"Estruturas do discurso jornalístico"
Ester
Marques[1]
Mestre em Comunicação e Cultura pela UNB e doutoranda em
Ética e Discurso
Jornalístico pela Universidade Nova de Lisboa
“ler
um jornal é recuperar dois tempos,
dois locais, duas consciências e dois contextos”...
1-
APRESENTAÇÃO
A institucionalização do jornalismo como um dos principais campos de mediação da experiência moderna do mundo é resultante tanto do projeto de transparência e visibilidade da esfera pública contemporânea e, conseqüentemente, de constituição de um sujeito esclarecido e emancipado, como das transformações progressivamente alcançadas no domínio das tecnologias da informação, que permitem hoje a ultrapassagem das barreiras do espaço e do tempo, com a quase simultaneidade entre a ocorrência dos acontecimentos e a sua repercussão à escala planetária. Por isso, de todos os tipos de discursos pelos quais atualmente nos chegam os ecos do mundo, atingimos a experiência da vida e alcançamos a sua inteligibilidade e compreensão, o discurso jornalístico é talvez hoje um dos mais importantes.
Estas
razões, de natureza genealógica, não são, no entanto, suficientes para
explicar as estruturas do discurso jornalístico nem a sua atual importância,
uma vez que não permitem dar conta da relação da sua natureza e do seu modo
de funcionamento com as expectativas das sociedades modernas. É por isso que
habitualmente procuramos, na averiguação das funções que desempenha e das
necessidades que satisfaz, a explicação do seu lugar nas sociedades contemporâneas.
De fato, o discurso jornalístico assume hoje um imprescindível papel de
mediação, garantindo deste modo a constituição de um sentido comum para a
experiência e a indispensável coesão social necessária à cidadania pela
influência cada vez mais marcante que exerce na vida quotidiana, na organização
e produção de conhecimentos, na troca de experiências, na produção/reprodução
de formas simbólicas, na gestão dos conflitos e na elaboração dos conteúdos
éticos que configuram a prática social.
2
– A verdade apodítica do discurso jornalístico
O
discurso jornalístico é sobretudo o relato dos acontecimentos que tiveram
lugar recentemente, relato que é produzido como notícia e que circula
regularmente no nosso dia a dia através dos diferentes dispositivos da informação.
É, por isso, o resultado de um processo social de construção da realidade,
definido por certas condições factuais, regras e convenções narrativas que vão
desde as regras sintáticas e semânticas até as normas ético-pragmáticas do
falar. São estas regras e convenções que funcionam como estruturas do
discurso jornalístico e que constituem os pressupostos de um contrato de
leitura entre o jornalista e o leitor.
Na
base deste contrato está presente o princípio da veracidade, isto é, o princípio
que funciona como base de legitimação do discurso jornalístico como um
conhecimento científico, passível de sistematização, racionalização,
verificação, análise e aplicabilidade. O
princípio da veracidade baseia-se na observação e registro de fatos
comprovados, organizados e classificados, “exigindo para isso um certo grau de
precisão e exatidão, mediante a substituição dos fatos pelas idéias e das
coisas pelas palavras.” (Park 2002:37) Este tipo de conhecimento difere,
segundo o mesmo autor, do conhecimento com, isto é, do conhecimento que
é adquirido através da familiaridade
“ no decurso dos contatos pessoais e imediatos com o mundo que nos rodeia
(...) e que advém do uso e do costume” (Park 2002: 35)
O
princípio da veracidade pressupõe a defesa de uma tese (posição sobre a
realidade) que se apresenta como verdade diante de qualquer interlocutor. “Em
outros termos, quem afirma algo em uma argumentação não se limita a enunciar
uma proposição, mas se apresenta como defensor da verdade daquilo que afirma e
o eleva como sujeito de discurso diante de outros sujeitos de discurso, de uma
pretensão de verdade da qual pretende o reconhecimento.”(Gomes 1991: 24) A
ausência do princípio de veracidade equivale a uma espécie de autocontradição
que invalida a própria enunciação ou, melhor, resulta na quebra da relação
de confiança entre jornal e leitor.
Daí
que a primeira tentativa de estruturação do discurso jornalístico é a busca
de uma verdade absoluta, definitiva, de uma enunciação legítima, de uma
narrativa fundada na veracidade, que por si só possa estabelecer o contrato de
leitura entre o jornal e o leitor. Veracidade ou verdade que se apresenta aqui
“como um acordo (correspondência) entre o que é dito e a realidade”
(Guimarães 1995:24). Esta verdade apodítica é dada pelo próprio fato, pelo
que aconteceu aqui e agora, desta e não de outra maneira, com estes e não
outros critérios de noticiabilidade. Em vez de uma realidade primordial, que
está dada à partida, a realidade proposta pelo objeto ou pela ocorrência é
sempre negociável porque sempre passível de interpretação. É o próprio
fato que diz o que é, por que está ali, naquele momento, como quer ser
relatado, com quais características, para produzir quais efeitos[2].
Enquanto
objeto, é o fato que inicia a relação interlocutiva com o sujeito
propondo-lhe um cenário possível para a sua contextualização, no mesmo
momento em que é recortado do mundo subjetivo para adquirir um certo caráter
objetivo. Isto
porque um fato funciona como um quadro simbólico, que torna uma “ocorrência
fora de categoria, consagrada ao inclassificável e ao que não é
importante.” (Nora 1972: 184),
não reconhecível, aleatória, dispersa no tecido social, em uma ocorrência
identificável e possível de ser relatada, a partir de uma dada ordem social.
“os quadros simbólicos organizam tiras do mundo cotidiano(...) Goffman define
tira como uma fatia ou um corte arbitrário na corrente das atividades em
curso.” (Tuchman 2002:99)
Mas,
o que significa verdade e veracidade aqui? Verdade nesta perspectiva é
objetividade, isto é, fidelidade ao objeto que, por isso, se apresenta na sua
complexidade como um axioma, como um fato total, em todas as suas dimensões
significativas. Assim, segundo a concepção de Gomes (1991), a fidelidade
jornalística é propugnável porque admite que a faculdade do conhecer é
sempre reportável ao passado (retorna sempre ao evento) ou atualiza o presente
em que a realidade pode ser aduzível (trazida para diante de nós) ou seduzível
(trazida para nós). Mas, não é qualquer fato que adquire o estatuto jornalístico.
É preciso antes reconhecer de, entre os fatos dispersos n tecido cotidiano,
quais são susceptíveis de adquirir o estatuto de acontecimento.
3
- Fato cotidiano e fato jornalístico
Todos
os eventos que ocorrem no cotidiano são fatos que configuram a nossa realidade
objetiva e dão sentido ao mundo que nos circunda.
Levantar da cama, tomar banho, beber café, ir para o trabalho, estudar,
telefonar para um amigo, namorar e voltar a dormir são fatos que assumem funções
habituais, constituindo representações de uma determinada história privada de
vida. Estas representações são vividas como estruturas “naturais”, estáveis
e constantes pelo sujeito porque é através delas que ele se reporta ao real
dando significado à sua existência, assim como é através delas que o sujeito
toma conhecimento do mundo que o rodeia.
Os
fatos, portanto, fazem parte da realidade individual do homem como algo de que
ele precisa para fixar uma determinada memória, constituir uma identidade, para
se relacionar com o mundo, com os outros homens e consigo mesmo. Quando
interiorizados pela experiência cotidiana, os fatos aparecem como usos,
costumes e hábitos que legitimam um determinado comportamento social e definem
um esquema significativo que é vivenciado como algo conhecido, estável e
seguro. Acontece que de, entre tantos fatos que configuram a nossa realidade,
alguns desencadeiam registros diferentes daqueles esperados pelo desenrolar
cotidiano e acabam por adquirir interesse noticioso transformando-se em
acontecimentos públicos.
São
fatos que emergem da realidade em função da imprevisibilidade com que ocorrem,
constituindo fatos especiais em função de uma classificação ou de uma ordem
ditada pelas probabilidades, “sendo inversamente proporcional à probabilidade
de ocorrência[3]”
(Rodrigues 1990:99). Estes fatos transformam-se em acontecimentos, a partir de
três registros específicos. O primeiro registro acontece por excesso, isto
é, pelo funcionamento
anormal das regras que regem o universo discursivo jornalístico, e que pode ser
exemplificado por um massacre sem causa aparente de um povoado por tropas
militares. O segundo registro é o da falha, isto é, da insuficiência
de funcionamento normal das regras, cujo exemplo simples é o do revólver que
encrava no momento de disparar durante uma cena de duelo.O terceiro registro, o
da inversão, é o mais clássico e define a máxima do discurso jornalístico:
se um cão morder um homem não é notícia, mas se um homem morder um cão então
é notícia.
Esta
capacidade de um fato se transformar em acontecimento ocorre em função dos
critérios de noticiabilidade (valors-notícia)[4]
que lhe são atribuídos tais como a singularidade, o interesse público, a
relevância, a coerência, a atualidade, a universalidade, a verificabilidade, o
grau de importância e a quantidade de pessoas que envolve, por exemplo. Quando
isso ocorre, o acontecimento deixa de ser um evento de interesse individual e
passa a ser um evento de caráter social capaz de gerar um debate público e,
portanto, susceptível de ser enunciado segundo as regras do discurso jornalístico.
No ritual de passagem do fato para acontecimento a verdade absoluta defendida
pelo fato é recortada pelo jornalista que intervém na relação interlocutiva
sugerindo-lhe uma versão, conforme o tipo de interpretação que pretende
desenvolver. A verdade absoluta do fato, torna-se então a verdade relativa do
acontecimento em função da versão jornalística circunstancializada pelo
momento e narrada pelo jornalista que passa a ser, assim, o mediador entre o
acontecimento e a realidade ao explicar, comentar, criticar, parafrasear,
extrapolar e conjecturar a informação.
Daí
que a transformação de um fato em acontecimento é resultado da modificação
de sua natureza primeira, ou seja, é a transformação do acontecimento em fenômeno
social, capaz de despertar nas pessoas que são atingidas por ele os mais
diversos sentimentos e sensações; de fixar novas leituras da realidade; de
suscitar o debate; de aliviar as tensões sociais; de fazer circular a informação;
de promover o consenso social e principalmente de dar ordem aos caos. “Se o
mundo não é para ser representado como uma confusão de acontecimentos
desordenados e caóticos, então estes acontecimentos devem ser identificados
(isto é designados, definidos, relacionados com outros acontecimentos do
conhecimento público) e inseridos num contexto social ( isto é, colocados num
quadro de significados familiares ao público). Este processo – a identificação
e a contextualização- é um dos mais importantes, através dos quais os
acontecimentos são tornados significativos pelos media. Um acontecimento
só faz sentido se se puder colocar num âmbito de conhecidas identificações
sociais e culturais[5]” (Hall 1993: 225-226)
Nesta
transposição, o acontecimento enxerta no fato o seu drama, a sua magia, o seu
mistério, sua estranheza e sua poesia, seu poder de compensação e identificação,
sua tragicomicidade, o sentimento de fatalidade que o acompanha: “A própria
informação segrega seus anticorpos, e a imprensa escrita ou falada, no seu
conjunto, teria como efeito, antes de tudo, limitar desencadeamento de uma
opinião selvagem.” (Nora 1972:183) Mas, por mais que um acontecimento seja público,
isto não quer ainda dizer que irá fazer parte da narrativa jornalística. Para
que isto ocorra é necessário que este acontecimento seja caracterizado como
jornalístico, isto é, seja produzido como notícia, segundo as regras
enunciativas do discurso jornalístico e faça parte do menu ou agendamento
selecionado pela instituição jornalística, a partir de uma gramática
cultural que legitima o contrato fiduciário entre leitor e jornal.
4-
A produção da notícia segundo as regras do discurso jornalístico
O
discurso não é uma das fun÷ões da instituição jornalística. É
o resultado principal do seu funcionamento. “Os
jornalistas produzem discursos como o pintor pinta telas, o músico compõe músicas,
o arquiteto projeta edifícios”. (Rodrigues 1997:217) Pelo fato de os meios de
comunicação constituírem a principal janela por onde o sujeito contemporâneo
acessa o mundo, o discurso jornalístico acaba por ser o
discurso sobre o estado das coisas no mundo; mundo este visto aqui como um
sistema simbólico de compreensão de tudo o que pode ser dito, traduzido em
palavras, de tudo aquilo que tem nome e, portanto, significado para mim e para
os outros.
Nesta
perspectiva, o discurso jornalístico é, por excelência nas sociedades
contemporâneas, o discurso mediador da experiência humana ao estabelecer para
os fruidores os contornos do
horizonte da mundanidade, determinando os eventos e os objetos que dele fazem
parte. O código pelo qual se manifesta a sua decisão sobre aquilo que existe e
o que não existe (juízo ontológico) é conhecido por todos os fruidores”
(Gomes 1991:26), assim que o discurso jornalístico retira da realidade a matéria
prima, isto é, o conhecimento oral, com que trabalha, reinscrevendo-a na
realidade através das regras do conhecimento científico.
Assim,
o discurso jornalístico é um discurso narrativo, cuja palavra assume características
análogas a do verbo divino (confere o ser): tudo aquilo que é, é discurso e,
neste caso, é um discurso oracular, legítimo, acima de qualquer suspeita. Os
acontecimentos aos quais ele nos reporta, por mais controversos que sejam, são
apresentados sempre como uma verdade consumada, sobre a qual há de haver um
consenso solidamente estabelecido. Os sujeitos podem até questionar se um
acontecimento é mais ou menos sensacionalista, mais ou menos bem escrito, mais
ou menos bem acabado, mas ninguém questiona se é mais ou menos verdadeiro
ainda que a verdade seja a versão proposta pelo jornalista. “Os
acontecimentos, enquanto notícias, são regularmente interpretados dentro de
enquadramentos que derivam, em parte, desta noção de consenso enquanto
característica básica da via quotidiana. São elaborados através de uma
variedade de explicações, imagens e discursos que articulam o que o público
supõe pensar e saber da sociedade.” (Hall 1993: 227)
Como
discurso narrativo, o discurso jornalístico tenta, a todo custo,
dominar o devir; situar racionalmente os acontecimentos; dar sentido à ocorrência
dos fenômenos, tanto dos fenômenos provocados pelo desencadear das forças da
natureza como dos provocados pema ação do home}. Neste tipo de conhecimento há
uma tendência da substituição d fluxo dos acontecimentos e do seu caráter
mutável por uma fórmula lógica capaz de descrever com precisão matemática o
caráter geral das coisas. A narração pressupõe, portanto, um começo (a
tese), um meio (o desenvolvimento dos argumentos e a antítese) e a conclusão
(a síntese ou a moral da história) recortando do real o que é necessário
para torná-lo suficientemente coerente e pronto a ser assumido como tal. É
este processo que dá ao discurso jornalístico o acabamento estilístico necessário
para transformá-lo numa história pronta, acabada, sem sequencializações,
legitimando o velho e comum ditado popular de que “jornal do dia anterior só
serve para embrulhar peixe”.
Dito
de outro modo, isto significa que a notícia, como um recorte da realidade, é
um produto retórico constituindo para o leitor um relato único de uma única
história. É por conta desta natureza retórica que o discurso jornalístico só
tem um tempo: o tempo presente, continuum de presentes ritualizados pelos
agoras. Deste ponto de vista, a notícia nasce, vive e morre na versão em que
é relatada, enquanto o acontecimento, como um fenômeno social, inserido numa
dada realidade, permanece vivo exigindo o seu retorno sempre que isso se faça
necessário ou até que todas as suas dimensões significativas sejam descritas,
interpretadas e esgotadas no processo narrativo. A notícia é, então, o
resultado enunciativo do acontecimento e, nesta posição, adquire
expressão,
significação e sentido, já que um
relato converte-se na expressão singular do seu enunciador, ao estabelecer uma
determinada orientação pragmática quer de expressão de uma certeza, de uma
convicção ou quer de uma opinião.
Neste aspecto, a notícia se
distingue do acontecimento porque, enquanto o acontecimento é sempre vivo, dinâmico,
aberto, incompleto e disposto a novas e contínuas interpretações podendo ser
descrito de uma só vez ou através de sequencializações ou “ganchos”
(efeito cascata) conforme o interesse jornalístico, a notícia é o produto do
discurso e, enquanto tal, regido por critérios de sistematização e formalização
que a configura dentro de um esquema racionalmente planejado. “As notícias são
o produto final de um processo complexo que se inicia numa escolha e seleção
sistemática de acontecimentos e tópicos de acordo com um conjunto de
categorias socialmente construídas.” (MacDougall apud Hall 1993:224) Sendo
assim, o mesmo acontecimento pode aflorar inúmeras vezes à superfície da
realidade, a partir de recortes específicos, para assumir efeitos diferenciados
conforme o tipo de enunciação jornalística proposta para aquela circunstância.
Em outras palavras, é a notícia que inscreve e reinscreve o acontecimento na
realidade, tornando-o real, por meio de representações singulares.
Por
isso, é que o discurso jornalístico procura no próprio encadeamento dos
acontecimentos ocorridos as leis explicativas da sua ocorrência e, mesmo as ações
imprevistas e sem nexo aparente adquirem uma racionalidade imanente ao discurso
que as narra, quanto mais não seja pela sua abertura à descoberta racional de
uma explicação posterior. “Nesta situação, a unidade da notícia resulta,
não da ordem cronológica do desenrolar das ações nem da estratégia
narrativa escolhida pelo narrador para a contar, mas da existência implícita
de uma ordem lógica que a percorre de um lado ao outro. Esta ordem lógica da
narrativa consiste na relação, mediada pela ação transformadora, entre um
termo a quo, ou ponto de partida, e um
termo ad quem, ou ponto de chegada.”
(Rodrigues 1996:6)
5
–Entre a retórica e a referencialidade
Assim,
sendo o discurso jornalístico a notícia de um acontecimento efetivamente
ocorrido ou, pelo menos, tido como tal,
o seu valor é sempre referencial, ou seja, é sempre um conhecimento sobre alguém,
sobre alguma coisa, sobre alguma situação, pressupondo, portanto, a veracidade
e a autenticidade como princípios éticos do contrato de leitura. A
credibilidade do testemunho do
jornalista é o que garante a credibilidade do próprio contrato que só se
consuma como tal quando é reconhecido pelo leitor como legítimo. No entanto, o
valor referencial do discurso jornalístico é sempre relativo porque a competência
narrativa é uma espécie de capital simbólico, suscetível de acréscimo, de
diminuição ou de perda, conforme as alterações que a versão exige, quer em
consequência de fatores inerentes ao desempenho do próprio jornalista, quer
como efeito de alterações na instituição jornalística que representa e com
a qual é identificado, quer ainda como resultado da alteração das
expectativas do público.
Isto
porque, o lugar de fala do jornalista é produzido, mostrado e encenado no próprio
processo de narração da notícia. Por isso, o que determina o valor
referencial da notícia é a capacidade que o jornalista tem de relatar o
acontecimento com todas as suas dimensões significativas[6],
dando ao leitor a possibilidade dele próprio interpretar o acontecimento,
segundo os seus padrões de apreensão do mundo. É, portanto, a partir deste
lugar de fala que o jornalista pretende a neutralidade e a universalidade do seu
discurso, utilizando para tanto certas categorias de linguagem que camuflam o
processo de gesta÷ão da notícia como o uso da terceira pessoa, por exemplo,
que do ponto de vista enunciativo é forma verbal da não-pessoa; ou o uso dos
embraiadores, cuja função é assinalar precisamente a pessoa, o lugar e o
tempo em que a enunciação ocorre.
Assim,
o uso dos pronomes pessoais, dos advérbios de lugar e o tempo dos verbos
referem o narrador e o narratário, o lugar e o tempo da narração, dispondo em
relação a estas instâncias enunciativas as próprias ações narradas,
segundo Rodrigues (1996:8). Ao
dizer “hoje, de madrugada”, o discurso jornalístico está a situar a ocorrência
do acontecimento que narra em relação ao momento em que ele o narra. Ao dizer
“a inflação voltou a subir nos últimos três meses”, o discurso está a
localizar o fenômeno da inflação em relação ao espaço e ao tempo em que o
noticia. No discurso jornalístico, porém, o lugar do autor não é
identificado e os embraiadores são apagados, como estratégia de universalização
do discurso, fazendo com que as ações narradas adquiram um valor de
credibilidade universal, independente da pessoa, do lugar e do tempo da sua
enunciação.
Daí,
que em vez da narrativa tradicional (começo, meio e fim), a narrativa jornalística
é aleatória, pois não encadeia necessariamente a apresentação das ações
segundo a ordem cronológica da sua ocorrência, mas opta por estratégias de
inversão, de permuta, de supressão, de interrupção, de avanços (flashforwards) e de recuos (flashbacks).
Estas
estratégias enunciativas adotadas pelo discurso jornalístico são de natureza
retórica, cujos aspectos estilísticos
visam, sobretudo, alimentar a relação com o leitor fixando ou captando a sua
atenção, impressionando-o, comovendo-o, entusiasmando-o, chamando-o à
participação, criando com ele um discurso sobre o mundo, a partir da sua
dimensão fática.
Como
discurso retórico, o discurso jornalístico é estruturado segundo o princípio
de uma ação dramática. No processo dramático, a ação inicialmente
desencadeia um conflito/tensão que, conforme a interpretação dada a esta ação,
atinge o ápice para depois exigir a sua superação como retorno à realidade. Efeitos
como o suspense resultam destes
procedimentos retóricos pelos quais o narrador adia o desenrolar da ação,
alimentando no leitor a expectativa ou criando a sua curiosidade acerca do
resultado efetivo de entre os resultados possíveis da ação. Por isso, um
acontecimento pode ser noticiado de uma vez só, caso a sua existência seja efêmera,
ou pode ser fragmentado, relatado em cascata para ampliar a sua natureza dinâmica,
para permitir a configuração de todas as suas dimensões significativas.
Simbolicamente,
o discurso jornalístico, enquanto texto retórico é um ato de linguagem que
consiste no desdobramento de um trabalho de transformação, feliz ou infeliz,
fasto ou nefasto, provocado pelas ações que a narração põe em cena,
colocando assim em relação duas temporalidades-limite, um antes e um depois,
mediante uma temporalidade transformadora de mediação. Como tal, o texto
jornalístico é um processo de doação de sentidos, na medida em que dá a ler
uma orientação para o devir, funcionando como uma disposição ordenadora dos
acontecimentos, tornando-os deste modo inteligíveis, isto é, disponíveis para
um número incomensurável de interlocutores.
Neste processo, o jornalista parte da hipótese de que o universo de interlocutores atingidos por seu relato é incontrolável porque abrangido por pessoas de culturas diversas, com interesses e gostos heterogêneos. Ele pode até recorrer aos mesmos processos metalinguísticos de redundância e de contextualização que caracterizam uma conversa face a face, mas não tem ao seu alcance a apreensão da heterogeneidade de sentidos a que o seu discurso dá origem, uma vez que não pode identificar todos e a cada um dos seus interlocutores, nem pode controlar as hipóteses interpretativas que advém deste processo. Sendo assim, o jornalista pode transmitir um conjunto de saberes, converter em notícia os acontecimentos ocorridos no mundo, informar o seu público daquilo que de relevante aconteceu, mas não controla a heterogeneidade de sentidos que essa transmissão e esses saberes adquirem por parte dos seus interlocutores, não integra esses saberes transmitidos num mundo mutuamente partilhado.
6
– Instâncias de interação e produção de sentido
Reflexo
desta análise é a natural assimetria dos processos de produção e de recepção
de uma notícia. Do lado da produção, o jornalista
ao
autonomizar os fatos e os acontecimentos do mundo vivido da sua ocorrência,
liberta-os dos horizontes de sentido tradicionais, da sua carga corporal
concreta, tornando-os assim disponíveis para toda a espécie de novos sentidos
e de novos investimentos simbólicos. Do
lado da recepção, cada um dos sujeitos que integra o público, ao interpretar
os novos saberes do discurso informativo, a partir do seu próprio mundo vivido,
pode constituir-se imaginariamente como sujeito autônomo de constituição de
sentido.
Esta relação pretensamente neutral, no entanto, não diminui o compromisso
estabelecido no contrato de leitura. O jornalista, tal como o leitor, fazem
parte de um mundo só, compartilhado mutuamente, a partir do que Bakhtin chama
do princípio da responsividade ativa, em que cada um é direta ou indiretamente
responsável pelo que resulta do discurso jornalístico; pela polifonia de vozes
que o compõe e pela polissemia de sentidos que dissemina.
O
princípio da responsividade ou responsabilidade ativa é colocado em prática
no momento mesmo em que o discurso jornalístico é produzido. Como estruturas
próprias de enunciação, a produção e a recepção interagem entre si por
meio de categorias mediadoras que neutralizam o tempo e o espaço, constituindo
instâncias específicas de elaboração de sentido. Assim, enquanto a produção
inscreve o discurso jornalístico direcionando-o ao mesmo tempo ao senso comum,
através do discurso oral e ao conhecimento especializado, por meio do discurso
científico, a recepção constitui-se como um público que é envolvido por
esse processo de organização, é interpelado por ele e obrigado a
responder-lhe, segundo as regras que são postas em jogo no agendamento dos
assuntos a serem discutidos. Deste modo, em vez de um único nível de interação,
vários níveis de interação são propostos em função dos efeitos que
resultam da produção de sentido.
É
verdade que muitas vezes, a interação entre uma instância e outra se dá
através de silêncios, de ausências, de escutas. Assim, a ausência de palavra
do público, o silêncio constitutivo que muitas vezes caracteriza o discurso
jornalístico é o que o institui como instância de interlocução. Este silêncio
singular e eloquente, determinado pela experiência do mundo, não cessa de se
deslocar, à medida que o discurso jornalístico prossegue incansavelmente a sua
representação discursiva da realidade, percorrendo-o de uma ponta à outra,
acompanhando-o, vigiando-o, legitimando-o ou negando-o, segundo convenções prévias
de uma gramática valorativa.
Ao mesmo tempo, é deste silêncio
invisível, mas preenchido pelo trabalho de escuta e de leitura, que o discurso
jornalístico retira do público o seu princípio ético, a sua forma de ser e a
sua legitimidade.
Este
silêncio que atravessa o discurso jornalístico não cessa, porém, de produzir
sentidos ao deixar em branco unidades significantes, na cadeia das expressões
linguísticas, unidades que o público é levado a complementar, assumindo assim
um papel ativo, tanto na reconstituição da cadeia das formas significantes
como na elaboração de um sentido comum tanto para a dimensão referencial e
expressiva como para a dimensão significante da experiência. É
nos interstícios entre estas diferentes dimensões que um silêncio
constitutivo e indizível, mas prenhe de sentidos heterogêneos, se instala
solicitando diálogo, exigindo participação no complexo jogo de produção de
sentidos do discurso jornalístico, e mesmo que se trate de um monólogo, a relação
das formas discursivas com este silêncio confere-lhe uma natureza dialógica
inalienável.
7-
Em conclusão...
A
natureza dialógica inalienável do discurso jornalístico confere-lhe um papel
extremamente importante na atual configuração do espaço público. Quanto mais
as instituições políticas, científicas, religiosas, educativas e sociais
declinam do seu papel formador de uma consciência crítica, mais a instituição
jornalística adquire legitimidade para exercer o papel de formador de uma opinião
pública esclarecida. Esta função que lhe é dada pelo público exige cada vez
mais da instituição jornalística um equilíbrio entre os seus interesses e os
interesses sociais, coerente não só com a sua natureza informativa, mas também
com a sua natureza formativa.
Por
sua natureza dialógica, o discurso jornalístico tem sempre uma natureza democrática,
de abertura ao outro (quem escreve, escreve para o outro – pressupõe o outro
como sujeito), num processo de intersubjetividade permanente. Neste espaço
aberto pelo discurso jornalístico ressoam as várias vozes que ecoam do tecido
social, o que pressupõe um trabalho mental coletivo, tanto do ponto de vista
interno (processo de seleção dos acontecimentos; serialização das tarefas;
padronização do texto), como do ponto de vista externo (fontes, leitores,
concorrentes). Isto significa normalmente que
o discurso jornalístico não só constitui a realidade e suas complexidades,
mas ao mesmo tempo, é o resultado desta complexidade mais ou menos vulgar; mais
ou menos qualitativa, dependendo da realidade de onde tira a sua matéria prima
e para onde retorna como produto.
Deste
modo, o discurso jornalístico atualiza os discursos ausentes, através da dimensão
comparativa (de um acontecimento em relação a outro); da regressão ao
passado (retorno ao evento para reinscreve-lo na história) e da projeção
para o futuro (leituras propostas pelo texto), tornando-se um discurso
intertextual, incompleto e sempre aberto a novas inscrições. É esta
incompletude do discurso jornalístico que permite que a experiência possa ser
representada segundo os outros textos disponíveis no tecido social e conforme
as histórias individuais de cada um, funcionando ao mesmo tempo como antecipação
ou memória ou como atualidade, ou ainda como diz Eco: “a nossa capacidade de
lidar com o mundo depende do modo como lemos leituras sempre incompletas”.
8-
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WOLF,
Mauro. Teorias da Comunicação, Lisboa: editorial presença, 1994.
[1]Professor
Adjunta do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Maranhão,
Mestre em Comunicação e Cultura pela UNB e doutoranda em Ética e Discurso
Jornalístico pela Universidade Nova de Lisboa
[2]Esta
concepção difere da perspectiva positivista que pensa a relação
sujeito/objeto como a relação (científica) entre um sujeito dinâmico,ativo
e dono da verdade e um objeto inerte, passivo, pronto a ser descrito sem
qualquer participação.
[3]o discurso jornalístico «é uma anti-história, o relato das marcas de dissolução da identidade das coisas, dos corpos, do devir. Pertence, por conseguinte, ao mundo do acidente que deixa vestígios e altera a substância do mundo das coisas, das pessoas, das instituições.» É portanto perfeitamente compreensível que um fato, embora possa ter importância noticiosa, não obtenha relevância histórica, tal como é possível um fato histórico não ser dotado de relevância noticiosa. (Rodrigues 1996:4)
[4]“Embora
não estejam escritos em parte alguma, formalmente transmitidos ou
codificados, os valores-notícia parecem ser largamente partilhados entre os
diferentes meios de comunicação e constituem um elemento essencial na
socialização profissional, prática e ideológica dos jornalistas” (Hall
1993:225)
[5]“Este trazer de acontecimentos ao campo dos significados quer dizer, na essência, reportar acontecimentos invulgares e inesperados para os mapas de significados que já constituem a base do nosso conhecimento cultural, no qual o mundo social já está traçado. A identifica÷ão social, classificação e contextualização de acontecimentos noticiosos em termos destes quadros de referência de fundo constitui o processo fundamental através do qual os media tornam o mundo a que eles fazem referência inteligível a leitores e espectadores.”(Hall 1993:226)
[6]
Todo fato possui várias dimensões constitutivas que são: a-)Dimensão
axiomática (dado pelo próprio conteúdo); b-)Dimensão sociológica (a
geografia-espaço/tempo do fato e sua identidade cultural; c-) Dimensão
filosófica (os personagens envolvidos na narrativa jornalística, importância,
grau de relevância etc.); d-)Dimensão econômica (identidade
institucional, formato, público, linguagem, ocorrência, concorrência,
expectativas recíprocas etc); e-) Dimensão política (contextualização
do fato, ideologia, interfaces, tipos de respostas esperadas etc)