"O Jornal na escola: 
refletindo sobre a construção da notícia"

                                                Maria Aparecida Baccega
Profa. Associada da ECA-USP
Pesquisadora da ESPM-SP

Vamos fazer, juntos, uma reflexão.

Vamos pensar nos lugares que têm estado presentes nas manchetes dos jornais:

                ▪Iraque
                ▪Palestina
                ▪Rio de Janeiro

 Pronto. Agora, é só colocarmos na cabeça que neste preciso momento estão acontecendo diferentes fatos em todos esses lugares.

IRAQUE

                ▪Um grupo de iraquianos é atingido por bombas do exército americano
                ▪Crianças brincam com restos de um tanque abandonado
                ▪Dois estrangeiros estão sendo seqüestrados

PALESTINA

                ▪Os adeptos da Al Fatah discutem sobre o processo eleitoral
                ▪O exército israelense persegue uma multidão de jovens que gritavam palavras de ordem contra a invasão da Faixa de Gaza
                ▪Palestinos rezam na mesquita

RIO DE JANEIRO

                ▪Um turista se encanta com o Cristo Redentor
                ▪Uma grife famosa promove desfile da coleção de biquínis para o verão
                ▪Três jovens matam, com surra, um morador de rua

Cada um de nós tem 1 minuto para contar, para relatar tudo o que está acontecendo em cada um desses lugares: Iraque, Palestina e Rio de Janeiro. Como fazer isso? Afinal, o tempo é insuficiente. Em 1 minuto ninguém conseguiria contar todos esses fatos. Portanto,

               1º é preciso selecionar os fatos que nós consideramos mais importantes;
               
2º é preciso escolher um ponto de vista para contar, para relatar esse (ou esses) fato(s).

I. SELEÇÃO E PONTO DE VISTA

Esses são os procedimentos fundamentais para a construção da informação, para a redação das notícias que vamos ler, ver ou ouvir no nosso dia-a-dia.

Seleção

Como em 1 minuto é muito difícil, diria impossível contar todos os acontecimentos mencionados, é preciso, então, escolher, selecionar alguns deles. Pode-se escolher um de cada lugar; pode-se optar por todos de um mesmo lugar – por ex., todos os referentes ao Iraque – pode-se escolher apenas um de determinado lugar  – por ex., do Rio de Janeiro: ou o do turista ou o da morte do mendigo.

E note bem: o critério de escolha vai sempre atender a algum objetivo. Ou seja: se quisermos chamar a atenção para a religiosidade do povo palestino, escolhemos o caso dos homens que oram na mesquita; se queremos chamar a atenção para a indústria do turismo, tida como a mais importante em futuro imediato, escolhemos a do turista encantado com o Cristo Redentor. Existem várias combinações possíveis, as quais serão definidas de acordo com os interesses de quem pode decidir. Pode-se optar, inclusive, como dissemos, por relatar só um deles, aprofundando-o, contando-o em detalhes. E com isso será gasto o minuto de que dispomos. 

Ponto de Vista

É tão importante quanto a escolha de qual ou quais fatos você vai contar. (Aliás, a própria escolha do fato ou dos fatos já traz o ponto de vista de quem escolheu: por que escolheu um e não outro? Porque, certamente, de acordo com seu paradigma, a observação atenta daquele fato se reveste de maior importância.)

É como se nos colocássemos num dos lados e relatássemos o fato a partir desse lado. É bom ter sempre em mente que vemos os fatos a partir do "lugar" em que estamos.

Por ex: se estamos no lugar dos iraquianos, veremos o fato de serem atingidos com bomba como uma injustiça muito grande; se do lado dos americanos, como fato necessário a seus objetivos e assim por diante.

Há vários outros pontos de vista possíveis: por exemplo, o de quem apenas assistiu à cena, o daqueles que foram atingidos, o dos que atiraram as bombas etc. Lembre-se, porém, de que o ponto de vista mais importante é o nosso e que deveremos,  sempre, procurar formá-lo colocando-nos no lugar dos vários protagonistas.

II AS MANCHETES

Todo fato é sempre escolhido e narrado a partir de um ponto de vista. O ponto de vista assumido por quem relata implica a tentativa de convencer o ouvinte (ou leitor ou telespectador) e levá-lo a perceber o fato de um modo e não de outro, ou seja, seduzir a pessoa para que ela perceba o fato do mesmo modo que quem está contando. E aí entram outras variáveis. Vejamos.

Se fôssemos noticiar dois fatos selecionados, escolhidos como os mais importantes de acordo com nossos interesses (o do Iraque e o do Rio de Janeiro, por exemplo), começaríamos por uma manchete. Ela funciona como um título, resume o fato e predispõe o leitor/ ouvinte/ telespectador. Diríamos que ela sobremodaliza o conteúdo, levando-nos a compreendê-lo num determinado corredor isotópico. Essa manchete, que pode estar escrita no jornal ou ser ouvida nas "chamadas" dos noticiários da televisão ou do rádio, já indica de que lado está quem vai fazer o relato, qual seu ponto de vista.

  1. O desfile de biquínis

DESFILE DE BIQUÍNIS NO RIO: CONTRA A MORAL E OS BONS COSTUMES
ou
BRASIL AVANÇA NA INDÚSTRIA DA MODA: DESFILE DE BIQUÍNIS NO RIO

  1. Exército israelense X palestinos

EXÉRCITO ISRAELENSE AGRIDE COM ARMAS JOVENS PALESTINOS
ou
JOVENS PALESTINOS AGRIDEM COM PEDRAS EXÉRCITO ISRAELENSE

Percebam que as imagens mostradas serão as mesmas em uma ou outra manchete.

            No 1º caso, uma tomada da passarela com as modelos desfilando.

Na 1ª manchete, “contra a moral e os bons costumes”, o texto nos levará a observar o quão pouco estão cobertos aqueles corpos, parecendo desafiar a “integridade das famílias”.

Na 2ª manchete, “Brasil avança”, o texto nos informará do êxito cada vez maior da exportação de biquínis brasileiros, para várias partes do mundo, beneficiando a nossa balança comercial, possibilitando que mais pessoas estejam empregadas, beneficiando o Brasil como um todo.

            No 2º exemplo, o do exército israelense X palestinos, temos uma foto do conflito.

No 1º caso, “exército israelense agride palestinos”, temos a ação do exército israelense que agride palestinos em sua própria terra.

No 2º caso, são os palestinos que, com pedras, agridem o exército israelense, justificando, assim, a reação deste.

Como podemos perceber, todas as manchetes têm por objetivo, além de chamar a atenção, persuadir, convencer o leitor, ouvinte ou telespectador de que o ponto de vista de quem está narrando é o "mais correto". Ele manifesta a "verdade" do fato.

III. PERSUASÃO

Selecionado o fato, escolhido o ponto de vista, há ainda uma outra variável: o nível de convencimento, o nível de persuasão que queremos imprimir ao nosso relato. Ou seja: todo ato de fala procede de alguém e dirige-se para alguém, todo ato de fala tem por objetivo persuadir, convencer alguém a respeito de alguma coisa. E para alcançar-se esse objetivo as técnicas são variadas e vêm desde os gregos. Uma das técnicas é apelar para a emoção, usando o mesmo vocabulário, o mesmo "jeito de falar" das pessoas das pessoas a quem se dirige a fala e que desejamos convencer.

                                    EXÉRCITO AMERICANO PERSEGUE IRAQUIANOS

                                    EXÉRCITO AMERICANO FERE IRAQUIANOS   

                                    EXÉRCITO AMERICANO MASSACRA IRAQUIANOS

Embora todas essas manchetes se refiram ao mesmo fato e todas tenham assumido o ponto de vista dos iraquianos, manifesta-se uma  gradação. “Perseguir” – seguir de perto, ir ao encalço, acossar; é diferente de “ferir” , dar golpe que produz chaga, fratura ou contusão; fazer feridas em; golpear. "Massacrar" chama mais ainda a atenção. Tem o sentido de matar cruelmente, chacinar e é usado para levar o leitor, ouvinte ou telespectador a sentir mais de perto o horror da guerra, envolvendo o fato num clima de muita emoção. Desse modo, ganhamos a simpatia para o ponto de vista assumido.

A construção de um clima de emoção, tão comum nos ainda existentes Cidade alerta e Brasil urgente que, no nosso exemplo, pode servir como um justo brado contra a guerra, pode gerar, no dia-a-dia da imprensa, graves conseqüências.

Foi o que ocorreu com os donos de uma escola infantil do Bosque da Saúde, bairro de São Paulo, a Escola Base: em março de 1994, uma mãe de aluno acusou-os, sem provas, de estupro de menores. (Ver RIBEIRO, Alex. Caso Escola Base -- os abusos da imprensa. São Paulo: Ática, 1995).

A imprensa construiu a informação com muita emoção (ou com muito sensacionalismo, como se costuma dizer) e praticamente nem eram registrados os pontos de vista, as declarações dos donos da Escola. E, quando eram registrados, apareciam com jeito de declaração forjada, mentirosa.

Afinal, o tempo mostrou que os donos eram inocentes, que nunca houvera estupro de menores.

Final da história: os donos perderam a escola, as crianças, inocentes, certamente sofreram com o ocorrido, alguns jornalistas e órgãos de imprensa falaram de questões como ética na comunicação e tudo ficou por aí.

A legislação prevê que quem se sinta ofendido terá o direito de responder no mesmo meio de comunicação, usando o mesmo espaço. Isso até ocorreu, nesse caso, em alguns órgãos de imprensa.

Mas as terríveis conseqüências para os donos da escola indevidamente acusados já tinham se estabelecido: não só perderam a escola, cujo prédio foi inclusive apedrejado, como mudaram de bairro e ganharam problemas de saúde, entre outros, de que certamente não se curarão com facilidade.

(Observe que neste breve relato do episódio, adotamos um ponto de vista - o do dono da escola - e usamos uma gradação que revela uma estupefação contida.)

IV. INFORMAÇÃO: SELEÇÃO, PONTO DE VISTA E PERSUASÃO

É desse modo que se constrói a informação, que se constroem as notícias que estão todos os dias nos jornais, nas rádios ou nas televisões e que nos são vendidas como “verdades”.

Num mesmo momento, estão acontecendo milhares e milhares de fatos no Brasil e no mundo. Nunca poderíamos estar presentes em todos eles. Por isso, delegamos competência aos meios de comunicação (jornais, rádios, televisões) para que o façam. Eles destacam repórteres para "cobrir" os acontecimentos. Ou seja: para estarem presentes e nos relatarem o que viram. E aqui começa o percurso das escolhas: os repórteres serão enviados para presenciar alguns fatos e não outros. Eles fazem a mediação entre nós e o acontecimento. Eles são os nossos olhos para a vida.

Em Brasília, por exemplo, ocorrem centenas de fatos políticos e econômicos diariamente. Os meios de comunicação, então, selecionam quais fatos eles vão narrar. É o primeiro momento da informação.

A seleção desses fatos leva em consideração a seguinte pergunta: "o que consideramos conveniente que as pessoas fiquem sabendo?"

Haverá, evidentemente, fatos políticos e econômicos muito importantes que "não é bom" contar para a população. E quem decide isso? Em geral, a própria empresa, dona da rede de jornal, rádio ou televisão, a partir de seus interesses, a partir dos pontos de vista que elas defendem. Outras vezes, o próprio governo.

Se, na reflexão que propusemos no início desse texto, poderíamos ter escolhido quaisquer dos fatos para relatar obedecendo a interesses nossos, aqui também é assim. Só que não somos nós que escolhemos: alguém (em geral uma instituição ou empresa) escolhe para nós. E nós vamos "ver" só aquele pedaço do mundo que querem que vejamos. Trata-se de um processo metonímico em que a parte quer valer pelo todo.

Esse é o mecanismo da pauta jornalística. É desse modo que se constitui a chamada “agenda setting”, ou seja, o elenco de temas que a mídia impõe e que todos vamos discutir naquela fase.

Selecionado o fato, passamos para o segundo momento da informação: de que ponto de vista o fato selecionado deve ser contado, deve ser relatado? Vamos dar um exemplo.

O Brasil é um país de vastíssima extensão de terras. No entanto, essas terras estão nas mãos de poucos donos. Isso acontece tanto no campo quanto na cidade. Os muitos brasileiros que não têm terras, movidos pelo desespero da fome, acabam por apossar-se de extensões que não estão sendo usadas. Tanto no campo quanto na cidade. Este é o Movimento dos Sem-Terra. Suas ações, de vez em quando, são selecionadas para aparecer nos noticiários.  E de que modo elas aparecem? A partir de que ponto de vista?

As manchetes, em geral, vêm dizendo: "Trabalhadores do campo invadem a fazenda Tal". Ou "Polícia desaloja invasores de prédio no centro da cidade".

E se construíssemos as mesmas manchetes do seguinte modo: "Trabalhadores do campo ocupam a fazenda Tal". Ou "Polícia desaloja ocupantes de prédio no centro da cidade". 

As diferenças são muito grandes. Invadir supõe que os trabalhadores cometeram um ato criminoso, ilegal, passível, portanto, de punição. Isso justifica a ação da Polícia. A defesa da propriedade privada da terra, muitas vezes improdutiva, está na base do ponto de vista de quem faz esse relato, de quem usa a palavra invadir. Ocupar, diferentemente, indica que não houve crime. O ato é legal e não permite punição.  Muitas vezes a ocupação se dá em terras devolutas.

"A terra é bem planetário, não pode ser privilégio de ninguém, é bem social e não privado, é patrimônio da humanidade e não arma do egoísmo particular de ninguém. É para produzir, gerar alimentos, empregos, viver. É bem de todos para todos. Esse é o único destino possível para a terra." (Trecho da Carta de Herbert de Sousa - Betinho - Articulador Nacional da Ação da Cidadania; Coordenador da Campanha Nacional pela Reforma Agrária).

V. INFORMAÇÃO NO MUNDO

Agora, vamos ampliar o raio do nosso pensamento e torná-lo verdadeiramente universal. Basta pensarmos em tudo o que está acontecendo no mundo, neste momento, e perceberemos que seria impossível a qualquer pessoa estar presente a todos os fatos. Também é absolutamente impossível que todos nos sejam relatados. Até porque não teríamos sequer tempo suficiente para ouvi-los.

É preciso, então, selecionar quais fatos serão narrados; é preciso, também, escolher o ponto de vista.

Já não se trata mais de tomarmos uma decisão: outros tomam por nós. São eles que decidem quais os fatos que podemos e/ou devemos conhecer. Mais que isso: são os outros que decidem o ponto de vista a partir do qual vamos conhecer aquele fato escolhido.

Tudo agora se torna mais complexo. Para ter condições de divulgar os fatos em todo o mundo é preciso ter acesso à tecnologia, possuir potentes aparelhos, computadores, etc. etc. É preciso ter dinheiro para adquiri-los. São portanto empresas poderosas que conseguem ter repórteres e equipamentos para fazer chegar até nós os relatos, ou seja, as notícias - que nada mais são que os relatos dos fatos escolhidos para divulgar. Assim se configuram as agências de notícias.

Como podemos observar, certas notícias, nacionais ou internacionais, repetem-se num determinado dia, aparecendo em praticamente todas as emissoras de televisão e/ou viram manchete em todos os jornais e/ou abrem o noticiário de rádio. Isso quer dizer que aqueles fatos (e não outros) foram selecionados pelas agências de notícias para serem divulgados. E as empresas de rádio, televisão e jornal escolhem, entre os fatos divulgados pelas agências de notícias, os que deveremos conhecer. Evidentemente, sabemos que aconteceram no mundo, no Brasil ou na nossa cidade, até no nosso bairro ou na nossa rua muitos outros fatos além daqueles. Podemos observar que também as fotos ou os filmes que ilustram os fatos são os mesmos em todos os meios de comunicação.

VI O MUNDO QUE CONHECEMOS 

Não podemos absolutizar o papel dos meios de comunicação, não podemos considerar que eles são os únicos responsáveis pela dinâmica da sociedade. Isso seria diminuir muito a capacidade do ser humano.

Não podemos negar, contudo, que a comunicação joga papel importante na construção do nosso ponto de vista sobre as coisas, da nossa visão de mundo. Ela constrói/ reconstrói e descontrói o mundo para nós, todos os dias. Só para lembrar, os meios de comunicação construíram a imagem do ex-presidente Fernando Collor (que ganhou folgadamente as eleições) e, não muito tempo depois, desconstruíram essa imagem, reconstruindo outra, no lugar da anterior. Foi o momento do impeachment. São os meios de comunicação que "montam" o mundo, na medida em que selecionam os fatos, escolhem o ponto de vista e determinam a ordem em que vamos tomar conhecimento deles.

O mundo que conhecemos através das notícias, das informações que chegam até nós é, portanto, um mundo "selecionado", cortado e recortado, montado de acordo com interesses. Não é possível, portanto, falar-se em neutralidade da informação.

Alguns exemplos são clássicos. Um deles, bastante esclarecedor, é da fase da ditadura militar no Brasil. Trata-se da famosa observação do General Emílio Garrastazu Medici, que governou o Brasil de 1969 a 1974, fase mais violenta do período. Consta que, após ver o Jornal Nacional, ele sentia-se orgulhoso por ser brasileiro: afinal, enquanto no mundo havia uma série de tumultos, de conflitos, no Brasil reinava a mais absoluta paz e tranqüilidade.

Naquele período, toda a imprensa estava sob forte censura e jamais se poderia noticiar as torturas cometidas contra aqueles que ousavam discordar da ditadura, as mortes e "desaparecimentos" dos presos políticos, a corrupção que grassava no país, etc., etc. O Jornal Nacional, então, não divulgando os fatos, mostrava aos brasileiros o recorte do Brasil que interessava ao poder: um país pleno de tranqüilidade, que não existia.

Podemos transpor para os dias de hoje. Conflitos de interesse, se saem nos noticiários em geral, ou seja, se são selecionados, só aparecem na voz, no ponto de vista da classe dominante. Parece que o trabalhador não sabe falar de suas reivindicações. E, se sai a posição do trabalhador, é para desmerecê-la com alguma notícia que virá a seguir, com algum gráfico ou alguma declaração que minimiza os dados apontados pelos trabalhadores.

Para que nos tornemos cidadãos, juntamente com nossos alunos, é preciso levar em consideração que:

                        ▪a informação é uma construção que atende a interesses;

                        ▪os fatos que chegam até nós passaram por muitas escolhas;

                        ▪as escolhas são realizadas para atender a determinados objetivos.

Também é preciso ter claro que a persuasão, as técnicas de convencimento estão presentes no modo que o fato é relatado. O universo dos que ouvem/ vêem ou lêem está incluído na construção da informação, com o objetivo de sensibilizar e obter a adesão, a concordância para aquele ponto de vista.

É comum as pessoas considerarem que um noticiário, por exemplo, é mais "verdadeiro" que outro. Quando isso acontece, é porque as técnicas de convencimento foram usadas de maneira muito eficiente, conseguindo limitar o conhecimento do público àquele ponto de vista.

A busca da verdade implica o conhecimento que todos devemos ter da complexidade do mundo e da multiplicidade de pontos de vista que qualquer fato contém.

Buscar a verdade é procurar conhecer os vários pontos de vista e os interesses a que atendem.

VII O JORNAL NO CAMPO COMUNICAÇÃO/EDUCAÇÃO

Hoje, o mundo é trazido até o horizonte de nossa percepção, até o universo de nosso conhecimento. Como não podemos estar presente em todos os acontecimentos, em todos os lugares, temos que confiar nos relatos. O mundo que nos é trazido pelos relatos, que assim conhecemos e a partir do qual refletimos, é um mundo que nos chega editado, ou seja, ele é redesenhado num trajeto que passa por centenas, às vezes milhares de mediações, até que se manifeste no rádio, na televisão, no jornal. Ou na fala do vizinho e nas conversas dos alunos.

São essas mediações – instituições e pessoas – que selecionam o  que vamos

ouvir, ver ou ler; que fazem a montagem do mundo que conhecemos.

Aqui está um dos pontos básicos da reflexão sobre o espaço onde se encontram Comunicação e Educação: que o mundo é editado e assim ele chega a todos nós; que sua edição obedece a interesses de diferentes tipos, sobretudo econômicos, e que, desse modo, acabamos por perceber até a nossa própria realidade do jeito que ela foi editada.

Editar é, portanto, construir uma realidade outra, a partir de supressões ou acréscimos em um acontecimento. Ou, muitas vezes, apenas pelo destaque de uma parte do fato em detrimento de outra.

Editar é reconfigurar alguma coisa, dando-lhe novo significado, atendendo a determinado interesse, buscando um determinado objetivo, fazendo valer um determinado ponto de vista.

Essa realidade outra que a edição constrói, reconfigura-se no enunciatário/ receptor, com seu universo cultural e dinâmica próprios. Esse é o percurso da comunicação, desde a mais democrática, a que usa apenas o suporte do aparelho fonador, até aquela que a tecnologia possibilita: o relato, em tempo real, de fatos (escolhidos entre muitos) que acontecem em espa÷os distaotes, na Terra ou no espaço.

Se o mundo a que temos acesso é este, o editado, é nele, com ele e para ele que se impõe construir a cidadania. O desafio, então, é trabalhar esse mundo editado, presente no cotidiano, que penetra ardilosamente em nossas decisões e que, pela persuasão que o caracteri{a, assume o lugar de “verdade” única.

Eis outro ponto importante no processo de reflexo sobre o campo Comunicação/ Educação:já não se trata mais de discutir se devems ou não usar os meios no processo educacional ou de prcurar estratégias de educação para os meios; trata-se de constatar que eles são os educadores primeiros, pelos quais passa a construção da cidadania. É desse lugar que devemos os relacionar com eles. E é esse o lugar onde temos que esclarecer qual cidadania nos interessa.

Afinal, são eles a fonte primeira que educa a todos os educadores: pais, professores, agentes de comunidade, etc. Precisamos procurar entendê-los bem, saber ler criticamente os meios de comunicação, para conseguirmos percorrer o trajeto que vai do mundo que nos entregam pronto, editado, à construção do mundo que permite a todos o pleno exercício da cidadania.

Essa cultura da mídia se manifesta em um conjunto articulado e diversificado de produtos (pólo do enunciador/emissor) que entram em relação com o conjunto articulado e diversificado de vivências do enunciatário/ receptor, cujo universo de valores, posto em movimento, ativa os significados dos produtos. Na verdade, a cultura da mídia não está no enunciador/ emissor, não está no enunciatário/ receptor: está no território que se cria nesse encontro, gerando significados particulares, que, se contém interseção com cada um dos pólos, não se limita a nenhum deles. Caso contrário, a mídia seria apenas veículo de significados e não construtora de significados. Sua complexidade reside exatamente no fato de, construindo significados no território que inclui cada um dos pólos –enunciador/ emissor – enunciatário/ receptor – ela exigir permanentemente a dialética entre o já visto e o por ver, ou seja, a novidade  que responde pelas e alimenta as mudanças continuas de identidade versus a estabilidade que cada grupo social busca em sua dinâmica. O único limite é o horizonte da formação social na qual estão e que inclui tanto o já manifesto quanto o ainda virtualmente contido como possibilidades a serem realizadas.

Por essas incontáveis outras razoes, podemos perceber como é fundamental perceber o jornal no campo Comunicação/ Educação. Ele inclui, mas não se resume a , educação para os meios, leitura critica dos meios, uso da tecnologia em sala de aula, formação do professor para o trato com os meios etc. etc.Ele se rege, sobretudo, pela constru÷ão da cidadania, pela inserção neste mundo editado, com o qual todos convivemos, no qual todos vivemos e que queremos modificar.

A escola, ressignificada, é chamada mais uma vez, e sempre, para, no bojo dessa realidade, apontar caminhos de democratização. Um desses caminhos passa pela distinção entre a informação, fragmentada, e o conhecimento, totalidade que inclui a condição de ser capaz de trazer à superfície o que é ainda virtual naquele domínio. Prevê ter claro que o virtual de um domínio nada mais é que o resultado da interdiscursividade de todos os domínios, possíveis naquela formação social; que os diversos fenômenos da vida são concatenados em referência à sociedade como um todo. Para tanto, as informações fragmentadas não são suficientes. E essa inter-relação só é possível pela transdisciplinaridade, pela adequação dos objetivos da escola à construção do cidadão crítico.