Diane Valdez - Doutoranda em História e
Filosofia da Educação pela FE/Unicamp - Bolsista do CNPq).
O presente texto faz parte da investigação
que estamos realizando no doutorado em História e Filosofia da
educação (FE/UNICAMP) que aborda a representação
da infância nos Livros de leitura do Dr. Abilio Cesar Borges, o
barão de Macahubas, médico baiano, diretor de colégios
particulares e autor de obras didáticas na segunda metade do século
XIX.
Abordamos nessa comunicação científica as gravuras
contidas no Primeiro e no Segundo livro de leitura para a infância
brasileira, obras que foram publicadas em Paris no ano de 1866 e ilustradas
com gravuras dos catálogos de Laurent et Deberny, uma tipografia
francesa do século XIX que comercializava gravuras para diversos
fins.
Esses catálogos serviram como referências para nossa investigação,
são fontes preciosas que nos apontaram dados importantes referentes
a essa temática. Nosso principal objetivo foi o de investigar como
essa iconografia era comercializada na França e qual foi o sentido
dado pelo autor a essas gravuras no interior de suas obras.
A tese de que através da imagem a criança é estimulada
a identificar a palavra e o texto não é recente, apesar
das ilustrações adentrarem de vez nas obras escolares francesas
a partir da segunda metade do século XIX, os estudos que abordam
sobre a ilustração nas obras didáticas nos reportaram
ao pioneirismo de Jean Amos Comenius. O autor da conhecida Didática
Magna (1678), publicou a enciclopédia ilustrada Orbis pictus (1657)
com a intenção de transmitir noções de ensino
associadas às imagens correspondentes. Uma tentativa de adequar
a leitura à estrutura mental da criança, um ensaio ou protótipo
dos livros didáticos ilustrados que apareceriam depois.
Essa defesa feita por Comenius, no século XVII, vai se tornar consenso
na França do século XIX, porém as gravuras tiveram
que percorrer um longo percurso até se instalarem definitivamente
nas obras escolares. O aperfeiçoamento da técnica da xilogravura,
a mesma usada por Comenius, contribuiu de forma definitiva para que isso
se efetivasse e permitisse que a gravura fosse utilizada em larga escala.
A técnica milenar da xilogravura remonta de época anterior
à invenção da imprensa. A técnica era simples:
após a imagem ser esculpida na madeira pelo artista, esta recebia
tinta e era gravada sobre o papel, funcionando como uma espécie
de carimbo. Na Idade Média a técnica da gravura sobre madeira
se popularizou e oferecia temas populares para um largo público
visando, sobretudo, funções religiosas, tanto que os primeiros
ateliês se instalaram próximos aos monastérios. Eram
representações que interessavam ao povo do campo, gravuras
de piedade, de amor e outras que tocavam o coração de gente
simples e desempenhavam um papel de proteção e consolação.
É a partir da segunda metade do século XVIII que a xilogravura
(gravura sobre a madeira), e a litogravura, (imagem esculpida sobre a
pedra) revolucionaram a imagem impressa para o século XIX. A gravura
sobre madeira se expandiu em uma técnica tipográfica que
permitiu integrar a ilustração no texto sobre a mesma prensa,
efetuando assim tiragens simultâneas e de melhor qualidade. Este
procedimento, moderno para a época, oferecia inúmeras vantagens,
como preços mais baixos, multiplicidade de provas, variedade de
detalhes e, sobretudo a liberdade de composição, que simplificou
a produção de gravuras destinadas a diferentes públicos
no decorrer do século XIX, aumentando consideravelmente o acesso,
não somente das crianças como das pessoas em geral, às
cenas simbólicas do cotidiano. Isso, sem dúvida contribuiu
efetivamente para o progresso da imprensa, fazendo com que os artistas
tivessem a chance de ver suas criações difundidas largamente
nos livros e revistas. Alguns ilustradores vão imprimir suas artes
diretamente na pedra, porém os artistas que criavam ilustrações
para livros utilizavam a madeira para este fim.
Em relação à efetivação de imagens
voltadas para o público infantil na França é importante
ressaltar que isso não surge ao acaso, assim como, não resulta
de uma só causa. Primeiramente para que se produza uma literatura
para a infância e conseqüentemente ilustrações
específicas para esse público, era preciso ter claro a noção
de infância.
De acordo com algumas teorias, a partir de meados do século XVIII
a criança não era mais considerada uma “carga”
e sim um investimento e uma esperança para o futuro. A visão
baseada na mão-de-obra, progresso e riqueza, desenvolve-se, sobretudo
envolvida pela expressão do capitalismo nascente. Em se tratando
de educação nota-se uma evolução, porém
uma evolução ainda restrita a burguesia.
De acordo com Parmegiani , um fator que não contribuiu com a instalação
das ilustrações para a criança está relacionado
ao nascimento de uma cultura infantil submetida aos valores estéticos
e pedagógicos da burguesia liberal francesa do século XIX,
classe que cultivavam e admiravam as manifestações acadêmicas,
sobretudo a pintura histórica e de gênero identificadas como
a peinture pompier. Até meados do século XIX a ilustração
é convenientemente reduzida a esses valores, não sofreu
modificação e não se adaptou aos moldes da natureza
do público infantil, pois a seriedade que regia a ordem social
vigente não encorajava a imagem a se infantilizar.
Um outro fator que contribuiu para que não existisse essa diferença
morfológica ou de estilo entre as imagens destinadas aos adultos
ou para crianças, foi pelo fato de que durante uma grande parte
do século XIX a ilustração infantil era feita por
artistas que não estabeleciam diferenças de idades entre
seus públicos.
Parmegianni exemplifica isso com a arte de Gustave Doré, que utilizou
uma técnica de desenho comum na obra O Inferno de Dante (1860)
e na obra infantil Pequeno Polegar (1862) de Charles Perrault. Para essa
mesma autora, Doré deveria conhecer mal a psicologia da infância
ou se recusava se dar conta disso. Lembra ainda que os ingleses eram mais
atentos aos detalhes das ilustrações direcionadas ao público
infantil, pois na mesma história do Pequeno Polegar estes contestaram
a falta de algumas ilustrações e questionaram a gravura
feita por Doré onde o Ogro se prepara para cortar a garganta de
suas próprias crianças. Essa exigência provinda do
povo inglês resulta de um país na qual o sentimento de infância
era mais desenvolvido do que na França, demonstrando uma exigência
em responder as necessidades da infância, garante a autora.
O abecedário ilustrado pode ser a forma mais antiga de livros ilustrados
para o público infantil, pois eles são um primeiro contato
da criança com a arte através de cada figura que acompanha
cada letra do alfabeto. Esse tipo de material foi amplamente divulgado
na sociedade francesa do século XIX, tempo em que a aprendizagem
da leitura se fazia não somente na escola como também no
interior da família. Para Le Men há uma cultura infantil
que se manifestava através dos abecedários, cultura essa
provinda de uma duplicidade, de um lado a própria infância
que se inventa, se transmite e se modifica, do outro lado, uma cultura
produzida pelo adulto que impõe a infância os objetivos da
educação e da integração social através
de seus pais e professores. Para essa autora, os abecedários ilustrados
revelam o nascimento de uma idéia de livros para a infância
e a juventude, na qual a transmissão dos valores da sociedade se
fez a partir de um repertório de textos da literatura adulta adaptadas
para a infância e ilustrada com gravuras do domínio da tradição
de imagens populares.
A partir da segunda metade do século XIX, o papel da imagem apresentada
como um suporte pedagógico nos manuais escolares, é reforçado
pelas preocupações da pedagogia francesa em manter a atenção
da criança, tornar a lição mais agradável
e mais fácil de compreender, ou seja, lições simples
com histórias atrativas e ilustradas. É dentro desse contexto
que as imagens adentram nos materiais pedagógicos provenientes
dos catecismos diocesanos. Trata-se de imagens de pequeno formato, como
eram as dos pequenos catecismos, mais tarde surgirão outras imagens
maiores que ocupavam maior espaço na página. Os temas perduraram
do século XVI ao século XX sem grandes alterações,
pois o papel da l’imagerie não era dar uma nova interpretação
para o grande público e sim de garantir o sucesso já efetivado.
Dessa forma, os Livros de leitura também são pioneiros em
implementar figuras que se aproximam do texto, lembrando que no Brasil
desse período, existiam poucas editoras e uma grande parte dos
autores recorriam a outros países, sobretudo à França
para comporem e ilustrarem suas obras. Sendo inovadora essa prática,
o número de figuras é limitado e, também não
são variadas, muitas delas se repetem nas duas obras: a primeira
edição do Primeiro livro tem 56 páginas, formato
de 20x14 e seis ilustrações, o Segundo livro, com o mesmo
formato, 116 páginas e oito ilustrações. A maior
parte dessas gravuras representa crianças em diferentes situações,
porém sempre em ‘boas atitudes’, uma idéia que
já vinha de encontro ao objetivo do autor: livros para a infância
com um modelo de infância ideal não só nos textos,
como também nas imagens.
1.0 – Uma fonte de imagens: a tipografia Laurent
et Deberny.
Para se ter noção de como se processava
as imagens no interior do comércio das tipografias, vamos discorrer
sobre as gravuras contidas nos Livros de leitura tendo como referência
a tipografia francesa Laurent et Deberny , pois é dessa tipografia
que foram extraídas as gravuras dos dois primeiros livros de Abilio.
Estes livros denominados typographique (tipográfico) contêm,
além de diferentes fontes para textos e cartazes, diversas espécies
de gravuras, feitas no estilo xilogravura, para serem apreciados e escolhidos
pelas editoras ou pelos autores. Uma boa parte delas estão identificadas
nas obras do Dr. Abilio e nos catálogos pela assinatura de Laurent
et Deberny, porém nas mesmas obras encontramos outras ilustrações,
do mesmo estilo, somente com a assinatura de Deberny e outras sem alguma
assinatura.
Le Men , ao analisar os alfabetos ilustrados constatou que a ausência
da noção da propriedade artística era uma prática
comum que se estendia também para outros tipos de imagens e para
os textos, isso pode ser explicado pela extrema raridade de figuras originais.
A mesma autora ressalta ainda que as assinaturas aparecem em gravuras
de madeira, mais muitas litogravuras não tem assinaturas, a prática
de assinar começa a se efetivar, sobretudo a partir dos anos quarenta
do século XIX.
Os temas nos catálogos se distribuem em Types divers, que inclui
diversos tipos de fontes, letras ornadas para anúncios, filetes,
molduras etc.; Attributs que são pequenas imagens dos signos do
zodíaco, dos meses, etc.; Melanges, que são figuras de diversos
tipos como famílias, crianças, paisagens, meios de transporte
etc.; Medaillles com diferentes tipos de medalhas; Piétés
com imagens religiosas como santos, anjos etc.; Emblemas politiques que
são armas, bandeiras, soldados e temas históricos da França;
Types pour affiches com letras para cartazes etc.
É interessante observar como os catálogos mantêm as
mesmas imagens durante quase um século, são mínimas
as alterações, os traços e os temas se mantêm,
o que modifica é a introdução de algumas cores e
algumas novidades de mais opções de imagens no interior
dos temas. Os catálogos de Laurent et Deberny não continham
imagens exclusivas para o uso escolar, as gravuras eram endereçadas
para um público diverso, pois a intenção era de abarcar
diferentes setores como o comércio, indústria, exposições
internacionais, materiais religiosos e cívicos e outros. Além
de incluir imagens para serem utilizadas na literatura geral.
2.0 - Temática religiosa: a infância idealizada
pela Igreja.
Na cessão intitulada Sujets de piété
(temas de piedade), encontrarmos mais de 400 opções de imagens
religiosas que incluem anjos, crucificação de Cristo, palmas,
santa ceia, medalhões com santos, virgem com menino Jesus, símbolos
do papa, raios de luz, céu etc. Isso não poderia ser diferente,
pois esse tipo de imagem sempre foi muito solicitado e utilizado para
diferentes fins, além de que a origem da imagem gravada é
essencialmente religiosa.
A imagem da criança inspirada nos motivos religiosos vai sendo
modificada para a imagem laica e burguesa de forma progressiva a partir
do século XV e XVI, porém ainda no século XIX encontramos
nos catálogos que pesquisamos permanentes traços religiosos
em várias imagens. A iconografia medieval representando a infância
é por certo uma fonte muito expressiva para as pesquisas sobre
o tema. A abundância desse tipo de imagem nesse período,
desempenhou um papel importante ao desvelar pistas para a pesquisa da
descoberta e o reconhecimento da infância do homem medieval . Na
França, sobretudo no decorrer das três últimas décadas,
ampliaram-se os debates sobre a infância provinda da iconografia
medieval, a obra pioneira de P. Ariès (1960), que fez da criança
um objeto da história, recorreu a essa fonte para ressaltar a ausência
de um sentimento de infância neste período.
Essa obra impulsionou o interesse de pesquisadores para o tema não
somente na França, como em outros países do ocidente, seja
para reforçar essa tese ou para contestar. É o caso dos
medievalistas Riché e Alexandre-Bidon que na ocasião da
exposição “L’enfance au Moyen Age” organizada
pela Biblioteca Nacional da França (1989) publicaram uma obra com
o mesmo título (1994). Nessa obra os autores demonstram através
da iconografia, as diversas faces do cotidiano da infância ocidental
medieval dos séculos VII até o fim do XV, incluindo o papel
da educação religiosa e a imagem da criança na liturgia
religiosa. A imagem laica retratando a infância também era
comum nesse período, porém imagens como a do Menino Jesus
(com a virgem) em diferentes episódios de sua vida eram as mais
divulgadas, juntamente com outras que relacionavam a infância à
pureza e aos princípios da religião.
Essas imagens não ficaram restritas ao domínio religioso,
elas foram divulgadas e ampliadas no campo da instrução.
No século XIX serviram para premiar (a título de recompensa)
as crianças que davam provas de docilidade no interior das escolas
francesas. Relatórios e decretos indicavam que tipos de imagens
deveriam servir como recompensa.
Em 1885, a idéia de utilizar as imagens religiosas nas escolas
públicas é substituída, o programa passa a indicar
que as imagens devem ser simples, de animais objetos pessoais, etc., sobretudo
utilizar a imagem para explicar a historia nacional. Em 1880, as leis
de J. Ferry colocaram fim na obrigação da instrução
religiosa nos programas escolares, porém é em 1905 que as
leis consagram a separação entre a Igreja e o Estado. Diante
disso, as cúrias organizam as lições de catecismo
nas quintas feiras, dias em que as crianças eram dispensadas da
escola primária , pois como não podiam mais contar com o
espaço das salas de aula, a Igreja cria estratégias para
atrair a atenção das crianças, combatendo a indisciplina,
recorrendo, sobretudo ao uso desse tipo de imagens .
3.0 – As gravuras escolhidas para os livros de leitura:
devoção e apelo.
Ao folhear as páginas do Primeiro e do Segundo
Livro de leitura que foram pensados para a criança que inicia sua
vida escolar, não podemos deixar de salientar o quanto as imagens
religiosas ocupam importantes lugares no interior das obras. Isso também
não nos surpreende, pois é coerente com a proposta pedagógica
(ou religiosa) que o autor pensava para a formação da criança.
Abilio era um cristão católico e de acordo com sua pedagogia,
a religião era um elemento essencial para a ‘boa formação’
infantil.
Um outro fator que contribuiu com a inserção desse tipo
de imagens nas obras didáticas é o de que a religião
católica desempenhava um papel importante na sociedade brasileira
do período. Era a religião oficial do Império e isso
favorecia para que os princípios católicos se fizessem presentes
em diferentes espaços. Inclusive na instrução.
Nesse contexto, a gravura do texto “Palavras más” do
Segundo livro de leitura nos apresenta uma ilustração bastante
conhecida: a imagem de Jesus com as crianças em sua volta, como
na parábola do “Deixai vir a mim as criancinhas”. As
crianças (quatro), que estão em torno de Jesus são:
um bebê no colo da mãe, uma outra criança sentada
do lado direito com um pano abaixo da cintura, uma criança nua
sentada no chão de frente para Jesus com a mãozinha estendida
(parece louvá-lo) e, uma quarta, em pé, vestida com uma
roupa até a altura dos joelhos.
Elas estão representadas com vestimentas simples, descalças
e em nenhuma dessas crianças é possível distinguir
o sexo, pois as aparências são as mesmas, ou seja, além
do tamanho que as diferem, não há outros elementos que poderia
dar alusão que existem diferentes faixas etárias na imagem.
Outro dado que poderia dar uma pista, porém não facilita
essa compreensão, se refere aos cabelos compridos da criança
que está do lado direito, para a época isso não é
critério para deduzir se era menino ou menina, pois era muito comum
retratar as crianças com os cabelos compridos independente do sexo,
a imagem da criança assexuada associada a um anjo reflete a idéia
do dito popular de que “Anjo não tem sexo”.
A imagem, romântica e idílica, tem como cenário plantas
e flores e, no fundo um aparente deserto montanhoso que contradiz a flora
da frente, a paisagem do fundo nos reporta a terra onde supostamente Cristo
viveu, deixando a interpretação mais próxima do que
se pretende divulgar. A imagem ressalta a personagem principal, ‘Jesus’,
colocando-o ao centro da imagem com as personagens coadjuvantes, ou seja,
as ‘crianças’, em sua volta.
O texto (que não ressalta a parábola já comentada),
narra a história do triste fim reservado aos meninos que “teem
sempre na bocca palavras feias e indignas”. A história discorre
sobre alguns (maus) meninos que disseram palavras grosseiras a um pobre
velhinho que sofria com ‘paciência e resignação’
as ofensas, destacando o castigo que Deus reservou a eles, porém
antes é ressaltado quem eram esses ofensores : “Estes meninos
eram uns preguiçosos e sem educação, que gastavam
seu tempo vadiando pelas ruas, onde aprendiam más palavras e maus
costumes. Deus ficou tão zangado com elles, que no dia seguinte
amanheceram todos mortos”.
O papel dessa imagem é de extrema relevância, é uma
imagem para a criança ver e não só reforça
o que o texto procura salientar, como objetiva garantir a eficácia
da moral do bom exemplo representada pelas ‘boas’ crianças
em volta de Deus, dando a entender que as crianças felizes que
estavam em volta do Nosso Senhor, não eram crianças que
ficavam ‘vadiando’ e que por certo mereciam estar próximas
a Deus. Elas não faziam parte do grupo que falavam palavrões,
pois de acordo com Abilio, para esses preguiçosos não era
justo Nosso Senhor Tomá-los em seus braços e abençoá-los.
Abilio sempre defendeu que lições desse tipo, acrescidas
de imagens que inspiram o amor fraternal, levariam as crianças
a serem boas e caridosas.
O temor da justiça divina é passada para os meninos não
pela imagem, pelo contrário, a imagem é o bom resultado
de quem obedece e não fala palavrões, enquanto que o texto
trata da conseqüência de quem age como os meninos da lição.
Isso nos reporta a um dado interessante, vale observar que Abilio não
se contradiz e continua fiel a sua proposta de que ninguém castigue
a infância, nos textos e imagens não há nada que indique
alguém cometendo castigo fisco, exceto o ‘autorizado’
para isso: Deus. O autor deixa claro quem é que possui autoridade
para castigar, pois Deus pode fazer isso até com a morte, porém
os seres mortais deveriam agir com cautela e prudência resolvendo
os pequenos vícios infantis com conversas e bons exemplos, como
aparece em outras lições.
Um outro dado se refere à separação da infância
que freqüentava a escola da outra infância que ficava ‘vadiando’
pelas ruas. Há uma nítida fronteira estabelecida pelo autor
para indicar qual era a infância almejada por ele, para os que estavam
fora da escola vadiando a conseqüência era o castigo, enquanto
que para os leitores dessa obra a polidez e o respeito se constituíam
como a única saída para evitar tal castigo. O comportamento
nobre e cortês é forte argumento usado por Abilio para se
contrapor aos modos rudes e não civilizados da grande massa que
não tinha acesso aos ‘bons costumes’.
A questão da vadiagem infanto-juvenil no século XIX foi
algo muito presente na literatura dos autores que escreveram sobre o cotidiano
da Bahia oitocentista. De acordo com Fraga Filho , ao longo desse período
as autoridades baianas se queixaram da grande quantidade de ‘peraltas’
e ‘moleques’ que permaneciam nas vias públicas com
atitudes irreverentes e irrequietas. Ao lado das prostitutas e dos mendigos,
os moleques vadios eram vistos com desprezo e hostilidade pelos bem nascidos,
a palavra moleque aponta que a maioria desses meninos eram da cor negra.
O termo vadio, para Fraga Filho, já comportava condenação
moral, pois advinha do fato de estarem fora do domínio familiar
e produtivo, o menino vadio atentava contra a ordem familiar e “era
inevitável que fossem vistos como ameaça à ordem
social, porque esta era vista em grande parte como decorrência da
ordem familiar”.
A representação que relaciona a infância ao estado
de graça extremo é posta no Segundo livro onde a primeira
ilustração que abre as lições é a de
uma criança de joelhos com as mãos juntadas na altura do
pescoço (como se estivesse rezando) em um ambiente que lembra o
céu, pois há nuvens em sua volta e raios iluminando sua
cabeça. O sexo da criança não é fácil
de definir, os cabelos, nem curtos e nem compridos e a camisola também
usada pelos dois sexos dificultam diferenciar o gênero, isso nos
reporta, mais uma vez, aos anjinhos sem sexo das gravuras antigas, com
a diferenciação da ausência de asas, como era comum
nessas imagens.
O tema da lição intitulado “O amor de Deus”
lembra que “Desde os primeiros annos de sua vida, os meninos devem
amar profundamente a Deus”, o responsável pelo fato da criança
ter ‘muita coisa boa em sua vida’. Abilio aproveita para reforçar
que, o menino que ama verdadeiramente a Deus não comete pecado:
“porque o Senhor aborrece com os peccados” e também
não mente: “porque a mentira pertence ao diabo, e a verdade
é Deus” igualmente é um menino dócil e obediente
para com seus pais e mestres. Associa novamente a imagem ao texto lembrando
que “Tambem o menino que ama a Deus, ao menos duas vezes por dia,
na hora em que se levanta, e na hora em que se deita, põe-se de
joelhos, benze-se, faz uma pequena oração, e pede sua benção”.
A reza é enfatizada como o alimento necessário à
salvação, tudo isso garante, segundo o texto, ganhar os
reinos dos céus.
Aqui Abilio explicita a abordagem de que põe no individuo as origens
do bem e do mal, ou seja, a criança é o reduto de toda a
pureza e esperança de um futuro mais humano. A individualização
do indivíduo é uma abordagem que não escapou dos
estudos da época, nos estudos de Froebel e Pestalozzi, isso é
algo que caracteriza de forma decisiva a imagem da infância .
Tanto a imagem como o texto, apresenta a criança idealizada ao
extremo de servir como modelo. Parece um anjo, mas é uma criança
na qual o aluno pode se identificar com mais precisão e suas atitudes
revelam de prontidão o que o texto tem por objetivo passar: que
a criança deve rezar. Trata-se de uma necessidade que os livros
da época tinham em transmitirem uma imagem da “criança
modelo” que deveria servir para passar noções da moral
e da religião através de um realismo que reflete sobre a
vida cotidiana da criança. Por essa razão a moral é
um princípio que rege toda a literatura voltada para o público
infantil da época.
Dando continuidade a essa idealização, a ilustração
da lição “Recordações” contida
na segunda edição do Segundo livro é acrescida a
representação majestosa da mãe como a primeira educadora,
cabendo a ela o papel de desenvolver os sentimentos morais e religiosos
fundamentais na criança pequena. é relacionada aos primeiros
ensinos maternos. A imagem é de uma criança com sua mãe
em um luxuoso quarto. A criança de joelhos em cima da cama é
arrumada pela mãe em um gesto de ternura e semelhante à
imagem da outra criança, ela tem as duas mãos unidas como
se estivesse se preparando para rezar, usa uma longa camisola que lhe
cobre os pés e também se assemelha a um anjo, possui cabelos
compridos e não se distingue se é menino ou menina.
Apesar do texto, que é em forma de um poema, se referir à
palavra pequenino para distinguir a criança não podemos
afirmar o sexo, pois Abilio constantemente usava a palavra ‘menino’
para representar a infância que ele protagoniza. A lição
se insere, ou complementa a imagem, pois fala de uma mãe que ensina
seu filho a rezar. Os versos, na primeira pessoa, lembram que apesar da
criança ainda nem saber falar, a mãe já “o
ensinava a Deus adorar”.
Também era uma prática comum da época adaptar os
textos em forma de poesias simples rimadas, extratos, anedotas e pequenas
historietas para repassar os conhecimentos com diferentes tipos de detalhes.
Ninguém contesta, nem nessa época, que a infância
adora historietas, por isso os textos são escritos e adaptados
para parecer com histórias mais próximas da realidade infantil,
a começar pela história onde uma criança, aparentemente
como outra qualquer, aparece como modelo a ser seguida, desde a mais tenra
idade. A associação da criança, sobretudo na primeira
infância até por volta dos sete anos, com a inocência
e pureza de um anjo foi reproduzida durante muito tempo na iconografia
e nos textos, graças à atribuição da inocência,
a criança pequena é representada em imagens celestiais.
Nessa categoria foram essas as imagens selecionadas por Abilio, ou pelo
editor para comporem as lições. Podemos perceber que não
há uma diversidade de imagens, apesar dos catálogos trazerem
inúmeras opções, as escolhidas foram imagens simples
que fizeram um papel não só de complementar as lições,
como também de corroborar os conselhos, os temores e os exemplos.
Não foram utilizadas imagens que associam a monarquia à
igreja, como havia em vários manuais franceses e muito menos imagens
de santas e outras. A seleção aqui seguiu a norma da simplicidade
e do cotidiano brasileiro em uma tentativa de convencimento para com o
que o autor considerava importante: convencer as crianças da importância
de servir a Deus e a Igreja e, para tanto não era necessário
sofisticar muito e nem recorrer a muitos recursos.
4.0 - Misturas: ambientes domésticos, escolares,
de paisagens etc.
Em Melanges (misturas) encontramos um grande número
de estampas como recreação, instrução, personagens
de teatro, dançarinas, instrumentos musicais, personagens alegóricos,
de sátiras, caricatura parisiense, animais que falam, e também
opções em forma de paisagens românticas, sobretudo
rurais e de praias, imagens de famílias, de escolas, de modelos
de casas, bebidas como vinho, utensílios domésticos como
copos, animais domésticos, cavaleiros, mulheres com guarda-sol,
meios de transportes como barcos, caravelas, navios e trens modernos,
construções como túneis e pontes modernas, estação,
caminho de ferro, casas, móveis, animais, jogos como xadrez e damas
etc.
Nessa categoria estão outras várias figuras do livro de
Abilio. De acordo com Chalmel , nenhuma produção artística
escapa por completo à tutela econômica de uma entidade governante,
dessa forma a arte também é governada e os objetos aqui
descritos representavam o progresso e os valores de uma sociedade em ingresso
na era industrial. A conotação de progresso é visível
nesses modelos do catálogo.
É no meio disso tudo que encontramos as imagens de crianças
que não são em grande número. Nos cenários
elas estão sempre acompanhadas, ora aparecem com outras crianças,
geralmente separadas por sexo, ou acompanhadas de adultos como pais ou
professor (a). Para Ariès , a iconografia leiga que representa
somente crianças remonta do século XVII, pois até
esse período não havia esse tipo de representação,
a cena de gênero se desenvolve através da transformação
de uma iconografia alegórica convencional, inspirada na concepção
antigo-medieval da natureza: “idade da vida, estações,
sentidos, elementos”.
Porém, o mesmo autor alerta, ainda não se tratava de descrição
exclusiva da infância, muitas vezes elas não eram protagonistas
principais e sim secundárias. É a partir do século
XIX que surge na iconografia a tendência de separar o mundo das
crianças e dos adultos, anunciando o sentimento moderno da infância.
Essa divisão concreta do mundo infantil do mundo do adulto apresentada
na iconografia que investigamos, muitas vezes nos dá a impressão
de uma representação real e descritiva da época,
porém não podemos explorá-las separadamente do contexto
social de sua época, as imagens eram (e são ainda) instrumentos
poderosos para se comunicar mensagens, portanto é preciso um olhar
atento e cuidadoso para perceber os múltiplos papéis invocados
pela iconografia.
As imagens de crianças que ilustram os Livros de leitura, assim
como uma boa parte dos manuais escolares franceses, freqüentemente
apresentam uma infância com a expressão de adulto, pois durante
muito tempo a infância foi representada dessa forma na iconografia.
A idéia da infância vista como adulto em miniatura é
apontada pelo estudo de Ariès (1978), que recorre a iconografia,
sobretudo a medieval, para apontar o pouco valor dado a infância
até o meados do século XVII, onde a representação
da infância, sobretudo a do Menino Jesus era feita com traços
de homens, já para Riché e Alexandre-Bidon , a sociedade
medieval não ignorava a infância e a representação
do Menino Jesus como adulto se dava pelo fato dele não ser considerado
uma criança comum, pois a sociedade não o admitia como criança,
suas imagens representadas como pequenos adultos indicava a mesma mensagem:
“Le Christ est homme et no enfant.” Por outro lado Gélis
afirma que o interesse ou indiferença com relação
a infância, não são características desse ou
daquele período da história, as duas atitudes coexistem
em uma mesma sociedade, uma prevalecendo sobre a outra por motivos culturais
e sociais que nem sempre são fáceis de se distinguir.
Ao meio da discussão teórica sobre a importância ou
não da criança na sociedade medieval e moderna, uma boa
parte da infância retratada, ainda no século XIX, não
aparenta fisionomia própria e apresenta freqüentemente aspecto
de velhinho. É o caso de algumas imagens que encontramos nos livros
de leitura, porém em outras gravuras o aspecto das crianças
ganham traços mais próximos aos da infância, seja
pela vestimenta ou pela atitude, são crianças, porém
obviamente representadas diferentes do que estamos familiarizados hoje.
Se a ambigüidade do sentimento de infância não é
algo resolvido nas gravuras, o mesmo não acontece com a característica
social das crianças nas gravuras dos livros de leitura. Pelas vestimentas
notamos que são crianças que muito se aproxima da burguesia
urbana francesa. As meninas portam roupas finas e delicadas, com laços,
chapéus e botas e os meninos usam vestimentas largas e de bom corte,
próximas aos modelos de adultos, trata-se de longos casacos todos
semelhantes, no estilo de fraque e as vestimentas do mestre se difere
pelo tamanho, não pelo modelo, dando alusão que em determinadas
situações a moda para a infância não se distinguiam
da moda para os adultos.
Os ambientes são os mais próximos do cotidiano mais conhecidos
no período, como ambientes domésticos, ao ar livre em contato
com a natureza, ou dos ambientes que se desejava divulgar, como a escola
e a igreja. Porém ao dirigirmos um olhar mais atento percebe-se
que não se trata de qualquer casa, nem de qualquer escola e muito
menos de qualquer igreja e, isso nos fornece dados para refletirmos sobre
sua inserção nos livros de leitura.
A ilustração que decora a capa do Primeiro livro nos apresenta
um quadro que é uma mistura de ambiente escolar e ambiente doméstico.
O tamanho reduzido da sala pouco lembra um ambiente escolar, aproximando-se
muito mais de uma sala doméstica na qual elementos como cortinas
e quadros contribuem para essa proximidade, porém o banco na qual
estão sentados três meninos é tipicamente escolar,
ou de uma igreja, logo atrás estão quatro alunos em pé,
a mesa do professor se localiza à frente deste banco e ao lado
de um outro banco onde estão sentados dois alunos, nesse local
apresenta um tinteiro com a caneta.
O tema do interior desse cenário é de ensino e de aprendizagem.
O mestre se dispõe magistralmente sentado e aguarda um aluno, que
está a sua frente, recitar sua lição com uma varinha
na mão, enquanto que os outros o observam atentamente. O reduzido
número de alunos, dez ao todo, é também é
um indicativo que poderia ser uma sala de um curso privado, pois eles
estão próximos uns dos outros e em nada se assemelha ao
ambiente de uma sala grande com um número maior de discípulos.
Na gravura do Livro de leitura, como já salientamos, os meninos
não portam uniformes. Essa gravura não ilustra nenhuma lição,
porém está inserida na capa da obra, o que nos leva a crer
que ela tinha o papel de atrair a atenção da criança
para algo que Abilio considerava essencial: a escola primária.
Os meninos, de acordo com o tamanho, são representados por crianças
que mais se aproximam de uma infância que freqüenta o ensino
primário, talvez por este fator esta imagem inaugura sua primeira
obra destinada a esse público. Meninos sentados, atentos, comportados
e um mestre com autoridade, são representações do
ideal pensado e defendido por ele para a instrução da infância
brasileira.
Apesar de (aparentemente) o nosso autor não direcionar seu ensino
para meninas, elas aparecem em seus livros em forma de ilustração
e também no interior dos textos. A imagem que está na contra
capa do Segundo livro e que também ilustra o Primeiro livro é
a de uma menina folheando um grande livro tendo ao seu lado dois meninos
que observam, compenetrados e bem comportados, uma obra grande que nada
mais é que um álbum de imagens aberto no qual aparece um
pedaço de uma imagem. A obra pousa em cima de uma mesa talhada
finamente, lembrando que a cena acontece no interior da casa das crianças.
O grande livro folheado e observado é um álbum de imagens,
a produção desse tipo de material na França do século
XIX tinha por finalidade despertar o interesse das crianças que
ainda não dominavam a leitura, eram obras caras e reservadas a
uma parte da população que pertenciam a uma classe social
abastada. Trata-se de obras que apresentavam grandes pranchas sem texto
e que foram difundidas, sobretudo no período do romantismo. A técnica
das gravuras dos álbuns é a litogravura que segundo Le Men
revelavam muito mais uma criação artística que de
ilustração propriamente dita e por esta razão preferiam
os grandes formatos.
Esse material, caro como já ressaltamos, além de auxiliar
as crianças que ainda não freqüentavam as escolas (em
função da idade) a se familiarizarem com as palavras através
das ricas gravuras, também tinha a função de repassar
lições de moralidade e ensinar as crianças a adquirirem
conceitos de ‘viver bem’. Nesse sentido, Monnerat, Lefranc
et Perriault ao discorrerem sobre Les albuns chromolithographies, lembram
que para apreciar o justo valor desses álbuns é necessário
antes compreender o que era o ambiente da criança francesa no século
XIX. As crianças normalmente ficavam em suas casas nas quintas-feiras
no Jour de congé (dia de folga) e se distraíam em seus domicílios
com jogos e folheavam esses álbuns.
As gravuras tratavam de contar, comentar e permitir que a criança
inventasse sua própria história com cenas que elas conheciam
bem : «Voici une petite fille qui pleure parce que maman veut lui
laver la figure, ce n’est pas bein, personne ne voudra plus l’embrasser
». A criança conhecia todas as imagens, porém a cada
dia que ela re-folheava o álbum ela encontrava um outro detalhe
interessante, lia as imagens antes de saber ler as letras.
Essa é uma gravura que apesar de não ilustrar nenhuma lição,
é utilizada em várias edições dos Livros de
leitura, uma imagem inteiramente romantizada que representa uma realidade
de poucos franceses do período, pois era uma imagem para vender
os próprios álbuns. Nas obras de Abilio ela é inserida
como um anúncio que ressalta o quanto é belo uma criança
comportada folhear um livro, mesmo que o livro não represente bem
a idéia do que ele defendia para os meninos lerem. Abilio era favorável
aos clássicos da literatura e aos livros religiosos, nada que se
assemelha a livros para incentivar a criança com menos de seis
anos a ler, pois para ele, isso era muito penoso, inclusive ele era contra
os Jardins de infância, tão divulgados e recomendados no
período.
A gravura, que ilustra a outra lição do Primeiro livro ,
retrata um ambiente externo e, de forma ambígua se insere no texto,
a ambigüidade é em função de que o texto fala
de um momento de recreio escolar e no entanto muito se aproxima de um
cenário bucólico rural. A cena é composta por um
público feminino, três meninas em um momento de lazer, elas
são belas, alegres e brincam de pular corda tendo ao fundo uma
casa semelhante a uma casa de campo com uma árvore com galhas que
demarca o cenário formando quase um quadrado, sem, no entanto ser
algo fechado ou delimitado.
Para vários ilustradores da época, a infância era
um espaço privilegiado no qual os limites são marcados por
barreiras enfeitadas por motivos florais, ornadas por guirlandas, frisos,
de tecidos ornamentais, entrelaces de caligrafias indicando as fronteiras
de um domínio proibido.
A lição lembra que as meninas brincam como forma de recompensa
porque fizeram suas lições e, a mestra permitiu isso enquanto
que as outras duas ficaram “presas”: Joanna porque não
estudou as lições e, Isabel porque meteu o dedo no tinteiro
e passou no nariz de Justina. Uma das meninas que brincam ‘com doçura’
é nomeada como Carolina, é a bem amada porque cumpre com
seus deveres e é uma ‘boa menina’, todos, inclusive
a mestra, gostam muito dela. Não se sabe quem das três crianças
é a boa menina, pois as outras duas não são nomeadas.
O final da lição lembra que “Deus não ama as
meninas que teem mau coração”, em uma clara demonstração
da fraqueza infantil e do sentimento da responsabilidade moral da mestra
que não excita em corrigir e punir as duas que infringiram as normas.
As expressões das meninas brincando em um ambiente natural são
de total tranqüilidade e completam o cenário de paz do ambiente
que as inserem. Tudo calmo como ‘deveria ser’ a vida de uma
criança. As vestimentas mais uma vez denunciam a que classe as
‘boas meninas’ pertencem, os vestidos compridos ornados com
ricos detalhes indicam que elas dificilmente pertenceriam à classe
popular.
Braun reforça que esse tipo de imagem não se constituía
como uma representação da realidade e sim um sistema simbólico,
autônomo, onde cada imagem nos reporta a todas as outras e nos fala
do sentido de certa totalidade aberta, de outra coisa do mundo que nos
cerca.
A representação desse tipo de vestimenta iam de encontro
ao tom europeu adotado pela elite brasileira do século XIX, pois
no Brasil a moda européia não destinada especificamente
à infância, também foi copiada pelos pais de classes
abastadas ao vestirem seus filhos. Os vestidos compridos cobriam os corpinhos
das meninas e para os meninos, vestidos de terninhos, era cobrado um comportamento
de adulto, semelhante ao traje. Freyre , descreve a “reeuropeização”
que assolou o país no século XIX, tornando as crianças
verdadeiras “martirezinhos” da moda européia, principalmente
as meninas. De nada adiantavam os conselhos de médicos de que as
crianças de um país tropical não podiam ser criadas
como as européias. Os pais não seguiam os conselhos de “médicos
esquisitos” e continuavam vestindo seus filhos como “inglesinhos”
ou “francesinhos”, não se importando se os pobres sofressem
de brotoejas ou assaduras.
As cenas dessas ilustrações acontecem ao meio de uma mesma
atmosfera idílica, inserindo a infância no meio de bonitas
flores e paisagens que refletiam a visão conformista das classes
que possuíam bens. Importante registrar que esse tipo de imagem
foi transferido para os livros didáticos do Brasil enfeitando as
lições durante muito tempo. As gravuras importadas também
serviram para ilustrar os calendários que figuravam nas paredes
das casas brasileiras até meados do século XX.
Na 24a lição do Segundo livro , a gravura é a de
um outro padre tendo dois meninos em sua volta. O padre, sentado com uma
batina majestosa, porta um livro aberto nas mãos e parece interrogar
o menino que está à sua frente enquanto que o outro menino,
colocado na lateral, observa a cena. Essa imagem, apesar de retratar um
padre, está na categoria de mélanges provavelmente pela
sua função de mestre e por não estar rezando nenhuma
missa. Fica evidente a diferença de idade dos dois meninos, o do
lado direito apresenta características de um adolescente enquanto
que o do lado direito é menor e se aproxima mais de um garoto.
A figura do adulto é imponente e ocupa maior espaço no centro
da ilustração, o texto lembra que Gustavo, o menino menor
provavelmente, é peralta, “não sabe a lecção”
e o padre mestre está zangado com isso. O ambiente não apresenta
muitos dados para podermos discorrer sobre o contexto, porém a
cena se aproxima de um ambiente religioso e tanto poderia ser uma escola
como uma igreja. O padre mestre tem uma expressão zangada, fato
que soma com o texto ao se referir à personagem, pois o autor descreve
a situação de um menino (Gustavo) que não sabe a
lição.
Nesse episódio Abilio aproveita da ilustração para
verbalizar mais uma lição de moral, ele se refere às
vestimentas do menino como “Gustavo so quer andar bem vestido, bem
penteado e nada de estudar”. De fato, a vestimenta do Gustavo lembra
a de um delfim, porém de acordo com o texto de nada adiantava tudo
isso se ele não tinha “brio” e “Antes ser pobre,
do que rico sem vergonha”. Dr. Abilio finaliza a lição
registrando que, diante disso, Gustavo é ‘digno de pena’,
a expressão do menino não aparenta muita preocupação,
porém o que permanece nessa cena é o papel ocupado pelo
adulto. O padre mestre é representado como a imagem de Cristo tendo
em volta os pequeninos ensinando-os as verdades incontestáveis.
Desenvolve aqui o tema do papel social do adulto na sua função
de repassar os ensinamentos. Na pedagogia cristã essas representações
necessitam desses espaços para mediatizar a construção
do saber.
Uma outra ilustração que também nos transporta a
atitudes protetoras inspiradas nas figuras tutelares da iconografia religiosa,
é a que aparece na 26ª do Primeiro livro . A gravura inclui
uma mulher, com ar maternal, que ensina a lição para uma
menina pequena tendo ao seu lado um menino sentado com um livro aberto
entre as pernas. O texto procura relacionar essa cena a um ambiente de
estudo, porém o ambiente da cena é externo, as personagens
se encontram embaixo de uma árvore que fecha o cenário com
sua copa, formando uma moldura que parece proteger a família. Um
ambiente romantizado com duas crianças pequenas que de acordo com
o texto, não estavam brincando nesse ambiente idílico porque
não souberam suas lições.
A fisionomia de uma certa ingenuidade das crianças é um
sinal particular, pois uma bela visagem certificava uma bela alma, esta
idealização conduz a um ar angelical que se materializa
e reforça com a presença de figuras tutelares, na qual a
atitude protetora reforça a reserva do qual a criança tinha.
A figura da mulher é relacionada à mestra que, “não
pode querer bem aos discipulos que não sabem suas lecções”,
porém nos parece muito mais próxima à idéia
dos primeiros ensinamentos dado pela mãe em um ambiente doméstico.
As crianças pequenas não aparentam idade para freqüentarem
a escola, a imagem também pode estar relacionada à idéia
da preceptora, professora particular de crianças de famílias
abastadas, algo familiar na França do século XIX.
As mães nessas imagens são sempre representadas com poses
majestosas, porém com a graciosidade e a serenidade remetida a
temas de pureza e piedade, características que ‘naturalmente’
deveriam compor seu papel. Perrout lembra que são imagens que desenvolvem
a representação da mulher, mãe de família,
consoladora que se remete a Deus diante dos ‘maus da terra’.
Roy discorre sobre essa imagem de pureza da qual se apóia o papel
da mulher na família, citando um exemplo de imagem bastante utilizadas
no período: a da mãe juntamente com suas jovens filhas se
ocupando em fazer bordados ou tricôs, provavelmente preparando seus
enxovais de casamento, no interior de suas casas. Para ele, essa pureza
retrata o tema das jovens meninas que deveriam ficar no interior de suas
casas longe das tentações do mundo mundano, principalmente
longe de flertes e outras tentações sexuais. A escolha das
gravuras que retratam um ambiente interno por Abilio, evidencia o mundo
interno apresentado como um ambiente de segurança, a oposição
entre rua e casa é básica.
Nesse sentido a ilustração da lição “Virginia
ou o prato de uvas pretas ”, apresenta duas mulheres ricamente vestidas
no interior de uma sala luxuosa. As duas têm a mesma aparência,
porém de acordo com o texto uma deveria responder ao papel da mãe
e a outra a da filha,que tinha o grande defeito de ser “muito desmazelada”.
O texto conta sobre uma menina que quando criança só se
preocupava com a vaidade e em brincar depois quando ficou mocinha, deixa
então claro que na imagem ela já era uma adolescente e continuava
cometendo falhas da infância, sobretudo no que se refere ao descuido
com suas luxuosas coisas, como pentes, chapéus, perfumes etc.
A ilustração é bem adaptada ao texto, a menina ‘desmazelada’
está aos pés de sua mãe com as mãos juntas
com jeito de desespero como se tivesse pedindo perdão pelo seu
defeito. A mãe, com pose majestosa, porém com expressão
de doçura, está olhando para a menina com um braço
estendido dando alusão de um gesto de perdão, argumento
inteiramente cristão que também ocupava um bom espaço
nesse tipo de imagens.
Perrout remarca que as ilustrações têm o poder de
ensinar a moral pela imagem através de símbolos simples
e claros. O ensino pelos olhos não precisa de muita explicação,
nesse sentido, muitas vezes, o texto passa, muitas vezes, a ser um acessório
que finaliza e reforça as necessidades da obra e do desenho. A
presença de homens e mulheres desempenhando papéis protetores
são universais e forjam a mentalidade dos cristãos servindo
como pólo de identificação que justificam as atitudes
e condutas sociais.
Novamente a repetição do tema de imagem moral que raramente
são originais, assim como o final onde a ‘desmazelada’
(titulo exclusivo de meninas) ou o ‘desobediente’, ‘gazeteiro’,
‘mentiroso’, ‘orgulhoso’ etc. se redime a custa
de duras lições prometendo mudar seus defeitos para boas
virtudes. São imagens integradas a um conformismo moralizador que,
é bem mais característico das crianças do sexo feminino,
são as meninas que sempre demonstram maior resignação
que os meninos.
Vale mais uma vez ressaltar que, apesar de Virginia ter cometido atos
de ‘desmazelo’, ela não é castigada fisicamente
e sim, punida pelo seu próprio ato: ao sentar no prato de uvas
pretas que deixou, de forma irresponsável, no quarto sentou em
cima do prato estragando sua bela vestimenta.
5.0 – Breves conclusões.
Uma das particularidades que nos chamou a atenção
nessa parte da pesquisa se refere à seleção das gravuras
contidas nos livros de leitura. Em geral a editora era a responsável
pela escolha das imagens, porém ao observarmos de forma mais atenta
a relação entre a gravura e o texto nessas obras, notamos
que em muitas lições as gravuras estão muito sintonizadas
com o texto, o que nos levou a questionar se não foi Abilio quem
escolheu as imagens e depois a partir delas elaborou os textos, pois muitas
delas se adequam de forma perfeita ao que ele já defendia para
a instrução dos meninos.
As imagens mais simples e talvez mais universais foram escolhidas, como
as gravuras que invocavam os sentimentos cristãos, por exemplo,
o Império era católico, o autor era cristão e a idéia
de incitar esse sentimento na criança não era estranho e
nem longe da realidade. Não estamos afirmando que as gravuras não
eram importadas junto com as idéias, já discorremos sobre
os significados delas na sociedade francesa, porém para nós
essa não escolha de gravuras mais distantes do Brasil e mais específicas
da sociedade francesa podem ser indícios de uma tentativa real
na produção de livros para a infância brasileira.
Apesar do Império se espelhar nas luzes francesas e de Abilio ser
um seguidor trazer o modelo de criança burguesa urbana, a opção
por imagens mais simples que poderiam relacionar mais o cotidiano da criança,
é uma pista para pensarmos essa questão.
As imagens das quais nos propomos analisar refletem inteiramente a época
da qual elas foram produzidas e os motivos e argumentos dos quais discorremos
também nos indica o porquê do sucesso e da permanência
delas nos livros escolares durante tanto tempo. Podemos considerar que,
a principio elas eram inovadoras por serem transportadas aos livros escolares,
porém não eram originais por fazerem parte de um mundo de
imagens que já eram conhecidas e aceitas em outros materiais, como
nos catecismos, como já salientamos.
Não tivemos a intenção de analisar suas proposições
ideológicas com profundidade, mas sim trazer alguns significados
que as mesmas tinham para a sociedade francesa da época e como
o barão transportou-as e adaptou-as nos seus Livros de leitura
para as crianças brasileiras. Pensar em originalidade brasileira
nesse período nos parece algo destoante para a época, assim
como falar em não refletir a realidade local, pois mesmo na França
onde elas foram produzidas isso também não aconteceu, é
só observar o nível social das crianças retratadas.
Apesar da dificuldade que temos em analisar ilustrações
nas pesquisas em história da educação, sem cometer
anacronismo, algo bastante comum na análise dessa fonte, pudemos
constatar pelas ilustrações (isso também se estende
para os textos) uma idéia de sociedade que o autor divulgava, levando
em consideração que naquele tempo – podemos estender
isso para muitas obras didáticas ainda – os autores não
tinham a intenção de descrever a sociedade tal como ela
era, pelo contrário, o que podemos encontrar é uma imagem
idílica, sem conflitos, romantizada, pura, revelando muito mais
a sociedade imaginada e desejada do que a real. Uma imagem de uma sociedade
deformada que não existia nem na época e nem atualmente.
Não é nossa intenção fazer uma análise
puramente ideológica das imagens, como é freqüente
na maioria das pesquisas sobre livros didáticos. É importante
esse tipo de investigação, porém cremos que ela deve
ser criteriosa, pois é comum encontramos análises anacrônicas,
ou seja, conclusões destoantes que não são válidas
para outras épocas, o que costumamos chamar de olhar para o passado
com o olhar do presente. Sobre isso Chopin ressalta:
A mais freqüente diz respeito às mentalidades e não
é raro que pesquisadores emitam, sem o saberem, um julgamento retrospectivos
sobre os manuais que veiculam mensagens racistas, antifeministas, ou,
de uma maneira mais geral, opiniões pouco compatíveis com
os valores pregados em sua sociedade. Mas há outras manifestações,
não menos perversas, deste anacronismo: assim, a análise
ou a crítica de uma teoria cientifica, exposta em um manual, deve
fazer referencia unicamente a elementos cujos autores podiam ter conhecimento
no momento da redação da obra, não aquele que dispomos
hoje.
As ilustrações que abordamos, por exemplo, possuem os limites
do seu tempo, são produtos de uma época e isso deve ser
observado atentamente, isso não significa que essa fonte não
seja portadora de ideologias e que seus autores estavam livres de veicularem
valores políticos, sociais, religiosos etc. Não podemos
perder de vista que naquele tempo – podemos estender isso para muitas
obras didáticas ainda –os autores não tinham a intenção
de descrever a sociedade tal como ela era, pelo contrário, o que
podemos encontrar é uma imagem idílica, sem conflitos, romantizada,
pura, revelando muito mais a sociedade imaginada e desejada do que a real.
o que estamos querendo chamar atenção é sobre o contexto
de produção dessas ilustrações (que é
complexa) e como elas serviram para divulgar sobretudo, a imagem da criança
idealizada em um tempo que era raro para esse público o acesso
a ilustrações em livros escolares.
De acordo com Le Men , do ponto de vista da história cultural,
nos textos, desde o simples vocabulário das primeiras lições
até nos textos mais elaborados de leitura corrente : “Les
illustrations fourmillent d’indications précieuses sur l’image
que la société veut donner d’elle-même, sur
les valeurs et les modèles qu’elle inculque de manière
plus ou moins explicite et consciente à la génération
suivante.”
Perrout , ao lembrar que apesar de algumas ilustrações retratarem
as crianças de forma mais espontânea, em atitudes menos convencionais,
conservando certos atributos como alguns objetos que indicam algo mais
próximo de um mundo infantil, como as brincadeiras, os jogos culturais
improvisados e outros, certamente que os raros objetos específicos
estão presentes para lembrar a felicidade, o prazer, porém
isso não nos coloca diante de uma representação de
infância, mais de uma representação de um tipo de
infância.
O que encontramos são imagens de crianças idealizadas, uma
representação da criança burguesa urbana, presentes
em espaços protegidos e romantizados, que nem de longe representam
a maior parte da infância da França do período, sobretudo
das crianças camponesas e trabalhadoras nas indústrias que
compunha uma boa parte da infância francesa.
As ilustrações ocupam um lugar de memória privilegiado,
pois através delas também se consolidam conceitos no imaginário
social, construindo uma representação globalizadora e ordenada
da sociedade, porém não podemos perder de vista o período
histórico em que elas se instalam no interior dos livros escolares.
Um tempo em que as crianças eram vistas com outros olhares e as
práticas educativas tinham outros objetivos.
Ao se referir às diferenças existentes na prática
dos povos do passado e no presente, Darnton ressalta: “E, se queremos
entender sua maneira de pensar, precisamos começar com a idéia
de captar a diferença. Traduzido em termos do oficio do historiador,
isto talvez soe, simplesmente, como aquela familiar recomendação
contra o anacronismo. (...) Precisamos ser constantemente alertados contra
uma falsa impressão de familiaridade com o passado, de recebermos
doses de choque cultural”.
Portanto, podemos concluir brevemente que apesar de não adotar
uma metodologia especifica para o uso das imagens nos Livros de leitura,
Abilio recorreu ao que poderíamos chamar de ‘novidades’
no mundo dos livros escolares, algo que também era novo na França,
detalhe esse importante para o autor que tinha a França como modelo
de instrução e que se colocava como um “inovador”
na educação da infância brasileira.
Abilio utilizou as imagens como forma de convencimento para o público
leitor de suas obras, recorre ao apelo cristão de forma decisiva
para reforçar suas historietas e lições, prática
essa coerente a sua proposta presente em toda sua obra. Apesar de não
sabermos quem escolheu as imagens, se foi o autor ou o editor, ele não
se distancia de sua proposta ao complementar as imagens com seus textos,
divulgando a imagem da criança cristã que ele idealizava
como o modelo a ser seguido pelos seus pequenos leitores.
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