INTRODUÇÃO
Este
trabalho tem por objetivo analisar os
contos que compõem o volume Cemitério de Elefantes de Dalton Trevisan,
buscando entender a unidade
caracterizadora que os reuniu num único volume. Selecionamos três contos: O
Primo, Os Botequins e Cemitério de Elefantes para reflexão, apoiados na
teoria de Gérard Genette.
O
contista Dalton Trevisan, ainda vive. Tal fato aumenta consideravelmente a responsabilidade
dos estudiosos de sua obra, porque a presença do autor entre nós implica em
constantes reescrituras de seus textos, que, necessariamente, devem ser levadas
em consideração. A leitura do mesmo conto em edições distintas quase sempre
traz novidades – é como se fosse uma nova primeira edição – e permite que se verifique a (re) criação de uma
escrita marcada pela contenção verbal. Percebe-se que sua conhecida concisão,
sua vocação minimalista revelada desde os tempos da revista Joaquim (NAME, 1996) – em contos
inéditos em livro como O personagem,
de 1947, hoje renegado pelo autor – se encaminha, de fato, para o ideal de
narrativa em que as histórias não são contadas, mas vividas.
Isto
nos leva a pensar na possibilidade de analisar seus contos partindo da teoria
de Gérard Genette no que diz respeito às cenas dramáticas, ou às cenas
sumarizadas, ou ainda ao modo showing
de narrar. A seu tempo tentaremos fazer isso, por ora, falemos um pouco mais
sobre o texto de Dalton Trevisan.
A
inclinação minimalista do escritor rumo à concisão total – ele próprio disse,
certa feita, em tom de brincadeira, que seu “progressivo laconismo” (SILVERMAN,
1978) o conduziria ao haicai – pode nos levar a promover o relacionamento de
sua escritura com os propósitos
cubistas, na medida em que em Dalton, como na pintura cubista, a informação
apenas se esboça, não se dá inteira ao leitor. Sobre isso, outro grande
escritor, João Antônio, manifesta-se da seguinte maneira num artigo publicado
no jornal O Estado de S. Paulo, de
1996:
Dalton faz uma carreira, trabalha valente, abelha, e
vai fiel à sua voz interior. Necessário desenhar ou pintar num touro cem vezes
na busca integral de sua essência? Reduzi-lo ao osso, a ponto de só lhe ver o
esqueleto, a síntese taurina? Então, mãos à obra! Que se danem o mundo e o
artista juntos, o que conta é o resultado – a obra de arte. Bem maior que o
artista em si. A lição está em Pablo Picasso, e é, por extensão, uma metáfora
do mundo e do trabalho, sem peias do artista. Não, Dalton não evoluiu nesta ou
naquela direção, à procura faminta da extrema economia, da quase avareza áspera
do texto. A sua chave é muito outra – não aceita como terra de ninguém aquele
que lhe é território sagrado e divino. E que é um tipo de vida, de paixão e até
de morte: a sua personalidade de autor. (ANTÔNIO, 1996).
Portanto,
mais importante do que enxergar o conto ou o microconto, o haicai, a crônica –
ou quase crônica –, o poema – ou quase poema –, o “exercício” (LINHARES,
1973) ou o cubismo daltoniano, é perceber que o que existe é o texto de Dalton, sua atmosfera, a densidade de
Dalton, seu mundo único, pois ainda utilizando as palavras do autor de Malagueta, Perus e Bacanaço, Dalton
Trevisan é um “caso de fidelidade absoluta a si mesmo”. Isso, é claro, também
tem a ver com o perfil humano que ele cultiva, avesso às modas,badalações e
prêmios, e propenso à solidão.
A leitura
da obra de Dalton Trevisan, na visão de WALDMAN (1989), pode ser feita num
rastreamento do interior da obra na busca da construção do vazio, da linguagem
que conta o silêncio, da narrativa que se fragmenta. A ausência de nexo desencadeia o circuito aleatório das partes
que, sem qualquer possibilidade de ancoradoura numa totalidade mais ampla,
transformam-se em metáforas da fragmentação.
A
reprodução é marca forte na obra de
Dalton Trevisan. Verifica-se tanto no
nível das personagens que se repetem, das situações vividas, das narrativas que
retomam o mesmo fio, como também no nível da construção da linguagem onde a voz
do narrador e das personagens vão se interpenetrando, forjando a construção de
um espaço híbrido a partir do qual o leitor já não distingue quem é que fala.
Segundo
CARONE (apud WALDMAN, 1989) os personagens de Dalton Trevisan se constituem
numa multidão de funcionários públicos,
lojistas, prostitutas, donas de casas, domésticas, profissionais liberais,
trabalhadores da terra, que se contentam em sugar o outro transformando-o à sua
imagem e semelhança. Sugar o outro
remete, no caso, à existência confinada a um cerco em que só é admitido o
eu. Nesse espaço em que a meta é a
morte, sempre o menos vital entre os dois inicia o processo de anulação do
outro.
Será
Dalton Trevisan um enunciador de clichês e frases feitas, cuja subjetividade
submerge no material escolhido? Na realidade, porém, ela mergulha e ressurge,
já objetivada, na própria montagem dos estereótipos. Seja como for, é patente
que a reificação, tema de Dalton Trevisan, está presente no nível da composição
e da linguagem - e é por essa via que ele se inclui entre os escritores de
vanguarda.
Com esse espírito
é que adentraremos a obra do escritor curitibano: procurando não esquecer seu
caráter de escrita “alforriada” dos cânones acadêmicos, fruto de personalíssima
lavra. No nosso esforço, contudo, de tentar contribuir de alguma maneira com o
universo significativo de Dalton Trevisan é que nos apoiaremos na teoria de
Gérard Genette (GENETTE) nos momentos em que isso for cabível, mesmo porque ela
pode ser um meio de nos conduzir à postura ativa de criação de possibilidades
de leitura desta obra, ultrapassando a mera recepção dela.
CEMITÉRIO
DE ELEFANTES
Após cinco
anos a publicação de Novelas Nada Exemplares
é que Cemitério de Elefantes é publicado. Nesta obra vislumbramos uma
temática que está relacionada com a província, mas já não mais diretamente oposta
à metrópole. Esta, segundo SANCHES (1994),
é a orientação geral do livro, que tem uma única exceção, parcial, no conto “Dinorá,
moça do prazer”, que assume parentesco com Fanny Hill, o clássico romance erótico
do inglês John Cleland.
Podemos
ler neste livro o inter-relacionamento entre dois ambientes e, em última
análise, entre duas realidades. De um
lado temos histórias que se passam em um contexto rural. Os personagens são
seres à margem do mundo moderno. A temática destas histórias (O Primo, A Margem do Rio, Dia de Matar
Porco, Caso de Desquite, O Baile, Ao Nascer do Dia) refletem um universo
baseado em valores patriarcais. É, por assim dizer, uma fotografia das
redondezas de Curitiba. No pólo oposto,
encontramos a temática urbana - magistralmente captada em um dos contos mais
famosos de Dalton: Uma vela para Dário.
Nesta história vemos a morte em sua degradada versão urbana. Dário passa mal,
morre e é roubado sem que ninguém o ajude. Falece por falta de socorro. A
multidão que se forma ao seu redor, durante as horas de agonia, é movida pela
curiosidade e não pela compaixão. A
Curitiba retratada nesta história tem traços de cidade grande. A anulação do
indivíduo e a hegemonia da multidão acabam criando um cenário caracterizado
pelo anonimato. Em outros textos encontramos este universo urbano: Dinorá, A Visita, A Casa de Lili, etc., que não constitui uma
oposição total ao primeiro.
Optando
por esta dupla visão, Dalton Trevisan chama a atenção para a convivência de
dois mundos num único espaço. Curitiba é a colônia e a cidade. Está ligada ao
universo rural sem deixar de ter traços de cidade grande. Este convívio não é gratuito nem pacífico.
Mostra que uma realidade patriarcal, com seus valores e preconceitos defasados,
está presente na cidade.
Encontramos
pois em Cemitério de Elefantes uma demarcação das fronteiras temáticas
da Curitiba ficcional de Dalton, onde estão incluídas as adjacências com um
perfil agrário e violento.
A Curitiba
de Cemitério de Elefantes é a que tem
vasos comunicantes com um mundo agrário fundado em valores patriarcais. É uma
cidade dupla, encarna as contradições de uma sociedade onde o primitivo mina os
anseios burgueses de progresso.
Se é
correto afirmar que o livro reflete Curitiba e suas margens, não é menos exato
pensar que ele exprime o mundo dos seres situados à margem da Curitiba oficial.
Daí o valor emblemático do conto Cemitério de Elefantes. Os bêbados que
vivem à margem do rio e são alimentados pelos pescadores simbolizam a condição
marginal do elenco de personagens que compõe a ficção de Dalton Trevisan. O
parentesco deles com os elefantes estabelece uma dupla significação para os
bêbados: são a imagem viva do peso, da lentidão e da falta de jeito, e, ao
mesmo tempo, têm a dignidade de aceitar um destino inelutável.
Segundo
CUNHA (1978), os elefantes são por
definição mitológicos não tivessem eles carregado o mundo no dorso tanto
tempo. Os elefantes morrem na solidão e
além da tromba e do marfim têm os seus dias de circo e furor. No mais, são
medíocres e pacíficos. Não diferem muito dos homens.
O enfoque
recai sobre o homem,
visto em sua pequenez, em seu logro frente à vida,
que lhe oferece como um conjunto de provas, as quais é obrigado a cumprir para
poder participar de um mundo que, apesar de tudo, o rejeita.
Metaforizados pelos elefantes, animais imensos,
solitários por natureza, as personagens buscam realizar sonhos, em nome do
prazer e do amor. Mas tais sonhos foram inventados pela sociedade - o casamento
feliz, a concretização do mito do primeiro amor - que exige delas, em troca, o
cumprimento de rituais. Mulheres e homens cruzam-se neste livro, com um destino
comum: a solidão.
Na realidade, todos estes seres degradados,
arrastando a existência cotidiana dos mesmos atos, constituem num todo os
elefantes que, instinta e passivamente, partem em busca do cemitério.
Incapazes de assumir o mundo e de enfrentar a
realidade, destróem-se numa vida apagada, sem horizontes, repetitiva, onde o
sonho se esgota no instante mesmo de sua consecução, revelando a miséria do cotidiano.
Seres cinzentos, desprovidos de consciência, tais personagens acabam por se
afirmar naquilo que mais as degrada, ou seja: os vícios ocultos, a negação do
próximo, a tirania gratuita contra os mais fracos, segundo
GOMES & VECAI (1981:10).
Para melhor
conhecer, compreender o estilo de Dalton Trevisan, sentir seu jeito de escrever,
analisaremos três de seus contos: 1) O Primo 2) Os Botequins e 3) Cemitério de
Elefantes.
1.
Primo
Em “O
Primo” Dalton Trevisan repete o mesmo contexto existente em seus contos. São
ações genéricas que acabam por tecer analogias ritualísticas, segundo WALDMAN
(1989).
Um noivo
que embora ame a sua mulher deve maltratá-la, porque em sua primeira noite de
amor descobre que ela não é virgem. Mesmo sofrendo com essa situação o personagem
cumpre com o que a sociedade lhe havia ensinado. O cotidiano rural sexual das pequenas
cidades é caracterizado por uma narrativa tradicional, tempo posterior contado
de um nível extradiegético com uma voz heterodiegética e a focalização zero.
Mas, esse
episódio que em primeiro momento parece organizar o conto, vai decrescendo sua
importância diante da interferência de elementos que o cercam. Essa é mais uma
das características do autor, e talvez por possibilitar direções várias de
percepção, resulta numa nova maneira de
contar.
O conto
começa com uma prolepse interna muito próxima e nos informa sobre a causa de
seu mau, antes de iniciar a história: “Primeira noite ele conheceu que Santinha
não era moça”.
A
sexualidade é a expressão das diferenças, mas Dalton coloca-a num palco, onde
as relações entre as personagens serão dramatizadas e evidencia a existência de
forças contrárias ao reconhecimento das diferenças. Ela é reprimida,
transformada em equivalência, uma representação. Como podemos perceber neste
conto, onde a experiência sexual é uma frustração para ambas as personagens e
algo que interfere em suas vidas.
“Não resistindo ao desejo, dispunha dela como uma
dama, sem a menor delicadeza. Aconteceu três vezes, afinal a deixou em paz”.
No seguir
da narrativa, ela é logo interrompida com uma analepse mista para explicar um
fato acontecido anteriormente. Nesse momento passa a uma focalização interna da
personagem feminina e permite-lhe avaliar a situação.
“Ela revelou que, havia dois anos, o primo Euzébio
lhe fizera mal, por mais que se defendesse. De vergonha prometeu a Nossa
Senhora ficar solteira. O próprio Bento não a deixava mentir, testemunha de sua
aflição antes do casamento”
“Esquecer o agravo não podia ofendido com o primo.
Ah, se ela houvesse contado antes...Quem sabe o perdoara”.
Nesse
momento volta a focalização interna do personagem masculino, Bento. E faz uma
paralepse, exigindo de nos influências.
Seguindo a
construção da narrativa, o fato importante acontece quando dá indicações do
futuro do primo.
“O retrato de Euzébio em grupo familiar: rostinho
assustado de criança”.
Agora, o
narrador passa a informar sobre o mau estado que a desilusão amorosa havia lhe
provocado. O leitor é informado ao máximo.
Diante da
tentativa de devolução da esposa ao medroso sogro, o narrador retorna a focalização
interna, permitindo ao leitor confundir narrador e personagem.
“Ainda mais triste observá-la a furto, as lágrimas
escorriam sem que as enxugasse. Intrigado por que não a abandonava, tinha pena
dela que, além do mais, estava grávida. Se avisasse o primo a viesse buscar?”
O nome das
personagens também vai ser de suma importância nos seus contos. Vejamos: Bento
- o abençoado, consagrado; Santina - forma derivada de santa; mais ina =
pequena, pouco (“o diminutivo em Dalton: no substantivo o contaste entre o
valor semântico da palavra e a figura das personagens”); Euzébio - Piedoso,
homem religioso e Narciso Merdoso - Narciso egoísta, Merdoso - medroso.
Quase
sempre estão associados à religião e a religião ao sexo. Dalton Trevisan parece
acreditar que o homem teve e sempre terá necessidade de algum tipo de religião
ou mito para viver. E na ausência de um deus espiritual, o homem é tentado a
fazer um deus de qualquer coisa, seja ela o sexo. Então o lado escuro do homem,
está intimamente ligado ao lado escuro de Deus - injusto.
Então,
retorna a focalização zero, seguindo de cenas sumarizadas permitindo-nos visualizar
a situação e que tenhamos o maior número de informações.
Se não falasse com ela iria afogar-se no galho de
pitangueira. Lavava a roupa, não deixava faltar botão, remendou a calça listada
de brim. Mais que ela se enfeitasse, com banho no rio e fita no cabelo. Bento mastigava a raiva no prato
de feijão.
Ao
observar a situação de grávida da mulher, pára, abre-se o parênteses e toda a
observação é feita, deixando o tempo do discurso muito maior que o tempo da
história (elipse).
O discurso
figurado em O beiju e o café, vidro moído
rasgando as entranha, muito usado pelo autor em seus contos no sentido
conotativo como também no sentido real.
Na
finalização da história temos a confirmação da prolepse:
Bento desprendeu o braço e, cego pelo temor da
pálpebra, atingindo a barriga o primo, fundo e uma só vez.
Usa também
o discurso direto para aproximar as personagens do texto: - Ele me esfaqueou!
A
violência armada é fato comum no interior do Brasil, onde os métodos primitivos
de resolver diferenças e vingar questões pessoais, principalmente infidelidade
de maridos, são comumente praticados e muitas vezes até preferidos aos
processos arrastados e menos decisivos da lei. Na ficção de Dalton Trevisan o
revólver, a faca (o punhal) e o chicote são freqüentes e são efetivamente
utilizados.
Assim, em
O Primo, primeiro conto de uma de suas primeiras obras, observamos características,
tendências que serão amadurecidas nos textos futuros, mas que cumprem essa
ritualização banal da vida cotidiana.
2.
Os
Botequins
Incluído
na sexta edição de Cemitério de Elefantes é uma narrativa que apresenta a peculiaridade
de poder ser vista sob um duplo ângulo: como ponto de partida da obra de Dalton
Trevisan e como seu ponto virtual de chegada. Como traçar o itinerário de um “morto” ainda que se trate de um morto-vivo? - a resposta
do conto é: prendendo-o nas malhas da descrição, imobilizando-o como uma coisa
entre outra.
A fábula
do conto é simples. José costumava ir a um botequim onde ficava mudo e sozinho até a hora de fechar. Uma noite, entra
um desconhecido que se senta a sua frente e se mata. José sai do botequim e
caminha a noite inteira na chuva à procura de outro botequim.
A fórmula
narrativa literária adotada pelo autor, consiste no narrador de nível extradiegético,
voz heterodiegética, tempo posterior e focalização zero.
Para
começar, destaca-se o botequim como um espaço isolado do mundo, que protege, no
limite, o vício das ações punitivas de parte do contexto social instaurado. O
título “Os Botequins” onde a trajetória de um homem é anunciada pelo espaço em
que ele se move, já sugere um plano de equivalência de homem e coisa, acrescido
de um índice que explicita a narrativa como um todo que é justamente a ausência
de fins num mundo onde os meios são fins em si mesmos. O título no plural
anuncia que a única saída possível de
um botequim é outro igual a ele. Quer dizer, o título já arma o laço no interior do qual se dá o
imobilismo, a perpetuação dos meios.
A
narrativa pode ser vista como matriz, na medida em que recupera elementos
recorrentes constitutivos da forma de narrar de Dalton Trevisan. A começar pelo espaço representado que é
modelar, remetendo a uma variação geográfica que, no entanto, aponta sempre um
único lugar: o da destruição.
Daí que o
botequim se apresente como as vísceras apodrecidas da cidade, depósito de
dejetos onde paira o “odor familiar do amoníaco”, ... cada vez que alguém entrava,
José sentia o odor ácido de amoníaco...(p.55).
E nessa
circunstância está José. Ele é
apresentado a partir de um retrato que o caracteriza muito pouco fisicamente, o
que não permite ao leitor visualizar o seu rosto. Essa imobilização da personagem
pela repetição de gestos, lembra outras personagens de Dalton Trevisan, presas
como José a uma morte anônima.
O ponto
que une espaço e personagem é a morte. É ela que conduz à linguagem do conto, à
ordem por ele estabelecida, à consideração do vazio, que a narrativa se expande.
Para
WALDMAN (1989: 59) a figuração da
impotência repousa principalmente sobre o circuito fechado do botequim, lugar
onde se ingere e se verte o líquido que é ao mesmo tempo, alento, sustentáculo,
pestilência e veneno. É do interior desse moto placentário que a morte vai se
autenticando, ao mesmo tempo que varre das expectativas do leitor toda e
qualquer possibilidade de mudança que não leve à morte definitiva, à ausência
total de movimento.
O botequim
que poderia ser um espaço de lazer acaba se tornando um local de penitência,
onde procura-se preencher os “vazios”.
É neste
sentido que dos doze parágrafos que se constitui o conto “Os Botequins”,
nove são descritivos e somente os três
últimos narram o episódio do suicídio.
Assim como
os objetos são descritos com um ar de neutralidade, José também o é. Como os seus gestos se reproduzem sempre,
eles ganham no texto uma fixidez marcada pelo verbo no imperfeito do indicativo
. Por exemplo: ...ele ficava no botequim (p.54), lia uma notícia inteira (p.54). José não gostava de se olhar (p.55),
etc.
O conto vai acumulando informações sob o olhar
prolongado do narrador heterodiegético, a quem está delegada a tarefa da
descrição. Como que absorvido pelo espetáculo, o momento da narração vai sendo
adiado, o que faz dele mais um conto descritivo, estático, fixo, do que o
espaço de uma temática que se espraia para um ponto qualquer. Se a narração
conta a morte por suicídio, a descrição é ela mesma a morte.
José
recusa-se a olhar no espelho, sempre lê a mesma notícia, fixa o olhar no mesmo
ponto do espaço. Conseqüentemente o narrador não lhe concede, de modo explícito,
a palavra em momento algum. Os únicos momentos em que há uma convergência de
falas (narrador/personagem) são representados pelos dois enunciados
interrogativos da narrativa:
Por amor da família - se é que tinha família -
subjetivava-se a encher o cálice do único freguês? (p.56) Medo da solidão, conservava o botequim
aberto, na esperança de que alguém entrasse? (p.56)
São
manifestações de dois momentos em que o discurso indireto livre une narrador e
personagem nas malhas de um mesmo discurso, para, em seguida, devolvê-los a
seus respectivos lugares. José, vítima do vício, é devolvido ao silêncio. Ao
narrador cabe a energia criadora do vício: a expressão, a linguagem.
É exemplo
de discurso indireto livre a seguinte construção:
...No balcão a garrafa aberta. Mulher alguma diria:
Não beba mais, por favor... Pelas cinco chagas de Nosso Senhor, seja esse o
último cálice! Não tinha vergonha de beber no botequim. O gordo era pessoa que
compreendia as coisas. Além do mais não havia espelho. (p.56).
Há uma
ligação de complementaridade entre José e o dono do botequim. Sem ele, a personagem
não teria acesso à bebida de que necessita. Transformando-se a bebida em objeto de troca e motivo de
espoliação do viciado que vai se
desfazendo de seus objetos pessoais
quando já não dispõe de dinheiro para pagá-la, ela une e separa
consumidor e fornecedor, criando entre eles a interdependência silenciosa e
tácita assentada sobre a irreverssibilidade dos respectivos papéis.
É por isso
que o dono do botequim e José não se olham frente a frente. Um não espelha a
identidade do outro. A identificação se fará no confronto com o suicida mediado
por aquele entre José e o botequim.
Mesmo assim, José se mantém calado durante o ato suicida e sai em busca
de outro botequim.
No
primeiro parágrafo da página 56, temos um exemplo de focalização interna variável:
O gordo compreendia. Quando José não tinha dinheiro,
deixava o jornal no bolso, depois do quinto cálice ainda bebia dum trago. Fim
de noite, empurrava a cadeira e saía, sem que o patrão corresse atrás. Noite
seguinte, voltava; o relógio no bolsinho do colete, a aliança na mão balofa do
gordo haviam sido a sua aliança e o seu relógio. Por amor da família - se é que
tinha família - sujeitava-se a encher o cálice do único freguês?
No
decorrer da narrativa percebe-se que os parágrafos são cenas sumarizadas e ao
término da narrativa o tempo da história e maior que o tempo do discurso.
Omite-se detalhes da cena do suicídio.
3. Cemitério de Elefantes
A
atmosfera daltoniana já se apresenta no título escolhido para o conto. Quando
lemos o texto percebemos que o título é metafórico, atualizando, pois, em termos
de registro discursivo, o discurso figurado. O título é metafórico porque uma
dada realidade ficcional é comparada a um cemitério de elefantes. As razões
para essa comparação serão fornecidas pelo texto. Antes, porém, de passarmos a
ele, vejamos algo sobre a simbologia do animal em questão e sobre a lenda
acerca da existência de cemitérios para onde se encaminhariam.
De acordo
com o Diccionario de Símbolos
Tradiccionales, de Juan-Eduardo Cirlot,
“o simbolismo deste animal tem certa complexidade e
determinações secundárias de caráter mítico. No sentido mais amplo e universal,
é um símbolo da força e da potência da libido. Na tradição da Índia, os
elefantes são as cariátides do universo. Nas procissões são a cavalgadura dos
reis. É muito interessante que, por sua forma arredondada e sua cor
cinza-esbranquiçada, são considerados símbolo das nuvens. No leito do pensamento
mágico, disto se segue a crença em que o elefante pode produzir nuvens e, daí,
a mítica suposição da existência de elefantes alados. A linha elefante-cume de
monte-nuvem estabelece um eixo do universo. Provavelmente derivação destes
conceitos de claro contorno primitivo, é o uso do elefante na Idade Média como
emblema da sabedoria, da sobriedade, da eternidade e inclusive da piedade.” (CIRLOT, 1958).
O grifo
nas palavras libido e sobriedade é nosso. Demos destaque a
estes vocábulos porque eles se antagonizam, são duas idéias em contradição
convivendo no mesmo universo simbólico ligado ao animal. Embora tais
representações pertençam ao terreno do arquetipico e, por isso, do
inconsciente, mostra-se, na escolha do animal da metáfora, e em seu estado mais
puro, a tensão tipicamente daltoniana entre o sagrado e o profano.
Quanto ao
cemitério de elefantes, não há provas científicas de que eles existam. O que há
são lendas conhecidas primeiramente pelos nativos da Índia, da Indonésia e da
África, que depois se espalharam pelo mundo. Elas fazem alusão à existência de
lugares pantanosos, para onde iriam esses grandes animais, no momento em que pressentissem
a chegada da morte. Abandonando o bando, o elefante moribundo faria um percurso
solitário até o lodo, onde enterraria as patas, para aguardar passivamente a
morte sem ter como ir para outro local.
No título
do conto temos, por conseguinte, uma simbologia relacionada ao animal que une
libido e sobriedade e uma idéia voltada para seus costumes que se situa no âmbito
do lendário.
À margem esquerda do Rio Belém, nos fundos do mercado
de peixe, ergue-se o velho ingazeiro – ali os bêbados são felizes. Curitiba os
considera animais sagrados, provê às suas necessidades de cachaça e pirão. No
trivial contentam-se com as sobras do mercado. (TREVISAN,
1998).
Ao nos
depararmos com o mesmo conto publicado na 2a edição do livro, de
1970, lemos o parágrafo inicial assim elaborado:
Há um cemitério de bêbados na minha cidade. Nos
fundos do mercado de peixe e à margem do rio ergue-se o velho ingazeiro – ali
os bêbados são felizes. A população considera-os animais sagrados e provê às
suas necessidades de cachaça e peixe com pirão de farinha. No trivial
contentam-se com as sobras do mercado. (TREVISAN, 1970).
A
reescritura que o autor realizou do mesmo conto publicado em 1970 produziu, em
1998, um texto mais enxuto e incontestavelmente mais enigmático, que exige mais
do leitor. Em outras palavras: a reescrita produziu um texto mais literário. Na
edição de 1970, a comparação que o narrador empreende entre os bêbados da
cidade e os elefantes é entregue de
pronto a nós, leitores, e acabamos sendo meros receptores das informações que o
narrador nos oferece. Na edição de 1998, ao contrário, temos de inferir e criar
junto com um narrador que agora definitivamente é uma pessoa que não integra a
série de eventos narrados, pois se trata de um narrador heterodiegético. Ele sai para que se crie, com a ajuda
do leitor, a cena propriamente dita. Ela se mostra ao leitor muito mais do que
é narrada, por isso se percebe o forte teor descritivo do parágrafo, reforçado
pelos verbos no tempo presente. A propósito, descreve-se um lugar onde os bêbados
são felizes e, na caracterização desse espaço, faz-se menção ao antigo Rio
Belém, que não aparece na edição de 1970. Segundo pudemos apurar, esse rio
banhou a cidade de Curitiba, a Curitiba interior e universal de Dalton Trevisan
– daí o surgimento textual do topônimo na nova edição – e o nome Belém, além da
conotação de rio sagrado, elevado, faz uma interessante oposição com a idéia de
morte contida no título, pois em Belém, na Judéia, nasceu Jesus.
No
discurso figurado contido na passagem “Curitiba os considera animais sagrados”,
atualiza-se, mais uma vez, a contradição entre o divino e o mundano, pois os
bêbados, representantes de um nicho humano que costuma ser marginalizado e
desprestigiado pela sociedade em geral, por profanar os ditos bons costumes
dessa mesma sociedade, no universo ficcional de Dalton são alçados à condição
de animais sagrados, os elefantes mitológicos.
O mesmo Rio Belém também aparece no título de um outro conto do autor,
“Dá uivos, ó porta, grita, ó rio Belém”, da coletânea Crimes de Paixão, de 1978. Neste caso, o rio ganha uma aura ainda
mais solene com o realce dado pelas apóstrofes e pelas prosopopéias.
Elefantes malferidos, coçam as perebas, sem nenhuma queixa, escarrapachados
sobre as raízes que servem de cama e cadeira. Bebem e beliscam pedacinho de peixe. Cada um tem o seu lugar, gentilmente
avisam (TREVISAN, 1998).
O discurso figurado persiste nas metáforas que
associam o caminhar dos bêbados, seus corpos, costumes e maneiras de se deitar
e de se sentar aos dos elefantes. Também continuam os verbos no tempo presente,
pois da mesma forma como ainda é muito forte a inclinação descritiva, permanece
a instauração da cena dramática. O chamado presente histórico confere
vivacidade e força expressiva aos eventos que se apresentam em tempo real ao
leitor. Recordemos as palavras de CUNHA (1978) sobre a escrita de Dalton
Trevisan: “No encalço de um realismo absoluto, mudou o enfoque de suas
histórias, deixaram de ser narradas para ser vividas”.
Mesmo o discurso figurado passa pelo processo de
contenção gradativa característico de Dalton, ganhando em densidade literária.
Da comparação passa-se à metáfora, que exige mais do leitor.
-- Não use a raiz do Pedro.
-- Foi embora, sabia não?
-- Aqui há pouco ...
-- Sentiu que ia se apagar e caiu fora. Eu gritei:
Vai na frente, Pedro, deixa a
porta aberta. (TREVISAN,
1998).
Os
diálogos marcam o uso do discurso direto entre os bêbados e logo na primeira
fala percebe-se, no nome do bêbado de quem falam, Pedro, a motivação bíblica do
autor. Pedro é o nome de um dos apóstolos de Cristo. Mais uma vez, portanto,
atualiza-se a tensão sagrado x profano no conto. A última fala assinala a
mudança do nível narrativo, uma vez que a personagem passa a contar o que houve
com o amigo ausente. A personagem, assim, coloca-se num segundo nível em
relação ao narrador extradiegético, e, neste segundo nível, passa a ser um
narrador intradiegético, cuja voz é homodiegética: “Eu gritei ...”. Pelo fato de a escrita de Dalton
Trevisan caracterizar-se pela concisão, podemos considerar a última fala do trecho
como uma hipounidade inserta na diegese. Vejamos o que dizem Carlos Reis e Ana
Cristina M. Lopes, no Dicionário de
Teoria da Narrativa:
Se adotássemos a concepção consideravelmente lata
proposta por Mieke Bal, teríamos que admitir que até os diálogos constituem hipounidades insertas na diegese;
deve-se reconhecer que, em certos casos, o discurso de uma personagem pode revestir-se
de um destaque e de um pendor narrativo suficientemente impressivos para que se
lhe atribua esse estatuto ... (REIS, 1988).
O destaque
do discurso da personagem, neste caso, é tão grande que concentra muitas significações.
Cumpre uma função explicativa, tanto
no âmbito da história – esclarece o ocorrido com a personagem Pedro –, como do
discurso – explica ao leitor o título do conto. Em termos de freqüência
temporal, exemplifica o discurso singulativo, pois a morte solitária dos
bêbados, que será narrada várias vezes no discurso, tal como na história, é
contada pela primeira vez na metadiegese. Não podemos deixar de apontar também
o teor figurado do discurso da personagem e o seu caráter de antecipação de eventos.
à flor do
lodo borbulha o mangue – os passos de um gigante perdido? João dispõe no
braseiro o peixe embrulhado em folha de bananeira.
-- O Cai N’água trouxe as minhocas?
-- Sabia não?
-- Agora mesmo ele ...
-- Entregou a lata e disse: Jonas, vai dar pescadinha
da boa. (TREVISAN, 1998).
As
constantes menções ao mangue, ao lodo têm a função de caracterizar o espaço da
morte dos bêbados, tal como ocorre com os elefantes, que enterram as patas no
pântano à espera de seu momento final. O parágrafo tem início com uma
construção – “Ã flor do lodo borbulha
o mangue – os passos de um gigante perdido?” _ que exemplifica o que Berta
Waldman afirma sobre a escrita de Dalton Trevisan: ... a voz do narrador e das personagens vão se interpenetrando,
forjando a construção de um espaço híbrido a partir do qual o leitor já não
distingue quem é que fala. (WALDMAN, 1989).
A
mesma construção, em função da dúvida que fomenta e das inferências que incita,
pode ser classificada como um discurso modalizado, que contrasta com o
tom objetivo e avaliativo que vinha sendo usado até então. Da mesma forma, a
focalização zero que também preponderava, na construção em estudo é
relativizada.
Nomeiam-se
outras personagens com nomes bíblicos: João, apóstolo de Jesus, e Jonas, o
profeta que tentou fugir dos desígnios de Deus. A escrita peculiaríssima de Dalton
Trevisan explica o contraponto desconcertante dos solenes nomes bíblicos com o
prosaico apelido Cai N’água. A última fala traz uma nova hipounidade
metadiegética, sem, no entanto, a riqueza da anterior.
Lá do sulfuroso Barigui rasteja um elefante
moribundo.
-- Amigo, venha com a gente.
Uma raiz no ingazeiro, o rabo de peixe, a caneca de
pinga.
No silêncio o bzzz dos pernilongos assinala o posto
de um e outro, assombrado com o farol piscando no alto do morro. (TREVISAN,
1998).
A
intenção explícita do autor de vincular seus espaços ficcionais ao seu local de
origem – Barigui é o nome de outro rio dos arredores de Curitiba – prova o que
Fausto Cunha afirma sobre o escritor: “Seu conto aspira a retirar a parede
entre a ficção e a realidade”. (CUNHA, 1978:4).
A
solidariedade e a piedade que os “elefantes” cultivam – “Amigo, venha com a gente” – acrescenta-lhes ainda mais nobreza e altivez, confirmando a
simbologia associada a esses seres.
Eis
um dos momentos em que a narração incorpora processos variados. Convivem no
trecho o discurso figurado, o discurso indireto-livre – “... ninguém perturbe
os dorminhocos”; “E, se indagassem,
para levar-lhe margaridas do banhado, quem saberia responder?” – e mesmo um
discurso voltado para o narratário – “A você o caminho se revela na hora da morte.” Na edição de 1970, a propósito, não há esse voltar-se para o
leitor virtual – “O caminho revela-se a cada um na hora da morte” – o que nos faz pensar em mais um
esforço do escritor no sentido de tornar sua escrita mais viva, já que agora
instaura um diálogo com o narratário. Neste trecho, ainda, novamente instala-se
o discurso singulativo, pois, pela segunda vez, agora no nível da diegese, é
narrado o percurso solitário de um dos bêbados para a morte.
Confrontada
com a edição de 1998, é patente, mais uma vez, a intenção do escritor de tornar
seu texto mais intrigante para o leitor, na medida em que a metáfora é novamente
buscada em substituição à comparação. A “luta pela vida”, por sua vez, manifestação
recorrente em Dalton, agora se torna absolutamente concreta, ao contrário da
primeira vez em que surge no conto, no segundo parágrafo do texto, onde a
encaramos como algo abstrato.
Surge
o único verbo no pretérito, na narração – “jamais correu sangue no cemitério
...” – mais precisamente pretérito perfeito, indicando: um momento de
onisciência do narrador, pois aqui ele demonstra seu conhecimento do que
ocorreu num tempo anterior ao narrado; o recuo ao passado, portanto, a analepse,
e o tempo posterior da narrativa, embora a quase totalidade dos verbos esteja
no presente.
Eles que suportam o delírio, a peste, o fel na
língua, o mormaço, as câimbras de sangue, berram de ódio contra os pardais, que
se aninham entre as folhas e, antes de dormir, lhes cospem na cabeça – o seu
pipiar irrequieto envenena a modorra. (TREVISAN,
1998).
O
que há de mais importante a ser destacado neste parágrafo é a imagem apocalíptica
ligada aos bichos caseiros, que “exercem uma função análoga à exercida por eles
no Apocalipse, ou seja, apenas importunam e martirizam os personagens, acompanhando
as situações extremas do
ser humano: sexo, morte e loucura.” (SANCHES, 1992). Como muito bem
observa a pesquisadora Lúcia Maria Wanderley Mano Sanches, existem certos
animais no universo daltoniano, como os pardais, no conto em estudo, que
cumprem o papel de atormentar as personagens. Exatamente como fazem os
gafanhotos bíblicos. Os pardais, assim como os pernilongos e as varejeiras, que
grudam nos pés disformes dos bêbados, são mobilizados pelo escritor para a
criação do clima apocalíptico. No conto, esses bichos do mal fazem um contraponto
curioso com os bichos do bem: os peixes, as minhocas e, claro, os “elefantes”.
Da margem contemplam os pescadores mergulhando os
remos.
-- Um peixinho aí, compadre?
O pescador atira o peixe desprezado no fundo da canoa.
-- Por que você bebe, Papa-Isca?
-- Maldição de mãe, uai ...
-- O Chico não quer peixe?
-- Tadinho, a barriga d’água. (TREVISAN,
1998).
A piedade
que une os bêbados – “Tadinho, a barriga d’água” – confirma o emblema associado ao animal na Idade Média. A mesma
piedade do pescador para com essas pessoas, que no entanto não é encontrada por
eles no seio da própria família: -- “Maldição
de mãe, uai.” De novo se opera o
encontro entre o sagrado e o profano no nome Chico – Francisco, o santo – e no
apelido Papa-Isca.
Sem pressa, aparta-se dos companheiros cochilando à
margem, esquecidos de enfiar a minhoca no anzol.
Cospe na água o caroço preto do ingá, os outros não o
interrogam: presas de marfim que apontam o caminho são as garrafas vazias
.Chico perde-se no cemitério sagrado, as carcaças de pés grotescos surgindo ao
luar.(TREVISAN, 1998).
Enriquecida
pelo discurso figurado, a narração dos
dois últimos parágrafos do texto assinala, pela terceira vez, a caminhada de um
dos bêbados em direção ao fim. A freqüência desse caminhar para o “cemitério” é
singulativa, porque o fato acontece três vezes na história – sendo a primeira
no nível da metadiegese – e três vezes no discurso. Nesta última vez, porém, o
leitor de fato acompanha o percurso ao cemitério – “... presas de marfim que
apontam o caminho são as garrafas vazias. Chico perde-se no cemitério sagrado,
as carcaças de pés grotescos surgindo ao luar”
– o qual ao longo da narrativa
vai se insinuando, primeiro no discurso da personagem, depois na discreta retirada
de um deles, até a narração que compõe a cena de tal forma, que o leitor
testemunha o caminho e o destino final.
CONCLUSÃO
Une os
três contos analisados a mesma degradação humana através da bebida. No conto de
abertura do livro, significativamente intitulado “O primo”, o marido Bento descobre,
na primeira noite, que Santina não era virgem. Euzébio, o primo, o primeiro,
tirara-lhe a virgindade à força. Por
causa disso, o marido ofendido muda, passa a ser violento e a beber. Ao se
encontrar com o motivo de sua raiva à porta do botequim, “Bento desprendeu o
braço e, cego pelo temor da pálpebra, encontrou na cinta o punhal.” O conto “Os botequins”, traz José , o
freqüentador assíduo de bares que, de tão apartado do mundo, entregue ao seu
vício e a um cotidiano sempre igual, observa impassível o suicídio de um outro
solitário como ele. “Não era hora de ir para casa”, porém, era tempo “de achar
outro botequim e começar outra vez.” No
último conto, “Cemitério de Elefantes”, encontramos novamente os bêbados,
metaforizados nos animais sagrados que caminham solitários, todavia, dignos,
para a morte.
O
escritor Dalton Trevisan possui essa inclinação: expõe os marginalizados – bêbados,
prostitutas, gordas , maridos traídos, mulheres adúlteras, órfãs – insistentemente,
de modo que é possível enxergar na repetição de tais personagens a simpatia por
essa gente. O narrador de “Cemitério de Elefantes” inúmeras vezes demonstra
isso e, não por acaso, João Antônio escreveu um dos estudos mais contundentes
sobre o autor. Ele próprio também é simpatizante da causa desses indivíduos sem
futuro, entregues à própria sorte.
A
insistência do escritor nos mesmos temas e nas mesmas personagens parece
conduzi-lo para o que Modesto Carone vislumbra nesta obra singular: ... os contos do autor curitibano lembram
variações em torno de um único conto
original, mostrando, portanto, todas as características de um sistema fechado.
(CARONE, 1989).
O mesmo
crítico também pondera sobre o efeito de estranhamento que os textos de Dalton
causam:
Seria possível, então, imaginar que os contos de
Dalton, apesar da proximidade que mantêm com o seu material, instituem um outro
princípio de realidade através do estranhamento. Pois é só enquanto quebra com
o existente que a ficção realiza sua função cognitiva, o mais das vezes
comunicando verdades que não são transmissíveis de outro modo. É nesse sentido
que ela contra-diz, e é nesse sentido também que ela é subversiva. (CARONE, 1989).
Daí a inquietação que os contos
daltonianos provocam em seus leitores.
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Reedições recentes e importantes. Importância das redescobertas. O Vampiro de Curitiba – livro-chave..” In: 22 diálogos sobre o conto brasileiro atual. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1973.
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