizações, podendo se constituir em
fonte de promoções comunitárias, oferecer caminhos para soluções de
problemas, organizar eventos e liderar campanhas para a construção de escolas
e postos de saúde, etc. Nesse sentido, WONDRACEK (1978: 24) afirma: “São
iniciativas que comportam a liderança de um jornal, desde que tenham a
finalidade de promover o bem coletivo”. Cabe lembrar que para muitos leitores
que se informam em outros periódicos, o jornal comunitário tem fun÷ão
complementar. Segundo BUENO (s/d: 12), “leitura de jornais em geral e a
leitura de jornais comunitários reforça a velha tese de que os meios de
comunicação não se excluem mas se sobrepõem”. De fato, segundo CARNICEL
(2003) as formas de abordagem e as reflexões sobre um determinado assunto,
contidas eventualmente nos dois veículos (o de grande circulação e o comunitário),
podem ampliar o leque de informações e oferecer elementos distintos para a
formação de opinião do público leitor.
Fanzine: conteúdo e história
– Há diferentes
modalidades que podem ser aplicados no segmento
jornal comunitário e a definição certamente procurará atender ao público-alvo.
Após duas tentativas em oficinas realizadas na Vila Costa e Silva, que culminou
com a publicação de um jornal-mural, e no Complexo São Marcos, que teve como
resultado a produção de uma brochura, propusemos aos adolescentes elaborar na
Vila Castelo Branco um fanzine, modalidade de publicação mais apropriada para
o diálogo com o público jovem. Não são muitos os autores brasileiros[4] que se debruçaram sobre
conceitos que pudessem explicar o termo fanzine com maior propriedade. O termo,
cunhado em 1942 por Russ Chauvenet, vem da junção das palavras inglesas fanatic
(fanático) e magazine (revista). Há
autores que definem fanzine como o trabalho de elaboração de um
veículo de comunicação, feito por amadores, sobre um tema específico
ou superespecífico ligado ao mundo das artes. Há fanzines, por exemplo, que
falam de ficção científica, cinema, televisão, teatro, fotografia, design,
quadrinhos (HQ), artes plásticas, literatura, música, etc. Há fanzines que se
caracterizam pela superespecialização quando no mundo da música, por exemplo,
optam pelo recorte do rock, ou seja, nenhum outro gênero musical tem espaço na
publicação, conforme afirma DUNCOMBE (1997: 9) “são publicações devotadas
a discutir as particularidades e nuanças de um gênero cultural”. Mas cultura
não é o único mote que dá origem à produção de fanzines. Temas ligados à
política (anarquismo, nazismo, comunismo), comportamento (movimento punk,
feminismo e mundo GLS), astronomia (lua, marte, cometas), entre outros, têm
originado publicações em diferentes países.
Há,
contudo, autores que estendem a definição de fanzine para a produção de
publicações, também amadoras, que não dão foco somente a uma determinada
arte ou hobby. MAGALHÃES (2003), busca em BELTRÃO (1980) elementos que apontam
que o fanzine também é o espaço para a manifestação de grupos que estão à
margem da grande imprensa.
“Em
seus estudos sobre a comunicação popular, Luiz Beltrão entende que esta não
deve se restringir à expressão de grupos marginalizados cultural e
geograficamente. Para ele, as pesquisas devem se estender a outros setores excluídos,
sem acesso aos meios de massa, pela sua posição filosófica e ideológica
contrária às normas culturais dominantes, setores que se poderiam classificar
de contraculturais. Essa definição contempla a produção dos fanzines, que não
são só veículos de grupos de fãs, mas também de grupos que não possuem
acesso à grande imprensa”. (MAGALHÃES, 2003: 2).
É
esta a definição que fundamenta a criação e norteia o trabalho no fanzine Conexão
Jovem, feito pelos adolescentes da Vila Castelo Branco, pessoas que têm
acesso mais restrito aos meios de comunicação. A publicação é pautada pela
ampla liberdade de criação, de novas idéias, de experimentação de estéticas
e linguagens – atributos impossíveis de serem testados e realizados
simultaneamente nos meios de comunicação de massa.
Se
por um lado o Conexão Jovem é concebido valendo-se de teorias
desenvolvidas e publicadas há mais de duas décadas, conforme citamos BELTRÃO
(1980), a sua forma atual de elaboração,
no entanto, foge ao purismo que sempre norteou os meios de produção
artesanal dos fanzines. Pesquisadores apontam que o surgimento do fanzine no
Brasil remonta a 1965, quando o grupo ‘Intercâmbio ciência-ficção Alex
Raymond’, de Piracicaba (SP) publicou o primeiro exemplar na área de ficção
científica. O meios de produção eram extremamente rudimentares – e assim
permaneceram por décadas, apesar do advento da informática que veio facilitar
o processo de confecção e de reprodução das publicações. Textos e títulos
manuscritos ou produzidos em máquinas de escrever, recortes de artigos e de
fotografias publicadas em jornais e revistas, desenhos produzidos à mão
compunham basicamente o conteúdo editorial dos fanzines. Cola, tesoura e uma
folha de papel eram utilizadas na montagem. Mimeógrafos e fotocopiadoras eram
os meios de impressão. Muitos ‘zineiros’ (pessoas envolvidas no processo de
produção, desde o texto até a distribuição), fiéis ao modo artesanal de
produção, resistiram aos avanços da informática e mantiveram, durante anos,
esse sistema artesanal. Em Conexão Jovem, esse purismo é mantido apenas
na forma de expressão, em que os adolescentes são os autores dos textos
publicados – embora submetidos a um trabalho de copidesque – e dos
desenhos feitos a lápis, meio muito distante dos recursos de informática como
o Corel Draw, um dos softwares mais utilizados na área da ilustração.
Afora isso, dentro das limitações de recursos, o fanzine da Vila Castelo
Branco valeu-se dos avanços da tecnologia. Os textos manuscritos foram
digitalizados no software de redação Word. Alguns foram transmitidos ao
editor via e-mail. As fotos e as
ilustrações passaram pelo software de tratamento de imagem Photoshop e
a etapa de paginação
foi
realizada no software Pagemaker. No sistema de impressão também se
percebe um avanço em relação aos meios tradicionais: o mimeógrafo e a
fotocopiadora foram substituídos pelo sistema off-set, permitindo maior agilidade na impressão (a primeira edição
teve 1.000 exemplares) e melhor qualidade do material, uma vez que foram
produzidos fotolitos de todas as páginas. O uso da tecnologia pelo fanzine vem
gerando novas formas de comunicação. Se o advento da fotocopiadora provocou
uma revolução nos fanzines nos anos 70 – até então as produções eram
feitas em mimeógrafos à tinta e a álcool – e a informática facilitou os
meios de elaboração e de reprodução nas décadas seguintes, a Rede Mundial
de Computadores, a Internet, nos anos 90, chegou para derrubar todos os limites
que faziam desse tipo de publicação um produto underground. Surgiram os
e-zines, ou fanzines virtuais. Alguns chegaram até a assumir o formato
de newsletter, informativos enviados por e-mail com certa regularidade.
Os
fanzines são essencialmente amadores, livres de censura. São produções
elaboradas por adolescentes que querem se expressar mas que não têm outro espaço
para fazê-lo. Produzem uma comunicação gerada por um desejo de transpor o tédio,
de encontrar pessoas em situação semelhante e a partir desse encontro
compartilhar idéias, opiniões e, conseqüentemente, elevar a auto-estima.
DUNCOMBE (1997: 44) afirma: “Parte da motivação é a solidão, pura e
simples. Zineiros podem não ser capazes de se comunicar bem cara a cara, mas
como a maioria das pessoas eles querem companhia”. Esse traço psicológico é
facilmente percebido entre os adolescentes que fazem o Conexão
Jovem. Uma parcela não superior a 20% dos adolescentes mostrou-se
desinibida. Esses adolescentes, de fato, foram os que mais produziram, os que
apresentaram maior número de sugestão de pauta. Os demais, por seu turno,
inibidos, limitavam-se a atender aos pedidos. Isolados, elaboraram produções
intimistas, introspectivas, como poesias e ilustrações. Os ‘inibidos’
geraram a arte, a produção livre, sem censura, que deve ser o principal
produto de um fanzine. Os ‘inibidos’ geraram elementos para a elaboração
de um jornal com apresentação gráfica mais bonita, mais leve, com um discurso
visual mais próximo não apenas de quem produz, como, principalmente, do público-alvo.
Os ‘inibidos’, marcados por um constante processo de subestimação, ficaram
orgulhosos quando viram suas produções impressas nas páginas do jornal e
sentiram-se valorizados junto à comunidade. Dessa forma, constata-se, então, o
atributo do fanzine assinalado por DUNCOMBE (1997), quando afirma que o veículo
“dá voz” aos exilados cultural e socialmente.
Três
experiências: percursos e resultados – Durante
as oficinas de jornalismo foram apresentados os objetivos e a dinâmica das
atividades. Foi exposto que o projeto deveria culminar com a produção de um
jornal comunitário. Houve discussão com os adolescentes sobre a importância
do jornal enquanto agente transformador da sociedade e sua função enquanto órgão
de prestação de serviço junto à sociedade a que se destina. Foram
apresentados alguns conceitos para o trabalho do jornalista como notícia,
reportagem entrevista pingue-pongue, lead, título, legenda e reunião de pauta.
As funções do repórter e do editor bem como o tratamento que deve ser dado às
fontes também foram mote para as discussões.
Foram
transmitidos conceitos inerentes ao jornal comunitário e sua importância
enquanto porta-voz da sociedade que o produz. Procurou-se analisar o veículo
como instrumento de comunicação que vai muito além de um informativo que
narra fatos ocorridos no bairro. Durante o desenvolvimento dos trabalhos alguns
adolescentes mostraram-se atentos à importância do jornal como meio de integração
social, de aprendizado profissional, e acima de tudo, como veículo de mobilização
da comunidade. Durante os encontros, quando foram distribuídos exemplares dos
dois principais jornais locais de Campinas, Correio Popular e Diário
do Povo, os adolescentes, indistintamente, perceberam que o jornal comunitário
pode preencher a lacuna deixada por esses veículos, publicações em que essas
comunidades não se reconhecem, conforme demonstraram alguns integrantes do
projeto. Razão: a Vila Costa e Silva, o Complexo São Marcos e a Vila Castelo
Branco somente figuram na pauta desses jornais quando a notícia é ruim.
Sob a ótica da mídia, a localização periférica desses bairros e a baixa
renda de seus moradores fazem com que fiquem relegados a um segundo plano.
Quando noticiados, o espaço reservado, invariavelmente, é o da página de polícia.
Feita
essa constatação, foi exposto aos adolescentes que deveriam produzir notícias
diferentes daquelas estampadas no Correio Popular e no Diário do Povo.
Foram solicitadas sugestões de pautas que poderiam figurar nas páginas do
jornal. A partir das sugestões (espontâneas e orientadas) e discussão dos
temas, foram constituídos grupos para a realização de tarefas específicas
que compreendiam atividades de reportagem, redação, registro fotográfico e
ilustração. Era o início de uma integração social que extrapolava o
relacionamento escolar. Os adolescentes, a partir de então, poderiam se engajar
numa tarefa de grande responsabilidade que tinha além do caráter informativo,
a missão de oferecer ao leitor elementos para a formação de opinião. Foi
proposto que se empenhassem na produção de material que valorizasse as coisas e as
pessoas da comunidade. Guardadas as proporções e as peculiaridades de cada
bairro, essa proposta de trabalho foi repetida nas três experiências. Apesar
da semelhança metodológica, as respostas,
no entanto, foram muito diferentes, conforme poderemos observar a seguir.
Vila
Costa e Silva –
As atividades na Vila Costa e Silva foram realizadas no Centro de Pastoral da
Igreja de São Benedito em 2001. Nesta experiência participaram 72 adolescentes
com idades entre 11 e 16 anos. Filhos de pais com baixa qualificação
profissional, os participantes eram alunos do período matutino em escolas
estaduais. Reservaram, portanto, o período da tarde para a participação de
oficinas. Os 72 adolescentes (selecionados de um universo de 119 interessados)
foram distribuídos em quatro grupos (A, B, C e D), sendo as turmas A e B com
adolescentes com idades entre 11 e 13 anos e as turmas C e D com adolescentes
com idades entre 14 e 16 anos.
Em
razão do grande número de participantes e da diferença de idade entre os
adolescentes, definiu-se pela elaboração de dois jornais, ainda que produzidos
simultaneamente e com algumas pautas repetidas.
Os parcos recursos financeiros nos obrigaram a optar pela elaboração de
jornal no formato mural em formato A-3 (33 cm x 45 cm) e que permite tiragem
significativamente inferior a de qualquer outro formato. Afixado em pontos
estratégicos (de grande concentração ou circulação de pessoas), o jornal
mural caracteriza-se pela publicação de textos telegráficos e em letras
grandes.
O
apelo de pertencimento social ao local onde residem esses adolescentes torna-se
evidente antes mesmo da materialização
do veículo, quando da votação e escolha do nome do veýculo: Jornal da
Costa e Silva. Este mesmo apelo está refletido na pauta em que todos os
assuntos estão inseridos no cotidiano do bairro. Em
trabalho dessa natureza, duas situações são muito evidentes quando se observa
a reação dos entrevistados. Há aqueles que querem ser notícia e, portanto, não
põem obstáculos diante da abordagem do ‘repórter’ e há os que, por inúmeras
razões, preferem permanecer no anonimato. No primeiro caso, podem ser incluídos
textos como o da campanha de diabetes que contém embutido o caráter de prestação
de serviço à população; o do o grupo de pagode que denota a preocupação de
valorizar pessoas do bairro; e sobre a programação da Semana Santa que
registra momentos de fé e devoção da comunidade. No segundo pode ser incluído
perfeitamente o texto sobre os Narcóticos Anônimos (NA). Trata-se de uma situação
que denota um trabalho de perseverança de alguns adolescentes que mesmo diante
da recusa inicial dos integrantes da entidade em conceder a entrevista, não se
acomodaram, insistiram e ganharam a confiança desses usuários que acabaram
consentindo com a realização da entrevista. Veja a seguir trecho de texto (as
perguntas são antecipadas pelas iniciais JCS, Jornal da Costa e Silva, e
as respostas pelas iniciais NA, Narcóticos Anônimos):
JCS
– Como é feito o atendimento?
NA
– Nós não chamamos de atendimento, pois aqui não é feito um
atendimento. Nós nos ajudamos com nossas trocas de experiências, falando um
com o outro e trocamos idéias.
JCS
– Quem pode participar?
NA
– Não somos filiados a
nenhuma outra organização, não temos matrículas nem taxas, não há
compromissos escritos, nem promessas a fazer a ninguém. Não estamos ligados a
nenhum grupo político, religioso ou policial e, em nenhum momento, estamos sob
vigilância. Qualquer pessoa pode juntar-se a nós, independentemente da idade,
raça, identidade sexual, crença ou falta de religião.
JCS
– Em que momento as
pessoas percebem que precisam de ajuda?
NA
– Quando chegam no fundo
do poço. Quando começam a perder o controle, perder a namorada, o emprego,
enfim, quando a família fica mais distante...”
Como
pode ser observado, o texto extrapola a técnica da entrevista e acaba
estabelecendo um diálogo, onde os entrevistadores sentem-se à vontade para
fazer os questionamentos e os entrevistados demonstram confiança nos
interlocutores quando assumem que chegaram ao ‘fundo do poço’. É aquilo
que se pode classificar, segundo Edgard Morin, como ‘entrevista-diálogo’,
em que “o entrevistador e o entrevistado colaboram no sentido de trazer à
tona uma verdade que pode dizer respeito à pessoa do entrevistado ou a um
problema”. (MEDINA, 1995: 15)
As
páginas do jornal não estamparam apenas os resultados alcançados pelos
adolescentes na oficina de jornalismo – deram visibilidade também à produção
de outras oficinas constantes do projeto. Envolvidos numa programação
multidisciplinar, esses adolescentes viram impressos nas páginas do jornal
mural[5]
uma mostra dos conhecimentos assimilados não apenas na oficina de
jornalismo, como também nas oficinas de fotografia, de criatividade e de história
oral.
Complexo
São Marcos – Proposta
semelhante foi apresentada no Complexo São Marcos em 2002. Em parceria com a
ONG Associação Beneficente Direito de Ser, localizada no Jardim Campineiro,
pesquisadores do Centro de Memória-Unicamp coordenaram oficinas de jornalismo,
história oral, fotografia e criatividade que contaram com a participação de
20 adolescentes com idades entre 14 e 17 anos. Nas quatro oficinas realizadas,
os adolescentes tiveram a oportunidade de conhecer melhor o bairro onde vivem e
perceberam, entre outras descobertas, aspectos positivos que podem melhorar a
auto-estima de seus moradores. Porém, o despreparo e a pouca disposição
revelada por esses adolescentes ficaram expressas na brochura Complexo São
Marcos: memória e identidade, publicação que reflete e materializa um
pouco do que assimilaram durante as atividades. O número reduzido de textos
(apenas seis), a baixa qualidade do material produzido (faltaram as informações
básicas, transmitidas anteriormente a eles,
que regem a estrutura de um texto jornalístico) e a falta de iniciativa
para buscar as informações não permitiram a elaboração de uma publicação
nos moldes daquela produzida na Vila Costa e Silva.
Embora
com idades avançadas e com grau de escolaridade que atingia a sétima série do
ensino fundamental, muitos desses adolescentes não iam além da escritura do próprio
nome. Outros haviam sido banidos da escola por mau comportamento e nenhum
rendimento escolar. Adolescentes infratores também figuravam entre os
participantes das oficinas – muitos ali estavam por obrigação, como uma espécie
de pena cobrada pelo juiz que os colocara em liberdade assistida. Outros
participavam como pré-condição para o recebimento de uma bolsa oferecida pelo
Fundo de Solidariedade da Prefeitura Municipal de Campinas aos adolescentes em
situação de risco integrados a trabalhos desenvolvidos por institui÷ões do
terceiro setor.
Na
tentativa de um envolvimento de todo o grupo, mesmo considerando as limitações
mencionadas, foi proposta a elaboração de texto conjunto em que os
adolescentes procuravam apontar aspectos positivos e negativos do bairro. No início,
houve por parte desses adolescentes muita resistência ao trabalho quando
afirmavam que não havia o que destacar no aspecto positivo. Foi necessário fazê-los
perceber a existência de instituições empenhadas em proporcionar uma melhoria
na qualidade de vida dos moradores do local. Devagar, as ‘coisas’ boas foram
surgindo e permitindo alimentar uma possível discussão de pauta. No texto
coletivo, produzido a partir dos elementos apontados pelos adolescentes, nota-se
que não foi necessário muito esforço para que reconhecessem algumas boas
iniciativas como a Casa da Sopa, o Espaço Esperança e a abertura das escolas públicas
aos finais de semana para práticas esportivas. Também foram produzidos textos
que valorizam as pessoas do local, como as entrevistas feitas com uma artesã e
com um artista plástico. Até uma espécie de ‘informe publicitário’ não
pago (situação jamais imaginada em atividade daquela natureza)
foi produzido por um adolescente que pretendia fazer do texto um
instrumento que facilitasse a obtenção de emprego em uma serralheria do
bairro, como se pode observar a seguir:
“Título:
Serralheria Campineira. Texto: Alcir Barbosa é dono da Serralheria Campineira,
fundada em fevereiro de 1992. Ele possui apenas um funcionário, mas sua mulher
o auxilia no trabalho. Segundo Alcir, 44 anos, na época em que abriu sua
oficina, nem imaginava conseguir tanto serviço no bairro São Marcos. Alcir
conta que enfrentou muitos obstáculos e dificuldades, mas com união de sua
esposa e após muitos anos de esforço, o serralheiro foi ganhando espaço e
admiração por parte dos moradores e dos freqüentadores
de sua oficina. Sua oficina oferece os mais variados serviços. Faz grades, portões,
lixeiras, etc”.
Como
se pode observar, o adolescente fez, guardadas as limitações, uso de artifícios
para desferir elogios ao proprietário da referida serralheria, quando afirma
que Alcir superou barreiras, ganhou espaço e admiração de moradores e que não
imaginava conseguir ‘tanto’ serviço. Faz propaganda quando cita os itens
produzidos e procura sensibilizar o proprietário ao afirmar que a oficina tem
‘apenas’ um funcionário. Texto como esse certamente não seria publicado em
jornal comercial sem pagamento pelo espaço. Entretanto, diante da insistência
do ‘repórter’ junto à coordenação da oficina de jornalismo e da proposta
da publicação em abrigar diferentes textos, optamos por proporcionar ao autor
o prazer (uma das atribuições da educação não-formal) de ver seu texto
estampado na página 17 da brochura, precedido do indicativo “informe publicitário”.
Dentre os aspectos negativos, a violência foi o tema predominante. Tiros à luz
do dia, corpos baleados nas calçadas e o poder paralelo dos traficantes no
bairro são ocorrências que não causam muito espanto entre os moradores.
Vila
Castelo Branco – Das três
experiências realizadas, a da Vila Castelo Branco foi a que alcançou melhores
resultados: culminou com a publicação do fanzine Conexão Jovem[6],
formato A-4 e tiragem de 1.000 exemplares. O trabalho realizado em 2003 no
Projeto Gente Nova (Progen) – instituição voltada à educação não-formal
que vem há 19 anos atuando no bairro – contou
com a participação de 23 adolescentes com idades entre 15 e 17 anos, divididos
em dois grupos. A divisão das equipes foi feita pelos participantes, levando em
consideração a amizade e a afinidade entre os adolescentes. De início, cada
adolescente se apresentou, dizendo nome, idade, série e o nome da escola em que
estuda. Em seguida, o coordenador da oficina explicou que o objetivo principal
era a elaboração de um jornal comunitário que se apropriasse dos elementos do
fanzine, com projeto gráfico leve, de fácil leitura e regido pela liberdade de
expressão e de criação. Com o propósito de que todos contribuíssem de forma
prazerosa para a elaboração do jornal, foi dada a eles a liberdade de escolha.
Assim, foram surgindo os ‘fotógrafos’, os ‘ilustradores’, os ‘críticos’,
os ‘poetas’, os ‘repórteres’. A partir da não imposição de tarefas
aos participantes, a prática atendia a uma das características básicas da
educação-formal, ou seja, procurou-se evitar a configuração de qualquer
semelhança com a escola formal, afinal, a exemplo dos adolescentes das oficinas
até então realizadas, os participantes da Vila Castelo Branco demonstraram
aversão às iniciativas que remetiam às práticas em sala de aula.
Na primeira reunião de pauta o grupo sugeriu
temas que abordassem fatos (violência, drogas, namoro, etc.), pessoas
(moradores antigos, lideranças comunitárias, líderes espirituais, etc.) e
instituições (Progen, Casa de Cultura Tainã, etc.) do bairro, além de seções
que pudessem tornar a publicação mais leve como piadas, culinária, paródias,
etc. Para conhecer melhor o perfil desses adolescentes, foram lançadas as
seguintes perguntas: ‘O que é e para que serve um jornal impresso?’, ‘Você
lê jornal? Com que freqüência e onde?’ e ‘Qual assunto de que mais gosta
no jornal?’. As respostas traçam um perfil negativo, porém esperado: poucos
possuem o hábito de ler, e quando assim o fazem, é por intermédio da escola
ou do próprio Progen. Nota-se que, apesar de definirem o jornal como meio de
comunicação social impresso que mostra as principais notícias do dia, o
acesso à leitura é muito restrito e a maioria prefere se informar por meio de
telejornais. Para muitos, a leitura de jornais, quando ocorre, se dá de forma
obrigatória, como atividade em sala de aula.
No segundo encontro, foram distribuídas aos
grupos as edições do dia dos dois jornais da cidade de Campinas, o Diário
do Povo e o Correio Popular. Nessa atividade, os adolescentes tinham
que escolher duas matérias de interesse. A atividade permitiu observar o
comportamento dos adolescentes diante dos encartes dos jornais. Poucos foram
aqueles que leram completamente as reportagens escolhidas, muitos deles se
interessavam apenas pelos encartes de publicidade, pelas seções de horóscopo
ou resumos de novelas. Quando abriam mão dessas ‘amenidades’, os textos
sobre violência predominavam entre os temas escolhidos: de oito reportagens
selecionadas pela turma 1, cinco delas abordavam o tema da violência. Uma outra
notícia abordava o tema ‘novelas’, outra era sobre uma arma fabricada nos
EUA e a última informava sobre o uso de preservativo pelos adolescentes. Na
turma 2, a atividade obteve
resultados semelhantes: das oito reportagens escolhidas, três eram sobre violência
e as demais abordavam esportes e outros assuntos variados.
Durante a discussão sobre o assunto violência
– o mais escolhido por esses adolescentes –
percebeu-se que esse é o tema predominante quando os bairros onde vivem
(Vila Castelo Branco e Vila Padre Manuel da Nóbrega) é notícia. A imprensa
local (Diário e Correio) apenas apresenta os fatos negativos dos
bairros, ou seja, os jornais somente publicam acontecimentos trágicos e polêmicos.
Enquanto folheava o Diário do Povo,
um aluno lembrou de uma edição em que o jornal estampava reportagem sobre o tráfico
de drogas e de um plantio de alguns pés de maconha em uma praça pública do
bairro. Outros lembraram que o bairro normalmente ganha as páginas dos jornais
quando o assunto é droga, violência ou crime.[7]
Têm consciência de que são raras as notícias sobre cidadania, educação,
cultura ou aquelas que informam sobre os eventos e atividades do local – notas
que permitem que a comunidade se reconheça nas páginas dos jornais. Não raro
essa comunidade só é alvo de notícia em grandes jornais e revistas quando
ocorrem fatos de muita importância ou quando uma grande tragédia abala ou
comove a opinião pública. É exatamente a mesma coisa que acontece no sistema
mundial de informação. “Um país pobre só é notícia para as grandes agências
que monopolizam a informação internacional quando ali ocorrem desastres,
golpes de estado ou fatos insólitos”. (CALLADO e ESTRADA, 1986: 07).
Feita
essa constatação, foi explicada a importância de desenvolver, como produto da
oficina de jornalismo, um jornal que fosse na contramão de tudo aquilo que é
publicado pela imprensa local (basicamente violência e criminalidade) sobre os
bairros periféricos de Campinas. Os adolescentes perceberam a importância de
destacar temas que abordassem o cotidiano do local, temas que elevassem a
auto-estima e que despertassem o sentimento de pertencimento social ao espaço
da cidade onde residem. As experiências desenvolvidas nos três bairros mostram
que esse sentimento só se torna possível por meio do conhecimento aprofundado
dos bairros e da cidade, constituindo a base fundamental para a formação do
espírito de cidadania entre os adolescentes, ao permitir que eles se sintam
como membros atuantes da comunidade nesses bairros. A produção de um jornal
comunitário que destaque os aspectos locais positivos é um reflexo desse
sentimento.
A
primeira edição do Conexão Jovem[8]
expressa essa busca pela valorização das pessoas e de fatos do bairro e
adjacências. Nas 12 páginas da publicação há, por exemplo, textos sobre a
Casa de Cultura Tainã, entidade localizada na Vila Padre Manoel da Nóbrega,
sobre a Escola de Samba Rosas de Prata, que completa 30 anos em 2005 e sobre o
Projeto Gente Nova (história da entidade e entrevistas com pessoas que atuam na
ONG). Há espaço em que os adolescentes expressam opinião sobre educação,
drogas, violência, namoro, juventude e cidadania. Crítica de cinema, paródia,
poesia e ilustrações projetam uma faceta ainda mais leve da publicação.
‘Poetas’, ‘articulistas’ e ‘ilustradores’, em trabalho conjunto (o
ilustrador expressa por meio do desenho a leitura que faz do texto), percebem
sua arte reproduzida e apreciada pela comunidade. Orgulhosos, sentem-se
valorizados. Concedem entrevistas à emissora Espaço Aberto (rádio-escola
local) e são citados por professores em sala de aula como ex-alunos e exemplos
a serem seguidos[9].
Um
dos artigos faz uma relação entre drogas, violência e morte. Sob o título
“As drogas no Brasil”, o texto revela não apenas a opinião do adolescente
sobre o tema como apresenta a sua interpretação ao afirmar que a droga afeta a
vida do cidadão brasileiro. Eis a íntegra do texto:
“No
decorrer dos anos, as mortes pelo uso de drogas aumentaram no Brasil. Enquanto
em outros países algumas drogas são usadas como remédios, no Brasil, oferecem
mais e mais drogas que não têm valor medicinal, só alucinógeno. As drogas
mais usadas são a maconha, a cocaína e o crack. Prejudicam a vida dos usuários
porque quando a pessoa adquire o vício e não tem dinheiro para mantê-lo, ela
muitas vezes rouba tanto outras casas como também a sua própria. Além disso,
podemos citar os danos mentais e físicos que causam em seus dependentes. As
mortes também são causadas pelos usuários como em acertos de conta e vingança
contra os que não pagam os traficantes. Ou seja, as drogas agravam o nível de
vida da sociedade brasileira”.
Como
se observa, o artigo reflete uma das linhas que regem os princípios da educação
não-formal, ou seja, foram respeitadas a bagagem cultural e a habilidade dos
participantes. O autor, consciente da realidade em que vive, optou por se
expressar por meio de um artigo pois sabia dos riscos se partisse para a realização
de uma entrevista. Portanto, a seu modo, não fez vistas grossas para um assunto
corrente em seu cotidiano. Conexão Jovem
permitiu, também, dar visibilidade aos trabalhos feitos pelos adolescentes em
outras oficinas coordenadas pelos pesquisadores do Centro de Memória-Unicamp.
As páginas centrais apresentam imagens legendadas que revelam o olhar dos
adolescentes sobre o bairro a partir da orientação assimilada oficina de
fotografia. Houve também uma interação com a oficina de história oral em que
na reportagem com o presidente da escola de samba local, foram inseridos trechos
de depoimentos concedidos aos entrevistadores daquela oficina.
Nas oito semanas de atividades[10]
foi possível observar o envolvimento e o interesse de cada um dos participantes
e também as dificuldades individuais durante o trabalho de redação de textos.
Se, por um lado, as limitações e a pouca disposição apresentadas por alguns
adolescentes para a produção de um texto jornalístico tornavam difícil
realização da proposta, por outro lado, foi dada a eles a oportunidade de
livre criação. Aqueles que se dispuseram à realização de um trabalho jornalístico
foram orientados, fizeram as entrevistas e redigiram os textos, curtos, diretos,
às vezes em tom de relatório, mas com a carga informativa que atendia a
proposta da atividade. Para que os textos ‘jornalísticos’ apresentassem as
mínimas condições de publicação, o trabalho foi desenvolvido seguindo
algumas etapas: sugestão de temas inseridos no cotidiano da comunidade,
discussão do conteúdo produzido, questionamento das idéias dúbias ou
incompletas e acréscimo de dados que complementassem as informações.[11]
Conclusão
A
partir das três experiências realizadas, percebe-se claramente que o trabalho
se deu num processo contínuo de aprendizado mútuo. Se a iniciativa de elaboração
de um jrnal consistiu em novidade para os adolescentes, a transmissão do
conhecimento e o meio utilizado para a materialização dos ensinamentos também
foi uma atividade inédita para o jornalista. Buscamos detectar e corrigir
falhas cometidas na Vila Costa e Silva e no Complexo São Marcos, principalmente
no que diz respeito ao interesse demonstrado pelos participantes. Numa primeira
análise convém ressaltar que a prática da educação não-formal nunca havia
sido aplicada com os adolescentes da Vila Costa e Silva – tanto é que eles
insistiam em se reportar ao coordenador como ‘professor’. No processo de
seleção ficou evidente que almejavam cursos profissionalizantes com entrega de
certificado que os qualificassem num processo de busca de empregos. Embora
tivessem apresentado uma produção – foram elaboradas duas edições do Jornal
da Costa e Silva por turmas diferentes – a devolução dos textos
(reportagens, artigos, etc.) deu-se num processo semelhante à entrega de redação
(‘dever de casa’) ao ‘professor’ para posterior avaliação.
No
Espaço Esperança, no Jardim Campineiro, os adolescentes tinham duas procedências:
do próprio Espaço Esperança, que a exemplo dos adolescentes da Costa e Silva
desconheciam totalmente práticas de educação não-formal e os adolescentes da
ONG Direito de Ser, organização que tem incluídas entre suas atividades práticas
no campo da educação não-formal. Não por acaso, os adolescentes que
apresentaram efetiva produção para a realização da brochura eram aqueles
inseridos nos programas da ONG. Os adolescentes vinculados ao Espaço Esperança
nada produziram e não se sentiram incomodados por isso.
Percebemos
que a aplicação dos conceitos que norteiam a conduta da educação não-formal
efetivou-se, realmente, no Progen, na Vila Castelo Branco. Da postura do
jornalista no tratamento direto com os adolescentes à distribuição espacial
dos móveis na sala onde ocorreram os encontros, todo o processo visou a realização
de um trabalho feito com prazer, sem cobranças ou repreensões. Mostra disso é
que o quarto número de Conexão Jovem está em curso, com a participação
daqueles que solicitaram a continuidade do trabalho e de outros adolescentes que
por meio da boa repercussão da primeira edição do jornal pediram sua inclusão
no projeto. É a efetiva abertura de espaço a grupos marginalizados cultural e
geograficamente.
Referências
Bibliográficas
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Almerindo Janela. “Sociologia da educação não-escolar: reactualizar um
objetivo ou construir uma nova problemática?”, in A. J. Esteves e S. R. Stoer
(orgs.), A sociologia na escola. Porto: Afrontamento, 1989.
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Cortez, 1980.
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Wilson. “A imprensa comunitária do interior: uma tentativa de sistematização”
in Cadernos de jornalismo e editoração
(n.11), ECA-USP, s/d.
CALLADO,
Ana Arruda; ESTRADA, Maria Ignez Duque.
Como se faz um jornal comunitário. Petrópolis: Vozes, 1986.
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Amarildo. “Jornal comunitário e integração social: elementos para a realização
de trabalhos em comunidades de bairro”, in Revista de estudos do curso de
jornalismo, n. 7 Campinas: Gráfica da Puccamp, 2003.
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S. Notes from underground: zines and the politics of alternative culture.
London: Verso, 1997.
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Edgard. Fanzine. Brasópolis:
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MAGALHÃES,
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Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. Belo Horizonte: Intercom,
2003.
_____.O
que é fanzine. São Paulo: Brasiliense, 1993.
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O rebuliço apaixonante dos fanzines. João Pessoa: edição do autor,
1994.
MEDINA,
Cremilda de Araújo. Entrevista: o diálogo possível. São Paulo: Ática,
1995.
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Olga R. de Moraes; PARK, Margareth Brandini; FERNANDES, Renata Sieiro. Educação
não-formal – cenários da criação. Campinas: Editora da Unicamp, 2001.
WONDRACEK,
Claude. “O jornal do interior na era tecnológica” in
Cadernos de jornalismo e editoração –
Estudos Sobre a Imprensa Comunitária (n. 10). São Paulo: COM-ARTE, 1978.
[1]
O projeto vem recebendo sistematicamente apoio do CNPq e da Fapesp.
[2]
O Complexo São Marcos é formado pelos bairros Jardim São Marcos, Jardim
Campineiro, Recanto Fortuna, Jardim Santa Mônica e Chácara dos Amarais.
[3]
Além da oficina de jornalismo, o projeto oferece oficinas de fotografia,
história oral, criatividade, hip-hop, vídeo, samba de raiz, teatro de rua
e informática.
[4]
Quando o assunto é fanzine, quatro trabalhos produzidos por dois autores
devem ser consultados: O que é fanzine (Brasiliense, 1993), O
rebuliço apaixonante dos fanzines (edição do autor, 1994), A mutação
radical dos fanzines (paper apresentado no Intercom, realizado em
2003, em Belo Horizonte), de Henrique Magalhães; e Fanzine (edição
do autor, 2003), de Edgard Guimarães.
[5]
As duas edições foram apresentadas aos adolescentes no encerramento das
oficinas no Centro de Pastoral da Igreja de São Benedito. As edições também
foram impressas em formato A-4 e entregues aos adolescentes.
[6]
O nome do jornal, Conexão Jovem,
foi escolhido a partir de vota֋o feita entre todos os participantes da
oficina. ‘Agente Adolescente’, ‘Jornal da Comunidade’, ‘Nosso
Jornal’ e ‘Correio da Vila’ foram algumas das sugestões submetidas à
votação.
[7]
Está em de curso um levantamento que venho realizando a partir de
recortes dos jornais de Campinas Correio
Popular e Diário do Povo no período de 05 de novembro de 2003 a 01 janeiro
de 2004. Uma primeira amostragem evidencia que os três bairros pesquisados
são notícia quando o assunto é violência e criminalidade. Neste período,
a única matéria positiva foi publicada em 1o. de janeiro de
2004 quando o Correio Popular
destinou uma página (com foto principal de capa) ao trabalho que o Centro
de Memória-Unicamp realiza no Progen. Deve ser ressaltado que a pauta
surgiu a partir de sugestão feita pelo Centro de Memória à reportagem do
jornal.
[8]
A primeira edição do jornal com tiragem de 1.000 exemplares, a
pedido do Serviço de Assistência Social do Progen, foi custeado pela
presidência da Câmara Municipal de Campinas. Seguindo a premissa de que o
veículo comunitário em desenvolvimento não deve servir de palanque,
tampouco de instrumento na mão de político, a contrapartida do jornal em
reconhecimento à ação do Legislativo não foi além de uma breve citação
(neutra e sem adjetivos) no texto de apresentação da edição.
[9]
A repercussão gerada pelo Conexão Jovem vai além dos dois exemplos
ora citados (o assunto vem sendo tratado com mais atenção em pesquisa em
curso para posterior reflexão em artigo a ser produzido).
[10]
O tempo destinado para a realização das Oficinas de Jornalismo (oito
encontros) é suficiente apenas para a publicação da primeira edição do
jornal em desenvolvimento. Ou seja, é o tempo de plantar a semente e
sugerir que seja o início de um trabalho que pode ter continuidade,
atendendo, dessa forma, à proposta inicial do projeto geral coordenado pelo
Centro de Memória-Unicamp.
[11] O trabalho dos adolescentes não inclui a atividade de editoração eletrônica (paginação). Dessa forma, a montagem do jornal foi feita pelo coordenador da atividade.