O SILÊNCIO NA ESCOLA[1]
Introdução
O
interesse pelo silêncio na escola, enquanto objeto de pesquisa, se deu pela
constatação de alunos quietos em sala de aula, ou seja, aqueles que são mais
calados, se movimentam menos, e, talvez por isso mesmo, são menos percebidos
pela professora ou, por outro lado, são os "queridinhos" da professora.
Ao mesmo tempo, esses alunos não fazem parte, na maioria das vezes, do
interesse de pesquisadores na área da educação escolar. Muitas pesquisas enfatizam
a presença da indisciplina na sala de aula, conduzida pelos bagunceiros:
aqueles que falam mais e alto e se movimentam por espaços mais amplos. Estes
alunos fazem parte da preocupação diária das professoras e assim também, de
muitos pesquisadores. Deste modo, há uma tentativa de combate à indisciplina em
sala de aula.
Em
contrapartida com essas idéias, procuro compreender, num primeiro momento, aqueles
alunos calados e quietos em sala de aula, visto que estão excluídos da atenção
de professores e de pesquisadores de modo geral.
Entretanto,
ao entrar em contato com a referência bibliográfica fundamental[2]
deste trabalho, percebo que o interesse inicial apenas para com os alunos
calados e quietos em sala de aula se estende para outras abordagens. A partir
de então, entro em contato com a noção de silêncio fundador e de política de
silenciamento. Essas noções, as quais serão melhor analisadas posteriormente,
fazem com que compreendamos o silêncio para além do calamento, ou seja,
ultrapassa-se a oposição entre silêncio e barulho. Assim, existe a
possibilidade de encontrarmos o silêncio no barulho, entre as palavras e nas
palavras.
Além do
contato com o referencial teórico fundamental, o contato com o campo, ou seja,
a escola, também abre caminhos possíveis para outras visões do silêncio na
escola. Pois, foi realizado um estudo de caso em uma sala de aula de primeira
série do ensino fundamental em uma escola pública. Foram realizadas observações
em sala de aula e nas várias outras localidades da escola; entrevistas com todos os alunos da sala, com
os professores da sala, com uma coordenadora, dois diretores e um funcionário.
A partir
de então, as principais categorias de análise foram preconcebidas no referencial
teórico, e outras, não menos importantes, surgiram no momento da coleta dos
dados, as quais serão apresentadas e definidas no corpo deste trabalho, juntamente
com um breve histórico do silêncio nas concepções pedagógicas e finalmente, algumas
histórias presenciadas nos momentos em que o silêncio adquire características
específicas na sala de aula.
Categorias Principais
Ao desejar analisar o silêncio em sala de aula,
encontrei o barulho. Eu não conseguia,
não percebia ou não queria ver o silêncio, mas o barulho, as falas, os murmúrios,
sussurros, burburinhos, estes eram constantes e facilmente percebidos. Mas, existe
silêncio no barulho?
Entre o barulho eu encontro bolsões de silêncio, espaços
vazios, tempos, pausas, buracos, vácuos, interstícios, os entre, os vãos do
barulho. Os nada, as fronteiras, tudo aquilo que não pode ser capturado pela
palavra, o que está escondido, o que está além do é ou não é, além da
significação ou aquém.
No barulho tem silêncio? O silêncio está no barulho ou
entre barulhos? O próprio barulho, pode esconder um silêncio? Ou, o que o
barulho esconde? O que está silenciado atrás do barulho? É o que está
reprimido? Recalcado, calado?
Quando encontro bolsões de silêncio no meio de barulhos é quando entre as palavras e nas palavras
existem vácuos. Não apenas o fato de que eu digo uma coisa e deixo de dizer
outras, mas quando digo uma coisa e ela pode ser entendida de várias maneiras,
ou, quando digo algo que não sei exatamente o que é. Um conceito fala alguma
coisa de um objeto mas, não que não diz outras escondidas apenas, mas que não
se tem conceito para determinadas coisas, ou, que o conceito não abarca a multiplicidade
da coisa, assim, ele próprio é em parte silêncio, vazio, vácuo, nada, não sentido.
O silêncio é algo que foge da compreensão, foge da
captura, ele é incapturável, incontrolável, ele é dissipação, ele paira, ele é
um cheiro, um cheiro é silêncio, um olhar é silêncio. Eu posso fazer mil
malabarismos para descrever um olhar, um cheiro, uma luz, mas eles são
incapturáveis pelos conceitos. Eu vejo a luz, eu sinto um cheiro, eu vejo um
olhar, mas eles são silêncio.
Algumas vezes, no meio do barulho eu posso perceber,
ouvir, sentir a existência de focos de silêncio que estão dispersos,
espalhados, desaparecidos, banhando, impregnando pontos fixos e móveis. Além
disso, no barulho eu encontro a política
de silenciamento, ela é não menos dissipação, mas é mais aparente, é menos
luz e mais corpo, menos cheiro e mais palavra, apesar da política de
silenciamento também se exercer em silêncio, pelos gestos e olhares.
A política de silenciamento foi definida por Orlandi[3]
como a repressão e censura das palavras e ações, mas também o obrigar a dizer.
Sempre produzindo uma resistência por parte de um sentido que ao ser silenciado
não desaparece, mas migra para outro local, espaço, circunstância.
A política de silenciamento pode ser alargada se nos
basearmos na noção de poder desenvolvida por Foucault[4].
A política de silenciamento, como uma forma de relação de poder, está espalhada e emaranhada em
todas as relações entre e intra indivíduos. Ao mesmo tempo, o próprio
indivíduo, no caso, o sujeito aprendiz infantil, é produzido também por políticas de silenciamento existentes na
sala de aula.
A política de silenciamento pode ser positiva e
negativa; não no sentido de ser boa ou ruim, mas de produzir algo ou de impedir
que algo se produza. E isso não quer dizer que exista uma certa política de
silenciamento que seja positiva e outra negativa. A política de silenciamento é
positiva e negativa. Por exemplo, se eu proíbo alguém de dizer alguma coisa
(negativa), e eu obrigo ou incito a pessoa a dizer outra, eu posso estar
produzindo algo, uma fala, um jeito, um trabalho, um indivíduo ( positividade),
ou mesmo; na resistência à política de silenciamento há positividade. A
política de silenciamento produz um tempo, um espaço, um tipo humano, um jeito
de ser.
Além disso, a política de silenciamento, ao incitar o
dizer, se transforma em política de falamento,
evidenciando assim, o caráter mutante dessa categoria. A política de falamento
produz falas, prolifera falas, e, vivemos, talvez, atualmente, o momento de
maior produção e proliferação de falas: a era da comunicação.
Dentro da sala de aula, essa realidade não é muito
diferente, especialmente a professora, assim como todos nós, tem medo de
silenciar, de parar de significar, de perder o rosto, de fazer outro rosto, de
parar, de dar um tempo, por que a partir daí, não se sabe o que há. Assim
ficamos presos nas palavras, nos discursos, no enunciado, nos gestos e olhares
que significam. Temos medo de dar uma pausa e deixar de querer e de pensar que
controlamos nossa vida. Por que na realidade, por mais que se esforce para
controlar os acontecimentos e os discursos, não se controla: eles fogem sempre,
eles vazam, escapam, se transformam e acontecem por si mesmos.
E ao se assumir a presença do silêncio, se transpassa o
limiar do controle, da palavra, da verdade, da significação. Se entra num outro
tempo, num outro espaço, num contato com o corpo, com a respiração, com as
visibilidades, as quais nos possibilitam até perceber a presença do silêncio; o
silêncio que percebe o silêncio. O silêncio como obra de arte porque cria,
modifica, é uma estética porque é uma forma outra de ser, de ver, de sentir, de
viver, de temporalizar e de se alojar; que tem talvez um pouco mais a ver com a
criança; com essa energia em potência, essa energia pulsante que ao mesmo tempo
vive uma outra temporalidade, devaneio, ela se permite silenciar e devanear;
ela se permite ser um bicho, ser uma estátua, uma planta, ou seja, é um devir
pleno.
O Silêncio
nas Concepções Pedagógicas
Neste momento, apresento os lugares, bem como as
maneiras pelas quais o silêncio adquire formas específicas dentre as principais
correntes de pensamento pedagógico, as quais, por sua vez, de algum modo, determinam
as práticas educativas em sala de aula. Para tanto, foi feito um levantamento
bibliográfico a partir da história da
educação ( Manacorda)[5],
da história das correntes do pensamento pedagógico ( Suchodolsk[6]i
e Saviani[7]),
da história das práticas educativas (Ariès[8])
, entre outros estudos sobre o funcionamento das instituições de modo geral (
Foucault[9]).
Portanto, não devemos apenas perguntar o que o silêncio
significou nos diversos momentos históricos, mas o que fez com que o silêncio
adquirisse determinado sentido nesta ou naquela época. De que maneira as coisas
aconteceram para que o silêncio ocupasse determinado lugar entre as práticas de
saber, entre os discursos, entre os sujeitos
A escola tradicional é a primeira forma de organização
sistematizada do ensino oferecido para um número relativamente grande de
alunos, assim, o que hoje denominamos de escola tradicional, foi uma educação
construída sobre os princípios platônicos, os quais afirmam a existência de uma
dualidade na natureza humana : por um lado, o mundo real, empírico, dionisíaco,
do corpo, com seus desejos,
sentimentos, sensibilidade, emoções, paixões; por outro lado, o mundo ideal, da
razão, do apolíneo, do espírito, da lógica, da verdade (Suchodolski 1972). A
partir desse pensamento, vários outros surgiram, e foram chamados de filosofia
da essência, a qual influenciou o pensamento pedagógico fazendo emergir a
Pedagogia da Essência. Dessa maneira, o ser humano, na sua realidade empírica
imperfeita, deveria ser educado para que fosse corrigido e aperfeiçoado. A
educação faria aflorar o mundo ideal, o qual estava presente nas reminiscências
do homem, por meio da imposição de regras de condutas morais, absolutas e incontestáveis.
Com base nesses ideais, havia, já na antigüidade, depois
na Idade Média e ainda nos tempos modernos, uma prática pedagógica onde o
professor era o centro do processo educativo; detentor do saber e do poder, ele
deveria transmitir os conhecimentos culturalmente adquiridos , especialmente
por meio de aulas expositivas e da
imposição de rigorosa disciplina, a qual incluía castigos corporais e o silêncio era pressuposto fundamental para
que a aprendizagem se efetivasse:
"Ora:
lês diligentemento no rolo de papiro. Ora deves fazer os cálculos em silêncio e
que não se ouça a voz da tua boca. Escreve com a mão e lê com a boca; pede conselho.
Não sejas negligente nem passes um dia na ociosidade, senão, ai de teu corpo!
Segue os métodos de teu mestre, ouve seus ensinamentos. Sê um escriba: Eis me aqui!
Dirás sempre que te chamem. Cuida de nunca dizer: Ufa!” (Manacorda, 1995, p.
34)
“...era
exigido, antes de tudo, que as crianças não se ouvissem respirar...” (Idem p152.)
É interessante notar a importância do silêncio nos
momentos de aprendizagem dos cálculos, mas, no momento da leitura: " lê
com a boca". A leitura era realizada em voz alta, os alunos deveriam
recitar poesias com eloquência pois a retórica era parte importante dos
estudos, especialmente para a política: atividade social de relevância. Além
disso, as práticas de leitura aconteciam em coletividade, aglomerando espectadores
ouvintes.
Já na Idade Média, com a grande proliferação dos
mosteiros e a rigorosidade de métodos disciplinares mais sofisticados, a
leitura passa a ser uma prática silenciosa e individual. Agora, os alunos em
sala de aula devem estar sempre em completo silêncio, mesmo na hora da leitura.
Nos mosteiros, as palavras e conversas entre os alunos eram combatidas a favor
de um silêncio meditativo e disciplinar:
“...do
nascer ao pôr do sol e até durante a noite, pois podiam fazer impunemente, passavam
todo seu tempo em conversas vãs, inúteis, e o que é pior, maliciosas.” ( Manacorda
1995 p.160)
“...Guardai vossas línguas:
é isto que
convém ao jovem;
trancai a
cadeado a porta,
para que não
saia uma palavra má.” ( Idem p. 160)
Até o século XVII, a escola foi marcada pela influência
das teorias da filosofia da essência. Entretanto, já no século XIII, já havia
teorias com um entendimento contrário à esses pensamentos: a chamada filosofia
da existência. Este pensamento questionava os ideais da filosofia da essência e
da pedagogia da essência: será que os homens devem sucumbir às regras absolutas
de conduta? Ou será que devem se apoiar nos seus desejos e necessidades
temporais?
A partir do Renascimento e do movimento da Reforma
surgiram outras concepções filosóficas derivando em teorias pedagógicas.
Todavia, não cessaram de surgir pensamentos de resistência por meio da
Contra-Reforma, os quais estruturavam e complexificavam cada vez mais as
práticas educativas da escola tradicional, por exemplo, a Ratio Studiorum,
encabeçada pelos jesuítas, a qual regulamentava e organizava os métodos
disciplinares e de organização e utilização do tempo e do espaço de ensino.
É importante relatar, que existiram diversidade de
pensamentos dentro das correntes do essencialismo e do existencialismo, mas não
nos cabe relatar essas teorias em seus pormenores.
De qualquer forma, o novo modo de pensar a natureza
humana, coloca em evidência a questão da individualidade e do desenvolvimento
humano, fazendo surgir as modernas ciências do homem e especificamente, da
criança. Então, essas idéias se tornam fortes no século XVII, mas ainda não
estão presentes no pensamento pedagógico: Comenius, o qual para Suchodolski
ainda era essencialista, mas fortemente influenciado pelas idéias
existencialistas, “aproxima-se da criança de modo incomparavelmente mais marcado
do que qualquer um de seus predecessores ou contemporâneos” (Suchodolski,
1984).
No século XVIII, presenciamos o gradual desaparecimento
dos severos castigos corporais, tanto nos sistemas judiciários - na Idade Média
imperavam os suplícios - , quanto nas escolas, e se processa, no lugar dos
castigos, formas mais organizadas e sutis de disciplinamento, castigos e
vigilância dos alunos em sala de aula. Neste momento, os ideais Rousseaunianos
entravam em evidência e há um desejo da escola para todos, baseada nos ideais
de liberdade, igualdade e contrato social. A partir de Rousseau, especialmente,
surgem críticas ferozes à educação tradicional, a qual passa a ser compreendida
como portadora de uma prática inadequada às reais necessidades da criança, um
local onde prevalece o silêncio triste e obscuro, a repressão, um ambiente opaco, onde o professor fala demais e a
criança é obrigada a calar, não é reconhecida nas suas características
individuais. Em contrapartida, a partir século XVIII, surgem novas propostas de
educação: Pestalozzi e Froebel propõem o desenvolvimento das forças espontâneas
na criança, a valorização de sua atividade própria, o jogo, a permissão da expressão
e da alegria.
Neste momento, processa-se uma transformação no discurso
do silêncio. Se antes ele era necessidade para a aprendizagem, agora ele começa
a ser entendido como algo que prejudica o aprendizado; a idéia do aluno que, na escola tradicional
deveria ficar calado, como condição de aprendizagem, começava a ser rejeitada,
pois, no entendimento dos pensadores da pedagogia da existência, essa prática
de silenciamento dos alunos impede a possibilidade do desenvolvimento das atividades dinâmicas, próprias da infância.
São os primeiros indícios de um forte movimento que virá, a favor da liberdade e expressão dos alunos
e contra o silêncio dos mesmos em sala de aula. Decroly, desenvolve teorias específicas
sobre a importância da expressão da criança nas práticas educativas, não apenas
por meio da palavra, mas também pelos movimentos rítmicos, danças, teatro etc.
No século XIX continuam as desavenças entre aqueles que
desejam modificar a escola e aqueles que querem a sua permanência. Assim, não
deixam de surgir novas idéias por um lado e resistências por outro, mas aos
poucos a pedagogia da existência se torna a corrente principal de pensamento na
educação, influenciando, definitivamente a modificação das práticas educativas.
Esse pensamento era enriquecido pelos estudos sobre o psiquismo da criança, a
partir do qual, a criança não é mais compreendida como um objeto da educação
mas como seu sujeito, com propriedades emotivas além da inteligência.
Deste modo, uma nova pedagogia se consolida com o
objetivo de transformar a sociedade, por meio da mudança dos métodos e dos
conteúdos do ensino escolar. Dewey foi um pensador e construtor da escola nova,
ele desejava a formação de uma criança que fosse educada no barulho da alegria,
dos movimentos, da expressão, dos jogos, dos estudos do meio. O professor
deveria fornecer o ambiente apropriado, acompanhar e estimular o
desenvolvimento e as necessidades da criança.
Entretanto, toda essa euforia da escola nova não vingou;
para Saviani, esse modelo de ensino era muito custoso para ser aplicado nas
escolas oficiais, então, serviu como experimentos apenas para a elite. Além
disso, os professores entraram em contato com as teorias da escola nova, o que
causou conseqüências para a sala de aula: " afrouxamento da disciplina e
despreocupação com a transmissão do conhecimento", e segundo Saviani,
ajudando na piora da qualidade do ensino.
Na tentativa de resolver esse impasse que as escolas se
encontravam, onde a escola tradicional não mais cabia e onde a escola nova
fracassara, surge, no final do século XX, o construtivismo, o qual pretendia
aglutinar pontos positivos dos dois modelos anteriores para formar um modelo
próprio de ensino. Assim, o construtivismo não se baseia na espontaneidade da criança
em sala de aula, mas parte da realidade dela para poder fazer um elo com os
novos conhecimentos a serem construídos. No entanto, o papel do professor é
indispensávelcomo mediador entre a criança e o conhecimento.
Esta teoria pedagógica pretende estabelecer relações não
arbitrárias entre aquilo que a criança já sabe e aquilo que ela deve aprender.
Há uma importância muito grande atribuída à expressão das crianças daquilo que
aprenderam, mas de forma científica, ou seja, os termos devem ser trabalhados
para que o aluno domine a forma culta de falar. Há uma ênfase na avaliação
contínua e feita constantemente até pelos próprios alunos.
Deste modo, o construtivismo pretende reestruturar as salas de aula na tentativa de se produzir
um novo tipo humano, e, neste momento, o silêncio adquire novas modificações e
formas específicas: ele é importante nas horas certas, assim, tem a hora de silênciar,
mas também tem a hora de falar, tanto para com os alunos como para com o
professor. De qualquer forma, as análises de uma sala de aula da atualidade poderão
ser ilustrativas neste contexto.
Algumas
situações em que o silêncio aparece na sala de aula
Várias frases da professora demonstram a tentativa de
silenciar os alunos literalmente, ou seja, fazer com que eles permaneçam
calados, neste momentos, há uma política
de silenciamento explícita:
Prof.: “Chega! Não quero mais falatório.”
Prof.: “Ramón, por favor, pára de falar!”
Prof.: “Gente silêncio!! Com todo mundo falando não há
concentração. Tem hora que é preciso silêncio pra respeitar os outros e a mim
mesmo.”
Tiago: “Eu sei qual é a resposta! Eu sei qual é!
Prof.: “Boca fechada!”
Em outros momentos, o silêncio é necessário como
pressuposto para que as tarefas sejam realizadas com sucesso:
Prof.: “Copia! Não fala Fabiana.”
Prof.: “Copia Alexandre, quanto mais você fala mais você
fica atrasado.”
Ou ainda, quando o aluno fala alguma coisa que a
professora não quer ouvir, mesmo por que neste momento é o pior aluno quem
fala:
Gust.: “A professora não fez a chamada!”
Prof.: “Gustavo! De boca fechada
Gustavo é considerado o pior aluno da sala, tanto por
parte da professora responsável pela classe, como pela professora de educação
artística. Várias vezes, as duas professoras mandaram o Gustavo pra fora da
sala de aula. As reclamações são por motivo dos seus gritos estridentes e por
ele xingar e bater nos colegas. Certa vez ele
se levanta e leva seu caderno para a professora ver:
Prof.: “Você não escreveu nada !?”
A professora pergunta em voz alta, com os linhas da
testa voltadas para o interior do rosto, demonstrando seriedade e braveza. Por
outro lado, Gustavo se vira de costas para a professora, caminha vagarosamente
em silêncio até sua carteira, senta-se e abaixa a cabeça.
Prof.: “Não Gustavo! Não é pra ficar com a cabeça abaixada,
é pra apagar e fazer de novo.”
A professora está mais brava, as linhas do seu rosto se
intensificam, a voz aumenta o tom, demonstrando mais braveza e dureza. Gustavo,
por outro lado, em silêncio, não demonstra nenhuma feição, aguçando a ira da
professora que tenta novamente:
Prof.: “Gustavo!! Não é pra ficar parado!!”
Gustavo não se altera, permanece mudo e imóvel, com a
cabeça acabrunhada entre os braços em cima da mesa.
Em outra ocasião, o mesmo Gustavo:
Prof.: “Você só sabe bater nos colegas Gustavo?!”
Prof.: “Gustavo, será que você só sabe brigar e empurrar
Gustavo?”
Prof.: “Tira a mão da boca, você é surdo Gustavo?”
Gustavo: Em silêncio
Prof.: “O que você veio fazer na escola?”
Gustavo: Em silêncio
A professora o pega-o com as mãos firmes em seus braços,
coloca-o de frente pra ela:
“Olhe pra mim! Hein? O que é que faz aqui na escola?”
Gustavo, em voz baixa, olhando par o chão: “estudar”.
Este momento ilustra o silêncio da resistência do aluno para com as exigências da professora,
a qual, por sua vez, tenta retirar o aluno do seu lugar de silêncio e paralisia
para colocá-lo na ordem, nas regras de produção escolar, na fala da ordem discursiva
e até mesmo, a professora quer o olhar do aluno.
No mesmo sentido, existem alguns momentos nos quais a professora
exige que todos falem, especialmente quando está tomando a tabuada e a classe
deve responder em coro. Certa vez, num desses momentos, Alexandre ficou em
silêncio na hora que a sala toda respondeu em coro, por esta razão a fala da
professora:
Prof.: “Só o Alexandre agora vai falar sozinho.”
Portanto, quem fala na hora errada é castigado, mas quem
silencia na hora errada também é castigado. São algumas das estratégias que a
professora utiliza na tentativa de
manter a ordem dentro da sala de aula e, neste momento, ela se utiliza
da política de falamento.
Por outro lado, existe um tipo de silêncio que a
professora adora: o do " queridinho"
da professora. Ao perguntar para a professora quem é o aluno mais quieto
da sala, ela diz, com um sorriso no rosto, que é o Tiago: " Ai...ele é um
amor..."
O Tiago quase não se levanta da carteira, somente quando
a professora pede. Ao observar a sala de aula, nitidamente percebo que
realmente, o Tiago é o mais quieto. Entretanto, ao observá-lo mais de perto,
percebo que ele está constantemente falando consigo mesmo, em voz baixa,
sussurros. Ao levar o caderno para a professora, ele recebe beijo, abraço e
elogios. O único problema do Tiago, para a professora, é que, muitas vezes ele
se atrasa, demora nas tarefas. Mas, para os colegas do Tiago, ele não é muito
bem quisto. No recreio ele quase sempre está sozinho, ou correndo atrás de um
colega que foge dele. Ao mesmo tempo, no momento da educação física, o Tiago
não consegue desempenhar as tarefas satisfatoriamente, o que o torna alvo de
chacotas por parte dos colegas. De qualquer forma, Tiago consegue se comportar
da maneira como a professora deseja, ele é o aluno exemplar, o qual desempenha
o silêncio da obediência.
Considerações Finais
Esses foram apenas alguns exemplos de política de
silenciamento, política de falamento, o silêncio da resistência e o silêncio da
obediência. Os episódios ilustram alguns lugares ocupados pelo silêncio na sala
de aula. Percebemos que alguns silêncios são permitidos e outros são repudiados,
evidenciando o mecanismo que tenta organizar os silêncios em sala de aula, o
qual é o mesmo que tenta organizar os
corpos e as falas dos alunos, no intuito de preservar a ordem e a eficiência,
contra a bagunça, as falas desorganizadas e a inutilidade dos corpos no tempo e
no espaço da sala de aula.
Ficaram fora deste trabalho, vários outros aspectos
importantes, tais como a política de silenciamento que existe entre os alunos,
entre os professores da escola diretores e coordenadores. Além disso, também
existem outros tipos de silêncios dos alunos presentes na sala de aula e mesmo
no recreio e, por fim, o silêncio da professora.
Este estudo sobre o silêncio poderá fazer emergir um
olhar diferente dos professores na sua prática no processo de ensino e de
aprendizagem escolares, fazendo com que os silêncios sejam percebidos na sua
multiplcidade.
ARIÈS,
P. História Social da Criança e da Família. 2a. ed. Rio de Janeiro LTC Editora,. 1981, 279 p
FOUCAULT, M. Vigiar e Punir. 21a.ed.
Petrópolis RJ: Ed. Vozes, 1987, 288p.
. Microfísica do Poder. 8a. ed.
Rio de Janeiro: Ed. Graal, 1979, 293 p.
MANACORDA, M. A. História da Educação: da Antiguidade
aos nossos dias. 4a. ed. São Paulo Ed. Cortez, 1995, 371 p.
SAVIANI, D. Escola e Democracia. Coleção Polêmicas do
Nosso Tempo, 2a. ed. São Paulo: Ed. Cortez, 1984, 95 p.
SUCHODOLSKI, B. A Pedagogia e as Grandes Correntes
Filosóficas, 3a. ed. Lisboa: Livros Horizonte, 1984, 124 p.
[1] Este trabalho é um resumo das principais idéias contidas na dissertação que está sendo desenvolvida para o Programa de Pós – Graduação em Educação, Metodologia de Ensino – UFSCar
[2] Orlandi, E. As formas do Silêncio no Movimento dos Sentidos. Ed. Unicamp, 1992.
[3] Orlandi, E. As Formas do Silêncio no Movimento dos Sentidos. Ed. Unicamp, 1992.
[4] Foucault, M.
Microfísica do Poder. Ed.
Graal. 8.a. ed. 1989
[5] Manacorda, M. A História da Educação: da Antiguidade aos nossos dias. Ed. Cortez. 4.a. ed.1995
[6] Suchodolski, B. A Pedagogia e as Grandes Correntes Filosóficas. Ed. Livros Horizonte. 3.a. ed. 1984
[7] Saviani, D.
Escola e Democracia. Ed. Autores Associados. 2.a ed. 1984
[8] Ariès. P. História Social da Criança e da Família. LTC ed. 2.a. ed. 1981
[9] Foucault, M. Vigiar e Punir. Ed. Vozes 21.a. ed. 1999