Claudia Panizzolo - PUC-SP - UMESP
Recentes estudos a respeito da educação
brasileira do século XIX (cf. Faria Filho, 2000; Villela, 2000;
Souza, 2000, 1998) têm demonstrado que havia, desde a década
de 30, um intenso debate sobre a questão política da educação
popular e os meios para efetivá-la. Contudo, em se tratando de
uma sociedade escravagista, latifundiária, autoritária e
desigual, não foram poucos os empecilhos e obstáculos enfrentados
por aqueles que defendiam que a educação deveria ser estendida
às “camadas inferiores” da sociedade: livres, libertos,
escravos, índios e mulheres.
Para além desses limites, é preciso considerar, por um lado,
a baixa capacidade de investimento das províncias, que, por vezes
empregavam mais de ¼ de seus recursos na instrução
e obtinham resultados pouco significativos.
Por outro, é necessário relativizar a presença do
Estado no que se refere à instrução, que era considerada
ora pequena e pulverizada, ora perniciosa (cf. Faria Filho, 2000).
No decorrer do século XIX, lentamente foi construída a legitimidade
da presença do Estado no processo de escolarização,
bem como, paulatinamente, a instituição escolar, especificamente
a escola primária, foi inventada, criada como locus central para
a formação das novas gerações, ao mesmo tempo
em que foram se constituindo os espaços específicos e imprescindíveis
para o atendimento das especificidades da educação.
A necessidade da criação desses espaços escolares
se deu, muitas vezes, a partir da própria criação
dessa necessidade, articulada na confluência de diversos fatores
de ordem político-cultural, científica, administrativa e
pedagógica. No que se refere aos princípios de ordem político-cultural,
há que se considerar que a construção dos Estados-Nação
e a modernização tornaram-se os pilares sobre os quais se
alicerçam os ideais e as políticas de inovação
educacional na Europa e nos Estados Unidos, no final do século
XIX e no início do século XX. No Brasil não foi diferente:
a escolarização se constituiu a partir do fortalecimento
das estruturas de poder do Estado, assumindo progressivamente a luta do
governo do estado contra o governo da casa (cf. Mattos, 1991; Faria Filho,
2000).
Com relação ao desenvolvimento dos saberes científicos,
principalmente os voltados à medicina, representados na figura
dos higienistas, é possível afirmar que influíram
decisivamente quanto à construção da necessidade
de um espaço próprio, específico para a escola. E
o fizeram por duas vias: a primeira pela crítica às péssimas
condições das moradias que abrigavam as classes de aula;
a segunda pela defesa da necessidade de espaços e materiais higienicamente
concebidos como facilitadores da aprendizagem (cf. Gondra, 2000; Faria
Filho, 2000).
A falta de espaços próprios para as escolas era considerada
também um problema administrativo, à medida que as instituições
escolares isoladas e distantes consumiam parte significativa das verbas
para educação com o pagamento do aluguel da casa-escola,
além do que esta falta dificultava a fiscalização
e os espaços existentes sequer ofereciam indicadores confiáveis
dos resultados do ensino.
Finalmente, as discussões pedagógicas também contribuíram
para a solidificação da necessidade da construção
de espaços próprios para a escola. Assim, entre os anos
20 e 60 do século XIX, o debate sobre a educação
primária incidiu fundamentalmente sobre a forma mais apropriada
de organização da classe e, conseqüentemente, sobre
o método mais adequado para ensinar.
Os debates em torno de uma melhor organização pedagógica
para a escola primária se intensificam, resultando numa busca,
ainda que tateante, de estabelecimento de padrões mínimos
de organicidade da educação primária, que estivessem
de acordo com as formas mais avançadas e modernas de pensar o fenômeno,
bem como da necessidade de articulação entre a instrução
primária e a secundária.
Dentro dessa perspectiva de difusão da instrução,
as inovações pedagógicas, como o método intuitivo,
conhecido também como lições de coisas, começava
a ser adotado por colégios de reconhecidos educadores, como os
colégios de Salvador, de Barbacena e da Corte (de Abílio
Cezar Borges), o Colégio Pestana (de Rangel Pestana), a Escola
Primária Neutralidade (de João Köpke) e o Colégio
Menezes Vieira, dentre outros.
Por toda parte, difundiu-se a crença no poder da escola como fator
de progresso, modernização e mudança social. A escola
é vista como locus privilegiado para a formação técnica
necessária ao desenvolvimento tecnológico e econômico,
ao mesmo tempo em que formaria os valores morais necessários à
construção de um “homem novo”, moderno, urbano
e leitor, enfim um homem preparado para viver na sociedade republicana.
Nessa perspectiva de difusão da instrução, as inovações
pedagógicas são alimentadas pela circulação
de idéias que “não paravam de chegar, junto com a
febre de importações” (Villela, 2000, p.116) de modelos
gerados nos países ditos civilizados, agora não só
os da Europa, mas, principalmente, os dos Estados Unidos. Os mais variados
temas da organização escolar ganham centralidade: métodos
de ensino, mobiliário, materiais pedagógicos, ampliação
dos programas, livros didáticos, classificação dos
alunos, distribuição dos conteúdos e do emprego do
tempo, certificados de estudos, formação de professores
e disciplina escolar.
Segundo Villela (2000), esse “clima de euforia pedagógica”
teria ocasionado uma “revolução nas representações
da escola e do ato de ensinar” (p.117). Assim passam a circular
catálogos de artigos pedagógicos para consultas e encomendas
a casas importadoras, bem como os jornais e as revistas dedicam espaço
para assuntos educacionais, anunciam escolas, colégios e educandários,
além de uniformes, materiais escolares e listas de livros.
A circulação dessas idéias e modelos foi possibilitada
e facilitada não só pelos Congressos de Instrução,
pelos Relatórios Oficiais elaborados por ministros e inspetores
do ensino, publicações de livros, artigos, jornais e revistas
especializadas em educação, mas principalmente pelas Exposições
Pedagógicas Nacionais e Internacionais , cujo objetivo principal
era dar a ver “o que os países possuíam de mais adiantado
em tecnologia educacional” (Ibid, p.117).
No contexto da inovação educacional do século XIX,
a prescrição do que e como ensinar teve um caráter
instituinte do próprio ensino primário, implicando a adoção
de uma pedagogia moderna, a exigência de um novo modelo de professor,
o uso de materiais didáticos, fundamentalmente uma nova organização
da escola primária.
No entanto, apesar das disputas e debates que marcavam a constituição
e a configuração do ensino primário no decorrer de
todo o século XIX, é somente na última década,
nos anos 90, primeiro em São Paulo e depois em vários outros
estados, que passam a funcionar as primeiras construções
públicas destinadas à realização da instrução
primária, o que provavelmente permitiu e facilitou a produção
de uma literatura escolar sem precedente.
Sem dúvida, se examinarmos o conteúdo dos textos escolares
ao longo do século XIX, encontraremos diferentes orientações.
Inicialmente a leitura para as escolas de primeiras letras apresentava
nitidamente cunho religioso, decorrência da orientação
jurídico-institucional do sistema político do Império
brasileiro associado à doutrina religiosa católica, como,
por exemplo, a Lei promulgada em 1827:
Artigo 6º: Os professores ensinarão a ler, escrever, as quatro
operações de Aritmética, prática de quebrados,
decimais e proporções, as noções mais gerais
de geometria prática, a Gramática da Língua Nacional,
e os princípios da Moral Cristã, e da Doutrina da Religião
Católica e Apostólica Romana, proporcionados à compreensão
dos meninos, preferindo para as leituras a Constituição
do Império e a História do Brasil (Brasil, 1828, p.7).
O poder executivo procurava, em verdade, modelar, tanto nos regulamentos
do ensino primário quanto nos manuais escolares, mecanismos de
controle do processo de leitura nas escolas, submetendo-os a veementes
processos de censura doutrinária, propondo um sistema de leitura
que buscava unir o ato de ler e escrever à fé católica
e à obediência ao Estado (cf. Tambara, 2003).
A partir das três últimas décadas do século
XIX, um caldo de cultura rebelde ao Império (cf. Warde, 2003) se
intensifica a partir do pólo irradiador da Academia de Direito
de São Paulo, e a educação, antes território
ocupado pelo centralismo imperial e pelos poderes da Igreja Católica,
converte-se em campo de fortes disputas ideológicas e lutas pela
hegemonia entre os diversos grupos que almejavam a consolidação
de seu poder.
Assim, nas últimas décadas do século XIX, ocorreu
a intensificação e a consolidação do processo
de ensino da leitura, marcado pela dualidade de orientações
religiosas católica e seculares liberais nos textos escolares infantis,
bem como pelas discussões abalizadas por novos elementos estruturais
que procuravam afastar a leitura escolar de procedimentos rotineiros,
baseados no senso comum para aproximá-la de novas atitudes e comportamentos,
caracteristicamente baseados no método científico (cf. Faria
Filho 2000; Villela, 2000; Tambara, 2003).
Nesse momento são publicadas em São Paulo as séries
graduadas de leitura para atender o novo modelo de organização
didático-pedagógico da escola primária, que lentamente
se conformava, através do uso do método simultâneo,
pela organização dos conteúdos em diversos níveis
e principalmente pela formação de classes mais homogêneas
e seriadas (cf. Faria Filho 2000, Villela, 2000).
Tendo como público-alvo os alunos do ensino primário e secundário,
as séries graduadas de leitura vão pouco a pouco sendo disseminadas
e popularizadas. Cada livro corresponde a uma série, conservando,
contudo, a mesma autoria e adotando como critério a continuidade,
a coerência e o aprofundamento entre as lições, os
temas e os livros (cf. Oliveira & Souza, 2000). Entre as séries
graduadas de leitura mais conceituadas, adotadas e utilizadas nas escolas
primárias paulistas, destaca-se a obra de João Köpke.
No final do século XIX, no ano de 1884, João Köpke
publica, pela Livraria Francisco Alves & C., o Primeiro livro de leituras
morais e instrutivas, uma das seis partes do Curso sistemático
da língua materna, este uma publicação da Série
Rangel Pestana e um desdobramento do programa do Instituto Henrique Köpke.
Na seqüência, Köpke lança o Segundo livro de leituras
morais e instrutivas, o Terceiro livro de leituras morais e instrutivas,
o Quarto livro de leituras morais e instrutivas, o Florilégio Contemporâneo
e o livro Leituras práticas .
Um procedimento inicial a ser adotado pelo historiador que trabalha com
livros é o de reconstruir as características gerais de um
livro de leitura do ponto de vista da concepção física
e da materialidade dos suportes, posto que, tal como afirma Chartier (1990),
“não existe nenhum texto fora do suporte que o dá
a ler” (p.127).
Os livros de leitura de Köpke apresentam-se de uma forma atrativa,
em tamanho médio manuseável, mantendo ao longo da série
as mesmas dimensões – 19 cm de altura e 13,5 cm de largura,
com a paginação na parte superior da folha, estando os números
pares do lado esquerdo e os ímpares do lado direito.
A capa mantém-se inalterada nos cinco livros, sendo constituída
por papelão bastante resistente de cor bege. Metade da capa é
ocupada pelo nome da série, título do volume, destinação,
edição e nome da coleção, e a metade restante
com o endereço completo da Livraria Francisco Alves, além
do ano da publicação.
O índice, contendo o número da lição, o título
e o número da página onde pode ser encontrada, consta do
final de cada um dos livros. Em nenhum dos livros de leitura são
apresentados dados relativos à tiragem, contudo, na revisão
bibliográfica sobre livros de leitura, localizamos referências
que sugerem ampla utilização da obra de João Köpke:
“Entre as séries graduadas de leitura mais utilizadas nas
escolas primárias paulistas destacam-se as obras de João
Köpke” (Oliveira & Souza, 2000, p.26); ou: “As obras
didáticas de João Köpke formaram gerações.
Foram reeditadas sucessivamente, com dezenas de edições,
mais de setenta até 1927...” (Meneses, 1984, p.34).
Essa inferência quanto à tiragem nada informa quanto à
distribuição em âmbito nacional. No entanto, os resultados,
ainda que preliminares, do Projeto de Pesquisa Cartilhas Escolares –
ideários, práticas pedagógicas e editoriais, permitem
identificar a circulação das cartilhas e livros de leitura
em diferentes estados do país. Nesse sentido, Maciel (2003) informa
que, entre os livros mais utilizados nas escolas de primeiras letras na
província de Minas Gerais, ao longo do século XIX, encontram-se:
Os livros do Barão de Macaúbas, de Abílio César
Borges, O primeiro livro de leitura, de Felisberto de Carvalho, e O primeiro
livro de leituras, de Hilário Ribeiro.
Amâncio (2003), recorrendo à relação das cartilhas
enviadas às escolas públicas de Mato Grosso durante os anos
20 e 30 do século XX, apresenta entre os livros adotados a Cartilha
das Mães e vários estilos, de Arnaldo Barreto; Páginas
Infantis, de Mariano de Oliveira; A série graduada, de Puiggari-Barreto;
o Terceiro Livro de Leitura e Minha Pátria, de J. Pinto e Silva.
Esses dados nos autorizam a afirmar que os livros de leitura de João
Köpke não foram adotados em Minas Gerais e Mato Grosso? Ou,
então, que a circulação esteve restrita a São
Paulo e Rio de Janeiro? Ainda não. Por enquanto apenas é
possível afirmar que a Escola Americana de São Paulo, nos
anos de 1921, 1922, 1929 e 1930, adotou o Terceiro livro de leituras morais
e instrutivas e o Quarto livro de leituras morais e instrutivas e, no
ano de 1932, adotou os três primeiros livros de leituras morais
e instrutivas (cf. Laguna, 2003), e evidentemente os livros foram adotados
pelo Instituto Henrique Köpke, instituição de ensino
criada e dirigida pelo próprio João Köpke (cf. Köpke,
1950, p.4).
Nos três primeiros livros de leituras, João Köpke (1911)
apresenta ao leitor o papel ocupado pelo livro de leitura em sua proposta
educacional, nos alerta sobre a centralidade da leitura para o aprendizado
da língua materna e, ainda, afirma que a leitura é o caminho
precípuo para o desenvolvimento da memória, da expressão
e do pensamento. Em suas palavras:
... o livro de leitura que, no plano de ensino do autor, é a base
de ação, e o tronco, em que se enxertam todos os demais
exercícios, destinados ao manejo correto pronto e eficaz da língua
– centro, enfim, de integração, em torno do qual,
como dum núcleo, se vem dispor e relacionar todo o conjunto do
idioma, o livro de leitura, que servindo, por assim dizer, de cenário
aos elementos novos, que vão entrando em papel diante da inteligência
para eles voltada, facilita a sua impressão e retenção,
possibilitando, portanto, o seu uso, visto pôr em jogo a memória
sugestiva, que cria pensadores e sublima sábios, e proscrever a
memória arbitrária, dote de dicionário ou de catálogo,
que gera papagaios e, a força de tensão cerebral, multiplica
esta moderna forma de idiotismo, a que, o vezo eufêmico da nossa
sensibilidade latina, batizou de erudição ...(p.5-6).
Ainda no prefácio, o autor orienta o professor no sentido da organização
das atividades a serem propostas aos alunos. Assim, além da leitura
propriamente dita, cada lição propicia atividades de ortografia
e de variedade de expressão. As atividades de ortografia referem-se
a exercícios que envolvem um rol de palavras proposto no início
de cada lição, que deve ser fixado pelo aluno, para depois
ser empregado em ditado e na formação de sentenças.
No entanto, o autor, cônscio de que o sucesso ou fracasso das atividades
dependia, em muito da atuação do professor e da condução
das propostas em sala de aula, aconselha o mestre para que recomende “ao
aluno que leia com atenção a lista de palavras, que precede
cada uma das lições, notando bem as letras com que se escrevem”
(Ibid, p.7).
As atividades de variedade de expressão têm por objetivo
permitir, além da ampliação do vocabulário,
o aumento de repertório para a redação e, sobretudo,
o uso dos sinônimos. Para possibilitar estas atividades, o autor
sublinhou, em cada lição, determinadas palavras e expressões,
para que o aluno as procurasse ao término do livro, em um apêndice
denominado Vocabulário.
O Primeiro, o Segundo e o Terceiro livros de leituras morais e instrutivas
de João Köpke guardam muitas semelhanças com um tipo
de manual de leitura publicado na França, entre as duas últimas
décadas do século XIX e as duas primeiras décadas
do século XX, classificados por Chartier e Hébrard (1995)
como representativos do modelo educativo da narrativa moralizante. De
acordo com os autores, este tipo de livro de leitura tem, de modo geral,
a seguinte estrutura: “sugere na vida de uma criança um acontecimento
que traz um problema (bem ou mal resolvido) e provoca uma tomada de consciência,
mediante a qual a criança é transformada” (p.398).
Esse livro de leitura circulou tanto na França quanto no Brasil.
Na França podemos citar o livro A volta da França por duas
crianças, considerado um best-seller por sua vendagem, em torno
de três milhões de exemplares entre os anos de 1877 e 1887
e depois duzentos mil exemplares por ano, até 1900 (cf. Hébrard,
2000, p.62). No Brasil, embora não disponha de dados sobre a vendagem,
os três primeiros livros de leitura de João Köpke são
representantes legítimos deste modelo em circulação.
Por certo que, tanto na França quanto no Brasil, no alvorecer do
século XX, existiam outros tipos de livros de leitura, portadores
de projetos pedagógicos diversos, que coexistiam, refletindo, assim,
a evidência de que nenhum deles havia se tornado hegemônico.
Esses livros de leitura, constituídos por textos moralizantes,
relatos edificantes e também historietas sobre a vida cotidiana
das crianças, tanto em prosa quanto em versos, buscavam conciliar
dois propósitos: instruir e educar.
A instrução está sempre presente, mas impressa “em
letras miúdas” (Chartier, Hébrard, 1995, p.339), através
do vocabulário no final do volume ou das informações
sobre animais, plantas, climas e temperaturas. Ao lado da instrução,
está a educação contida nos livros, desta vez em
letras garrafais, procurando imprimir nas consciências e nos corações
sentimentos bons e generosos.
Os livros de leitura morais e instrutivas, além do estudo da língua
materna, oferecem a educação da consciência, daí
o motivo por que se tornaram fundamentais para a República.
Cabe destacar, ainda, que estes livros de leitura deveriam, através
de suas lições em prosa e verso, propiciar a aprendizagem
da leitura por meio do ler na escola, e isso envolvia, sobretudo, o respeito
e a paciência para a leitura de um texto em grupo, “com a
lentidão decorrente das trocas, com a meticulosidade das verificações,
com a paciência ditada pela necessidade do emprego do tempo”
(Ibid, p.402).
Para esse aprendizado, ou melhor dizendo, para esta leitura ainda tateante,
ser convertida em leitura corrente, João Köpke dedicou os
três primeiros livros de sua série graduada. A princípio,
através de narrações curtas que permitissem leituras
e releituras, que, ao longo da série, foram gradativamente ampliadas
em tamanho e complexidade.
O Quarto e o Quinto livros de leituras de João Köpke representam
uma outra modalidade de livro de leitura, equivalente ao Modelo cultural
das leituras literárias - proposto por Chartier e Hébrard
(1995). Esses livros de leitura tem por ambição ofertar
à escola primária a experiência já vivenciada
na escola secundária, que seja da leitura de autores consagrados
da literatura.
Essa modalidade de livro de leitura também circulou na França
e no Brasil, desde as últimas décadas do século XIX.
Na França podemos citar o livro Lectures courantes extraites dês
écrivains français, do inspetor-geral Guillaume Jost e de
Albert Cahen, professor de retórica do Liceu Louis-le-Grand, como
um dos primeiros compêndios desse tipo, que passou a circular em
1895 (cf. Chartier & Hébrard, 1995, p.403). No Brasil, o Quarto
livro de leitura e o Florilégio Contemporâneo, de João
Köpke são representantes legítimos desse modelo em
circulação no período.
Esse tipo de leitura remete a um segundo plano o caráter moralizante
dos livros de leitura, produzindo em suas páginas idéias
e sentimentos relacionados à Pátria, além do amor
à leitura e à língua nacional, conteúdos fundamentais
para a construção da República.
Para implementar esse projeto cultural João Köpke selecionou
cuidadosamente trechos de autores portugueses e brasileiros, que expressavam
idéias e sentimentos acerca da Nação, do Estado,
e do trabalho, assim, através da “boa literatura”,
ao mesmo tempo em que o autor enaltecia os valores contidos na República,
convencia seus leitores, de qual era o melhor caminho para a sociedade
brasileira.
Com relação à série graduada de João
Köpke é possível afirmar que através de conteúdos
ideológicos o autor implementou uma proposta de leitura pelo método
analítico. Ao longo de suas lições, o autor buscou
incessantemente inculcar a obediência aos pais, aos professores
e aos superiores, com sendo valores absolutos. A obediência aparece
claramente relacionada à hierarquia social, que vai do pobre (a
quem se deve caridade), ao indivíduo abastado (que deve comportar-se
bem e tratar com dignidade as pessoas menos privilegiadas), passando pelo
trabalhador (de quem se espera o cumprimento dos deveres, honradez, resignação
e parcimônia).
As páginas dos livros são repletas de um conjunto de valores
a que o autor recorre constantemente como: obediência, amor, ordem,
trabalho, honra, estudo, respeito aos animais, às plantas e bondade
para com os pobres, que reflete um modelo familiar e social a ser seguido.
Podemos afirmar que as histórias, as poesias e os trechos selecionados
espelham um pensamento republicano e positivista, imbuído de um
conjunto de princípios norteadores da ordem e do progresso, fundamentais
para a transformação do homem em cidadão republicano.
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