ENTRE LIVROS E FILMES

Cristina Bruzzo
Faculdade de Educação, Unicamp

O vídeo Biblioteca Nacional (1), do diretor Andrea Tonacci destaca a importância da leitura e a relevância cultural dos livros. Embora seja resultado de uma solicitação do Ministério da Cultura, com espaço para as falas introdutórias das autoridades, ministro e diretor da biblioteca, Tonacci minimiza a presença de Eduardo Portella, na época o diretor da instituição, desviando a atenção do espectador de seu pomposo discurso para imagens da época da construção do edifício que abriga o acervo, em fotos em preto e branco e imagens do saguão principal. Logo introduz o depoimento de escritores - Nélida Piñon, Lygia Fagundes Telles e Sérgio Sant’Anna, dentre outros – situando o significado dos livros como repositório da cultura registrada em textos e da biblioteca como espaço da palavra escrita que aciona pensamentos e imaginários na sua interlocução com o leitor. O movimento da câmera percorrendo os corredores silenciosos indica a leitura como o poder de colocar as idéias em circulação.

Por intermédio do filme quero introduzir a finalidade desse texto: partilhar inquietações sugeridas pelo tema da mesa ao relacionar a formação do leitor com os pares cinema/televisão de um lado e jornal/livro de outro. Trago para tanto a forma audiovisual homenageando a palavra escrita, o livro e a leitura. Já se vê que pretendo embaralhar os opostos.

Talvez essa oposição não seja adequada se tomada na perspectiva da separação entre os suportes, audiovisual e impresso, afinal Tonacci busca apresentar, em imagens sugeridas pelo vídeo, a vivência da leitura, o prazer do texto escrito e a biblioteca como o lugar que abriga diferentes suportes, inclusive as imagens em movimento. Quem sabe a relação imagem e escrita seria mais bem representada pela noção de possibilidade combinatória?

Não menos inquietante é a consideração do suporte ideal para a escrita. Durante séculos o livro foi a forma estável de difusão das idéias, dos conhecimentos e das fantasias e o jornal a maneira mais cômoda de divulgar informações de “curta” duração. Hoje as novas tecnologias expandem o espaço virtual e inventam novos suportes. A cada seis meses dobra o número de blogs que superaram a casa dos 47 milhões na blogosfera com mais de um milhão de novos artigos a cada dia, na base de 50 mil por hora. São por volta de 35 milhões de autores de palavras e imagens em navegação pelo mundo virtual, onde cada qual se reserva o direito de registrar aquilo que bem entende, comentar o que está em circulação na Internet e ser comentado em infindável auto-referência midiática. A maioria dos autores dessa forma sintética e efêmera de comunicação são japoneses, disseminando mensagens, eternamente conectados através de seus telefones celulares. O blog mais visitado é o de uma atriz chinesa que escreve em mandarim suas impressões diárias sobre exatamente... qualquer coisa. Também servem de espaço para o chamado “marketing viral”, estratégia de divulgação de produtos por meio de supostos boatos plantados por agências de propaganda. Os estudiosos desse “estar conectado” acham que a grande maioria desaparecerá em breve e permanecerão apenas uns poucos blogs visitados por milhões de pessoas. Palavras e textos para os quais as formas tradicionais de autoria, validação e credibilidade parecem coisa dos tempos de antanho.

Ainda que não iludamos com essa aparência de comunicação democrática e acesso igualitário aos meios de comunicação, convém atentar para a presença do texto escrito em números que não deixam dúvida da permanência da escrita como forma de comunicação. Não sei se podemos pensar o mesmo quanto aos livros como suporte central de expressão da cultura letrada.

A instabilidade das formas expressivas e seus imbricamentos, a desestruturação contínua provocada pela incorporação das novas tecnologias à produção cultural dos jovens instigam a pensar a formação do leitor em outra perspectiva. Qual a leitura que deve ser privilegiada? Será possível continuar compartimentando a leitura segundo as diferentes formas de expressão e suportes: livros, jornais, revistas, filmes, programas de televisão? Ainda que permaneçam iguais, conservados e disponíveis para as pessoas, mudam os leitores e as leituras (Pierre Bourdieu).

Se a formação consiste em criar condições para adaptação criativa dos jovens ao mundo em permanente mudança, como dimensionar movimento e permanência? Podemos seguir pensando na educação (ou alfabetização) para a leitura de formatos específicos?

A movimentação das pessoas entre filmes e livros, parece indicar um estímulo mútuo do ponto de vista mercadológico, afinal, por alguma estranha razão, um livro de sucesso com alguma freqüência gera um filme de grande público e o inverso também acontece, ainda que no Brasil as pessoas não sejam grandes consumidoras de livros. Os fenômenos Harry Potter, Código Da Vinci, assim como as mini-séries televisivas que adaptam romances são bastante conhecidos.

Robert Stam, professor de literatura comparada e cinema na Universidade de Nova Iorque, alerta para o fato das tecnologias, em sua fase inicial, gerarem expectativas igualitárias, com o tempo abortadas. Assim foi com o jornal, o cinema, considerado o “esperanto visual”, o rádio e a televisão. Stam lembra que logo essas possibilidades são incorporadas à sociedade de consumo que integram e servem. Contudo, as mudanças nas tecnologias de comunicação também permitem atualizações que levam a produzir “novas estéticas de resistência”. Porventura não estará nesse reconhecimento a perspectiva para a formação dos jovens?

Gostaria de lembrar, para encerrar estas ponderações, da poetisa Ana Cristina César que realizou uma pesquisa sobre documentários brasileiros tratando de escritores
(2). A hipótese defendida pela autora é “de que o filme documentário sobre literatura fala mais de literatura na medida em que se identifica ao projeto literário de autonomia e intransitividade de linguagem, ou seja, na medida em que, com toda a sua timidez, fica menos “documentário”, livrando-se, como quer a linguagem literária, da obrigação de dizer (ou ensinar) alguma coisa”.

O cineasta João Moreira Salles
(3) realizou um vídeo sobre a poetisa no qual reúne fotos, trechos gravados com a voz de Ana Cristina César, postais, lugares e imagens de poetas acompanhadas de frases faladas. Um encadeamento fragmentado de imagens e sons e repetições, poeticamente editados para lembrar que “poesia é uma ou duas linhas e por trás uma imensa paisagem”, do poeta polonês Czeslaw Milosz que dá título ao vídeo em que se procura respeitar a proposta de Ana Cristina da literatura “como matriz de todas as leituras possíveis, como produtividade descompassada do ‘real’”.

Lá, na Biblioteca Nacional, Lygia Fagundes Telles, lembrou que nas palavras fixadas nas páginas dos livros corre, do escritor, o sangue que pode pulsar no leitor. Na tela a câmera circulava entre corredores de livros.

NOTAS

(1) Biblioteca Nacional, Andrea Tonacci. Extrema Produções Artísticas, para o Ministério da Cultura, julho de 1997.

(2) Literatura não é documento. É a dissertação de mestrado de Ana Cristina César, publicada em 1980 pela FUNARTE/MEC

(3) Poesia é uma ou duas linhas e por trás uma imensa paisagem, de João Moreira Salles. Videofilmes, 1990.