“A MANIPULAÇÃO E A PUBLICIDADE”

 

RODRIGUES, Regina de Fátima

Pontifícia Universidade Católica de Campinas (Puccamp)

 

Quando folheamos uma revista não podemos deixar de observar os anúncios publicitários, normalmente belos, coloridos, com pessoas bonitas, bem sucedidas e felizes, características exploradas pela publicidade, que através da criatividade, “busca recursos expressivos que chamem a atenção do leitor, que o façam parar e ler ou escutar a mensagem que lhe é dirigida” (Sandman, 1993). Atingindo desta forma, o seu objetivo maior, que é o de vender os produtos anunciados. Para isso, escolhem o público alvo, chamado de auditório por Perelman e Olbrechts-Tyteca (1996), a quem o anúncio se destina, levando em consideração os interesses do leitor, pois a publicidade cada vez mais “faz parte da cultura de massa e ganha espaço na vida das pessoas, influenciando-as” (Ghilardi, 1999).

É o que acontece, por exemplo com o anúncio que examinaremos “O Boticário – Natural do Brasil”, publicado na revista “Nova” de abril de 2000, que tem como auditório “as mulheres”. Observaremos através deste anúncio, que a publicidade se utilizará das mais variadas técnicas para influenciar o comportamento do seu público alvo,  fazendo com que estas (as mulheres)  sintam a necessidade de adquirir os seus produtos. Podemos encontrar neste caso, vários tópicos teóricos para exemplificar as técnicas usadas na persuasão das leitoras; destacaremos uma, que pode ser observada em “quase” todos os anúncios que conhecemos: a Manipulação.

Ao tentarmos defini-la, precisamos considerá-la primeiramente como “ato de controlar ou dominar” (Dicionário Aurélio, 1999). Depois como “ação do homem sobre outros homens, visando a fazê-los executar um programa dado” (Greimas e Courtés – s/d:269). Até chegarmos a definição de José Luiz Fiorin (1989), que a coloca como parte integrante da comunicação, que é “um complexo jogo de manipulação  com vistas a fazer o enunciatário (público alvo) crer naquilo  que se transmite a ele, ou seja, persuadi-lo, através de certos “procedimentos argumentativos” , que acabam por convencê-los da veracidade do que foi dito pelo enunciador”. Procedimentos estes, que são explicados por Greimas e Courtés (s/d: 269), classificando a manipulação através de quatro recursos: “Sedução”, “Tentação”, “Provocação” e “Intimidação”.

A Manipulação, dentro da  publicidade,  parte de um destinador ( o anunciante) para o destinatário (público  alvo), sendo que o primeiro age sobre o outro para levá-lo a “querer” e consequentemente a “dever” fazer algo, mesmo que este não seja o seu objetivo atual. Ou seja, o primeiro tenta persuadir o outro, influindo no seu comportamento, explorando o lado positivo do enunciatário, através da “sedução”, onde o manipulador apresenta uma imagem positiva do manipulado, elogiando-o, reconhecendo nele qualidades positivas, que o farão querer-fazer o que o anunciante propõe, ou através da “tentação”, onde é oferecido um objeto de valor, material ou abstrato,  através do qual,  ele é levado a querer-fazer novamente, só que desta vez tendo como objeto de desejo um prêmio, que o convença a adquirir o produto. Podemos observar,então, que na “sedução” é explorado a dimensão cognitiva do “saber” do manipulado, ou seja, ele é seduzido pela sua vaidade, pelo prazer de ser elogiado, no entanto a “tentação” explora o “poder” do manipulador, que oferece prêmios   ao destinatário, capaz de tentá-lo a comprar o produto, pela chance de receber o prêmio oferecido, explorando assim, características positivas da manipulação.

Mas o manipulador também pode explorar o outro lado, ou seja, as características negativas da manipulação, que pode ser atingido através de dois recursos; a “provocação”, que assim como a “sedução”, explora a dimensão cognitiva, só que ao invés de elogiar o manipulado, este é chamado de “incapaz”, ou de qualquer outra forma que o instigue a querer provar o contrário, por exemplo, se o manipulado é chamado de “covarde”, ele será persuadido a ter que provar que é “corajoso”, assim sendo,  ele é provocado a fazer o inverso do que o manipulador está dizendo, ele deve mostrar que pode sim, que é capaz de fazer algo, agindo desta forma  estará fazendo exatamente o que se espera dele; da mesma forma acontece com a  intimidação”, onde o manipulado se sente intimado a aceitar o que lhe é proposto, pois nestes dois casos, o manipulado se vê em uma posição de falta de liberdade, com se não tivesse escolha, se vê obrigado a aceitar o que lhe é imposto pelo discurso manipulador.

Diante destas observações colocadas por Greimas e Courtés (s/d: 269), Fiorin (1988) ao estudar o discurso político, coloca “a (sedução) e a (tentação) como recursos persuasivos  do discurso democrático (onde se convence demonstrando vantagens, oferecendo presentes e até glórias),  enquanto  que a “provocação” e a “intimidação” predominam no discurso autoritário” (onde se convence sem dar  alternativa de escolha, neste caso o manipulado aceita a manipulação por não ter liberdade de dizer “não”). É claro que, fazendo parte do discurso autoritário ou democrático, a manipulação é sempre uma tentativa de persuasão, que segundo Barros (1990) “só será bem sucedida quando o sistema de valores em que ela está assertada for compartilhado pelo manipulador e pelo manipulado, quando houver uma certa cumplicidade entre eles”.

É o que acontece no anúncio publicitário examinado, onde a cumplicidade entre o manipulador ( O Boticário ) e o manipulado ( as mulheres ) fica evidente, pois o anunciante consegue atingir o seu objetivo, que é o de vender os seus produtos, manipulando o seu público alvo através dos recursos de “sedução “ e “tentação”.

Usando o recurso da “sedução” , o Boticário (manipulador) elogia a mulher (manipulada) dizendo que seus produtos a deixarão “mais natural”;  “ainda mais bonita”, quer dizer, o manipulador deixa claro que considera a mulher natural e bonita, ele só quer, através de seus produtos, torná-la “mais” , fazendo com que esta beleza natural, aflore, deixa claro que “nada como um pouco de maquiagem para deixar a mulher mais natural”, para isso, oferece a ela “a tecnologia e a arte dos seus produtos”, que possuem, segundo eles, “um efeito novo em cada combinação de cores” , “um novo toque de beleza em cada cor”, que permite a mulher adquirir “uma expressão que ela ainda não tinha descoberto”, tudo isso através da “nova linha Natural Colors”. O manipulador ainda usa a imagem de uma bela mulher, toda maquiada com os produtos do Boticário, colocados em evidência ao lado dela no anúncio, em embalagens igualmente bonitas. Quer dizer, o manipulador não só seduz pelos elogios feitos à mulher, como pelos resultados obtidos por quem utiliza os produtos.

Por outro lado, o manipulador também explora, no anúncio, a “tentação”, oferecendo um prêmio que, neste caso, não se trata de algo material, ou seja, carros ou jóias, oferece algo abstrato, que envolve a auto-estima, o ego do manipulado, oferece a beleza mundial ao dizer “o mundo nunca viu você tão bonita”, e a beleza moderna, que será valorizada no novo século, ao afirmar “seu rosto com o toque do novo milênio”. Ou seja,  você será notada por todos, o novo milênio chega com promessa de tudo novo e belo, de novas esperanças, novos sonhos e você (consumidora dos produtos do Boticário) será parte deste novo, será uma nova mulher, “mais” bonita, “mais” em tudo, pois na nossa sociedade a beleza é fundamental, e há um padrão desta beleza, imposto pelos meios de comunicação, principalmente pela televisão, quer dizer, se você não estiver dentro dos padrões estabelecidos, não será considerada “bela” . O manipulador oferece  essa beleza desejada ao manipulado, quando ele adquirir os seus produtos; beleza esta possível através dos produtos oferecidos, pois “a mensagem publicitária é o reino da felicidade e da perfeição” (Carvalho, 1996), tudo nela é possível e viável, basta acreditar, adquirindo os produtos .

É evidente que o manipulador conhece o manipulado muito bem e também os valores da sociedade, pois ao oferecer a beleza como prêmio, oferece também  a oportunidade do manipulado vir a se destacar, pois na sociedade brasileira, beleza significa sucesso, dinheiro, status, ou seja, ser feliz, pois acredita-se que, quando se é belo, você pode ser notado pelo mundo, assim as oportunidades aparecem mais rápido, mas para isso, é necessário o padrão de beleza exigido, este padrão que o anunciante está oferecendo.

Através destes aspectos destacados no anúncio, podemos verificar porque a publicidade é tão forte nos dias de hoje e atinge com tanta facilidade os seus objetivos junto aos enunciatários, ela sempre oferece nos seus anúncios o que as pessoas procuram no seu dia-a-dia ou seja, felicidade, sucesso, prazer e satisfação, se tornando manipuladores de idéias, situações e até de sonhos, atingindo assim os dois tipos de manipulados conhecidos: “os inconscientes” , ou seja, os que não percebem que estão sendo persuadidos a desejarem o produto oferecido, não conseguem detectar o jogo de manipulação no qual estão sendo inseridos, se deixam levar pelas promessas oferecidas nos anúncios, julgando-as verdadeiras. Já, “os conscientes”, se deixam manipular para poder experimentar e testar se verdadeiras ou não, as promessas feitas pelo anúncio, às vezes são levados pela fantasia, pela ilusão, por um desejo, uma esperança ou até por querer levar vantagem em algo, aceitam a manipulação passivamente por poderem tirar algum benefício próprio, enfim, preferem se deixar manipular, pois foram seduzidos pelos elogios e tentados pelos prêmios oferecidos, sendo eles materiais ou não, mas que possam oferecer-lhes dinheiro ou ilusões de felicidade real e possível.

O que cabe a nós, leitores, diante desta manipulação com a qual nos deparamos diariamente? Segundo Ghilardi (1999) cabe a nós “estarmos atentos às artimanhas tão bem preparadas para comprarmos os produtos – ou as idéias – sugeridas pelos anunciantes”. E continua dizendo “que o nosso papel (de leitor e ouvinte) nos confere a importância de poder aderir ou não aos argumentos expostos pelo locutor” , pois  dependerá da leitura que faremos e da postura que tomaremos em relação aos anúncios. A escolha é nossa, podemos, então, decidir por sermos manipulados inconscientemente, deixando-nos levar  pela fábrica de ilusões da publicidade, ou sermos manipulados conscientemente, nos deixando manipular quando isto nos trouxer alguma vantagem. A realidade é que cabe a nós escolhermos se seremos manipulados de forma consciente ou se questionaremos a veracidade do que é dito e prometido nos anúncios de um modo geral, só assim, poderemos decidir se queremos  ser considerados  Manipuladores de idéias ou  vamos preferir ser manipulados por elas?

 

 

BIBLIOGRAFIA

BARROS, Diana Luz Pessoa de. (1990). Teoria Semiótica do Texto. SP, Ática.

CARVALHO, N. de (1996). Publicidade: a linguagem da sedução. SP, Ática.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda (1999). Dicionário Aurélio. SP, Nova Fronteira.

FIORIN, José Luiz (1988). O Regime de 1964. Discurso e Ideologia. SP, Atual.

FIORIN, José Luiz (1989). Elementos de Análise do Discurso. SP, Contexto.

GHILARDI, Maria Inês Lucena (1992). Manipuladores e Manipulados. Revista Letras, Puccamp, Campinas.

GHILARDI, Maria Inês Lucena (1999). A mulher na publicidade: Valores e hierarquias. Estudos Linguísiticos Gel. SP, Universidade do Sagrado Coração.

GREIMAS, Algirdas Julien e COURTÉS, Joseph. (s.d.) Dicionário de Semiótica. Tradução de vários autores. SP, Cultrix.

PERELMAN, C. e OLBRECHTS-TYTECA, L. (1996). Tratado da argumentação. A Nova Retórica. Tradução: Maria Ermantina Galvão Pereira. SP, Martins Fontes.

SANDMAN, A. J. (1993). A linguagem da propaganda. SP, Contexto.