O LEITOR
MEDIADOR NA JANELA DUAL
Este texto tem por objetivo apresentar, por meio do resgate
da dialética das homologias entre o poema Noturno
da rua da Lapa de Manuel Bandeira e o quadro A condição humana II de René Magritte, uma leitura comparativa.
Nesta, pretende-se recuperar os aspectos da realidade, próprios do século XX,
que tanto Bandeira quanto Magritte percebem e
traduzem em texto e imagem. E, ainda, identificar qual é o papel do
leitor enquanto receptor dessas poéticas. Para a consecução dos objetivos,
busca-se as estruturações de linguagem comuns e diversas a cada uma das artes
em suas realizações individuais.

A
condição humana II, 1935.
Quando o jacto
fumigatório partiu, nada mudou
em mim; os
sinos da Redenção continuaram em silêncio;
nenhuma porta se
abriu nem fechou. Mas o monstruoso animal
FICOU MAIOR. Senti
que ele não
morreria nunca mais, nem
sairia, conquanto não
houvesse no aposento
nenhum busto de Palas,
nem na minh’alma, o que é
pior, a recordação persistente
de alguma extinta Lenora.
À primeira
leitura do poema de Manuel Bandeira e do quadro de Magritte percebe-se o efeito
geral produzido pelo aspecto visual de uma cena, na qual se desloca o olhar que
perpassa por ‘janelas’ e ‘portas’ dispostas em cenários, compostos por espaços
internos e externos, nos quais palpita pelo desvio – principal recurso do
surrealismo – a morte como essência da
condição humana.
O poema Noturno da rua da Lapa apresenta-se como
processo narrativo que veicula imagens visuais. As funções da linguagem
predominantes nele são a expressiva e a
poética. Há um trabalho estético no qual a poesia impressiona pela mistura do
épico e do lírico: ao mesmo tempo que se representa a vida moderna no que ela
possui de mais novo e mais chocante, confidencia-se os sentimentos mais íntimos
do seu autor. Assim, o caráter prosaico marca o deslocamento da noção de
poético; o tratamento novo e chocante da matéria que implica a mescla de
gêneros entre o épico e o lírico. Há uma voluntária pobreza no tratamento
artístico, objetivando-se que, com a
‘inspiração’ proveniente do drama da vida real, se conserve a ‘fluidez’
originária das palavras. Por meio delas, propicia-se ao leitor esse ‘estado de
poesia’ como efusão lírica capaz de suscitar ‘tranferências intuitivas’ para
dentro da própria experiência de quem lê. O próprio título, o emprego conciso e
limpo da linguagem, e, o choque do insólito rompem com toda expectativa por
parte do leitor de deparar-se com um produto de uma ‘elevada’ inspiração poética.
Como resultado tem-se em cada linha uma composição descritiva, dinâmica. Cada
uma eqüivale literalmente a um retorno, a uma retomada do olhar, nunca ao mesmo
ponto, a partir de diferentes ângulos que compõem o todo de um único cenário: o
quarto.
Ao ler o
poema, o leitor depara-se com cenas móveis, pois dinâmicas, para apreendê-las,
ele deve aceitar o jogo de percorrer o poema como quem trilha caminhos na companhia
do ‘narrador lírico’. Em um primeiro momento, no primeiro parágrafo, o ‘olhar’
do leitor ‘entra’ pela ‘janela aberta’ como quem participa de um fato ou vê uma
imagem comum que lhe transmite uma impressão de realidade.
Em um segundo
momento, no segundo parágrafo, graças à função expressiva centrada no ‘eu’, o
olhar recai sobre o ‘narrador lírico’. Realiza-se então uma mudança de foco,
antes o olhar estava centrado no alto da janela, neste momento centra-se no
baixo, no ser dentro do quarto.
No terceiro
parágrafo, terceiro momento, o olhar centra-se ao mesmo tempo, em um relance,
no bicho voador, no ‘implacável’, e, no
quarto invadido por este. Neste momento surge o desconforto intelectual, pela
presença do repugnante. Graças ao ‘articulado’, ‘implacável’, o olhar deve
rearticular os três primeiros parágrafos, marcadores de três momentos
diferentes. Só então, o leitor dá-se conta
da traição: nenhum inseto tão implacável entra voando pela janela de um
quarto situado em cenário urbano. Percebe-se, pelo emprego da hipérbole, que há
necessidade neste momento de um distanciamento. Então retoma-se o cenário –
palco da cena narrada – pela retomada do título. Este insere os fatos narrados
em um contexto social determinado pelo geográfico, pela localização em que o
quarto se insere: na rua da Lapa. Retomando-a, o leitor julga ter recuperado
pela coesão a coerência textual, uma vez que
se justificam no cenário os acontecimentos
narrados.
A rua da Lapa
localiza-se em um bairro pobre, barulhento, onde convivem indivíduos moradores
do bairro que a contém e outros que a frequentam em busca de prazeres que metonimicamente essa rua representa. Como
resultado disto chega ao quarto os ‘ventos dos lupanares’. Extensa e repleta de
esquinas nas quais o vento se quebra em curvas, essa rua é agitada, moderna,
e por ela passam os elementos mais heterogêneos
de diferentes classes sociais, profissões e níveis culturais.
Os olhos do leitor prosseguem então para o quarto parágrafo,
centram-se novamente no ‘eu lírico’, e, na sua angústia provocada pela ausência ‘de possibilidade de evasão’ paradoxalmente determinada
pela presença do inseto. O
desconforto cresce, ciente disto o próprio ‘narrador lírico’ sugere a contenção
na possibilidade de realização de uma performance graças a um objeto
mágico; ‘a bomba de flit’. Com o
inseticida que ela contém, ele pode matar o inseto. Logo ele é competente,
detentor de um poder e de um saber.
Encaminha-se o olhar para o quinto parágrafo, em seu quinto
momento, a performance proposta no quarto realiza-se, o ‘narrador lírico’
aciona o ‘jacto fumigatório’. Entretanto, este
não recai sobre o articulado. A sanção não é a esperada, uma vez que a
performance é desestruturadora, o jato não foi disparado na direção do inseto,
mas pela construção sintática do período composto por subordinação, na direção do ‘eu lírico’: ‘Quando o jacto
fumigatório partiu, nada mudou em mim;’. O leitor consegue então perceber que o
inseto se incorporou ao ‘eu’, não há inseto então. Move-se o olhar atordoado
pela paranóia proposta e constata-se pelo discurso do ‘narrador lírico’ que não
há porta aberta. Aliás, nem no quarto nem em lugar algum: ‘nenhuma porta se abriu
nem fechou’. O olhar volta-se para o animal que plasticamente ‘ficou maior’. Há
uma tomada aberta panorâmica cinematográfica de todo cenário: ‘não há no
aposento nenhum busto de Palas’. Ecoam neste momento arquétipos de Edgar Allan
Poe, do poema O corvo, e, na mente do
leitor ressoa a frase: ‘nunca mais’. Ela representa a resposta às interrogações
do ‘narrador lírico’ e do leitor: há possibilidade de reversão da metamorfose,
de humanização, de deixar de morrer, de
degradar-se, de esfacelar-se?
Entretanto, as perguntas remetem a um único tema: possibilidade de futuro. A resposta está
dada, as portas estão fechadas, só resta o silêncio implacável.
Inicia-se, neste momento, a entrada do olhar por um espaço
mais interno ainda, entra-se pelo interior, agora metaforicamente transformado
em palco, do narrador: ‘minh’alma’.
Graças a esse recurso produz-se sempre um ângulo novo no mesmo cenário:
o quarto. Justapõe-se neste várias faces: uma janela, uma porta fechada, um
homem, um inseto, e, uma alma. Mas todos os elementos, diversos, fundem-se pela
metáfora e pelo arquétipo do próprio cenário: o quarto de Gregor Samsa, criado
por Franz Kafka, na obra A metamorfose.
Mas o quarto não existe, ele é metáfora
do universo interior, a alma do ‘eu lírico’. Este ciente de sua condição de
desumanização vê entrar em sua ‘janela’ o implacável, o causador da
desumanização. Mas não há janela. Resta
ao leitor refletir sobre a catracrese; como se trata da alma do narrador
lírico, trata-se da ‘janela dela’: o
olho. É pelo olhar do ‘narrador lírico’, situado a princípio na janela, que
entram os fragmentos do mundo de fora, produtores de seu aniquilamento de forma
implacável. E, não há porta aberta: imagem icônica de espaço para a fuga, de
evasão ou de entrada de outros seres. Ela está fechada, todas estão quando se
trata dos problemas que afligem a alma humana, ninguém pode chegar até eles,
ninguém pode fugir deles, pois ‘nenhuma porta se abriu’. Entretanto, o ‘eu
lírico’, ainda vive, os ‘sinos da Redenção’ não tocaram. A metonímia em ‘sinos
da Redenção’ retoma o papel da Igreja que impotente diante da metamorfose só
tem uma performance a realizar: anunciar com outro elemento metonímico – ‘os
sinos’ – a morte. Resta para o leitor a sensação de sufocamento, ele termina
como o ‘eu lírico’ sem possibilidade de evasão porque justamente se identifica
com este como ser humano com problemas da ‘alma’, que só agora lhe ocorreram pela ‘razão’, ou melhor, pelo salto
dialético para a realidade. Logo, predominam no texto diversos elementos
sinestésicos que propiciam sensações como: audição, visão, olfato e tato.
Todos, metonicamente dados a ver por fragmentos, compõem a sensação de fobia no
leitor.
Deste modo, o poema de Manuel Bandeira apresenta, segundo
Gonçalves (1989), isomorfismo, isto é, identidade formal da estrutura do
poético com outros sistemas. Ele
apresenta a criação de uma poesia para o olho que só é possível frequentar
se houver predisposição do leitor em,
desautomatizar o olhar, reconhecer uma dimensão integradora do signo
verbal: a sua potencialidade icônica. Essa forma de integração na poesia de
Bandeira dá-se por meio do processo de alegorização, que se leva a que o leitor
pense uma coisa qualquer considerando outra coisa qualquer de semelhante, é o
papel da metáfora e o que a define: a dualidade. Bandeira consegue pelo recurso
do emprego da metáfora composta pela interação de um complexo de palavras
recriar, nomear o inominável, ‘o implacável’. Assim imagens visuais se
articulam de modo especial, de acordo com Gonçalves (1989),num complexo de índices icônicos. Elas rompem com o referente de
que partem e sugerem ou criam outros não identificáveis de modo imediato.
Manuel Bandeira escreve Noturno
da rua da Lapa em 1920, mas publica em 1930. O poema pertence à obra Libertinagem caracterizada pelo
‘não-me-importismo’ irônico e melancólico, e, pelo erotismo presente em poemas
de surpreendente singeleza formal. O poema é, graças ao desvio, a um só tempo,
mensagem e código de um corte metafísico na condição humana, carnal e finita,
no entanto, presa a um lancinante anseio de transcendência. Tanto na obra
Libertinagem quanto no poema, ambos de inspiração absolutamente modernista,
pode-se observar a presença do biográfico, uma vez que Bandeira realmente morou
na Lapa, no Rio de Janeiro. E, ainda, o poema revela, como a obra que o contém,
a ampliação do próprio conceito de literatura, na qual se processa o movimento
que enlaça sujeito e objeto; onde, o vivido se transmuda por palavras em
poesia.
Logo, o poema e a obra Libertinagem
oscilam entre um fortíssimo anseio de liberdade vital e estética e a
interiorização cada vez mais profunda dos vultos familiares e das imagens
brasileiras cujo halo místico Bandeira deverá, em parte, ao convívio intelectual
com Mário de Andrade e Gilberto Freyre.
O ressaltar dos valores culturais brasileiros sob a ótica do
fortalecimento de uma realidade mesclada por elementos fundidos em expressões de nacionalismo, no Hino da
Bandeira, de sensualidade, ‘ventos dos lupanares”, e, da situação de dependência
econômica e cultural do país – ‘bomba de flit’ – representada pela invasão da
cultura americana presente no vocábulo flit,
bem como, a utilização por Bandeira de uma liberdade lingüística e plástica,
são os pontos de partida que obedecem a um projeto modernista para a aquisição
de uma linguagem nacional e, ao mesmo tempo, universal. Essa liberdade que
instaura o princípio da imaginação sem fio, das ‘palavras em liberdade’ prosaica
no interior do poema narrativo, cujo princípio fundamental é penetrar a
essência da matéria, são ressonâncias do Manifesto de Marinetti de 11 de maio
de 1912. E, ainda, são ressonâncias de
uma temática da poesia futurista a concepção de que a matéria a ser
transformada em poesia está no cotidiano da vida moderna, com seus ruídos e
cheiros provenientes das multidões, revelando o que é o homem moderno e
criticando ironicamente a sua vida tumultuada nas cidades. É revelador de uma
postura crítica diante da realidade da cidade tumultuada, do avanço urbano, da
luxúria dos homens que se instaura na relação lúdica entre a função referencial
(realidade) e a função poética (imagem). Esta relação acaba por produzir no
leitor o riso ambivalente.
Bandeira, por meio da linguagem construtora de imagens
inseridas em um espaço sinestésico, e, Magritte por meio do jogo da disposição
paradoxal das formas no espaço apresentado também sinestesicamente, criam para
o olhar a ‘velocidade’ psíquica. E, ainda, Magritte a potencializa deixando-a latente na esfera negra que pode
rolar livremente de um plano a outro. Tanto Bandeira quanto Magritte, segundo
Paquet (2000) e Arrigucci (1999), recusam-se a ver o mundo como este lhes é
apresentado. Acreditam que só podem criar pelo ‘alumbramento’, resultado da
apreensão estética da magia que há na existência das coisas simples e humildes,
que ambos perceberam ainda quando crianças ao paradoxalmente defrontarem-se,
com suas vidas em desenvolvimento, com a morte.
O poema Noturno da rua da Lapa trata da atitude
intimista do início do século XX que, segundo Bosi (1986), dissolve toda
eloquência pós romântica pela prática de um lirismo confidencial e
auto-irônico. Neste poema em prosa há a incorporação de motivos e termos
prosaicos à literatura brasileira que o ‘narrador lírico’ apresenta ao situar a
enunciação no presente, para tratar de uma experiência que já vivenciou, uma
metamorfose que aconteceu no passado.
O leitor pela
interlocução é seduzido a acompanhar o relato dessa experiência, mas
ele crê em um primeiro momento que tudo
está acontecendo no instante em que os fatos são narrados. Seus olhos percorrem
a enunciação no presente dos fatos, mas estes já ocorreram na ação passada.
Como Magritte, Bandeira ‘engana os olhos e o espírito’ por meio da linguagem. O
que se narra, como quem tem uma
conversa entre amigos, é um ‘causo’
produzido em cena insólita que ocorreu, por meio da invasão de um inseto no
quarto do narrador, quando a janela estava aberta. Este tentou matá-lo com
inseticida, ‘a bomba de flit’, mas ao fazê-lo o jato não se dirigiu ao inseto,
mas ao próprio ‘eu’ e ‘nada mudou nele’, que ao recebê-lo permaneceu
inalterado, porém mais consciente da enormidade de seu problema. Ele é o próprio
inseto, o homem/inseto que perdeu suas características humanas, logo está se
esfacelando, descaracterizando-se, destruindo-se, e nada pode ser feito, ele
carregará essa certeza até a sua morte, a sua destruição completa.
Assim, o protagonista de Bandeira define-se por ser
kafkanianamente um inseto e um homem, por isso
mesmo um ser atormentado preso em um quarto de porta fechada. Há uma
deformação dos elementos que o constituem.
O homem
bandeiriano está fragmentado, ele é o espelho histórico de um século XX, no
qual a realidade sensível é efêmera. Para neste século encontrar a essência do
homem, o artista deve fragmentar cada vez mais a realidade, como se dissecasse
para apreender a mecânica dos processos e dos corpos. Por isso o que entra pela
janela são só resíduos: ‘fragmentos do Hino da bandeira’, ‘ecos que se partem’,
‘ventos dos lupanares’. Não entram elementos completos, concretos, mas
abstratos resquícios de um mundo ‘exterior’. E, ainda, o que sai, no caso de
dentro da ‘bomba’, no interior do quarto, também são fragmentos, resíduos
líquidos convertidos em um ‘jato’ e esses não são capazes de destruir o ‘articulado’,
pois são justamente eles que o constituem, são os resíduos provenientes de um
mundo moderno que cercam o ‘eu lírico’, no sentido metafórico, que promovem a desumanização. Ora o interior
do quarto, onde ele se situa, representa o limite de seu olhar, como uma
dimensão de sua subjetividade. Ao se fixar
sobre os traços de seu ambiente
como quem os espelha, o ‘narrador lírico’ torna transparente aos olhos do leitor seu modo de ser íntimo. Logo, ressoa neste
poema o mito bandeiriano do quarto, motivo recorrente de seu reduto da interioridade:
espaço lírico por excelência, no qual se recolhem as impressões da realidade e
se gera a poesia. Segundo Arrigucci (1999), lugar principal da experiência de
onde o poeta olha o mundo e se debruça sobre a vida. Nele se fixa o tempo, no
instante iluminado ‘(oh! Por que precisamente nesse momento?...)’ de uma cena
prosaica, num momento de vida retida. O caráter dialógico da linguagem, sua
função apelativa, voltada para o interlocutor do discurso, dá ao poema o
aspecto de cena virtualmente dramática, de repente desvendada aos olhos do
receptor privilegiado de uma fala íntima, solitária e, sobretudo meditativa.
Desse modo, o olhar que penetra pela janela, penetra o quarto e o âmago da alma
do ‘narrador lírico’, reverte sobre si mesmo, uma vez que desvenda o espaço de
sua própria interioridade, de sua condição humana.
A estratégia
de Bandeira está em estabelecer uma identidade com o leitor por meio da sedução
da interlocução que soa como uma conversa entre amigos íntimos numa mesa de
bar, ele estabelece uma identidade com o leitor e leva-o a percorrer um caminho
entre imagens do cotidiano moderno. Em seguida, aproxima destas imagens a loucura entorpecedora de saber que se está
metamorfoseado e se está só, ninguém ou nada o auxilia, e, não há possibilidade
de evasão: ‘nenhuma porta se abriu’.
Como Bandeira,
Magritte produz, graças ao ‘efeito de mímese’, à primeira vista, a sensação no
leitor/observador que a cena está no presente, acontecendo no momento de seu
olhar, mas a construção revela ao leitor que ele está só, o cenário já está
pronto, houve um momento anterior ao de sua chegada, o passado da construção
motivada pelo alumbramento de uma verdade que se espera que ele perceba, uma
vez que é a definição da condição humana. O pintor já se foi, ele já concluiu
graças à epifania a sua obra. Não há outras pessoas no cenário, no ‘espaço’.
Logo, o quadro de Magritte produz a
sensação de solidão, não há pessoas dentro ou fora, já houve: o pintor, mas ele
foi embora. Agora há o leitor, mas ele está só. É a redução humana em si mesmo. Tanto no poema como no quadro os meios expressivos estão lá: palavras,
formas e cores, mas os seres humanos agem e se comunicam ilhados em sua solidão
invencível, em momentos solitários em que o outro não está mais. O leitor
depara-se com a ‘mesa posta’ para o “iniludível bandeiriano”, mas só há o
silêncio absoluto, no qual tudo depende da (re)organização, do (re)percorrer os
caminhos traçados pelo poeta e pelo artista.
O quadro de
Magritte e o poema são ao mesmo tempo previsíveis, quando com falsa aparência
de facilidades e casualidades para o leitor desatento e desavisado, e, imprevisíveis,
herméticos, pelo desvio surreal. Logo, são concretos pelo figuratividade e abstratos
pela temática, inadequados ao mundo, que por sua vez é retratado como inadequado
e incoerente.
Portanto, há
homologia estrutural entre o poema e o quadro, ou melhor, entra as duas
poéticas. De acordo com Gonçalves (1989), essa homologia é uma questão estética
bastante acentuada no século XX e independe da intenção de um artista buscar ou
não suas bases nos procedimentos criativos do outro. Também Magritte em toda a
sua trajetória de produção estética esteve preocupado com os procedimentos da
criação poética e as várias fases de seu trabalho são caracterizadas por formas
de relação entre a forma icônica e a palavra.
Em Bandeira e
em Magritte há o sentido da permanência de um fazer artístico desentranhado de
uma incessante procura, em que cada obra realizada é elemento de transição para
outra que virá em seguida, por isso na obra Libertinagem, de Bandeira, há dois poemas de títulos homólogos: Noturno da parada Amorim e Noturno da rua da Lapa; na produção de
Magritte dois quadros: Condição humana I
e Condição humana II. Logo, a
investigação de Bandeira e de Magritte sobre a linguagem do poeta e do pintor
está marcada por uma intensa leitura e releitura da própria obra –
autotextualidade – .
Deste modo,
ambos reinventam a humanidade que aparece expressa em um trabalho estético.
Cabe ao leitor reinventar ou redescobrir essa humanidade que ironicamente é a
sua própria, logo trazê-la à consciência pela apreensão das relações intersemióticas.
Como
Cézanne, Magritte propõe um regresso aos fundamentos da Geometria, acentua cada
elemento da composição por meio das cores que definem estruturas e volumes como
representantes da realidade criada, mas de forma lúdica opera com esses fundamentos,
e, ainda, de forma sucinta e limpa para enganar ‘os olhos e o espírito’ do
contemplador.
A
cor é a organizadora das formas e do espaço, revela-se portadora de propriedades
sensoriais. Ela serve para a divisão do espaço, cria a ordem rítmica, reforça a
‘cor local’ para melhor enganar-se os olhos. Essa ordem rítmica tão bem marcada
pelos ‘parágrafos-momentos’ de Bandeira, está no quadro expressa em etapas
também determinadas para os olhos e pelo olhar.
Em
um primeiro momento de leitura do quadro, o leitor olha por entre o portal, o
mar, o céu e a areia, todos estão lá fora. A sensação que se tem é agradável.
Os elementos são belos e previsíveis: mar de azul intenso, céu de azul suave,
representando a tranqüilidade, areia em tons de amarelo e marrom. Tem-se a representação
do mundo previsível.
Em
um segundo momento, o olhar que, antes devaneiava, se vira para a direita. Há uma ‘suposta’ janela, inicia-se o
desconforto. Olhando mais atentamente o leitor descobre que não há janela, é
uma tela e ela é mímese da paisagem para além do portal. O leitor ri
nervosamente de si mesmo, produz-se, então, o riso ambivalente. Em sua desestruturação
o seu olhar busca recuperar o título, e este lhe diz ironicamente de forma
lúdica para abstrair: ‘trata-se da condição humana’. Ele aceita o jogo e supõe
que recobrou a calma quando direciona seu olhar para baixo, no piso, lá está
ela: a esfera e ela é negra. No campo semântico ela provoca a desestruturação.
Ela que paradoxalmente é ícone da forma perfeita, do equilíbrio, causa
mal-estar, e, ainda, machadianamente ela é negra: sinal de mau-agouro. A cor
remete ao luto, neste instante ela é a mensageira da morte da compreensão do
leitor e equivale-se ao corvo mensageiro do mau agouro da frase poeiana: ‘nunca
mais’. Neste caso, ela representa metaforicamente: ‘nunca mais o equilíbrio
pretendido’. Mas justamente por causa da esfera detém-se o olhar no chão e nas
sombras projetadas pelas formas. Percebe-se que elas são paradoxais, sugerem
mobilidade da luz, mas de uma luz artificial acessa em um cenário fechado. Este
pode ser percebido pelas sombras que delimitam uma parede à esquerda e outra à
direita. Detém-se então o olhar neste cenário anterior à passagem pelo
portal que produz ecos bandeirianos de ‘sala da espera da morte’. E, começa-se
a buscar o como ‘entrar’ no cenário. O cavalete por sua disposição propõe uma
entrada do leitor pela direita: de frente para ele. O portal, por sua vez, pela sua disposição e forma propõe uma
entrada por ele graças ao ‘pé direito e ao
esquerdo’, que delimitam seu espaço de vão livre, tem-se a iconização de braços
abertos de frente para o leitor. Mas próxima do portal está a esfera. Ela
dificulta a passagem. Aguça-se o mal-estar do leitor que não consegue fusionar
elementos tão díspares. Mas a fusão já existe nas sombras e na contigüidade.
A
sombra do cavalete caminha para a direita, funde-se com a sombra da parede
direita. A tela do cavalete funde-se à paisagem de fora, pois retrata-a na mesma proporção e sequência. E, justamente
por isso rompe com o efeito de mímese com o ‘original’. O piso vermelho avança
para a areia, para além do limite do portal e a esfera pode rolar livremente nos dois planos.
Entretanto, ela metaforicamente, pelo o que representa e pela massa, parece ser
pesada. Supõe-se, então, que ao realizar esta performance afundará na areia.
Mas quem ironicamente está afundando é o leitor. Ele se sente em chão movediço,
não compreende o porquê da esfera naquele cenário. Neste momento, o leitor
desestruturado tenta recuperar a lógica perdida: quer situar a esfera, que
apesar de poder rolar livremente, não
se encontra exatamente no meio do vão livre apresentado pelo portal, mas
exatamente no meio do espaço formado entre o lado esquerdo do portal e o lado
esquerdo da tela. Tudo aponta para a dialética que tem seu mito no lado
esquerdo. A esfera também está à
esquerda do cenário. Logo, ela é o avesso do que se quer ver é a representação
da antítese à tese inicial do leitor.
A
cada retomada das posições dos elementos, pelo olhar, produz-se um ritmo.
Cria-se o efeito cinematográfico, pois
o cenário é móvel. Ele se compõe por elementos dispostos em direções
diversas. O leitor vê o cenário móvel quando justamente seu olhar procurar se
fixar, mas este gesto é impossível. Ao final, o leitor não confia mais no
artista que o ilude nem na tela do cavalete, pois a cena representada é aquela
que não é, uma vez que não se pode retratar uma paisagem como quem a prossegue
nas mesmas direções, dimensões e cores, mesmo porque a paisagem se altera. Mas
não há paisagem, não há cenário, não há
esfera. O que há são
representações metafóricas do pensamento tornado visível pelo pintor. E, ainda,
no cenário, tem-se o efeito sinestésico: o vento nas ondas, o cheiro do mar, o
tato na areia, no piso, na esfera, o barulho das ondas, mas no final só resta o
silêncio, pois estes elementos são aqueles que não são. A relação intersensorial que decorre é reveladora da angústia do ser em
destruição, portanto, de uma ação em desenvolvimento. Logo, Magritte opõe-se ao
princípio do impressionismo. O quadro resulta, numa recriação da realidade,
imbuído do mesmo ideal de artificiosidade da poesia de Bandeira.
Desta
forma, Bandeira e Magritte trabalham com os paradoxos, o que se exprime por
imagens no quadro e no poema é a complexidade do que se oculta sob a forma simples.
Desta nasce o desconcerto do leitor que apesar da ausência, que os objetos lhe
impõem, reconhece a presença da poesia. Assim, o que se dá a ver ao mesmo tempo
se esconde, e cria-se a poesia em ambos que brota da ausência, do que falta, da
linguagem que tateia sobre as marcas do
silêncio.
Tanto Manuel
Bandeira quanto Magritte constróem suas obras mediante a construção cada vez
mais rigorosa de um sistema de signos mobilizador das cristalizadas concepções
de referente. Em ambos, a extração da Beleza, segundo Gonçalves (1989), equivale
à integração ao enigma. O palco móvel do espaço, da tela de Magritte e do poema
de Bandeira, coloca em cena dois personagens essenciais: as ressonâncias
iconográficas do mundo e a materialização do que se costuma chamar de abstrato.
Na condição entre da arte que reside nas obras de ambos está a relação com o
receptor: a linguagem o envolve, impondo-lhe compromissos de desautomatização.
Não é possível ‘viajar pela poesia’ sem ultrapassar os obstáculos da linguagem.
E, este trânsito se realiza pela permanente recusa, pois é todo obstáculos. É
no esboço do gesto, na superação ou transposição do referente, nesta dupla
forma de fabricação do real, que também se configura a obra do artista plástico
e do poeta.
Ambos utilizam
as iluminações dos signos e a ‘vergasta’, segundo Menegazzo (1991), das palavras
para refletirem situações e contingências do ser, fazem com que as estruturas,
as matérias e os próprios signos, por mais díspares que sejam, se aproximem em
termos construturais, porquanto empenhados igualmente em cristalizar a
aceitação, a negação ou a recusa do mundo; empenhados sobretudo, em
materizalizar, pela tinta e pela palavra estéticas, as angústias e as verdades da
existência. A expressão das verdades do homem do século XX é a concretização,
em linguagem, de verdades metafísicas. A verdade deixou de ser a visualização
do objeto físico, para ser a expressão da essência do homem. Logo, a arte não se restringe a mero caráter
material, mas à constituição concreta da totalidade do ser sendo na sua
insignificância de ente, ou seja, de homem/inseto ausente da ‘paisagem
retratada’.
Não há dúvida
de que o eixo do poema é a pluralidade de espaços e tempos, o simultaneísmo que,
se na pintura procura dar uma visão completa do homem e dos objetos por meio da
desestruturação, e da desconstrução, na poesia alcança o mesmo efeito,
abarcando também crenças e novos mitos.
Ora Bandeira utiliza o recurso técnico cubista dos futuristas
russos, da ‘collage’, ele se serve de fragmentos e mitos de Poe e Kafka em seus
poemas, desenvolvendo uma espécie de ‘montagem’ composicional por meio da
intertextualização e, ainda, da autotextualização com outros cinco poemas,
quatro de sua autoria e um traduzido, todos presentes na obra Estrela da vida inteira, que utilizam Noturno em seus títulos. E, também,
inclui elementos de outras artes como música e ruídos acompanhando as recitações
do Hino da Bandeira, figuras geométricas, e, mesmo, a distribuição geométrica
de palavras no papel. Observando-se o poema narrativo, percebe-se que a
disposição gráfica das palavras no papel é calculada e proposital, o vocábulo fragmento aparece de forma fragmentada,
divido ao meio pela mudança de linha. A expressão FICOU MAIOR em letras maiúsculas, concretiza a enormidade do
problema ao mesmo tempo em que intensifica o insólito.
Na poesia o significante, segundo Gonçalves (1989) retomando
Sausurre, possui natureza auditiva, assim desenvolvem-se no tempo e têm as
características que toma do tempo, logo o espaço em branco entre os
significantes confere o silêncio, o não auditível. As letras maiúsculas em FICOU MAIOR representam, então, o grito,
a indignação, o desespero da tomada de consciência, a revelação epifânica: não há o que fazer, pelo contrário medidas
paliativas só podem piorar as coisas. A extensão do significante é mensurável
numa só dimensão: a linha. E, nestas que compõem o poema percebe-se que há mais
espaços em branco separando as palavras do que o habitual, e, ainda, mais do
que o necessário para fazer com que todas as linhas coincidam nas margens
esquerda e direita. Logo, no plano formal,
há entre cada vocábulo mais de um espaçamento, além do habitual em um
texto narrativo impresso. Instaura-se com isto a demora, o aumento da
expectativa pelo desenlace, pela sanção, e, ainda, instaura-se o silêncio. Os
parágrafos marcam a mudança de tom e de performance, e, representam a
estratégia narrativa de manter o leitor seduzido por marcadores lexicais
temporais próprios do conto ‘era uma vez’. Estes marcadores mantém o suspense
sempre elevado pelos advérbios de negação e de tempo: “Não posso”, “Nesse momento”,
“Compreendi desde logo”, Quando”. E, ainda na ortografia
fusionada da expressão “minh’alma”, revela-se propositadamente um
entrar-se de um vocábulo no interior de
outro, pelo uso da apóstrofe, como se assim também visualmente o signo
recriasse no significante o significado de interior, de mais íntimo do ser,
onde se encontra a alma.
Magritte na concepção de suas imagens mantém a ‘cor local’,
céu azul, areia amarela e marrom, mar azul. No entanto, a disposição das
imagens no cenário rompe a ordem lógica do mundo que implica a ruptura da
racionalidade humana como meio de satisfação do imaginário. Logo, o processo
imagético fusiona realidades díspares captadas da dualidade do real e do
imaginário. A imagem resultante só se justifica nesta dupla existência. Há
então um novo conceito de imagem que aproxima elementos díspares, mas não permite
a perda das características básicas de cada elemento aproximado e, ao mesmo
tempo, cria um terceiro elemento essencialmente dependente dos já existentes. O
espaço reflete as transposições do cubismo pela presença da simultaneidade de elementos
díspares que criam pelo absurdo a ‘facetação’ e a transparência, ambas técnicas
do cubismo primitivo. E, ainda, Magritte utiliza este facetamento como uma
‘collage’ de imagens superpostas voltadas para pontos diferentes graças a sua
disposição na tela. E, remete seu quadro a outro de mesmo título Condição humana I, onde há outra janela,
mas não uma ‘porta’, apesar disto, a reflexão metalingüística sobre o papel da
representação na pintura, e da função dos elementos na obra é a mesma presente
no quadro Condição humana II:
produzir um contraste agudo entre si, desencadeando assim um choque que abala a
mente e tira-a da sua apatia, convidando-a a pensar.
Entretanto, se Bandeira e Magritte realizam a ‘collage’ esta
não é como para o surrealismo movida pelo acaso, mas sim, como no cubismo é uma
construção intelectual, proposital, provocadora. O surrealismo das imagens tanto em um quanto em outro se dá de forma
figurativa, reconhece-se os elementos de onde elas se originam, só não se
reconhece em um primeiro momento o resultado de suas junções.
Tanto Bandeira
quanto Magritte apreendem em suas obras a lição surrealista de Rimbaud, na qual
o escritor tem que superar ao homem natural, racional, se quiser descobrir o
sentido oculto das coisas. Logo, o papel decisivo da obra de ambos é o mesmo
que o do movimento: jogar com uma visão dualista do mundo. Situada entre o real
e o irreal, o racional e o irracional,
que são apresentados fundidos a partir da visão surrealista em um ‘continuum’. O sentido das coisas se
define por seu contra-sentido, o mundo sensível, unido aos dados do
inconsciente, dá nascimento
à surrealidades que definirão
a posição do ser no mundo.
Bandeira ao incorporar em sua obra o uso da
narrativa, e, Magritte a multiplicidade
de representação em um único espaço, possuem consciência da possibilidade de
manipulação da linguagem e consciência do momento histórico e suas
peculiaridades técnico-ideológicas e sobretudo da recepção da obra de arte.
Mas, a liberdade na pintura com respeito aos seus modelos não é uma herança
apenas de Magritte. O que lhe é específico é a atitude cuidadosamente pensada,
pesada, austera e conscientemente acadêmica, característica de sua obra.
A linguagem de Bandeira como a cubista revela o objeto em
suas diversas faces, a partir de uma decomposição analítica, que mesmo propondo
uma reorganização espácio-temporal, termina por mostrá-lo fixamente:
homem/inseto. A poesia de Bandeira percorre o caminho do surrealismo a partir
do emprego de imagens fincadas em nossa cultura e na cultura universal. Com
isto ele obtém o recurso da metamorfose.
O poema de Bandeira mescla elementos do passado e do
presente, num jogo de simultaneidade espácio-temporal que o aproxima do
cubismo.
O espaço no quadro de Magritte perturba o equilíbrio do
espaço renascentista, racional, para ser recriado, reinventado a partir de uma
visão múltipla e simultânea da imagem. A utilização da visão simultânea envolve
vários pontos de fuga, rejeita-se então as ilusões do espaço tridimensional,
surge então, segundo Menegazzo (1991) retomando Apollinaire, a quarta dimensão,
que é a do infinito, a que dota os objetos de plasticidade. Assim, pelo olhar
percebe-se a utilização da transparência e da interpenetração de planos que
permite uma percepção simultânea de diferentes posições espaciais e, consequentemente,
temporais: o passado, o presente e o futuro que podem ser abarcados pelo quadro
e pelo olho de um relance.
No quadro de
Magritte, a partir da visão do leitor, ao mesmo tempo em que o objeto é visto
de frente – primeiro plano, o presente, tem-se por meio de sua
(de)sestruturação o passado – o caminho percorrido de sua (des)construção, e a
síntese, a ser realizada pelo leitor está no futuro. Assim, há um estrutura
polifônica na qual a simultaneidade das partes aparece pela sensação
compositória no todo. Esta simultaneidade aparece nas cinco regiões criadas no
espaço do quadro: a primeira no imposto pela própria tela, a segunda pela
presença da parede que serve como divisória entre o espaço interno e externo, a
terceira delimitada pelo vão livre do portal, a quarta delimitada pela presença
espacial da tela do cavalete que simula uma janela aberta, e, a quinta
delimitada pelo vão livre símile de outra porta, onde se situa ao centro
a esfera, criada pelo lado esquerdo do portal e esquerdo da tela.
Cinco, segundo Chevalier e Gheerbrant (1999), é o símbolo da
Terra para os chineses, pois há cinco cores, cinco sabores, cinco tons, cinco
metais, cinco vísceras, cinco planetas, cinco orientes, cinco regiões do espaço
e, naturalmente, cinco sentidos. Logo, este é o símbolo da ordem e da perfeição
desejada pela vontade divina. Entretanto, no quadro a ordem, está quebrada, não há um único centro, o que há mais
visivelmente é o centro da passagem onde a esfera se situa. Esta é ícone também
da perfeição e da ordem, mas ela é negra, e, representa não a vontade divina,
mas a vontade do artista plástico, do geômetra, de criar seu próprio universo,
seu inferno pessoal via paródia, por isso o chão que a sustenta é vermelho,
remete ao fogo, à condição humana, ao inferno de se estar determinado à morte.
As cores também
aparecem no quadro em número de cinco: amarelo em dois tons, vermelho,
preto, azul em dois tons, e, branco. Elas remetem o leitor ao budismo japonês
que distingue cinco orientes – os
quatro pontos cardeais mais o centro – , e, aos cinco elementos – terra, água, fogo, vento, espaço – que constituem metaforicamente areia, mar,
inferno, movimento das ondas, representação pictorial. O que simboliza, então,
mitologicamente a perfeição integrada, resulta no quadro parodicamente, na imperfeição
surreal da disposição das imagens.
Logo, o quadro de Magritte é representativo, entretanto, ao
mesmo tempo, constitui um ataque incessante ao princípio de reprodução na arte.
Suas figuras possuem mistério e diversidade. O mistério, por outro lado, está
no cotidiano, enquanto o pensamento subversivo está na interação dos elementos
e na interlocução com o leitor.
Assim, Magritte
cria, no seu universo representado no quadro, o desvio, não há mais nele a ordem imposta pela vontade divina que deseja a
perfeição. Há a vontade do pintor de
criar a sua própria ordem, paródia da existente. Com isso, ele cria seu próprio
inferno: e neste centro há a condição humana e a morte que a define.
O quadro possui, então, simbolicamente cinco portas da
recepção. Nele ‘o de fora’ invade o ‘de dentro’, mas ‘o de dentro’ tem outro
‘dentro’ (o do poeta) e a esfera está ‘dentro’ (espaço interno pictorial), mas
pode rolar para fora (além do portal). A esfera é a metáfora da mortalidade
latente no consciente do ser humano que pode ser alçada à condição estética por
meio da pintura. Ela está no espaço interior, que é a metáfora da consciência
do artista. Ela não aparece na tela do quadro do cavalete, mas ela existe, está
no cenário e se o leitor for crítico e tiver vontade de interagir, rolará a
esfera para fora do cenário pictorial interior, para o cenário pictorial
exterior, e, ainda metaforicamente para um cenário exterior maior: o universo
do leitor.
As cores, ainda, promovem a ilusão inicial do conforto, do
agradável com um único objetivo apresentar o desconforto intelectual. Assim, o
branco, na borda da tela, desestrutura a hipótese de janela, de vidro, de
transparência, aguça o silêncio. O amarelo, da areia em gradações cromáticas
que retomam o tom do cavalete e terminam no marrom da parede, sugere estaticidade, pois impede o movimento,
não é possível transpor a parede, ter uma visão total do cenário além do
portal. E, ainda, é o amarelo que compõe o cavalete responsável pela revelação
de que não há janela, só há a tela. O vermelho representa o fogo, o chão
‘quente’, infernal, no qual pisa o
artista, e, o leitor quando invade o espaço pictorial. O azul presente no mar e
no ar, a princípio promove a ilusão de
conforto, de entendimento, de compreensão. O preto da bola representa a falta
de possibilidade.
Bandeira também cria, em seu
poema, cinco planos: o primeiro fora do quarto, o segundo no quarto, o terceiro delimitado pela janela, ponte
entre o exterior e interior, o quarto delimitado pela porta fechada, e, o
quinto pelo interior da alma do ‘narrador lírico’. Como Magritte, o poeta
focaliza ao centro o homem e o que o define: a morte. Ambos fundamentam-se nos significados ocultos ou virtuais da palavra
e da imagem que se inscreve e se descreve na transparência visual de seu centro
germinador. No centro há a morte e a transparência desta verdade só a pintura e
a poesia podem provocar. O centro da poética de ambos é o homem e o que o
define: a mortalidade.
BIBLIOGRAFIA
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paixão e morte: a poesia de
Manuel Bandeira. 2ª reimpressão, São Paulo: Companhia
das Letras, 1999.
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de Janeiro: Nova Fronteira, 1997.
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Concisa da Literatura Brasileira. 3ª ed., São Paulo: Cultrix/EDUSP, 1986.
CHEVALIER, Jean
& GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos:
mitos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. Colaboração de André
Barault et alii; coordenação Carlos Sussekind; tradução Vera da Costa e Silva
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CECITEC/UFMS, 1991.
PAQUET, Marcel. René
Magritte: o pensamento tornado visível. Trad. Lucília Filipe. Lisboa:
Taschen, 2000.