Maria Aparecida
Baccega Durante muitas gerações aprendemos, nos bancos escolares, que pertencíamos a um território – o brasileiro –, com suas fronteiras e seus pontos geográficos mais avançados. Essa noção nos dava a substância de nossa identidade: nascidos nesse território, éramos brasileiros, comungávamos ideais com outros que nasceram no mesmo espaço, compartilhávamos a mesma cultura. Morávamos num bairro, víamos o tempo que passava ser contado pelo apito da fábrica, pelos sinos da igreja. Regendo-nos, o Estado nacional.
Nos anos mais recentes, sobreveio a
concepção de que as fronteiras haviam se dissolvido, graças às
tecnologias. A velocidade – quer seja a referente aos meios de transporte
rápido (qualquer capital do mundo está a poucas horas de nós), quer a que
nos possibilita ver, em tempo real, na sala de nossa casa, acontecimentos
que estão ocorrendo naquele momento em uma pequena aldeia de um país
absolutamente distante – acopla-se à mudança da noção de espaço,
resultando daí o que se designou desterritorialização. Como conseqüência,
“decreta-se” apressadamente a morte do Estado. O tempo já não se conta
mais pelos apitos e pelos sinos. Sobretudo na realidade latino-americana, onde a pobreza e a miséria continuam a encontrar terreno fértil. Mas também em países ricos, como os Estados Unidos, onde o número de horas dedicadas à televisão ainda é muito expressivo. O que temos, na verdade, são ecossistemas comunicativos que vão se ampliando. Se antes era a imprensa escrita, depois o rádio, ao qual se acrescentaram a televisão aberta, em seguida as tvs paga e interativa e o computador, percebemos que todas vivem e convivem e se influenciam reciprocamente. Quando vemos nos meios de comunicação, em particular na televisão, as imagens de acontecimentos que estão ocorrendo bem longe de nós, sabemos que essas imagens foram editadas, ou seja, o que vemos é resultado de mediações, de escolhas. Sabemos que, ao selecionar-se uma imagem, descartaram-se várias outras. Ainda assim, nos envolvemos, tal é a força desse meio. Como lembra Marc Augé, fazendo considerações sobre espaço e tempo: “Além disso, é preciso constatar que se misturam diariamente nas telas do planeta as imagens da informação, da publicidade e da ficção, cujo trabalho e cuja finalidade não são idênticos, pelo menos em princípio, mas que compõem, debaixo de nossos olhos, um universo relativamente homogêneo em sua diversidade. Existe algo mais realista e, num certo sentido, mais informativo, sobre a vida nos Estados Unidos que uma boa série americana? Também seria preciso levar em consideração a espécie de falsa familiaridade que a telinha estabelece entre os telespectadores e os atores da grande história, cuja silhueta nos é tão habitual quanto aquela dos heróis das novelas ou das estrelas internacionais da vida artística ou esportiva. Eles são como as paisagens onde os vemos evoluir regularmente: o Texas, a Califórnia, Washington, Moscou, o Eliseu, os Pirineus ou o deserto da Arábia: mesmo que não as conheçamos, nós as reconhecemos. ” (1) É esse o modo que cada um de nós se crê “cidadão do mundo”, vivendo no pequeno espaço de seu bairro, de sua cidade. E considera, equivocadamente, que suas interpretações do que vê e do que vive são absolutamente individuais, próprias dele, originais.
Na verdade, falar em desterritorialização é
exagero, uma vez que o Estado territorial continua a existir, sendo básico
para impor as normas que regem o chamado processo de globalização, ou,
como diz Milton Santos, sendo este Estado atual “mais duro do que o
precedente regime autoritário na imposição de uma lógica internacional que
desarticula as lógicas nacionais e não têm referência a uma lógica
universal autêntica”.(2)
Ou seja: o capital procura desarticular, em seu
benefício, as lógicas nacionais, criando uma lógica universal que só
beneficia a ele próprio e está longe de constituir o cidadão do mundo, com
direitos fundamentais assegurados. O território apenas mudou de face. O
que existe são novas formas de vivenciar a identidade de pertencimento a
um território. As anteriores foram totalmente modificadas pela tecnologia,
pela comunicação, pelos novos conceitos de espaço e tempo. Criaram-se,
desse modo, novas sensibilidades, novos modos de relacionar-se, maneiras
diferentes de “estar junto” com outras pessoas, de circular pelas cidades.
Nessa nova realidade, não mais as compras no mercado, o lazer nas praças: tudo se passa no shopping; não mais os encontros nos caminhos, nas ruas: a circulação é rápida, sem paradas, sem trocas com os outros. Tudo respondendo à nova realidade econômica mundial, efetivada “desde que se decidiu erigir em centro do universo não mais o homem, mas o dinheiro em estado puro, o que constitui uma enorme diferença de qualidade, diante dos períodos capitalistas anteriores, nos quais o dinheiro se tornava capital produtivo, geografizando-se como capital produtivo e não apenas atravessando o espaço como fluido. Hoje é o dinheiro em estado puro que está presente na vida social e a comanda, ao mesmo tempo em que instala e agrava a fragilidade de tudo o que é territorial”. (4)
Marc Augé fala em não-lugares, que seriam os
“espaços constituídos em relação a certos fins (transporte, trânsito,
comércio, lazer) e a relação que os indivíduos mantêm com esses espaços”.
(5)
Para esse autor, os não-lugares criam uma “tensão solitária”, ou seja, a
mediação do indivíduo com esses espaços se dá através de textos verbais ou
imagéticos, com ordens e orientações como “pegar a fila da direita”, “é
proibido fumar”, com sinais de trânsito ou as falas do caixa eletrônico
quando usamos o cartão de crédito: “insira seu cartão”, “digite sua
senha”, “limite diário de 600,00” etc. Tais textos têm como enunciadores
instituições: aeroportos e rodoviárias, bancos, polícia rodoviária,
instituindo, desse modo, um novo modo de relacionamento social, uma nova
prática de estar nos lugares, de vivenciar esses lugares. A manifestação dessas identidades se dá no cotidiano, espaço de relaxamento, de coexistência e cooperação, de intimidade, que possibilita a intersubjetividade. É o espaço da espontaneidade, da surpresa, da condição de reestruturar sistemas ideológicos constituídos. É ali que “a emoção tem lugar, e, por conseguinte, é ali somente onde pode se pensar o novo, já que o novo não se pensa fora da emoção”. (7) Quando se reflete sobre essa temática, a impressão mais forte é aquela que diz que apenas o mundo influi sobre os lugares, numa relação de mão única, como se os lugares, os espaços de cotidiano dos grupos não tivessem importância, não significassem na nova realidade. Evidentemente, essa é uma falsa impressão.
Assim como, ao pensarmos os meios de comunicação temos que enfocá-los não
somente a partir da emissão, mas devemos levar em conta a recepção, aquela
que se dá no âmbito desse cotidiano, com suas matrizes culturais, lugar,
na verdade, onde se constroem os significados daquilo que é visto, ouvido
ou lido, compondo o campo da comunicação, assim também devemos pensar as
relações entre os lugares e o mundo: uma relação de interdependência, de
trocas, de percursos cotidianos onde se inscrevem novos caminhos, “onde a
emoção tem lugar”, “onde pode se pensar o novo”. Todos moramos num lugar e
nele, com ele e a partir dele interagimos com o mundo, reconstruindo-o.
O autor começa lembrando o papel importante que a escritura desempenhou na organização social e política moderna, destacando dois fatos históricos distantes 200 anos um do outro: a Revolução Francesa (1789) e a queda do Muro de Berlim (1989). Em ambos, a circulação clandestina de livros proibidos desempenhou importante papel. Na Revolução Francesa eram, por exemplo, livros que, com a devida contextualização histórica, continham anedotário sobre a condessa Du Barry, amante de Luís XV, e em 1989, livros de Freud e de Kafka ou que tratavam da Escola de Frankfurt eram os que mais circulavam de porta em porta. Também na economia de mercado, na organização jurídica e na administração do Estado a alfabetização, juntamente com a escolarização, produziram mudanças importantes. “Antes de mais nada, a escritura (como tecnologia da palavra) provoca uma reestruturação da consciência. Desse modo, a alfabetização possibilita uma mudança drástica e irreversível no ethos: enquanto abre novos caminhos para o conhecimento e para a cultura, fecha outros definitivamente. A alfabetização, associada à lógica escritural e à escolarização, provoca processos dos quais não se volta atrás.” (9) Ocorre que a lógica da escritura foi colocada em segundo plano nas últimas décadas. Ela foi ultrapassada pela hegemonia audiovisual e isso traz conseqüências. Como lembra Huergo,(10) existe uma relação entre os modos de comunicação, a estruturação da percepção e a evolução do imaginário e das ações coletivas. Mudanças no primeiro implicam mudanças no segundo e os dois juntos implicam mudanças no terceiro elemento. Podemos falar, no caso, da passagem das culturas orais para a lógica da escritura e, por fim, à hegemonia audiovisual, embora tenhamos a convivência de todos esses tempos e destempos em termos de Brasil e de América Latina. Assim podemos assistir à passagem das culturas orais para a hegemonia audiovisual, sem que se passe pela escritura. Aí temos o que se pode chamar de oralidade secundária, mais ligada à mídia, sobretudo à televisão, que aos livros.
A alfabetização que as crianças trazem para
a escola é essa: oralidade secundária, resultado da comunicação
generalizada, da sociedade dos meios de comunicação. Nessa
contemporaneidade, não se pode falar de uma história unitária. Trata-se,
agora, de uma sociedade que “não é mais transparente (mais consciente de
si mesma), e sim mais complexa, opaca e caótica; os meios dissolveram os
pontos de vista centrais, os grandes relatos e contribuíram para a
explosão e multiplicação de diferentes visões de mundo”.(11) Os meios
construíram, portanto, uma alfabetização múltipla. Eles elaboram novas
formas de conhecimento, que não podem ser recortadas, organizadas e
controladas pela escola. “Múltiplos e diferentes modos de comunicação que
por sua vez suscitam múltiplas e diferentes estruturações da percepção, e
esta co-evolução produz múltiplos e diferentes imaginários, crenças,
expectativas e ações mais ou menos coletivas. O marco/produto desses
processos é o que poderíamos denominar tecnocultura.”
(12) Não se pode negar a importância que a escola sempre teve historicamente. Com grande parcela de responsabilidade pela democratização do saber, sua fórmula foi exitosa durante séculos. Muitas vezes considerada apenas como fase de transição para o mercado de trabalho, ela cumpriu adequadamente seu papel. Hoje, se vê premida pelas novas condições culturais, tornando-se, muitas vezes, prioritariamente, um equipamento que serve ao controle social e político, acabando por colaborar com a exclusão. Paralelamente à escola, e com poder de fogo maior no que se refere a influências culturais, está a televisão, a qual trabalha com signos que clamam por seus significados nos próprios significantes. Ou seja, é como se os signos que compõem a TV não necessitassem de referentes, e atingissem diretamente os sentidos, as emoções, diferentemente do que acontece com os signos da linguagem verbal, com a leitura-escrita, com os livros, nos quais se baseia a escola. “Interatuar com uma fonte educativa que interpela os sujeitos-audiência essencialmente através dos sentidos e das emoções, é uma mudança paradigmática importante nas teorias e entendimentos educativos e, particularmente, nas concepções e compreensões da aprendizagem contemporânea. Estas, tradicionalmente, se basearam em e referiram-se à linguagem escrita, e mantiveram o livro como seu principal meio de transmissão-apropriação.” (13) Este é um dos grandes desafios da escola. Para tanto, necessário se faz deixar de compreender a educação como instrução, a aprendizagem como produto apenas do ensino, educandos apenas como alunos, conhecimento como saberes fragmentados. É preciso incorporar-se ao ecossistema comunicativo, no qual a televisão exerce importante papel.
É preciso deixar de encarar a televisão como
inimiga, como suspeita, pelo fato de ela ser divertida – o que é divertido
também pode educar; deixar de usar a televisão, o vídeo como meros
“ilustradores” das aulas baseadas em linguagem escrita. Como vimos, a
televisão traz outra linguagem, na qual o aluno está alfabetizado e que a
escola precisa saber usar para obter êxito em seus objetivos. Usar a
televisão, portanto, não como “substituta” do professor (que ela nunca
será), nem como equipamento “modernizador” que tem como base os mesmos
conteúdos ultrapassados ainda veiculados pela escola. Isso porque, com a televisão, a divisão sempre existente entre o mundo dos adultos e o mundo dos jovens e crianças deixa de existir. Assim, um livro para adultos dificilmente podia ser lido por uma criança: não apenas porque era “proibido” e escondia-se da criança (e ela chegava a ser penalizada se o lesse), como porque o vocabulário para adultos difere do vocabulário dos livros infantis ou infanto-juvenis. Já com a imagem da televisão isso não ocorre: a criança vê as mesmas imagens que o adulto, ainda que lhes dê outras interpretações. A mística que envolve os adultos desaparece: hoje eles são vistos como seres que podem ser agressivos, algumas vezes injustos, outras vezes bebem e nem sempre se pautam pela ética do discurso que adotam. E a escola continua a utilizar-se do livro, apenas. Como se todo o conhecimento emergisse dele e fora dele não houvesse salvação. Todas as etapas de aprendizagem têm como parâmetro a leitura da linguagem escrita, e o saber livresco, repetido pelo aluno, é que garantirá seja ele considerado um vitorioso ou um lento na aprendizagem. Ocorre que a leitura, quanto menos controlada por uma instituição (no caso a escola) mais criativa poderá ser. Se ao aluno compete exclusivamente “repetir” a interpretação do professor, pouco de suas experiências, de sua cultura poderá estar na volta seguinte do conhecimento. Como sabemos, não há 100% de reprodução, mas ela poderá ter uma extensão que dificulte a agilidade da construção do novo. Com a imagem as coisas se passam diferentemente. A leitura da imagem é mais livre, o poder de absolutizar o entendimento fica restringido. Por isso, o medo que a escola tem da imagem e, portanto, da televisão, que se utiliza de uma linguagem que sincretiza o verbal e o não verbal. Ao usar a imagem, a escola procura dificultar a polissemia, que é de sua natureza, utilizando-a como mera ilustração do escrito ou colocando-lhe legendas que conduzam a interpretação. Na verdade, a escola precisa aprender a trabalhar as novas sensibilidades dos alunos, criados num ecossistema comunicativo que não se restringe à utilização de imagens ilustrativas ou da televisão e do vídeo como complementos. Caso contrário, vão ficando cada vez mais distantes a experiência cultural de que falam os professores daquela que trazem os alunos, na qual eles se banham e da qual aprendem. E os discursos caem no vazio. Na verdade, trata-se de outra maneira de ver e de ler, de sentir e apropriar-se do mundo, com relação à qual a escola não pode se omitir. “Pela maneira como se apega ao livro, a escola desconhece tudo o que de cultura se produz e circula pelo mundo da imagem e das oralidades: dois mundos que vivem, justamente, da hibridação e da mestiçagem, do revolvimento de memórias territoriais com imaginários des-localizados.” (15)
A linguagem escrita, o livro, continuará a
ser “a chave da primeira alfabetização formal que, em vez de fechar-se
sobre si mesma, deve hoje pôr as bases para essa segunda alfabetização que
nos abre às múltiplas escrituras, hoje conformando o mundo do audiovisual
e da informática”.
(16)
Sem o domínio da linguagem escrita, não adentramos adequadamente o mundo
do não-verbal; apenas com a linguagem escrita, o conhecimento do e a
participação no mundo ficam limitadas. As tecnologias servem para ampliar a comunicação primeira, aquela que se dá através do aparelho fonador, utilizando-se fundamentalmente da linguagem: código verbal (língua) e não verbais (os gestos, o som, por exemplo). Podemos ilustrar com uma conversa a dois. Ela ocorrerá sem maiores transtornos. Se, porém, ao invés de atingirmos apenas o nosso interlocutor, quisermos atingir um auditório, provavelmente usaremos microfone. Se, mais que um auditório, quisermos atingir pessoas em lugares mais distantes e em número maior – já na casa dos milhares e até milhões – podemos optar pelo rádio. Se a imagem for indispensável, aí entra a televisão. E se quisermos interagir com o interlocutor em tempo real, podemos usar a Internet. Percebemos, por esse exemplo, que, na verdade, as tecnologias nada mais fazem que amplificar o que queremos dar a conhecer, cujo conteúdo avaliamos como importante. Observemos: fundamentalmente é “o que avaliamos como importante” a base do uso da tecnologia. E a formação para isso não está necessariamente na tecnologia. Se o objetivo do Estado for o controle, o que a tecnologia faz é ampliar esse controle (vide a expansão da ideologia nazista que tanto se utilizou do rádio e do cinema). Não podemos nos esquecer de que a televisão também é uma grande conquista tecnológica e, pelo que se ouve predominantemente, ela não vem sendo utilizada da maneira mais adequada à formação cidadã.
No entanto, se temos um projeto pedagógico
que atende às exigências de diálogo, de interação, de respeito a todos os
envolvidos, as tecnologias servirão para sua divulgação e
operacionalização, atingindo maior número de participantes. E isso será
altamente benéfico. Outro aspecto que não podemos esquecer é que nossos alunos nasceram e estão se constituindo enquanto cidadãos nessa nova realidade, que alguns chamam de sociedade da informação, sociedade do conhecimento ou infoera. Nessa nova realidade, os valores de compartilhamento, de interação, o relacionamento humano estão se modificando velozmente. Recebemos um excesso de informação, em escala muito maior do que podemos absorver. E, nessa escalada estonteante, a informação acaba passando por conhecimento, deixando em todos as marcas da fragmentação, que são o caminho para o insucesso na busca de mudanças sociais que beneficiem a todos, que incluam os milhões que se encontram fora das conquistas da humanidade, muitas vezes até sem ter o que comer. Só o conhecimento, com sua percepção de totalidade, pode ajudar na seleção do que é efetivamente importante e necessário para as mudanças históricas.
Segundo João Antônio Zuffo, o ensino
fundamental sofrerá modificações ainda maiores, segundo o mesmo professor.
Os cursos deverão se voltar para a criatividade e para os aspectos
vocacionais das crianças. O ensino terá que ser personalizado e ministrado
de acordo com a capacidade e competência de cada um. Haverá profunda
mudança na filosofia de ensino, pois as crianças aprenderão as disciplinas
de forma atrativa. Por outro lado, é inegável que à tecnologia se reserva um papel altamente positivo: ele se refere à possibilidade, que é da natureza dela, de constituir-se na base de um processo de construção coletiva de conhecimentos, que tem sido divulgado como conhecimento em rede. O caráter complexo da realidade contemporânea exclui a possibilidade de indivíduos com saberes suficientes para dar conta do que acontece no dia-a-dia. A concepção de chefes que ditam as normas, ainda que eles sejam dotados de uma super-inteligência, ou de professores que, sozinhos, são capazes de enfrentar os problemas que se renovam constantemente não tem mais sentido. Hoje, faz-se necessário que o conhecimento seja uma construção coletiva, que, ainda que se dê a partir de entradas específicas (e aqui estamos pensando nos campos de conhecimento instituídos, como a Linguagem, a Sociologia, a História, a Filosofia etc.), certamente necessita da colaboração dos outros campos de conhecimento, os quais se metassignificam nesse diálogo inter-campos. Como vemos, elites de pensadores, chefes totalitários, professores que trabalham isoladamente não mais se justificam. Se é verdade que tal diálogo, tal interação pode se dar através de instituições, de reuniões, também fica evidente que a presença da Internet estimulará esse intercâmbio, esse compartilhamento. Daí seu caráter democrático, pelo qual devemos lutar. Nessa profusão de saberes, selecionar o que convém passa a ser a necessidade maior. Hoje, já é possível ao leitor selecionar o que quer ler (que editoria ele considera indispensável) na imprensa on line. E, muitas vezes, até interferir no conteúdo da notícia. Mas, se ele não freqüenta as outras editorias, como sabe que não precisa conhecê-las? (18)
Como diz Michel Authier, “crer na democracia
é crer que cada cidadão seja capaz de escolher o que é melhor para si”.(19)
E, para que nos tornemos cidadãos, haveremos que levar em conta que
“informação não equivale a conhecimento. Informação necessita de
estruturas conceptuais que a suportem e lhe dêem sentido. Ainda que possa
parecer estranho, a informação também gera ignorância e desconcerto na
ausência de marcos teóricos, conceptuais e axiológicos que lhe dêem
sentido”.
(20)
Pesquisas de 2004 indicam que apenas 6,1% da população brasileira acessam a Internet de suas casas. Mesmo assim, os usuários domiciliares de Internet em nosso país apresentam, segundo Marcelo Coutinho, (21) um dos mais elevados número de horas por mês de utilização da Internet: 13 horas, maior que muitos países europeus e, às vezes, até que os Estados Unidos. Dados anteriores, publicados por Icoletiva,(22) baseados no Ibope e Ratings, mostram que o número de usuários domiciliares da Internet no Brasil já havia crescido em janeiro de 2003, chegando a 7,5 milhões de pessoas. O número de horas navegadas também havia crescido, atingindo 11 horas e 10 minutos por mês. Em 2004, como vimos, já são 13 horas. Os sites mais procurados naquele ano incluíam os de Carreiras e Empregos, com 18,8% dos usuários ativos. Desse total, 40% tinham nível superior ou pós-graduação, o que pode ajudar a esclarecer a questão da inclusão digital. Onde ela se localiza? Tal pista se completa com outro dado: foram 3,2 milhões os que procuraram sites de Notícias e Informações, todos usuários pertencentes às classes A e B, segundo o Ibope.
Na busca da inclusão social e digital, a
Escola desempenha importante papel, já que é o lugar privilegiado da
socialização, dos encontros marcados para reflexão, para construção de
cidadania. Ensinar a ler os meios, possibilitar conhecimento para que a
seleção seja adequada aos interesses coletivos constituem a base do que
vem sendo chamado de 5º poder: o poder da sociedade nas suas relações com
a mídia. Num primeiro momento da nova fase da sociedade, foi lugar comum afirmar que as culturas se fragmentaram. Na verdade, o que temos não é a fragmentação mas a constatação de que as culturas, sufocadas em nome de um comum incerto e não sabido, revitalizam-se e passam a exigir vez e voz nesse novo quadro. Referimo-nos tanto às culturas européias como Sérvia, Montenegro e tantas e tantas outras quanto às culturas que estão aqui na nossa cidade, ao nosso lado, no nosso cotidiano: os negros, os índios, os movimentos musicais da periferia, entre muitos outros, que procuram restabelecer sua dignidade, muitas vezes com êxito. Evidentemente, todas essas novas manifestações, para cuja divulgação a mídia em geral tanto colabora (desde o rádio, a tv e os jornais impressos até a Internet – e-mails, chats, blogs, sites etc. etc.) constituem-se em lugares de educação, nos quais se formam as identidades, os quais impregnam os sujeitos de novas referências de leituras e de escritas, a partir das quais eles serão leitores e escritores. O livro, e apenas o livro, embora continue a ser fundamental, pois o conhecimento da linguagem verbal é indispensável para se viver em sociedade, em qualquer classe social, evidentemente não é mais suficiente. A escola deixa de ser o único lugar social de legitimação do saber. Este conhecimento (e não mera informação) que circula nesses novos espaços passaram a significar uma legitimidade igual ou superior algumas vezes à escola, uma vez que neles (esses espaços) o indivíduo-sujeito se identifica, está próximo de seus iguais, é compreendido e compreende. Se, como ensinam vários filósofos da linguagem, a identidade se forma pela linguagem, podemos perceber a complexidade do que se diz quando se sabe que, hoje, sons, imagens, linguagem escrita têm a mesma importância em um texto e que no geral, os textos têm se utilizado das três modalidades ao mesmo tempo, formando um novo código, complexo. Se o cinema e a televisão já apontavam para isso, com a Internet tivemos a cristalização desse novo jeito de comunicar-se e, portanto, de formar-se. O texto eletrônico não se esgota no computador. Estende-se a vários suportes e escritas, como os videogames, o videoclipe, entre outros. Também não podemos esquecer o zapping, o hipertexto, que destroem a linearidade à qual estamos acostumados. Segundo Martín Barbero, (23) “É nas novas gerações que essa cumplicidade [entre a oralidade e visualidade] opera mais fortemente, não porque os jovens não saibam ler ou leiam pouco, mas, sim, porque sua leitura já não tem o livro como eixo e centro da cultura. Deste modo, é a própria noção de leitura que está em questão, obrigando-nos a pensar a desordem estética que as escritas eletrônicas e a experiência audiovisual introduzem. Pois a visualidade eletrônica passou a fazer parte constitutiva da visibilidade cultural , essa que é ao mesmo tempo meio tecnológico e novo imaginário ‘capaz de falar culturalmente – e não só de manipular tecnologicamente -, de abrir novos espaços e tempos para uma nova era do sensível’ (Vattimo)”. É assim que se constituem os leitores. NOTAS
[1]
AUGÉ, Marc. Não-lugares.
[2]
[3]
MARTÍN-BARERO, Jesús.
[4]
[5]
AUGÉ, Marc.
[6]
MARTÍN-BARBERO, Jesús.
[7]
[8]
HUERGO, Jorge A Comunicación/ Educación. Ambitos practicos y
[9] HUERGO, A Comunicación...op.cit. p. 82 [10] HUERGO, A Comunicación...op.cit.... p. 83 [11] HUERGO, A Comunicación...op.cit. p. 83 [12] HUERGO, A Comunicación...op.cit. p. 84
[13]
OROZCO GOMEZ< Guillermo. ..Televisión, audiencias y educación. In:
Televisión. México:
[14] OROZCO G. Televisión...op. cit. p. 79-80
[15]
Barbero e Rey, J. G. Os
[16]
Barbero e Rey, J. G. Os
[17]
EINSTEIN, Albert.
[18]
[19]
AUTHIER, Michel. A
[20]
NUÑEZ JOVER, Jorge.
La ciencia
y la
deveria
[21]
COUTINHO, Marcelo. O
[22]
http://www.icoletiva.
[23]
Martín Barbero, Jesús. Tecnicidades,
|