MONTEIRO LOBATO : RENOVADOR E INOVADOR NA LITERATURA
GÓES, Patrícia de Sá
Este
trabalho está sendo desenvolvido na Escola Municipal Prainha em Duque de Caxias
(Rio de Janeiro). Sou professora de sala de leitura da rede municipal de Caxias.
Todo ano temos uma proposta de trabalho sugerida pela secretaria de educação.
Este ano o tema foi : Pirlimpimpim ! O Sítio é aqui !A proposta da SME tem como
objetivo possibilitar aos alunos e professores da rede de ensino um maior
conhecimento e uma maior interação com a obra de Monteiro Lobato.
Como
dinamizadora de leitura da escola procurei em um primeiro momento apresentar
aos alunos o conhecimento da vida e da obra de Monteiro Lobato, já que nossos
alunos não tiveram o mesmo privilégio que a minha geração teve de crescer assistindo pela televisão “O SÍTIO DO
PICA-PAU AMARELO”. Mesmo assim, senti a necessidade da leitura de textos
teóricos para maior embasamento, como por exemplo : “De Lobato a Bojunga” de
Laura Sandroni; “As Minhas Memórias de Lobato” de Luciana Sandroni; “Emilíssimas
de Lobato” de Fátima Miguez; “A Mitologia Grega no Sítio do Pica-Pau Amarelo”
de Maria Afonsina Ferreira Matos e em plena era da informática acessei o site :
www.lobato.com.br.
Após essa
estruturação teórica, partindo de alguns questionamentos da prática como os seguintes
: Como desenvolver Monteiro Lobato nos nossos dias ? Será que a criança atual
pode vir a se interessar pela obra de Lobato ? Que estratégias poderiam ser
utilizadas para transmitirmos Lobato ,e conseqüentemente , despertarmos o gosto pela leitura
?
Após todo
esse desenvolvimento senti a forte necessidade de criar estratégias para que
tornasse acessível o contato da criança com a obra e a vida de Monteiro Lobato
sem que fosse algo obrigatório, mas que realmente fosse um momento de descoberta
e contato prazeroso com a literatura de Lobato.
Monteiro
Lobato
1. A
IMPORTÂNCIA DE MONTEIRO LOBATO
Lobato
foi o escritor que mais escreveu livros para crianças no mundo. Mas teve a sua
importância não pela quantidade ,e sim, pela
qualidade da sua obra. No Brasil praticamente foi o introdutor da
literatura infanto-juvenil no país. Como o próprio autor afirma : “ainda acabo
fazendo livros onde nossas crianças possam morar”. Insatisfeito com os adultos,
acredita no potencial das crianças para transformação do mundo. E por isso
aborda em sua obra temas apropriados somente para adultos como : guerra, política,
ciência, petróleo.
Portanto,
as crianças ao lerem Monteiro Lobato adquirem consciência crítica e conhecimento
da realidade de diversos problemas no mundo. Outra contribuição foi a liberdade
de expressão tão presente nas crianças do Sítio do Pica-Pau Amarelo. A criança
pensando sobre si mesma não vê limites entre realidade e fantasia e que simultaneamente
a criança pode ser um agente de transformação. Lobato acredita na democracia e
promove no Sítio do Pica-Pau Amarelo um ambiente propício de liberdade onde as
decisões são tomadas através do voto. Emília é a personagem que parece ser a
porta-voz do autor quando se auto-define afirma : “independência ou morte”. A
partir de Monteiro Lobato a criança deixa de ser um instrumento de dominação do
adulto e passa a ser uma fonte de questionamentos que já existia na criança,
mas que antes era censurado pelo sistema autoritário e moralizante.
Hoje
falamos tanto da interdisciplinaridade, mas nos livros de Lobato ela sempre
existiu. Ele mistura história, geografia, gramática, mitologia com literatura.
Na mitologia há todo um processo de transformação, porque o autor não somente
apresenta a mitologia , mas principalmente modifica a versão original da
mitologia; como por exemplo no livro “O Minotauro” quando Emília, Visconde e
Pedrinho comem a comida dos deuses : o néctar e a ambrosina. E antes ninguém se
atrevia a cometer tal ato, ou seja , as transgressões estão sempre presentes
causando até mesmo uma certa pitada de ironia. As personagens do Sítio brincam
com o sagrado, com aquilo que antes não se ousava desenvolver, mas em Lobato
tudo está autorizado.
2. A QUESTÃO
DO PETRÓLEO
Monteiro
Lobato foi adido comercial no Consulado do Brasil, escolhido pelo presidente Washington
Luís, Lobato, portanto, muda-se para Nova York. Lá descobre todo o avanço que os E.U.A se encontravam, principalmente
a indústria automobilística. Lobato
visita a FORD e a General Motors, em Detroit, e vê de perto um novo processo
siderúrgico – que produzia aço a partir de fornos de baixa caloria –
desenvolvido pelo metalurgista William H. Smith.
Quando
retorna ao Brasil vem carregado dos ideais americanos. E tenta inicialmente
conscientizar nossos políticos a importância da exploração de ferro e petróleo
no país. Ao deixar o posto de adido comercial, escreve a Getúlio Vargas
relatando as conclusões a que chegou durante sua estada nos E.U.A; a
ineficiência na exploração e distribuição de ferro, combustível e trigo seria
responsável pelo fraco desempenho da economia brasileira. Mas o país tinha tudo para superar seus
grandes problemas, bastava vontade política.
Retorna ao
Brasil e encaminha a Vargas o Memorial sobre o problema siderúrgico brasileiro,
no qual expõe a importância econômica do ferro e as vantagens do processo
Smith, que possibilitaria uma exploração mais racional das nossas reservas de
ferro. Para tentar implantar o processo
Smith no país, Lobato cria o Sindicato Nacional da Indústria e Comércio. Sob
pressões de empresas ligadas à United States Steel, seria dissolvido em 1933.
Lobato dá
início às conferências sobre petróleo e percorre o país. Em carta a Getúlio
Vargas, conclama o presidente à defesa da soberania brasileira na questão do
petróleo e faz graves denúncias contra o Departamento Nacional de Produção
Mineral.
Dia 22 de
Janeiro em 1939 o petróleo é descoberto oficialmente no país. Em nova carta a
Vargas, reitera suas denúncias e acusa o CNP de agir a favor dos “interesses do
imperialismo”, perpetuando “nossa situação de colônia americana dos trustes
internacionais.”
Em 17 de
Junho, após três meses de prisão, Lobato ganha a liberdade. Todo esse processo
de luta e de insistência só poderia ser paralisado com a prisão de Monteiro Lobato.
“Meu plano agora é um só : dar ferro e petróleo ao
Brasil”
Monteiro
Lobato
3. ATIVIDADES
COM MONTEIRO LOBATO
Como dinamizadora de leitura da
escola, escolhi um dia apropriado para apresentar aos alunos o conhecimento da
vida e da obra de Lobato. O dia escolhido foi o Dia do Livro – Dia 18 de Abril.
A importância de Monteiro Lobato é tamanha na Literatura Brasileira que a
escolha do Dia do Livro coincide com a data de nascimento do escritor.
Fiz uma
breve apresentação da biografia do autor : nome, apelido, data de nascimento,
características de sua personalidade, fatos curiosos como o dado de que ficou
reprovado em português na sua infância e ainda o fato de ter fundado a primeira
editora brasileira : A Monteiro Lobato & Cia.
Em um
segundo momento, apresentei as personagens do Sítio do Pica-Pau Amarelo : Dona
Benta, Tia Nastácia, Emília, Visconde de Sabugosa, Rabicó, Pedrinho e Narizinho.
Dona Benta é a autoridade liberal e democrática, participante ativa de várias
aventuras de seus netos. É ainda quem forma e informa através de histórias que
alimentam a fantasia e o sonho. Ela é a contadora de histórias do Sítio. Tia
Nastácia é a representação do povo na visão de Lobato, ignorante das coisas
apreendidas, mas cheia de sabedoria intuitiva. Narizinho e Pedrinho representam
todas as crianças do mundo. Ávidas de conhecimento e de aventuras, descobrem o
mundo através da palavra de Dona Benta, do afeto de Tia Nastácia ,e principalmente,
através da sua própria experiência que reelabora as informações recebidas.
Rabicó é o mau caráter do bando, mas nem por isso, no entanto é menos querido,
o que mostra a posição de Lobato frente a dicotomia bom x mau tão
características das histórias para
crianças. O Visconde de Sabugosa é uma simbiose de louvor à ciência e crítica a
nobreza, é inteiramente submisso a Emília. A Emília é a boneca que evolui e
vira gente. Emília parece expressar em toda obra, mais do que qualquer outro
personagem, as idéias do autor, sua consciência crítica da sociedade. Através
dela Lobato revê a moral tradicional, as regras estabelecidas, assegurando ao
indivíduo o direito de divergir, ter opinião própria a partir de experiências
vivenciadas.
Em um
terceiro momento, apresentei um vídeo da TV ESCOLA : Monteiro Lobato, vírgula,
ponto e vírgula. Desenvolvi este trabalho em oito turmas de 1ª a 4ª séries do
1ºgrau. Este projeto será desmembrado em quatro módulos, propostos pela equipe
de leitura, ao longo desse ano serão trabalhados na obra de Monteiro Lobato :
mitologia, saber popular, acervo, criticidade.
No dia 12
de Junho, apresentei para as crianças um teatro de fantoches feito de saco de
papel com as personagens do Sítio do Pica-Pau Amarelo. O texto escolhido foi o
livro “O Minotauro”; o capítulo : No Labirinto de Creta. Utilizamos uma sala de
aula, colchonete para que as crianças pudessem ficar bem acomodadas e exposição
de todos os trabalhos desenvolvidos pelas turmas.
A
apresentação do teatro foi um sucesso. As crianças ficaram concentradas e se
divertiram muito com as aventuras de Pedrinho, Emília e Visconde de Sabugosa
que tomam o pó de pirlimpimpim e partem para Creta em busca da Tia Nastácia,
pois Tia Nastácia havia desaparecido misteriosamente. É um texto engraçado,
rico em aventura e muita fantasia, ou seja, ingredientes perfeitos para motivar
a leitura de outros textos de Monteiro Lobato.
Após o
teatro, as turmas apresentaram seus trabalhos. O 2ºano do ciclo fez fantoches
de meia com as personagens do Sítio. Fizeram um livro ilustrado e escrito pelas
crianças contando a história do Saci Pererê. E ainda dançaram a música do CD
Pirlimpimpim (música : Saci Pererê). O outro 2ºano do ciclo fez recorte e
colagem da personagem Emília. O 3ºano do ciclo fez fantoches de prato de
papelão com as personagens do Sítio. E o outro 3ºano do ciclo as crianças
confeccionaram fantoches de saco de papel, fizeram um dicionário do Sítio do
Pica-Pau Amarelo e ainda dançaram a música : “ Lindo Balão Azul.”
No
2ºturno, após a apresentação do teatro, as turmas também apresentaram seus trabalhos.
A 3ªsérie confeccionou fantoches de pratos de papelão e ainda dançou a música :
“Lindo Balão Azul” com dramatização e caracterização das personagens do Sítio.
A outra 3ªsérie dançou a música : “Emília – A boneca gente” com dramatização e
caracterização das personagens. A 4ªsérie fez fantoches de palito de churrasco
e a outra 4ªsérie fez fantoches de isopor.
É
importante ressaltar que esse trabalho precisou ser desenvolvido em parceria
com a direção, com a equipe técnico-pedagógica e principalmente com as
professoras das turmas. O dinamizador de leitura não pode trabalhar
isoladamente, pois “uma andorinha só não faz verão.” Anterior ao dia da apresentação,
apresentei apostila para confecção dos fantoches, o CD Pirlimpimpim para que as
turmas pudessem ensaiar, ou seja , socializamos os materiais para que o
professor tivesse subsídio para desenvolver seu trabalho com segurança.
4. MONTEIRO
LOBATO UM VISIONÁRIO
Monteiro Lobato escreve sobre a
seca e a falta de energia elétrica no Brasil em 10/06/1925. É impressionante
verificarmos o quanto esta carta despretensiosa de Lobato consegue ser tão
atual, pois vivemos em pleno período de crise energética. Isso é sem dúvida uma
marca da genialidade desse escritor não só preocupado com a Literatura, mas
também, plenamente inserido nos problemas econômicos do país.
Há vários
trechos irônicos presentes na carta, como por exemplo:
“Estou pensando em mudar-me, continue ou não com a
empresa editora. Mudar-me para a beira dum rio – para a beira do Amazonas – do
Mississipi...Isto de secar à moda cearense é horrível.”
“Há por aí algum rio que não seque ? Muda-te para
perto dele, Rangel.”
“Tem havido missas pró-chuva, mas os deuses andam
mais surdos que o Malta. Estamos aqui de cocoras na nossa empresa, parado com
os juros das dívidas a crescerem, a espera de que chova e a light se normalize.
Eu podia prever tudo no meu negócio – menos isso: seca do Ceará em São Paulo.”
Outra
carta de Monteiro Lobato(NY, 10/12/1927), quando escreve ao escritor Gastão
Cruls , também aponta para vários acontecimentos que aconteceriam no futuro,
como por exemplo a dominação da língua inglesa sobre as demais:
“Estou vendo se arranco a tiririca e planto em lugar
a em futuro próximo a língua universal – a americana.”
Escreve
também sobre a dominação americana e já sinaliza a questão da globalização(
tendo os E.U.A como representante) e futura primeira nação do mundo:
“(...) A língua universal vai ser a que está se
elaborando aqui na terra canaânica de todas as elaborações futuras. A Europa
passou. Ficará museu, ponto de recreio, resort do americano. O Sol está aqui e
satélites vivos e mortos terão que lhe girar em torno. (...) Houve Roma, saco
de gatos. Houve Inglaterra, sacos de gatos. O terceiro Sol será este país – e
pela primeira vez o mundo girará em torno de um sol de ultra-homogeneidade
elementar, e não mal amalgamado como os outros.”
CARTA DE
MONTEIRO LOBATO (NY, 10/12/1927)
Tirei o dia de hoje para o teu
livro – um dia terrível de neve misturada com hail, isto é, chuva que se
congela no caminho e cai sob forma de carocinhos redondos. Sentei-me close by the window do meu quarto e ferrei na
Elsa e Helena até que a pobre súcuba desse o prego na última página. Aí vai o
meu melhor elogio ao livro – é sapo dos que agarrar não largar mais.(...) Acho
tão bom o teu livro que já o incluí na lista das coisas brasileiras que terão
de ser apresentadas a este mercado pela Tupy Company, caso a Tupy Company passe
de sonho a realidade. (...) Vim com a idéia de que era isto um grande povo. Já
agora estou convencido que é o único povo inteligente que há no mundo. Único,
sabe ?
Estou
vendo o teu sorriso(...). Sorri, meu caro Gastão. (...)Mas se esta carta por um
milagre escapar à destruição e cair nas mãos de um Crulszinho teu descendente
lá pelas alturas de 2027 o teu remoto rebento arregalará o olho e dirá com
assombro de sábio atual que encontra o desenho renna mais ou menos jeitoso numa
caverna pré-histórica: curioso como este troglodita adivinhou tão cedo uma
coisa que o mundo demorou tanto a aprender...
Minha luta
está sendo a língua. It is terrible the english ou melhor the american language
para um pobre cérebro como o meu, aquilotado durante quarenta anos dessa infecção
lingüística(...). Estou vendo se arranco a tiririca e planto em lugar a em
futuro próximo língua universal – a americana. O mesmo break up que se deu com
o latim já se deu com o inglês e ceci tuera celà. (...) A língua universal vai
ser a que está se elaborando aqui na terra canaânica de todas as elaborações
futuras. A Europa passou. Ficará museu, ponto de recreio, resort do americano.
O Sol está aqui e satélites vivos e mortos terão que lhe girar em torno. Houve
Roma, saco de gatos. Houve Inglaterra, saco de gatos. O terceiro Sol será este
país – e pela primeira vez o mundo girará em torno de um sol de
ultra-homogeneidade elementar, e não mal amalgamado como os outros. (...) Há em
N. York 800 teatros e a soma de arte e originalidade e criação que fermenta
neles é um arranha-céu mais alto que o de 110 andares que está em construção na
44th street.
Os fluidos
ambientes contaminaram-me de tal modo que estou pluri-engravidado de um bilhão
de idéias cada qual mais linda, e capacitado de que se conseguir partejar com
bom sucesso um só que seja...chiiiii! que tacada!
Entre
elas, alem do maravilhoso romance-poema no qual pretendo realizar uma visão
deste país através das usinas Ford ( onde, já combinei com eles, vou trabalhar
um mês como operário, cada dia numa seção ), há a idéia de um novo lacre que dispensa
fogo; sai líquido da bisnaga e endurece quase instantaneamente em contato do
ar. Adeus, meu caro Gastão. Faço votos para que teu ovário tenha muitíssimos
óvulos capazes de se desenvolverem em novos romances como o último – e que
nunca te esqueças de me enviar um. Foi a única coisa em português que li desde
que vim e talvez o teu próximo futuro romance seja a segunda – se até lá eu não
tiver conseguido extirpar do cérebro o raio da tiririca desta língua
clandestina e mal vista do mundo que a besta do Cabral, por acaso nos legou.
(...)
Fonte: O
Globo,30/06/2001.
No século XX, as crianças
brasileiras liam livros prontos de Portugal. Não havia editora no Brasil e as
crianças não agüentavam mais aquelas coleções galegais. Em Junho de 1920,
Monteiro Lobato associado a Octalles Marcondes Ferreira funda a editora Monteiro
Lobato & Cia. No mesmo ano, em dezembro lança sua primeira obra para
criança : “A menina do narizinho arrebitado” que vendeu 50 mil exemplares.
A
linguagem de Lobato é antecipatória do Modernismo. Além de tornar a linguagem
mais coloquial e portanto mais acessível às crianças, criou neologismos, fazia
inúmeros jogos de palavras, sem duvidar da capacidade de reflexão de seus
pequenos leitores. Ele foi o pioneiro do abrasileiramento da linguagem e
criticava as traduções portuguesas.
A
simplicidade da linguagem , marcada pelo coloquialismo visa tornar agradável a
leitura. Como observa Maria Teresa Gonçalves Pereira na sua dissertação de mestrado
: “Lobato busca constantemente uma renovação nas possibilidades inúmeras que a
língua oferece, dinamizando-a, explorando ao máximo suas potencialidades, as
suas diversas realizações, não se prendendo ao convencional, mesmo quando dele
precisa para reavaliá-lo ou reaproveitá-lo.”
Em lobato
há a busca da fala brasileira que tanto iria consagrar o Modernismo no Brasil.
Na década
de 70 surgiram vários autores : Ruth Rocha, Sylvia Orthof, Ana Maria Machado, Lygia
Bojunga e Ziraldo. Todos, sem exceção, leitores de Lobato. Ruth Rocha afirma :
“Eu sou filha de Lobato”. Essa geração que ainda hoje se destaca na literatura
infanto-juvenil foi seguidora de Lobato, e principalmente, leitora da obra de
Monteiro Lobato.
Além de
tudo, Monteiro Lobato resgata o folclore brasileiro : o Saci, a Mula-sem-cabeça
de forma sedutora e encantadora, pois antes de Lobato a cultura popular era
considerada literatura menor.
Segundo
Fátima Miguez, os quintais foram roubados das crianças, pois tanto a infância
quanto a velhice são excluídos da sociedade, portanto, o Sítio é o lugar ideal
para se pensar uma infância, ou seja, a criança é livre e sujeito das suas
ações.
Este trabalho está em
desenvolvimento, pois o projeto de Monteiro Lobato acontecerá ao longo deste
ano. Como dinamizadora de leitura tenho despertado na criança e no professor a
importância de Monteiro Lobato na nossa literatura, mas também, há a necessidade
da literatura Lobatiana como ponto de referência da própria literatura
infanto-juvenil. Sem dúvida Lobato é um marco na nossa história literária.
O Sítio é
um espaço de total liberdade para a criança interagir com o saber não como mera
receptora, mas sobretudo, podendo transformá-lo e reconstruí-lo como tão bem
Lobato fez nos seus livros. Por isso no Sítio as crianças têm total liberdade
para a fantasia e a imaginação. Talvez até fosse esse o motivo de Monteiro
Lobato optar pela ausência paterna no Sítio do Pica-Pau Amarelo, e introduzir
no entanto, a figura terna e carinhosa da avó que permite aos netos a
participação nas aventuras, quando até
mesmo a própria Dona Benta também participa e se permite ser conduzida pelas
crianças do Sítio.
Lobato
recria e mistura mitologia grega, contos de fadas, folclore, ciência, política
e autoriza que seus personagens reelaborem constantemente o saber.
Com o pó
do Pirlimpimpim não se respeita tempo e nem espaço, ou seja, tudo pode vir a
ser descoberto e reinventado, ou seja , o saber é democratizado no Sítio. A infância em Lobato é respeitada e
mais, é colocada em primeiro plano, porque muitas vezes as crianças é que
conduzem a narrativa, transgridem as normas pré-estabelecidas e avançam com uma
coragem peculiar do mundo das crianças.
Monteiro
Lobato inovou na utilização de uma linguagem coloquial, utiliza o tempo todo a
intertextualidade, realidade e fantasia se misturam na sua obra e as personagens
do Sítio do Pica-Pau têm total liberdade de expressão e de ação.
Monteiro
Lobato escreve sobre a seca e a falta de energia elétrica!
São Paulo,
10-06-1925
Rangel:
O teu conto
já estava quase composto e ia sair. Aí volta ele em provas. Se as coisas
continuarem e a Revista ressuscitar, escrever-te-ei pedindo-o de novo. Em caso
contrario, está o seu com o seu dono.
Nada sei
de como desfechará o novo caso. A situação peora. A Light, que prometera
restabelecer a força este mês, avisa hoje que fará nova redução na energia fornecida.
Só podemos trabalhar agora 2 dias por semana! E como a horrenda seca que determinou
esta calamidade continua, é voz geral que teremos completa supressão de força
em novembro. O desastre que isto representa para S. Paulo é imenso; e como se
juntou á crise da energia eletrica a crise de água da Cantareira e a crise
bancaria, o mal é enorme. Até o recurso de montarmos um motor Diesel falhou;
depois de assentado, faltou-nos água para o resfriamento...
Verdadeira
calamidade, Rangel. O mesmo que um daqueles terremotos do Japão. Estou pensando
em mudar-me, continue ou não com a empresa editora. Mudar-me para a beira dum
rio - para a beira do Amazonas - do Mississippi ... Isto de secar á moda cearense
é horrivel.
Há por ai
algum rio que não seque? Muda-te para perto dele, Rangel.
Em S.
Paulo hoje tudo depende da eletricidade - o transporte, a indústria, o aquecedor
do banheiro, fogareiro de emergência, o fogão das cosinhas, o aspirador de pó,
tudo, tudo. Se a corrente eletrica falta, tudo desgringola. Estamos
completamente parados - e por quanto tempo assim ? Tem havido missas pró-chuva,
mas os deuses andam mais surdos que o Malta. Estamos aqui de cocoras na nossa empresa,
parado com os juros das dívidas a crescerem, á espera de que chova e a Light se
normalize. Eu podia prever tuido no meu negocio - menos isso: seca do Ceará em
S. Paulo.
São Paulo,
10-07-1925
Rangel:
Lê o papel
junto. A crise da energia elétrica da Light vai dar-nos um tombo - mas há de
ser tombo passageiro. Breve estaremos novamente de pé. As feridas cicatrizarão
e em um ou dois anos ninguem falará mais no caso. É a tempestade hoje; será o
azul amanhã. Aviso-te porque és amigo; e antes o saíbas por mim do que de boca alheia.
Recebi o Rei Lear. Continue a
traduzir, e também continue o novo livro. A vitória é matemática. Perderemos
uma batalha, mas no fim ganharemos a guerra - como os ingleses.
Lobato
Fonte:
Monteiro Lobato in " A Barca de Gleyre"