APRESENTAÇÃO DE FRANCISCO MARINS: A LITERATURA
INFANTIL E JUVENIL BRASILEIRA DE 1940 A 1960[1]
SOUZA, Claudete Cameschi de
UNESP –
Marília; CNPq[2]
Francisco Marins nasceu em Vila da Prata, hoje
Pratânia, município de Botucatu/SP, em 23 de novembro de 1922. Filho da terra
de grandes nomes literários, Marins passou sua infância embalado pela Tristeza do Jeca, de Angelino Oliveira
Junior, e em contato com a vida rural que, mais tarde, inspiraria sua produção
literária, voltada para os costumes e a história da formação brasileira.
Neto e filho de agricultores do café e bacharel em
Direito, Francisco Marins vem, a 56 anos, entrelaçando os fios da história e da
ficção, tendo como temas fundamentais os fatos históricos brasileiros e
enfocando, particularmente, a expansão territorial paulista decorrente da ação
dos bandeirantes e a decadência da cultura cafeeira no interior do estado de
São Paulo.
Embora
tenha-se destacado como escritor de textos para crianças e jovens somente, a
partir de 1945, com a publicação de Nas Terras
do Rei Café, pela Companhia Melhoramentos de São Paulo, Marins já atuava
como editor, jornalista e escritor, no meio intelectual paulista e carioca.
Foi
fundador e diretor do jornal O Estudante,
de Botucatu; diretor da revista Arcádia,
da Universidade de São Paulo (USP); jornalista colaborador da Folha de Botucatu, para qual publicou
uma série de contos denominados Contos
Sertanejos e estudos críticos como Pitangas
e Garirobas; trabalhou como
jornalista, escrevendo em O Malho (RJ);
Dom Casmurro (RJ); no Revista Planalto (RJ), de
Orígenes Lessa; Revista O Cruzeiro (RJ); Folha da Manhã (RJ); na Revista
Ilustração (RJ) e nos Diários Associados
de São Paulo.
Em meados
de 1934, escreve, em parceria com Hernani Donato, a novela infantil O Tesouro,
publicada em 25 capítulos no suplemento “O Guri” dos Diários Associados de São Paulo, marcando, assim, o início da
carreira de escritor de livros para crianças e jovens, que se confirma em 1937,
com a publicação de Homens Marcados,
no Suplemento Infantil do Diário de São
Paulo.
Mas a
contribuição de Francisco Marins ao processo de formação e à história da literatura
infantil e juvenil brasileira não se restringe a sua produção literária. Como
Assistente Editorial da Companhia Editorial Melhoramentos de São Paulo, participou
da difusão de autores renomados europeus e americanos, mediante “propaganda-
editorial” organizada em forma de catálogos
e/ou revista de divulgação, na qual constavam informações bibliográficas
sobre diversos autores, como, por exemplo, Albert Schweitzer, Bernard Shaw,
Gustavo Flaubert, entre outros.
Ainda
valendo-se das revistas de divulgação e/ou catálogos dessa editora, Marins incentivou
a publicação de livros e álbuns de gravuras para crianças em fase inicial de
alfabetização; estímulou escritores nacionais da literatura infantil e juvenil.
Além desse trabalho de divulgação, Marins traduziu e adaptou alguns clássicos
da literatura infanto- juvenil, como, por exemplo, O Patinho Feio, de Hans
Christian Andersen, O Máscara de Ferro, de Alexandre Dumas.
Francisco
Marins, foi também editor da Companhia Melhoramentos de São Paulo; diretor da
Câmara Brasileira do Livro; Presidente da Comissão de Literatura do Conselho de
Cultura d a o Estado de São Paulo; Presidente da Câmara Brasileira do
Livro; Presidente da Academia Paulista
de Letras;e , atualmente, é membro da Academia Botucatense de Letras; membro da
Academia Paulista de Letras; membro da Academia Brasileira de Literatura
Infantil; fundador e coordenador do Convivium:
Espaço Cultural Francisco Marins, em Botucatu/SP, e presidente da Empresa
Bras-hidro, em Botucatu, SP.
Seus
primeiros livros infanto-juvenis foram publicados pela Companhia Editora Melhoramentos
de São Paulo, nas décadas de1940 e 1950, e compreendem as séries Taquara-Póca e
Roteiro dos Martírios, nesse período, e até o presente ano, os livros dessas
séries tiveram mais de 2.100.000 exemplares vendidos, tendo rendido ao escritor
vários prêmios literários e homenagens, além da indicação, pela Fundação Nacional
do Livro Infantil e Juvenil, para o Prêmio Internacional Hans Christian
Andersen.
Alguns de
seus livros infantis e juvenis foram traduzidos para o castelhano, inglês, húngaro,
africânder, italiano, alemão, eslovaco, dinamarquês e francês, e muitos deles foram
lançados também em Portugal. Observa-se, portanto, que a literatura infantil e
juvenil de Francisco Marins ganhou repercussão internacional, levando esse escritor
a figurar na Delphin, Coleção de Clássicos da literatura mundial para a
juventude.
Francisco
Marins escreveu e publicou: duas novelas infantis; aproximadamente 23 contos;
55 artigos, inclusive artigos críticos sobre escritores e obras de literatura
brasileira; 5 entrevistas com personalidades famosas; cerca de 5 discursos e 5
prefácios; 1 conferência (que pode ser encontrada na íntegra); 15 livros para
crianças e jovens; 4 romances para adultos; 1 coletânea de contos; e 1livro de
estudos brasileiros – A guerra de Canudos
- . Fez 9 traduções e/ou adaptações de clássicos da literatura universal,
e, a partir do sucesso obtido com as publicações dos livros infantis e juvenis,
proferiu inúmeras palestras e conferências sobre a literatura infantil e
juvenil no Brasil e no exterior.
Por essa extensa produção recebeu diversos prêmios e
distinções literárias, como: Prêmio Carlos Laet, em 1954, da Academia
Brasileira de Letras, pelo livro A aldeia
sagrada; Prêmio Fábio Prado, em 1957, da União Brasileira de Escritores,
pelo livro Volta à serra misteriosa;
Prêmio Prefeitura do Município de São Paulo, da Prefeitura Municipal de São
Paulo, em 1962, por Clarão na serra;
Prêmio Jabuti, em 1963, da Câmara Brasileira do Livro, por Grotão do Café Amarelo; Prêmio Literatura Infantil, em 1969, da Pen
Clube de São Paulo, pela produção de livros do gênero; Prêmio Lourenço Filho,
em 1986, da Companhia Melhoramentos de São Paulo, pelo conjunto da obra e pelas
tiragens de seus livros que superaram 500.000 exemplares; Prêmio Calipso, em
1987, da Nestlé, por sua produção de literatura juvenil; além de inúmeras
homenagens que vem recebendo não apenas na região de Botucatu, mas também em
nível nacional e internacional, como, por exemplo, o convite para representar o
Brasil e ser homenageado como autor de textos para crianças, jovens e adultos,
em 1988, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e em Coimbra, Madri e
Paris.
Em 1989, candidatou-se à cadeira 28, da Academia
Brasileira de Letras, vaga com a morte de Menotti Del Picchia, disputando-a com
o então Ministro da Justiça, Oscar Dias Correia e com o escritor carioca
Geraldo França de Lima. Segundo a imprensa da época, a vitória do Ministro
Oscar Dias Correia deveu-se a razões políticas e não à qualidade da obra.
Nas duas últimas décadas tem dedicado especial
carinho ao Convivium: Espaço Cultural
Francisco Marins. Em 1985, esse espaço foi criado, pelo escritor, na cidade de
Botucatu/SP para que a população pudesse ter acesso à cultura brasileira e universal. Em uma das salas do prédio que
abriga esse Espaço, que, no passado, foi residência do casal Francisco e Elvira
Marins, encontra-se instalada a Academia Botucatense de Letras. Em sala
especial, podem-se localizar os livros do escritor e fundador do Convivium. Além da dedicação ao Espaço
Cultural, Fancisco Marins tem participado ativamente da Academia Botucatense de
Letras e da Academia Paulista de Letras; tem-se dedicado à promoção de Concursos
Literários na região de Botucatu, à participação em congressos, seminários,
feiras, encontros voltados para a literatura infantil e juvenil, cultura,
livros, bibliotecas e literatura para adultos.
Assim, aos 79 anos, Francisco Marins continua
participando ativamente da história de nossa cultura e, especialmente0, da
literatura infantil e juvenil brasileira; e diz viver feliz ao lado de sua
esposa, Dona Elvira, dos três filhos, nove netos e dois bisnetos.
Os quatro livros infantis e juvenis desse escritor, Nas terras do Rei Café (1945), Os
segredos de Taquara-Póca (1947), O
Coleira-Preta (1949) e Gafanhotos em
Taquara-Póca (1950), publicados no decênio de 1940 e no ano de 1950,
constituíram, inicialmente, a série Taquara-Póca, da Companhia Melhoramentos de
São Paulo. Em meados da década de 1960, esses livros foram compilados e
publicados, pela Melhoramentos, em um único volume intitulado Aventuras em Taquara-Póca. Fato que se
repete, em 1968, quando a editora Melhoramentos publica, em 5 volumes, a obra
infantil e juvenil de Francisco Marins, na qual os quatro primeiros livros
desse escritor constituem os dois primeiros volumes. Nos anos de 1980, a
Editora Melhoramentos lançou a série Comunicação, na qual esses quatro
primeiros livros passaram a ser reeditados. No final dos anos de 1980 e inicio
dos anos de 1990, a Melhoramentos criou a série Francisco Marins e as novas
edições desses livros foram publicadas como parte dessa série.
A partir de 1951, os livros infantis e juvenis de
Marins foram publicados e reeditados nas séries: Taquara- Póca; Roteiro dos
Martírios; Nova Aventura de Ler; Comunicação e Francisco Marins, todas da
Editora Melhoramentos.
Em 1985, esse escritor passou a publicar também pela
Editora Ática (SP), na série Vaga-Lume. No ano de 1998, lançou no mercado
editorial seu último livro (até o início de 2001) do gênero, pela Editora
Saraiva (SP), na série Jaboti.
Assim, com exceção dos quatro primeiros livros
publicados pela Melhoramentos e do último publicado pela Saraiva, a maioria dos
livros infantis e juvenis desse escritor foram adaptadas para uma nova versão e
editados pela Ática, sofrendo algumas modificações nos subtítulos e
ilustrações, ganhando novos ilustradores, novo título e constituindo-se em
outro livro, conforme será observado logo abaixo. Observa-se, ainda, que, a
partir de 1998, os romances para adultos desse escritor passaram a ser divulgados
e vendidos pela Livraria LTR (SP).
As dezenas de edições dos livros de Francisco Marins
publicadas pela Melhoramentos em diferentes séries dificultou, por longo tempo,
a classificação de sua obra nos estudos sobre o gênero que citam brevemente a
produção de literatura infantil e juvenil desse escritor. Diante dessa
dificuldade, optei pelos dados coletados junto às editoras Melhoramentos,
Ática, Saraiva, Livraria LTR e pelos dados fornecidos pelo próprio escritor.
O primeiro livro de literatura infantil e juvenil de
Francisco Marins e que o iniciou como escritor foi Nas terras do Rei Café, ilustrado por Augustus e Oswaldo Storni e publicado,
em 1945, pela Companhia Melhoramentos de São Paulo. Com 34 edições e somando,
aproximadamente, 253.000 (até 1999), esse livro deu início à série
Taquara-Póca, foi traduzido para o espanhol, fez parte dos textos escolhidos
por Góes (1990) para discutir “formas de avaliação da literatura infantil e
juvenil a partir de alguns textos de Francisco Marins” e, recentemente, foi um
dos livros adaptados para o teatro pelo grupo Chafariz, de Botucatu/SP.
O texto narra as aventuras de Dudu, Tiãozinho e
Tico-Tico na fazenda Taquara-Póca, que enfrentava sérios problemas
econômicos decorrentes da decadência da
agricultura do café. As aventuras vivenciadas pelas crianças giram em torno da
procura da “flor roxa do samambaial”, introduzida na narrativa como elemento
fantástico que poderia ajudar os heróis mirins a enfrentarem os credores do
vovô. Embora esse elemento fantástico contribua para a caracterização das três personagens mirins como heróis, a
solução para os problemas financeiros vem da lendária história dos escravos
sobre um tesouro enterrado nas terras do vovô, por um velho escravo, que é
encontrado pelas crianças com a ajuda de nhô
Chico Tibúrcio, um caboclo, empregado da fazenda, guiados pelas histórias
de nhô Lixandre e seus antepassados,
“preto velho”, ex-escravo da família. Ambos assumem, neste livro, o papel de
“contadores” de histórias.
Em 1947, recém formado em Direito, Marins lançou seu
segundo livro para crianças e jovens, dando continuidade à série Taquara-Póca.
Trata-se de Os segredos de Taquara-Póca, ilustrado
por Oswaldo Storni e publicado pela
Companhia Melhoramentos de São Paulo. Esse livro conta com 34 edições,
totalizando, aproximadamente, 230.000 exemplares vendidos. Foi traduzido para o
espanhol e também adaptado para o teatro, pelo grupo Chafariz de Botucatu, SP;
foi também escrito em braille, em 1959, pela Fundação para o Livro dos Cegos no
Brasil.
Conservando o espaço, as personagens e temática -
exaltação do homem rural e dos problemas por eles enfrentados -, em um período
decadente da cafeicultura, predomina, neste livro, a descrição da natureza e
folclore indígena brasileiros. Assim, as aventuras vivenciadas pelas
personagens-mirins organizam-se em torno do cotidiano da fazenda: a roça e a
devastação das plantações pelos animais da mata; a busca de solução; as
queimadas; a revolta dos animais, antropomorfizados.
A trama se desenvolve a partir do desaparecimento do
burrinho Maracujá. Empenhados em achar o burrinho, os meninos encontram-se com
o Curupira, elemento fantástico presente no livro, ente imaginário folclórico
que persegue aqueles que assolam as matas por meio do fogo. Daquele momento em
diante, o Curupira assume o papel de “contador”de histórias centradas na
preocupação com as queimadas.
Assiste-se, a partir de então, o desfile das belezas
naturais das matas brasileiras, repletas de perigos e anuncia-se a revolta dos
animais, antropomorfizados e liderados pelo Coleira-Preta, indicando a trama do
próximo livro. Há, ainda, n’Os segredos
de Taquara-Póca a preocupação com a escolarização das crianças e com a
importância do domínio dos conhecimentos transmitidos pela escola, mediante a
expectativa criada em torno da noticia da chegada, em breve, de um professor
para a “escolinha abandonada”, um sonho antigo do vovô.
O
Coleira-Preta (1949), Gafanhotos em Taquara-Póca (1950) e Viagem ao mundo desconhecido: a fabulosa
aventura de Fernão de Magalhães (1951) são, respectivamente, o terceiro, o
quarto e o quinto volume da série Taquara-Póca. Todos esses livros foram também
publicados pela Companhia Melhoramentos de São Paulo, ilustrados por Oswaldo
Storni e traduzidos para o espanhol. O
Coleira-Preta teve 20 edições, com aproximadamente 119.000 exemplares
vendidos; Gafanhotos em Taquara-Póca teve
25 edições, com aproximadamente 140.000
exemplares vendidos, até o final dos anos de 1980; sua última edição é de 1988
e apresenta uma supressão no título original, sendo, portanto, publicado como Gafanhotos, na série Francisco Marins da
Editora Melhoramentos; Viagem ao
desconhecido: a fabulosa aventura de Fernão de Magalhães teve 23 edições
que totalizam, aproximadamente 180.000 exemplares vendidos.
Em O
Coleira-Preta, Dudu, Tiãozinho e Tico-Tico vivenciam a “lida”do campo com a
chegada do período da colheita do milho e preparam a escolinha para a chegada
do professor. A situação de equilíbrio inicial da narrativa é quebrada com a
decepção: “o professor não desceu do trem”e mais uma vez o sonho do vovô tinha
que esperar mais um pouco.
A trama se desenvolve com o incêndio ocorrido na
divisa das fazendas: do vovô e de Zé Pedro, o antaginista, que põe em risco o
cafezal, causando a morte e a fuga de dezenas de animais e a destruição da
mata. Novamente o Curupira alia-se às crianças em busca das causas do incêndio
que, acreditavam ser criminoso. Tio Juca revolta-se contra Zé Pedro, o vizinho
vilão, suspeito de atear fogo na cerca. Insatura-se uma situação conflituosa,
quebrada pela introdução de um elemento surpresa: a chegada desavisada de
Justino, o tão esperado professor. Justino representa o conhecimento urbano que
chega ao sertão.
O elemento fantástico é representado pelo Curupira e
pelo processo de antropomorfização dos animais que, agindo como os homens,
tomam como prisioneiros os três meninos, salvos pela interferência do amigo
Curupira.
Em Gafanhotos
em Taquara-Póca (1950), Justino,
o professor, assume a figura do “contador do Conhecimento” que, a partir desse
livro, ganha força na voz do narrador. A narrativa gira em torno das três
personagens-mirins (Dudu, Tiãozinho e Tico-Tico) que, auxiliadas pelo professor
Justino, mobilizam todos os moradores de Taquara-Póca em defesa de uma nuvem de gafanhotos que se aproxima
representando mais prejuízos para a fazenda em processo de recuperação da
decadência do café. Os meninos, liderados por Justino, criam estratégias de
defesa, inventam instrumentos, instruem, distribuem tarefas para cada morador,
no momento da passagem dos gafanhotos.
Pintadinha, única personagem-mirim feminina,
conquista espaço e chama a atenção pelo seu interesse em adquirir livros para a
biblioteca do clubinho. As ações de Pintadinha podem representar a história da
formação das primeiras bibliotecas infantis e juvenis do Brasil. A narrativa
conta a história do enredar-se pela leitura, pela arte criadora. Isto é, a
afirmação “a leitura é um bem cultural” que, hoje já se tornou senso comum, é
apresentada, neste livro, como caminho a ser seguido por um país que se pretendia
em desenvolvimento e em busca de sua identidade literária, em especial, no que
tange à literatura para crianças e jovens.
Em Viagem ao
mundo desconhecido: a fabulosa aventura de Fernão de Magalhães (1951), há
uma transformação: as personagens-mirins sentam-se nos bancos escolares para
ouvir, pela voz do “contador do conhecimento”, o professor Justino, a história
da história das grandes navegações. A narrativa retoma a aventura do grande navegador
português, Fernão Magalhães, que, na época das grandes navegações realiza um
grande sonho: alcançar a Ásia navegando pelo Ocidente, propósito iniciado por
Cristóvão Colombo.
De cunho histórico, a narrativa ficcional
apresenta-se repleta de suspenses criados pelos perigos do oceano desconhecido,
introduzindo um novo tipo de aventura, semelhante àquelas que um dia, pela voz
do tradutor, contribuíram para o processo inicial de formação dos leitores
brasileiros: as aventuras marítimas. Aliás, o primeiro encantamento do escritor
Francisco Marins que, em meados de 1934, escreve, em co-autoria com o amigo
Hernani Donato, a novela O Tesouro, na
qual o enredo se desenvolve por meio de uma aventura marítima.
Em 1952, Marins publica Expedição aos Martírios, também pela Companhia Editora Melhoramentos
de São Paulo, com ilustrações de Oswaldo Storni, inaugurando a série Roteiro
dos Martírios, embora tenha sido publicado, também em outras séries da Melhoramentos:
Taquara-Póca; Nova aventura de ler e Comunicação.
Esse livro foi lançado também em Portugal e traduzido
para o espanhol, inglês (com edições na Inglaterra e Estados Unidos), francês,
húngaro, africander, italiano, alemão, eslavo e dinamarquês. É um dos livros de
Marins mais conhecidos no mercado editorial internacional. Teve 19 edições, com
tiragem total de 149.000 exemplares.
Preferido pelo escritor, Expedição aos Martírios também se insere em um novo tipo de
aventura histórica: a formação do povo brasileiro. Narrada em primeira pessoa
pela personagem protagonista, o jovem Tonico, a história aborda o fato
histórico das Bandeiras em busca do sonho do metal dourado. A aventura, cheia
de mistérios e suspenses, é vivida pelo trio: Tonico, Pixuíra (um índio) e
Perova (guia de expedição, um caboclo tropeiro) que partem em busca de Juvenal,
tio de Tonico, desaparecido na mata. Os garotos de Taquara-Póca são
substituídos por um jovem que vive a história da civilização brasileira no
entrelaçamento característico desse escritor: história e ficção.
A trama organiza-se em torno do misterioso
desaparecimento do tio Juvenal, dos perigos da mata e da violência humana
movida pela ganância da riqueza do ouro, representada neste livro pela personagem
o Bugre-de-chapeu-de-anta, mestiço ganancioso e esperto que trai a confiança
dos companheiros da expedição do tio Juvenal e, posteriormente, torna-se o mais
perigoso desafio para os três companheiros que, já não se encontravam mais na
companhia da famosa e histórica expedição de Langsdorff.
A aldeia
sagrada (1953), ilustrado por
Oswaldo Storni, foi também publicado, até a 30ª edição, pela Companhia
Melhoramentos de São Paulo, com um número, aproximado, de 161.000 exemplares
vendidos. Observa-se que, na 17ª edição, de 1977, o mesmo livro é editado,
acrescido de um subtítulo ao título original: A aldeia sagrada: a dramática histórica de Canudos. Pela
Melhoramentos, foi publicado, até a 21ª edição, na série Taquara-Póca; da 22ª a 25ª, na série Comunicação; da 26ª à 30ª, na série Francisco Marins. A partir de
1993, passou a ser publicado pela Editora Ática. Nessa editora teve, até março
de 2000, 4 edições (da 31ª à 34ª), na série Vaga-Lume, com aproximadamente
65.000 exemplares. As 34 edições totalizam 226.000 exemplares vendidos. Recebeu
o prêmio Carlos Laet, de 1954, da Academia Brasileira de Letras e foi
publicado, em 1957, em 10 capítulos n’O
Jornal da Juventude, no Suplemento Piá,
de São Paulo Capital. A aldeia
sagrada foi também lançado em Portugal pela Editora Meridiano, Lisboa.
Apaixonado pel’Os
Sertões, de Euclides da Cunha, e pela História do Brasil, Marins retoma,
neste livro, a histórica e lendária Guerra de Canudos. Narrados em primeira pessoa
pelo jovem Didico, os fatos históricos ganham uma nova versão, uma vez que, a
visão do narrador situa-se do lado dos vencidos. O lugar onde a “voz-narrativa”
surge confere à narrativa outro ponto de vista, se comparado aos fatos
históricos registrados pela história e hitoriografia advindas da
“voz-narrativa” considerada oficial.
Território
de bravos (1954), ilustrado por
Oswaldo Storni, publicado pela Companhia Melhoramentos de São Paulo, na série
Taquara-Póca, conta com 14 edições, cujos números de tiragens somam,
aproximadamente 102.000 exemplares vendidos, tendo sido também traduzido para o
espanhol. Em 1976, a Melhoramentos lança a 13ª edição, acrescentando ao título
original um subtítulo: Território de
bravos: a vida histórica de Plácito de Castro e a História do Acre.
Buscando, talvez, entrelaçar esse novo livro com os
quatro primeiros da série Taquara-Póca, o escritor se vale da “voz-narrativa”
do “contador do conhecimento”, o professor Justino, que inicia a história em
terceira pessoa, narrando às crianças da fazenda Taquara-Póca a conquista do
Território do Acre, exaltando fatos heróicos de Plácito de Castro. A partir da
terceira parte do livro, Plácito de Castro passa a narrar a sua própria
história, por meio de lembranças das aventuras por ele vivenciadas.
Observa-se que, embora a mudança de narrador possa
sugerir a narração em primeira pessoa, isto não acontece. A personagem
distancia-se dos fatos com o passar dos tempos e narra a história de um Plácito
jovem que, naquele momento, não existe mais. Os trechos em primeira pessoa, que
aparecem a partir dessa terceira parte, compõem o discurso direto entre as
personagens de um passado distante. Observa-se, ainda, que a parte narrada por
Plácito de Castro apresenta-se em formas tipográficas diferentes; fato
anunciado pelo escritor no início do livro.
Volta à
serra misteriosa (1956), ilustrado
por Oswaldo Storni, publicado pela Companhia Melhoramentos de São Paulo, na
série Roteiro dos Martírios, foi traduzido para o espanhol, inglês (com edições
na Inglaterra e Estados Unidos), francês, húngaro, africander, italiano,
alemão, eslavo e dinamarquês. Lançado em Portugal pela Editora Merediano, em
Lisboa, recebeu o prêmio “Fábio Prado”, de 1957 da União Brasileira de
Escritores. Conta com 12 edições, com aproximadamente 108.000 exemplares.
A narrativa dá continuidade às aventuras de Tonico,
Pixuíra e Perova, iniciadas em Expedição
aos Martírios. A história centra-se na difícil e perigosa continuação da
viagem ao morro dos Martírios em busca do metal dourado. Neste livro, o trio
encontra-se em terras de garimpo e de exploração da escravidão indígena. A
trama principal envolve a descoberta do autor do roubo de um grande diamante
denominado “panelinha de Muiraquitã”. O livro também é narrado em primeira
pessoa pelo personagem protagonista
Tonico.
Outro livro traduzido para o espanhol, inglês (com
edições na Inglaterra e Estados Unidos), francês, húngaro, africander,
italiano, alemão, eslavo e dinamarquês; lançado em Portugal e pertencente à
série Roteiro dos Martírios é O
Bugre-do-chapéu-de-anta (1958), ilustrado por Oswaldo Storni. Publicado
pela Companhia Melhoramentos de São Paulo, até 1979 contava com 10 edições,
perfazendo um total de 73.000 exemplares vendidos.
Dando continuidade à narrativa de Expedição aos Martírios e Volta à serra misteriosa, Tonico narra a aventura vivenciada
por ele e por seus companheiros no reencontro com o “mestiço traiçoeiro”,
conhecido como Bugre-do-chapéu-de-anta. Paralelamente, outra narrativa se
constrói: as conquistas dos bandeirantes Bartolomeu Bueno da Silva, Paz de
Abreu e João Leite da Silva Ortiz, pelo oeste brasileiro. Como em Volta à serra misteriosa, a narrativa
histórica é impressa em tipo gráfico diferente.
Verde era o
coração da montanha (1981),
ilustrado por Vinicius, publicado pela Melhoramentos, na série Francisco
Marins, até 1987 contava com 2 edições, com tiragens de aproximadamente 16.000
exemplares.
Valendo-se de recurso já utilizado em Territórios de bravos, o escritor
serve-se da ‘’voz narrativa’’ do professor Justino que, junto com as crianças
de Taquara-Póca, visitam um indiozinho e seu avô que moravam próximos da
montanha e acabam vivendo uma aventura junto com essa ‘’nova personagem-mirim’’:
o curumim. O contato com animais selvagens e os desafios da mata
caracterizam-se como o ponto alto da ficção: a aventura. Em meio ao suspense
criado pelas situações e pelo espaço, o narrador apresenta a montanha “O
gigante deitado”e introduz a história da luta travada entre os índios e o homem
branco quando do reconhecimento da área da região de Botucatu/SP para a
construção da estrada de ferro. Coexistem, portanto, duas narrativas: a maravilhosa
ficcional e a real e histórica do extermínio da tribo indígena em nome do
progresso.
O Mistério
dos morros dourados (1985),
ilustrado por Jayme Cortez, publicado pela editora Ática, na série Vaga-Lume,
conta com 7 edições que totalizam, segundo essa editora, 240.884 exemplares.
Francisco Marins introduz no mercado editorial, com a publicação desse livro,
uma nova versão de Expedição aos
Martírios. Trata-se da mesma história, reescrita de forma mais consisa,
aumentando o uso de vocábulos e expressões regionalistas do sertão brasileiro.
Outro livro para jovens escrito por Marins foi
publicado pela editora Ática na série O cotidiano da História. Trata-se de A Guerra de Canudos (1987). Ilustrado
por Milton Rodrigo Alves, esse livro, até março de 1990, estava em sua 9ª
edição, totalizando uma tiragem de cera de 108.000 exemplares. Valendo-se dos
estudos sobre Euclides da Cunha e de Os
Sertões, elaborados para a produção
e publicação, em 1953, de A Aldeia sagrada,
Marins publica suas pesquisas organizadas sistematicamente e apresentando-se
como uma espécie de roteiro para a leitura da lendária história dessa guerra e
sua repercussão no Brasil e no Mundo.
A montanha
das duas cabeças (1988), ilustrado
por Jô Fevereiro, publicado pela editora Ática, na série Vaga-Lume, contava,
até 1995, com 4 edições e número de tiragem que totalizavam 101.613 exemplares.
Alterando o título, Marins reescreve a narrativa de Volta à serra misteriosa, fazendo algumas modificações no uso da
linguagem regionalista, intensificando, desse modo, os perigos vivenciados
pelas personagens.
Em busca do
diamante (1995), ilustrado por
Nelson Reis, publicado pela editora Ática, na série Vaga-Lume, tem uma edição,
com tiragem de 30.000 exemplares. Inspirado pelo grande diamante ‘’panelinha de
Muiraquitã’’ de Volta a serra misteriosa,
o escritor cria um novo título para a nova versão de O Bugre-de-chapéu-de-anta, onde narra a volta das personagens de Expedição aos Martírios para São Paulo.
Também passando por uma revisão vocabular, mas conservando a história da
narrativa original, Em busca do diamante
perdido apresenta-se mais conciso e com acréscimo de algumas ‘’cenas’’ que
não aparecem na versão anterior.
O último lançamento de Francisco Marins na literatura
infantil e juvenil foi O sótão da múmia
(1998), ilustrado por Sérgio Palmiro, publicado na Editora Saraiva e cuja
edição (única) totaliza, aproximadamente, 5.000 exemplares. Mudando do espaço
rural e sertanejo para o espaço urbano, sem perder de vista o fio histórico de
seus livros, Francisco Marins organiza esta narrativa em torno do desaparecimento
da múmia do sótão de um pesquisador que desenvolve um estudo, a partir da
análise de uma planta, para a cura da malária.
A narrativa desenvolve-se em meio do turbulento
período de manifestos estudantis contra a ditadura militar de Getúlio Vargas.
Valendo-se do conhecido recurso de ‘’amarrar’’ um livro a outro, o escritor
‘’puxa’’ para este livro alguns fatos retomados de Expedição aos Martírios, como a presença, em lembrança de Perova,
personagem daquele livro e expedição que Tonico, Perova e Pixuíra acompanharam:
a expedição de Langsdorff. Correm paralelas duas histórias: a ficcional e real:
a ditadura de Getúlio Vargas.
Considerando o exposto sobre a vida e a obra para
crianças e jovens de Francisco Marins e sua contribuição para o processo de
constituição e desenvolvimento da literatura infantil e juvenil brasileira,
quer como escritor do gênero, Editor e/ou presidente da Câmara Brasileira do
Livro quer como membro e presidente da Academia Paulista de Letras e da
Academia Brasileira de Literatura Infantil e Juvenil, parece ser possível considerar
que a história da vida desse escritor,
os conteúdos temáticos de sua obra e a história da literatura infantil e
juvenil brasileira se entrecruzam, em determinado período, para depois seguirem
paralelas até a década de 1970, que impulsionou e deu novos rumos à literatura
infantil e juvenil brasileira.
Considerando, ainda, a extensa produção de Francisco Marins, o número de tiragens que
totalizam, aproximadamente, 2.100,00 exemplares vendidos, a repercussão de sua
obra junto às crianças e jovens e a permanência de seus livros no mercado editorial
brasileiro (56 anos) é de se estranhar a existência de apenas um estudo, em forma
de livro, que tematize a obra infantil e juvenil de Francisco Marins, escritor
representativo de um período da história desse gênero no Brasil, ainda muito
pouco explorado: as décadas de 1940 a 1960.
Diante desse fato, uma questão se impõe: terá sido
esse escritor esquecido pelos estudiosos e pesquisadores da literatura infantil
e juvenil brasileira ou teria sido a sua obra a esquecida?
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
MARINS, Francisco.
Nas terras do Rei Café. São Paulo: Melhoramentos, 1945.
_______. Os
segredos de Taquara-Póca, São Paulo: Melhoramentos, 1947.
_______. O
Coleira-Preta, São Paulo: Melhoramentos, 1949.
_______.
Gafanhotos em Taquara-Póca. São Paulo: Melhoramentos, 1950.
_______. Viagem
ao mundo desconhecido: a fabulosa aventura de Fernão de Magalhães. São
Paulo: Melhoramentos, 1951.
_______. Expedição
aos Martírios. São paulo: Melhoramentos, 1952.
________. A
aldeia sagrada. São Paulo: Melhoramentos, 1953.
________.
Território de bravos. São Paulo: Melhoramentos, 1954.
________. Volta
à serra misteriosa. São Paulo: Melhoramentos, 1956.
________. O
Bugre-de-chapéu-de-anta. São Paulo: Melhoramentos, 1958.
________. Verde
era o coração da montanha. São paulo: Melhoramentos, 1981.
________. O
mistério dos morros dourados. São Paulo: Ática, 1985.
________. A
Guerra de Canudos. São Paulo: Ática, 1987.
________. A
montanha de duas cabeças. São Paulo: Ática, 1988.
________. Em
busca do diamante. São Paulo: Ática, 1995.
________. O sótão da múmia. São Paulo: Ática, 1998.
GÓES, Lúcia Pimentel. A aventura da literatura para crianças: formas de avaliação da
literatura infantil e juvenil através da obra de Francisco Marins. São Paulo:
Melhoramentos, 1990.
[1] Texto extraído da tese de doutorado, qualificada em 22 de junho de 2001, a ser defendida em dezembro de 2001 e intitulada, provisóriamente, A literatura infantil e juvenil brasileira: o projeto de criação e representação da realidade de Francisco Marins — UNESP/ Marília.
[2] Doutoranda em Educação – UNESP/Marília; bolsista CNPq; membro do Grupo de Pesquisa: História do Ensino da Língua e da Literatura no Brasil e do Projeto Integrado de Pesquisa: “Ensino de Língua e Literatura: repertório documental republicano”( apoio CNPq), coordenado pela Profª Drª Maria do Rosário Longo Mortatti.