JORNAL, UM ESPELHO DA VIDA

Dirceu Fernandes Lopes
Jornalista e Professor Doutor da Escola de Comunicações e Artes - USP

“Procuro ler o jornal todas as manhãs. É uma das formas que encontrei para aumentar meu conhecimento...” “Quero agradecer a todos aqueles que não fazem do jornalismo uma tarefa apenas informativa, mas também libertadora (da ignorância) e conscientizadora...”

Esses dois trechos de uma carta que a dona-de-casa Elisa Toneto de Carvalho enviou ao jornal O Estado de S. Paulo, no dia 9 de novembro de 1997, mostram bem a importância da leitura do jornal, sua contribuição para a cidadania e, principalmente, como forma de entender o passado, explicar o presente e projetar o futuro.

Os chamados programas Jornal e Educação, num total de 37, atualmente, que atingem cerca de seis milhões de alunos no Brasil (CAMARGO, 2006), atuam não somente na criação de hábitos de leitura, mas também na formação continuada dos professores do ensino Fundamental e Médio. O uso desses jornais nas salas de aula, promovido pelos meios de comunicação, segundo Henry Giroux (citado por CAMARGO, 2006), [...] permite contextualizar através da exploração da vida diária, desvelando contradições encobertas pela abordagem de conteúdos cristalizados e pode conferir à escola o papel que deveria ter sido sempre seu: assumir-se como espaço democrático para o conhecimento, a discussão e a problematização dos processos sociais, objetivando a participação de políticas que reduzam as desigualdades sociais através do fortalecimento da resistência contra o estabelecido.

Não há dúvidas sobre a importância do jornal como instrumento didático na sala de aula e sua contribuição na formação continuada de professores. Pelo menos é o que tem demonstrado os inúmeros trabalhos científicos como teses de Doutorado, dissertações de Mestrado e mesmo Trabalhos de Conclusão de Curso (TCCs) defendidos em academias. É só conferir nos acervos das bibliotecas nas universidades. Teóricos repetem constantemente que a utilização do jornal converte a sala de aula em espaço de discussão da vida diária, já que sua matéria-prima (a notícia) envolve a construção do cotidiano.

Contudo, as questões que precisam ser respondidas para esclarecer os professores que utilizam o jornal são, aparentemente, simples, mas ao mesmo tempo complexas para os mestres que não têm conhecimento do processo de elaboração de um jornal e, principalmente, das tendências de determinado tipo de imprensa que manipula, valoriza o sensacionalismo e o denuncismo.

Começamos pela questão mais simples: o que é um jornal? Um texto publicado no Wisconsin State Journal, de autoria de Fred J. Curran, e reproduzido na revista Imprensa em homenagem ao Dia do Jornalista, coloca algumas pistas que podem facilitar o entendimento dos docentes que utilizam o jornal impresso para motivar a leitura em seus alunos e também para sua formação continuada.

Algumas frases ajudam a entender a importância desses veículos que contribuem para a formação de leitores conscientes e esclarecidos, além de propiciar, através da leitura, a percepção dos fatos e do espaço em que vivem.

Nesse texto, a menina pergunta: o que é um jornal?

“É um papel cheio de palavras e fotografias.”
“É feito de muitas pessoas, gente como nós.”
”É uma grande notícia ou uma pequena notícia sobre povos distantes ou pessoas que moram do nosso lado.”
“É felicidade, é tragédia, riso e choro.”
“É governo, do presidente da República ao vereador da câmara municipal e, em todas essas ramificações, um olhar inquiridor sobre seus atos.”
“É a polícia, é o bombeiro e outras profissões perigosas.”
“É negócio, é indústria, é vitrine para os comerciantes. É o anúncio que procura um cão desaparecido.”
“É o registro do que acontece às pessoas, de quem faz algo, quando, onde e por quê.”
“É o ringue de box, o jogo de futebol.”
“É uma receita sugerida, uma idéia para decorar seu lar, um pequeno conselho a quem está falido.”
“É o amanhecer da primavera, o dia mais quente do ano.”
“É a lida diária do jovem que vai e volta da escola, o que faz e aprende com os professores.”
“É parque, é férias, é lugar para passear e como chegar lá.”
“É a praia, um bom lugar para pescar no verão, é o ficar sem fazer nada.”
“É a produção, o progresso, o novo e o velho produto.”
“É ajuda, é serviço profissional, é a notícia que se fez nas clínicas e hospitais.”
“É o boletim sobre a igreja, o templo, a sinagoga.”
“É a fotografia sobre grandes acontecimentos.”
“É a opinião do jornalista, a divergência do leitor, o pensamento do colunista.”
“É a explicação de muitas coisas.”
“É um espelho da vida. Uma parte da vida tão importante quanto o relógio e o calendário.”

Se boa parte dessas frases pode ser óbvia, mesmo para docentes que não têm conhecimento técnico sobre a produção de um jornal, a questão fica mais complexa quando se trata da linha editorial desses veículos que muitas vezes envolve princípios éticos. Aí a situação fica mais complicada. Como é possível que docentes manipulem jornais na sala de aula, e mesmo os utilizem para sua formação continuada, se boa parte deles não lê jornal diariamente?

Isso ficou claro durante minha exposição sobre o tema Televisão/Cinema ou Livro/Jornal – de que maneira formar o leitor brasileiro?, durante o 3º Seminário Nacional “O professor e a leitura do jornal”. Quando perguntei aos professores presentes quantos liam jornal diariamente, um pequeno grupo respondeu afirmativamente. Num cálculo aproximado de 15% dos presentes.

Os programas Jornal e Educação já comprovaram sua utilidade para criar hábito de leitura nos alunos e como propõe a tese de Doutorado Formação de Professores do programa Jornal, Escola e Comunidade, a contribuição à formação continuada dos docentes.
Considerações Finais

Para que esses programas atendam os objetivos a que se propõem, são fundamentais alguns pontos:

1. Criar hábitos de leitura diária nos docentes que utilizam os jornais nas salas de aula, com a aquisição de jornais pelas bibliotecas das escolas em que lecionam;

2. Pesquisar livros que ajudem os docentes a entender o que é um jornal, qual sua linha editorial, a quem é dirigido, suas ligações políticas e econômicas. Livros que podem contribuir para esclarecer essas questões são: Para uma leitura crítica dos jornais e Como ver televisão – Leitura crítica dos meios de comunicação;

3. Promoção de seminários ou cursos rápidos que introduzam os professores na técnica do jornalismo, promovidos pelas escolas ou mesmo pelos meios de comunicação que oferecem os programas Jornal e Educação.

Apenas para concluir, reforçando a importância da leitura, cito o folheto escrito por Frei Betto, escritor e colaborar de vários jornais, intitulado O companheiro que não gostava de ler.
Numa visita a um acampamento dos sem-terra no Pontal do Paranapanema, durante a montagem de uma barraca de lona preta, nas margens da rodovia, foi perguntado por um jovem sem-terra, que soube que ele era escritor: “Por que você gosta de ler?” Frei Betto respondeu: “Porque os livros contêm quase tudo o que a gente precisa saber: a explicação da Bíblia, receitas de cozinha, como arar a terra, a origem das frutas, como armar uma barraca com paus e folhas. Pelos livros a gente aprende a falar outra língua, ligar um aparelho de som, combater formigas, conhecer a história do Brasil, operar um computador. Quando leio, viajo pelo mundo sem sair do lugar”.

Frei Betto deu livros como exemplo, mas poderiam ser jornais.


Referências Bibliográficas

CAMARGO, Eliana Nardelli. Formação de Professores no Programa Jornal, Escola e Comunidade. 2006. Tese (Doutorado em Educação) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2006.
CAMARGO, Eliana Nardelli. O Jornal na Sala de Aula: um estudo comparativo entre os programas Jornal, Escola e Comunidade do jornal A Tribuna, de Santos, e JJ na Educação, do Jornal de Jundiaí, de Jundiaí. 2002. Dissertação (Mestrado em Jornalismo) – Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2002.
COSTA, Silvia. Jornal na Educação: considerações pedagógicas e operacionais. 2. ed. (português). Santos: 1997.
CURRAN, Fred J. O que é um jornal? Em homenagem ao Dia do Jornalista, 7 de abril. Revista Imprensa, São Paulo, p. 113, abril 1999.
FARIA, Maria Alice. Como usar o jornal na sala de aula. São Paulo: Contexto, 1996
FARIA, Maria Alice. O jornal na sala de aula. São Paulo: Contexto, 1989.
MORAN, José Manuel. Como ver televisão: Leitura crítica dos meios de comunicação. São Paulo: Edições Paulinas, 1991.
SOARES, Ismar de Oliveira (Org.). Para uma leitura crítica dos jornais. São Paulo: SEPEC/Edições Paulinas, 1984.