ENTRE GUERRILHA E LEITURA: O SONHO DE LIBERDADE EM MAYOMBE DE PEPETELA
NASCIMENTO, Maria de Fátima do
Pretendemos, com este trabalho, abordar as
representações de escola e de leitura no romance Mayombe de Pepetela, nome de guerra pelo qual é conhecido, no mundo das letras, Arthur
Maurício Pestana dos Santos, escritor angolano, considerado por Marisa Lajolo como um dos grandes nomes da literatura contemporânea em língua portuguesa[1].
A obra Mayombe foi escrita à noite entre
os anos de 1971 e 1972, quando Pepetela se encontrava na floresta de Cabinda,
lutando na Guerra de Guerrilha pela libertação de Angola, contra o domínio
colonialista português. No entanto, a publicação dessa importante obra da literatura
de Angola só ocorre em 1980, após a sua Independência.
Essa obra deu a Pepetela o Prêmio Nacional de Literatura de 1980, concedido
pela União dos Escritores Angolanos.
O narrador de Mayombe apresenta um
leitura crítica, qualificada, consciente dos problemas pelos quais o povo de
Angola está passando, como, por exemplo, a exploração e a violência praticadas
pelos colonialistas portugueses, ao mesmo tempo em que dialoga com os possíveis
leitores do romance, mostrando a importância do estudo/leitura[2]
para que a Guerra Revolucionária alcance seus objetivos, ou seja, culmine com a
Independência de Angola e sua sustentação a partir de quadros saídos do próprio
Movimento.
Isto porque a obra Mayombe, a segunda de uma
série de obras do escritor Pepetela, entre outras questões, narra a história de
um grupo de guerrilheiros do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA),
organizado em um comando de três guerrilheiros: Sem Medo, o Comandante, o Chefe
de Operações e o Comissário Político,
grupo este que constrói uma Base (morada dos guerrilheiros) no meio da mata e
se infiltra na grande floresta tropical de Mayombe, em Cabinda, com a missão de
fazer a guerra de guerrilha para matar os colonialistas, os tugas, bem como reconquistar a área e politizar os angolanos da
região para fortalecer o MPLA e conseqüentemente conseguir a Independência de
Angola. Essa Base é construída em condições precárias, a ponto de os
guerrilheiros, muitas vezes, passarem fome, mas onde não falta a escola como
apoio imprescindível à formação/educação dos seus membros, conforme o discurso
do narrador:
Depois da
partida do grupo, a maior parte dos guerrilheiros foi ocupar a sala que se encontrava
no centro da Base e que servia de escola. (p.75)
..................................................................................................
Os
guerrilheiros, de fora, chamaram Teoria. Estava na hora das aulas. As aulas eram
seguidas com pouca atenção. Mas o Comando e o professor insistiam nelas, pois,
de qualquer modo, ajudavam a passar o tempo e a esquecer a fome. Teoria sofria,
enfraquecido, e a ter constantemente de falar, mas suportava o dever. (p.139-140)
A escola aparece como instância
representativa da questão central da obra, pois é nela que ocorre a preparação
política e cultural dos guerrilheiros, que, para melhor terem um discernimento
de tudo o que está acontecendo com Angola, com eles próprios e com os seus
patrícios, precisam ser leitores e, portanto, devem saber ler. Tanto é assim
que, em várias passagens da narrativa, os personagens se preocupam com essa
questão. Vejamos o que diz Mundo Novo, personagem que estuda na Europa e volta
a Angola para fazer parte da guerrilha em Cabinda:
Tens de te
convencer que precisas estudar. Como serás útil
depois da luta? Mal sabes ler... onde vais
trabalhar? (p.76).
.........................................................................................
Precisamos de
ter um exército bem politizado,
com quadros saídos da luta de libertação. Como vamos fazer, se os guerrilheiros
não querem estudar para serem quadros.(p.76)
...................................................................................................
As pessoas
devem estudar, pois é a única maneira de poderem pensar sobre tudo com a sua
cabeça e não com a cabeça dos outros.(...). O objetivo principal duma
verdadeira Revolução é fazer toda a gente estudar. (p.79)
Como vemos, a Revolução Armada anda
de braços dados com a Revolução Educacional, pois é visível a preocupação dos
personagens com a educação dos seus camaradas de luta, pois acreditam que só é
possível uma mudança na estrutura social de Angola a partir de dois recursos: a
arma e a politização (leitor/leitura).
Mayombe deixa claro, a partir da opinião do personagem Sem Medo, o Comandante,
que a leitura/estudo é capaz de
promover até uma mudança de status social: pelo estudo/leitura, o indivíduo
pode deixar de pertencer ao proletariado e passar a fazer parte de uma elite
letrada, da qual fazem parte os mais bem preparados.
O problema é
esse. È que, nos nossos países, tudo repousa num núcleo restrito, porque há falta de quadros, por vezes num só
homem. Como contestar no interior dum grupo restrito? Porque é demagogia dizer
que o proletariado tomará o poder. Quem toma o poder é um pequeno grupo de
homens, na melhor das hipóteses, representando o proletariado ou querendo
representá-lo. A mentira começa quando se diz que o proletariado tomou o
poder. Para fazer parte da equipe
dirigente, é preciso ter uma razoável formação política e cultural. O operário
que a isso acede passou muitos anos ou na organização ou estudando. Deixa
de ser proletário, é um intelectual.(...)
Tu, Comissário, és um camponês? Porque o teu pai foi camponês, tu és camponês?
Estudaste um pouco, leste muito, há anos que fazes um trabalho político, és um
camponês? Não, és um intelectual. Negá-lo é demagogia, é populismo.(p.123)
O romance Mayombe apresenta uma estrutura
romanesca fragmentária, onde se cruzam vários discursos: a começar pelo
discurso de um narrador em terceira pessoa, permeado de diálogos diretos nos
quais os personagens/guerrilheiros vão desnudando as precárias condições em que
vivem, bem como o tribalismo, os vícios e a corrupção que mina a direção do
MPLA, tudo entremeado por outros discursos em primeira pessoa, porém identificados
por personagens que se individualizam ao se nomearem narradores e ao refletirem
no seu íntimo a respeito de suas vidas.
Os personagens de Mayombe, geralmente com
nomes alegóricos, simulam o discurso oral através de depoimentos, de
testemunhos estilisticamente individualizados, mas de profundo teor coletivo, e
se destacam pelos seus postos no Movimento, como, por exemplo: Teoria, o professor e instrutor político
do movimento, filho de mãe nativa e de comerciante português:
Nasci na
Gabela, na terra do café. Da terra recebi a cor escura de café, vinda da mãe,
misturada ao branco defunto do meu pai, comerciante português. (...). Trago em
mim o inconciliável e é este o meu motor. No universo do sim e do não, branco
ou negro, eu represento o talvez. (...). A culpa será minha se os homens exigem
a pureza e recusam as combinações? (p.7).
Perdi
Manuela para ganhar o direito de ser “talvez”, café-com-leite, combinação, híbrido,
o que quiserem> Os rótulos pouco interessam, ops rótulos só servem aos
ignorantes que não vêem pela coloração qual o líquido encerrado no frasco
(p.12).
Os meus
conhecimentos levaram-me a ser nomeado professor da Base. Ao mesmo tempo sou
instrutor político, ajudando o comissário. A minha vida na base é preenchida
pelas aulas e pelas guardas (p.16-17).
Ou ainda,
Milagre, o homem da bazuca, filho de
camponês, que revela em seu depoimento a violência e o terror, sofridos
juntamente com os seus familiares e
amigos queridos, perpetrados seja pelos colonialistas portugueses em função da
ganância pelo poder econômico e político, seja pelos seus patrícios pela falta
de conscientização política. Esse fato abominável foi decisivo para que ele
entrasse na guerrilha.
Nasci em
Quibaxe, região Kibundo, como o comissário e o chefe de operações, que são dali
próximo.
................................................................................
A minha
terra é rica em café, mas meu pai sempre foi um pobre camponês. E eu só fiz a
Primeira Classe, o resto aprendi aqui, na Revolução. Era miúdo na altura de
1961. Mas lembro-me ainda das cenas de crianças atiradas contra as árvores, de
homens enterrados até ao pescoço, cabeça de fora, e o trator passando, cortando
as cabeças com a lâmina feita para abrir terra, para dar riqueza aos homens.
Com que prazer destruí há bocado o buldôzer! Era parecido com aquele que arrancou
a cabeça do meu pai. O buldôzer não tem culpa, depende de quem o guia, é como a
arma que se impunha. Mas eu não posso deixar de odiar os tratores (p.32).
Vejam a injustiça.
Eu, Milagre, vim do Quibaxe, onde os homens atacavam o inimigo só com catanas e
a sua coragem, eu vim de longe, o meu pai foi morto, a cabeça levada pelo
trator, para ver agora um dos nossos, amarrado, seguir para o Congo, amarrado,
porque ficou com cem escudos dum traidor de Cabinda! Eu Milagre, nasci para ver
isto (p.67).
Entre outros personagens que se articulam na
estrutura fragmentária (já referida)
do romance, temos: Mundo Novo, o intelectual; Muatiânvua,
o desenraizado, antigo marinheiro, filho de mineiro; André, o Responsável em Dolisie, filho de Soba (chefe de tribo
africana); O Chefe do Depósito,
camponês sem terra; O Chefe de Operações, filho de camponês; Lutamos, filho de camponês de Cabinda,
guia da mata, que é morto pelos colonialistas na frente de combate; O Comissário Político, filho de
camponês, encarregado de politizar tanto os guerrilheiros da Base quanto os
colonos da região de guerrilha.
Como vemos, quase todos os personagens da obra foram
camponeses ou descendentes destes e não tiveram oportunidade de estudar em uma
escola formal devido à exploração colonialista, por isso há uma preocupação do
Movimento em criar condições para o funcionamento de ambientes de ensino, que,
mesmo sendo informais (no meio da mata e não reconhecidos pelas instâncias
colonizadoras), possam garantir ao povo, como diria Paulo Freire[3],uma
Educação que, desvestida da roupagem
alienada e alienante, seja uma força de mudança e de libertação.
As múltiplas vozes dos personagens engendram como que
monólogos interiores, pensamentos falados, o que parece simulação de oralidade,
como se os personagens pensassem em voz alta, demonstrando as suas dores, as
suas dúvidas, as suas angústias, os seus anseios, os seus costumes, os seus
sonhos e a convicção de que só a luta armada e a politização farão com que o
povo angolano possa ter no futuro uma vida digna; ao mesmo tempo em que opinam
positiva ou negativamente sobre seus companheiros de luta, com os quais estão
convivendo. Vejamos o que diz Mundo Novo:
Como se
fosse possível fazer-se uma Revolução só com homens interesseiros, egoístas! Eu não sou egoísta, o
Marxismo-leninismo mostrou-me que o homem como indivíduo não é nada, só as
massas constroem a História. Se fosse egoísta, agora estaria na Europa, como tantos
outros, trabalhando e ganhando bem. Por que vim lutar? Porque sou
desinteressado. Os operários e os camponeses são desinteressados, são a
vanguarda do povo, vanguarda pura, que não transporta com ela o pecado original
da burguesia de que os intelectuais só muito dificilmente se podem libertar. Eu
libertei-me, graças ao marxismo (p.83) .
Também é pertinente a fala do Comissário Político ao
ficar muito abalado com a morte de Sem Medo, seu companheiro de luta, e
Comandante do grupo:
A morte de
Sem Medo constituiu para mim a mudança de pele dos vinte e cinco anos, a
metamorfose. Dolorosa, como toda metamorfose. Só me apercebi do que perdera (
talvez o meu reflexo dez anos projetado à frente ), quando o inevitável se deu.
..........................................................................................
Eu evoluo e
construo uma nova pele. Há os que precisam de escrever para despir a pele que
lhes não cabe já. Outros mudam de país. Outros de amante. Outros de nome ou de
penteado. Eu perdi o amigo.
Do coração
do Bié, a mil quilômetros do Mayombe, depois de uma marcha de um mês, rodeado
de amigos novos, onde vim ocupar o lugar que ele não ocupou, contemplo o
passado e o futuro. E vejo quão irrisória é a existência do indivíduo. É, no
entanto, ela que marca o avanço no tempo.
Penso, como
ele, que a fronteira entre a verdade e a mentira é um caminho no deserto. Os
homens dividem-se dos dois lados da fronteira. Quantos há que sobem onde se encontra
esse caminho de areia no meio da areia? Existem, no entanto, e eu sou um deles.
(p.268)
Observamos em Mayombe a existência de personagens que cumprem a função de leitores, geralmente
aquelas que tiveram oportunidade de estudar em uma escola formal, como, por
exemplo, Sem Medo, o Comandante, estudante de Economia, que abandona o curso
para entrar na guerrilha e é morto, no final da história, pelos tugas, com uma rajada de uma Breda.
Mundo Novo, considerado intelectual linha dura, estudou na Europa e rapidamente
galga o posto de Responsável em Dolisie com a saída de André. Vejamos, então, o
que pensa Sem Medo a respeito de seus companheiros de luta e principalmente
sobre o intelectual Mundo Novo:
Mundo Novo
deve estar a pensar na Europa e nos seus marxistas-leninistas.(p.21)
Que querias?
Que copiasse uma citação de Marx? (p.31)
Estes jovens
vêm da Europa com a idéia que o estudo teórico do marxismo é uma porção mágica
que os fará ser perfeitos na prática. (p.81)
Eu
libertei-me, graças ao marxismo. (p.83)
A tua ação
na luta, em que estás a contribuir para transformar a sociedade, é um fato
cultural muito mais profundo que todos os conhecimentos literários que ela tem.
(p.98)
Está bem que
tinha o trabalho clandestino, a Leli começava a interessar-se estudávamos
juntos o marxismo. (p.161)
Se, por um lado, não aparecem na obra personagens em
situação efetiva de leitura, por outro, existem muitas referências, (como as
citadas acima) a respeito das leituras praticadas por elas. Essas referências
de leitura estão quase sempre relacionadas com autores que, de certa forma,
influenciaram a revolução socialista/comunista. Porém, existe o leitor/narrador
em terceira pessoa, que, além de fazer referência a leituras de textos
militantes, demonstra ser um leitor erudito, que, ao dialogar com a cultura ocidental,
inclusive com a mitologia grega (como a tragédia de Prometeu Acorrentado, o
qual também se rebelou contra a tirania dos deuses, roubando-lhe o fogo para
levá-lo até os mortais), instaura a dialética colonizador/colonizado, da
resistência política, e da rebeldia contra a ordem estabelecida, em defesa do
direito de o homem ser o sujeito de sua própria história:
Assim foi parida pelo Mayombe a Base
guerrilheira.
A comida
faltava, e a mata criou as “comunas“, frutos secos, grandes amêndoas, cujo
caroço era partido a faca e se comia natural ou assado. As “comunas” eram alimentícias,
tinham óleo e proteínas, davam energia, por isso se chamavam “ comunas”.(...)
O Mayombe
tinha criado o fruto, mas não se dignou mostrá-lo aos homens: encarregou os
gorilas de o fazer, que deixaram os caroços partidos perto da Base, misturados
com as suas pegadas. E os guerrilheiros perceberam então que o deus Mayombe
lhes indicava, assim, que ali estava o seu tributo à coragem dos que desafiavam:
Zeus vergado a Prometeu, Zeus preocupado com a salvaguarda de Prometeu,
arrependido de o ter agrilhoado, enviando agora a águia, não para lhe furar o
fígado, mas para o socorrer. (Terá sido
Zeus que agrilhoou Prometeu, ou o contrário?) (p.70).
Para finalizar, verificamos, em Mayombe, que é através da
leitura, ou melhor, de uma releitura de um dos textos pioneiros do cânone
ocidental, a peça de Ésquilo Prometeu Acorrentado, que o narrador
do mencionado romance de Pepetela tece o sonho de liberdade e identifica-se,
enquanto agente esclarecido, consciente
de sua missão.
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