Autores discutem jornal na vida do professor        menu

Cristiane Parente,  ANJ - www.anj.org.br


Lançado durante o IV Seminário Nacional O Professor e a Leitura de Jornal, no dia 21, em Campinas, o livro O jornal na vida do professor e no trabalho docente, organizado por Ezequiel Theodoro da Silva e editado pela Global e ALB, reúne a visão de seis especialistas sobre o tema.


Acompanhar nosso processo histórico, saber como as coisas acontecem e refletir sobre o futuro são apenas algumas das possibilidades que o jornal, um dos melhores caminhos para iniciar uma viagem até a informação, oferece. Porém, mais do que ter acesso a informações, que são encontradas em abundância atualmente, é preciso aprender a selecioná-las e transformá-las em conhecimento, papel do professor mediador dos dias de hoje, ressalta Mario Sergio Cortella no artigo “O professor e a leitura do Jornal”, que abre o livro O jornal na vida do professor e no trabalho docente, organizado por Ezequiel Theodoro da Silva e editado pela Global e ALB.

Cortella também faz uma reflexão sobre o impacto da mídia na vida dos professores, desde o momento do surgimento da imprensa, em 1450. E ressalta que não só os alunos precisam se atualizar, mas principalmente os professores, que precisam se manter atualizados não apenas em termos de informações, mas de uma concepção do processo pedagógico que esteja voltado para as condições do agora e que use o jornal como um instrumento para capturar, seduzir e convencer os alunos a pensarem o cotidiano, a se interessarem pela história. E de forma crítica.

Em “O jornal na tensa fronteira entre o público e o privado: um estudo para ler criticamente os jornais em sala de aula”, Marcel Cheida começa falando sobre o primeiro discurso em defesa da liberdade de imprensa (Aeropagítica) e a própria evolução da imprensa, paralela à evolução econômico-industrial do mundo, e que vai de um jornalismo romântico-literário à notícia como conhecemos hoje, em empresas que vivem a eterna tensão entre os interesses públicos e privados.

Cheida estimula educadores a promoverem a leitura crítica do jornal, que “permite construir revelações sobre o modo como os jornais observam e interpretam a realidade cotidiana e discursam sobre ela”. Ele conclui seu artigo dando sugestões de algumas questões que podem ser feitas a cada texto para uma leitura analítica, como quem são as fontes presentes, se o contraditório está presente e se o relato revela ou oculta, entre outras.

Saraí Schmidt, coordenadora do Programa NH na Sala de Aula, do jornal NH, de Novo Hamburgo/RS, aborda no artigo “Discutindo as relações entre a escola e o currículo do jornal”, o aparente desinteresse dos jovens pela leitura, além dos conceitos adotados pelos programas de jornal e educação da ANJ (Associação Nacional de Jornais).

Para Saraí o jornal pode ser um instrumento importante para conectar a escola à realidade e fazer uma contextualização do currículo escolar, mas só se houver uma articulação com o planejamento do (a) educador (a). O jornal, para ela, pode ser mais que um instrumento pedagógico. Ao invés de pensar em jornal na sala de aula, Saraí pensa em jornal como sala de aula. “Considero importante repensar a mídia uma forma de aprendizagem e lançar outros olhares, inclusive para as reportagens publicadas diariamente na imprensa, no sentido de serem compreendidas como uma construção histórica e social e que, na maioria das vezes, é simplesmente aceita como natural”, defende.

Juvenal Zanchetta Júnior em “Por que, afinal, a leitura de jornais na escola?” revela os consensos que existem no sentido de didatização ou sistematização do objeto jornal para o cenário escolar, como o discurso que o coloca como recurso pedagógico, como objeto de estudo, janela para o mundo real e veículo que estimula a formação para a cidadania, o que viria ao encontro do que os PCN´s, as políticas para livros didáticos e para a formação continuada dos professores apresentam, mesmo que timidamente .

Zanchetta apresenta os avanços que a relação comunicação-educação vem alcançando no âmbito acadêmico, com a superação da idéia do receptor passivo diante da mídia e de instrumentalização técnica e o reconhecimento do papel de mediador do professor. Ele também defende a necessidade da escola posicionar-se politicamente em relação ao campo midiático e uma política pública contemporânea que leve em consideração o lócus da educação e sua relação com a mídia. Para ele, as razões para ler jornal na escola se referem ao fato de “ler para construir um agente coletivo, capaz de dialogar e participar da arena política que decide o perfil dos discursos predominantes e decisórios na vida da escola e do próprio país.”

O organizador do livro, Ezequiel Theodoro, também não se furta ao debate e começa seu artigo “O jornal na vida dos professores” citando o educador espanhol Jorge Larrosa: “as palavras produzem sentido, criam realidade (...) e pensar não é somente raciocinar, calcular ou argumentar (...), é sobretudo dar sentido ao que somos e ao que nos acontece.”

Ezequiel defende que temos que ter uma multiplicidade de competências de leitura em meio à saturação de informações que temos hoje. Ele ressalta a importância do jornal nos ambientes educativos por todos os motivos já expostos acima e acrescenta que “o ensino com jornais deve almejar sempre as operações complexas do pensamento: analisar, comparar, julgar, sintetizar, produzir pontos de vista, entre outros”, lembrando ainda que “o significado maior da leitura nos dias de hoje, pensando na complexidade da sociedade é o de melhor qualificar as nossas ações, reações e decisões nas diferentes dimensões da vida.”

‘É de verde que se torce o pepino? Quesitos e caminhos para a conquista do hábito de leitura de jornais” é o nome do artigo de Carmen Sanches Sampaio, que ressalta a necessidade dos professores serem bons leitores se quiserem formar bons leitores críticos. “O que lêem e escrevem as professoras e os professores?” questiona a educadora, que defende ainda que se busque o contexto de um texto, já que na escola predomina o retalho de texto, uma leitura sem substância, sem significado e seqüência, sem unidade e sem aprofundamento, esvaziado de sentido para os alunos.

Carmen critica a leitura como mera técnica e alerta que uma real democracia só é possível com uma população que sabe pensar, ler e escrever. Daí a importância do jornal na sala de aula e, mais do que isso, a produção de um jornal por parte dos estudantes. “As crianças precisam ler, desde pequenas, para compreender, para produzir sentido(s), para inteirar-se do mundo, para nesse mundo intervir como produtoras de cultura que são”, destaca.

Fechando a série de artigos, Amarildo Carnicel escreve sobre “O jornal e a voz da comunidade”, mostrando a necessidade de uma segmentação jornalística como forma de sobrevivência, com as mídias locais, de bairro e comunitária atendendo a um público específico cujos anseios e cotidiano não estão nas páginas da grande mídia.

O jornal comunitário é destacado pelo autor como sendo um veículo com o grande diferencial de possuir a participação da comunidade na qual está inserida nas tomadas de decisão, nos processos de produção e também na recepção. E, nesse sentido, um veículo que pode ser “apropriado” pela escola como instrumento pedagógico, por ter a cidadania como maior compromisso, buscando a participação de todos na busca de soluções para a melhoria da sociedade.