O PROFESSOR E SUA RELAÇÃO COM AS PROPOSTAS CURRICULARES DE LÍNGUA PORTUGUESA: UM OLHAR À LUZ DA PERSPECTIVA SÓCIO - HISTÓRICA E DA DIMENSÃO DISCURSIVA TEXTUAL

 

TONÁCIO, Glória de Melo*

 

Não há uma palavra que seja a primeira ou a última, e não há limites para o contexto dialógico (este se perde num passado ilimitado e num futuro ilimitado). Mesmo os sentidos passados, aqueles que nasceram do diálogo com os séculos passados, nunca estão estabilizados (...). Sempre se modificarão (...) no desenrolar do diálogo subseqüente, futuro. Em cada um dos pontos do diálogo que se desenrola, existe uma multiplicidade enumerável, ilimitada de sentidos esquecidos, porém, num determinado ponto, no desenrolar do diálogo, ao sabor de sua evolução, eles serão rememorados e renascerão numa forma renovada (num contexto novo). Não há nada morto de maneira absoluta. Todo sentido festejará um dia seu renascimento.

BAKHTIN, 1997, p.414

 

Situando a questão:

Acreditando como Bakhtin que não existem limites para a palavra e que nem tudo está dito, tendo em vista que o homem se constrói e se faz conhecido na grande temporalidade pela sua produção textual, o próprio Bakhtin ao elaborar tal conceituação, profetizou o que aconteceria com sua obra e, nesse momento, do nosso cronotopo, cabe-nos continuar o diálogo com essa obra e suas contribuições fornecidas nas discussões atuais.

Pretendo, então, que minha pesquisa seja feita a partir da concepção social de homem e de suas interações sociais.

E, para isso, faz-se necessário o esclarecimento de três pontos propostos por Barros (1997) para o melhor entendimento do texto enquanto objeto lingüístico-discursivo, social e histórico:

Em primeiro lugar é preciso observar que as relações do discurso com a enunciação, com o contexto sócio-histórico ou com o “outro” são para Bakhtin, relações entre discursos-enunciados; o segundo esclarecimento é o de que o dialogismo tal como é concebido define o texto como um “tecido de muitas vozes”, ou de muitos textos ou discursos, que se entrecruzam, se completam, respondem umas às outras ou polemizam entre si no interior do texto; a terceira e última observação é sobre o caráter ideológico dos discursos assim definidos. (BARROS. In: BRAIT, 1997, p.34)

 

Por isso, meu texto será tecido a partir do diálogo com muitas vozes que permeiam a discussão a que me proponho. Essas vozes vêm dos estudos e pesquisas teóricas e, ao mesmo tempo, vêm das salas de aula do cotidiano escolar tão familiar para mim enquanto professora e tão estranho enquanto estudiosa e pesquisadora.

Assim, apoio-me nas bases teóricas que influenciam pesquisas, discussões em torno da linguagem e do discurso, nas atuais reformulações curriculares como a proposta dos PCNs de Língua Portuguesa baseados na Teoria da Aprendizagem proposta pelo grupo de Vygotsky e na Teoria da Enunciação proposta pelo grupo de Bakhtin e nos estudos desenvolvidos até o momento por mim no Mestrado em Educação da UFJF a proposta deste projeto de pesquisa é investigar: Como o professor do 2º ciclo do Ensino Fundamental da Rede Municipal de Juiz de Fora – MG utiliza a dimensão textual-discursiva nas atividades de produção textual

Pretendo desenvolver tal investigação numa escola da Rede Municipal de Juiz de Fora -MG que trabalhe em ciclos, numa turma do segundo ciclo, já que a proposta de trabalho em ciclos contempla a conceituação de desenvolvimento humano na perspectiva sócio-histórica e nesse município as discussões sobre o PCNs, reformulações curriculares na área estão presentes nas escolas, através de estudos e formação em serviço por parte dos professores, buscando bases teóricas para o trabalho pedagógico de desenvolvimento da linguagem e na implementação dos ciclos.

Tal pesquisa está amparada pelos fundamentos da abordagem qualitativa e tem por referencial teórico a perspectiva sócio-histórica de Vygotsky e Bakhtin.

Dessa forma, foram elaboradas as seguintes questões que nortearão a investigação:

Ø                                         O que apresentam as propostas curriculares atuais e o PCN de Língua portuguesa no que diz respeito à utilização da dimensão textual-discursiva?

Ø                                         Como o professor utiliza a dimensão textual-discursiva nas atividades de produção de texto?

Pretendo realizar uma análise documental, observação participante, entrevistas dialógicas com os sujeitos envolvidos no estudo das escolas selecionadas, análise de artefatos e análise do material, a luz da dimensão sócio-histórica.

Tendo em vista que neste momento a pesquisa se encontra na fase de revisão de literatura. Este trabalho visa discutir a fundamentação teórica do projeto de pesquisa:“O professor e sua relação com as propostas curriculares de língua portuguesa: um olhar à luz da perspectiva sócio - histórica e da dimensão discursiva textual” que em desenvolvimentp no Programa de Pós-Graduação em Educação (Mestrado) da UFJF.

 

I - Referencial teórico:

O corpo teórico de Vygotsky se refere à produção teórica sócio- histórico- cultural do grupo russo de Vygotsky, Luria e Leontiev sobre o caráter social da produção humana, bem como as relações entre signo, instrumento, cultura, interação social, história, funções mentais superiores e destas com a produção e a linguagem. “Essa abordagem cultural, integrativa, social, semiótica e psicológica, que foi inovadora há meio século atrás, (...) continua nos interessando porque não só o seu diagnóstico da crise da Psicologia continua sendo válido nos dias de hoje, mas também porque os problemas básicos que discute continuam sendo problemas atuais”.(FREITAS, 1995:91).

A abordagem de Vygotsky considera o desenvolvimento humano como um processo de apropriação pelo homem da experiência histórica e cultural. Nesta perspectiva, o homem se constitui através de suas interações sociais, portanto, é alguém que transforma e é transformado nas relações produzidas em sua cultura. Desse modo, o sujeito interage com o conhecimento trazido pelo texto. Isto quer dizer que as atividades desenvolvidas e os conceitos aprendidos na escola introduzem novos modos de operação intelectual: abstrações e generalizações mais amplas acerca da realidade (que por sua vez transformam os modos de utilização da linguagem). Como conseqüência, na medida em que a criança expande seus conhecimentos, modifica sua relação com o mundo (REGO, 1995, p.93).

A produção teórica de Bakthin se refere à corrente de pensamento da Filosofia da Linguagem russa de orientação marxista e por isso, de abordagem sócio - histórica, através dos seus textos e obras assinados por ele e por Volochinov e Medviediev, contribuindo para o estudo da Estética, da cultura e da Linguagem do ponto de vista dialético.

A conceituação de dimensão textual - discursiva é apoiada na teoria de Bakthin que sustenta o caráter social dos fatos da linguagem, que considera o enunciado como produto de interação social, em que cada palavra é definida como produto de trocas sociais. O enunciado está ligado a uma situação material concreta e sua definição aproxima-se da concepção atual de texto.

O texto é considerado hoje tanto como objeto de significação, ou seja, como um “tecido” organizado e estruturas do, quanto como objeto de comunicação, ou melhor, objeto de uma cultura, cujo sentido depende, em suma do contexto sócio - histórico. Conciliam-se, nessa concepção de texto ou na idéia de enunciado de Bakhtin, abordagens externas e internas de linguagem. O texto-enunciado recupera estatuto pleno de objeto discursivo, social e histórico.(BARROS, 1999, p. 1)

 

Para Bakhtin, signo é tudo o que tem significação. Nenhuma significação, no entanto, é dada, e sim criada no processo das relações dialógicas de um com o outro e no conceito de texto por ele proposto, é possível avaliar a dinâmica dos signos culturais e seu processo contínuo de expansão e de interação.

Como marxista, Bakhtin, alcança a dimensão ideológica da linguagem. Ela deixa de ser um objeto abstrato, um fato social, fundado, apenas, na necessidade de comunicação, para ser de natureza social. Por isso, Bakhtin valoriza, também, a fala não como manifestação individual, mas como de natureza social.

A palavra é a arena onde se confrontam aos valores contraditórios; os conflitos da língua refletem os conflitos de classe no interior mesmo do sistema.(...) A comunicação verbal, inseparável das outras, implica conflitos, relações de dominação (...).Toda enunciação, fazendo parte de um processo de comunicação ininterrupto, é um elemento do diálogo, no sentido amplo do termo, englobando as produções escritas (...).

Os imperativos pedagógicos não deixam de ter influência sobre a prática do lingüista, na medida em que se procura transmitir um objeto-língua tão homogêneo quanto possível (...). (BAKHTIN, 1998, p.15-16)

 

Bakhtin coloca em evidência a inadequação de todos os procedimentos de análise lingüística (fonético, morfológico e sintático) para dar conta da enunciação completa, seja ela uma palavra, uma frase ou uma seqüência de frases, já que a enunciação é compreendida como uma réplica do diálogo social, é uma unidade de base da língua, trata-se de discurso interior (diálogo consigo mesmo) ou exterior. Ela é de natureza social, portanto, ideológica. Ela não existe fora de um contexto social. Há sempre um interlocutor, ao menos potencial. O locutor pensa e se exprime para um auditório social bem definido.

A filosofia marxista da linguagem coloca como base, então, de sua doutrina a enunciação como realidade da língua e como estrutura sócio-ideológica. O signo e a situação social estão indissoluvelmente ligados.O signo é, portanto, ideológico. “Se a língua é determinada pela ideologia, a consciência, portanto, o pensamento, a atividade mental são condicionados pela linguagem e modelados pela ideologia”.  (BAKHTIN, 1998, p.16).

Bakhtin define a língua, então, como expressão das relações e lutas sociais, veiculando e sofrendo o efeito dessa luta, servindo, ao mesmo tempo de instrumento e de material e defende a diversidade das produções de linguagem.

·                    A conceituação de Gêneros do Discurso numa perspectiva bakhtiniana:

Para o entendimento de como o texto pode alcançar sua dimensão discursiva na escola pela realização do trabalho docente, faz-se necessário discutir a conceituação dos Gêneros do Discurso em Bakhtin, pois nesta teoria que podemos encontrar o sentido enunciativo da produção escrita.

A conceituação de gêneros discursivos segundo Bakhtin aparece no estudo intitulado “Os Gêneros do Discurso” e que originalmente obteve o título “O problema dos gêneros do discurso” em Estética da criação verbal, datado aproximadamente em 1952-1953 não revisto pelo autor e que parte de um estudo do discurso não concluído que se intitulava “Os Gêneros do Discurso”, usando como pressupostos suas reflexões dos anos 20. De maneira sintética, temos como principais pressupostos que abrem a questão dos Gêneros Discursivos:

ü                                         Todas as esferas da atividade humana estão relacionadas com as formas de utilização da língua.

ü                                         A utilização da língua efetua-se em formas de enunciados (orais e escritos).

ü                                         Cada enunciado reflete as condições específicas e as finalidades dessas esferas pelo conteúdo, estilo (recursos da língua: lexicais, fraseológicos e gramaticais) e construção composicional, que se fundem, formando o todo o enunciado e que são marcados por cada especificidade de uma esfera da comunicação.

Assim sendo, Bakhtin antecipa os pressupostos que originam a Teoria dos Gêneros do Discurso ao dedicar-se no estudo da problemática da Teoria da Literatura e da cultura na obra Marxismo e Filosofia da Linguagem nos anos 20 (1920-1929), quando define o signo como um material semiótico-ideológico, a enunciação como produção de interação social e, logo após, discorre sobre os temas que povoam as comunidades humanas e de como esses temas aparecem a partir de determinadas formas de composição e de determinados estilos.

Apesar de Bakhtin falar em discursos humanos, ao assinalar os diferentes aspectos da enunciação que aparecem sob diferentes modos de discurso nessa obra de maneira geral, antecipa suas conclusões a respeito dos gêneros em vários momentos, como quando fala, por exemplo:

Trata-se, muito precisamente, das próprias formas de concretização deste espírito, isto é, das formas da comunicação no contexto da vida e através de signos.

(...) Cada época e cada grupo social têm seu repertório de formas de discurso na comunicação sócio-ideológica. A cada grupo de formas pertencentes ao mesmo gênero, isto é, a cada forma de discurso social, corresponde grupo um grupo de temas.(...) Eis porque a classificação das formas de enunciação deve se apoiar sobre uma classificação das formas da comunicação verbal.(BAKHTIN, 1999, p. 43)

 

Bakhtin coloca, antecipando as discussões que envolvem os gêneros discursivos, que cada época e cada grupo social têm o seu repertório de formas discursivas que funciona como um espelho que reflete e refrata a realidade.A palavra é, então, a revelação de um espaço no qual os valores fundamentais de uma dada sociedade se explicitam e se confrontam.

Ainda, na obra Marxismo e Filosofia da Linguagem existem uma série de elementos que contribuem para a concepção de gênero discursivo como é o caso da definição de “Tema e significação na língua” ou da sugestão de que existem formas lingüísticas que entram em uma composição e que são articuladas a elementos não verbais da situação, constituindo o atributo da enunciação completa. Na mesma obra, também, estão presentes os problemas da compreensão ativa e da entoação expressiva, quer se pense na oralidade ou na escrita e que, mais tarde, foi aprofundada na Teoria dos Gêneros do Discurso.

Da mesma forma, Bakhtin seus estudos em Problemas da poética de Dostoiévsky ao descrever a formação de uma poética como característica da literatura do século XX e trabalhando o gênero específico romance polifônico como um detalhamento lingüístico-discursivo sobre as formas de presença do outro no discurso, como por exemplo, no conto “O sósia”. BRAIT (2001) nos chama a atenção de como Bakhtin detalha um pouco do que mais tarde irá se consistir na teoria dos gêneros e sugere como possibilidade para observação de outros gêneros em outras atividades humanas.

E finalmente, no período de 1953-1975, segundo FREITAS (2000) Bakhtin retorna aos temas teóricos e metodológicos e volta a se ocupar dos temas principais que envolvem a Estética da Criação Verbal, tais como os gêneros do discurso.

Assim, nessa época, BAKHTIN (1997) vai definir como gênero do discurso: “qualquer enunciado considerado isoladamente é, claro, individual, mas cada esfera de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados”. Os gêneros do discurso possuem uma diversidade infinita, mas organizada, de cada esfera de utilização que se caracterizam pelos conteúdos e meios lingüísticos que utilizam.

A variedade dos gêneros do discurso é inesgotável, pois “cada esfera dessa atividade comporta um repertório de gêneros do discurso que vão diferenciando-se e ampliando-se à medida que a própria esfera se desenvolve e fica mais complexa” (BAKHTIN, 1997, p. 279). Essa heterogeneidade e complexidade estão relacionadas à própria diversidade da produção humana, conforme os gêneros se diversificam e vão se complexicando, as esferas dessas atividades humanas também se ampliam e se complexicam. Do mesmo modo, então, que há uma diversidade imensa nas situações de comunicação nas diferentes esferas das atividades humanas, o mesmo ocorre com as formas dos gêneros que estão disponíveis na cultura. Essas formas (cotidianas, livres, literárias e outras) não são meramente lingüísticas, mas formas típicas de enunciados.

Por isso, Bakhtin critica as classificações tradicionais dos gêneros resultantes de “uma incompreensão na natureza dos gêneros dos estilos da língua e de uma ausência na classificação dos gêneros do discurso por esferas da atividade humana” (Ibid, p.285).

Para Bakhtin, essas classificações não absorvem a totalidade e heterogeneidade dos gêneros e diz que o que “importa, nesse ponto, levar em consideração [é] a diferença essencial existente entre gênero do discurso primário (simples) e o gênero de discurso (secundário) complexo” (Op.cit., p.281).

Assim, Bakhtin (1997) propõe a distinção dos gêneros do discurso em primários (livres) que são constituídos na vida cotidiana e que se relacionam de maneira imediata com as situações nas quais são produzidos e gêneros do discurso secundários (romances, teatro, discurso científico, discurso ideológico etc.) que “aparecem nas circunstâncias de uma comunicação cultural, mais complexa e relativamente evoluída principalmente escrita: artística, científica e sociopolítica” (Op. cit., p.281). Os gêneros secundários repousam sobre as instituições sociais e tendem a explorar e a recuperar os discursos primários, que perdem, desde então, sua relação direta com o real para tornarem-se literatura, por exemplo.

Desse modo, “durante o processo de sua formação, esses gêneros secundários absorvem e transmutam os gêneros primários de todas as espécies, que se constituíram em circunstâncias de uma comunicação verbal e espontânea” (Op. cit., p.281). Por isso, Bakhtin entende a fala como dialogização que se manifesta no interior dos gêneros do discurso, ou seja, no momento que o discurso na perspectiva do diálogo cotidiano, torna-se mais complexo (secundário), há uma absorção e transmutação da comunicação verbal espontânea, ao mesmo tempo, que tenta conservar a forma e o significado do cotidiano, integrando a realidade como um todo, produz um novo enunciado que não é mais a vida cotidiana e a fala pessoal passa a ter características do eu e do social transmutando-se em características de cunho complexo (secundário).

A ampliação da língua escrita que incorpora diversas camadas da língua popular acarreta em todos os gêneros (literários, científicos, ideológicos, familiares etc.) a aplicação de um novo procedimento na organização e na conclusão do todo verbal e uma modificação do lugar a uma maior ou menor reestruturação e renovação dos gêneros do discurso.  (BAKHTIN, 1997, p.286)

 

Bakhtin através dos gêneros do discurso consegue o caminho de integração e transmutação linguagem criativa numa linguagem formal. Coloca como eixo integrador dos gêneros primários e secundários, o caráter dialógico da linguagem e suas atividades. “A concepção dialógica da linguagem é a condição de todas essas possibilidades que contém um potencial heurístico imenso para os estudos lingüísticos, psicológicos, literários, estéticos, culturais em geral” (FARACO 1996, p.122-123).

Os gêneros secundários, como a literatura, tratam-se, em sua maioria, de gêneros falados-dialogados. Portanto, os gêneros secundários são marcados pelo dialogismo e pelo enfraquecimento do princípio monológico.

A inter-relação entre os gêneros e o processo histórico de formação dos gêneros secundários esclarece a natureza do enunciado e a problemática das correlações entre linguagem, ideologia e visões de mundo.

Desse modo, num primeiro momento, o gênero discursivo se dá num espaço e tempo dados, no entanto, ele se dá na heterocronotopia e na possibilidade da orientação virtual em outros tempos/espaços. Por isso, os estudos da natureza do enunciado e da diversidade dos gêneros são de extrema relevância para qualquer estudo de uma lingüística concreta, lidando com enunciados concretos (escritos ou orais) que se relacionam com diferentes esferas da atividade. “A língua penetra na vida através dos enunciados concretos que a realizam, e é também através dos enunciados concretos que a vida penetra na língua. O enunciado situa-se no cruzamento excepcionalmente importante de uma problemática” (Op.cit., p.282).

Bakhtin discute a questão da relação estilo e gênero, abordando o estilo “como elemento na unidade do gênero de um enunciado” e constatando que de acordo com a função que o discurso assume (científico, técnico, ideológico e outros) e com as condições específicas de cada comunicação, essa função produz um gênero, “um tipo de enunciado relativamente estável do ponto de vista temático, composicional e estilístico” (Op.cit., p.284).

Dessa forma, para ocorrer comunicação verbal tem que ocorrer também gêneros discursivos (estrutura composicional, além da elaboração sintática e estilística). Para falar, utilizamos além das formas da língua (recursos lingüísticos: lexicais e gramaticais), das formas dos enunciados na comunicação de sentidos.

Para falar utilizamo-nos sempre dos gêneros do discurso, em outras palavras, todos os nossos enunciados dispõem de uma forma padrão e relativamente de estruturação de um todo.  Possuímos um rico repertório dos gêneros do discurso orais (e escritos).  Na prática, usamo-los com segurança e destreza, mas podemos ignorar totalmente a sua existência teórica. (...). Falamos em vários gêneros sem suspeitar de sua existência. (...). As formas da língua e as formas típicas de enunciados, isto é, os gêneros do discurso, introduzem-se em nossa experiência e em nossa consciência conjuntamente e sem que sua estreita correlação seja rompida.  Aprender a falar é aprender a estruturar enunciados (porque falamos por enunciados e não por orações isoladas e, menos ainda, é óbvio, por palavras isoladas).  Os gêneros do discurso organizam nossa fala da mesma maneira que a organizam as formas gramaticais (sintáticas). (Op.cit., p.301)

 

Portanto, para que os estudos da lingüística sejam produtivos, estes devem “partir do fato de que os estilos da língua pertencem por natureza ao gênero e deve basear-se no estudo prévio dos gêneros e sua diversidade” (Op cit., p.284), já que as mudanças históricas dos estilos da língua também não podem ser separadas das mudanças que se efetuam nos gêneros. “Os enunciados e o tipo a que pertencem, ou seja, os gêneros do discurso, são as correias da transmissão que levam da história da sociedade à história da língua. Nenhum fenômeno novo (fonético, lexical, gramatical) pode entrar no sistema da língua sem ter sido longamente testado e ter passado pelo acabamento do estilo-gênero” (Op cit., p.284).

Pela conceituação de gênero discursivo, portanto, Bakhtin redimensiona o estudo da linguagem e a concepção histórica. Por isso,

o estudo da natureza do enunciado e dos gêneros do discurso tem uma importância fundamental para superar as noções simplificadas acerca da vida verbal, a que chamam o “fluxo verbal”, a comunicação etc., noções estas que ainda persistem em nossa ciência da linguagem. Irei mais longe: o estudo do enunciado, em sua qualidade de unidade real da comunicação verbal, também deve permitir compreender melhor a natureza das unidades da língua (da língua como sistema): as palavras e as orações. (Op cit., p.287)

 

BAKHTIN (1999) ao analisar as teorias lingüísticas do seu tempo, identifica duas tendências que vigoravam: objetivismo abstrato e o subjetivismo idealista. STAM (1992) se remetendo a BAKHTIN (1999) coloca resumidamente que o objetivismo abstrato, através de Saussure, discutia a orientação histórica (diacrônica) da lingüística do século XIX, ou seja, uma abordagem que estudasse a língua como totalidade funcional num momento dado no tempo. De acordo com a orientação sincrônica, a lingüística deveria focalizar a langue - isto é, o sistema da linguagem, com as suas unidades básicas e suas regras de combinação e não a parole, as emissões concretas possibilitadas por este sistema. Dessa forma, esta tendência lingüista acabou por separar a língua da fala, priorizando o estudo normativo da língua, retirando também do signo a realidade social e ideológica da linguagem.

Quanto ao subjetivismo idealista, esta abordagem considera o fenômeno lingüístico como ato significativo de criação individual, regidas pela psicologia individual e a lingüística como ciência da expressão e da criação estética e artística. Enquanto que para a outra tendência, a valorização acaba por recair na escrita formal através dos estudos gramaticais e lexicais, nesta tendência o interesse recai na fala individual como fundamento da língua.

Tais abordagens influenciam até hoje o estudo e o ensino da língua. Bakhtin, no entanto, ao investigar, pioneiramente, a linguagem como fenômeno social e não mais como físico ou psicológico, entendeu o sujeito como histórico e social onde as interações acontecem num contexto social dado.

Ao contrário, dos estudos lingüísticos de sua época, Bakhtin, enfraqueceu esse modelo abstrato e valorizou a interação social entre sujeitos situados historicamente numa dada sociedade. Criticou a forma de abordagem da lingüística da sua época que colocou a questão da função comunicativa da linguagem em segundo plano, privilegiando a função formadora da língua sobre o pensamento, de maneira autônoma à comunicação, assim ocorreu uma abstração da necessidade de comunicação do homem e a língua ficou resumida à expressão individual do locutor. Nessa perspectiva, “a linguagem é considerada do ponto de vista do locutor como se estivesse sozinho, sem uma forçosa relação com os outros parceiros da comunicação verbal” (Op cit., p.289).

Dessa forma, apenas o papel do locutor é visto como um processo ativo da fala e o papel do outro, quando considerado, é visto apenas como um receptor/ ouvinte/ destinatário/ parceiro do locutor que tem como função, apenas, a compreensão passiva.

Bakhtin salienta que tal abordagem não está enganada e que até corresponde a alguns aspectos reais, no entanto, estes aspectos não representam “o todo real da comunicação” (Op. cit., p.290).

Baseando-se na crítica a essa abordagem na lingüística, Bakhtin irá propor a atitude responsiva ativa e a compreensão responsiva ativa que vai também explicar a variedade dos gêneros discursivos.

[Na] atitude responsiva ativa: [o ouvinte] concorda ou discorda (...), completa, adapta, apronta-se para executar etc., e esta atitude do ouvinte está em elaboração constante durante todo o processo de audição e de compreensão desde o início do discurso, às vezes já nas primeiras palavras emitidas pelo locutor. A compreensão de uma fala viva, de um enunciado vivo é sempre acompanhada de uma atitude responsiva ativa (...); toda compreensão é prenhe de resposta, de uma forma ou de outra, forçosamente a produz: o ouvinte torna-se locutor. (Op. cit., p.290)

 

Bakhtin ressalta algumas particularidades do enunciado como unidade da comunicação verbal e que a distingue da unidade da língua: a primeira diz respeito a alternâncias dos sujeitos falantes que compõe o contexto do enunciado, transformando-o numa massa compacta rigorosamente circunscrita em relação aos outros enunciados vinculados a ele, o mesmo ocorrendo com a obra-enunciado.

A obra, assim como a réplica do diálogo, visa a resposta do outro (...), uma compreensão responsiva ativa, e para tanto adota todas as espécies de formas: busca exercer uma influência didática sobre o leitor, convencê-lo, suscitar sua apreciação crítica, influir sobre êmulos e continuadores, etc. A obra predetermina as posições responsivas do outro nas complexas condições da comunicação verbal de uma dada esfera cultural. A obra é um elo na cadeia da comunicação verbal; do mesmo modo que a réplica do diálogo, ela se relaciona com as outras com as outras obras-enunciados: com aquelas a que ela responde e com aquelas que lhe respondem e, ao mesmo tempo, nisso semelhante à réplica do diálogo, a obra está separada das outras pela fronteira absoluta da alternância dos sujeitos falantes. (Op. cit., p.298)

 

A segunda particularidade diz respeito ao acabamento que corresponde o dar corpo às experiências e implica na construção do todo pela relação das partes. Dito de outro modo, Bakhtin entende o acabamento como forma de valorização da alteridade pela construção das relações entre eu e o outro. Desse modo, o acabamento do enunciado é visto do interior da alternância dos sujeitos, “essa alternância ocorre precisamente porque o locutor disse (ou escreveu) tudo o que queria dizer num preciso momento em condições precisas” (Op. cit: 299). Por isso, pela conceituação de acabamento temos também a do dialogismo, já que a visão estética depende do posicionamento, do lugar de onde se fala e nesse lugar nunca estamos sozinhos. Assim, o acabamento da obra, constitui-se pelo excedente de visão que completa a vivência inacabada pelo outro e que cria o acabamento. Do mesmo modo, que tudo está em movimento, que o homem e o mundo não estão acabados, o mesmo se dá com os gêneros discursivos que estão em constante diálogo entre eles e no interior deles.

Nessa perspectiva, o gênero acontece pelas variadas formações e combinações da linguagem, articulando também formas do discurso criadoras, visões de mundo e valores. Portanto, é o gênero o organizador do seu acabamento pelas relações internas e externas e da estética.

A terceira particularidade está ligada às formas estáveis do gênero do enunciado relacionado com outro conceito: o querer-dizer ou intuito discursivo do locutor. Dessa forma, segundo BAKHTIN (1997), o intuito, o elemento subjetivo do enunciado, entra em combinação com o objetivo do sentido (objetivo) para formar uma unidade indissociável, que ele limita e vincula à situação concreta e única da comunicação verbal, marcada, de um lado, pelas circunstâncias individuais e, do outro, pelas intervenções anteriores: os enunciados dos parceiros envolvidos.

Bakhtin ressalta que a comunicação verbal permite a utilização dos gêneros do discurso antes mesmo de estudar a língua formalmente, ou seja, aprendemos os gêneros no social pela organização de nossa fala. Esses gêneros se distinguem das outras formas da língua. “De um modo geral, elas são mais maleáveis, mais plásticas e mais livres do que as formas da língua” (Op.cit., p.302).

Esses gêneros são da esfera do oral e são mais criativos e, por isso, permitem-se uma reestruturação criativa. No entanto, seu uso não significa, de maneira nenhuma, a recriação de um gênero, já que o seu uso livre é de esfera social e requer um bom domínio dos gêneros. Existem, ainda, gêneros muito mais estáveis e prescritivos, onde o querer-dizer deve se limitar à escolha de um gênero e acontecem apenas pequenas variações na entonação expressiva. Dito de outro modo, os gêneros são sociais e, por isso, não podem ser criados livremente de acordo com a individualidade dos falantes.

Bakhtin coloca, ainda, que a primeira fase do enunciado determina as particularidades de estilo e composição e na segunda fase, o que determina é a composição e o estilo correspondente à expressividade do locutor perante o objeto de seu enunciado.

Os gêneros estão sempre em transformação e criação como a própria vida, eles são responsáveis pela promoção do pensar e dar sentido ao mundo pelo homem e suas ações. Assim, os gêneros não podem ser entendidos apenas como vinculação ao presente, eles vivem do presente, mas, ao mesmo tempo, reportam a um passado concreto, à memória criativa e seu desenvolvimento. “A vida do gênero é marcada pela capacidade de renovar-se em cada nova etapa do desenvolvimento da literatura e em cada obra individual. Os gêneros discursivos criam verdadeiras cadeias que, por se reportarem a um grande tempo, acompanham a variabilidade de usos da língua num determinado tempo”. (MACHADO, 1997, p.155).

O impasse presente hoje na escola consiste no ensino e organização curricular da Língua Português diante de tal complexidade e heterogeneidade dos gêneros e conseqüentemente da dimensão discursiva textual das produções escritas.

Assim, tomando como base a Teoria da Enunciação de Bakhtin e a Psicologia do Desenvolvimento de Vygostky, SCHNEUWLY E DOLZ (1996, 1997) desenvolveram, recentemente, a idéia de que o gênero é utilizado como meio de articulação entre práticas sociais e objetos escolares no domínio do ensino da produção de textos orais e escritos.

Nesses estudos, interessa-me, neste momento, a relação estabelecida entre gênero e práticas de linguagem, a proposição de SCHNEUWLY (1994) de que os gêneros do discurso são “mega-instrumentos”, fornecedores de suportes para as atividades escolares nas situações de comunicação e a hipótese de DOLZ & SCHNEUWLY (1996) dos gêneros como organizadores de progressões curriculares.

Segundo ROJO (1998, p.3), SCHNEUWLY (1994) sugere que, do ponto de vista da construção dos discursos e da linguagem pela criança, é possível tomar os gêneros do discurso como “mega-instrumentos”, instrumentos de mediação semiótica complexos que implicariam, por si próprios, a construção de instrumentos menos complexos nele envolvidos, a nível da linguagem e do pensamento. É justamente neste sentido que os gêneros do discurso, implicando aspectos temáticos, composicionais, enunciativos e lingüísticos em si mesmos, são uma poderosa ferramenta de ensino-aprendizagem de línguas e podem ser indicados ou sugeridos, como fazem os PCN, como uma unidade organizadora de currículos e de progressões no Ensino Fundamental.

Do mesmo modo, DOLZ & SCHNEUWLY (1996), estudam os gêneros ensinados na escola, transpostos do social para o ensino, propõem que esses gêneros possam ser objetos de ensino, organizadores de progressões curriculares e sugerem para essa transposição, dada a complexidade e heterogeneidade dos gêneros no social, os seguintes agrupamentos, segundo ROJO (1998):

Ø                                  Da ordem do relatar - ligado ao domínio social da comunicação voltado à documentação e memorização das ações humanas, exigindo uma representação pelo discurso de experiências vividas situadas no tempo (relatos de experiência vivida, diários íntimos, diários de viagem, notícias, biografias, relato histórico, etc.);

Ø                                  Da ordem do narrar - ligado ao domínio social da cultura literária ficcional, caracteriza-se pela mimesis da ação através da criação da intriga no domínio do verossímel (contos de fadas, fábulas, lendas, ficção científica, narrativa de enigma, romance, etc.);

Ø                                  Da ordem do argumentar - ligado ao domínio social da comunicação votado à discussão de problemas sociais controversos, exige a sustentação, refutação e negociação de tomadas de posição (diálogo argumentativo, carta de reclamação, debate regrado, editorial, ensaio argumentativo, etc.);

Ø                                  Da ordem do expor - ligado ao domínio social da comunicação votado à transmissão e construção de saberes, exige a apresentação textual de diferentes formas dos saberes (texto expositivo, conferências, seminários, resenhas, artigos, etc.);

Ø                                  Da ordem do descrever ações (ou instruir e prescrever , segundo ROJO) - ligado ao domínio social da comunicação votado às instruções e prescrições, exige a regulação mútua de comportamentos (instruções de uso, instruções de montagem, receitas, regulamentos, regras de jogo, etc.).

Ainda segundo ROJO (1998),

na opinião dos autores [como a da própria autora], cada um destes e todos os agrupamentos teriam de ser trabalhados em cada série escolar, variando-se seja o gênero selecionado para exploração, seja o grau de profundidade da abordagem de um gênero, garantindo-se construções cada vez mais complexas de linguagem, num processo de ensino-aprendizagem espiral, que tomaria a complexificação como dinâmica para a “progressão didática” [grifo dela]. (...) Tal organização didática não é possível sem que se disponha, por um lado, de uma descrição enunciativa, ainda que provisória, dos gêneros em questão (objetos do ensino-aprendizagem) e, por outro, de uma certa clareza, também provisória, do DR (desenvolvimento real) dos aprendizes na construção deste(s) gênero(s). (ROJO, 1998, p. 4-5)

 

Interessa-me, portanto, a discussão dialética da representação textual pelos autores sócio-históricos, ou seja, estudar o texto como um espaço aberto à simultaneidade das visões.

 

II-Revisão bibliográfica: em busca de outros interlocutores

Para uma reflexão de como as teorias discursivas influenciaram as atuais práticas pedagógicas, reformulações curriculares e políticas educacionais públicas na área de Língua portuguesa. Torna-se, necessário o entendimento de como essas teorias chegaram no Brasil e passam a fazer parte das discussões e debates na área educacional.

Para isso, utlizei-me das leituras feitas de FREITAS (1994) na sua pesquisa de doutorado, onde investigou como o pensamento de Bakhtin e Vygotsky chega ao Brasil e do diálogo estabelecido com essa obra e seus interlocutores: pesquisadora e sujeitos da pesquisa, bem como das contribuições de outros autores como: MARINHO (1998) e CORACINI (1995).

Conforme FREITAS (1994) coloca, Bakhtin e Vygostky chegam ao Brasil na segunda metade dos anos 70. A chegada é marcada pela informalidade e, em muitos momentos, pelo acaso dos encontros em cantos de livraria por professores, por viagens de outros professores para alguns países: Itália, Espanha, Inglaterra e França, ou ainda, pela apresentação de alguém, através de uma tradução ou leitura.

No entanto, essa chegada foi significativa. Isto porque, o Brasil vivia um Regime de Ditadura Militar no sistema político e no econômico predominava o capital internacional. Na escola vivia-se o domínio da tendência tecnicista, “que procurava determinar padrões de racionalização e eficiência ao ensino brasileiro nos moldes de uma visão empresarial-tecnocrática” (FREITAS, 1994, P.32). Proliferando-se, então as teorias piagetianas e não-diretivas, já que tais concepções não ameaçavam o poder político e econômico.

Nos anos 80, no entanto, com o final da ditadura militar e o advento dos movimentos da redemocratização, “Diretas já” e da anistia no Brasil e, ao mesmo tempo, no plano econômico, ocorre uma crise instaurada pelos altos índices de inflação e dívida externa, gerando também altos índices de desemprego. Segundo FREITAS (1994), acontece um descontentamento contra o regime vigente nessa época, o que permitiu também “um reavivamento da discussão educacional e pedagógica (...) e isso trouxe um novo ânimo para a retomada das discussões pedagógicas” (FREITAS, 1994, p.39-40).Com isso, ocorreu uma maior participação dos professores nas questões educacionais e uma busca de novos caminhos às questões que se apresentavam: analfabetismo, evasão escolar e repetência.

Assim, professores junto a pesquisadores na área da Educação, Psicologia e outras afins buscaram novos caminhos. E foi, assim, conforme FREITAS (1994) que um dos caminhos da entrada de Bakhtin e Vygostky nas pesquisas e discussões foi pelo grupo da UNICAMP ligado ao IEL com estudos voltados à Linguagem, que acabou por difundir sua teoria e estudos também a outras universidade como São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. “O estudo dos autores sócio-históricos foi assim se sistematizando e as universidades de São Paulo (PUC, USP e Unicamp) foram, portanto, nesse momento, os centros irradiadores do pensamento de Vygotsky, Luria, Leontiev e Bakhtin)” ( FREITAS, 1994, p.45).

Do mesmo modo, ocorreu na PUC-RJ, através de Regina de Assis que realizou seu doutorado nos Estados unidos e trabalhou na UNICAMP como professora e orientadora e ainda um grupo formado por professoras para estudos e discussões teóricas desses autores coordenados pela professora Sônia Kramer.

É bom lembrar que, nessa época, alguns professores saíram do Brasil para o doutorado e conheceram tais autores fora do Brasil como nos Estados Unidos e Inglaterra e de lá trouxeram suas experiências e pesquisas.

É assim que Vygotsky e Bakhtin passaram a ser personagens em encontros e treinamentos com professores, e a serem assunto do momento, vindo ao encontro das indignações formuladas. Eles entraram na moda. Os modismos acabam refletindo uma necessidade, uma car6encia, um vazio, uma falta. Algo se torna moda ao representar possibilidade de esclarecer as questões que se colocam. Mas o grande problema é como todo esse conhecimento está sendo veiculado, de que forma ele se tornou popular, não no sentido popularesco, mas como uma apropriação mais ampla de todos e de que forma isso pode reverter numa mudança de atitudes das pessoas. (FREITAS, 1994, p. 68)

 

Uma terceira fase da presença de Bakhtin e Vygostky no meio educacional descrita por FREITAS (1994) é quando esses autores passam a fazer parte do cenário dos encontros e treinamentos de professores. “Eles entraram na moda. Os modismos acabam refletindo uma necessidade, uma carência, um vazio, uma falta. Algo se torna moda ao representar possibilidade de esclarecer as questões que se colocam” (FREITAS, 1994, p.68)

Lendo a pesquisa de FREITAS (1994) percebi que o mesmo receio e questionamentos presentes na minha prática, são os mesmos colocados pelos seus interlocutores: de que, muitas vezes, a apreensão da teoria está sendo artificial e deturpada. No entanto, concordo com a autora quando ela atenta para o fato de que a busca por esses autores é conseqüência do esgotamento e insatisfação com as concepções existentes que não conseguiram dar conta dos problemas já mencionados da prática escolar.

Através de Bakhtin e Vygostky foi possível uma maior clareza “que a questão da linguagem transcende o didático” (FREITAS, 1994, p.78) no ensino da língua materna.

Do mesmo modo, MARINHO (1998) ao analisar o curso da história das propostas curriculares de Língua Portuguesa constata a adoção de teorias discursivas nos últimos anos, definindo os condicionantes da atividade lingüística (quem escreve/lê, por quê e para quê, em dadas circunstâncias históricas e em dado contexto comunicativo), ou seja, o discurso pedagógico se apropriou de um instrumental, que é, ao mesmo tempo, conteúdo de ensino-aprendizagem e estratégia de leitura e de produção de textos, visando a produção de sentidos. Nesse viés, o texto não é mais visto como unidade autônoma, pois pressupõe um contexto discursivo que, por sua vez, leva a uma noção também discursiva de leitura. Além da gramática do texto, o sujeito-leitor/escritor precisa conhecer o funcionamento da escrita: papéis sociais, suportes de escrita, contexto histórico e conhecimentos (lingüísticos e de mundo) que envolvem o texto com que está lidando.

Assim, MARINHO (1998) chega a mesma conclusão de FREITAS (1994): tais mudanças aconteceram a partir do processo de redemocratização da sociedade brasileira e da retomada do papel da escola na construção da cidadania nas décadas de 80 e 90, contrapondo-se às orientações tecnicistas da década de 70.

Segundo CORACINI (1995) nessa época surgem teorias e concepções no ensino da língua materna sintetizados em três concepções.

Na primeira defendida por KATO (1985), o texto é fonte única de sentido e se objetifica, parece atemporal e definitivo, verdade a ser decifrada e assimilada pelo aluno; e nisto consiste a aprendizagem e a relação do leitor com o texto. A situação de enunciação acontece na relação leitor-receptor do saber e do sentido construído pelo autor - locutor. É bom lembrar que, ainda hoje, nas aulas de Língua Portuguesa, o texto é, na maioria das vezes, usado, ainda, como pretexto para o estudo da gramática, do vocabulário ou de outro aspecto da linguagem que o professor reputa como importante ensinar.

Uma outra concepção defendida por estudiosos da psicologia cognitivista(cf. Smith,1978: Godman,1970) , defende que o sujeito diante do texto deve ser capaz de acionar esquemas de conhecimentos estruturados acompanhados de instrução para seu uso, assim o texto passa a  depender do sujeito.

Na concepção “interacionista”, o texto é fundamental e a comunicação acontece na interação entre os componentes do ato comunicativo. O sujeito é portador de esquemas mentais socialmente adquiridos aciona seus conhecimentos prévios e confronta com os dados do texto, construindo, assim, o sentido.

E, a terceira concepção é a que me interessa por dialogar com a teoria de Bakhtin ao considerar o processo de leitura e escrita “como um processo discursivo no qual se inserem os sujeitos produtores de sentido-o autor e o leitor -ambos sócio-historicamente determinados e ideologicamente constituídos” (CORACINI, 1995, p. 15).

Foi possível constatar, então, que as atuais propostas curriculares e os Parâmetros (PCN) de Língua Portuguesa buscaram nos últimos anos um redimensionamento no trabalho com a linguagem, preconizando o ato da leitura e escrita como processo discursivo (enunciação) no qual estão inseridos os sujeitos concretos e, por isso, culturais e históricos, levando-se em conta, portanto, o momento histórico, os conhecimentos prévios do autor-leitor, as suas intenções e a gramática do texto.

Portanto, apesar de consensual, o trabalho centrado no texto. No entanto, nem todas as práticas desenvolvidas na escola reconhecem diferentes formas de textualização. Muitas posturas pedagógicas adotadas, ainda, privilegiam o texto como portador de sentido, revelando, ainda, uma visão estruturalista e mecanicista da linguagem, segundo a qual o sentido estaria arraigado às palavras e às frases. Nessa visão o texto tem existência própria, independe do sujeito e da enunciação, o leitor é, então, o receptor de um saber contido no texto.

Assim sendo, os parâmetros curriculares (PCNs) de Língua Portuguesa elaborados pelo MEC para o Ensino Fundamental, vieram ao encontro às questões que se apresentaram nas últimas décadas, encaminhando na direção de um trabalho com os gêneros do discurso - “a capacidade de produzir discursos e, portanto, textos, é um dos trabalhos específicos do ser humano. O desenvolvimento dessa capacidade é a finalidade principal da escola no trabalho com a linguagem verbal” (MEC, 1996, p.10). Os novos Parâmetros apontam, então, como eixos básicos para o ensino da Língua Portuguesa: “o uso da língua oral e a análise e reflexão sobre a língua como forma de dar qualidade ao uso” (Ibid: 19), assim como define a importância da atividade discursiva e textualidade:

O discurso, quando produzido, manifesta-se lingüisticamente por meio de textos.Nesse sentido, podemos afirmar que o discurso possui um significado mais amplo: refere-se à atividade comunicativa que é realizada numa determinada situação, abrangendo tanto o conjunto de enunciados que lhe deu origem, quanto às condições nas quais foi produzido.

O texto, por sua vez, é a manifestação verbal resultante de um discurso. É todo produto de práticas discursivas orais e/ ou escritas que forma um todo significativo, qualquer que seja sua extensão. É uma unidade de sentido constituída por um conjunto de relações que se estabelecem a partir da coesão e, sobretudo, da coerência. Esse conjunto de relações tem sido chamado de textualidade.

Dessa forma, um texto só é um texto quando possui textualidade, quer dizer, quando pode ser compreendido como unidade significativa global. Caso contrário, não passa de um amontoado aleatório de frases ou palavras. (MEC, 1996, p.10)

 

Os PCNs de Língua Portuguesa ao proporem uma metodologia de enfoque enunciativo-discursivo quebram a concepção de ensino tradicional (COSTA, 2001, p.67). Falta, no entanto, ainda nesse documento uma análise mais detalhada, consistente e coerente sobre os gêneros discursivos e este projeto de pesquisa visa contribuir com estes estudos e com as reflexões sobre as orientações curriculares propostas em tal documento.

Ao investigar a prática pedagógica nas produções de texto e discutir como as práticas sociais discursivas são transpostas na sala-de-aula, estarei discutindo alguns dos eixos articuladores dos Parâmetros (a linguagem escrita).

Segundo (COSTA, 2001),

Produzir textos- ser escritor – é agir simbolicamente sobre o mundo, produzindo sentidos para o outro: um sujeito que pensa, sente e tem algo a dizer de outros sujeitos. Escrever é se apropriar de um conjunto de capacidades lingüísticas e psicológicas com o objetivo de transmitir significados a um leitor, de forma adequada. Ou seja, é um processo de expressar e organizar o pensamento em língua escrita. (COSTA, 2001, p.68)

 

A produção de texto como atividade discursiva envolve a compreensão do ato de escrever como um processo que deve partir de uma situação real de escrita e pressupõe também a interlocução do professor com esta produção, revisando e dialogando com os autores-alunos e suas produções.

Mais uma vez os PCNs  salientam que,

Formar escritores competentes supõe, portanto, uma prática continuada de produção de textos na sala-de-aula, situações de produção de uma grande variedade de textos de fato e uma aproximação das condições de produção às circunstâncias nas quais se produz estes textos. Diferentes objetivos exigem diferentes gêneros e estes, por sua vez, têm suas formas características que precisam ser aprendidas. (SECRETARIA DO ENSINO FUNDAMENTAL, 1997, p. 47)

 

Considerações finais:

A questão que está posta: como os gêneros que estão associados aos contextos históricos e culturais e que acontecem a partir das interações e trocas cotidianas podem fazer parte do contexto escolar? Como os gêneros não-escolares (textos que circulam normalmente entre nós: jornais, revistas, espetáculos e ouros) entram na escola numa transposição didática?

Os primeiros achados da pesquisa, através da revisão de literatura, demonstram que a escola, tenta ensinar os gêneros não-escolares – presentes na cultura dos alunos - como exercícios de preparação parta a vida. No entanto, essas atividades são puros exercícios escolares de escrita. O gênero escolar só existe no espaço escolar, o que a escola pode fazer é uma transposição didática dos gêneros, quebrando a fronteira escola e sociedade, permitindo um diálogo entre o conhecimento espontâneo e o conhecimento formal.

Finalmente, esta pesquisa busca, então, contribuir para as atuais discussões que envolvem o ensino da língua materna e a prática pedagógica desenvolvida.

 
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* Mestranda em Educação da UFJF