JORNAL: RECURSO PEDAGÓGICO TRANSDICIPLINAR DE REFLEXÃO CRÍTICA E DESENVOLVIMENTO DA CIDADANIA

Marisa Del Cioppo Elias
PUCSP

Por que o jornal na escola?

Hoje, vivemos bombardeados por um grande número de informações que nos chegam através da mídia. Nossa escola, apesar dos avanços sociais, culturais e tecnológicos dos séculos XX e XXI, ainda é uma Instituição muito fechada, a maioria com programas ultrapassados e voltados apenas para a instrução. Há, em geral, uma grande preocupação com os conteúdos “ditos” escolares. São poucos os alunos que conseguem acompanhar as mudanças sociais que ocorrem à sua volta.

Logo, levar jornais/revistas e recursos midiáticos para a sala de aula é abrir possibilidades de contato com o mundo, uma vez que estes são mediadores reais entre a escola e o mundo.

Enquanto registro da história que acontece cotidianamente, o jornal, por exemplo, é excelente material para o desenvolvimento de atividades de leitura e escrita, tais como se apresentam na sociedade, possibilitando o trabalho com diferentes modalidades de texto. Os alunos aprendem a reconhecer e a utilizar diferentes formas de organização textual, bem como recursos lingüísticos próprios de cada modalidade.

Através do trabalho com textos jornalísticos, discutem assuntos e temas de seu interesse, fundamentam sua opinião em fatos reais, analisam diversas interpretações sobre um mesmo fato e entra em contato com um modelo de língua padrão bastante próximo do usado no dia-a-dia.

Mas, voltemos ao tema desta apresentação: O jornal como recurso pedagógico transdiciplinar de reflexão crítica e desenvolvimento da cidadania. Vamos analisar cada uma das partes do título.

Primeiro, o jornal enquanto recurso pedagógico. O jornal, se empregado como recurso didático vai enriquecer e revitalizar os conteúdos teóricos podendo-se transformar em ponte entre dos programas e a realidade. Como utiliza todas as linguagens para comunicar, e é um material atualizado o jornal é um auxiliar da prática educativa.
Ajuda a entender a noção de tempo e duração: na cronologia dos fatos, na codificação e decodificação das mensagens, na antecipação e atualização das noticias. Logo, exercita a memória, trabalhando a lógica e a matemática.

Em segundo lugar, é importante, para fundamentar a presença do jornal na escola pois considera a natureza interdisciplinar da matéria apresentada, que, ao representar a realidade, o faz de maneira abrangente e permite a reflexão crítica.: política nacional, política internacional, economia, esportes, cultura, classificados, entretenimento.

Então passa a ser visco como auxiliar da prática educativa, pois permite ao professor um total aproveitamento. Todo o jornal pode ser explorado, desde sua composição, organização textual, aspecto gráfico, até as informações e os recursos lingüísticos. Por trabalhar com os acontecimentos diários e oferecer uma diversidade de enfoques lingüísticos, o jornal serve como alternativa para o texto literário e, desta forma, colabora para o enriquecimento de todas as disciplinas.

Como fonte enriquecedora e revitalizadora do conteúdo escolar, transmite informação – linguagem verbal e não verbal ou plástica; propicia oportunidades de multiplicidade e ampliação do universo textual dos alunos – diferentes características e funções -, auxilia a produção ativa do conhecimento e o aprendizado reflexivo sobre o mundo que o cerca – cidadania – e, registra as transformações realizadas pelo homem – faz história.

Em terceiro lugar, se a leitura do jornal for bem conduzida, desenvolve a consciência de cidadania, pois prepara leitores experientes e críticos para desempenhar bem o seu papel na sociedade. Logo, espelha valores.

Dessa forma, ajuda o aluno a ser um pesquisador, aquele que observa, classifica, analisa e conclui, trabalhando diferentes gêneros: notícias, reportagens, fotografia, enquetes, entrevistas, editorial, apoiado em três tipos de redação: a narração, a descrição e a dissertação.

Era comum em nossas escolas, nos anos 40-60, que no primeiro ano escolar as crianças aprendessem a compor descrições, ficando a narração, considerada como uma forma de escrita mais elaborada, para ser introduzida mais tarde, quando os alunos estivessem “mais maduros”.

Assim, durante muito tempo, os professores utilizaram pranchas com cenas bucólicas, à vista das quais esperava-se que os alunos escrevessem textos descritivos, que se iniciavam por: “Eu vejo um menino e uma menina brincando no quintal. O sol está brilhando no céu e...”.

Hoje sabemos que a narração é o modo discursivo básico do ser humano e que, antes dos 7 anos, as crianças já desenvolveram esquemas cognitivos que lhes permitem compreender e contar histórias.

Mesmo no acumulado cultural escrito é muito difícil encontrarmos textos puramente descritivos. O mais comum são textos narrativos, em que a descrição entra como complemento ou coadjuvante na caracterização de personagens e cenas.

Mais do que a descrição, a narração faz parte do social e cultural das pessoas, haja vista existirem tantos contadores de “causos” que nunca freqüentaram a escola.

Dessa forma, do ponto de vista do ensino/aprendizagem, nada justifica aprender primeiro a descrever e depois a narrar, já que as duas formas aparecem juntas nos textos e, por isso, hoje em dia qualquer metodologia prioriza o trabalho com textos narrativos.

Quanto ao dissertar, se considerarmos os textos informativos e científicos presentes nos livros didáticos de História, Geografia e Ciências, as dissertações estão sempre presentes como leitura para as crianças.

Porém, não julgamos adequado que alunos das séries iniciais do Ensino Fundamental sejam levados a produzir dissertações, pois a dissertação demanda conhecimento e pesquisa e um posicionamento ideológico, próprio do adulto que já formou uma opinião sobre os mais variados assuntos, pela própria vivência, maturidade e leituras. Ou ainda, a dissertação é um espaço apropriado para o adolescente expor e compor idéias, iniciando discussões a respeito de posicionamentos ideológicos. Para as crianças, o mais natural é contar histórias.

Como nos lembram Agnes e Savino (1991): “a mídia e suas produções impregnam o cotidiano. Elas influenciam nossa percepção do espaço e do tempo, os dados de nosso conhecimento e nossa visão do mundo. Elas modificam nossa relação com o real. Este envolvimento influencia as reflexões e os comportamentos, os modos de pensar e a aquisição de conhecimentos”.

Torna-se, assim, um instrumento importante para o leitor se situar e se inserir na vida social e profissional.

Enfim, o jornal é um veículo de informação que utiliza a língua escrita e a comunicação visual, num registro diário e dinâmico da realidade, atendendo às diferentes necessidades do homem quanto a sua sintonia com o mundo. Assim, constitui-se num importante recurso pedagógico de registro das transformações realizadas pelo homem, que faz a sua história através do tempo, desenvolvendo sua consciência crítica e seu posicionamento como cidadão.

É possível trabalhar com o jornal em todas as séries e níveis, da educação infantil ao curso superior. Este ano fizemos a experiência de trabalhar com o jornal com alunos do Curso de Pedagogia da PUCSP, nas aulas de metodologia da Língua Portuguesa - alfabetização. As atividades consistiam em comparar diferentes jornais impressos.

Divididos em grupos os alunos puderam escolher entre:

 elaborar uma manchete ou chamada;
 trabalhar com a publicidade contida no jornal;
 comparar a linguagem jornalística em diversos veículos de comunicação: imprensa escrita (jornal, revista), imprensa falada (rádio e televisão);
 trabalhar com a linguagem não verbal;
 trabalhar com editorial.

O resultado vocês podem ver através de alguns textos a seguir. Mas o mais importante foi a vivência em sala de aula. Acreditamos que o professor vai se constituindo a partir da experiência vivenciada nos cursos de formação, seja inicial ou continuada.

Bibliografia

AGNÉS, J. e SAVINO, J. Apprendre avec l apresse. Paris, Retz, 1988.
AGNÉS,J. e equipe do CLEMI. L’imformation dans lês
médias. Paris, CLEMI, CNDP e MEC, 1991.