MALUQUINHA: QUE PROFESSORA É ESSA?
BOLFER, Maura Maria Morais de Oliveira
Professora na 4a série do Ensino
Fundamental e no curso Normal Médio no Colégio Uirapuru / Sorocaba. Mestranda
na UNISO.
A
literatura infantil registra, de alguma maneira, aspectos do cotidiano e, como
todo registro, traz consigo traços da realidade. Assim, à medida que nomeia e
descreve, constrói um fenômeno, uma representação, uma imagem. Este trabalho
pretende fazer uma reflexão sobre a imagem de professora construída em um livro
para crianças: Uma professora muito
maluquinha, de Ziraldo.
A hipótese
é que, tematizando a educação e tendo como personagens professores e professoras,
alunos e alunas, a história da professora
maluquinha constitui representações de professora, da escola e da prática
pedagógica que, de algum modo, interferem no processo pedagógico.
O
objetivo, então, é desvelar o tipo de imagem que aí se constrói e tentar
responder a seguinte questão: em que medida a imagem de professora construída
na história da professora maluquinha
interfere no processo pedagógico e na postura de professora?
A escolha
deste livro em particular se justifica em função da dupla interlocução que a
obra pretende estabelecer (com a criança e com o adulto que atua na escola para
criança) e de sua forte presença na instituição escolar, devido à sua grande
publicidade (vinda de seu autor, figura reconhecida, legitimada e consagrada no
meio literário) e da intertextualidade intencional articulada ao best seller O Menino Maluquinho.
Que a
história pretende trazer um modelo escolar fica evidente já no texto da contracapa:
Ziraldo
comemora, com este livro, o 15º ano de sua convivência com a Editora Melhoramentos,
que começou quando, certa vez, uma professora sugeriu a ele que colocasse em um
livro “sério” suas idéias sobre as relações dos adultos com as crianças. Como
se fosse uma brincadeira, ele inventou o Menino Maluquinho. Agora, outras
professoras têm pedido que ele transforme em livro suas idéias sobre a “arte”
de ler e escrever e sobre as lembranças de uma professora que abriu seus olhos
para o mundo. Como uma nova brincadeira, igualmente séria, eis o livro!
As professoras, ao pedirem a Ziraldo um
livro sério, estariam sugerindo que fosse além da ficção, do simples prazer da
fantasia. Um livro que apontasse idéias da arte de ler e escrever, como se a
capacidade de ensinar estivesse vinculada somente à professora. Ao escrever
este livro, o autor estaria atendendo à demanda das professoras e abordando o
ensino da leitura e da escrita nos moldes do movimento da educação brasileira
desenvolvido a partir dos anos 70, quando surgiram inúmeras ações de promoção
de leitura e de renovação pedagógica: ensinar a ensinar a ler, estimular de
alguma maneira as professoras que trabalham com leitura e escrita.
Uma professora muito maluquinha surge,
então, como a professora da criança moderna, inspirada no menino maluquinho. Nesta obra, Ziraldo idealiza o processo pedagógico
e torna-se emblema de campanhas publicitárias oficiais veiculadas nas mídias
(jornais, TV, rádios, teatro) que enfatizam a nova postura da professora, engajada
nas novas propostas educacionais do país. Dizemos que é engajada pois quer
convencer a escola e a professora a mudar suas práticas e usa a criança como
veículo.
Essa
figura reconhecida, legitimada e de grande publicidade vem mostrar aquilo que
Bourdieu chama de linguagem autorizada:
O uso da
linguagem, ou melhor, tanto a maneira como a matéria do discurso, depende da
posição social do locutor que, por sua vez, comanda o acesso que se lhe abre à
língua da instituição, à palavra oficial ortodoxa, legítima. (1998:87)
Deste modo, a maneira pela qual se faz uso
da linguagem, assim como o conteúdo transmitido podem ter menor ou maior valor.
Este valor depende da autoridade do locutor, do lugar que quem fala ocupa. É
ele quem vai abrir ou não passagem para que o conteúdo de seu discurso possa
ser visto como uma doutrina autêntica, concludente. A eficácia das palavras é,
portanto, exercida à medida em que a pessoa-alvo (neste nosso caso o leitor)
reconhece quem a exerce como agente autorizado. Ziraldo, nesta ótica, é
porta-voz autorizado e traz um discurso que, uma vez compreendido e
reconhecido, exerce seu próprio efeito.
A intenção pedagógica verificada na professora maluquinha não deve ser vista
como uma característica temática incomum em textos infantis. De fato, a literatura
infantil é permeada por algumas características básicas. Conforme afirmação
de Lajolo e Zilberman:
A primeira delas dá conta do tipo de
representação a que os livros procedem. Estes deixam transparecer o modo como o
adulto quer que a criança veja o mundo. (...) E essa propriedade, levada às
últimas conseqüências, permite a exposição de um mundo idealizado e melhor,
embora a superioridade desenhada nem sempre seja renovadora ou emancipatória.
Dessa maneira, o escritor, invariavelmente um adulto, transmite a seu leitor um
projeto para a realidade histórica, buscando a adesão afetiva e/ou intelectual
daquele. (1984:19)
Como
demonstram as autoras, a literatura infantil contribui, ainda que de maneira
velada, na formação da visão de mundo do pequeno leitor. A ele, o mundo é apresentado
através do olhar do autor. Este mundo idealizado presente na literatura infantil
pode falsear a imagem do mundo real no qual o leitor vive, fazendo com que ele
seja conduzido pela adesão afetiva e/ou intelectual a inquietar-se ou acomodar-se
diante da realidade histórica.
No caso do
livro em questão, essa visão fica demonstrada pelo narrador/personagem (um
adulto, narrando numa memória antiga algo que é do presente, uma
pseudonarrativa histórica) do texto Uma
professora muito maluquinha quando nos coloca:
Meu Deus,
quantos anos se passaram! Nós todos, seus alunos, somos hoje muito, muito mais
velhos do que aquela professorinha. Estamos todos, agora, com idade bastante
para ser seus avós, se ela tivesse ficado, para sempre, do jeitinho que está
fotografada em nossa memória, aprisionada no tempo. (...) Mas não estamos muito
certos se queremos rever nossa Professora Maluquinha. Sua presença em nossa
memória, ao longo de nossas vidas, ajudou-nos a construir nossa própria
felicidade. Em nossa memória, porém, ela voa pela sala, tem estrelas no lugar
do olhar, tem voz e jeito de sereia, um riso solto como um vôo de ave e o vento
sopra o tempo todo em seus cabelos. (112 e 113)
A outra característica importante para a
nossa análise é a intenção pedagógica. Este livro pretende ser uma proposta
pedagógica, ainda que idealizada. Traz a contraposição com a escola
“convencional”, levando à recusa do que existe na escola real. Essa proposta
pedagógica vem articulada a um certo dizer contemporâneo, no qual a professora
é a facilitadora da aprendizagem e, neste caso, facilitadora da promoção da
leitura e da escrita.
O livro de
Ziraldo revela uma professora diferente, que encontrou um jeito diferente de trabalhar
com seus alunos. Era uma professora inimaginável,
que vivia numa pequena cidade e estava sempre atenta para desenvolver
atividades inovadoras e estimulantes. As velhas professoras não compreendiam
por que os alunos dela mostravam-se tão envolvidos. Por problemas com as avaliações
de final de ano, e evidentemente devido à sua inadequação, a professorinha não voltou a dar aulas naquela
escola. Foi substituída por uma doce senhora de olhos severos e com uma voz de comandante, a qual, indignada com o mau
comportamento da turma resolveu deixá-la de castigo: escrever cem vezes, cada
um, a frase Prometo prestar atenção nas
lições e não ficar me distraindo na hora da aula. A nova professora, se
espanta com a capacidade de ler, escrever, fazer, pensar que turma mostra. Em
pouquíssimo tempo, as crianças copiam o texto dado, como castigo, revelando a
aprendizagem que tivera com a professora
maluquinha. A professora maluquinha,
por sua vez, impossibilitada de trabalhar na escola, resolve dar aulas de
reforço em sua casa e naturalmente tem todos seus antigos alunos de volta. No
entanto, não fica por muito tempo nesta atividade. Um dia, apaixonada, foge com
o namorado e fica na memória de seus alunos como uma professora inesquecível.
A
concepção que a maluquinha tinha
sobre seu trabalho, muitas vezes, escandalizava o corpo docente e também a
direção da escola. Seu comportamento causava impacto, não sendo compatível com
o comportamento do grupo de profissionais ao qual pertencia.
As qualidades
que acompanham a professora maluquinha
não são compatíveis com o meio escolar e social ao qual ela pertence e, por
isso, ela era sempre “mal vista”, sendo considerada liberal e anarquista.
Suas aulas eram movimentadas, provocando grande alegria e risos nos seus alunos
que acabavam ouvindo bronca da diretora: Vocês estão prejudicando as outras
classes. ou Vamos parar com essa felicidade aí!
O barulho na sala, o riso e a alegria
permeavam o trabalho da maluquinha,
fazendo dela uma boa professora, e a diretora que vem limitar o que é bom
torna-se má. A classe é barulhenta, agitada, cheia de vida e, na ótica da
direção da escola, perturbava e prejudicava o andamento da escola. A hora do
lanche, habitualmente esperada por todas as turmas, pois este é o momento de
descontração, brincadeiras e diversão, não tinha este significado para os
alunos da maluquinha, que queriam retornar
rapidamente à sala, não por imposição ou exigência da professora, mas movidos
por vontade própria, pela curiosidade em saber qual seria a próxima atividade.
A maluquinha, na sua prática, causava o
espanto das outras professoras:
As velhas
professoras não entendiam nada. “Os alunos dela acham melhor ficar na sala de
aula do que brincar no recreio.” E repetiam: “esta menina é mesmo muito
maluquinha”. (1995:38)
Este
trecho revela como o autor constrói a idéia de que a escola é chata e que os
professores têm consciência disto. Ziraldo revela que ser maluquinha é adotar um método que vai de encontro e não ao encontro
dos procedimentos adotados pelas professoras tradicionais.
O trabalho
pedagógico da professora maluquinha
era permeado por bilhetes deixados na lousa e que, aos poucos, eram lidos pelos
recém-alfabetizados, por trabalhos utilizando jornais e revistas instigando o
exercício da leitura, pela leitura de contos, poemas e histórias envolventes
que eram vivenciadas e dramatizadas, levando os alunos a transportar-se para
diversos lugares do mundo, e tudo sempre dava certo. Numa reunião de
professores, a maluquinha fez um
discurso:
O homem
nasce com visão, audição, olfato, tato e gustação. Mas não nasce completo.
Falta a ele a capacidade de ler e escrever como quem fala e escuta. É a professora
que como um Deus – acrescenta ao homem este sentido que o completa. Tenho dito.
(1995:76)
Neste trecho, podemos refletir um pouco
sobre a auto-imagem que a professora constrói de si e a imagem que a sociedade
faz dela. De acordo com Rubens Alves,
O educador fala às pessoas e assim constrói
as teias que tornam possível o mundo humano. Discurso que faz um mundo. Mas
esta construção (que pode também ser demolição depende da capacidade do
educador de usar os símbolos que circulam entre as pessoas comuns. (1984:42)
A professora
maluquinha revela uma consciência pedagógica. Faz um discurso sutil, sem
acusar e acaba convencendo pela persuasão. Mesmo assim, diante de tal discurso
é expulsa da comunidade escolar.
No discurso de Ziraldo, podemos perceber o
“conflito” entre a postura das diferentes professoras. Entre aquelas que
mostram acreditar que a educação é a domesticação do corpo e que o bom
professor deve ser gerente de produção, um controlador de qualidade, um
especialista, temos a imagem da outra, a maluquinha,
que tem coragem de expor seus sonhos e convicções, trazendo a idealização externa
das novas propostas pedagógicas de uma nova escola.
Esta é a história. Cabem agora algumas
perguntas.
Trazendo
tantos aspectos positivos em torno de si, por que a professora era vista como maluquinha?
O contexto
escolar apresentado por Ziraldo, nos remete à representação de uma escola cujo
ambiente é castrador, pouco propício ao desenvolvimento de um ser criativo e de
professores que “alimentam a chama” dessa escola e de uma professora que tenta
inverter essa situação propondo um trabalho de desenvolvimento global de seus
alunos. Seria a escola da década de 40/50, cujos resquícios encontramos ainda
hoje.
Mas,
afinal, o que é ser maluquinha?
Neste
contexto ser maluquinha seria alguém
capaz de transgredir os padrões estabelecidos pela escola e pela comunidade.
Porém, percebemos que pela incompatibilidade de seu jeito de ser e de viver foi
excluída pela escola e acaba desaparecendo com o namorado, deixando seus
queridos alunos apenas com as boas lembranças dos dias vividos.
A maluquinha deixa a semente da
insubordinação. De um lado, o desfecho da história pode parecer trágico: ela é
expulsa da escola. De outro, é romântico: ela foge com o namorado, rompendo
mais uma vez com os valores prezados pela sociedade. Contudo, transforma-se num
símbolo cultural forte para seus alunos ( neste sentido ela cumpre um papel
muito semelhante ao encontrado em Sociedade dos poetas mortos).
Mas, o que
é ser maluco? O dicionário Aurélio (1995:410), lista seis acepções: 1.Diz-se de
alienado mental; doido; louco; idiota. 2. Que age como se fosse doido; tonto;
zonzo. 3. Tolo. 4. Diz-se do indivíduo doidivana, estouvado. 5. Extravagante,
excêntrico, esquisito. 6. Absurdo, desarrazoado.
Para as
outras professoras da escola da maluquinha,
ela seria enquadrada na acepção extravagante e esquisita por sua proposta de
trabalho não seguir os modelos convencionais e ir além dos padrões vistos e
aceitos como normais. Talvez para uma ou outra mais condencendente se aplicasse
a acepção 4: maluquinha seria
doidivana, estouvada. Para as mais rigorosas caberia a acepção 6: a professora
seria desarrazoada. É difícil imaginar que alguém compreendesse maluquinha, nesse sentido, com as
acepções 1, 2 e 3.
Essa maluquinha criada por Ziraldo nega a
idéia de maluco real, por exemplo aquele maluco, ser desajustado, cantado por
Raul Seixas em Maluco Beleza. Ziraldo
acrescenta à sua professora maluca o sufixo inha,
infantilizando-a e transformando-a numa pseudomaluca. Fazendo-a maluquinha, quebra a idéia de doida,
louca e faz dela algo desejável, ou pelo menos aceitável.
Exatamente
essa leitura positiva de maluquinha
que permite dizer que a professora maluquinha
constrói a imagem da nova pedagogia, imagem que muitas professoras desejam e
querem ser na sua beleza, no seu
romance, na sua auto-estima e na sua competência.
Vale a
pena explorar um pouco mais profundamente a imagem física e psíquica da maluquinha e verificar suas implicações
na construção do caráter persuasivo do discurso do autor. O próprio texto, traz
uma referência sugerindo a especificidade de seus leitores, ou melhor, suas
leitoras:
As leitoras vão achar a
professora maluquinha elegante demais para uma professorinha do interior. Bem,
ela é assim na imaginação dos seus alunos, mas é preciso lembrar que ela está
construída aqui, desde os penteados, os gestos, o sorriso, os olhares, com
pedaços de desenhos do Alceu. Fiz muita pesquisa, andei por muitos sebos,
folheando velhas revistas e espirrando, comprei figurinos da época, mas as
blusas de mangas bufantes, os enchimentos nos ombros, as cinturas apertadinhas,
os vastos cabelos e seus topetes são do Alceu. A professorinha permaneceu em
nossa memória, não pelas blusinhas que ela usou de verdade, mas por aquelas que
ela viu publicadas em O Cruzeiro e sonhou em vestir todos os dias. (Ziraldo;
1995:119)
Como se
vê, a imagem da professora maluquinha
do Ziraldo é a de uma moça jovem, bonita, lépida, sempre sorridente, paciente,
tolerante, liberal, enfim, alguém que reúne as características de uma pessoa
perfeita em sua maneira de ser e de posicionar-se (perfeita, é verdade, para
seus alunos e alunas e não para a comunidade onde trabalha).
O que de alguma maneira passa imperceptível se
contradiz a imagem de modernidade e independência da maluquinha é que a professorinha traz consigo, características
compatíveis ao que a sociedade espera de uma mulher feminina e algumas
características não esperadas para esse ser feminino. Como nos revela Bourdieu,
A
dominação masculina, que constitui as mulheres como objetos simbólicos, cujo
ser (esse) é um ser percebido (percipi), tem por efeito colocá-las em permanente
estado de insegurança corporal, dependência simbólica: elas existem primeiro
pelo, e para, o olhar dos outros, ou seja, enquanto objetos receptivos,
atraentes, disponíveis. Delas se espera que sejam femininas, isto é, sorridentes, simpáticas, atenciosas, submissas,
discretas, contidas ou até mesmo apagadas. (1999:82)
De acordo com Bourdieu, temos a figura de
uma mulher que parece viver em conflito. É o que se pode perceber em algumas
passagens:
Tinha estrelas no lugar do olhar.
Tinha voz e jeito de sereia e um vento o tempo todo nos cabelos. Seu riso era
solto como um passarinho. (...) Todas as meninas quiseram ser lindas e todos os
meninos quiseram crescer na mesma hora para poder casar com ela. (...) Uma
certa manhã, quando acordamos para ir à aula, sentimos que havia no ar alguma
coisa diferente. (...) A professora tinha fugido com o namorado.
O paradoxo
autonomia-dependência se transforma num paradoxo sexual: a maluquinha traz na sua maneira de posicionar-se, características
pertencentes ao masculino: a ousadia, a liberalidade, a audácia, a perspicácia,
a coragem. Mas, paralelamente, traz também marcas do ser feminino: a submissão,
a doçura, a delicadeza, a sensibilidade, a sensualidade. Ela se submete aos
desejos do boêmio, fugindo com ele, se entregando à paixão avassaladora que a
faz abandonar tudo por causa de um grande amor. Ela se submete de fato. Além
disso, a maluquinha é objetivamente
pintada como objeto de desejo.
Vejamos,
agora, como surgiu a imagem dessa mulher, a professora maluquinha. Ziraldo foi construindo sua personagem através dos
desenhos de Alceu Penna (ilustrador da revista O Cruzeiro, nas décadas de 40 e 50), conforme o próprio autor relata
em a História da História:
As mulheres do Brasil não
deviam deixar a gente se esquecer do Alceu. Ninguém as pintou mais bonitas ou
mais parecidas com a mulher que nós sonhamos que as brasileiras são as mais leves,
as mais brejeiras, as mais doces, as mais sensuais, as mais graciosas do mundo.
A minha Professora Maluquinha era, sem sombra de dúvida, uma garota do Alceu.
(1995:118)
Essas
características estão visíveis, no texto e nas ilustrações, na mulher/professora
maluquinha: cabelos longos e
esvoaçantes, lábios carnudos, corpo bem esculpido, roupas contornando sua silhueta,
provocando em suas alunas o desejo inconsciente de serem iguais a ela e em seus
alunos o desejo de possuí-la, de crescerem e casarem-se com ela. As ilustrações
mostram a ênfase no aspecto gráfico, revelando uma professora carregada desse
ideal masculino de mulher, da beleza física almejada.
Quando
Ziraldo coloca as mais leves, as mais
sensuais, as mais graciosas deixa claro seu viés
erotizante a sua intenção de explorar o belo feminino. O erotismo encontrado
nesta mulher/professora é elegante, aparentemente saudável, distanciando-se do
erotismo vulgar, Ziraldo consegue transmitir a sutileza do erótico. O problema
é que ao trazer uma professora sedutora, a traz aliada à competência, enquanto
os estereótipos do feio (vistos nas outras professoras da história) aparecem
sinônimo do ruim, da incompetência. A professora antiga e tradicional, gorda,
baixa, de óculos, cabelos presos e comportados, vestido sem graça é a
rejeitada. Assim o autor, consciente ou inconscientemente vincula bom a uma
certa representação do erótico, o bom ao belo e o ruim a uma imagem feminina do
anti-erótico. E a verdade é que a maioria das professorinhas reais se parecem
muito mais com a outra. Ziraldo cria, assim, a imagem de que o ponto de partida
para ser uma profissional bem sucedida e competente está no modo de ser que
agrada o homem, que corresponde às suas expectativas. Nesta ótica, não há como
negar que a obra se reveste de um machismo indisfarçado. Por conseqüência o
erotismo encontrado nesta mulher/professora é elegante, aparentemente saudável,
distanciando-se do erotismo vulgar, Ziraldo consegue transmitir a sutileza do
erótico.
Será que
nossa sociedade quer e tem esse tipo de mulher? Não estaríamos ainda dominadas
por valores masculinos? Se alguém analisar, cuidadosamente o papel e a imagem
de mulher predominante poderá ver imperar, apesar de alguns avanços, o
pensamento da dominação masculina.
De acordo
com Bourdieu (1999), é possível perceber em profissões como cozinheira/cozinheiro,
costureira/costureiro, designadas socialmente como inferiores, tornarem-se
nobres e difíceis quando realizadas por homens e, se realizadas por mulheres,
passam a ser insignificantes e até imperceptíveis tornando-se fáceis e fúteis.
Assim, em nossa cultura, ainda é possível ver o trabalho se constituindo diferentemente
ao ser realizado por um homem ou uma mulher. O princípio de divisão de trabalho
ainda atribui ao homem o mais nobre, o mais sintético, o mais teórico e, às
mulheres, o mais analítico, o mais prático, o menos prestigioso.
CONCLUSÃO
Paulo
Freire já dizia que somos seres inconclusos
(1993), que à nossa aprendizagem sempre há coisas para acrescentar. Por isso, o
professor, a professora devem abrir caminhos para que seus alunos façam a
verdadeira leitura de mundo, revelando a inteligência do mundo que está
cultural e socialmente constituindo. Será que a professora maluquinha tinha essa percepção permeando seu trabalho? Tendo consciência
ou não, é possível dizer que sua prática pedagógica condizia com o dizer de
Paulo Freire:
Sou tão melhor professor,
quanto mais eficazmente consiga provocar o educando no sentido de que prepare
ou refine sua curiosidade, que deve trabalhar com minha ajuda, com vistas a que
produza sua inteligência do objeto e do conteúdo de que falo. (1998:133)
O efeito de
Uma professora muito maluquinha é
maior à medida que é explícita a sugestão de atividades que incorporam as
características da nova pedagogia para o desenvolvimento da leitura e da
escrita. Quantas professoras usaram este livro como referencial para sua
prática escolar, sem uma reflexão mais profunda sobre seus aspectos, sem um
conhecimento mais amplo.
Ziraldo, através deste livro
traz, ainda que nas entrelinhas, um instrumento que pode contribuir ou não para
a formação da professora que trabalha com leitura e escrita pois é portador de
duas propriedades: a de projeção de uma utopia e a expressão simbólica de
vivências interiores do leitor. (Lajolo e Zilberman; 1984:20). Tudo dependerá
da capacidade crítica e da postura da professora leitora.
Finalizando,
o livro inspira-se num projeto social da professora ideal que constitui na nova
pedagogia a professora construtivista. Explicita certa ambigüidade, pois nós,
professoras, lemos e nos entusiasmamos. Mas, conscientes, não podemos negar que
é um livro estereotipante, Uma professora
muito maluquinha precisa ser lido e discutido entre as professoras antes de
ser adotado como referencial de trabalho. E, que essa professora estereotipada
não seja um fantasma que aterrorize o cotidiano de milhares de professoras que
podem entrar em crise por não conseguirem ser iguais a ela.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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ensinar; São Paulo; Cortez/Autores Associados; 8ª edição; 1984.
BOURDIEU,
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BOURDIEU,
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Aurélio Buarque de Holanda; Dicionário
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FREIRE,
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São Paulo; Cortez; 28ª edição; 1993.
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