Acadêmicas 3ºano- UNIOESTE
Palavras-chaves:
álcool, gato-preto, alucinações
Pretende-se
com este artigo desencadear uma análise
do conto “The Black Cat”, com o intuito de apontar e confrontar os problemas físicos, psíquicos e sociais causados
pelo uso do álcool, que são comprovados cientificamente e encontrados no personagem
principal desta obra.
Põe também
era alcoólatra, e esse vício trouxe-lhe grande prejuízo no decorrer de sua
vida.
Após ser encontrado
alcoolizado, inconsciente e moribundo, é internado, ficando vários dias hospitalizado,
até vir a falecer na manhã de domingo de 7 de outubro de 1849, na Filadélfia.
Enterrado em Baltimore, em seu túmulo está transcrito o trecho de um de seus
poemas, que se presta para descrever a
personalidade conflitante de um dos maiores escritores norte-americanos: “magro e mais pálido do que a palidez, um homem
com o coração corroído pela angústia e o rosto coberto de melancolia”.
Suas obras foram escritas
durante a fase do Romantismo Norte-Americano, o qual ocorrera entre 1800 a
1870, e teve seu ápice em 1820. Em suas obras, Edgar Allan Poe não ressalta o
lado idealista, sonhador ou ilusório, típico do período romântico, mas apresenta
uma visão revolucionária de quem intenciona sacudir o modelo de vida burguesa,
insurgindo-se contra qualquer tipo de contrição de ordem social ou moral.
Poe e outros artistas
pertencentes a este “modo de pensar romântico”, desafiavam a autoridade,
constituíam e questionavam valores éticos e religiosos, e dedicavam-se a amores
licenciosos, ao consumo do álcool ou drogas e até ao suicídio como forma de
fuga a uma realidade hipócrita e preconceituosa. Suas obras eram pouco convencionais
para uma sociedade que procurava na literatura uma forma de escapar da realidade,
através da ilusão de um mundo ideal. É nesse contexto que destacamos o conto ‘The black cat’.
Uma das
principais características do escritor Edgar Allan Poe é a de explorar as anomalias
da natureza humana. No conto ‘The Black
cat’, ele consegue expor brilhantemente o quanto o uso de uma substância
alcoólica pode influenciar no desvio comportamental de uma pessoa.
Este conto
é narrado em primeira pessoa, por um narrador que está inserido na narrativa e
que se posiciona como um ‘eu’, relatando-nos alguns episódios de sua vida, sem nos revelar o seu nome. Segundo
Platão e Fiorin (1998), “às vezes, o
personagem não tem nome para mostrar que ele vale apenas enquanto papel social,
ou para mostrar que ele não é um ser humano pleno.”
No começo
do conto, o protagonista apresenta-se como uma pessoa dócil, sensível e humana,
gostando muito de animais quando criança, e devido a essas qualidades foi
freqüentemente alvo de gracejos dos companheiros, na sua infância . Nota-se aí
uma tentativa do personagem justificar
as maldades que cometerá no futuro. Na
sociedade em que vivemos, existe enorme
pressão em relação às pessoas dotadas
de maior sensibilidade, classificando-se como fracas, de pouca personalidade; é
comum essas pessoas sofrerem pressões diárias,
sentirem a necessidade de provar o contrário, mesmo que para isso tenham
que recorrer à ajuda do álcool ou de outras substâncias alucinógenas para se
fazerem fortes diante da sociedade e também diante de si próprias.
Nesse
primeiro instante, temos a situação inicial do conto, marcada por momento de
linearidade: ainda não há mudanças no comportamento do personagem.
Com o decorrer do tempo, o comportamento
do protagonista começa a apresentar mudanças.
Ele torna-se uma pessoa irritada, mal-humorada e também violenta.
Percebe-se durante essa fase que o personagem sofre com as alterações que estão
ocorrendo em seu caráter, pois ele sabe que essas modificações são ruins não só
para si, como também para as pessoas que o amam. Verifica-se isso no trecho:
“ I grew, day by day, more moody, more irritable, more
regardless of the feelings of others. I suffered myself to use intemperate
language to my at length, I even offered her personal violence.”
Mesmo percebendo que seu caráter se
alterava com o uso do álcool, o protagonista não consegue lutar contra isso,
pois parece haver algo mais forte do que ele, algo que tomava conta do seu ser,
pouco a pouco, fazendo-o totalmente dependente da bebida alcoólica, tanto
física, quanto psiquicamente. Nota-se isso na passagem:
“ But my
discase grew upon me – for what desease is like Alcohol!”
“É comum em pessoas que bebem compulsivamente o
surgimento de uma irritabilidade excessiva e o descontrole de emoções. Isso ocorre
porque o álcool afeta tanto a saúde física quanto a mental, tornando as pessoas
que dele se utilizam impacientes e impulsivas” (J.L. Vasconcellos & F. Gewandsznajder:
1997).
Foi em uma dessas crises de impaciência e
impulsividade que o protagonista, após embriagar-se, comete o primeiro ato de
atrocidade com Pluto, seu gato de estimação:
“ I took
from my waistcoat – pocket a pen-knife, opened it, grasped the poor beast by
the throat, and deliberately cut one of its eyes from the socket!”
Tentando justificar este ato terrível, o protagonista
diz: “The fury of a demon instantly
possessed me”, e admite que o álcool foi o
culpado por sua atitude: “a more than friendish malevolence,
gin-murtured, thrilled every fibre of my frame”.
De acordo
com Frye (1973), “ o autor precisa estabelecer pressupostos para o desenvolvimento de
seu personagem”. Assim sendo, percebe-se
que não há um relato explícito de como ocorreu o início da ingestão de substâncias alcoólicas pelo protagonista.
Existem somente indícios de insegurança e necessidade de auto-afirmação, no
início do conto. Após a atrocidade cometida com Pluto, percebe-se que ocorre
uma maior entrega por parte do personagem ao vício, pois ele passa a sentir-se
atormentado por um sentimento de remorso e culpa, sentimento esse que, segundo
a revista O Atalaia (1982), é comum na
maioria dos alcoólatras, visto que estes são pessoas atormentadas por conflitos
internos, que buscam o álcool como uma fuga para as tensões do cotidiano. Nesta
obra, verifica-se isso quando o protagonista, após o episódio com o gato,
recorre novamente à bebida, como se
fosse uma fonte de esquecimento, um alívio para as suas dores:
“ I again
plunged into excess, and soon drawned in wine all memory of the deed”.
Paralelamente,
o personagem começa a sentir-se indigno do amor que o gato lhe dera, e aos
poucos esse sentimento de amor e culpa vai cedendo lugar ao ódio, fazendo aflorar-lhe
o espírito da perversidade. Para justificar tal sentimento, ele o coloca como
sendo comum a todos os seres humanos, ou seja, todos os homens possuem duas
naturezas: uma boa e outra ruim, que podem vir à tona a qualquer instante, dependendo
do contexto bio-psico-social em que está inserido. Percebe-se isto nos trechos:
“ Yet I’am
not more sure that my soul lives than I’am that perverseness is one of the
primitive impulses of the human heart” e “ who has not, a hundred times, found
himself committing a vile or a silly action, for no other reason than because
he knows he should not?"
O
protagonista utiliza-se dessas afirmações numa tentativa de justificar a segunda
atrocidade que cometerá: o enforcamento do gato a sangue frio. Ao enforcar Pluto,
deixa transparecer mais uma vez essa dualidade humana no trecho:
“Hung it
with the tears streaming from my eyes, and with the bitterest remorse at my heart”.
Aqui, nota-se novamente o
personagem sendo ‘obrigado’ a cometer coisas que não queria, ou seja, as
alucinações auditivas o fizeram ouvir vozes que determinaram suas ações.
Quando ele
afirma ter matado o gato a sangue frio, passa-nos logo a idéia de que não estava bêbado no momento do crime,
portanto, não estaria em um momento alucinógeno, levando-nos a crer que, no seu
íntimo, era um ser realmente perverso, capaz de cometer tais maldades em estado
de lucidez. Mas clinicamente, um alcoólatra pode sofrer os sintomas, pelo uso
do álcool no período de dois dias ou mais após tê-lo ingerido. Nesse período, o
alcoólatra não apresenta evidências de diminuição do nível de consciência e sua
orientação para pessoas, espaço e tempo é intacta (Kaplan: 1985). Assim sendo,
parece-nos evidente que, quando o
protagonista mata o gato, sofre as conseqüências pelo uso do álcool, mas sabia
o que estava fazendo.
Um dia
após ter matado o gato, percebe-se que o personagem ainda não retomou seu
estado normal de consciência, pois ao ver a imagem de um gato gigantesco
gravada em uma parede sofre uma alucinação visual. Conforme Kaplan, (1985), nas
alucinações visuais, o alcoólatra pensa
ver coisas que são somente projetadas no seu próprio inconsciente , ou seja, o
protagonista, estando sob o efeito do álcool, pensa ter visto algo, mas
percebe-se que, ao mesmo tempo, ele tenta buscar a razão, procurando dar uma
explicação científica para o ocorrido. Comprova-se isso na passagem:
“...when I
first behed this apparition – for I could scarcely it as less – my wonder and
my terror were extreme. But at length reflection came to my aid. The cat, I
remembered, had been hung in a garden adjacent to the house. Upon the alarm of
fire, this garden had been immediately filled by the crowd – by some one of
whom the animal must have been cut from the three and through na open window,
into my chamber...”.
Após a
morte de Pluto, o protagonista passa a viver uma vida ainda mais desregrada,
freqüentando os lugares mais sórdidos possíveis, tendo o álcool como seu
companheiro constante. Nessa fase da vida, ele continua tendo alucinações
visuais, como se encontra no trecho:
“immense
hogs heads of gin, or of run, wich constituted the chief furniture of the apartment"”
Em um
desses lugares, o personagem encontra
um outro gato preto, muito parecido com Pluto, pois também não possuía um dos
olhos. Ele levou o animal para casa, mas algum tempo depois começou a sentir
ciúmes devido ao carinho que sua esposa dedicava ao animal. Comprova-se esse
ciúme quando aparece no texto:
“ when
it reached the house it domesticated
itself at once, and became immediately a great favorite with my wife. For my
own part, I soon foun a dislike to it arising within me” e “ this circunstance, however, only
endeared it to my wife”.
Essa
questão do ciúme que o protagonista sente, pode ser também atribuída ao álcool,
visto que o vício leva a um desajuste
familiar e faz surgir alterações na vida conjugal do alcoólatra, fazendo com
que este se torne uma pessoa emocionalmente imatura, totalmente dependente,
insegura e com um constante sentimento de culpa a agravar-lhe o estado de
insuficiência (Ramos, 1987).
Por causa do ciúme que tinha da mulher se afeiçoando
ao gato, e também pela sua consciência que
o acusava o tempo todo pela morte de Pluto, o personagem começou a
sentir um pavor inexplicável diante do novo gato, como se constata :
“this
dread was not exactly a dread of
physical evil – and yet I should be at a loss how otherwise to define it”.
Esse pavor
origina-se devido ao ciúme causado pela sua insegurança afetiva. Perturbando-lhe
a mente, fazendo com que a culpa e o medo fossem seus companheiros constantes.
Tudo isso ocorre por ser alcoólatra, mas para o protagonista a culpa é do gato.
Percebe-se isso na seguinte parte:
“neither
by day nor by night knew I the blessing of rest any more! During the former the
creature left me no moment alone; and, in the latter, I started, jourly, from
dreams of unutterable fear, to find the hot breath of the thing upon my face,
and its vast weigth - –nancarnate night – more that I had no power to shake off
– incumbent eternally upon my heart!”
Aí,
nota-se que em paralelo à insegurança, o protagonista também sofria de insônia,
sintoma comum em pessoas que ingerem grande quantidade alcoólica.
Negando-se
a aceitar que o álcool o estava
destruindo, o personagem desiste de lutar contra o vício e se entrega de
corpo e alma às conseqüências da bebida. Verifica-se isso na passagem:
“Beneath
the pressure of torments such as these freble remnant of the good within me
succumbed. Evil thoughts became by sole intimates – the darkest and most evil
of thoughts. The moodiness of my usual temper increased to hatred of all things
and of all mankind”.
Nesse
contexto, desenvolve-se o clímax do conto, quando o protagonista em um ataque
de irritabilidade tenta matar o gato; e sua mulher, ao tentar impedi-lo acaba
recebendo o golpe que seria destinado ao felino. Após esse fato, o personagem
age com naturalidade, escondendo o corpo da mulher na adega e procurando pelo
gato para matá-lo, não o encontrando. Por não encontrá-lo, sente-se aliviado,
como se após a morte da mulher e o desaparecimento do felino, ele se tornasse
livre para demonstrar o ser em que havia se transformado. O protagonista não
precisaria mais esconder a perversidade que agora o dominava, pois as únicas
pessoas que o amavam e que o conheciam como ele era antes de se entregar à
bebida estavam mortas: a mulher e Pluto, e o símbolo de sua culpa, o novo gato,
havia desaparecido. Percebe-se isso nos trechos:
“Once again I breathed as a
free-man” e “ my happiness was supreme!”.
Num
texto lingüístico “o narrador procura
construir uma correlação entre espaço e comportamento dos personagens” (Platão
e Fiorin:1998). Assim sendo, nota-se que o clímax da narrativa apresenta dois
importantes espaços: o porão e a adega.
O primeiro representa a irracionalidade,
o mistério, o lado oculto e sinistro, ou seja, um local propício para o
acontecimento de um crime; já a adega nos passa a idéia de vazio, frieza e
pouca iluminação, um local onde seria difícil encontrar os vestígios de um
crime. Nesta obra, é espaço apropriado
para se ocultar um cadáver.
O
desfecho final do conto ocorre quando os policiais descobrem o corpo da mulher
escondido na parede da adega, revelado pelo gato, que fora emparedado junto à
ela.
Segundo
A.C. Marcondes ( 1983), clinicamente, costuma-se dividir o alcoolismo em
:agudo, subagudo e crônico. O alcoolismo agudo, faz com que as pessoas se tornem
desinibidas e auto-confiantes. No alcoolismo subagudo ocorrem as alucinoses e
os delírios alcoólicos, levando o indivíduo a alterar a percepção auditiva e
visual, ou seja, passa a ouvir vozes e a ver coisas imaginárias. Nesse estado,
a pessoa apresenta grandes alterações de sensibilidade, ora vendo-se com grande
alegria, ora com grande medo e ansiedade. No alcoolismo crônico, o indivíduo se
apresenta muito irritado, ansioso, deprimido e com muita insônia. É própria dos
indivíduos que bebem assiduamente, sendo estes afetados psíquica, física e
socialmente”.
Analisando
esses três tipos de alcoolismo, percebe-se que o protagonista os enfrentou,
pois durante o desenvolver do conto existe uma progressão nos estágios do seu
comportamento.
No
início, ele apresenta um bom caráter e se entrega aos poucos ao álcool,
buscando neste um auxílio para tornar-se forte e confiante. Com o desenrolar da
narrativa, os sintomas provocados pelo vício, tais como delírios e alucinações,
vão determinando seu comportamento, fazendo-o cometer várias atrocidades até
chegar ao ponto de perder completamente o controle de suas atitudes. Em um
último estágio, o personagem encontra-se preso, contando-nos sua história, como
se fosse um desabafo. Constata-se isso no trecho:
“But
to-morrow I die, and to-day i would unburthen my soul”
Neste
desabafo, nota-se certa lucidez, pois,
como preso, acredita-se que não teve
mais contato com o álcool e por isso já consegue perceber os efeitos que as
alucinações alcoólicas provocavam em seu organismo, tornando-o muito irritado,
fazendo-o imaginar coisas e a tomar atitudes bruscas. Comprova-se isso quando
diz:
“That the terror ando horror with which the animal
inspired me, had been heightened by one of the morest chimaeras it would be
possible to conceive”
Ao
analisar esse conto, percebe-se o quanto o álcool pode destruir a vida de um
indivíduo, tornando-o pessoa solitária e atormentada, como o próprio personagem
afirma:
“ In
their consequences, these events have terrified – have tortues – have destroyed
me”
ALVES,
Afonso Telles. ANTOLOGIA DE POETAS
ESTRANGEIROS. São Paulo: Logos,
Volume VIII, São Paulo;
AMADO,
Milton & MENDES Oscar.ALLAN POE:
POESIA E PROSA. Coleção Universidade
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