BORNATTO, Suzete de Paula
RESUMO: Trata-se de uma pesquisa desenvolvida em 2000, em
que, após breve recapitulação da história do normativismo lingüístico,
buscou-se identificar sua presença - ou
o questionamento de sua presença - na literatura recente sobre o ensino de
língua portuguesa, nos materiais didáticos destinados ao ensino médio e em matérias
da mídia impressa que abordaram a linguagem no ano de 1999. Procurou-se
localizar quem escreve sobre o tema e o que escreve e, finalmente, se aparecem
aí - nos livros e na mídia - as
reflexões e o conhecimento produzidos no meio acadêmico.
INTRODUÇÃO
Os pontos de partida da pesquisa foram o texto
"Linguagem, escola e modernidade", em que FARACO trata da permanência
da concepção normativa de linguagem, e a pesquisa da Universidade de Brasília,
"Mídia e educação", cuja constatação principal é de que o tema
"educação" não tem sido satisfatoriamente abordado pelos meios de
comunicação.
Os objetivos eram a verificação da permanência do
normativismo, primeiramente na produção didática destinada ao ensino médio e,
em segundo lugar, no tratamento dispensado pela mídia impressa ao tema
"língua portuguesa", na perspectiva de sua utilização e ensino no
Brasil. Nesse sentido, fez-se uma uma
avaliação da concepção de linguagem presente em textos veiculados, ao longo de
1999, por dois expoentes da imprensa
brasileira: o jornal Folha de São Paulo e a revista Veja.
A hipótese de trabalho era de que livros didáticos,
mesmo após o estabelecimento de novos parâmetros curriculares pelo governo
federal, e mídia (não só nos espaços especificamente destinados ao tema “língua
portuguesa”) continuavam afinados no tom normativista, sem que o conhecimento
lingüístico construído em âmbito acadêmico conseguisse provocar a defesa e/ou
discussão de outras concepções de linguagem.
Foi intenção do estudo também subsidiar uma proposta
de inserção da reflexão sobre o normativismo (e suas conseqüências
educacionais) na mídia, aproveitando os canais abertos (via Internet) pelos sites especializados em educação e
outros afins.
HISTÓRICO E
IMPLICAÇÕES DA CONCEPÇÃO NORMATIVISTA
Segundo FARACO, no texto "Linguagem, escola e
modernidade", incluído no livro "Infância, escola e modernidade"
(1997): "O mundo antigo construiu
várias concepções de linguagem (...). Contudo, a única (...) que conseguiu
pular os muros dos universos mais propriamente acadêmicos e se estabelecer com
força no senso comum foi a concepção
normativa" (p. 49).
Essa concepção tem origem nos estudos filológicos
realizados no séc. IV a. C., em torno da biblioteca de Alexandria, entre cujos
intuitos estavam os de recuperar, analisar e interpretar os textos literários
gregos clássicos. São dessa época a adoção da linguagem de poetas e prosadores
como modelo de correção e a criação da gramática em que esse modelo é
consolidado e da qual as nossas gramáticas contemporâneas são herdeiras.
O autor defende que a concepção normativa da língua é
certamente uma das mais fortes e resistentes na história do pensamento
ocidental, já que não foi abalada pelas grandes transformações do pensamento
científico, nem pelos estudos de lingüística que demonstram a distância entre a
norma real (modelos de língua praticados socialmente) e a norma artificial
ensinada na escola.
FARACO prega a necessidade de democratizar a escola
(o que é ainda um projeto da modernidade) pela construção de práticas
pedagógicas que "rompam com a visão estática" do normativismo (que
opera com uma concepção maniqueísta e pétrea da língua, é excludente e
antidemocrático) e todas as suas conseqüências", porque se alia, nas
representações da escola, a depreciação da linguagem com a depreciação das
capacidades intelectuais daqueles falantes". (p. 58). Alerta que não se
trata de uma perspectiva antinorma, uma vez que o domínio da norma real
("e não do modelo fixo, rígido e unívoco do normativismo") é condição
de acesso à cidadania.
MÍDIA E
EDUCAÇÃO
Aparentemente, as reflexões acadêmicas sobre a língua
não chegam até a parcela da população que consome jornais e revistas de
atualidades, pelo menos não na mesma proporção em que esse público é informado
sobre as discussões recentes nas áreas de, por exemplo, biologia (principalmente genética), física,
informática, ou da própria literatura.
Todavia, a
educação está na moda e, portanto, na mídia - ou vice-versa ? Nos últimos anos, em grande parte devido aos
esforços do governo federal, o tema aparece com freqüência. Sistemas de
avaliação, diretrizes, parâmetros (por incrível que pareça, nessa ordem)
procuram unificar o perfil e modificar os resultados do ensino escolar no
Brasil, por razões de ordem prioritariamente econômica, como a melhoria da
qualidade da mão-de-obra para as empresas.
Por solicitação da Agência de Notícias dos Direitos
da Infância (Andi), Fundescola, Instituto Ayrton Senna, Ministério da Educação
e UNICEF, o Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política da Universidade de
Brasília realizou a pesquisa MÍDIA & EDUCAÇÃO - PERSPECTIVAS PARA A QUALIDADE
DA INFORMAÇÃO, baseada em uma série de reportagens veiculadas, entre 1997 e
1998, em 62 jornais de todo o país. Esse trabalho revelou alguns aspectos
interessantes sobre a inserção de questões educacionais nos meios de
comunicação. O primeiro deles é que são publicadas prioritariamente as matérias provocadas pelos anúncios oficiais e, em
muitos casos, os releases produzidos
pelas assessorias de comunicação das secretarias estaduais e municipais.
Segundo o Diretor-Executivo da Andi,
"quando os jornais limitam-se a cobrir Educação através dos releases sem uma repercussão local, perde-se
a capacidade de ampliar a reflexão" (Fórum Mídia & Educação, p. 5).
No entanto, o próprio Fórum indica uma disposição de jornalistas e educadores no
sentido de um encontro que resulte em benefício da sociedade, em torno de valores como cidadania e democracia. Assim, é oportuno refletir sobre
o ensino de língua portuguesa e verificar se tem obtido sucesso em proporcionar
aos estudantes melhores condições de vivenciar esses valores. Mas isso não é
suficiente.
É necessário e pertinente
também avaliar a(s) concepção(ões) de linguagem veiculada(s) pela própria
mídia. Se a questão da língua se coloca, não há como tratar dela sem tomar
partido, ainda que implicitamente. Faz sentido, então, investigar o que dizem
jornalistas/redatores, mas também as outras (selecionadas) vozes a que eles dão
espaço.
O ENSINO DE
PORTUGUÊS
Nas duas últimas décadas, o ensino da língua
portuguesa tem sido alvo de muitos estudos e discussões. O tema esteve sempre
em pauta, mas parece admissível dizer que nesse período o embate teórico e suas
repercussões se revestiram de maior radicalidade. Lingüistas e educadores
dedicaram-se a investigar as causas de fracasso escolar nesse domínio e a
apontar caminhos para a transformação da prática pedagógica em prol de
resultados mais efetivos. Apresentamos aqui uma breve revisão de textos que
comprovam o curso dessas idéias.
Em “Problemas de redação”, de 1983, PÉCORA demonstra
preocupação com as considerações normalmente feitas a respeito da produção
escrita dos jovens. Denuncia um tipo de crítica conservadora e autoritária que
vê nas deficiências dos textos um caminho para a “decadência lingüística” e a
revelação da deficiência dos próprios jovens, mas não – como seria justo – o
sintoma de uma política educacional errada, que impossibilita o aprendizado da
escrita por essas pessoas.
Seu trabalho é de acurado diagnóstico e análise de
problemas recorrentes em textos de vestibulandos e universitários. Ao indagar
por que a norma culta, sendo o único objeto de todo o ensino de língua nas
escolas, não é adquirida por grande parte dos alunos, aponta como uma das razões
a concepção de norma culta subjacente ao ensino. Quando o padrão é ensinado
como a única linguagem correta, o aluno
percebe sua variedade como errada: “Entre ele e a sua linguagem de todos os
dias abre-se um vácuo e esse vácuo é preenchido por uma série de regras e
exceções” (p.37).
O autor percebe nos textos analisados um processo de
desapropriação dos sujeitos da linguagem e conclui que os problemas de domínio
em relação ao padrão da escrita surgem menos
por dificuldades técnicas (que a escola se dedica a sanar) do que pela
concepção de linguagem e de escrita adotada, que despreza e reprime os usos da linguagem efetivamente
experimentados pelos alunos.
Em 1985, em "Linguagem, escrita e poder",
GNERRE analisa linguagem e escrita em suas implicações políticas e sociais, a
partir de fundamentos históricos e antropológicos, e disserta sobre a ligação
entre as variedades lingüísticas,
prestigiadas ou não, e as relações de poder na sociedade.
A língua padrão ou "culta", considerada
"a língua", somente é acessível a uma parte da população e está
ligada tipicamente a conteúdos de prestígio. A associação com a escrita (como
resultado histórico indireto de oposições entre os grupos usuários de
diferentes variedades) é passo fundamental
para sua legitimação como norma, "reproposta como algo central na
identidade nacional, enquanto portadora
de uma tradição e de uma cultura" (GNERRE,p.9). O processo de
legitimação continua com a associação à tradição gramatical greco-latina e o
desenvolvimento de uma perspectiva ideológica que justifique sua seleção dentre
as variedades. Segundo esse autor, no
Brasil a norma presente nas gramáticas é um conjunto de opiniões sobre
"como" a língua "deveria" ser, segundo os gramáticos.
"A lingüística e o ensino da língua
portuguesa", de ILARI, reúne
reflexões, produzidas ao longo de uma
década, sobre a formação do professor de Letras e o ensino de português.
ILARI já concluía, em texto de 1980, que as idéias trazidas pela Lingüística
para os cursos de Letras “deveriam ter provocado alterações profundas nos
hábitos” dos professores, mas que a escola continua ignorando as variedades
regionais e sociais não-standard; aprofundando desse modo os preconceitos
existentes; os usos da língua na escola continuam em grande medida artificiais,
como se o aprendizado fosse para a escola, não para a vida. (p. 103)
Mais adiante, reflete sobre o fato de que o mais
importante veículo das idéias que tomaram corpo, na Lingüística moderna, foram
os livros didáticos (...) Se examinarmos os mais recentes, e os compararmos com
os que se editavam há vinte anos, notaremos algumas diferenças óbvias (...).
Mas é fácil perceber que essas diferenças
são na maioria das vezes resultado de uma concessão à moda, o que é prontamente
confirmado pelo fato de que o objetivo principal continua sendo o ensino da
nomenclatura gramatical.(p. 105)
Em 97, BRITTO
publica "A sombra do caos - ensino de língua X tradição gramatical",
minuciosa análise das propostas de ensino, a partir da qual lança a tese de que
a escola está perseguindo objetivos errados, ao julgar que seu compromisso, conforme
assumido durante tantos anos, é o de ensinar a "norma culta". Segundo
ele, os gramáticos de Port-Royal (antecessores dos gramáticos de hoje) creram
ser possível, através de uma exposição racional, explicar a linguagem em sua
totalidade. Essa hipótese racionalista se coadunava com a aposta de que para
cada expressão lingüística se poderia encontrar uma representação de mundo
correspondente. O ensino de gramática se justificaria na medida em que uma
forma correta corresponderia a um pensamento bem elaborado. Disto decorreria a
ilusão da existência de uma forma lingüística acabada e capaz de garantir
comunicação clara e eficiente, a língua nacional.
Essa ilusão se articularia com três outras: 1) de que
uma língua ou variedade se impõe como melhor e que seu domínio garante aos
indivíduos sucesso na sociedade; 2) de que se aprende um registro ou jargão
independentemente dos conhecimentos e valores que ele veicula e das condições
em que se realiza; e 3) de que o estudo da gramática tradicional permite que se
expanda a capacidade comunicativa e, por extensão, o domínio de outros saberes.
(p. 169)
BRITTO cita Bakhtin,
para quem "a língua como
sistema estável de formas normativamente idênticas é apenas uma abstração
científica que só pode servir a certos fins teóricos e práticos particulares"
(p. 173), e diz que o domínio da
escrita, muito mais do que o conhecimento de regras de uso, implica o
conhecimento de certas formas de discurso e o acesso a certos bens de
cultura. A insistência de que compete à
escola o ensino da chamada norma culta estaria relacionada com três outras
noções não confirmadas pela análise das práticas sociais: de que é preciso
evitar a degradação da língua nacional;
de que a norma é própria de certas relações sociais e que seu não
domínio significaria a exclusão do sujeito dessas situações; e de que o conhecimento
da norma garante o acesso a determinadas expressões superiores de cultura e
informação.
Em "A sombra do caos" são analisadas as
concepções de língua e gramática na mídia - colunas e programas dedicados a
questões lingüísticas - e nos vestibulares da FUVEST e UNICAMP, de forma a
evidenciar a permanência do normativismo mesmo em propostas pretensamente renovadas.
Os Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino
Médio (PCNEM), definidos pelo Ministério da Educação e Desporto em 1999,
insistem em um ensino que
considere, respeite e reflita
sobre a diversidade lingüística,
deixando em segundo plano o estudo da nomenclatura gramatical. Alguns trechos do documento atestam a orientação
não normativista com bastante clareza:
Aprende-se a valorizar determinada manifestação,
porque socialmente ela representa o poder econômico e simbólico de certos
grupos sociais que autorizam sua legitimidade. (...) o aluno (...) deve
aprender a respeitar as linguagens. Em lugar de criar fossos entre as manifestações,
esta proposta indica a criação de elos entre elas. A variante padrão pode ser
comparada com as outras variantes (...).
Todas as manifestações podem conviver entre si sem a necessidade de
anulá-las.
É curioso, no entanto, que apesar da relatada
dominância de matérias de origem oficial
nos espaços da mídia, esse discurso e essas orientações sobre a questão
da linguagem não transpareceram nenhuma vez nos textos de 1999 analisados neste
trabalho..
NORMATIVISMO
NO LIVRO DIDÁTICO
Uma das coleções de maior vendagem para o Ensino
Médio é "Língua e Literatura", de FARACO & MOURA. A edição para o ano 2000 é idêntica à de 1996 e isso
significa que a coleção passa incólume pela edição das Diretrizes e dos
Parâmetros Curriculares para o Ensino Médio.
No "Manual do professor" os
autores advertem, no item "Língua (Gramática e Redação)": a novidade
é o acréscimo da seção Recursos de estilo, onde são estudadas as figuras de
linguagem e os casos em que o uso efetivo da língua representa uma ruptura com
a gramática normativa. O curso inicia-se com os conceitos de gramática
normativa e descritiva, linguagem coloquial e culta para que o aluno se
conscientize de que, em termos de
língua, não existe o "certo" e o "errado" mas sim o
"adequado" e o "inadequado"(v. 1, p. 3).
Nos volumes dos alunos, a seqüência se repete a cada
unidade: I. Texto; II. Literatura; III. Gramática; IV. Recursos de estilo; V.
Redação; e Questões de vestibulares. A divisão de conteúdos nas três séries
visa dar conta de todas as partes da gramática tradicional: fonética e
morfologia no 1o. ano, morfologia no 2o., sintaxe no 3o.
Apesar de reconhecerem, no primeiro volume, que se
podem distinguir diversos tipos de gramática, conceituam apenas dois: a
gramática descritiva, "que tem por objetivo descrever e analisar a língua
utilizada por um determinado grupo de pessoas, num dado momento
histórico", e a normativa, "que estabelece as regras a serem seguidas
por todos aqueles que querem falar e
escrever corretamente" (grifos nossos). Essa acepção invalida a intenção anteriormente expressa de que o
aluno perceba que não existe certo/errado, mas adequado/inadequado.
Dando vez aos estudos da lingüística, explicam que
"quem faz a língua são os falantes, não os gramáticos" e acusam o
exagero de quem endeusa a gramática, mas também de quem alega que ela é inútil
e deve ser eliminada das aulas. Mais adiante, ressaltam que o aluno "vai, sempre que possível, tomar conhecimento
da gramática descritiva, entrando em contato com situações em que há divergências
entre as normas gramaticais e o uso efetivo da língua em jornais, revistas e
obras literárias".
Ora, se é preciso estudar a gramática para ter acesso
ao que dizem jornais, revistas e livros, como entender que esses mesmos sejam
também a fonte da gramática descritiva ? É uma formulação incoerente. Não se
reconhece que o padrão culto não é idêntico
ao prescrito pela gramática tradicional. No tratamento de alguns tópicos
gramaticais, os autores assumem um discurso "moderno", de que muitas
coisas estão fora de uso, mas precisam ser aprendidas; incorporam, assim, um
pouco da crítica que se faz à gramática normativa tradicional:
muitos verbos apresentam problemas de regência,
porque existe uma defasagem entre a gramática herdada dos portugueses (tida
como padrão) e a língua que usamos efetivamente. Os problemas (...) só poderão
ser resolvidos por meio de consultas a dicionários especializados. (...) Note
que na língua usada de fato no Brasil de hoje muitas das normas que estudaremos
já não se empregam mais. (v.3, p. 268)
Contudo, não questionam a tal gramática herdada e não
deixam de privilegiar o caráter de compêndio, como quando apresentam uma
extensa lista de advérbios classificados "segundo a Norma Gramatical
Brasileira"[1]:
Nos itens em que o padrão contemporâneo está mais
distante do padrão gramatical, justificam que a gramática é herdada de
Portugal. Por exemplo, ao abordar a colocação dos pronomes oblíquos átonos,
afirmam que "...o princípio básico (...) deve ser a eufonia (...). Há, no
entanto, algumas regras que obedecem ainda a estruturas utilizadas pelos
portugueses. Vamos a elas..." .
Os prometidos tópicos de "recursos de
estilo" são, na verdade, observações das mais diversas naturezas e
tentativas de teorização que não puderam - na estrutura da obra - ser
encaixadas no conteúdo gramatical.
Outras coleções consultadas trazem exatamente a mesma
distribuição de conteúdos, seguidos de testes de vestibulares. O que varia é o
grau de esclarecimento inicial sobre diversidade lingüística. Em geral, sequer
se trata do assunto, como nas obras de CEREJA & MAGALHÃES, MATTOS & MEGALE
e SIQUEIRA & BERTOLIN (que "atende aos parâmetros curriculares do
ensino médio"!) ou então reforça-se o conceito de língua culta como modelo
de bem falar e escrever.
As autoras de "Português - palavra e arte"
(PELLEGRINI E FERREIRA), por exemplo, anunciam
como "importante" o lembrete de que "algumas mudanças que se
perpetuam na língua popular muitas vezes são incorporadas pela norma
culta" (p. 4). Esse tipo de
afirmação desconsidera a real dinâmica de evolução das línguas: há muito mais
do que algumas mudanças incorporadas pelo uso da língua no decorrer do tempo; é
por isso que não falamos latim e a língua-padrão de hoje é diferente da de um
século atrás.
Segundo Pellegrini e Ferreira, o aluno vai dominar
ainda mais as regras gramaticais ("que existem naturalmente e são
enumeradas, relacionadas, enquadradas, descritas, apenas para fins didáticos,
para efeito de estudo") quando se desfizer das listas e passar a
identificá-las em sua fala, em seus escritos. E somente nesse momento 'prático'
é que poderá reconhecer a importância desse estudo, “filtrando o necessário
para aquilo que realmente interessa: a comunicação”.
Na verdade, não é se apropriando de listas
que o aluno tornará sua leitura e sua redação melhores; as autoras só fazem
justificar o ensino tradicional da mesma forma que sempre se fez.
Infelizmente, nem o material de um curso
supletivo chamado "Paulo Freire" (em que muitos adultos procuram
recompor, ao menos formalmente, seu histórico escolar) escapa ao lugar comum:
as autoras das apostilas limitam-se a dizer que o português do Brasil guarda
diferenças com o que se fala em Portugal
e que essas diferenças não são só de pronúncia. Os tópicos de gramática
incluem lista de substantivos coletivos, com 'alcatéia' e 'cáfila', por
exemplo. Nesse material, há também uma unidade intitulada "Alguns Detalhes
da Língua Culta", apresentada como importante para quem se propõe a
obedecer aos padrões da norma culta quando fala ou, principalmente, quando
escreve. Os detalhes são as diferenças
entre expressões na língua escrita: os diversos porquês, a distinção entre mal
e mau, afim e a fim, etc. O único exemplo de detalhe que seria pertinente à
linguagem oral é o da distinção entre onde/aonde.
NORMATIVISMO
NA MÍDIA
A fim de averiguar a presença da concepção
normativista de língua na mídia, decidimos nos fixar nos meios impressos, cuja
análise se apresentava mais factível, apesar de não terem a mesma amplitude de
público que o rádio e a televisão.
O jornal Folha de São Paulo e a revista Veja foram escolhidas por serem
os periódicos de maior circulação nacional em suas categorias. A opção pelo ano
de 1999 ocorreu em função da necessidade de abordar o tratamento mais contemporâneo do tema.
O corpus
para análise foi selecionado a partir dos seguintes procedimentos: 1) busca,
nos bancos de dados virtuais do jornal e da revista, referentes ao ano de 1999,
de textos contendo as expressões (ou o cruzamento das expressões) língua,
língua portuguesa, português, lingüista/linguista, lingüística/linguística (já
que a Folha não utiliza o trema), gramática, ensino, país; 2) seleção dos
textos cujo conteúdo guardava relação com os temas da história, do uso e do
ensino de língua; 3) exclusão de colunas dedicadas exclusivamente a questões de
língua (como a do Prof. Pasquale), à situação político-social dos habitantes do
Timor Leste, à questão das línguas regionais na França, ao ensino de línguas
estrangeiras e a meras informações sobre concursos vestibulares e afins.
Assim, da amostra definida fazem parte vinte textos
publicados no jornal e quatro da revista, listados na tabela a seguir, conforme
o veículo e a seção de publicação, o título e o autor. Na coletânea do jornal,
temos quatro opiniões selecionadas para publicação no Painel do leitor, dois
textos escritos para a página de Tendências/Debates, uma entrevista e três
análises assinadas por professores de português; os demais são de autoria da equipe de jornalistas e
colunistas da Folha. Dos textos
da revista, um é reportagem, outro tem caráter de ensaio e dois ficam entre a
informação e a orientação ao leitor.
OS
PROFESSORES
Os textos assinados por professores de português -
apesar da formação ou por causa dela - está recheado do discurso tradicional que
identifica linguagem com gramática normativa.
No primeiro, "Vestibulares difíceis", o
professor escreve ao jornal para propor um debate sobre os vestibulares de 1999
e critica o alto grau de dificuldade. O problema é que o autor da carta não questiona
o caráter da cobrança, apenas o grau de dificuldade e o dinheiro investido. Ele
poderia alegar que o aluno egresso do ensino médio deve ter competência em
leitura e escrita – se não tiver ou se o vestibular estiver cobrando outra
coisa, é porque seu enfoque está errado (e não apenas "difícil").
Dois textos são de responsabilidade de um professor
da rede privada em São Paulo, que avalia e orienta os estudantes sobre os
vestibulares da UNICAMP e da FUVEST.
Em "Ler e escrever bem garantem gramática", ele defende, com argumentação tortuosa, o
aprendizado de gramática. Diz que o estudante requerido pelas boas
universidades é aquele que revela habilidade concreta nas áreas de leitura e
escrita e que isso não significa o desprezo à norma culta, pois “mais do que
nunca, conhecimento lingüístico faz-se necessário”. Segundo ele, as provas
“acertadamente (...) têm sido elaboradas a fim de destacar a utilidade da
gramática como mecanismo não só para o
bom entendimento do texto, como também da sua boa produção”, e, desse modo, estudar gramática para o
vestibular é “sobretudo, saber de antemão que as ocorrências gramaticais só
serão plenas quando inseridas num contexto maior – o texto”. Então vem a chave
de ouro: “As velhas, chatas e aparentemente inúteis regras gramaticais são, na
verdade, preciosos instrumentos para compreensão perfeita do que se lê e para
expressão clara do que se escreve”. Enfim, o que poderia ter sido um texto arejado,
com uma perspectiva em favor do texto escrito dentro da norma padrão real,
acaba sendo apenas um reforço do ensino tradicional - as regras precedem a língua, são indiscutíveis, preciosas, seu
conhecimento distingue os “inciados” e leva à perfeição.
Em "A
gramática na 1ª fase da Fuvest", o autor,
que constatara a ênfase dos grandes vestibulares nas habilidades de
leitura e escrita, avisa que a prova da 1ª fase “parece ainda
caminhar em direção diferente”, isto é, exige conhecimentos teóricos de
gramática, incluindo a nomenclatura. Explica
ele que “para se dar bem na referida fase, o candidato deve estar devidamente
em dia com o estudo da gramática, além,
é claro, de ter que revelar reais qualidades como usuário da língua”. As prioridades,
em termos de competência, estão
invertidas.
As dificuldades com o "idioma nacional"
também são abordadas em "Pesquisa aponta o que se espera do
estudante". Informa-se que a
universidade e o “mundo do trabalho” esperam dos estudantes a capacidade
de ler, sistematizar informações e reconhecer o tema central de um texto, mas
que nem sempre os estudantes conseguem atender as expectativas. O coordenador
do vestibular da Unesp aponta dificuldade dos candidatos para “manipular a
língua portuguesa, evidenciada também quando se utilizam palavras mais
sofisticadas (...) ou figuras de linguagem”.
Se “sofisticação” de vocabulário é conseqüência de um universo de
referências mais “sofisticado”, a dificuldade com a língua parece ser antes sinal da dificuldade em
acessar o universo cultural de que trata o exame. A dificuldade dos candidatos
não é com “a” língua portuguesa, mas com uma variedade com cujo repertório não
estão suficientemente familiarizados.
Outro texto
de professor de português é "Programa revisor de textos não corrige
gramática e tem erros", em que Nicoleti avalia o software “Revisor Plus” e conclui que não é um programa de correção
gramatical ou revisor, já que sua única
função automática é a acentuação gráfica. Reconhece a utilidade do produto para
quem “enfrenta dificuldades com o idioma em seu dia-a-dia”, mas o acusa de uma
“certa falta de unidade”.
Nicoleti contesta alguns exemplos do programa de
forma que ser revela típica do caráter
dogmático com que se produzem afirmações sobre a língua. Exemplo flagrante de
"imprecisão teórica" é, segundo ela,
a afirmação de que "a palavra 'se', quando empregada junto a verbos
intransitivos ou transitivos indiretos, exerce função sintática de sujeito da
oração, (...). Isso, entretanto, ainda parece menos grave que considerar correta a construção: "Pode-se
informar com antecedência os resultados...", ao ensinar que o verbo
apassivado cujo sujeito é oracional deve
permanecer no singular." Fica a
impressão de que a professora domina um saber pronto e único sobre a língua,
uma competência classificatória para decidir e definir todos os “certos” e
“errados”, a partir da qual a gramática imbutida no software pode ser julgada. Em momento algum a autora considera as
possibilidades de divergências teóricas entre gramáticos, ou de imprecisões nas
próprias definições consagradas da gramática normativa tradicional. É justamente quando pretende apontar problemas e normatizar segundo o seu “saber
melhor que os outros” que Nicoleti evidencia o caráter aleatório e pouco científico
deste saber. Podemos citar pelo menos uma gramática tradicional segundo a qual
a forma “Pode-se informar com antecedência os resultados”, considerada “errada”
pela professora, estaria também correta.[2]
Em "Aprimoramento no português requer
dedicação", publicado no suplemento "Empregos", diz-se que é
preciso ler e escrever com freqüência para ter
um “bom português”. Uma professora de português da USP explica que fala
e escrita são dois “estilos” completamente diferentes e que nem sempre quem
fala bem escreve bons textos. Em seguida, temos o relato de um executivo bem
sucedido para quem ter um “bom português” sempre foi um objetivo: “Sou um
aficcionado por dicionários e livros de gramática. O domínio da língua é algo
imprescindível para o profissional.” O executivo
se tornou um “professor” na empresa – compra dicionários e livros de gramática
também para os funcionários – quando
necessário, chama o subordinado que
cometeu algum erro e dá a explicação gramatical.
Não é difícil encontrar alguém que se empolga com o
normativismo a esse ponto, não apenas em relação ao padrão escrito, transformando-se
em referência e polícia para os demais. Como muitos já afirmaram, no entanto,
os profissionais melhor colocados em diversas áreas no mercado não são
necessariamente experts em gramática.
O artigo da Folha não discute o tema,
endossando implicitamente os depoimentos.
Da Veja, o texto "Fuja do 'a nível
de'" é declaradamente normativo. Estabelece uma hierarquia de erros:
desastres gramaticais de grandes proporções ou erros crassos como “para mim
fazer” são “corrigidos por um amigo sincero”; construções tecnicamente
incorretas ou deslizes como “fazer uma colocação” se incorporam à língua falada
e são cometidos com freqüência “até mesmo por pessoas de nível (aqui sim)
universitário”. Esta última afirmação é referendada por citação do “jornalista
e estudioso da língua” Josué Machado.
A matéria investiga a origem de “erros” do
segundo tipo: desejo de parecer mais
sofisticado ? A opinião do professor Pasquale é de que isso seria um equívoco,
já que “uma das funções da língua é permitir a transmissão de idéias com
clareza máxima”. Sem dúvida, dependendo da intenção do texto, a clareza é um
grande mérito, porém a língua permite a clareza, a obscuridade, a confusão, o
que quer que seja. Como “não existe um manual com regras que ensinem a falar
corretamente”, a dica do texto é estudar e ler muito.
Reconhece-se que
a língua falada está em constante mutação e o que é tido como erro pode, no futuro, “virar” um recurso de
linguagem; todavia, enquanto as mudanças não acontecem, algumas regras podem
ser decisivas “num almoço de negócios ou numa entrevista de contratação”.
Assim, o último especialista citado é um consultor especializado em recursos
humanos: “Num mundo com emprego raro, o candidato que comete erros graves de
português pode até perder a vaga”. Como a matéria está tratando de oralidade,
isso significa que o candidato a emprego que não dominar a variedade
prestigiada pelo grupo de que quer fazer parte pode sofrer, por isso, além de
preconceito, completa rejeição.
No final da matéria, o aviso: “Preste atenção ao que
você diz. Vários erros de português são cometidos sem que as pessoas percebam.
Conheça cinco pecados freqüentes.” Parece algum tipo de aviso contra alimentos
contaminados, drogas desconhecidas ou doenças contagiosas. Segundo a
revista, deve-se evitar: “a nível de”,
porque não existe (!); “fazer uma colocação”, porque colocação quer dizer
emprego, vaga (e o ato de colocar ?);
“elo de ligação” e “amigo pessoal” porque elo só pode ser de ligação e amigo só
pode ser pessoal (será ?); “enquanto” no lugar de como, porque enquanto diz
respeito a tempo; e “perfeitamente legal” porque ou algo é legal ou não é (no
Brasil, será ?).
Enfim, a listinha é
questionável e seus critérios,
misteriosos: esses são os “erros” mais freqüentes ou aqueles com que o autor do texto implica mais ? Quando alguém diz, por exemplo, “perfeitamente
legal”, em vez de apenas “legal”, tem uma intenção, seu efeito de sentido
extrapola o limite do conceito de legalidade.
Em outro texto da revista, a dica para que os executivos ganhem admiração e chances de
ascensão na carreira é retomar os estudos de língua portuguesa juntamente com
as aulas de línguas estrangeiras. Felizmente, no entanto, "falar e escrever
bem" aqui são tomados como sinônimo de expressão clara. A clareza e não a correcão gramatical está
em foco.
Espaço reservado para declarações de professores foi
também o texto "Fortaleza tira dúvidas sobre língua portuguesa por
telefone". Nos moldes dos consultórios gramaticais a que se refere SILVA ( op.
cit. p. 41), o serviço cearense,
assim como o Telegramática curitibano, tem a intenção de tirar dúvidas de
português. O tratamento dado ao tema vem em tom de elogio: “é um dos mais cultuados
projetos culturais e educacionais de Fortaleza”, “já mereceu citação na Rádio Nacional da França” e “conquistou
usuários até em gabinetes de senadores”.
Correção gramatical acima de tudo parece um projeto
cultural e educacional bastante pobre e, em termos econômicos, será que as
necessidades dos tais assessores devem
ser supridas por uma prefeitura ? A França é sempre uma referência quando se fala em “preservar” a língua
porque trava uma batalha malfadada contra os anglicismos. Segundo o texto,
existe a cogitação sobre a implantação de serviço similar na cidade de São
Paulo, o que talvez esclareça a intenção da Folha com a “notícia”. Curiosa é a
informação de que a maior parte das
dúvidas se refere à grafia – sinal de que as pessoas, por qualquer motivo, não
consultam dicionários.
" 'Inculta e Bela' faz bom uso da grife
Pasquale" é uma resenha crítica da
coletânea de textos publicados (na própria Folha) pelo professor Pasquale Cipro
Neto. O autor, Ortega, é coordenador do Programa de Qualidade do jornal.
Segundo ele, o tema da gramática é “geralmente árido e sempre o mesmo” e o
professor Pasquale tornou-se popular ao lidar com um assunto que predispõe fortemente
à antipatia: mostrar às pessoas “que elas cometem erros de português - ou, para
usar os termos mais suaves do professor, não seguem a norma culta da língua”.
A ressalva de que a expressão “norma culta da língua”
é apenas mais suave do que “português”
é indicativa do ponto de vista do autor sobre a questão: as pessoas erram
a sua língua e não gostam de que isso
lhes seja mostrado. Como apontado no início deste trabalho, a concepção normativa
assume que só a variedade prestigiada
socialmente pode ser chamada de correta e, portanto, só ela é “a” língua.
Ortega diz que o livro socorre quem, por exemplo,
precise saber a diferença entre “eminente” e “iminente” (qualquer dicionário
faria isso), ou queira “decifrar os mistérios da colocação pronominal” (já que “português é difícil”). Entretanto é
interessante que nessa resenha aparece a ponta de uma polêmica: Pasquale é ou
não “fundamentalista” ? Ortega avalia que não, já que o professor teria uma
postura tolerante: condena “vícios” da linguagem oral, mas distingue esta da
escrita, reconhece a diversidade de falas e (até!) elogia certos usos
coloquiais. Enfim, um bom guardião da
língua em seu altar sagrado, mas tolerante com os pequenos pecados dos falantes.
É como se os “usos coloquiais” (afinal, a língua) precisassem de elogio ou de
autorização para continuarem existindo. O texto cita uma referência indelicada
de Pasquale aos lingüistas (“idiotas, ociosos”) e conclui: “Não importa”. É isso,
como desabonar o colega de jornal ? A
lingüistica não importa...
OS
GUARDIÕES
Outra categoria de textos relativamente numerosa é a
que dá vazão aos argumentos dos "defensores do idioma pátrio". Em
"Língua portuguesa e Timor Leste",
o “imortal” Niskier, presidente
da Academia Brasileira de Letras, retoma ipsis
litteris 80% de um texto de
15.01.98 (“Na ponta da língua inculta e bela”), acrescentando apenas (o que ele
nega ser) um toque demagógico: "O Brasil tem grande responsabilidade em
relação a Timor Leste, não só pelo seu interesse estratégico na Ásia, mas principalmente
em virtude de ser o maior guardião dos tesouros culturais representados pela
língua portuguesa. Já não chega a drástica redução dos falantes, como os de
Goa, Macau e Moçambique, por exemplo?"
A continuação consiste em uma reunião de clichês
normativistas: “nunca se escreveu e falou
tão mal o idioma de Rui Barbosa. Culpa, quem sabe, da deterioração do nosso
sistema de educação básica...”. Prossegue queixando-se dos programas de TV,
dos jargões que são assimilados fora da área de origem, de usos lingüísticos
que fogem ao padrão da gramática normativa e dos anglicismos, que seriam todos
maus-tratos à pátria -língua portuguesa
.
No texto "Culta e bela", o jornalista e deputado federal Aldo Rebelo
segue na esteira do artigo de Niskier, cujos argumentos ratifica e a
quem acusa de omitir a responsabilidade da Academia contra a “(intolerável)
avalancha (para usar um francesismo...) de exotismos que ameaça a integridade
da língua”. Rebelo reclama da entrada de verbetes no Vocabulário Ortográfico
editado pela ABL sem a passagem pela “alfândega léxica” que lhes checaria a
necessidade e adaptaria, se necessário, a grafia. Assim, “toda essa algaravia
pode ser usada em redações de vestibular, livros didáticos e até nos documentos
oficiais do Brasil” !
Contra “tamanho descaso” o legislador apresentou um
projeto de lei que mandaria o poder
público proteger e incentivar o ensino e a aprendizagem da língua portuguesa.
Seria obrigatório o uso do português, digamos assim, “puro” no trabalho, nas
relações jurídicas, na expressão oral, escrita, audiovisual e eletrônica de
todos os documentos e eventos públicos,
bem como nos meios de comunicação,
na publicidade, nas embalagens, “com as ressalvas e exceções cabíveis”. Os
infratores pagariam multa de até R$ 12.610,00, “sem prejuízo de sanções de
natureza civil e penal pelo crime de corromper o idioma”. Nas palavras do autor:
Sem xenofobia, mas com altivez e brio, é possível
proteger o idioma contra o corrosivo bilinguismo que o desfigura e infunde nos
brasileiros a deprimente ilusão de que a língua portuguesa é feia, limitada e
vaga. Apesar das regras por vezes tortuosas, é bela, pródiga e precisa, dotada
de recursos léxicos suficientes para acompanhar as descobertas, invenções e
mudanças que transformam o mundo.
Na seqüência, um leitor diz que vibrou de entusiasmo
patriótico com os artigos de Niskier e Rebelo, em defesa de “nossa maravilhosa
língua, maltratada e torturada”, e agradece "em nome do povo brasileiro",
“de todas as classes”, o “contra-ataque à invasão estrangeira”.
A questão dos empréstimos lingüísticos é controversa,
mas o que fica claro, no entanto, é que a língua é vista como uma realidade
única, acabada, e seu uso, idealizado
como expressão de amor à pátria. Daí pode-se passar a uma inversão: pensa-se
que se a língua decair, o povo que a fala também decairá, quando – historicamente
– se o povo decai é que a língua pode desaparecer.
A reação contra
tanta defesa é tímida e vem no final de um texto do jornalista Fernando
Rodrigues ("Exterminadores do futuro"): ele critica projeto de Rebelo
que exigia a manutenção do trabalho dos frentistas nos postos de combustível e
aproveita para ironizar também o
projeto contra os estrangeirismos, visto como uma postura retrógrada.
O deputado volta para defender sua proposta
autoritária, apelando para o exemplo francês (se é bom para a França, é bom
para o Brasil) e para o caráter oficial da língua portuguesa no Brasil. Sua preocupação
é com as “normas clássicas” de incorporação das palavras. Ao afirmar que o projeto
é mais profundo do que a cova rasa em que foi enterrado, dá margem a que se
replique: precisa de cova maior !
Outro membro da Academia de Letras, o ex-presidente
Sarney, comparece para comentar a polêmica causada pela pontuação de um texto legal.
Conta anedotas, divaga sobre o tema, cita o poeta Ferreira Gullar ("a
crase não foi feita para humilhar ninguém") , mas termina sem questionar a "intransigência dogmática,
inquisitorial" dos maranhenses
pelos "deslizes gramaticais".
O jornalista Elio Gaspari também faz questão de
defender a língua, em seu "Curso Madame Natasha de piano e
português": a reclamação é contra o barbarismo cometido pela coordenadora
de avaliação da Universidade Federal Fluminense: “ranqueamento”. O autor
preferiria que tivesse sido usado o termo “classificação”, argumentando que um
vestibulando que escrevesse tal barbarismo seria mal avaliado.
O jovem
Ioschpe, em " Aspas que protegem e aprisionam", apresentou uma
reflexão sobre a questão do “erro”. Didaticamente (o texto é para
adolescentes...), lembra que a língua não vem do dicionário ou da gramática, que a língua falada precede a
escrita e que a escrita não é mera transposição
da fala por uma série de razões. Mas, ressalta:
fundamentalmente, a língua permanece congelada porque
aqueles que a codificam, possuidores que são do universalmente ratificado como
correto, recusam-se a abandonar seus castelos de conhecimento. Língua é poder,
eis o xis da questão. A correção gramatical demonstra não só apreço por Camões,
mas uma educação de nível, boa família e um ambiente salutar. Língua é berço.
E, no momento em que serve para demonstrar origem, também serve como fator
seletivo, a barrar todos aqueles que não comungam da mesma semântica.
Na tentativa de desmistificar, o autor mistifica ao
identificar língua com variedade padrão.
Além disso, quando afirma que “quem escreve ‘pobrema’ não é só inculto,
mas provavelmente sem escolaridade e, portanto, pobre”, assume
- de forma discutível -
cultura como escolaridade, grau de instrução. Tenta
remediar na seqüência, em raciocínio esquisito: “na verdade, ’pobrema’ está mais certo do
que ‘problema’, se entendermos a língua como construção popular. Se a voz do
povo for a voz de Deus, então todos esses dicionaristas e gramáticos estão
surdos.” Surdos para Deus ? E daí ?
Mesmo assim,
o colunista tem o grande mérito de discutir a difícil batalha entre norma real e norma gramatical:
“colocaram pra me vigiar uma turma de revisores que tasca aspas em tudo que
está na boca, mas não no Aurélio. (...) já consigo usar um ‘pra’ sem aspas.
Quando puder dizer ‘tem que’ (e não ‘de’) e ‘tem vezes...’ (e não ‘há’), tem
festa lá em casa”.
Finalmente,
um cidadão paulista se queixa
dos vendedores de frutas que, não bastassem o barulho, a isenção fiscal de que
desfrutam e a falta de controle sanitário, berram “atentados à língua pátria”.
O preconceito lingüístico é forte – a variedade língüística desprestigiada é
equiparada à sonegação e à sujeira – mas entra como coadjuvante: se os
vendedores proclamassem suas mercadorias num português à Olavo Bilac seriam
perdoados pelo resto de seus “defeitos” ?
OS
ESCRITORES
Uma terceira categoria de textos investiga o
comportamento de escritores diante da norma.
Em "O mar sem fim da língua portuguesa", Schwartsman, “formado
em filosofia pela USP”, apresenta uma resenha sobre o livro “Língua portuguesa”, coletânea de textos de Fernando
Pessoa.
O poeta português se insurgira contra a reforma
ortográfica em 1911, que eliminaria – segundo ele - a história cultural dos vocábulos ao substituir a escrita
etimológica pela escrita fonética, com consequências nefastas para a identidade
da língua. Pessoa defendia a postura anárquica de que cada um deveria
poder escrever da forma que lhe
conviesse e de que ao Estado caberia, no máximo, fixar uma ortografia para os
documentos e o ensino oficiais.
O texto aborda aspectos filosóficos da linguagem,
que é vista como um patrimônio cultural
a ser utilizado com liberdade, sem sujeição a imposições do Estado. O normativismo
em que estamos mergulhados é o oposto do respeito à diversidade lingüística. Diversidade ortográfica, então, mereceria a
pena máxima no tribunal dos gramáticos.
Já Ivan Teixeira,
doutor em literatura brasileira, se propõe, em texto para a Veja, a responder por que “os grandes escritores podem ‘errar no
português’, ao passo que o comum dos mortais tem de se submeter ao
constrangimento das regras da gramática”. Para ele, a transgressão dos artistas
é permitida porque possui função estrutural. Eles pretendem escrever para as
gerações futuras e a adequação a normas anteriores poderia prejudicar a
dinâmica da criação. Teixeira opõe os artistas aos gramáticos – estes impõem
normas, aqueles clamam por liberdade.
Faz uma retrospectiva histórica de escritores que
fugiram à norma culta em suas épocas: Camões, Alencar, Lobato, Mário e Oswald
de Andrade, Drummond. É curiosa, no entanto, a segunda parte do artigo: são
seis pequenos trechos de obras literárias seguidos do que seria a sua versão
“correta” e da explicação da suposta intenção dos autores ao burlarem a norma.
O ponto de vista adotado é de que, por exemplo, Fernando Pessoa usou erroneamente o verbo ser como transitivo
em “Ó universo, eu sou todas as coisas! “ e de que Drummond quis (apenas ?)
causar mal-estar entre os acadêmicos pelo uso do verbo “ter” no sentido de
“existir” em “No meio do caminho tinha uma pedra”.
OS LINGÜISTAS
Sem assinar nenhum artigo, os lingüistas aparecem na
coletânea por via indireta. Em "Geopolítica das línguas", a escritora
e psicanalista Milan entrevista o lingüista francês (!) Hagège. A chamada do
texto é sintomática: “americanização do Brasil é insulto à latinidade”. O
entrevistado é estudioso de línguas
antigas, autor de livros para especialistas e para o grande público e professor
do “prestigioso Collège de France”. Entre outras coisas, ele explica que a
evolução das línguas se faz de modo imprevisível, mas que não há razão para
pensar que se chegará à incompreensão entre Portugal e Brasil.
O que chama a atenção nas perguntas é o tipo de
preocupação que revelam, com a preservação da língua, apesar da declarada
imprevisibilidade de sua evolução: não é arriscado um lusófono aprender espanhol ? (!) Pode haver risco de contaminação (e de perda
da língua materna) ? A preponderância
da língua inglesa seria um perigo para a sua unidade ? Existiria risco de
fragmentação do inglês como houve com o latim ?
Abordando a história da língua no Brasil, o último
texto analisado é "Nobre como Camões", que procura oferecer ao leitor
um elemento de perplexidade diante da constatação de que falantes do interior do país utilizam formas
que "parecem erradas", mas são, na verdade, conservadas de variedades
antigas do português. Obras de levantamento vocabular são citadas e
especialistas são ouvidos. Mesmo assim, a
conclusão da jornalista é exemplar da mentalidade normativista:
"nem todo erro é fruto do uso do português arcaico. De qualquer forma,
antes de censurar quem fala coisas do gênero, é melhor ir ao dicionário. Pode
ser uma expressão de sangue azul." Subentende-se que as expressões arcaicas são erros também, mas perdoáveis pela
'nobreza' diante da qual até um gramático deve se curvar.
CONCLUSÃO
O rei está nu e o menino que o denunciaria está na
escola, aprendendo gramática. Na história de Andersen, a verdade sobre as
vestes do rei era escamoteada porque as pessoas, mesmo vendo a nudez de seu
governante, não queriam parecer ignorantes. Não acreditavam pois, em sua percepção,
para não se comprometerem socialmente.
A língua está viva no pensamento e no dia-a-dia de
todos os falantes, mas o normativismo os obriga a não perceberem sua própria fala, então bradam vivas à beleza
das roupas (regras) que não correspondem à realidade.
O material
didático usado nas escolas perpetua a concepção normativista, e provavelmente
isso só poderá mudar quando houver uma crítica institucionalizada - seja
por obra do MEC ou por iniciativa da
própria imprensa. Os meios de
comunicação são citados pelos estudiosos como fonte da norma real.
Paradoxalmente, contudo, seu discurso (e o discurso a que dão espaço) é de
grande predominância normativista. Quem
escreve sobre o tema da língua são professores de postura conservadora ou
jornalistas sem formação acadêmica especializada no assunto.
É preciso aproveitar os espaços de discussão que se
abrem aqui e ali e insistir na reflexão sobre o ensino de língua, a prevalência
da concepção normativa e o preconceito que a acompanha. Se houver profissionais
de jornalismo atentos à discussão, melhor ainda; se eles conseguirem repassar aos leitores um pouco do conhecimento que a
universidade já construiu sobre a complexidade do fato lingüístico, talvez
chegue a primavera.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
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Mercado de Letras-ALB, 1997.
CEREJA, William R. & MAGALHÃES, Thereza C. Português: linguagens – literatura,
gramática e redação. São Paulo: Atual, 1999. 3 v.
FARACO, Carlos Alberto. Linguagem, escola e
modernidade. In: GHIRARDELLI Jr.,
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São Paulo: Cortez e Curitiba: Ed. da UFPR, 1997. p. 49-59.
FARACO, Carlos E. & MOURA, Francisco M. Língua e literatura. São Paulo: Ática,
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FOLHA DE SÃO PAULO. Biblioteca virtual.
http://www.uol.com.br/
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PELLEGRINI, Tania. & FERREIRA, Marina. Português – palavra e arte. São Paulo:
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UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA. Fórum Mídia & Educação. Brasília, 2000.
http://www2.uol.com.br/andi/midia_edu/index.html
VEJA. Biblioteca virtual. http://www.uol.com.br/
[1] A NGB, sua história e implicações são objeto de tese defendida em
99 por BALDINI: "A Nomenclatura Gramatical Brasileira interpretada, definida,
comentada e exemplificada".
[2] Na Gramática Brasileira da Língua Portuguesa, de M. dos Santos, Editora
FTD), lê-se: “O
infinitivo de uma locução verbal permite duas possibilidades de concordância, porque podemos interpretá-lo
como sujeito: Pode-se vender duas casas – sujeito: vender duas casas; Podem-se
vender duas casas – sujeito: duas casas.” (p. 287)