O SILÊNCIO NA ESCOLA[1]

 

AGUILLAR, Adriana Maimoni

 

Introdução

O interesse pelo silêncio na escola, enquanto objeto de pesquisa, se deu pela constatação de alunos quietos em sala de aula, ou seja, aqueles que são mais calados, se movimentam menos, e, talvez por isso mesmo, são menos percebidos pela professora ou, por outro lado, são os "queridinhos" da professora. Ao mesmo tempo, esses alunos não fazem parte, na maioria das vezes, do interesse de pesquisadores na área da educação escolar. Muitas pesquisas enfatizam a presença da indisciplina na sala de aula, conduzida pelos bagunceiros: aqueles que falam mais e alto e se movimentam por espaços mais amplos. Estes alunos fazem parte da preocupação diária das professoras e assim também, de muitos pesquisadores. Deste modo, há uma tentativa de combate à indisciplina em sala de aula.

Em contrapartida com essas idéias, procuro compreender, num primeiro momento, aqueles alunos calados e quietos em sala de aula, visto que estão excluídos da atenção de professores e de pesquisadores de modo geral.

Entretanto, ao entrar em contato com a referência bibliográfica fundamental[2] deste trabalho, percebo que o interesse inicial apenas para com os alunos calados e quietos em sala de aula se estende para outras abordagens. A partir de então, entro em contato com a noção de silêncio fundador e de política de silenciamento. Essas noções, as quais serão melhor analisadas posteriormente, fazem com que compreendamos o silêncio para além do calamento, ou seja, ultrapassa-se a oposição entre silêncio e barulho. Assim, existe a possibilidade de encontrarmos o silêncio no barulho, entre as palavras e nas palavras.

Além do contato com o referencial teórico fundamental, o contato com o campo, ou seja, a escola, também abre caminhos possíveis para outras visões do silêncio na escola. Pois, foi realizado um estudo de caso em uma sala de aula de primeira série do ensino fundamental em uma escola pública. Foram realizadas observações em sala de aula e nas várias outras localidades da escola;  entrevistas com todos os alunos da sala, com os professores da sala, com uma coordenadora, dois diretores e um funcionário.

A partir de então, as principais categorias de análise foram preconcebidas no referencial teórico, e outras, não menos importantes, surgiram no momento da coleta dos dados, as quais serão apresentadas e definidas no corpo deste trabalho, juntamente com um breve histórico do silêncio nas concepções pedagógicas e finalmente, algumas histórias presenciadas nos momentos em que o silêncio adquire características específicas na sala de aula.

 

Categorias Principais

Ao desejar analisar o silêncio em sala de aula, encontrei o barulho. Eu não conseguia, não percebia ou não queria ver o silêncio, mas o barulho, as falas, os murmúrios, sussurros, burburinhos, estes eram constantes e facilmente percebidos. Mas, existe silêncio no barulho?

Entre o barulho eu encontro bolsões de silêncio, espaços vazios, tempos, pausas, buracos, vácuos, interstícios, os entre, os vãos do barulho. Os nada, as fronteiras, tudo aquilo que não pode ser capturado pela palavra, o que está escondido, o que está além do é ou não é, além da significação ou aquém.

No barulho tem silêncio? O silêncio está no barulho ou entre barulhos? O próprio barulho, pode esconder um silêncio? Ou, o que o barulho esconde? O que está silenciado atrás do barulho? É o que está reprimido? Recalcado, calado?

Quando encontro bolsões de silêncio no meio de barulhos é quando entre as palavras e nas palavras existem vácuos. Não apenas o fato de que eu digo uma coisa e deixo de dizer outras, mas quando digo uma coisa e ela pode ser entendida de várias maneiras, ou, quando digo algo que não sei exatamente o que é. Um conceito fala alguma coisa de um objeto mas, não que não diz outras escondidas apenas, mas que não se tem conceito para determinadas coisas, ou, que o conceito não abarca a multiplicidade da coisa, assim, ele próprio é em parte silêncio, vazio, vácuo, nada, não sentido.

O silêncio é algo que foge da compreensão, foge da captura, ele é incapturável, incontrolável, ele é dissipação, ele paira, ele é um cheiro, um cheiro é silêncio, um olhar é silêncio. Eu posso fazer mil malabarismos para descrever um olhar, um cheiro, uma luz, mas eles são incapturáveis pelos conceitos. Eu vejo a luz, eu sinto um cheiro, eu vejo um olhar, mas eles são silêncio.

Algumas vezes, no meio do barulho eu posso perceber, ouvir, sentir a existência de focos de silêncio que estão dispersos, espalhados, desaparecidos, banhando, impregnando pontos fixos e móveis. Além disso, no barulho eu encontro a política de silenciamento, ela é não menos dissipação, mas é mais aparente, é menos luz e mais corpo, menos cheiro e mais palavra, apesar da política de silenciamento também se exercer em silêncio, pelos gestos e  olhares.

A política de silenciamento foi definida por Orlandi[3] como a repressão e censura das palavras e ações, mas também o obrigar a dizer. Sempre produzindo uma resistência por parte de um sentido que ao ser silenciado não desaparece, mas migra para outro local, espaço, circunstância.

A política de silenciamento pode ser alargada se nos basearmos na noção de poder desenvolvida por Foucault[4]. A política de silenciamento, como uma forma de relação  de poder, está espalhada e emaranhada em todas as relações entre e intra indivíduos. Ao mesmo tempo, o próprio indivíduo, no caso, o sujeito aprendiz infantil, é produzido também  por políticas de silenciamento existentes na sala de aula.

A política de silenciamento pode ser positiva e negativa; não no sentido de ser boa ou ruim, mas de produzir algo ou de impedir que algo se produza. E isso não quer dizer que exista uma certa política de silenciamento que seja positiva e outra negativa. A política de silenciamento é positiva e negativa. Por exemplo, se eu proíbo alguém de dizer alguma coisa (negativa), e eu obrigo ou incito a pessoa a dizer outra, eu posso estar produzindo algo, uma fala, um jeito, um trabalho, um indivíduo ( positividade), ou mesmo; na resistência à política de silenciamento há positividade. A política de silenciamento produz um tempo, um espaço, um tipo humano, um jeito de ser.

Além disso, a política de silenciamento, ao incitar o dizer, se transforma em política de falamento, evidenciando assim, o caráter mutante dessa categoria. A política de falamento produz falas, prolifera falas, e, vivemos, talvez, atualmente, o momento de maior produção e proliferação de falas: a era da comunicação.

Dentro da sala de aula, essa realidade não é muito diferente, especialmente a professora, assim como todos nós, tem medo de silenciar, de parar de significar, de perder o rosto, de fazer outro rosto, de parar, de dar um tempo, por que a partir daí, não se sabe o que há. Assim ficamos presos nas palavras, nos discursos, no enunciado, nos gestos e olhares que significam. Temos medo de dar uma pausa e deixar de querer e de pensar que controlamos nossa vida. Por que na realidade, por mais que se esforce para controlar os acontecimentos e os discursos, não se controla: eles fogem sempre, eles vazam, escapam, se transformam e acontecem por si mesmos.

E ao se assumir a presença do silêncio, se transpassa o limiar do controle, da palavra, da verdade, da significação. Se entra num outro tempo, num outro espaço, num contato com o corpo, com a respiração, com as visibilidades, as quais nos possibilitam até perceber a presença do silêncio; o silêncio que percebe o silêncio. O silêncio como obra de arte porque cria, modifica, é uma estética porque é uma forma outra de ser, de ver, de sentir, de viver, de temporalizar e de se alojar; que tem talvez um pouco mais a ver com a criança; com essa energia em potência, essa energia pulsante que ao mesmo tempo vive uma outra temporalidade, devaneio, ela se permite silenciar e devanear; ela se permite ser um bicho, ser uma estátua, uma planta, ou seja, é um devir pleno.

 

O Silêncio nas Concepções Pedagógicas

Neste momento, apresento os lugares, bem como as maneiras pelas quais o silêncio adquire formas específicas dentre as principais correntes de pensamento pedagógico, as quais, por sua vez, de algum modo, determinam as práticas educativas em sala de aula. Para tanto,  foi feito um  levantamento bibliográfico a partir   da história da educação ( Manacorda)[5], da história das correntes do pensamento pedagógico ( Suchodolsk[6]i e Saviani[7]), da história das práticas educativas (Ariès[8]) , entre outros estudos sobre o funcionamento das instituições de modo geral ( Foucault[9]).

Portanto, não devemos apenas perguntar o que o silêncio significou nos diversos momentos históricos, mas o que fez com que o silêncio adquirisse determinado sentido nesta ou naquela época. De que maneira as coisas aconteceram para que o silêncio ocupasse determinado lugar entre as práticas de saber, entre os discursos, entre os sujeitos

A escola tradicional é a primeira forma de organização sistematizada do ensino oferecido para um número relativamente grande de alunos, assim, o que hoje denominamos de escola tradicional, foi uma educação construída sobre os princípios platônicos, os quais afirmam a existência de uma dualidade na natureza humana : por um lado, o mundo real, empírico, dionisíaco, do  corpo, com seus desejos, sentimentos, sensibilidade, emoções, paixões; por outro lado, o mundo ideal, da razão, do apolíneo, do espírito, da lógica, da verdade (Suchodolski 1972). A partir desse pensamento, vários outros surgiram, e foram chamados de filosofia da essência, a qual influenciou o pensamento pedagógico fazendo emergir a Pedagogia da Essência. Dessa maneira, o ser humano, na sua realidade empírica imperfeita, deveria ser educado para que fosse corrigido e aperfeiçoado. A educação faria aflorar o mundo ideal, o qual estava presente nas reminiscências do homem, por meio da imposição de regras de condutas morais, absolutas e incontestáveis.

Com base nesses ideais, havia, já na antigüidade, depois na Idade Média e ainda nos tempos modernos, uma prática pedagógica onde o professor era o centro do processo educativo; detentor do saber e do poder, ele deveria transmitir os conhecimentos culturalmente adquiridos , especialmente por  meio de aulas expositivas e da imposição de rigorosa disciplina, a qual incluía castigos corporais e o silêncio era pressuposto fundamental para que a aprendizagem se efetivasse:

"Ora: lês diligentemento no rolo de papiro. Ora deves fazer os cálculos em silêncio e que não se ouça a voz da tua boca. Escreve com a mão e lê com a boca; pede conselho. Não sejas negligente nem passes um dia na ociosidade, senão, ai de teu corpo! Segue os métodos de teu mestre, ouve seus ensinamentos. Sê um escriba: Eis me aqui! Dirás sempre que te chamem. Cuida de nunca dizer: Ufa!” (Manacorda, 1995, p. 34)

“...era exigido, antes de tudo, que as crianças não se ouvissem respirar...”  (Idem p152.)

 

É interessante notar a importância do silêncio nos momentos de aprendizagem dos cálculos, mas, no momento da leitura: " lê com a boca". A leitura era realizada em voz alta, os alunos deveriam recitar poesias com eloquência pois a retórica era parte importante dos estudos, especialmente para a política: atividade social de relevância. Além disso, as práticas de leitura aconteciam em coletividade, aglomerando espectadores ouvintes.

Já na Idade Média, com a grande proliferação dos mosteiros e a rigorosidade de métodos disciplinares mais sofisticados, a leitura passa a ser uma prática silenciosa e individual. Agora, os alunos em sala de aula devem estar sempre em completo silêncio, mesmo na hora da leitura. Nos mosteiros, as palavras e conversas entre os alunos eram combatidas a favor de um silêncio meditativo e disciplinar:

“...do nascer ao pôr do sol e até durante a noite, pois podiam fazer impunemente, passavam todo seu tempo em conversas vãs, inúteis, e o que é pior, maliciosas.” ( Manacorda 1995 p.160)

 “...Guardai vossas línguas:

é isto que convém ao jovem;

trancai a cadeado a porta,

para que não saia uma palavra má.” ( Idem p. 160)

 

Até o século XVII, a escola foi marcada pela influência das teorias da filosofia da essência. Entretanto, já no século XIII, já havia teorias com um entendimento contrário à esses pensamentos: a chamada filosofia da existência. Este pensamento questionava os ideais da filosofia da essência e da pedagogia da essência: será que os homens devem sucumbir às regras absolutas de conduta? Ou será que devem se apoiar nos seus desejos e necessidades temporais?

A partir do Renascimento e do movimento da Reforma surgiram outras concepções filosóficas derivando em teorias pedagógicas. Todavia, não cessaram de surgir pensamentos de resistência por meio da Contra-Reforma, os quais estruturavam e complexificavam cada vez mais as práticas educativas da escola tradicional, por exemplo, a Ratio Studiorum, encabeçada pelos jesuítas, a qual regulamentava e organizava os métodos disciplinares e de organização e utilização do tempo e do espaço de ensino.

É importante relatar, que existiram diversidade de pensamentos dentro das correntes do essencialismo e do existencialismo, mas não nos cabe relatar essas teorias em seus pormenores.

De qualquer forma, o novo modo de pensar a natureza humana, coloca em evidência a questão da individualidade e do desenvolvimento humano, fazendo surgir as modernas ciências do homem e especificamente, da criança. Então, essas idéias se tornam fortes no século XVII, mas ainda não estão presentes no pensamento pedagógico: Comenius, o qual para Suchodolski ainda era essencialista, mas fortemente influenciado pelas idéias existencialistas, “aproxima-se da criança de modo incomparavelmente mais marcado do que qualquer um de seus predecessores ou contemporâneos” (Suchodolski, 1984).

No século XVIII, presenciamos o gradual desaparecimento dos severos castigos corporais, tanto nos sistemas judiciários - na Idade Média imperavam os suplícios - , quanto nas escolas, e se processa, no lugar dos castigos, formas mais organizadas e sutis de disciplinamento, castigos e vigilância dos alunos em sala de aula. Neste momento, os ideais Rousseaunianos entravam em evidência e há um desejo da escola para todos, baseada nos ideais de liberdade, igualdade e contrato social. A partir de Rousseau, especialmente, surgem críticas ferozes à educação tradicional, a qual passa a ser compreendida como portadora de uma prática inadequada às reais necessidades da criança, um local onde prevalece o silêncio triste e obscuro,  a repressão, um ambiente opaco, onde o professor fala demais e a criança é obrigada a calar, não é reconhecida nas suas características individuais. Em contrapartida, a partir século XVIII, surgem novas propostas de educação: Pestalozzi e Froebel propõem o desenvolvimento das forças espontâneas na criança, a valorização de sua atividade própria, o jogo, a permissão da expressão e da alegria.

Neste momento, processa-se uma transformação no discurso do silêncio. Se antes ele era necessidade para a aprendizagem, agora ele começa a ser entendido como algo que prejudica o aprendizado;  a idéia do aluno que, na escola tradicional deveria ficar calado, como condição de aprendizagem, começava a ser rejeitada, pois, no entendimento dos pensadores da pedagogia da existência, essa prática de silenciamento dos alunos impede a possibilidade do desenvolvimento das  atividades dinâmicas, próprias da infância. São os primeiros indícios de um forte movimento que virá,  a favor da liberdade e expressão dos alunos e contra o silêncio dos mesmos em sala de aula. Decroly, desenvolve teorias específicas sobre a importância da expressão da criança nas práticas educativas, não apenas por meio da palavra, mas também pelos movimentos rítmicos, danças, teatro etc.

No século XIX continuam as desavenças entre aqueles que desejam modificar a escola e aqueles que querem a sua permanência. Assim, não deixam de surgir novas idéias por um lado e resistências por outro, mas aos poucos a pedagogia da existência se torna a corrente principal de pensamento na educação, influenciando, definitivamente a modificação das práticas educativas. Esse pensamento era enriquecido pelos estudos sobre o psiquismo da criança, a partir do qual, a criança não é mais compreendida como um objeto da educação mas como seu sujeito, com propriedades emotivas além da inteligência.

Deste modo, uma nova pedagogia se consolida com o objetivo de transformar a sociedade, por meio da mudança dos métodos e dos conteúdos do ensino escolar. Dewey foi um pensador e construtor da escola nova, ele desejava a formação de uma criança que fosse educada no barulho da alegria, dos movimentos, da expressão, dos jogos, dos estudos do meio. O professor deveria fornecer o ambiente apropriado, acompanhar e estimular o desenvolvimento e as necessidades da criança.

Entretanto, toda essa euforia da escola nova não vingou; para Saviani, esse modelo de ensino era muito custoso para ser aplicado nas escolas oficiais, então, serviu como experimentos apenas para a elite. Além disso, os professores entraram em contato com as teorias da escola nova, o que causou conseqüências para a sala de aula: " afrouxamento da disciplina e despreocupação com a transmissão do conhecimento", e segundo Saviani, ajudando na piora da qualidade do ensino.

Na tentativa de resolver esse impasse que as escolas se encontravam, onde a escola tradicional não mais cabia e onde a escola nova fracassara, surge, no final do século XX, o construtivismo, o qual pretendia aglutinar pontos positivos dos dois modelos anteriores para formar um modelo próprio de ensino. Assim, o construtivismo não se baseia na espontaneidade da criança em sala de aula, mas parte da realidade dela para poder fazer um elo com os novos conhecimentos a serem construídos. No entanto, o papel do professor é indispensávelcomo mediador entre a criança e o conhecimento.

Esta teoria pedagógica pretende estabelecer relações não arbitrárias entre aquilo que a criança já sabe e aquilo que ela deve aprender. Há uma importância muito grande atribuída à expressão das crianças daquilo que aprenderam, mas de forma científica, ou seja, os termos devem ser trabalhados para que o aluno domine a forma culta de falar. Há uma ênfase na avaliação contínua e feita constantemente até pelos próprios alunos.

Deste modo, o construtivismo pretende reestruturar  as salas de aula na tentativa de se produzir um novo tipo humano, e, neste momento, o silêncio adquire novas modificações e formas específicas: ele é importante nas horas certas, assim, tem a hora de silênciar, mas também tem a hora de falar, tanto para com os alunos como para com o professor. De qualquer forma, as análises de uma sala de aula da atualidade poderão ser ilustrativas neste contexto.

 

Algumas situações em que o silêncio aparece na sala de aula

Várias frases da professora demonstram a tentativa de silenciar os alunos literalmente, ou seja, fazer com que eles permaneçam calados, neste momentos, há uma política de silenciamento explícita:

Prof.: “Chega! Não quero mais falatório.”

Prof.: “Ramón, por favor, pára de falar!”

Prof.: “Gente silêncio!! Com todo mundo falando não há concentração. Tem hora que é preciso silêncio pra respeitar os outros e a mim mesmo.”

Tiago: “Eu sei qual é a resposta! Eu sei qual é!

Prof.: “Boca fechada!”

Em outros momentos, o silêncio é necessário como pressuposto para que as tarefas sejam realizadas com sucesso:

Prof.: “Copia! Não fala Fabiana.”

Prof.: “Copia Alexandre, quanto mais você fala mais você fica atrasado.”

Ou ainda, quando o aluno fala alguma coisa que a professora não quer ouvir, mesmo por que neste momento é o pior aluno quem fala:

Gust.: “A professora não fez a chamada!”

Prof.: “Gustavo! De boca fechada

Gustavo é considerado o pior aluno da sala, tanto por parte da professora responsável pela classe, como pela professora de educação artística. Várias vezes, as duas professoras mandaram o Gustavo pra fora da sala de aula. As reclamações são por motivo dos seus gritos estridentes e por ele xingar e bater nos colegas. Certa vez ele  se levanta e leva seu caderno para a professora ver:

Prof.: “Você não escreveu nada !?”

A professora pergunta em voz alta, com os linhas da testa voltadas para o interior do rosto, demonstrando seriedade e braveza. Por outro lado, Gustavo se vira de costas para a professora, caminha vagarosamente em silêncio até sua carteira, senta-se e abaixa a cabeça.

Prof.: “Não Gustavo! Não é pra ficar com a cabeça abaixada, é pra apagar e fazer de novo.”

A professora está mais brava, as linhas do seu rosto se intensificam, a voz aumenta o tom, demonstrando mais braveza e dureza. Gustavo, por outro lado, em silêncio, não demonstra nenhuma feição, aguçando a ira da professora que tenta novamente:

Prof.: “Gustavo!! Não é pra ficar parado!!”

Gustavo não se altera, permanece mudo e imóvel, com a cabeça acabrunhada entre os braços em cima da mesa.

Em outra ocasião, o mesmo Gustavo:

Prof.: “Você só sabe bater nos colegas Gustavo?!”

Prof.: “Gustavo, será que você só sabe brigar e empurrar Gustavo?”

Prof.: “Tira a mão da boca, você é surdo Gustavo?”

Gustavo: Em silêncio

Prof.: “O que você veio fazer na escola?”

Gustavo: Em silêncio

A professora o pega-o com as mãos firmes em seus braços, coloca-o de frente pra ela:

“Olhe pra mim! Hein? O que é que faz aqui na escola?”

Gustavo, em voz baixa, olhando par o chão: “estudar”.

Este momento ilustra o silêncio da resistência do aluno para com as exigências da professora, a qual, por sua vez, tenta retirar o aluno do seu lugar de silêncio e paralisia para colocá-lo na ordem, nas regras de produção escolar, na fala da ordem discursiva e até mesmo, a professora quer o olhar do aluno.

No mesmo sentido, existem alguns momentos nos quais a professora exige que todos falem, especialmente quando está tomando a tabuada e a classe deve responder em coro. Certa vez, num desses momentos, Alexandre ficou em silêncio na hora que a sala toda respondeu em coro, por esta razão a fala da professora:

Prof.: “Só o Alexandre agora vai falar sozinho.”

Portanto, quem fala na hora errada é castigado, mas quem silencia na hora errada também é castigado. São algumas das estratégias que a professora utiliza na tentativa de  manter a ordem dentro da sala de aula e, neste momento, ela se utiliza da política de falamento.

Por outro lado, existe um tipo de silêncio que a professora adora: o do " queridinho"  da professora. Ao perguntar para a professora quem é o aluno mais quieto da sala, ela diz, com um sorriso no rosto, que é o Tiago: " Ai...ele é um amor..."

O Tiago quase não se levanta da carteira, somente quando a professora pede. Ao observar a sala de aula, nitidamente percebo que realmente, o Tiago é o mais quieto. Entretanto, ao observá-lo mais de perto, percebo que ele está constantemente falando consigo mesmo, em voz baixa, sussurros. Ao levar o caderno para a professora, ele recebe beijo, abraço e elogios. O único problema do Tiago, para a professora, é que, muitas vezes ele se atrasa, demora nas tarefas. Mas, para os colegas do Tiago, ele não é muito bem quisto. No recreio ele quase sempre está sozinho, ou correndo atrás de um colega que foge dele. Ao mesmo tempo, no momento da educação física, o Tiago não consegue desempenhar as tarefas satisfatoriamente, o que o torna alvo de chacotas por parte dos colegas. De qualquer forma, Tiago consegue se comportar da maneira como a professora deseja, ele é o aluno exemplar, o qual desempenha o silêncio da obediência.

 

Considerações Finais

Esses foram apenas alguns exemplos de política de silenciamento, política de falamento, o silêncio da resistência e o silêncio da obediência. Os episódios ilustram alguns lugares ocupados pelo silêncio na sala de aula. Percebemos que alguns silêncios são permitidos e outros são repudiados, evidenciando o mecanismo que tenta organizar os silêncios em sala de aula, o qual  é o mesmo que tenta organizar os corpos e as falas dos alunos, no intuito de preservar a ordem e a eficiência, contra a bagunça, as falas desorganizadas e a inutilidade dos corpos no tempo e no espaço da sala de aula.

Ficaram fora deste trabalho, vários outros aspectos importantes, tais como a política de silenciamento que existe entre os alunos, entre os professores da escola diretores e coordenadores. Além disso, também existem outros tipos de silêncios dos alunos presentes na sala de aula e mesmo no recreio e, por fim, o silêncio da professora.

Este estudo sobre o silêncio poderá fazer emergir um olhar diferente dos professores na sua prática no processo de ensino e de aprendizagem escolares, fazendo com que os silêncios sejam percebidos na sua multiplcidade.

 

Bibliografia

ARIÈS, P. História Social da Criança e da Família. 2a.  ed. Rio de Janeiro LTC Editora,. 1981, 279 p

FOUCAULT, M. Vigiar e Punir. 21a.ed. Petrópolis RJ: Ed. Vozes, 1987, 288p.

                        .     Microfísica do Poder. 8a. ed. Rio de Janeiro: Ed. Graal, 1979, 293 p.

MANACORDA, M. A. História da Educação: da Antiguidade aos nossos dias. 4a. ed. São Paulo Ed. Cortez, 1995, 371 p.

SAVIANI, D. Escola e Democracia. Coleção Polêmicas do Nosso Tempo, 2a. ed. São Paulo: Ed. Cortez, 1984, 95 p.

SUCHODOLSKI, B. A Pedagogia e as Grandes Correntes Filosóficas, 3a. ed. Lisboa: Livros Horizonte, 1984, 124 p.



[1] Este trabalho é um resumo das principais idéias contidas na dissertação que está sendo desenvolvida para o Programa de Pós – Graduação em Educação, Metodologia de Ensino – UFSCar

 

[2] Orlandi, E. As formas do Silêncio no Movimento dos Sentidos. Ed. Unicamp, 1992.

[3] Orlandi, E. As Formas do Silêncio no Movimento dos Sentidos. Ed. Unicamp, 1992.

[4] Foucault, M. Microfísica do Poder. Ed. Graal. 8.a. ed. 1989

[5] Manacorda, M. A História da Educação: da Antiguidade aos nossos dias. Ed. Cortez. 4.a. ed.1995

[6] Suchodolski, B. A Pedagogia e as Grandes Correntes Filosóficas. Ed. Livros Horizonte. 3.a. ed. 1984

[7] Saviani, D. Escola e Democracia. Ed. Autores Associados. 2.a ed. 1984

[8] Ariès. P.  História Social da Criança e da Família. LTC ed. 2.a. ed. 1981

[9] Foucault, M. Vigiar e Punir. Ed. Vozes 21.a. ed. 1999