ZILA DA COSTA MAMEDE (1928-1985): CONTRIBUIÇÕES LITERÁRIAS E EDUCATIVAS

 

MACHADO, Charliton José dos Santos

Doutorando em Educação-UFRN

MORAIS, Maria Arisnete Câmara de

Profa. Dra. da Pós-Graduação em Educação – UFRN

 

O presente texto é parte de um estudo mais amplo de doutoramento acerca das práticas de escrita de mulheres do Seridó paraibano - (1960-1980), desenvolvido na Base de Pesquisa Gênero e Práticas Culturais: abordagens históricas, educativas e literárias, do programa de Pós-Graduação em Educação-UFRN. O enfoque predominante são as mudanças históricas ocorridas nesse contexto, bem como as novas situações política, econômica e social colocadas como desafios para a mulher.

Inserido na abordagem da nova história cultural, analisa, especificamente, as contribuições literárias e educativas de Zila da Costa Mamede. A escolha justifica-se pela sua reconhecida atuação educacional e literária entre as décadas de 1940-1980, posto que, por meio das suas práticas intelectuais afirmou outras perspectivas para a mulher no cenário nordestino e brasileiro.

 

Do Sertão do Seridó ao litoral: paisagens e lembranças

De tradição humilde, Zila da Costa Mamede nasceu na cidade de Nova Palmeira/PB, em 15 de setembro de 1928. Filha do mecânico Josafá Gomes da Costa Mamede e da dona de casa Elidia Bezerra Mamede. Mudou-se para o Rio Grande do Norte ainda adolescente, especificamente para Currais Novos, na região do Seridó. Sobre esse processo de mudanças geográficas enfatiza a escritora: “fui transplantada muito pequena, a tempo de me sentir enraizada no Rio Grande do Norte” (Mamede, 1987, p. 9).

Essa transição de cenários marcou muito sua vida, como ela própria afirma em entrevista no programa “Memória Viva”, da TV Universitária de Natal/RN, em 03 de fevereiro de 1981: “acredito que o que vivi em Nova Palmeira e no Sertão do Rio Grande do Norte, entre o dia que nasci até os quatorze anos de idade, foi tão forte, tão forte, tão profundo e tão real, que somente quando publiquei o ‘Arado’ é que eu tive aquela dimensão” (ibid., p. 10).

A profundidade desse cenário de vivências nas cidades do interior, que vai da infância à adolescência de Zila Mamede, expressa-se nas imagens da terra molhada, das chuvas de inverno e dos rios que perduraram banhando suas lembranças. Em entrevista revela: “já nessa época (a infância), a terra era muito poderosa para mim” (Ibid. , p.12). Em seu poema “Enchente”, a autora constrói fortes representações acerca desses momentos:

 “Os cordões de chuvas caindo / escorrendo pela noite / Lembram-me da aparição /das chuvas no interior / engordando a chuva as nuvens/na cumeira das serras / as águas se despregando/nas platibandas do céu.

Meninada bandoleira / no patamar da Matriz /velho patamar de Lages / degraus de pedras de cor/ pedra lisa de escrever/ dos jogos de damas e de onça/dos ticas, das cabras cegas/ e dos cavalos de pau.

Sertão riscado de chuvas/ matapasto repontado/ a terra justa renova/ promessa de fruto são/ meninos soltos nas bicas/ nas bocas de jacarés/ misturavam-se nos riachos/ nas pedras tingindo os pés.

As luas de balandeiras/ os banhos na correnteza/ goteiras pingando redes/ lamparinas lampiões/ e medos de tanajuras/ das picadas de mutucas/ os ventos na madruga/ na manhã de levantar” (Mamede, 1978, p.149).

 

Em nota crítica sobre a obra “O arado” (1959), Luís da Câmara Cascudo (1978, p. 89-90) também abordava essas representações de vivências emocionais da autora com o cenário rural. Segundo ele: “Zila Mamede sentiu a voz irresistível da terra, chão de trabalho anônimo onde vivem os marujos sem mar dos campos semeados, e encheu-se de versos votivos em louvor do esforço antepassado [...] reencontra na terra o encanto informe e concordante com a sua própria vida interior.”

Porém, as grandes mudanças da poetisa estavam por acontecer, quando, em 1942, veio morar em Natal para completar os estudos:

 

“[...] entre 39 e 42 eu vim uma vez a Natal, apenas para fazer os meus primeiros óculos, porque eu já era cega. Quando a gente veio morar aqui, em dezembro de 42, fomos morar na rua Jundiaí, onde hoje é o complexo da Câmara Municipal. Ali tinha a casa da família Concentino, na esquina, vizinho à casa que nós alugamos, e, depois, uma cantina de soldados, sargentos e subtenentes, se não me engano do exército, das forças armadas brasileiras”. (Mamede, 1987, p.15).

 

Muito mais do que uma mudança de cidade, a vinda de Zila Mamede seria definitiva, para o lugar onde se radicou e faleceu em 13 de dezembro de 1985, nas águas do litoral norte-rio-grandense. Desde o primeiro contato, a escritora foi  seduzida pelo mar: “quando vi o mar pela primeira vez, senti a sensação de que aquela coisa grandiosa iria me tragar [...] eu tive ao mesmo tempo uma sensação de deslumbramento, e uma sensação de medo [...] talvez tenha sido bom que não tivesse entrado no mar naquela ocasião, porque, possivelmente, eu me apavoraria com a grandeza do mar.” (ibid., p. 14).

É evidente que o contato com o mar era algo que impunha uma comparação com a as rudes representações sertanejas de outrora. Essa transição é marcante no conjunto da obra de Zila Mamede, compreendido numa oscilação que vai das paisagens da infância no Sertão do Seridó paraibano e norte-rio-grandense às vivências na maturidade relacionadas à vida em contato com o mar. Sobre essa questão afirma Fonseca (1998, p.11): “foi assim a sua poesia, identificada com a terra nordestina, mas superando a cor local por navegações profundas em torno da sua própria alma”.  

 

Síntese de uma formação intelectual

Formada em Biblioteconomia, no Rio de Janeiro, pela Biblioteca Nacional, entre 1955 e 1956, Zila Mamede fez diversos cursos na área, inclusive em Nova York. Já nos anos de 1960, foi Instrutora das disciplinas: Introdução à Biblioteconomia e Técnica Bibliográfica, na UNB, em Brasília. Por esta mesma universidade cursou o mestrado em Biblioteconomia, na ocasião, não chegou a receber o grau de mestre, mas publicou o trabalho que havia preparado como dissertação.

Com todas as credenciais profissionais da formação em Biblioteconomia, Zila Mamede foi diretora da biblioteca central da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, cargo  com o  qual se aposentou, em 1980. Devido à sua contribuição na organização e estruturação, a referida biblioteca tem o seu nome, em homenagem ao decisivo papel empreendido durante anos de sua vida profissional.

Sua trajetória educativa remonta memoráveis momentos, seja na condição de professora ou instrutora, seja na participação em campanhas voltadas à aprendizagem da leitura e da escrita (selecionando livros do MOBRAL).

Vinculada à geração de 1945, escreveu prosa, poesia, crítica e textos científicos relacionados à formação acadêmica. A difusão da sua obra, especialmente poética, entre os anos de 1953 e 1985, fez percorrer o país, em centros de Recife ao Rio de Janeiro, relacionando-se com literatos famosos como Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Mello Neto, Manuel Bandeira, Osman Lins, César Leal, Câmara Cascudo, entre outros. Corroborando com essa opinião afirma Santos (2000, p.7): “Já é sabido que grandes nomes da modernidade, como João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira e o próprio Drummond, reconheceram o valor dos versos da poetisa potiguar. Zila Mamede, ainda jovem, foi acolhida pela trindade da modernidade brasileira”. 

Considerada pela crítica como a maior poetisa norte-rio-grandense, registra-se entre as suas principais obras: “Rosa de pedra” (1953), “Salinas” (1958), “O Arado” (1959), “Luiz Câmara Cascudo: 50 anos de vida intelectual” (1970), “Exercício da palavra” (1975), “Corpo a corpo” (1978), “Navegos” (1978), “A herança” (1984) e uma publicação póstuma “Civil geometria: bibliografia crítica, analítica e anotada de João Cabral de Mello Neto - 1924-1982” (1987).

 

Conclusão: permanência e atualidade de Zila Mamede

A trajetória intelectual de Zila Mamede leva-nos a estabelecer uma análise em torno de uma vida incessante, e não de um percurso estático e linear, pautado pelas obviedades de um princípio, meio e fim.

Devido à sua relevância no cenário intelectual brasileiro, permanecem vivas suas contribuições educativas e literárias reveladas nos inúmeros artigos, livros e diversos estudos em torno da sua produção, a exemplo da dissertação de mestrado “Zila Mamede: a memória como evocação”, de autoria de Santos (1996); a tese de doutoramento “Gênese de ‘A herança’ ”, de Brito (1999) e a recente obra: Cartas de Drummond a Zila Mamede, sob a organização de Santos (2000).     

 

Referências Bibliográficas

BRITO, Beteizabete.  Gênese de “A herança”. Campinas: Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas. Tese (Doutorado em Literatura), 1999.

FONSECA, Edson Nery da. A poesia de Zila Mamede. O Galo: jornal cultural – Fundação José Augusto. Ano X – nº 08, Natal, set. de 1998.

MAMEDE, Zila da Costa. Navegos (poesia reunida, 1953-1978). Belo Horizonte: Vega, 1978.

___ . Rosa de pedra. Natal: Imprensa Oficial, 1953.

___. Salinas. Rio de Janeiro: Departamento de Imprensa Nacional, 1958.

___. O arado. Rio de Janeiro: Livraria São José, 1959.

___ . Memória viva. Natal: Editora Universitária, 1987.

___. Luis da Câmara Cascudo: 50 anos de vida intelectual –1918-1968. Natal: Fundação José Augusto, 1970.

___ . Exercício da palavra. Natal: Fundação José Augusto, 1975.

___ .Corpo a corpo. Belo Horizonte: Vega, 1978.

___ . A herança. Natal: Fundação José Augusto, 1984.

___. Civil geometria: bibliografia crítica, analítica e anotada de João Cabral de Mello Neto – 1924-1982. São Paulo: Nobel, 1987.

__.Zila Mamede: a memória como evocação. Natal: Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Dissertação (Mestrado em Educação), 1996.

SANTOS, Maria das Graças Aquino. (Org.) Cartas de Drummond a Zila. Natal: Sebo Vermelho, 2000.

SANTOS, Maria das Graças Aquino. (Org.) Cartas de Drummond a Zila. Natal: Sebo Vermelho, 2000.