COMO FORMAR PROFESSORES QUE PROMOVAM O
HÁBITO DE LEITURA DE JORNAIS

Ezequiel Theodoro da Silva
Faculdade de Educação, Grupo Alle – Unicamp
Acorde, Campinas

FUNDAMENTOS

O advento da Imprensa com Gutenberg no Século XV (Renascença) significou uma transformação radical na vida dos homens. Mais do que uma transformação, podemos pensar numa verdadeira revolução cultural e tecnológica porque não apenas alicerçou o Humanismo como também motivou, pelos seus efeitos sociais, as reformas religiosas, além de inaugurar o pensamento científico moderno. Para Eisenstein, “A imprensa multiplicou o número de textos em circulação, tornou-os baratos e acessíveis, permitiu a cada leitor ler mais obras e cada obra chegar a mais leitores”. (Eisenstein, Elizabeth. A Revolução da Cultura Impressa, 1978, p. 19)

Especificando um pouco melhor o teor dessa revolução, a Imprensa produziu uma mudança qualitativa nas operações intelectuais dos homens, inaugurando uma cultura diferente da cultura manuscrita, própria do período precedente. Dessa forma, muda também as formas de se ler e se compreender textos, inicia-se a possibilidade concreta de ocorrer uma pluralidade de direções da leitura (sem intérpretes para fazer a mediação de natureza ideológica, como os representantes da Igreja) e ergue-se então sujeito leitor com autonomia para a interpretação dos textos impressos.

O JORNAL COMO ÍCONE DA CULTURA IMPRESSA

A Imprensa surge e se desenvolve a partir de um suporte específico: o jornal. A cultura a partir da Renascença e da formação das cidades se entrelaça com a linguagem jornalística, que capta os fatos e os transforma em notícias; o jornal interpreta e edita os fatos dentro da recapagem lingüística da notícia e os amplificam e os fazem circular no seu território de abrangência. Além disso, na sua evolução histórica, o jornal vai se tornando um mosaico de gêneros da linguagem escrita, sendo composto por diferentes organizações discursivas; ao lado de fatos e notícias, colocam-se a formação de opinião pelos editoriais, charges, etc bem como uma série de serviços nas suas diferentes seções.

O JORNAL NA ESCOLA

Sabemos que a porta de entrada para o mundo da escrita é, sem dúvida, a escola. A escola através dos professores, diga-se. Nesta esfera, a da escola, colocam-se alfabetização e letramento como os principais instrumentos de manejo da cultura impressa, do ler e do escrever. Para alfabetizar e letrar as crianças o professor não pode usar apenas a cartilha ou textos estritamente pedagógicos; pelo contrário, nesse trabalho existe a necessidade de recorrer aos variados suportes e gêneros de escrita que circulam em sociedade e que estabelecem a dinâmica da cultura escrita.

Nestes termos, o ensino da leitura tem muito a ganhar com a utilização do jornal – isto, em função da sua importância social e da sua riqueza lingüística. Além disso, com o uso do jornal e considerando a sua amplitude temática, novos interesses podem ser desenvolvidos pelo leitor e, o mais importante, novos horizontes de participação e de posicionamentos podem vir a se somar durante a convivência com veículo (jornal)

Em resumo, a escola, no intuito de formar leitores, tem necessariamente que construir um ou mais ambientes leiturizadores, dispondo, para efeito de acesso e de manejo, uma série de materiais de leitura: livros, apostilas, catálogos, revistas e, logicamente, jornais. É exatamente essa diversidade de gêneros e suportes de escrita que garantirá a formação de um leitor eclético, atualizado e assíduo.

CUIDADOS E CONSELHOS AOS PROFESSORES PARA O USO DO JORNAL

Para introduzir um conjunto de orientações aos professores quando do uso de jornais para a formação de hábitos de leitura, gostaria de apresentar um texto escrito por R. Verzignasse, publicado pelo Correio Popular de Campinas, no dia 20 de maio de 2006:

                                                    A Cultura Caipira e a Polêmica

“Ser jornalista tem dessas coisas. A gente se propõe a informar e prestar serviço à coletividade, com a máxima isenção. Mas é difícil agradar a todos. O repórter é bombardeado quando expressa, no texto, uma simples opinião. A sonhada liberdade de imprensa ganha ares de utopia. Queiramos ou não, qualquer reportagem contraria parte do público leitor.

Tivemos dois exemplos clássicos da situação aqui no Caderno C, na última semana. O João Nunes, de competência inquestionável, foi crucificado por uma carta do Correio de Leitor só porque fez uma retranca divertida sobre a dupla breganeja que ele seria obrigado a entrevistar no rodeio de Jaguariúna. O João, na prática, foi alvejado porque ousou criticar a dupla Bruno e Marrone.

Ora, mas que falta de humor do missivista... O João tem direito de não gostar do Bruno que, ao cantar Dormi na Praça, faz força como estivesse ressecado, com intestino preso.

Se o leitor curte aquele som e aquela voz, e acha legal dar dinheiro em festas de peão (onde, afirmam os críticos, ganha-se muito dinheiro explorando o maltrato de animais), ótimo. Ele que vá gastar seus reaizinhos para ver cavalos pulando de dor nos bagos, ou se delicie com os sandubas de lingüiça de porco vendido a preço de caviar (sem falar do congestionamento insuportável para chegar ao recinto e do preço do estacionamento). Agora, convenhamos, o jornalista não é obrigado a compactuar com esses hábitos. Só que, para não ser bombardeado, não tem direito de escrever o que pensa.

Outro caso, o repórter Bruno Ribeiro, cérebro dos mais brilhantes aqui do pedaço, cometeu o “deslize” de fazer críticas ao novo CD da dupla Chitãozinho e Xororó. Logo em seguida, o cronista Manuel Carlos Cardoso, sempre polêmico, saiu em defesa da dupla, dizendo que o CD é ótimo. Claro, claro, gosto não se discute. Tanto é que a polêmica rendeu várias cartas ao jornal. E cada leitor comprou briga para um dos lados.

Queira ou não, o jornalista Ribeiro devia se conformar com o fato que o há, no público, gente que contribuiu com a carreira de Chitãozinho e Xororó. A dupla começou a emplacar nas paradas cantando aquela poesia parnasiana que dizia “...Aquele fio de cabelo comprido/ já esteve grudado em nosso suor...”

O talento continuou na geração seguinte. A Sandy fez o maior sucesso gravando, por exemplo, a versão em português de uma musiquinha furreca da Celine Dion. Fazer o que, né?... Tem gente que gosta.

Ah, mas antes que também me direcionem mísseis, quero deixar bem claro que não tenho nada contra os breganejos. Muito pelo contrário. Eles aprenderam a ganhar dinheiro fazendo o que o público aprecia. Porque fazem bem o que se propõem a fazer.

Mas deixem, por favor, que o cronista aqui possa expressar o que pensa. É fato que a música sertaneja que rende milhões hoje em dia nada tem a ver com a cultura caipira do passado. Tonico e Tinoco, ou Torres e Florêncio, ficaram na saudade. A calça remendada e a viola foram substituídas, digamos assim, por roupas de marca, camionetas e fazendas. Posses que não fazem parte da história de caboclos que carpiam café e cantavam ao redor da fogueira.

No passado, os caipiras, muitos deles iletrados, conseguiam fazer poesia falando de um rio. Hoje, o enredo preferido é o sexo e a dor de cornos. Nossa música mergulhou na mediocridade. E não é de agora. É um processo lento, que começou lá nos anos 60, com nossos ídolos de iê-iê-iê copiando Elvis Presley. Nossos programas de entrevista copiam os talk shows dos gringos. E nosso rap é tupiniquim. Até isso foi copiado.

O fato, no entanto, é que o leitor não gosta de ser contrariado. E nenhum consumidor de jornal admite a possibilidade de que existam pessoas pensando diferente.”

Este texto, opinativo-argumentativo por natureza, expressa muito bem o que pode ocorrer na passagem do fato para a versão colocada nos jornais. Muitas vezes o próprio jornalista deixar de ser o sujeito da notícia que interpreta e escreve para se transformar num capacho do próprio jornal ou então do gosto dos consumidores. Esse tipo de situação nos aponta para a necessidade de um cuidado muito especial do professor quando da exposição dos estudantes aos jornais. Além disso, há que se lembrar que o jornal transforma o fato real numa notícia virtual veiculada pela escrita, dentro da velocidade que é própria do mundo atual (e quantos deslizes ocorrem dentro dessa velocidade!). Ao promover a leitura através de jornais, o professor deve alertar para algumas das armadilhas dos textos jornalísticos, incluindo aqui o seu comprometimento ideológico, gerador de simulacros, manipulação, e, por isso mesmo, desligamento dos fatos concretos e reais.

Nestes termos, cabe ao professor: levar os estudantes à leitura do mundo real, dos fatos concretos e inserir os leitores dentro da polifonia de vozes e pontos de vista da sociedade democrática. A humildade acompanha todo esse processo de ensino, uma vez que temos de aprender a compreender criticamente e a relativizar diferentes visões da realidade.

ENCERRANDO...

Um outro conselho a fornecer aos professores diz respeito ao uso da poesia para ajudar na compreensão da dinâmica da linguagem jornalística. Dois poemas falam por e, ao mesmo tempo, fecham com chave de ouro esta reflexão.

                                 Poema de Jornal - Carlos Drummond de Andrade

O fato não acabou de acontecer
E já a mão nervosa do repórter
O transforma em notícia.
O marido está matando a mulher.
A mulher ensangüentada grita.
Ladrões arrombam o cofre.
A polícia dissolve o meeting.
A pena escreve.
Vem da sala de linotipos a doce música
Mecânica.

                                   Poema Brasileiro - Ferreira Gullar

No Piauí de cada 100 crianças que nascem
78 morrem antes de completar 8 anos de
idade

No Piauí
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No Piauí
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que nascem
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antes
de completar
8 anos de
Idade

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