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Fabiano Ormaneze, Correio Popular,
Campinas, 22/07/2008
Formação de leitores e
cidadania são focos de encontro que discutiu a relação entre o jornalismo
e a capacitação pedagógica
A necessidade da criação de um jornalismo preocupado com a formação da
cidadania e a expansão de programas que formem leitores críticos da mídia
desde os bancos escolares foram os principais temas debatidos durante o
primeiro dia do IV Seminário O Professor e a Leitura do Jornal, que
termina hoje, no Centro de Convenções da Universidade Estadual de Campinas
(Unicamp). Promovido pela Associação de Leitura do Brasil (ALB) e pela
Rede Anhangüera de Comunicação (RAC), o evento conta com a participação de
650 educadores, jornalistas e pesquisadores de todo o Brasil.
A regionalização da informação, em busca da criação de identidades e
também como forma de geração de leitores, foi lembrada pelo
editor-executivo da RAC, Marcelo Pereira. Ele disse que, “assim como uma
aula, o jornal precisa ser multifacetado e priorizar aquilo que interessa
ao cidadão, inclusive com a valorização das notícias positivas”. Pereira
reforçou ainda que a existência de programas que utilizam o jornal como
ferramenta didática também provoca modificações nos jornalistas, que
passam a pensar sobre a importância que têm na formação dos seus leitores.
Ao lado de Pereira, trazendo discussões mais relacionadas à utilização da
televisão como ferramenta didática, o diretor do curso de jornalismo da
Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), Rogério Bazi,
reforçou que a regionalização da informação é um importante passo para a
criação de leitores e formação de uma identidade. “O jornalismo deve estar
sempre voltado para a sua comunidade”, afirmou. Bazi enfatizou que, ao
contrário do jornal impresso, ainda são poucas as discussões sobre os usos
do telejornalismo como ferramenta pedagógica. A expansão dos projetos de
uso da mídia no ensino, segundo ele, passaria também por uma preparação do
educadores para trabalhar com a televisão. “Nenhuma ferramenta midiática
poderá substituir os ganhos da relação entre professor e aluno. Mas ainda
faltam alicerces para a utilização da televisão na sala de aula”, afirmou.
A expansão dos programas de leitura de produtos midiáticos na escola passa
também por outras abordagens, como o jornalismo literário, tema da
discussão proposta pelo professor Celso Falaschi, da Academia Brasileira
de Jornalismo Literário (ABJL). Essa metodologia de trabalho, baseada na
humanização e na criatividade textual, é uma maneira de apresentar aos
leitores textos mais envolventes e que, ao fazerem narrativas, prendem a
atenção dos leitores nas notícias, promovendo efeito semelhante ao de uma
boa obra de ficção. Outras possibilidades de trabalho lembradas foram o
jornalismo científico e até as revistas femininas e fotonovelas.
Como lembrou a educadora Carmem Lozza, assessora pedagógica dos jornais O
Globo e Lance! e uma das pioneiras do Brasil na aplicação do jornal como
ferramenta didática lembrou que, em países como a Argentina e a França, os
programas de leitura de textos jornalísticos são políticas públicas,
modelo que, segundo ela, deveria ser adotado no País. “Na França, faz
parte da estratégia dos governos que cada aluno tenha acesso a dois
jornais, o que permite comparações entre as mídias e é pressuposto para a
formação da democracia.” No Brasil, a quase totalidade dos projetos foram
criados pelas próprias empresas jornalísticas, a exemplo do que fazem a
RAC, com o projeto Correio Escola, e a Tribuna de Santos. Essas duas
experiências foram apresentadas numa mesa-redonda.
A educadora Cecília Pavani, idealizadora do Correio Escola, projeto da RAC
que promove a formação de docentes para utilizarem o jornal na sala de
aula, lembrou que a leitura dos jornais, além de promover a formação do
senso crítico, pode sensibilizar, mobilizar ações e maior participação
política. “Já tivemos experiências em que, após a leitura e o trabalho do
professor, os alunos se engajaram em campanhas e cobranças ao poder
público, independentemente da idade”, lembrou.
Na opinião de Sílvia Costa, educadora responsável por projetos pedagógicos
da Tribuna de Santos, os programas de leitura de jornal no século 21 têm o
desafio de ultrapassar os limites da sala de aula. “A democratização da
informação passa também pela garantia do acesso em todos os níveis de
ensino e na comunidade”, reforçou. Ela lembrou que pesquisas demonstram
que o índice de estudantes universitários que não têm o hábito de leitura
é grande. “É preocupante que futuros médicos não leiam jornal para
conhecer a realidade em que atuarão”, exemplificou.
Idealizadora do Correio Escola recebe Troféu ALB
A ALB aproveitou a realização do seminário para conceder o Troféu ALB,
criado no ano passado como forma de reverência e agradecimento a pessoas
que lutam em favor da leitura no País. Desta vez, os homenageados foram a
professora Cecília Pavani, idealizadora e coordenadora do projeto Correio
Escola, da RAC, e o educador Hilário Fracalanza, da Faculdade de Educação
da Unicamp. Cecília foi lembrada como uma das precursoras dos projetos que
relacionam educação e mídia e por seu trabalho à frente do projeto que,
desde 1992, já formou cerca de 4 mil professores para atuarem com textos
jornalísticos como ferramenta pedagógica. Além disso, cerca de 30 mil
estudantes, de todos os níveis, tanto de escolas públicas quanto
particulares, também já foram beneficiados pelo projeto. Fracalanza
recebeu o troféu em razão de sua atuação há mais de 25 anos na ALB, da
qual foi um dos fundadores, e na coordenação de eventos de nível nacional,
como o Congresso de Leitura do Brasil (Cole), realizado em todos os anos
ímpares desde 1981.
Saiba mais sobre o que acontece no seminário
Roda de autógrafos
O primeiro dia do seminário terminou com o lançamento e uma roda de
autógrafos do livro O Jornal na Vida do Professor e no Trabalho Docente,
organizado pelo educador Ezequiel Theodoro da Silva e que reúne artigos de
outros seis pesquisadores, das principais universidades do País, nas áreas
de comunicação e educação. A obra foi editada pela Global Editora e faz
parte da coleção Leitura e Formação. Durante toda a programação do
seminário, estará montada uma minilivraria, que coloca à venda este e
outros títulos que embasam as principais discussões sobre mídia e ensino.
Aprendizado
O período da tarde foi também de trocas de experiências e aprendizados
entre os participantes do seminário. A organização preparou dez oficinas,
nas quais os participantes se dividiram. Entre os temas, estavam história
e leitura, ministrada pela educadora Thaís Otani Cipolini; as diretrizes
para programas de formação, das professoras Ângela Junquer e Elizena
Cortez, do projeto Correio Escola, e a estrutura e produção dos
editoriais, do pesquisador Geraldo Noel Arantes. A experiência de produção
de um jornal comunitário também foi discutida pelo jornalista Amarildo
Carnicel.
Oficinas
As oficinas continuam hoje, a partir das 16h. Os participantes também têm
a oportunidade de discutir a relação da imagem e a informação em duas
oficinas, com as pesquisadoras Gabriela Rigotti e Giovana Scarelli. Na
mesma linha, o cartunista Djota Carvalho fala sobre história em quadrinhos
e o professor Ezequiel Theodoro da Silva aborda a linguagem das charges.
As fotonovelas são o tema de Isabel Sampaio e o desenho animado tem vez na
oficina do educador Heitor Gribl, vice-presidente da ALB.
Experiências
As experiências com jornal na sala de aula estão espalhadas por todo o
Brasil. Além de Campinas, só ontem foram apresentadas as de jornais de
Bauru (SP), Salvador (BA), Manaus (AM), Jundiaí (SP), Uberlândia (MG) e
Rio de Janeiro (RJ). Todos relataram o crescimento do interesse pela
leitura, do senso crítico e melhorias no raciocínio, na interpretação de
textos e informações, além de mais facilidade para o relacionamento
interpessoal. Cursos superiores também não ficam de fora. Hoje, o
professor Alexandre de Castro, da Unisal, apresenta suas experiências de
leitura em cursos de Direito.
Agenda
Três discussões encerram hoje o IV Seminário. Juvenal Zanchetta, professor
da Unesp, abre a programação abordando a formação de professores. A
avalanche de informações e as condutas dos educadores é o tema que será
discutido por Helena Lopes de Freitas e Rubens Queiroz de Almeida, da
Unicamp, além de Adilson Citelli, da USP. O último compromisso do dia é a
conferência sobre a relação entre jornalismo e conhecimento, da professora
Marcilene Forechi, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).
PONTO DE VISTA
Marco Aurélio Matallo Pavani
Diretor de Planejamento da RAC
O caminho da transformação
O bem mais valioso para a educação é saber dividi-la. Compartilhar o
conhecimento pavimenta o verdadeiro caminho da transformação. De que
adianta acumular informação e não transmitir? O educador carrega dentro de
si, certamente, essa angústia. Passar o conhecimento adiante — com
qualidade — é saber formar, é preparar o cidadão para o futuro e é,
sobretudo, exercitar com sabedoria a missão de educar.
Vivemos hoje uma situação complexa. A escola deixou de ser o único caminho
para o conhecimento. A sociedade da informação nos atropela cotidianamente
e nos desafia a selecionar aquilo que realmente faz diferença. No
jornalismo, essa tarefa é chamada de edição. Editar e selecionar são
efetivamente ferramentas decisivas. Elas ajudam a desatar o nó da
incompreensão.
Este IV Seminário Nacional O Professor e A Leitura do Jornal é uma boa
oportunidade para refletirmos sobre o rumo da educação num mundo em que
não há mais fronteiras. Como ajudar este jovem a separar o joio do trigo?
Como ajudá-lo a editar o que lê, vê e consome em tempo real? Como
conquistá-lo e, principalmente, como tê-lo como aliado?
A Rede Anhangüera de Comunicação (RAC), como empresa comprometida com a
informação de qualidade e com a formação de uma sociedade mais aprimorada,
tem orgulho de compartilhar e participar da organização de uma experiência
enriquecedora em todos os sentidos. Há 16 anos, a empresa divide com
educadores e estudantes de toda a região de Campinas um projeto que tem
sido uma revolução na árdua missão de formar leitores críticos e
socialmente integrados. O Correio Escola, o nosso elo entre o jornal e a
sala de aula, é um programa que compartilha o conhecimento da vida real,
instigando e provocando uma leitura além da própria notícia.
Disponibilizar os veículos da RAC como ponte de integração comunitária —
em especial o Correio Popular, jornal voltado ao público formador de
opinião — nos enche de satisfação. É uma maneira de dividir e de jamais
esquecer de nossa missão: informar o leitor, formando cidadãos.
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