Elenira Martins Sanches Garcia? - Universidade
São Francisco - USF
Maria Angela Borges Salvadori?? - Universidade São Francisco -
USF
O trabalho aqui apresentado faz parte de uma pesquisa
que visa analisar as relações estabelecidas entre diferentes
"leituras" sobre o homem do campo, em particular aquele do interior
do Estado de São Paulo, e algumas das propostas de educação
a ele dirigidas. O período abordado compreende as primeiras décadas
do século XX, mais especificamente os anos 1920-1940, período
de intensas mudanças ligadas aos processos de industrialização
crescente, urbanização acelerada e tentativas de superação
da tradição agrária que, por séculos, marcou
a história econômica do país. Naquele contexto, a
oposição entre campo e cidade aparecia de modo mais acentuado,
embora tenha sido evidenciada já no final do século XIX.
O estudo desta temática foi motivado pelo contato com uma rica
documentação proveniente das escolas rurais do município
de Joanópolis, SP e, também, pela leitura de uma série
de artigos veiculados pela Revista de Educação do Departamento
de Ensino do Estado de São Paulo. Tais fontes apontaram questões
importantes no que se refere à oposição entre campo
e cidade e aos significados sociais atribuídos ao homem do campo,
conduzindo a pesquisa para a análise de documentos de origem iconográfica,
musical e literária, estes últimos fundamentais para a compreensão
da identidade do caipira - dos atributos dessa identidade - que se consagrou
no imaginário social daquele período e, mesmo ainda hoje,
pode ser encontrada.
A década de 1920 foi marcada pela emergência de um novo ideal
de homem brasileiro; a preocupação com a identidade nacional
– já presente nas décadas anteriores – tornava-se
mais evidente e aparecia em discursos políticos, nas manifestações
artísticas e literárias, nos meios tradicionalmente reconhecidos
como "intelectuais"; a idéia de um brasileiro a ser regenerado
via higiene e educação se tornava cada vez mais recorrente
e, em meio a tamanha diversidade de grupos e culturas, agravava-se: como
criar uma unidade para o país quando ele era cindido entre raças,
costumes, origens diferentes e, ainda, marcado pelas heranças da
escravidão? (SKIDMORE, 1976:173). Skidmore acredita que, naqueles
anos, houve uma reavaliação do conceito de raça na
qual se colocaram em dúvida as teses do racismo científico
que até então tentavam explicar o atraso do país
(1976:183). Este movimento nacionalista teve apoio de ilustres figuras
literárias, intelectuais, das artes e, segundo o autor, ganhou
expressão primeiro com o pré-modernismo e, mais tarde, com
o modernismo consolidado na Semana de 1922 (1976:197). O movimento modernista
envolvia a literatura, a música, a poesia, a pintura e a escultura,
priorizando temas nacionais e regionalistas. Entre modernistas e pré
modernistas que se dedicaram aos temas regionalistas estão, entre
outros, o pintor Almeida Júnior cujas telas datam de final do século
XIX, o escritor Monteiro Lobato e o compositor Heitor Villa Lobos. Os
dois primeiros citados - Almeida Júnior e Lobato - exerceram um
papel fundamental na criação e divulgação
de imagens do caipira, personagem cuja origem remonta, segundo Maria Silvia
de Carvalho Franco (1974), aos tempos da escravidão e a um grupo
social específico que não se reconhecia - e tampouco era
reconhecido - nem como índio, nem como branco, nem como europeu.
Este grupo desenvolveu uma forma de adaptação ao sertão
baseada na economia de subsistência e na agricultura itinerante
(RIBEIRO, 1995: 109).
No contexto de constantes preocupações com a construção
da identidade nacional, os atributos tradicionalmente conferidos a este
personagem foram revistos. Num país de colonização
basicamente rural (HOLANDA, 1995), que viveu a maior parte de sua existência
com uma população concentrada no campo, a industrialização
e o crescimento das cidades bem como a emergência de uma série
de conflitos sociais levaram a um processo de ressignificação
dos espaços e dos modos de pensar e viver o tempo. Naquele momento,
a imagem do campo e do caipira presente na música, na literatura,
nas artes, aparece carregada de ambigüidades. Para uns, o mundo rural
é recuperado de forma romântica, lugar de uma espécie
de ingenuidade primitiva que marcaria o povo brasileiro; para outros,
o mundo rural aparece como uma visão do atraso, da sujeira, da
doença.
Analisar os significados de uma palavra pode ser uma boa maneira para
se iniciar este processo de recuperação dos significados
sociais atribuídos à população rural. Carlos
Rodrigues Brandão afirma que, "mais do que tudo, o nome é
a janela da identidade" (1983: 9). Ao se estabelecer um nome, há
uma aceitação social da palavra como representante daquilo
que nomeia. Neste sentido, as palavras que nomeavam - e, por vezes, ainda
hoje nomeiam - o homem do campo, especialmente o do interior de São
Paulo, nas primeiras décadas do século XX eram "caboclo",
"sertanejo" e, mais frequentemente, "caipira". O que
significam tais palavras? Nas definições dos dicionários
- dos mais antigos aos mais atuais -, nota-se que o significado é
construído a partir de uma relação entre o espaço
do campo e o homem que nele vive: "Caipira: homem do matto, rústico,
labrego". "Camponês: aquele que habita ou trabalha no
campo. Adj. próprio do campo; rústico"."Sertanejo:
relativo ao sertão. Que vive no sertão. Silvestre, rude".
Mesmo em dicionários que procuram ampliar os sinônimos, o
lugar – mato, campo, sertão - é o principal critério
para definir o caipira, o camponês, o sertanejo e até mesmo
o caboclo, denominação mais utilizada para os descendentes
de uniões entre indígenas e homens brancos. No Grande Dicionário
Enciclopédico Solar, de 1943, lê-se:
"Caipira: Nome com que se designa o habitante do
campo. Sinôn: Araruana, balbacuara, baiano, baicuara, bruaqueiro,
capuava, casaca, casacudo, chapadeiro, curumba, curau, groteiro, guasca,
jeca, mandi, mandioqueiro, manojuca, matuto, muxanga, mocorongo, mucufo,
muvuango ou mixuango, pioca, piraquara, queijeiro, restingueiro, roceiro,
sertanejo, tabaréu, tapiocano. Rústico, labrego, inculto.
Caboclo: pessoa que mora na roça ou sertão. Segundo Teodoro
Sampaio, vem do tupi caá-boc= tirado ou procedente do mato. É
vocábulo muito corrente no Brasil, hoje empregado em vários
sentidos: ora para apelidar os aborígenes, tanto mansos como bravos,
donde as variantes “caboclos mansos” e caboclos como na frase
“meu caboclo”. S. m. Indígena brasileiro, de cor acobreada,
descendente de índios, caipira, roceiro, sertanejo. Provém
do cruzamento do branco com o índio. Características: pele
acobreada, olhos amendoados, cabelos escuros, grossos e lisos, estatura
média" .
Na consulta aos dicionários observa-se, também, que os significados
mais comuns atribuídos à palavra caipira, além de
relacionarem este sujeito ao espaço, trazem a idéia do rústico,
do rude. A utilização destas expressões - rústico,
rude – pode ser relacionada a uma visão de atraso, ignorância,
falta de trato e de instrução. Pode-se, se neste caso, estabelecer
uma analogia com a pedra bruta que precisa ser lapidada, moldada, função
essencial da educação: lapidar, disciplinar e moldar “aquele
homem rústico, rude e sem instrução”, a fim
de promover a unidade nacional (SKIDMORE, 1976:163). Nas definições
dos dicionários verifica-se, ainda, que a relação
de trabalho com a terra é praticamente esquecida; o trabalho na
lavoura é desqualificado, sendo ressaltada somente as condições
física e intelectual, consideradas inferiores quando comparadas
aos parâmetros de uma cultura urbana cuja positividade vai também
sendo construída nessa oposição. Somente quando define
“camponês” como "aquele que habita e/ou trabalha
no campo" é que a relação com o trabalho na
terra é citada.
A ausência de uma ênfase maior sobre as questões relativas
ao trabalho indica um problema a ser melhor investigado. Considera-se,
aqui, que a forma de trabalho do camponês e o modo de organização
deste trabalho no tempo e no espaço não eram bem aceitos
pois, quando relacionados ao trabalho, os caipiras eram definidos como
folgados, preguiçosos, indisciplinados. Esta ausência de
trabalho, ou de um modo de trabalho mais ligado à disciplina da
fábrica, pode ser observada, por exemplo, nas telas de Almeida
Júnior, pintor paulista do século XIX que, segundo Marcos
Mendonça, "é talvez o mais insigne representante da
pintura paulista, tendo imortalizado em suas obras a figura do tipo interiorano
de São Paulo, o caipira com o qual o próprio artista nunca
deixou de se identificar" (2000: 2) . Quando Almeida Júnior
pinta o caipira, procura retratar o seu modo de vida e seus costumes.
Nesse sentido, percebe-se que o que organizava a vida desse homem não
era o trabalho ou, pelo menos, não o padrão de trabalho
fabril. O caipira aparece picando fumo (Caipira Picando Fumo, 1893), cantando
ou ouvindo música (O Violeiro, 1899) e pitando (Nhá Chica
de 1895); em algumas cenas, observa-se um cenário de trabalho,
como no caso da obra “Amolação Interrompida”,
de 1893. Tais telas indicam uma outra forma de organizar a vida, de organizar
o tempo, de estabelecer prioridades; indicam valores e costumes diferentes
daqueles pensados a partir da cultura industrial urbana. Este modo de
vida do caipira - com uma forma própria de organização
do tempo do trabalho e do tempo do lazer ou do descanso - foi considerado
como irregular, indisciplinado e improdutivo. Neste sentido, cabem aqui
algumas considerações a respeito dos trabalhos de Edward
Thompson e às referências que fez quanto a uma investigação
de Pierre Bourdieu sobre atitudes de camponeses da Argélia com
relação ao tempo. Bourdieu demonstra a resistência
dos camponeses ao tempo controlado do relógio: "A pressa é
vista como uma falta de compostura combinada com ambição
diabólica. O relógio às vezes conhecido como 'oficina
do diabo' " (BOURDIEU apud THOMPSON, 1998:270). Para Thompson (1998:
271), o descaso com o tempo do relógio só era possível
em comunidades pequenas nas quais as tarefas eram desenvolvidas de acordo
com a lógica da necessidade e o tempo da plantação
e da colheita determinava o ritmo do trabalho. Esta forma mais autônoma
e tradicional de organização da vida do camponês descrita
por Thompson, que não era comandada pelo tempo do relógio
e sim pela necessidade, ajuda a pensar sobre a realidade do camponês
brasileiro, mais particularmente a do caipira paulista. Talvez seja isto
que retratam as obras de Almeida Júnior: o tempo de preparo do
cigarro de palha, o tempo da “moda de viola” e o tempo de
pensar na vida se alternam ao tempo do trabalho de acordo com a necessidade.
Voltando aos dicionários, é ainda interessante destacar
a utilização das expressões tais como “manso"
ou "bravo” enquanto características do caboclo. Tais
adjetivos, geralmente usados para comportamentos animais, reiteram uma
visão do caipira como selvagem, atrasado, primitivo, que precisa
ser domesticado. Segundo Skidmore, esta visão era comum naquele
período e pode ser encontrada, por exemplo, num discurso proferido
em 1915 por Olavo Bilac, por ocasião da formatura de um grupo de
bacharéis em Direito do qual ele foi paraninfo. Dizia Bilac que
os indivíduos que habitavam os sertões viviam a vegetar,
como qualquer ser irracional. Bilac apontava para os “rudes sertões
onde os homens não são brasileiros, nem ao menos são
verdadeiros homens: são viventes sem alma criadora e livre, como
feras, como os insetos, como as árvores (BILAC apud SKIDMORE,1976:
171). Segundo a análise de Skidmore, Bilac estava apontando a falha
do Brasil no que dizia respeito à exploração do potencial
do seu povo pela educação, porém a forma como se
refere ao habitante dos sertões evidencia os preconceitos mais
recorrentes que incidiam sobre as populações rurais.
Em “Os Caipiras de São Paulo”, Carlos Rodrigues Brandão
conclui que nas definições do “caipira” encontradas
em dicionários, em escritos de viajantes, em textos de intelectuais
e pesquisadores, "pouca coisa sobra que recomende o nosso caipira"
(1983:10). Nas anotações dos viajantes, aliás, o
que pode se perceber é que eles eram vistos como uma gente feia,
suja, rude, sem cultura e sem história (SAINT-HILAIRE apud BRANDÃO,
1983:15). Na descrição feita por Saint-Hilaire em Viagem
à Província de São Paulo, observa-se de que maneira
o viajante viu os homens do campo que encontrou pelo caminho:
...Esses homens embrutecidos pela ignorância, pela
preguiça, pela falta de convivência com seus semelhantes
e, talvez, por excessos venéreos primários, não pensam:
vegetam como árvores, como as ervas dos campos... À primeira
vista, a maioria deles parecia ser constituída de gente branca;
mas, a largura de suas faces e a proeminência dos ossos das mesmas
traía, para logo, o sangue indígena que lhes corre nas veias,
mesclado com o da raça caucásica... Pode-se acrescentar,
ao demais, que à indolência juntam eles, geralmente, a idiotice
e a impolidez...
... eram de feio aspecto e excessivamente imundos; pela lividez da pele
e pela extrema magreza demonstravam servir-se de alimentação
pouco substancial ou insuficiente; muitos dentre eles eram desfigurados
por enorme papo. As mulheres tinham os cabelos desgrenhados e o rosto
e os peitos cobertos de sujeira; as crianças pareciam enfermas
e eram tristes e apáticas; os homens eram abobados e estúpidos.
Parece que esses infelizes tinham muita preguiça para o trabalho,
só cultivando o estritamente necessário à satisfação
das próprias necessidades... (SAINT-HILAIRE apud BRANDÃO,
1983: 15-16).
É importante ressaltar que a população
caipira que habitava o interior paulista naquele período era formada,
em sua maioria, por descendentes do cruzamento com índios, daí
a descrição do viajante ressaltar os traços de sua
herança inata, reforçando a visão da desigualdade
das raças baseada nas teses racistas que predominavam no século
XIX. Mais uma vez, destaca-se a intolerância em relação
a um modo de trabalho que não segue os ritmos do relógio
e a vontade do patrão. O costume aparece aqui como preguiça
e a indolência.
É possível perceber, apoiando-se nos trabalhos de Eduard
Thompson, que o tratamento dado a este “caipira” remontava
freqüentemente a sua anulação enquanto sujeito; o caipira
foi sendo definido pela "falta": não tem higiene, não
tem a posse da cultura letrada, não mora na povoação,
não tem as características físicas da raça
branca, etc. Ainda de acordo com Thompson - considerando-se aqui particularmente
os textos nos quais aparece o conceito de costume -, entende-se que estas
descrições negam os costumes próprios do universo
camponês do início do século XX. Segundo o autor,
o costume, muitas vezes tido como sinônimo de tradição,
está longe de sugerir sempre a permanência ou o imobilismo;
ao contrário, o costume se situa no campo da mudança, da
disputa, da resistência, do conflito entre interesses opostos (THOMPSON,
1998:16). Neste sentido, o que se pode perceber é que o camponês,
ao resistir às mudanças e a um processo de disciplinarização,
passa a ser visto como atrasado.
Em O povo brasileiro: evolução e o sentido do Brasil, Darcy
Ribeiro aponta essa questão. Para ele, o caipira não se
sujeitava ao sistema de trabalho rigidamente disciplinado e isto se devia
a sua formação tradicional na qual o trabalho era alternado
ao lazer e só realizado para a subsistência, através
de uma agricultura itinerante (1995:383). Partindo das explicações
de Ribeiro e apoiando-se nas idéias de Thompson, pode-se entender
que este modo de vida que viajantes, pesquisadores e intelectuais descreviam
como rústico, atrasado, infeliz e de costumes diferentes era, antes,
uma forma de resistência; não uma resistência ao progresso
em si, mas sim a resistência a um novo ritmo de vida que se procurava
impor ao homem do campo a qualquer custo, por meio de uma nova forma de
organização do trabalho e de controle do tempo, após
o regime de escravidão. Para Ribeiro (1995: 396), era necessário
que o país se reorganizasse econômica e socialmente e, para
tanto, cumpria disciplinar o camponês para o trabalho sistemático,
desconsiderando suas raízes e seus “costumes”.
O exemplo mais contundente deste conflito foi construído a partir
de um clássico da literatura brasileira: o personagem Jeca Tatu,
de Monteiro Lobato. Criado em 1914, o "Jeca" era descrito como
“um parasita da terra, preguiçoso e incapaz de evolução”.
Ao publicar o artigo Velha Praga e, logo depois, Urupês, Monteiro
Lobato tornou pública a forma como o caipira era visto pela maior
parte das elites ilustradas, portadoras de uma cultura letrada e urbana.
No Brasil, ainda hoje, Jeca Tatu é mais que um personagem; é
uma desqualificação física e moral atribuída
àqueles considerados atrasados, ignorantes, inibidos, "fora
de moda", que falam de um modo considerado errado. Diante disto pode-se
perceber que esta é a forma como a imagem do homem do campo foi
instituída no imaginário social – uma representação
negativa e discriminadora.
Esta imagem negativa do caipira, contudo, não era a única
existente. Outras aparecem nas obras de Cornélio Pires, escritor
e pesquisador da cultura caipira que, segundo Elias Thomé Saliba
(2002), tornou-se conhecido por suas histórias e anedotas que retratavam
o mundo caipira, ainda que estilizadas pela ótica do humor. Saliba
(2002: 178) conta que Cornélio Pires nasceu no interior do Estado
de São Paulo, foi autodidata e exerceu as mais diversas profissões,
entre elas a de caixeiro, tipógrafo, oleiro, comerciante, professor
e funcionário público, atuando ainda como jornalista. Em
"Conversas ao pé do fogo", obra de 1921, Cornélio
Pires se propõe reproduzir contos, estórias, anedotas e
costumes que ouviu e observou durante sua estadia numa velha fazenda do
interior de São Paulo, entre “caipiras” (1921:81).
Em alguns momentos, a descrição de Cornélio Pires
se contrapõe de modo explícito a de Monteiro Lobato:
"O nosso caipira tem sido uma victima de alguns escriptores
patrícios, que não vacillam em deprimir o menos poderoso
dos homens para aproveitar figuras interessantes e phrases felizes como
jogo de palavras.
Sem conhecimento directo do assumpto, baseados em rápidas observações
sobre mumbavas e agregados, verdadeiros parasitas só encontrados
em propriedades de brasileiros, prejudicialmente hospitaleiros, certos
escriptores dão campo ao seu pessimismo, julgando o todo pela parte,
justamente a parte pôdre, apresentando-nos o camponez brasileiro
coberto de ridículo, inútil, vadio, ladrão, bêbado,
idiota e 'nhampa'!" (PIRES, 1921: 3).
O autor, que não descarta a representação
negativa do caipira, considera que Lobato descreve o todo pela parte –
"a parte pôdre". Porém, sua fala em defesa do caipira
é carregada de ambigüidades. Seus contos, anedotas e músicas,
embora procurem mostrar as qualidades do caipira e construir uma imagem
oposta a do Jeca de Lobato, não conseguem abandonar idéias
tais como as da superioridade da raça branca, da indolência
do índio e da degenerescência provocada pela mestiçagem.
Ao definir a diversidade na formação do caipira brasileiro,
separa-o pela raça e pela cor: caipira branco, caipira caboclo,
caipira preto e caipira mulato – cada um com características
próprias e inatas. Nesta classificação, o autor acaba
se aproximando de Lobato, quando afirma que a "parte pôdre"
são justamente os descendentes do cruzamento do índio com
o branco, o caipira caboclo, que o autor descreve como:
Intelligentes e preguiçosos, velhacos e mantosos,
barganhadores como ciganos, desleixados, sujos e mesmulambados, dão
tudo por um encosto de mumbava ou de capanga; são valcates, brigadores
e ladrões de cavalos... Sua vida é caçar (com aviamentos
arranjados aqui e ali a custa de pedinchices), pescar, dormir, fumar,
beber pinga e tocar viola, enquanto a mulher, guedelhuda e immunda, vae
pelos vizinhos, pidonha e descarada, filar dos bons trabalhadores o feijão,
o toucinho... Eil-o de cócre á margem suja do ribeirão
(não tem coragem de passar uma foice no pesqueiro) com sua vara-de-anzol
quebrada e encanada com embira.. .(PIRES, 1921:20-23).
Para o autor, foi este o caipira que inspirou Monteiro
Lobato na criação do Jeca Tatu, erradamente dado como representante
do caipira em geral (1921: 26); contudo, sua descrição não
é muito diferente das que fizeram Saint Hilaire e o próprio
Lobato. Assim, ao mesmo tempo em que o autor condenava os escritores que
denegriam a imagem do caipira, afirmava que o “caipira caboclo”
- maioria da população caipira paulista – era a parte
podre: preguiçosos, velhacos, sujos. Cornélio Pires acreditava
que a salvação dos caipiras caboclos era a escola e a obrigatoriedade
do ensino...mas de verdade! (1921:26), pelo menos até que o “tipo”
desaparecesse por completo. Todas estas imagens negativas, sempre relacionadas
aos homens provenientes do encontro com o índio, estão carregadas
de resquícios da representação do indígena
como vadio e bárbaro que permanece bastante forte no imaginário
social. A escola, neste caso, aparece como a forma de disciplinar estes
indivíduos degenerados (PIRES, 1921:20).
Igualmente presente nos contos de Cornélio Pires está a
defesa do "branqueamento" pois, segundo ele, o "caipira
branco" era o de melhor "estirpe"; descendente de estrangeiros
brancos, esses caipiras, "mesmo pobres são limpos, respeitadores,
educados e hospitaleiros” e os únicos a reclamarem escola
para seus filhos: "seus filhos, engarupados no pangaré, freqüentam
aulas na cidade a uma e mais léguas de distancia, quando não
há escola no bairro" (1921:11-17). Embora o autor de Conversas
ao Pé do Fogo se esforce em defender e construir uma imagem positiva
do caipira enquanto responsável pelo progresso da pátria,
que sustenta as riquezas agrícolas do país, um forte "que
há de vencer, mesmo contra a vontade do homem civilizado que o
avilta e o cobre de apodos e defeitos" (1921:5), acaba por retomar
as mesmas idéias que aparecem nos dicionários, nos relatos
dos viajantes, na obra de Monteiro Lobato:
“Caipiras... Mas que são caipiras?
São os filhos das nossas brenhas, de nossos campos, de nossas montanhas
e dos uberrimos valles de nossos piscosos, caudalosos, encachoeirados
e innumeraveis rios, “acostellados” de milhares de ribeirões
e riachos.
Nascidos fora das cidades, criados em plena natureza, infelizmente tolhidos
pelo analphabetismo, agem mais pelo coração que pela cabeça.
Tímidos e desconfiados ao entrar em contacto com os habitantes
da cidade, no seu meio são expansivos e alegres, folgazões
e francos; mais francos e folgazões que nós outros, os da
cidade. De rara intelligencia – não vae nisto – exagero
são, incontestávemente, mais argutos, mais finos que os
camponezes estrangeiros... (PIRES, 1921: 5).
As palavras de Cornélio Pires operam um distanciamento
do homem do campo em relação ao mundo da cultura e uma proximidade
com a natureza. Esta oposição "natureza x cultura",
ela própria uma construção, justifica que a educação,
enquanto dado da cultura, seja o principal fator para a "elevação"
moral e física desta população. As campanhas de higienização
e educação foram os instrumentos pelos quais se buscou superar
essa "natureza" e, de modo mais intenso, incidiram sobre o caipira
considerado "improdutivo, débil e infeliz" de modo a
tentar transformá-lo em um outro modelo de homem brasileiro: enbranquecido,
higienizado, saudável, trabalhador e alfabetizado. Esta era a imagem
veiculada, por exemplo, pelo Almanaque do Biotônico Fontoura, publicação
que começou a circular na década de 1920 e, segundo Margareth
Brandini Park, divulgava um tônico capaz de mudar a vida transformando-a
em energia e disposição. A autora observa que o tônico
criado por Cândido Fontoura e sua propaganda constróem no
imaginário a necessidade de substâncias que interferem no
desempenho escolar: Be a Ba, Be é Bé, Be i Bi, o tônico
Fontoura (PARK, 1999: 106). Nas campanhas veiculadas neste Almanaque,
além do forte apelo para a questão da saúde, observa-se
a valorização do acúmulo de riqueza que remete a
questão do trabalho: “livre das doenças e da preguiça,
o caipira se transformou num trabalhador disciplinado, rico e feliz”.
As figuras estampadas na publicação retratam bem a dicotomia
existente entre a imagem do caipira sujo, feio, pobre, doente, improdutivo
e infeliz, e os valores que delineavam a imagem do homem ideal branco,
limpo, organizado, produtivo e “feliz”. A transformação
é tida como um “milagre”, o que tanto pode ser interpretado
como reforço das propriedades curativas do tônico quanto
reiteração da incapacidade do caipira em conduzir sua vida.
Daí a propaganda do Biotônico veicular uma relação
entre o remédio e a educação: além de curar
o caipira, o tônico preparava para a educação, para
a escola.
Segundo Bomeny, aquele era também o momento do nascimento dos técnicos
em educação, um período em que médicos, sanitaristas,
engenheiros, “cientistas da pedagogia”, entre outros, se encararam
como únicos capazes de conduzir e salvar a nação
do atraso em que se encontrava. A educação era a resposta
a todos os problemas. Para a autora, a metáfora do “imenso
hospital” se juntou ao diagnóstico banalizado a respeito
da educação no país: “a grande chaga nacional”
(BOMENY, 1993:1). Esta imagem do país doente e analfabeto, atrasado
e degenerado, se confunde com a própria imagem do caipira.
A idéia de que o Brasil era um país “essencialmente
agrícola” ainda permanecia muito forte, mas condenava-se
a incapacidade nacional em lançar um programa de agricultura aplicada;
a solução estava na educação, como receitava
Basílio de Magalhães: "faz-se necessário fortalecer
física e moralmente essa raça por uma bem orientada e sistemática
educação, tanto sensorial como cívica (MAGALHÃES
apud SKIDMORE,1976: 185). Muitos outros intelectuais também tomaram
para si a defesa de uma escola rural, voltada para a formação
profissional do caipira numa fórmula que procurava tanto civilizar
o campo quanto evitar a degenerescência das cidades. Mas, nesse
processo, prevaleceu a imagem do caipira como sujo e indolente; a educação,
portanto, deveria impor-lhe novos hábitos e condutas.
Fontes consultadas para este trabalho:
AMARAL, Aracy. A luz de Almeida Júnior. In. AMARAL,
Aracy, LOURENÇO Maria Cecília França. José
Ferraz de Almeida Júnior 1850/1899. São Paulo: PINACOTECA,
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PARK, Margareth Brandini . História e Leitura de Almanaques no
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