O HÉRCULES LOBATIANO: A LEITURA CARNAVALIZADA DE UM HERÓI

 

PERRONE, Cristina Aquati

Universidade de São Paulo – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas

 

A ocorrência do mito é uma questão muito significativa na literatura. Observa-se que ainda hoje o jovem leitor conserva grande interesse pelo mito clássico, tanto que as narrativas infanto-juvenis freqüentemente se remetem a ele em textos originais ou em adaptações. Esse interesse é facilmente explicado pelo caráter maravilhoso do mito, que favorece uma comunicação com o pensamento mágico infantil; afinal, a criança compreende melhor imagens simbólicas que conceitos abstratos.

O percurso do mito é muito longo e uma constante imprescindível na existência do Homem que procura explicar a sua participação no universo. Assim, por meio de diversos campos do conhecimento houve tentativas de uma explicitação do mito. Segundo Mircea Eliade (1998), o mito é uma narrativa especial de atos de entes sobrenaturais (deuses, semideuses ou seres de ascendência divina); verdadeira porque se refere a realidades vividas como exemplo a criação do fogo, do universo, etc; o conhecimento do mito proporciona o conhecimento da origem das coisas e é um modelo exemplar e universal que deve ser rememorado e reatualizado.

Por isso, o mito é uma narrativa dinâmica que tem a possibilidade de se atualizar. A evolução do mito de Hércules é um exemplo. O escritor grego Eurípides em Herácles e o latino Sêneca em Hércules Furioso escreveram tragédias sobre a loucura de Hércules, enquanto Lobato recupera o mesmo mito e o transforma num bom exemplo de Literatura para crianças. Isto demonstra que o mito pode transitar de uma cultura para outra, de um tempo para outro e de um público para outro.

A valorização dos assuntos gregos é um dos objetos evidentes na obra de Monteiro Lobato, que já em História do Mundo para as Crianças, de 1933, demonstra interesse pela cultura grega ao abordar num dos capítulos a história da Grécia. Contudo, é em O Picapau Amarelo (Lobato, 1993, p. 52-53), que esse interesse se concretiza em forma de narrativa: D. Benta conta às crianças sobre o mundo grego e lhes propõe uma viagem à Grécia, da qual se poderia produzir um livro. E imediatamente Emília se entusiasma:

“— Que lindo livro vai ser! — exclamou Emília — VIAGEM DO SÍTIO PELO OCEANO DA IMAGINAÇÃO GREGA.

— Comprido demais, Emília. Os títulos devem ser curtos, se não ninguém decora. Veja OS LUSÍADAS, A ILÍADA, A ODISSÉIA, O INFERNO, A ENEIDA...

— Então fica sendo a A EMILEIDA, propôs a diabinha — mas ninguém concordou por ser desaforo: a viagem não era só dela, era de todos.”

 

Embora saiba-se que o tema grego perpasse outras obras como O Minotauro, O Picapau Amarelo, Histórias Diversas, Histórias do Mundo para as Crianças e História das Invenções, este trabalho abordará o mais extenso livro infanto-juvenil de Lobato sobre o tema, Trabalhos de Hércules.

Em Trabalhos de Hércules, a princípio é importante notar que Lobato não alterou a fábula desse mito clássico. Os doze trabalhos que o Hércules lobatiano leva a cabo por ordem do rei de Micenas, Euristeu, nos são contados exatamente como foram executados pelo Hércules clássico. Isso demonstra que Lobato tinha o interesse em fazer com que as crianças conhecessem o mito em sua versão original. Dessa mesma forma, Lobato aproveitou para relatar outros mitos, como por exemplo, o de Perseu, o de Teseu, entre outros e outras histórias da Antigüidade, como fez parcialmente com o burrico Lúcio, de O Asno de Ouro, do romano Apuleio.

Assim, um leitor mais atento perceberá a existência de duas narrativas que se entrecruzam em vários momentos: a narrativa do mito clássico e a narrativa própria do herói de Lobato. Desse modo, o entrelaçamento dessas narrativas permite que Lobato construa o seu herói a partir de uma personagem, unindo as características míticas do herói grego com aquelas que o autor coordena no herói lobatiano.

No primeiro encontro com Hércules, as duas narrativas prosseguem caminhando juntas, pois é possível ver que o nome do herói clássico é conservado[1], como também as seqüências das ações tomadas por ele para realização de seu primeiro trabalho. Entretanto, inicia-se a descaracterização mítica do herói no momento em que as personagens Emília e Pedrinho participam da façanha, pois eles sugerem a Hércules a solução do trabalho. Assim, nasce o herói lobatiano diferentemente do herói clássico, que age sozinho contra as forças destruidoras. Portanto, uma das principais interferências de Lobato em relação ao mito clássico é o deslocamento da personagem principal: Hércules cede agora esse papel para as personagens do sítio que visitam a Grécia clássica.

As personagens do sítio não estão na narrativa somente para aconselhar Hércules em seus trabalhos, mas para efetivamente participar deles, como Emília deixa bem claro, logo depois do combate de Hércules contra o leão da Neméia:[2]

 “O Visconde fica sendo o seu escudeiro, como aquele Sancho que acompanhava D. Quixote. Sempre há de servir para alguma coisa. Eu forneço as idéias. Pedrinho dá um excelente oficial de gabinete, ou ajudante de ordens. O senhor fica sendo o muque do bando; Pedrinho, órgão de ligação, eu, o cérebro; e o Visconde a escudagem científica...” (Lobato, 1972, p. 19, v. I)

           

Em vários trabalhos, é uma das personagens do sítio que se torna o herói. Por exemplo, no terceiro trabalho de Hércules – A Corça de Pés de Bronze – é Pedrinho que prende a corça em uma corda ao final da façanha, segurando-a com força. Nesse trabalho, Hércules é totalmente destituído da função de herói, pois ele somente confecciona a rede, juntamente com Emília e Visconde, para capturar a corça. É importante salientar que Lobato não se esquece de fornecer a Pedrinho alguns dos atributos do herói clássico ao utilizá-lo como herói da façanha: à guisa de uma força extraordinária, Pedrinho dá um “socão” na corça depois de tê-la prendido.

Em diversos momentos, Emília participa das ações heróicas nas façanhas de Hércules. Ela planeja todo o salvamento do Visconde, que estava aprisionado no Oráculo de Delfos por ter sido confundido com uma oferenda que havia escapado do templo. Entretanto, é com seu faz-de-conta que ela realiza o seu maior ato de heroísmo: salva a vida de Hércules na luta contra o javali de Erimanto. Ao entrar em confronto com o javali, Hércules usa as suas flechas; contudo, essas flechas tinham sido “humanizadas” por Emília, que cortara a ponta pela metade para não machucar os sátiros. Ao perceber que Hércules perderia a batalha, ela faz com que as flechas voltem ao normal com seu faz-de-conta e Hércules consegue derrubar o javali.

Também, o Visconde toma o lugar de herói no sétimo trabalho de Hércules – O Touro de Creta. No momento de capturar o touro, o Visconde agarra a argola que estava embaixo do touro para entregá-la a Pedrinho. O feito foi realizado, logicamente após o empurrão que Emília dera no Visconde e esse fora cair bem em cima da argola.

Já a personagem do Hércules lobatiano é um herói que, apesar de conservar características do Hércules clássico — como a origem divina e terrestre, a participação em combates desafiadores, a impulsividade — ele ainda possui uma psicologia elementar, pois é caracterizado como um “burrão de nascença, como todos os grandes atletas” (Lobato, 1972, p. 19, v. I). Também, diferenciando-o do modelo tradicional que é associado somente à força e à violência, Lobato humaniza Hércules um pouco mais incorporando-lhe um novo elemento: a fragilidade — ele enjoa no navio nas travessias dos mares e arrepende-se, a uma repreensão de Emília, por haver exterminado todos os centauros da terra. Além disso, Hércules chora no enterro de seu amigo, o centauro Folo e, sobretudo, na despedida dos amigos do sítio, ao final da aventura.

O convívio com as personagens do sítio ensina o Hércules lobatiano a refletir, como no momento em que encontra o centaurinho Meioameio:

“Hércules sempre vivera em luta com os centauros já tendo abatido muitos. Mas pela primeira vez via bem de perto e a cômodo um dêsses entes, e conhecia-o na intimidade — e nada encontrou em Meioameio que justificasse o seu antigo ódio aos centauros. Sim, se eram uns brutos, isso vinha apenas da falta de educação? E Hércules, com tôda a sua burrice, ‘teve uma idéia’, talvez a primeira idéia de sua vida: que é a educação que faz as criaturas.” (Lobato, 1972, p. 49, v. I)

E ainda, no momento das despedidas, Hércules comenta o que aprendeu com cada um dos picapauzinhos:

“(...) No meu oficial Pedrinho vi um modelo de herói dum novo tipo. Apreciei muito as suas qualidades, e sobretudo a sua prudência. Porque não desceu conosco aos infernos? Por prudência — e hoje eu percebo que a prudência deve ser uma das mais belas qualidades do que vocês chamam de “herói moderno”. (...)

                                        Emília me enlevou pela sua presença de espírito, pela vivacidade e prontidão da inteligência, pelo engenho de sair-se bem de todos os apuros. E que idéias felizes! A de cortar a ponta de uma das asas do abutre de Prometeu foi “batatal”, como ela diz. (...)

                                        E que direi do meu escudeirinho? Há nele uma lama generosíssima de herói sob as singelas dum grande sábio. É o tipo do “herói resignado”. Como é modesto e humilde! Não o vi gabar-se nem uma só vez. Executa as incumbências mais perigosas sem um só protesto ... (Lobato, 1972, p. 104, v. III)

 

Também, o Hércules lobatiano mostra a consciência de sua transformação em uma conversa com Pedrinho, afirmando-se ainda mais como um novo herói cuja reflexão é uma das suas características:

“— Evoluir é mudar com aperfeiçoamento. Uma coisa que muda mas não aperfeiçoa, não está evoluindo. A água dum rio está sempre mudando de lugar, mas não evolui, porque muda sem aperfeiçoar-se, entendeu?

Hércules fêz um esfôrço para entender e parece que entendeu, pois disse:

— Nesse caso, eu também estou evoluindo. Minhas idéias estão mudando.

— Para melhor ou para pior?

— Para melhor ...” (Lobato, 1972, p. 102, v. III)

 

Observa-se que a idéia do mundo “às avessas” está presente na obra de Lobato. Por exemplo, a heroicidade mítica é carnavalizada: o herói clássico age sozinho contra as forças destruidoras ou com assistência dos deuses que lhe fornecem meios mágicos para ele se defender; enquanto o herói lobatiano interage com as personagens do sítio. Anula-se a hierarquia das personagens, pois Emília, Pedrinho e o Visconde de Sabugosa dividem a heroicidade com Hércules, e, portanto, substitui-se uma personagem principal propriamente dita por um grupo que age e exige uma participação ativa de cada uma das personagens na dinâmica interna do texto.

Enfim, o título Trabalhos de Hércules, dessa forma, remete mais à intertextualidade com o mito clássico que à atuação de Hércules como personagem principal: o leitor descobre ao final da obra que todos podem ser heróis, inclusive ele próprio.

 

BIBLIOGRAFIA

BAKHTIN, Mikail.  Problemas da poética de Dostoiévski.  Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1981.

_______ . A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais.  São Paulo: Hucitec-Editora da Universidade de Brasília, 1999.

ELIADE, Mircea.  Mito e realidade.  São Paulo: Perspectiva, 1998.

LOBATO, Monteiro. Trabalhos de Hércules.  São Paulo: Brasiliense, 1972.  3v.

––––––– .  O Picapau Amarelo.  São Paulo: Brasiliense, 1993.



[1] Conforme informa D. Benta às crianças do sítio: “— Na Grécia Antiga o grande herói nacional foi Héracles, ou Hércules, como se chamou depois.” (Lobato, 1972, p.07, v. I).

[2] Nesse mesmo combate Emília já manipulara o herói, indicando-lhe a maneira de vencer o monstro.