APRESENTAÇÃO DE FRANCISCO MARINS: A LITERATURA INFANTIL E JUVENIL BRASILEIRA DE 1940 A 1960[1]

 

SOUZA, Claudete Cameschi de

UNESP – Marília; CNPq[2]

 

Francisco Marins nasceu em Vila da Prata, hoje Pratânia, município de Botucatu/SP, em 23 de novembro de 1922. Filho da terra de grandes nomes literários, Marins passou sua infância embalado pela Tristeza do Jeca, de Angelino Oliveira Junior, e em contato com a vida rural que, mais tarde, inspiraria sua produção literária, voltada para os costumes e a história da formação brasileira.

Neto e filho de agricultores do café e bacharel em Direito, Francisco Marins vem, a 56 anos, entrelaçando os fios da história e da ficção, tendo como temas fundamentais os fatos históricos brasileiros e enfocando, particularmente, a expansão territorial paulista decorrente da ação dos bandeirantes e a decadência da cultura cafeeira no interior do estado de São Paulo.

Embora tenha-se destacado como escritor de textos para crianças e jovens somente, a partir de 1945, com a publicação de Nas Terras do Rei Café, pela Companhia Melhoramentos de São Paulo, Marins já atuava como editor, jornalista e escritor, no meio intelectual paulista e carioca.

Foi fundador e diretor do jornal O Estudante, de Botucatu; diretor da revista Arcádia, da Universidade de São Paulo (USP); jornalista colaborador da Folha de Botucatu, para qual publicou uma série de contos denominados Contos Sertanejos e estudos críticos como Pitangas e Garirobas; trabalhou como jornalista, escrevendo em O Malho (RJ); Dom Casmurro (RJ); no Revista Planalto (RJ), de  Orígenes Lessa; Revista O Cruzeiro (RJ); Folha da Manhã (RJ); na Revista Ilustração (RJ) e nos Diários Associados de São Paulo.

Em meados de 1934, escreve, em parceria com Hernani Donato, a  novela infantil O Tesouro, publicada em 25 capítulos no suplemento “O Guri” dos Diários Associados de São Paulo, marcando, assim, o início da carreira de escritor de livros para crianças e jovens, que se confirma em 1937, com a publicação de Homens Marcados, no Suplemento Infantil do Diário de São Paulo.

Mas a contribuição de Francisco Marins ao processo de formação e à história da literatura infantil e juvenil brasileira não se restringe a sua produção literária. Como Assistente Editorial da Companhia Editorial Melhoramentos de São Paulo, participou da difusão de autores renomados europeus e americanos, mediante “propaganda- editorial” organizada em forma de catálogos  e/ou revista de divulgação, na qual constavam informações bibliográficas sobre diversos autores, como, por exemplo, Albert Schweitzer, Bernard Shaw, Gustavo Flaubert, entre outros.

Ainda valendo-se das revistas de divulgação e/ou catálogos dessa editora, Marins incentivou a publicação de livros e álbuns de gravuras para crianças em fase inicial de alfabetização; estímulou escritores nacionais da literatura infantil e juvenil. Além desse trabalho de divulgação, Marins traduziu e adaptou alguns clássicos da literatura infanto- juvenil, como, por exemplo, O Patinho Feio,  de Hans Christian Andersen,  O Máscara de Ferro, de Alexandre Dumas.

Francisco Marins, foi também editor da Companhia Melhoramentos de São Paulo; diretor da Câmara Brasileira do Livro; Presidente da Comissão de Literatura do Conselho de Cultura d a o Estado de São Paulo; Presidente da Câmara Brasileira do Livro;  Presidente da Academia Paulista de Letras;e , atualmente, é membro da Academia Botucatense de Letras; membro da Academia Paulista de Letras; membro da Academia Brasileira de Literatura Infantil; fundador e coordenador do Convivium: Espaço Cultural Francisco Marins, em Botucatu/SP, e presidente da Empresa Bras-hidro, em Botucatu, SP.

Seus primeiros livros infanto-juvenis foram publicados pela Companhia Editora Melhoramentos de São Paulo, nas décadas de1940 e 1950, e compreendem as séries Taquara-Póca e Roteiro dos Martírios, nesse período, e até o presente ano, os livros dessas séries tiveram mais de 2.100.000 exemplares vendidos, tendo rendido ao escritor vários prêmios literários e homenagens, além da indicação, pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, para o Prêmio Internacional Hans Christian Andersen.

Alguns de seus livros infantis e juvenis foram traduzidos para o castelhano, inglês, húngaro, africânder, italiano, alemão, eslovaco, dinamarquês e francês, e muitos deles foram lançados também em Portugal. Observa-se, portanto, que a literatura infantil e juvenil de Francisco Marins ganhou repercussão internacional, levando esse escritor a figurar na Delphin, Coleção de Clássicos da literatura mundial para a juventude.

Francisco Marins escreveu e publicou: duas novelas infantis; aproximadamente 23 contos; 55 artigos, inclusive artigos críticos sobre escritores e obras de literatura brasileira; 5 entrevistas com personalidades famosas; cerca de 5 discursos e 5 prefácios; 1 conferência (que pode ser encontrada na íntegra); 15 livros para crianças e jovens; 4 romances para adultos; 1 coletânea de contos; e 1livro de estudos brasileiros – A guerra de Canudos - . Fez 9 traduções e/ou adaptações de clássicos da literatura universal, e, a partir do sucesso obtido com as publicações dos livros infantis e juvenis, proferiu inúmeras palestras e conferências sobre a literatura infantil e juvenil no Brasil e no exterior.

Por essa extensa produção recebeu diversos prêmios e distinções literárias, como: Prêmio Carlos Laet, em 1954, da Academia Brasileira de Letras, pelo livro A aldeia sagrada; Prêmio Fábio Prado, em 1957, da União Brasileira de Escritores, pelo livro Volta à serra misteriosa; Prêmio Prefeitura do Município de São Paulo, da Prefeitura Municipal de São Paulo, em 1962, por Clarão na serra; Prêmio Jabuti, em 1963, da Câmara Brasileira do Livro, por Grotão do Café Amarelo; Prêmio Literatura Infantil, em 1969, da Pen Clube de São Paulo, pela produção de livros do gênero; Prêmio Lourenço Filho, em 1986, da Companhia Melhoramentos de São Paulo, pelo conjunto da obra e pelas tiragens de seus livros que superaram 500.000 exemplares; Prêmio Calipso, em 1987, da Nestlé, por sua produção de literatura juvenil; além de inúmeras homenagens que vem recebendo não apenas na região de Botucatu, mas também em nível nacional e internacional, como, por exemplo, o convite para representar o Brasil e ser homenageado como autor de textos para crianças, jovens e adultos, em 1988, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e em Coimbra, Madri e Paris.

Em 1989, candidatou-se à cadeira 28, da Academia Brasileira de Letras, vaga com a morte de Menotti Del Picchia, disputando-a com o então Ministro da Justiça, Oscar Dias Correia e com o escritor carioca Geraldo França de Lima. Segundo a imprensa da época, a vitória do Ministro Oscar Dias Correia deveu-se a razões políticas e não à qualidade da obra.

Nas duas últimas décadas tem dedicado especial carinho ao Convivium: Espaço Cultural Francisco Marins. Em 1985, esse espaço foi criado, pelo escritor, na cidade de Botucatu/SP para que a população pudesse ter acesso à  cultura brasileira e universal. Em uma das salas do prédio que abriga esse Espaço, que, no passado, foi residência do casal Francisco e Elvira Marins, encontra-se instalada a Academia Botucatense de Letras. Em sala especial, podem-se localizar os livros do escritor e fundador do Convivium. Além da dedicação ao Espaço Cultural, Fancisco Marins tem participado ativamente da Academia Botucatense de Letras e da Academia Paulista de Letras; tem-se dedicado à promoção de Concursos Literários na região de Botucatu, à participação em congressos, seminários, feiras, encontros voltados para a literatura infantil e juvenil, cultura, livros, bibliotecas e literatura para adultos.

Assim, aos 79 anos, Francisco Marins continua participando ativamente da história de nossa cultura e, especialmente0, da literatura infantil e juvenil brasileira; e diz viver feliz ao lado de sua esposa, Dona Elvira, dos três filhos, nove netos e dois bisnetos.

Os quatro livros infantis e juvenis desse escritor, Nas terras do Rei Café (1945),  Os segredos de Taquara-Póca (1947), O Coleira-Preta (1949) e Gafanhotos em Taquara-Póca (1950), publicados no decênio de 1940 e no ano de 1950, constituíram, inicialmente, a série Taquara-Póca, da Companhia Melhoramentos de São Paulo. Em meados da década de 1960, esses livros foram compilados e publicados, pela Melhoramentos, em um único volume intitulado Aventuras em Taquara-Póca. Fato que se repete, em 1968, quando a editora Melhoramentos publica, em 5 volumes, a obra infantil e juvenil de Francisco Marins, na qual os quatro primeiros livros desse escritor constituem os dois primeiros volumes. Nos anos de 1980, a Editora Melhoramentos lançou a série Comunicação, na qual esses quatro primeiros livros passaram a ser reeditados. No final dos anos de 1980 e inicio dos anos de 1990, a Melhoramentos criou a série Francisco Marins e as novas edições desses livros foram publicadas como parte dessa série.

A partir de 1951, os livros infantis e juvenis de Marins foram publicados e reeditados nas séries: Taquara- Póca; Roteiro dos Martírios; Nova Aventura de Ler; Comunicação e Francisco Marins, todas da Editora Melhoramentos.

Em 1985, esse escritor passou a publicar também pela Editora Ática (SP), na série Vaga-Lume. No ano de 1998, lançou no mercado editorial seu último livro (até o início de 2001) do gênero, pela Editora Saraiva (SP), na série Jaboti.

Assim, com exceção dos quatro primeiros livros publicados pela Melhoramentos e do último publicado pela Saraiva, a maioria dos livros infantis e juvenis desse escritor foram adaptadas para uma nova versão e editados pela Ática, sofrendo algumas modificações nos subtítulos e ilustrações, ganhando novos ilustradores, novo título e constituindo-se em outro livro, conforme será observado logo abaixo. Observa-se, ainda, que, a partir de 1998, os romances para adultos desse escritor passaram a ser divulgados e vendidos pela Livraria LTR (SP).

As dezenas de edições dos livros de Francisco Marins publicadas pela Melhoramentos em diferentes séries dificultou, por longo tempo, a classificação de sua obra nos estudos sobre o gênero que citam brevemente a produção de literatura infantil e juvenil desse escritor. Diante dessa dificuldade, optei pelos dados coletados junto às editoras Melhoramentos, Ática, Saraiva, Livraria LTR e pelos dados fornecidos pelo próprio escritor.

O primeiro livro de literatura infantil e juvenil de Francisco Marins e que o iniciou como escritor foi Nas terras do Rei Café, ilustrado por Augustus e Oswaldo Storni e publicado, em 1945, pela Companhia Melhoramentos de São Paulo. Com 34 edições e somando, aproximadamente, 253.000 (até 1999), esse livro deu início à série Taquara-Póca, foi traduzido para o espanhol, fez parte dos textos escolhidos por Góes (1990) para discutir “formas de avaliação da literatura infantil e juvenil a partir de alguns textos de Francisco Marins” e, recentemente, foi um dos livros adaptados para o teatro pelo grupo Chafariz, de Botucatu/SP.

O texto narra as aventuras de Dudu, Tiãozinho e Tico-Tico na fazenda Taquara-Póca, que enfrentava sérios problemas econômicos  decorrentes da decadência da agricultura do café. As aventuras vivenciadas pelas crianças giram em torno da procura da “flor roxa do samambaial”, introduzida na narrativa como elemento fantástico que poderia ajudar os heróis mirins a enfrentarem os credores do vovô. Embora esse elemento fantástico contribua  para a caracterização das três personagens mirins como heróis, a solução para os problemas financeiros vem da lendária história dos escravos sobre um tesouro enterrado nas terras do vovô, por um velho escravo, que é encontrado pelas crianças com a ajuda de nhô Chico Tibúrcio, um caboclo, empregado da fazenda, guiados pelas histórias de nhô Lixandre e seus antepassados, “preto velho”, ex-escravo da família. Ambos assumem, neste livro, o papel de “contadores” de histórias.

Em 1947, recém formado em Direito, Marins lançou seu segundo livro para crianças e jovens, dando continuidade à série Taquara-Póca. Trata-se de Os segredos de Taquara-Póca, ilustrado por Oswaldo Storni  e publicado pela Companhia Melhoramentos de São Paulo. Esse livro conta com 34 edições, totalizando, aproximadamente, 230.000 exemplares vendidos. Foi traduzido para o espanhol e também adaptado para o teatro, pelo grupo Chafariz de Botucatu, SP; foi também escrito em braille, em 1959, pela Fundação para o Livro dos Cegos no Brasil.

Conservando o espaço, as personagens e temática - exaltação do homem rural e dos problemas por eles enfrentados -, em um período decadente da cafeicultura, predomina, neste livro, a descrição da natureza e folclore indígena brasileiros. Assim, as aventuras vivenciadas pelas personagens-mirins organizam-se em torno do cotidiano da fazenda: a roça e a devastação das plantações pelos animais da mata; a busca de solução; as queimadas; a revolta dos animais, antropomorfizados.

A trama se desenvolve a partir do desaparecimento do burrinho Maracujá. Empenhados em achar o burrinho, os meninos encontram-se com o Curupira, elemento fantástico presente no livro, ente imaginário folclórico que persegue aqueles que assolam as matas por meio do fogo. Daquele momento em diante, o Curupira assume o papel de “contador”de histórias centradas na preocupação com as queimadas.

Assiste-se, a partir de então, o desfile das belezas naturais das matas brasileiras, repletas de perigos e anuncia-se a revolta dos animais, antropomorfizados e liderados pelo Coleira-Preta, indicando a trama do próximo livro. Há, ainda, n’Os segredos de Taquara-Póca a preocupação com a escolarização das crianças e com a importância do domínio dos conhecimentos transmitidos pela escola, mediante a expectativa criada em torno da noticia da chegada, em breve, de um professor para a “escolinha abandonada”, um sonho antigo do vovô.

O Coleira-Preta (1949), Gafanhotos em Taquara-Póca (1950) e Viagem ao mundo desconhecido: a fabulosa aventura de Fernão de Magalhães (1951) são, respectivamente, o terceiro, o quarto e o quinto volume da série Taquara-Póca. Todos esses livros foram também publicados pela Companhia Melhoramentos de São Paulo, ilustrados por Oswaldo Storni e traduzidos para o espanhol. O Coleira-Preta teve 20 edições, com aproximadamente 119.000 exemplares vendidos; Gafanhotos em Taquara-Póca teve  25 edições, com aproximadamente 140.000 exemplares vendidos, até o final dos anos de 1980; sua última edição é de 1988 e apresenta uma supressão no título original, sendo, portanto, publicado como Gafanhotos, na série Francisco Marins da Editora Melhoramentos; Viagem ao desconhecido: a fabulosa aventura de Fernão de Magalhães teve 23 edições que totalizam, aproximadamente 180.000 exemplares vendidos.

Em O Coleira-Preta, Dudu, Tiãozinho e Tico-Tico vivenciam a “lida”do campo com a chegada do período da colheita do milho e preparam a escolinha para a chegada do professor. A situação de equilíbrio inicial da narrativa é quebrada com a decepção: “o professor não desceu do trem”e mais uma vez o sonho do vovô tinha que esperar mais um pouco.

A trama se desenvolve com o incêndio ocorrido na divisa das fazendas: do vovô e de Zé Pedro, o antaginista, que põe em risco o cafezal, causando a morte e a fuga de dezenas de animais e a destruição da mata. Novamente o Curupira alia-se às crianças em busca das causas do incêndio que, acreditavam ser criminoso. Tio Juca revolta-se contra Zé Pedro, o vizinho vilão, suspeito de atear fogo na cerca. Insatura-se uma situação conflituosa, quebrada pela introdução de um elemento surpresa: a chegada desavisada de Justino, o tão esperado professor. Justino representa o conhecimento urbano que chega ao sertão.

O elemento fantástico é representado pelo Curupira e pelo processo de antropomorfização dos animais que, agindo como os homens, tomam como prisioneiros os três meninos, salvos pela interferência do amigo Curupira.

Em Gafanhotos em Taquara-Póca (1950), Justino, o professor, assume a figura do “contador do Conhecimento” que, a partir desse livro, ganha força na voz do narrador. A narrativa gira em torno das três personagens-mirins (Dudu, Tiãozinho e Tico-Tico) que, auxiliadas pelo professor Justino, mobilizam todos os moradores de Taquara-Póca em defesa  de uma nuvem de gafanhotos que se aproxima representando mais prejuízos para a fazenda em processo de recuperação da decadência do café. Os meninos, liderados por Justino, criam estratégias de defesa, inventam instrumentos, instruem, distribuem tarefas para cada morador, no momento da passagem dos gafanhotos.

Pintadinha, única personagem-mirim feminina, conquista espaço e chama a atenção pelo seu interesse em adquirir livros para a biblioteca do clubinho. As ações de Pintadinha podem representar a história da formação das primeiras bibliotecas infantis e juvenis do Brasil. A narrativa conta a história do enredar-se pela leitura, pela arte criadora. Isto é, a afirmação “a leitura é um bem cultural” que, hoje já se tornou senso comum, é apresentada, neste livro, como caminho a ser seguido por um país que se pretendia em desenvolvimento e em busca de sua identidade literária, em especial, no que tange à literatura para crianças e jovens.

Em Viagem ao mundo desconhecido: a fabulosa aventura de Fernão de Magalhães (1951), há uma transformação: as personagens-mirins sentam-se nos bancos escolares para ouvir, pela voz do “contador do conhecimento”, o professor Justino, a história da história das grandes navegações. A narrativa retoma a aventura do grande navegador português, Fernão Magalhães, que, na época das grandes navegações realiza um grande sonho: alcançar a Ásia navegando pelo Ocidente, propósito iniciado por Cristóvão Colombo.

De cunho histórico, a narrativa ficcional apresenta-se repleta de suspenses criados pelos perigos do oceano desconhecido, introduzindo um novo tipo de aventura, semelhante àquelas que um dia, pela voz do tradutor, contribuíram para o processo inicial de formação dos leitores brasileiros: as aventuras marítimas. Aliás, o primeiro encantamento do escritor Francisco Marins que, em meados de 1934, escreve, em co-autoria com o amigo Hernani Donato, a novela O Tesouro, na qual o enredo se desenvolve por meio de uma aventura marítima.

Em 1952, Marins publica Expedição aos Martírios, também pela Companhia Editora Melhoramentos de São Paulo, com ilustrações de Oswaldo Storni, inaugurando a série Roteiro dos Martírios, embora tenha sido publicado, também em outras séries da Melhoramentos: Taquara-Póca; Nova aventura de ler e Comunicação.

Esse livro foi lançado também em Portugal e traduzido para o espanhol, inglês (com edições na Inglaterra e Estados Unidos), francês, húngaro, africander, italiano, alemão, eslavo e dinamarquês. É um dos livros de Marins mais conhecidos no mercado editorial internacional. Teve 19 edições, com tiragem total de 149.000 exemplares.

Preferido pelo escritor, Expedição aos Martírios também se insere em um novo tipo de aventura histórica: a formação do povo brasileiro. Narrada em primeira pessoa pela personagem protagonista, o jovem Tonico, a história aborda o fato histórico das Bandeiras em busca do sonho do metal dourado. A aventura, cheia de mistérios e suspenses, é vivida pelo trio: Tonico, Pixuíra (um índio) e Perova (guia de expedição, um caboclo tropeiro) que partem em busca de Juvenal, tio de Tonico, desaparecido na mata. Os garotos de Taquara-Póca são substituídos por um jovem que vive a história da civilização brasileira no entrelaçamento característico desse escritor: história e ficção.

A trama organiza-se em torno do misterioso desaparecimento do tio Juvenal, dos perigos da mata e da violência humana movida pela ganância da riqueza do ouro, representada neste livro pela personagem o Bugre-de-chapeu-de-anta, mestiço ganancioso e esperto que trai a confiança dos companheiros da expedição do tio Juvenal e, posteriormente, torna-se o mais perigoso desafio para os três companheiros que, já não se encontravam mais na companhia da famosa e histórica expedição de Langsdorff.

A aldeia sagrada (1953), ilustrado por Oswaldo Storni, foi também publicado, até a 30ª edição, pela Companhia Melhoramentos de São Paulo, com um número, aproximado, de 161.000 exemplares vendidos. Observa-se que, na 17ª edição, de 1977, o mesmo livro é editado, acrescido de um subtítulo ao título original: A aldeia sagrada: a dramática histórica de Canudos. Pela Melhoramentos, foi publicado, até a 21ª edição, na série Taquara-Póca; da 22ª a 25ª, na série Comunicação; da 26ª à 30ª, na série Francisco Marins. A partir de 1993, passou a ser publicado pela Editora Ática. Nessa editora teve, até março de 2000, 4 edições (da 31ª à 34ª), na série Vaga-Lume, com aproximadamente 65.000 exemplares. As 34 edições totalizam 226.000 exemplares vendidos. Recebeu o prêmio Carlos Laet, de 1954, da Academia Brasileira de Letras e foi publicado, em 1957, em 10 capítulos n’O Jornal da Juventude, no Suplemento Piá, de São Paulo Capital. A aldeia sagrada foi também lançado em Portugal pela Editora Meridiano, Lisboa.

Apaixonado pel’Os Sertões, de Euclides da Cunha, e pela História do Brasil, Marins retoma, neste livro, a histórica e lendária Guerra de Canudos. Narrados em primeira pessoa pelo jovem Didico, os fatos históricos ganham uma nova versão, uma vez que, a visão do narrador situa-se do lado dos vencidos. O lugar onde a “voz-narrativa” surge confere à narrativa outro ponto de vista, se comparado aos fatos históricos registrados pela história e hitoriografia advindas da “voz-narrativa” considerada oficial.

Território de bravos (1954), ilustrado por Oswaldo Storni, publicado pela Companhia Melhoramentos de São Paulo, na série Taquara-Póca, conta com 14 edições, cujos números de tiragens somam, aproximadamente 102.000 exemplares vendidos, tendo sido também traduzido para o espanhol. Em 1976, a Melhoramentos lança a 13ª edição, acrescentando ao título original um subtítulo: Território de bravos: a vida histórica de Plácito de Castro e a História do Acre.

Buscando, talvez, entrelaçar esse novo livro com os quatro primeiros da série Taquara-Póca, o escritor se vale da “voz-narrativa” do “contador do conhecimento”, o professor Justino, que inicia a história em terceira pessoa, narrando às crianças da fazenda Taquara-Póca a conquista do Território do Acre, exaltando fatos heróicos de Plácito de Castro. A partir da terceira parte do livro, Plácito de Castro passa a narrar a sua própria história, por meio de lembranças das aventuras por ele vivenciadas.

Observa-se que, embora a mudança de narrador possa sugerir a narração em primeira pessoa, isto não acontece. A personagem distancia-se dos fatos com o passar dos tempos e narra a história de um Plácito jovem que, naquele momento, não existe mais. Os trechos em primeira pessoa, que aparecem a partir dessa terceira parte, compõem o discurso direto entre as personagens de um passado distante. Observa-se, ainda, que a parte narrada por Plácito de Castro apresenta-se em formas tipográficas diferentes; fato anunciado pelo escritor no início do livro.

Volta à serra misteriosa (1956), ilustrado por Oswaldo Storni, publicado pela Companhia Melhoramentos de São Paulo, na série Roteiro dos Martírios, foi traduzido para o espanhol, inglês (com edições na Inglaterra e Estados Unidos), francês, húngaro, africander, italiano, alemão, eslavo e dinamarquês. Lançado em Portugal pela Editora Merediano, em Lisboa, recebeu o prêmio “Fábio Prado”, de 1957 da União Brasileira de Escritores. Conta com 12 edições, com aproximadamente 108.000 exemplares.

A narrativa dá continuidade às aventuras de Tonico, Pixuíra e Perova, iniciadas em Expedição aos Martírios. A história centra-se na difícil e perigosa continuação da viagem ao morro dos Martírios em busca do metal dourado. Neste livro, o trio encontra-se em terras de garimpo e de exploração da escravidão indígena. A trama principal envolve a descoberta do autor do roubo de um grande diamante denominado “panelinha de Muiraquitã”. O livro também é narrado em primeira pessoa  pelo personagem protagonista Tonico.

Outro livro traduzido para o espanhol, inglês (com edições na Inglaterra e Estados Unidos), francês, húngaro, africander, italiano, alemão, eslavo e dinamarquês; lançado em Portugal e pertencente à série Roteiro dos Martírios é O Bugre-do-chapéu-de-anta (1958), ilustrado por Oswaldo Storni. Publicado pela Companhia Melhoramentos de São Paulo, até 1979 contava com 10 edições, perfazendo um total de 73.000 exemplares vendidos.

Dando continuidade à narrativa de Expedição aos Martírios e  Volta à serra misteriosa, Tonico narra a aventura vivenciada por ele e por seus companheiros no reencontro com o “mestiço traiçoeiro”, conhecido como Bugre-do-chapéu-de-anta. Paralelamente, outra narrativa se constrói: as conquistas dos bandeirantes Bartolomeu Bueno da Silva, Paz de Abreu e João Leite da Silva Ortiz, pelo oeste brasileiro. Como em Volta à serra misteriosa, a narrativa histórica é impressa em tipo gráfico diferente.

Verde era o coração da montanha (1981), ilustrado por Vinicius, publicado pela Melhoramentos, na série Francisco Marins, até 1987 contava com 2 edições, com tiragens de aproximadamente 16.000 exemplares.

Valendo-se de recurso já utilizado em Territórios de bravos, o escritor serve-se da ‘’voz narrativa’’ do professor Justino que, junto com as crianças de Taquara-Póca, visitam um indiozinho e seu avô que moravam próximos da montanha e acabam vivendo uma aventura junto com essa ‘’nova personagem-mirim’’: o curumim. O contato com animais selvagens e os desafios da mata caracterizam-se como o ponto alto da ficção: a aventura. Em meio ao suspense criado pelas situações e pelo espaço, o narrador apresenta a montanha “O gigante deitado”e introduz a história da luta travada entre os índios e o homem branco quando do reconhecimento da área da região de Botucatu/SP para a construção da estrada de ferro. Coexistem, portanto, duas narrativas: a maravilhosa ficcional e a real e histórica do extermínio da tribo indígena em nome do progresso.

O Mistério dos morros dourados (1985), ilustrado por Jayme Cortez, publicado pela editora Ática, na série Vaga-Lume, conta com 7 edições que totalizam, segundo essa editora, 240.884 exemplares. Francisco Marins introduz no mercado editorial, com a publicação desse livro, uma nova versão de Expedição aos Martírios. Trata-se da mesma história, reescrita de forma mais consisa, aumentando o uso de vocábulos e expressões regionalistas do sertão brasileiro.

Outro livro para jovens escrito por Marins foi publicado pela editora Ática na série O cotidiano da História. Trata-se de A Guerra de Canudos (1987). Ilustrado por Milton Rodrigo Alves, esse livro, até março de 1990, estava em sua 9ª edição, totalizando uma tiragem de cera de 108.000 exemplares. Valendo-se dos estudos sobre Euclides da Cunha e de Os Sertões,  elaborados para a produção e publicação, em 1953, de A Aldeia sagrada, Marins publica suas pesquisas organizadas sistematicamente e apresentando-se como uma espécie de roteiro para a leitura da lendária história dessa guerra e sua repercussão no Brasil e no Mundo.

A montanha das duas cabeças (1988), ilustrado por Jô Fevereiro, publicado pela editora Ática, na série Vaga-Lume, contava, até 1995, com 4 edições e número de tiragem que totalizavam 101.613 exemplares. Alterando o título, Marins reescreve a narrativa de Volta à serra misteriosa, fazendo algumas modificações no uso da linguagem regionalista, intensificando, desse modo, os perigos vivenciados pelas personagens.

Em busca do diamante (1995), ilustrado por Nelson Reis, publicado pela editora Ática, na série Vaga-Lume, tem uma edição, com tiragem de 30.000 exemplares. Inspirado pelo grande diamante ‘’panelinha de Muiraquitã’’ de Volta a serra misteriosa, o escritor cria um novo título para a nova versão de O Bugre-de-chapéu-de-anta, onde narra a volta das personagens de Expedição aos Martírios para São Paulo. Também passando por uma revisão vocabular, mas conservando a história da narrativa original, Em busca do diamante perdido apresenta-se mais conciso e com acréscimo de algumas ‘’cenas’’ que não aparecem na versão anterior.

O último lançamento de Francisco Marins na literatura infantil e juvenil foi O sótão da múmia (1998), ilustrado por Sérgio Palmiro, publicado na Editora Saraiva e cuja edição (única) totaliza, aproximadamente, 5.000 exemplares. Mudando do espaço rural e sertanejo para o espaço urbano, sem perder de vista o fio histórico de seus livros, Francisco Marins organiza esta narrativa em torno do desaparecimento da múmia do sótão de um pesquisador que desenvolve um estudo, a partir da análise de uma planta, para a cura da malária.

A narrativa desenvolve-se em meio do turbulento período de manifestos estudantis contra a ditadura militar de Getúlio Vargas. Valendo-se do conhecido recurso de ‘’amarrar’’ um livro a outro, o escritor ‘’puxa’’ para este livro alguns fatos retomados de Expedição aos Martírios, como a presença, em lembrança de Perova, personagem daquele livro e expedição que Tonico, Perova e Pixuíra acompanharam: a expedição de Langsdorff. Correm paralelas duas histórias: a ficcional e real: a ditadura de Getúlio Vargas.

Considerando o exposto sobre a vida e a obra para crianças e jovens de Francisco Marins e sua contribuição para o processo de constituição e desenvolvimento da literatura infantil e juvenil brasileira, quer como escritor do gênero, Editor e/ou presidente da Câmara Brasileira do Livro quer como membro e presidente da Academia Paulista de Letras e da Academia Brasileira de Literatura Infantil e Juvenil, parece ser possível considerar que a história  da vida desse escritor, os conteúdos temáticos de sua obra e a história da literatura infantil e juvenil brasileira se entrecruzam, em determinado período, para depois seguirem paralelas até a década de 1970, que impulsionou e deu novos rumos à literatura infantil e juvenil brasileira.

Considerando, ainda, a  extensa produção de Francisco Marins, o número de tiragens que totalizam, aproximadamente, 2.100,00 exemplares vendidos, a repercussão de sua obra junto às crianças e jovens e a permanência de seus livros no mercado editorial brasileiro (56 anos) é de se estranhar a existência de apenas um estudo, em forma de livro, que tematize a obra infantil e juvenil de Francisco Marins, escritor representativo de um período da história desse gênero no Brasil, ainda muito pouco explorado: as décadas de 1940 a 1960. 

Diante desse fato, uma questão se impõe: terá sido esse escritor esquecido pelos estudiosos e pesquisadores da literatura infantil e juvenil brasileira ou teria sido a sua obra a esquecida?

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

MARINS, Francisco. Nas terras do Rei Café. São Paulo: Melhoramentos, 1945.

_______. Os segredos de Taquara-Póca, São Paulo: Melhoramentos, 1947.

_______. O Coleira-Preta, São Paulo: Melhoramentos, 1949.

_______. Gafanhotos em Taquara-Póca. São Paulo: Melhoramentos, 1950.

_______. Viagem ao mundo desconhecido: a fabulosa aventura de Fernão de Magalhães. São Paulo: Melhoramentos, 1951.

_______. Expedição aos Martírios. São paulo: Melhoramentos, 1952.

________. A aldeia sagrada. São Paulo: Melhoramentos, 1953.

________. Território de bravos. São Paulo: Melhoramentos, 1954.

________. Volta à serra misteriosa. São Paulo: Melhoramentos, 1956.

________. O Bugre-de-chapéu-de-anta. São Paulo: Melhoramentos, 1958.

________. Verde era o coração da montanha. São paulo: Melhoramentos, 1981.

________. O mistério dos morros dourados. São Paulo: Ática, 1985.

________. A Guerra de Canudos. São Paulo: Ática, 1987.

________. A montanha de duas cabeças. São Paulo: Ática, 1988.

________. Em busca do diamante. São Paulo: Ática, 1995.

________.  O sótão da múmia. São Paulo: Ática, 1998.

GÓES, Lúcia Pimentel. A aventura da literatura para crianças: formas de avaliação da literatura infantil e juvenil através da obra de Francisco Marins. São Paulo: Melhoramentos, 1990.



[1] Texto extraído da tese de doutorado, qualificada em 22 de junho de 2001, a ser defendida em dezembro de 2001 e intitulada, provisóriamente, A literatura infantil e juvenil brasileira: o projeto de criação e representação da realidade de Francisco Marins — UNESP/ Marília.

[2] Doutoranda em Educação – UNESP/Marília; bolsista CNPq; membro do Grupo de Pesquisa: História do Ensino da Língua e da Literatura no Brasil e do Projeto Integrado de Pesquisa: “Ensino de Língua e Literatura: repertório documental republicano”( apoio CNPq), coordenado pela Profª  Drª Maria do Rosário Longo Mortatti.