É DE VERDE QUE SE TORCE O PEPINO? QUESITOS E CAMINHOS PARA A CONQUISTA DO HÁBITO DE LEITURA DE JORNAIS

Carmen Sanches Sampaio
Universidade do Rio de Janeiro

Falar dos quesitos e caminhos para a conquista do hábito da leitura de jornais remete-nos, do meu ponto de vista, às situações de leitura (e escrita) vivenciadas pelos alunos e alunas, cotidianamente, na escola e fora da escola. É de verde que se torce o pepino? Diz-nos o ditado popular que sim.

Há muito aprendemos com Paulo Freire (2005) que a leitura do mundo precede sempre a leitura da palavra e a leitura desta implica a continuidade da leitura daquele. Logo, as crianças quando na escola chegam, em turmas de Educação Infantil ou nos anos iniciais do Ensino Fundamental, trazem as leituras que do mundo realizam. Curiosas, como de um modo geral são, lêem o que vivem para descobrir as respostas aos seus porquês. Leituras de mundo, construção e apropriação de conhecimentos novos articulam-se permeados pelo(s) sentido(s) dos aprendizados vivenciados cotidianamente. E na escola? Nos anos iniciais da Educação Básica, espaço e tempo privilegiados para a ampliação das leituras de mundo que as crianças realizam mediante a apropriação da linguagem escrita, o que lêem os alunos e alunas? Lêem para quê? Por quê? Como? Quais os textos e portadores de textos utilizados no dia-a-dia da sala de aula? Quais as reais condições de produção de leitura (e escrita) na escola? A prática pedagógica desenvolvida nas escolas contribui para gerar autonomia e independência crescentes dos estudantes em relação aos diferentes tipos de textos que fazem parte do mundo da escrita (Silva, 1998)?

Sabemos que a leitura (e a escrita) não se restringe(m) ao espaço e tempo da escola. Mas, a professores e professoras, profissionais cuja responsabilidade é formar e produzir leitores por meio da educação escolarizada, a necessidade da leitura se impõe como mais forte ainda, nos alerta, Ezequiel Theodoro da Silva (2003). Moacir Gadotti (2006), no texto produzido para a abertura desse (nosso) encontro reforça: para formar leitores é preciso gostar de ler e para formar bons leitores é preciso formá-los criticamente. O que lêem e escrevem as professoras e professores?

A pretensão, nesse texto, não é encontrar respostas às questões formuladas. Como nos alerta Nuria Pérez (2001): é necessário mantermos viva a pergunta porque mesmo que não tenhamos a resposta, obriga-nos a continuar perguntando. O processo de reflexão sobre saberes e fazeres das professoras (e professores), dos alunos (e alunas) relativos às situações de leitura e escrita experienciadas no dia-a-dia da sala de aula, a partir da articulação entre a prática e a teoria, é o que persigo. A intenção é que as reflexões e discussões possam contribuir para pensarmos quesitos e caminhos para a conquista do hábito da leitura de jornais.

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Ainda é bastante comum, no cotidiano escolar, crianças executando atividades de leitura e escrita para “fazer o dever”, como nos falaram algumas crianças quando indagadas sobre os motivos pelos quais aprendiam a ler e a escrever. Atividades que as afastam das que já vivenciam ou vêem outras pessoas realizarem fora da escola – ler e escrever para lembrar um compromisso; para registrar sentimentos; para deixar um recado; para se informar sobre o que acontece no mundo; para concordar; para discordar; para distrair; para aprender; para ler a música ouvida; para responder a um e-mail; para guardar o modo de fazer aquela comida que evoca lembranças; ler para compreender o filme assistido... Leituras e escritas permeadas pelas necessidades sociais cotidianas que implicam o uso da linguagem escrita em um mundo onde ler e escrever são saberes valorizados. Mas, na escola, ainda está presente, como há bastante tempo nos alerta, o professor Ezequiel,

o retalho de texto, o texto sem contexto, só um tipo de texto, o texto e o teste, a lição sem texto ou só com gravura, o texto fino, o texto curto, tudo isso como pretexto para o consumo rápido, acrítico e asséptico de doses homeopáticas de informações. A leitura sem substância, sem significado, sem seqüência, sem unidade e sem aprofundamento. (SILVA, 2004: 12)

Modos de ler e de escrever escolarizados, instrumentais, esvaziados de sentido e distantes dos praticados e usados fora do espaço e tempo escolares, levando, muitas vezes, ao desaparecimento do desejo de ler e escrever.

Leitura compreendida como decodificação e, escrita, como reprodução e repetição. Um ensino que contribui muito pouco ou diria, quase nada, para a compreensão do real sentido da leitura e da escrita: dizer, ouvir e entender o(s) outro(s) também pela linguagem escrita, ampliando assim as possibilidades de compreensão e interferência no mundo.

Não é por acaso que os dados divulgados pelo INEP/2004 revelam-nos que 20% dos estudantes matriculados na 4 série do Ensino Fundamental apresentam muitas dificuldades com a leitura e a escrita e grande parte dos que na 8 série chega, não entende o que lê. Ana Luiza Smolka alerta-nos:

O ensino da escrita tem se reduzido a uma simples técnica, enquanto a própria escrita é reduzida e apresentada como uma técnica, que serve e funciona num sistema de reprodução cultural e produção em massa. Os efeitos desse ensino são tragicamente evidentes, não apenas nos índices de evasão e repetência, mas nos resultados de uma alfabetização sem sentido que produz uma atividade sem consciência: desvinculada da práxis e desprovida de sentido, a escrita se transforma num instrumento de seleção, dominação e alienação. (SMOLKA, 1988:38)

Por que e para que aprendemos a ler e a escrever? Para repetir a palavra do outro? Para decifrar o texto escrito? Ou, para através da linguagem escrita, ampliarmos nossas possibilidades de interação, interlocução e acesso ao conhecimento? Leitura e escrita como processos de emancipação, nos diria Paulo Freire (1982), como ferramentas para a conscientização e questionamento da realidade.

Insisto: existem modos de ensinar a ler e a escrever, modos de praticar a leitura e a escrita, no cotidiano escolar – lócus privilegiado para o aprendizado da linguagem escrita -, limitadores e, muitas vezes, castradores ao invés de efetivamente contribuir para garantir aprendizados sobre a linguagem escrita ampliando as possibilidades do aluno (aluna) compreender e intervir no mundo como sujeitos críticos, participativos, cidadãos. Como ressalta Pedro Demo

Lemos [e eu diria: e escrevemos] para dar conta da realidade e de todos os desafios que dela recebemos o a ela impomos. A cidadania é a referência maior. Uma democracia de qualidade só é possível com uma população que sabe pensar. Saber pensar inclui, entre outros ingredientes, saber ler [e escrever].

Embora um ensino escolarizado da leitura e da escrita, distante do mundo da vida, seja ainda hegemônico, não é único. Impossível afirmar que a escola não produz leitores e escritores. Ajudada pela epistemologia da complexidade (Morin, 1995) diria que a escola produz e não produz leitores e escritores. Como espaço e tempo complexo, o cotidiano escolar, abriga práticas pedagógicas pouco comprometidas com um ensino crítico da leitura (e da escrita) e práticas alfabetizadoras que investem, desde o início desse processo, em atividades de leitura e escrita significativas e articuladas às experiências de vida e de linguagem dos alunos, alunas, professores e professoras.

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Desde o ano de 2004, acompanho e participo, do processo alfabetizador vivenciado por uma turma de crianças (ouvintes e uma criança surda) de uma escola pública carioca. A professora dessa turma (e outras professoras da escola ), se desafia a praticar uma ação alfabetizadora que investe na dialogicidade, na produção de textos escritos e orais, de modo que as crianças possam aprender a ler e a escrever usando, praticando e experienciando a linguagem escrita, procurando fugir de uma prática pedagógica que tem a memorização e a repetição como eixos do trabalho. As crianças são provocadas a tomar decisões e a interferir nas propostas a ser realizadas pelo grupo; a dizer, escrever, desenhar, representar o que pensam e sentem; a discutir, coletivamente, os conflitos existentes; a revelar seus saberes e ainda não saberes (ESTEBAN, 2001); a ajudar os colegas, a aceitar ajuda no desenvolvimento das atividades.

Textos variados – livros de histórias, histórias em quadrinhos, poesias, cartas, bilhetes, convites, adivinhas, listas, panfletos, jornais, textos produzidos pela turma etc – circulam no espaço e tempo da sala de aula. As crianças lêem e escrevem para concordar, discordar, reivindicar, registrar suas idéias e sentimentos, os temas pesquisados, as descobertas vivenciadas. O livro didático, embora utilizado, não é a referência do trabalho pedagógico, pois a articulação perseguida é com o uso social da leitura e da escrita. O que vivem fora e dentro da escola alimenta e mobiliza o grupo, instigando-o a procurar novos textos, novas leituras. Ao invés do reconhecimento e reprodução, o investimento em um ensino da leitura (e da escrita) pautado no conhecimento e produção.

Assumamos uma utopia, e vamos ver que, em decorrência dela, o ensino de língua será a própria prática da linguagem instalada, no plano do desejo de cada sujeito em processo, visando à conquista de uma certeza: a da sua não inserção no quadro das tranqüilidades que o ajuste social lhe confere. O ensino da língua deixaria de ser de reconhecimento e reprodução passando a um ensino de conhecimento e produção, em que o exercício sistemático só lhe conferiria maiores condições de formar sua identidade, cambiante que fosse. (GERALDI, 1997: 122,123)

Crianças, cidadãs de pouca idade, mas sujeitos do processo de aprender e de saber mais sobre o mundo no qual vivem. Alunos e alunas de uma escola pública que, desde o início do aprendizado da leitura e da escrita, em turmas de Educação Infantil, vivenciam a experiência da autoria. Produzem, individualmente e coletivamente, textos variados – histórias, relatórios, poesias, bilhetes, cartas, convites e estão envolvidos na produção de um jornal da turma.

É importante destacar a necessidade de que o jornal também faça parte dos textos usados, cotidianamente, pelas crianças no cotidiano da escola, embora sua presença nas séries iniciais da Educação Básica – Educação Infantil, classe de alfabetização, 1 e 2 séries do Ensino Fundamental – seja ainda pouco freqüente. Por que isso acontece? Os alunos e alunas desses anos escolares são vistos como não leitores? Com pouca autonomia na leitura demandando, da ação docente, um investimento maior nas mediações realizadas? Ou os textos, presentes no jornal, instigam os professores e professoras a romper com um currículo prescritivo, pensado a priori, ainda tão praticado em nossas escolas?

Os jornais, por abordar temas variados, evidenciam a multiplicidade e transversalidade do conhecimento assustando ações docentes pautadas em modos disciplinares e estanques de lidar com os saberes. Observo, também, que as professoras (e professores) que se desafiam a trabalhar com o jornal com os seus alunos e alunas, de um modo geral, investem em sua compra. Isso dificulta, mediante os baixos salários dos docentes, contar com esse texto, rico em possibilidades de trabalho.

Para um número significativo de estudantes das classes populares o acesso ao jornal ainda é pouco comum. Perguntei a crianças da turma que acompanho – alunos e alunas da 2 série do Ensino Fundamental se, em casa, lêem jornal. Ouvi, de mais de uma criança, respostas que me diziam:

- Minha casa não tem jornal. Minha mãe não compra porque é caro, tia!

Falas como essa confirma a importância do trabalho com jornal, na escola. Sua presença, no dia-a-dia da sala de aula, garante que as crianças, desde pequenas, possam ir usando e se familiarizando com esse suporte textual, principalmente, as que em casa não o utilizam. E possam, na escola, além de ler o jornal, se envolver com a produção de um jornal. Entretanto, sem conhecer, ou seja, sem ter folheado, olhado, lido “um” jornal é impossível dizer:

- Eu não gosto de ler jornal!
- Eu leio, quase todo dia, com o meu pai, na Internet.
- Minha mãe compra o jornal por causa do DVD. Ela tá juntando pra ganhar! Às vezes eu leio algumas coisas.
E poder, desde pequenas, fazer escolhas:
- Ah! Eu gosto de ler a parte de esporte. Peço pra minha mãe comprar sempre.
- Eu gosto das palavras cruzadas e dos joguinhos. Só!!!
- Eu gosto de ler o globinho, quando minha mãe compra.

As crianças precisam ter acesso, no cotidiano da escola, a textos variados que circulam no mundo da escrita. E esses textos, incluindo e salientando o jornal, não podem ser usados como pretexto para o ensino da ortografia, ou da gramática, ou para recortar letras e/ou sílabas, ou para o lançamento de palavras-chaves com exercícios cujo objetivo seja a identificação, repetição e memorização dos “conteúdos programáticos”. Uma vez mais o professor Ezequiel nos ajuda a pensar:

Cópia, paráfrase e memorização – este é o tripé de atividades de leitura mais conhecido e utilizado nas escolas brasileiras, que tem suas origens no ensino catequético do período colonial. Ao copiar, o leitor reproduz as mesmas palavras e o mesmo sentido do texto; ao parafrasear, o leitor reproduz o mesmo sentido com outras palavras; ao memorizar, o leitor reproduz respostas com sentidos preestabelecidos e já esperados. A escola, o professor ou o livro didático definem de antemão o sentido que deve ser fornecido pelos alunos a partir da leitura de um texto (...) (SILVA, 2004: 23)

Os professores e professoras precisam, no exercício da docência (PÉREZ GÓMEZ, 1995), no cotidiano da escola, viver a experiência da leitura e da escrita. Ler textos teóricos, literários, informativos. Ler a própria prática, a prática realizada pelas(os) colegas, ser lido por outros – dá-se a ler (LARROSA, 1999). Experienciar, coletivamente, um processo de formação permanente que amplie seus saberes, seus fazeres, sua competência leitora (e escritora). E, nesse processo de construção (com)partilhada de sentidos imprimir sentidos outros aos modos aprendidos (e ainda hegemônicos) de trabalhar a leitura e a escrita cotidianamente com os seus alunos e alunas. Não desistir de, coletivamente, exigir melhores condições de produção de leitura para si e para os seus alunos e alunas.

As crianças precisam ler, desde pequenas, para compreender, para produzir sentido(s), para inteirar-se do mundo, para nesse mundo intervir como produtoras de cultura que são. Ler a palavra escrita sem dicotomias das leituras que na vida realiza. Afinal, não é de verde que se torce o pepino? Se seguíssemos à risca o ditado popular talvez ouvíssemos, com mais freqüência, no cotidiano das escolas, em turmas dos anos iniciais do Ensino Fundamental, falas como essa:
- Tia, eu descobri que ler jornal me ajuda a aprender. Agora eu leio sempre!

Referências bibliográficas

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ESTEBAN, Maria Teresa. O que sabe quem erra? Reflexões sobre a avaliação e fracasso escolar. Rio de Janeiro. DP&A, 2001.

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler. São Paulo. Cortez, 2005.
 __________ , Educação como prática da liberdade. 13 ed. Rio de Janeiro. Paz e Terra, 1982.

GADOTTI, Moacir. Formar o formador de leitores – Fundamentos e Perspectivas. Campinas, SP. UNICAMP, Curso “Jornal e Educação: Princípios Básicos”, mimeo. 2006.

GERALDI, Wanderley. Portos de passagem. 4ª ed. São Paulo. Martins Fontes, 1997.

FERRE, Nuria Pérez de Lara. Identidade, diferença e diversidade: manter viva a pergunta. In: LARROSA, J. & SKLIAR, C. (org). Habitantes de Babel: políticas e poéticas da diferença. Belo Horizonte. Autêntica, 2001.

LARROSA, Jorge. Pedagogia profana - danças, piruetas e mascaradas. 2ª ed. Belo Horizonte. Autêntica, 1999.

MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. 2ª ed. Lisboa. Instituto Piaget, 1995.
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SAMPAIO, Carmen Sanches. Aprendi a ler (...) quando eu misturei todas aquelas letras ali... Tese de Doutorado. Campinas, SP. Unicamp, 2003.

SILVA, Ezequiel Theodoro da Silva. Elementos de Pedagogia da Leitura. São Paulo. Martins Fontes, 1988.

______________ Conferências sobre Leitura – Trilogia Pedagógica. Campinas, SP. Autores Associados, 2003.

______________ A produção da leitura na escola – pesquisas x propostas. 4 ed. São Paulo. Ática, 2004.

SMOLKA, Ana Luiza. A criança na fase inicial da escrita – alfabetização como processo discursivo. São Paulo. Cortez, 1998.

VYGOTSKY, L.S. A formação social da mente. São Paulo. Martins Fontes, 1989.