"Estrutura da Divulgação Científica"

Eni P. Orlandi
Labeurb/Nudecri – Unicamp

Introdução

Uma das características da divulgação é a maneira como lida com a variedade.

Pensando a realidade do sujeito que é afetado pelo simbólico e pelo polýtico, podemos observar a questão da variedade em um instrumento de mídia como o jornal, iniciando já pela sua variedade interna: temos notícias de várias naturezas, abrangendo desde o próprio político até o conhecimento. É este último que vai nos interessar aqui já que estamos pensando a divulgação científica.  

Dois aspectos, quando tomamos a divulgação científica e o jornal nos retém a atenção: o fato de que um texto remete a outros textos e o fato de que o imediato faz ir para o não imediato.

Se refletimos sobre o fato de que um texto remete a outros temos a interessante questão que é a da relação de sentidos. Nesse caso, podemos considerar a relação entre jornais em torno da mesma notícia. É um exercício extremamente interessante o de expor o leitor à leitura de vários jornais falando da “mesma” coisa. Isto porque permite ao leitor compreender um aspecto importante do funcionamento da linguagem que é o de que ao dizer de modo diferente podemos estar significando diferentemente o fato em questão. Assim, o leitor deixa de se iludir com a transparência da linguagem. Ou seja, ele passa a perceber que a linguagem tem sua espessura semântica, tem sua ordem, sua materialidade. Em conseqüência, passa também a considerar que a relação da linguagem com a realidade é complexa, não havendo uma relação direta entre a palavra e a coisa. Isto o expõe a um olhar menos automatizado face à realidade.

Em relação ao fato de que o imediato faz ir para o não-imediato, podemos iniciar com um exemplo: a leitura sobre eleições, que esteve em pauta recentemente, por exemplo, pode levar o leitor a pensar mais demoradamente a política, sua importância na vida do cidadão, suas formas de significação na vida de cada um etc. Portanto, um acontecimento pode levar à reflexão de todo um processo de constituição da própria vida social do cidadão. Isto, pensado como instrumento de ensino de leitura pode ser explorado de modo muito produtivo em sala de aula.

Mas queremos falar da questão de como se estrutura a divulgação científica de modo a expor a maneira mesma como a forma do enunciado de divulgação científica se estrutura. É o que passaremos a fazer sem seguida.

Divulgação científica: um modo de dizer

A divulgação científica se representa como o alargamento de conhecimentos científicos de uma comunidade mais restrita para seu exterior. Esse movimento de um meio restrito para o grande público é a de uma função tida socialmente como necessária para o desenvolvimento das ciências. Segundo Roqueplo, a missão de fazer penetrar no grande público os novos conhecimentos consiste em colocar sob forma acessível ao público o resultado das pesquisas científicas. Trata-se para nós de uma questão discursiva, ou seja, a de transpor um discurso existente em função de um novo interlocutor. Isso significa que se trata da reformulação de um discurso fonte em um discurso segundo. As operações que aí são investidas, na reformulação são: transferência, resumo, resenha, análises reformuladas em direção a um grupo social, mensagens reescritas em função de um certo alvo etc. No caso da diwulgaçã científica o trabalho da reformulação é explícito, ou seja, ele se mostra como tal, e isto faz parte dos efeitos que se espera do discurso da divulgação científica. Ele mostra os bastidores em que os efeitos da divulgação são produzidos.

Aparecem assim as supressões, adições, substituições operadas na reformulação como parte do modo como estas manifestações constroem no discurso segundo uma imagem da atividade enunciadora de que ele é produto. Ou seja, ele produz assim uma imagem, uma representação da sua própria produção. Esta representação faz parte do discurso de divulgação. Ele mostra sistematicamente como se passa de um discurso (o da ciência) a outro e o faz como forma de legitimar sua relação com a ciência. Ao contrário do discurso pedagógico ou científico que trabalha com definições, o discurso da divulgação científica vai trabalhar com a menção: não temos “as bactérias são...” mas “Tal autor diz que as bactérias são...” Ou de modo mais complexo é todo um resumo que refere, ou a série de publicações etc: “Há pouco tempo, o Diretório Geral de Pesquisa Científica e Tecnológica , reunido em Brasília, decidiu organizar uma reunião para  fazer um balanço dos 10 anos de pesquisas em torno da questão dos genes...” ou então “Mais de dois mil especialistas se reuniram em Brasília no CNPQ.(...) Na conferência inaugural, o cientista X declarou que...”

Como diz J. Authier (1998) muitas vezes é sob o fundo de conhecimentos clássicos convocados pelo divulgador, em uma primeira parte, sob um modo pedagógico, próximo do manual, que aparece o discurso feito sobre o acontecimento, objeto do artigo. Os parâmetros do ato de enunciação – pessoas, datas, lugares, modalidades e circunstâncias – estão presentes de maneira insistente. Por exemplo: Por volta de 1965, dois pesquisadores americanos, o eletrofisiologista G. Shepherd e o citologista T. Reese (...) chegaram ambos a uma conclusão inesperada(...) Pouco tempo depois, a equipe de J. Dowling da Universidade J. Hopkins (EUA) põe em evidência ...”. As referências podem ser mais vagas – como pensa-se, admite-se hoje, os especialistas consideram etc – mas estarão presentes de modo explícito construindo a remissão de um discurso a outro.

Temos uma variedade enorme de formas de representar a interlocução científica de um discurso para o outro. Um exemplo seria: “Galileu procurou manter dois de seus redatores durante toda a reunião para relatar aos leitores que precisam manter-se informados sobre.....”

Temos, assim uma estrutura de três lugares A Ciência, o divulgador e o público leitor. O lugar da ciência como diz Authier (idem) é ocupado por múltiplas pessoas que se exprimem concretamente identificadas. Esses numerosos nomes próprios, prestigiosos e intercambiáveis para o leitor padrão, asseguram, tanto ou mais talvez que uma informação, um efeito de real e uma animação do discurso da ciência, ao mesmo tempo em que sua autoridade produz uma garantia de seriedade na divulgação científica.

De todo modo vemos sempre a reformulação se fazendo e isto se encena para o leitor de forma que ele possa apreciar as idas e vindas de um discurso de especialista para o discurso comum. O que lhe dá garantias de que ele está todo o tempo fazendo a travessia da ciência, embora não permaneça nela como o faz o especialista com sua metalinguagem.

Por outro lado, a relação entre os discursos – o da ciência e o do cotidiano – podem ser de vários tipos: de equivalência, de sobreposição etc. E assim o leitor vai seguindo os discursos produzindo uma maior ou menor distância entre eles. E as formas da reformulação são várias: introduzidas por aposto, por simples justa´posição, por incisa. Sem esquecer que o vocabulário especializado tem emprego abundante e sistemático. Daí termos, por exemplo:

Z, dito Y; Z é chamado de y; o dispositivo x, quer dizer, o reservatório de z;o estojo, ou cápsula, que reveste o ADN viral; grupos em um só “cluster” – um cacho – que...; envolta por uma “caixa” protéica. Como vemos, é abundante o uso de aspas, de itálico, de traços, e outros expedientes diacríticos. O que ressalta em todos esses usos é o fato de que não esconde ao contrário dá visibilidade aos modos da reformulação. Se, de um lado, essa forma explícita de dizer garante que é de ciência mesmo que se está falando, ela produz ao mesmo tempo a imagem de que esse conhecimento “reformulado” é um conhecimento só aproximativo. Mas mesmo assim esse discurso cumpre uma sua função fática importante: ainda que aproximativo, ele garante que a comunicação se faça, entre diferentes interlocutores, garantindo a coesão social, dando aos leitores uma representação confortável de sua posição relativa à ciência.

Se pensamos a situação escolar, o texto de divulgação científica deve cumprir sua funções de não deixar se quebrar o elo de comunicação que este aluno estabelece, através destes textos, com a ciência. Certamente há uma grande diferença entre o texto científico e o texto de divulgação científica. A escola é o lugar precípuo do texto científico, insubstituível na formação do aluno que assim se inicia nas diferentes metalinguagens das diferentes disciplinas. Mas o discurso de divulgação, garantindo a função fática da comunicação com a ciência, mantém o aluno “ligado” ao que é produto do processo científico, que é objeto do ensino formal. A relação com esses produtos, por sua vez, garante a coesão social. E é assim que se forma a opinião pública, social, sobre ciência e que permite aos leitores em seu conjunto participar dos rumos que toma a produção científica. Porque a divulgação científica reforça a existência e a representação social da ciência. Na escola, portanto, essa forma de discurso pode ser o modo de introduzir o aluno na produção científica, que, a partir daí, fará seus diferentes trajetos em diferentes níveis de conhecimento e especialização.