AS PRIMEIRAS (E DESCONHECIDAS) HISTÓRIAS INFANTIS DE MONTEIRO LOBATO [1]
Doutoranda em Teoria Literária
As histórias do Sítio do Picapau Amarelo são das mais conhecidas; no entanto, o período inicial da criação literária de Monteiro Lobato para crianças é ainda nebuloso. Edgard Cavalheiro, em sua biografia de Lobato [2], conta como teria surgido a idéia da primeira história para crianças escrita pelo autor, em 1920:
Certa tarde, na
Editora, joga xadrez com Toledo Malta, quando no intervalo entre dois lances,
este lhe conta a história de um peixinho que por haver passado um tempo fora
d’água “desaprendera a nadar”, e de volta ao rio afogara-se. “Perdi a partida
de xadrez naquele dia, talvez menos pela perícia do jogo do Malta do que por
causa do peixinho. O tal peixinho
pusera-se a nadar em minha imaginação, e quando Malta saiu, fui para a mesa e
escrevi a “História do Peixinho que Morreu Afogado” – coisa curta. Do tamanho
do peixinho. Publiquei isso logo depois, não sei onde. Depois veio-me a idéia
de dar maior desenvolvimento à história, e ao fazê-lo acudiram-me cenas da
roça, onde eu havia passado a minha meninice.”
Não se conhece, hoje, a publicação em que Lobato teria registrado essa história; segundo a pesquisadora da Biblioteca Monteiro Lobato, Hilda Villela Merz [3], não há cópia do texto. O peixinho da anedota, porém, como uma madalena proustiana, arrancou da memória de Lobato um universo: o Sítio do Picapau Amarelo. A “saga infantil”, como a denominou Cavalheiro, começou em 1920, com a publicação de A menina do narizinho arrebitado, e desenrolou-se durante quase vinte e oito anos. Até pouco antes de sua morte, em 1948, Monteiro Lobato ainda escrevia aventuras protagonizadas pelas personagens do Sítio.
Entre 1945 e 1946 ele organizou suas Obras completas, e nelas incluiu 22 histórias do Sítio: Reinações de Narizinho, Viagem ao Céu, O Saci, Caçadas de Pedrinho, Aventuras de Hans Staden, História do mundo para crianças, Memórias da Emília, Peter Pan, Emília no país da gramática, Aritmética da Emília, Geografia de Dona Benta, Serões de Dona Benta, História das Invenções, Dom Quixote das crianças, O poço do Visconde, Histórias de Tia Nastácia, O Picapau Amarelo, A reforma da Natureza, O minotauro, A chave do tamanho, Fábulas, Os doze trabalhos de Hércules. Em 1959, foram reunidos no volume póstumo Histórias diversas [4] vários contos (mas não todos) que Lobato havia escrito entre 1947 e 1948 e que foram publicados ao mesmo tempo no Brasil, pela editora Brasiliense, e na Argentina, pela Editorial Codex. [5]
O volume Reinações de Narizinho inclui histórias curtas que foram publicadas durante os anos 20 e começo dos anos 30: A menina do narizinho arrebitado (1920), Fábulas de Narizinho (1921), O Marquês de Rabicó, Fábulas (1922), A caçada da onça (1924), O noivado de Narizinho, Aventuras do Príncipe, O Gato Felix, Cara de Coruja (1928), O irmão de Pinocchio, O circo de Escavalinho (1929) , Pena de Papagaio (1931), O pó de pirlimpimpim (1931).

Capa de A caçada da Onça, publicado em 1924, que mostra um Pedrinho loiro e vestido de marinheiro, de acordo com o ideal de infância do começo do século XX.
Em 1924, Lobato publicou Jeca Tatuzinho, livro didático em que a personagem principal ensina noções de higiene às crianças, e O garimpeiro do Rio das Garças, história de João Nariz, homem que encontra diamantes e é perseguido por ladrões. Jeca Tatuzinho foi adaptado, em 1925, e passou a fazer parte do Almanaque Fontoura, periódico de promoção dos medicamentos do Laboratório Fontoura. Foi incluído nas Obras Completas, na parte de literatura geral, junto a artigos sobre o Jeca Tatu. Já O garimpeiro do Rio das Garças , “por ser um livro que não faz parte da saga do Sítio do Picapau Amarelo” [6], não foi incluído na coleção de literatura infantil das Obras Completas, e ficou de fora também da coleção de literatura geral.
Outras histórias lobatianas para crianças, que não fazem parte da “saga do Sítio” e que foram escritas em periódicos, também foram excluídas das Obras completas. É o caso de D’Après Nature, conto publicado na seção Jornal da Infância da revista paulistana Educação [7], em 1903 – dezessete anos antes, portanto, da “primeira história para crianças de Lobato”, O peixinho que morreu afogado, que seria de 1920, segundo o depoimento do escritor a Edgard Cavalheiro.
A protagonista do conto D’aprés Nature, uma loira e rica menina chamada Lilli, ajuda um pobre menino doente, que encontra durante um passeio com sua criada. O menino mora em uma casa cuja descrição lembra a das casas de caboclos, como mostra o trecho seguinte:
A casa era um rancho de sapé e barrotes no meio d’um terreno nú. Lilli entrou: da porta viu estendido num estrado, em horríveis convulsões, um rapazinho pallido e esfrangalhado, junto à sua mãe, uma velhota enrugada e macilenta.
Ao ver surgir em sua casa de repente, como apparição fantastica, uma criaturinha
tão linda, tão bem vestida, tão distincta de maneiras, a olhá-los com uma expressão
infantil de espanto e bondade curiosa, a pobre mulher, só acostumada a ver
portas a dentro a cabra e as gallinhas, arregalou os olhos lacrimosos, cheios
de surpresa e de esperança.
A dramaticidade do conto atinge seu clímax quando a mulher explica a Lilli a situação dos dois:
Lilli em breve se poz ao corrente do sucedido. O menino, filho único d’aquella pobre mulher, havia já dias gemia naquele estrado, sem remedios, sem recursos.
- É meu único arrimo – soluçava a misera – elle trabalha para me sustentar; já perdi tudo, pae, mãe, marido; só me resta no mundo esta criança e esta mesma quer me deixar – e os soluços rebentavam impetuosos d’aquelle peito rude em que vicejava cheio de vigor e majestade o sublime amor de mãe.
O tema e o estilo da história lembram os contos para crianças de Olavo Bilac, Júlia Lopes de Almeida, Coelho Neto ou Prisciliana Duarte de Almeida, esses dois últimos colaboradores da revista Educação. São vários os contos destes autores que retratam uma criança ou uma mãe moribunda, em um cenário miserável; a presença de uma criança rica e bondosa, que ajuda os pobres, também é freqüente. O “Rato” [8], conto de Coelho Neto, é uma dentre as diversas narrativas, escritas na virada do século XX, que tematizam essa situação. Trata-se da história de um “rapazola de nove anos”, apelidado Rato, filho único de uma mulher pobre e “prostrada pela moléstia”, que é obrigado pela mãe a mendigar. Certa noite, ele conta para a mãe a humilhação que sofreu quando pedia esmolas na escadaria de uma igreja:
(...) o que me fez chorar foi o que me disse um velho que levava um pequeno pela mão, um pequeno do meu tamanho. Quando eu lhe pedi esmola, ele olhou-me carrancudo, meteu os dedos no bolso do colete e ficou algum tempo a olhar-me; depois vagarosamente guardou a moeda e, puxando o menino, disse baixinho: - Verás, vai daqui direto para a taverna... – O pequeno, mamãe, olhou-me de tal modo, que eu senti o sangue subir-me ao rosto e as lágrimas saltarem-me dos olhos. Vendo-me chorar, o pequeno teve pena de mim e falou ao pai. Pararam, e eu enxugava os olhos, quando ouvi a voz do menino: - Toma! Olhei, e vi que ele me estendia a moeda.
Voltando a D’après nature, parece que Monteiro Lobato não consegue um bom resultado ao focalizar de maneira realista, numa história para crianças, aspectos de um problema social da mesma maneira que outros escritores, como Coelho Neto, já haviam feito. D’après nature, carregado de adjetivos e de uma dramaticidade excessiva, sustenta-se mal em seu intuito moralizante. Parece que, ao tentar seguir a linha de seus antecessores no projeto de criar uma literatura infantil brasileira, Monteiro Lobato não obteve êxito.
Talvez, por essa razão, esse conto – e por que não chamá-lo de “experiência”? – tenha ficado de fora de suas Obras Completas. O sucesso e a qualidade da obra infantil lobatiana cresceram conforme o autor foi reescrevendo suas histórias, tirando delas toda dramaticidade e deixando cada vez mais patente sua opção pelo humor como forma de abordar, em livros para crianças, problemas sociais, políticos e até psicológicos.
Monteiro Lobato foi lapidando seu estilo nas páginas de diversos periódicos, sempre escolhendo seus melhores trabalhos para apresentar ao público através da Revista do Brasil. Assim como muitos dos contos lobatianos para adultos que hoje fazem parte das Obras Completas, as primeiras aventuras de Narizinho foram publicadas na Revista do Brasil, que as anunciava de maneira a enfatizar a importância educativa de uma obra infantil brasileira – atributos importantes para a linha editorial da publicação. O trecho abaixo apresenta um “fragmento” de Lucia ou a menina do narizinho arrebitado, publicado pela revista em 1921:
A nossa literatura infantil tem sido, com poucas excepções, pobrissima de arte, e cheia de artificio, - fria, desengraçada, pretenciosa. Ler algumas paginas de certos “livros de leitura”, equivale, para rapazinhos espertos, a uma vaccina preventiva contra os livros futuros. Esvae-se o desejo de procurar emoções em letra de fôrma; contrae-se o horror do impresso... Felismente, esboça-se uma reação salutar. Puros homens de letras voltam-se para o genero, tão nobre, por ventura mais nobre do que qualquer outro. Entre esses figura Monteiro Lobato, que publicou em lindo album illustrado o conto da “Menina do narizinho arrebitado”, e agora o vai ampliando de novos episodios, alguns dos quaes se reproduzem aqui. [9]
A preocupação de criar uma literatura infantil nacional, que ajudasse a formar cidadãos brasileiros, já havia motivado “puros homens de letras”, como Olavo Bilac e Coelho Neto, a produzir histórias destinadas a crianças, como foi visto anteriormente. Monteiro Lobato também preocupava-se com a rarefeita produção literária dirigida às crianças brasileiras, como demonstrou em carta a Godofredo Rangel, em 1916:
Que
é que as nossas crianças podem ler? Não vejo nada. (...) Como tenho jeito para
impingir gato por lebre, isto é, habilidade por talento, ando com idéia de
iniciar a coisa. É de tal pobreza e tão besta a nossa literatura infantil, que
nada acho para a iniciação de meus filhos. Mais tarde só poderei dar-lhes o
Coração de Amicis – um livro tendente a formar italianinhos...[10]
E ele realmente terminaria por “iniciar a coisa”. As histórias do Sítio do Picapau Amarelo, “manifestação de excelência literária” [11], conferiram a Monteiro Lobato o título de “fundador da literatura infantil brasileira”. A qualidade de suas histórias para crianças é indiscutível – ainda que se discutam as idéias veiculadas nelas. O escritor que disse “ter jeito para impingir gato por lebre” tornou-se canônico, conforme atestou a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) em catálogo produzido para a Feira Mundial do Livro em Frankfurt (1994), que teve como tema o Brasil:
Monteiro Lobato continua sendo o maior escritor para crianças do Brasil. A quase totalidade dos escritores contemporâneos não tem dúvida em afirmar que Lobato foi a grande leitura de suas infâncias e a maior influência em seus trabalhos. A obra lobatiana continua a ser estudada, e a conclusão dos teóricos é que o distanciamento crítico só leva à constatação de sua permanência. [12]
Um dos mais recentes trabalhos que atestam a permanência da obra lobatiana é o livro Os filhos de Lobato: o imaginário infantil na ideologia do adulto, de J. Roberto Whitaker Penteado. O estudioso concluiu que cerca de dois terços dos brasileiros que hoje têm entre 48 e 61 anos, e que formam a elite política e econômica do Brasil, foram influenciados pelas histórias de Lobato. E que, com a ajuda da televisão, o Sítio do Picapau Amarelo continua popular entre as crianças brasileiras. [13]
O estudo das primeiras histórias infantis de Lobato, esquecidas em periódicos que saíram de circulação há anos, pode auxiliar a melhor compreensão do modo como ele produziu ficção para as crianças – ficção que, mais de 80 anos após o lançamento de A menina do Narizinho Arrebitado, permance fazendo sucesso entre o público infantil.
[2] CAVALHEIRO, Edgar. Monteiro Lobato: Vida e Obra. 2ª edição. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1956.
[3] Segundo informação do livro de AZEVEDO, Carmem Lúcia de et al. Monteiro Lobato: Furacão na Botocúndia. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 1997, p.157.
[4] O volume inclui as seguintes histórias: O centaurinho, As botas de sete léguas, A rainha Mabe, A violeta orgulhosa, A lampréia, Lagartas e borboletas, Uma pequena fada ou Uma fada moderna, O periscópio, A segunda jaca, As fadas, Reinação atômica e As ninfas da Emília, protagonizadas pelas personagens do Sítio do Picapau Amarelo, e Conto Argentino, cujas personagens, Panchito, Dona Dolores e Dom Francisco, são argentinas.
[5] Essas informações foram extraídas do livro de Hilda J. Villela Merz, Ana Lúcia de O. Brandão, Sylvia Manzano e Sílvia Oberg: Histórico e resenhas da Obra infantil de Monteiro Lobato. São Paulo: Brasiliense, 1996.
[6] Idem ibid, p. 44.
[7] LOBATO, Monteiro. D’Après Nature. Apud Revista Educação, n.º 3, 1903.
[8] NETO, Coelho. O “Rato”. In: Contos Pátrios. Livro escrito em conjunto com Olavo Bilac. 44ª edição. São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte: Livraria Francisco Alves, 1958, p. 43-47.
[9] Apud Revista do Brasil n.º 61, janeiro de 1921, p. 42.
[10] LOBATO, Monteiro. A barca de Gleyre, opus cit., p. 104-105.
[11] idem ibid, p.50.
[12] Apud Das Kinderbuch in Brasilien = Children’s Books in Brazil = O livro para crianças no Brasil. Brasiliana de Frankfurt/ Elizabeth d’Angelo Serra, Luiz Raoul Machado, Claudia de Miranda – organizadores. São Paulo: Câmara Brasileira do Livro, 1994, p. 45.
[13] PENTEADO, J. R. Whitaker. Os filhos de Lobato, opus cit.