RECORDAÇÕES DO TEMPO ESCOLAR EM UMA
PROFESSORA MUITO MALUQUINHA
FERNANDES, Célia Regina Delácio
UNICAMP/FAPESP
Este artigo pretende mostrar algumas estratégias na
organização temporal da narrativa de Uma
professora maluquinha (1995), com texto e ilustrações de Ziraldo Alves
Pinto. O estudo de tais estratégias é importante porque revela os efeitos de
sentido produzidos na construção do relato.
A narrativa tematiza as recordações escolares de um
grupo de ex-estudantes. O tempo da narração é diferente do tempo do narrado, ou
seja, a história já aconteceu e está sendo relatada agora através da evocação
do tempo vivido que se presentifica ao leitor. Embora a narrativa procure seguir
a linearidade do ano letivo escolar, a temporalidade do mundo narrado
apresenta-se fragmentada.
Os acontecimentos são
selecionados através da memória dos narradores, que registra aquilo que foi
importante na vivência de cada um. Tal maneira de contar pode ser confirmada no
próprio relato: “Nós a estamos revendo aqui, através das lembranças mais fortes
de cada um”. (PINTO, 1995:80)
A
narração começa com o clássico “Era uma vez” das narrativas orais, situando a
história num tempo indeterminado. Tal recurso permite ao leitor situá-la em
qualquer tempo de sua imaginação para identificar a personagem com qualquer professora
que tenha ficado em sua memória. Após o término da narrativa, no entanto, o
autor escreve e assina um posfácio em que contextualiza o tempo histórico dos
eventos narrados:
Nossa
história se passa em meados da década de 40, a guerra acabando na Europa, Bing
Crosby cantando Night and Day, Carmem
Miranda, com o coração balançando entre
Cesar Romero e Don Ameche, Francisco Alves, na carícia de um beijo, cantando ao
meio-dia Boa Noite, meu Amor!
As
revistas do mundo inteiro, as artes gráficas, os anúncios, a arquitetura, a
moda, todo mundo se esqueceu da estética daqueles anos, os anos gloriosos do kitsch.
Neste
livrinho, porém, pude me divertir desenhando e compondo suas páginas como eu achava
que ia desenhar quando crescesse. O Brasil daquela época tinha inúmeras
revistas de leitura e grandes ilustradores: Mauro (Enrico Bianco), Jerônimo Monteiro,
Orlando Mattos, Oswaldo Storni, Arcindo Madeira, Moura, Percy Deane; eu queria
ser como eles. (PINTO, 1995:119)
Se,
por um lado, a narração textual não traz nenhuma datação referente ao período
histórico da narrativa; por outro, a narração visual é plena de referências: um
fragmento de jornal, embora sem data, anuncia a batalha final dos EUA contra o
Japão (p.21); a reprodução da capa da revista Careta mostra a data de 3 de março de 1945 (p.28); a manchete do pasquim A Manha é de 27 de abril de 1946 (p.30); a capa do almanaque Seleções do Reader’s Digest marca
fevereiro de 1946 (p.31) e, ainda, a voz, saindo do rádio através de balões,
apresenta notícias da II Guerra Mundial – “Stalingrado não caiu!”, “Os aliados
desembarcam na Normandia” e “Recrudesce a Guerra no Pacífico” (p.78)
A duração dos acontecimentos narrados é de
aproximadamente dois anos. O primeiro ano relatado começa com a entrada da
professora na sala e segue com a recordação das atividades escolares. O segundo
ano é registrado com o aparecimento de outra professora, que assume o lugar da
Professora Maluquinha, e prossegue com as aulas de reforço dadas no quintal da
casa da primeira professora até a fuga dela com o namorado. Ainda que não haja
informações sobre a série escolar rememorada ─ a dedução disso fica por
conta do leitor ─, há indícios de que seja a segunda série do primário
porque os alunos já foram introduzidos no mundo da leitura:
Nós
tínhamos acabado de descobrir o segredo das letras e das sílabas; já sabíamos
escrever nossos nomes, ler todos os letreiros das lojas, os cartazes do cinema,
as manchetes dos jornais e os títulos dos anúncios nas revistas, quando ela
chegou em nossas vidas. (PINTO, 1995:21)
O
tempo das atividades escolares não segue o ritmo do relógio, mas obedece à lógica
interna da descoberta do conhecimento. A primeira atividade proposta pela professora
foi que cada aluno escrevesse o nome inteiro do outro colega. Depois, ela
embaralhou todos os nomes e solicitou que os alunos os arrumassem de acordo com
a ordem do abecedário. Apesar de a atividade ter demorado bastante, o depoimento
dos alunos ─ aos leitores/ouvintes evocados no comentário entre travessões
─ reconhece que foi importante para treiná-los com dicionários e
catálogos:
Gastamos
quase a aula inteira só para descobrir que o nome de um colega nosso chamado
Pedro da Silva Marins tinha que ficar na frente do nome de outro colega que
─ imaginem só! ─ chamava-se Pedro da Silva Martins. Em compensação
ficamos craques em dicionários e catálogos. (PINTO, 1995:24)
O
tempo é marcado pela subjetividade dos narradores, que selecionam os acontecimentos
escolares marcantes, tais como: o jogo
da Forca, o jogo do Começo, o jogo da Rima, Caça-palavras, os julgamentos,
etc.: “Nas aulas seguintes ela resolveu dividir a classe em dois times. Nós
adoramos!” (PINTO, 1995:25); “A gente adorava aqueles julgamentos. No final do
ano, quando já líamos tudo, ela achou melhor que as defesas e as acusações
fossem feitas por escrito. É que o júri era muito barulhento.” (PINTO,
1995:40).
A
rapidez com que a professora conquistou os alunos é enfatizada pela repetição
enfática da palavra logo: “Ela
conquistou tão depressa todos nós que, logo, logo, já havia meninas chorando no
seu colo.” (PINTO, 1995:33)
A
narração utiliza-se de algumas estratégias na organização temporal da
narrativa, que quebram a linearidade do relato, com o objetivo de prender a
atenção do leitor. Observam-se, a seguir, alguns exemplos significativos que
elucidam essa artimanha.
Há,
na página 33, o caso da evocação de um fato que só acontecerá no final da história,
precisamente nas páginas 109, 110 e 111. Essa estratégia remete o leitor ao
futuro da narração, através do recurso da antecipação na ordem temporal,
criando nele uma expectativa que o leva a continuar a leitura para saber qual é
o código e também o segredo da Professora Maluquinha:
Havia
segredos que pertenciam somente a elas, e eram tantos que a professora acabou inventando
um código para trocar bilhetinhos secretos com as meninas. Houve um dia, porém,
que elas tiveram que revelar seu código. Foi quando um grande segredo da
Professora Maluquinha teve que ser repartido por todos nós.
Mas
isto aconteceu muito tempo depois. (PINTO, 1995:33)
Outro exemplo importante de ruptura com a ordem dos
fatos narrados é a antecipação da demissão da professora, que pode ser inferida
através da intrusão subjetiva dos narradores. Nesse trecho, o empenho diário da
professora para motivar a leitura dos alunos é contrastado com a antecipação de
uma ocorrência futura:
A
cada novo dia era um poema diferente. E o rolo girando mais depressa. E ela dizia:
“No dia em que vocês estiverem lendo com a velocidade de um locutor de rádio,
eu posso ir embora para casa”. Tadinha! Mal sabia ela que iria embora muito
antes disso! (PINTO, 1995:56)
Essa ocorrência será confirmada, após a leitura de
vinte e duas páginas, com a troca da professora: “Quando as aulas começaram, no
ano seguinte, não era ela que estava sentada na cadeira, atrás da mesa, sobre o
estrado, diante do quadro-negro.” (PINTO, 1995:98)
Na explicação da ausência de motivos da implicância
do Padreco com a professora, citada no
fragmento abaixo, a narração volta para um passado distante ─ a infância
da professora ─ e convida o leitor a conhecer uma realidade que se passou
antes da história relatada. Esse recurso envia o leitor ao passado e depois o
traz de volta para o presente da narrativa através da combinação entre o
dêitico agora e o tempo verbal do
passado (imperfeito):
Ninguém
entendia a implicância do Padreco. Quando menino, era ele que tomava conta da
Professora Maluquinha menina: saía com ela pra passear pelo campo, fazia
bonecas de pano pra ela brincar, ensinou-a a assobiar e a rodar pião. Agora, depois
de grande, ficava naquela enjoança. (PINTO, 1995:48)
A duração dos eventos no desenrolar da ação é
bastante rápida ─ a narrativa traz
inúmeras recordações escolares, que se sucedem como flashes no espaço visual e textual. Em cada página, às vezes em
duas ou três no máximo, o leitor se vê diante de uma nova situação. Essa
velocidade narrativa parece visar a um público já acostumado a ler histórias em
quadrinhos, assistir a filmes na TV e no cinema.
Apesar dessa rapidez na sucessão das ações,
entretanto, alguns eventos ─ que aconteceram várias vezes e são contados
uma única vez ─ apresentam-se narrados com uma duração alongada (NUNES, 1988:35). A leitura
como prática diária, por exemplo, é marcada por um longo tempo de duração,
revelando uma ação freqüente muito importante. Vejam-se alguns exemplos:
Esta festa foi repetida várias vezes. Havia sempre uma frase diferente e um prêmio
novo para quem a lesse mais depressa. E cada dia líamos com mais rapidez, pois
descobrimos que ler era uma alegria. (PINTO, 1995:37)
E
tinha a Semana do Silêncio. Era quando ela vinha para a classe, abria sobre a
mesa um romance água-com-açúcar e ficava lendo o tempo todo. Nós ficávamos
muito, muito caladinhos.
É que a gente ficava lendo nossas revistinhas (...).
(PINTO, 1995:43-4)
(...)
Tratamos até de melhorar nossos hábitos de leitura só para entender os versinhos
do poeta do BB.
Eram
horríveis. Nós tínhamos que sentar no banco do jardim para, em longos exercícios
poéticos, melhorar a qualidade dos seus versos. No final do ano, ele já estava
fazendo o maior sucesso com sua amada. (PINTO, 1995: 50-1)
A
professora estava lendo para nós, cada dia, um capítulo das Desventuras de Sofia, da Condessa de
Ségur, seu livro preferido da Coleção Rosa. (PINTO, 1995:52)
Além da prática da leitura, as narrativas orais em
sala de aula e também a expectativa de exibição do filme “Cleópatra” no cinema
são narradas num tempo de duração alongada,
destacando esses acontecimentos: “Pois falamos tanto que as histórias que ela
contava pareciam um filme, que teve o dia do cinema” (PINTO, 1995:63) e
“Durante semanas a gente só falou do filme”. (PINTO, 1995:64).
Os
narradores revelam ao leitor de um mundo globalizado, em que os filmes são
lançados simultaneamente em toda a parte do mundo, a demora que o filme levava até chegar a uma cidade do interior:
“Os filmes demoravam anos pra chegar de Hollywood até nossa cidadezinha. Eis
que um dia chegou Cleópatra, a Rainha do
Nilo. Com Claudette Colbert!” (PINTO, 1995:63)
O
filme, veículo da cultura de massa, torna-se recurso de motivação da aprendizagem
dos alunos. As referências cinematográficas infiltram-se na vida da protagonista
e são incorporadas aos conteúdos de suas aulas:
Durante
semanas a gente só falou do filme. Com um desenho e um filme, já estávamos conhecendo
mais História Universal do que com todas as coisas escritas no livro adotado
pela escola. E que ainda não tinha sido aberto por nós. Nem por ela.
Ela
falou sobre romanos, sobre deuses egípcios, sobre pirâmides e serpentes. Mas
falou mais da Claudette do que da Cleópatra. É que a Claudette Colbert era a
sua ídola. Mais do que ela só o Cary Grant, cujas fotos, cortadas da Cena Muda,
cobriam a parede do seu quarto. (PINTO, 1995:64-5)
A
cidade não oferece muitas alternativas culturais aos seus habitantes. Em nenhum
momento o texto se refere à existência de uma biblioteca municipal ou escolar.
No entanto, em Uma professora muito
maluquinha, através das alusões a outras obras de literatura e revistas,
pode-se resgatar o que se lia na escola naquele período. Essas referências funcionam como uma memória de leitura
escolar da década de 40: ”É que a gente ficava lendo nossas revistinhas, nossos
tico-ticos e gibis ─ já tinha menino lendo até Tarzan ou O Espírito ─
além de outras revistas que ela mesma trazia de casa pra nos emprestar”.
(PINTO, 1995:44) A censura que a escola fazia às histórias em quadrinhos
─ produção característica da cultura de massa ─ é tematizada no
texto. A leitura desse gênero era proibida pelo professor de catecismo:
“Segundo o Padreco, gibi era pecado!” (PINTO, 1995:46). Mas, os alunos, com a
cumplicidade da Professora Maluquinha, conseguiam burlar a censura: “Então, de
repente, o Padreco batia na porta. Rápido, rápido ─ sob o comando da
professora ─ a gente dava cambalhotas na carteira para esconder as
revistinhas, antes que ele entrasse na sala.” (PINTO, 1995:45)
A inclusão
do cinema hollywoodiano ─ assim
como da história em quadrinhos ─, na prática escolar dos anos 40, deixa
transparecer a invasão dos produtos norte-americanos no mercado brasileiro. O
combate do professor Padreco contra as histórias em quadrinhos nessa narrativa
representa o posicionamento dos educadores que, nessa época, principiaram a
censura dessa produção cultural por acreditarem em sua influência prejudicial à
formação do jovem. (LAJOLO & ZILBERMAN, 1986:132)
A Professora Maluquinha, ao contrário dos educadores
seus contemporâneos, emprega esses veículos como recursos, entre outros, no
processo ensino-aprendizagem, para
incentivar a leitura e, ao mesmo tempo, ignora os meios convencionais do
período como, por exemplo, o livro didático e os deveres para casa.
O cenário da ação é quase que exclusivamente o
interior de uma sala de aula. Entre quatro paredes, com poucos recursos e muita
criatividade, a Professora Maluquinha transforma a sala de aula num espaço de
prazer, que se diferencia das demais pelo barulho, riso e alegria, incomodando
a disciplina imposta na instituição escolar: “E era tanto barulho na sala; e
era tanto riso e tanta alegria que lá vinha a diretora saber o que estava
acontecendo: ‘Vocês estão prejudicando as outras classes’. “ (PINTO, 1995:32)
As surpresas reservadas na leitura do quadro-negro
motivavam a corrida dos alunos para entrar na sala de aula antes mesmo de
ouvirem o sinal. É interessante notar que, no contexto escolar, geralmente, a
farra dos alunos dá-se quando toca o sinal de saída; no entanto, aqui se opera
uma inversão: “No dia seguinte, antes da sineta tocar para o início das aulas,
nós todos já estávamos amontoados em frente à porta da sala. Foi só ela se
abrir que todos entraram sala adentro, como invasores bárbaros. Uns bárbaros
que já sabiam ler.” (PINTO, 1995:36)
O espaço do lazer dos alunos ─ o recreio no
pátio ─ é trocado pelo espaço da
sala de aula, o que permite ao leitor concluir o prazer imenso proporcionado
pela alegria de aprender e entender o motivo de espanto das outras professoras:
“As velhas professoras não entendiam nada. ‘Os alunos dela acham melhor ficar
na sala de aula do que brincar no recreio.’ E repetiam: ‘Essa menina é mesmo
muito maluquinha’.” (PINTO, 1995:38)
Mas nem só de alegria e entusiasmo é feita a vivência
do tempo escolar, há também o tempo de tristeza, modificando o ambiente da sala
de aula ─ o barulho transforma-se em silêncio. A mudança de humor da professora é sentida e respeitada pelos
alunos:
Havia
dias, porém, em que ela chegava na sala com um bico maior do que o de um
tucano. Então, seus olhos ficavam perdidos no ar e, muitas vezes, seu olhar,
como uma flecha, atravessava o peito de um de nós e seguia em frente, dirigido
a lugar nenhum.
Quando
isso acontecia, a turma ─ parecendo coisa combinada ─ ficava calada,
quietinha, fingindo que estudava tabuada. Ou até estudando mesmo. (PINTO,
1995:69-70)
Nos
dias em que a professora não está feliz, sua expressão, suspiros e poemas contagiam
o lugar com a tristeza e os alunos ficam silenciosos. Quando ela consegue
superar a crise, entretanto, a imagem da sala transforma-se poeticamente em
primavera, voltando a incomodar a autoridade repressora:
A sala, então, virava primavera
e a turma voltava a cantar
e a saudar com tal ardor o seu retorno
que era preciso
a intervenção da diretora,
que abria a porta
da sala, de repente,
e gritava para dentro:
“Vamos parar
com essa felicidade aí!”
(PINTO,
1995:75)
A passagem do tempo é relatada como o ciclo da vida;
os narradores se vêem diante da morte do Padre Velho, que é abordada com
naturalidade: “Um dia, o Padre Velho morreu. Ele já era mesmo muito velhinho,
tadinho, mas ninguém se lembrava de morte quando estava a seu lado.” (PINTO,
1995:90). A morte do protetor da Professora Maluquinha anuncia o final do ano
letivo e surpresas para o próximo: “O ano, como tudo na vida, estava chegando
ao seu final. Para a nossa professorinha, tudo estava apenas começando. (PINTO,
1995:92)
Como
balanço de aprendizagem do ano escolar, os narradores fazem duas listas em
página dupla: na esquerda, mencionam as coisas que aprenderam e, na direita, as
coisas que não aprenderam nas aulas da Professora Maluquinha. As listas encontram-se
incompletas, podendo, assim, serem completadas pelo leitor. Ao virar a página,
o ensino da história factual ─ através da memorização de datas ─ é
colocado como mais um item da aprendizagem desnecessária: “O Duque de Caxias
nasceu no dia 25 de agosto de 1803 e faleceu no dia 7 de março de 1880. A gente
não sabia” (PINTO, 1995:96). Essas listas mostram concepções diferentes de educação
e revelam o posicionamento teórico da Professora Maluquinha para o leitor: a
primeira representa a transmissão dos conteúdos intelectualistas e livrescos da
escola tradicional; a segunda, representativa da escola renovada, valoriza os
conhecimentos importantes para o uso da vida, cuja abstração resulta da
experiência do próprio educando. Apesar de os alunos aprenderem esses
conhecimentos, todos são reprovados nas provas de fim de ano.
O
próximo ano letivo é marcado pela
entrada em cena da nova professora que, já no primeiro dia de aula, pune
a turma por ficar lendo em horário de aula. Os alunos, porém, surpreendem a
professora ao fazerem as cópias em menos de meia hora, demonstrando grande
habilidade com a escrita:
Tivemos
todos que ficar depois da aula e escrever cem vezes, cada um, a frase: “Prometo
prestar atenção nas lições e não ficar me distraindo na hora da aula”. Ela
mandou o regente tomar conta da turma e foi lanchar. Quando voltou, meia hora depois,
nós todos já tínhamos ido para casa.(...) (PINTO, 1995:100)
O ano prossegue marcado pela saudade da Professora
Maluquinha. A possibilidade de os alunos continuarem a ter aulas com ela
aparece na sala através de um cartaz
com o anúncio de “Aulas de Reforço”. No relato das aulas de reforço,
contando uma vez o que acontecia todos os dias, a evocação dos narradores elege
um fato extracurricular como sendo o momento favorito e traz ao público a
figura do boêmio que cantava boleros:
O melhor
momento do curso era quando, do outro lado do muro, o dia já amanhecido de
todo, a gente ouvia o assobio do boêmio voltando da noite. Era um ritual: ouvia-se
a porta da casa dele se abrir, as queixas conformadas da mãe e, logo seguir, o ruído do chuveiro e a voz do
boêmio: “Das almas que en el mundo...” (PINTO, 1995:103)
Para contarem a fuga da professora com o namorado, os
narradores criam toda uma atmosfera de expectativa na descrição subjetiva desse
momento. O fato ocorre numa manhã indeterminada que, através de suas
características, anuncia que alguma coisa diferente aconteceu. O emprego do
tempo verbal no presente narrativo, no início do parágrafo, produz um efeito de intensidade dramática e
proximidade:
Uma certa manhã, quando acordamos para ir à aula,
sentimos que havia no ar alguma coisa diferente. As nuvens deviam estar mais
baixas do que de costume, o tempo parecia ter peso, a manhã tinha ficado uma
coisa pegajosa, incômoda, a cidade estava sem sons. (PINTO, 1995:106)
Nas palavras finais dos narradores, entretanto, os
marcadores temporais hoje e agora fazem referências ao presente da
narração. Esses dêiticos sinalizam para o leitor que o momento da
escritura é diferente do tempo em que a
história narrada aconteceu:
Meu Deus,
quantos anos se passaram! Nós todos, seus alunos, somos hoje muito, muito mais
velhos do que aquela professorinha. Estamos todos, agora, com idade bastante
para ser seus avós, se ela tivesse ficado, para sempre, do jeitinho que está
fotografada em nossa memória, aprisionada no tempo. (PINTO, 1995:112)
Após
finalizar a história, o grupo de narradores faz uma espécie de considerações
finais do livro, destacando aos leitores a inovação no processo de escritura
coletivo. As cinco vozes presentes no texto reforçam a originalidade de sua
descoberta, trazendo ainda outras vozes para dentro do texto:
E
acabamos de descobrir que este é o primeiro livro que conhecemos escrito no plural.
No
plural da primeira pessoa. Achamos graça na descoberta e concordamos com nossa
professora e com o Tom Jobim: “É impossível ser feliz sozinho”. (PINTO,
1995:113)
Percebe-se que as personagens que narram não são as
mesmas que viveram aquela experiência. A compreensão da metodologia da
professora, no excerto a seguir, é feita pela perspectiva dos narradores
adultos. O marcador agora recupera a
instância narrativa, remetendo o leitor para o momento de produção do texto. Os
inúmeros concursos promovidos pela professora não eram para exaltar o melhor
aluno da classe, mas uma maneira de
valorizar a qualidade de cada aluno.
Só agora percebemos que, primeiro, ela
descobria uma qualidade destacável de cada um de nós e aí, então, inventava o
concurso, segura de quem seria o vencedor. No fim do ano, todo mundo tinha
ganho uma medalha. O último, parece, ganhou o primeiro lugar em cuspe a
distância. (PINTO, 1995:83)
Dessa
maneira, o livro pode ser classificado como subgênero “memórias”, pois os
narradores já adultos se remetem ao tempo escolar para evocar as lembranças de
uma professora inesquecível, que deixou marcas profundas, adquirindo importância
crucial em suas vidas.
A
partir do estudo da organização temporal de Uma
professora muito maluquinha, pode-se concluir que o livro ao tematizar
recordações escolares coloca em relevo a figura da professora e de seu
importante papel na formação de leitores, eternizada na memória de seus
ex-alunos, agora narradores: “Sua presença em nossa memória, ao longo de nossas
vidas, ajudou-nos a construir nossa própria felicidade.” (PINTO, 1995:113)
LAJOLO,
M.; ZILBERMAN, R. Um Brasil para
crianças: para conhecer a literatura infantil brasileira: histórias, autores e
textos. São Paulo: Global, 1986.
NUNES,
Benedito. O tempo na narrativa. São
Paulo: Ática, 1988.
PINTO, Ziraldo Alves. Uma
professora muito maluquinha. São Paulo: Melhoramentos, 1995.