Jorge Luís Cammarano Gonzáles -
jorge.gonzalez@uniso.br - Universidade de Sorocaba - UNISO
Wilson Sandano - wilson.sandano@uniso.br - Universidade de Sorocaba -
UNISO
1. Apresentação
Este trabalho vincula-se à pesquisa “Fontes para a história
da educação escolar de Sorocaba” , circunscrita ao
período de 1850 a 1920, que é caracterizado, no âmbito
da produção historiográfica correspondente à
história de Sorocaba, como período de decadência do
tropeirismo e de início da industrialização da cidade.
A pesquisa envolve a localização e organização
de acervos fundamentais sobre a educação escolar em Sorocaba
e concentra seus esforços na elaboração de um guia
preliminar de fontes sobre o tema.
Consideramos que a localização, a organização
e a descrição de fontes documentais para a produção
de um “guia de fontes” representa uma referência para
o adensamento do campo de produção historiográfica
sobre Sorocaba e região, na perspectiva de investigar as dimensões
filosóficas, históricas e políticas da educação
(BUFFA, 2002) com base no estudo das instituições escolares.
A natureza do acervo atualmente investigado circunscreve-se à documentação
textual escrita por professores e inspetores, num universo constituído
por ofícios, cartas, memorandos, livros de registros, estatutos,
regimentos, relatórios, etc.. A documentação foi
obtida por meio de fotocópia dos originais junto ao Arquivo Histórico
do Estado de São Paulo.
O trabalho, que apresenta resultados parciais da pesquisa, investiga o
processo de formação do espaço escolar em Sorocaba,
no período de 1880 a 1890, e tem como problematização
norteadora da investigação: “que condições
estão presentes no processo de formação da educação
escolar em Sorocaba, no período de 1880 a 1890?”
2. Sorocaba
Em recente artigo, quando tratamos da formação da educação
escolar pública em Sorocaba, no período de 1850 a 1860,
indicamos que Sorocaba, à época, era uma cidade pobre, ainda
eminentemente agrícola, mas em processo de crescimento urbano e
modernização (GONZÁLEZ e SANDANO, p. 56-57).
Já, na década de 1880, a cidade continua se transformando.
Há um aumento significativo do número de indústrias.
Há uma racionalização do uso do espaço urbano.
Em 1881, foi sancionada e publica a Lei nº. 24, que tratava do abastecimento
de água potável em Sorocaba, graças à atuação
do Dr. Ferreira Braga e do Tenente Cava¬leiros, na Assembléia
Provincial (ALEIXO IRMÃO, p. 240).
Neste mesmo ano, chega ao Brasil Francisco Matarazzo e, em 1883, funda
em Sorocaba uma pequena fábrica de banha, além de açougue
e armazém.
Ambos os negócios prosperam e, em 1890, antevendo as possibilidades
criadas pela política financeira de Rui Barbosa, como ministro
da Fazenda do primeiro governo republicano, muda-se para São Paulo
e investe numa casa importadora. Em 24 de março de [89] organiza
a Companhia Matarazzo, embrião das bem sucedidas Indústrias
Reunidas Francisco Matarazzo. (SOUZA FILHO, p. 149)
Em 1881, ainda, no mesmo local em que foram inaugurados os trabalhos da
estrada de ferro, foi iniciada a construção da Fábrica
de Fiação e Tecidos Nossa Senhora da Ponte , que foi a primeira
do ciclo industrial têxtil da cidade. Esta fábrica foi inaugurada
no dia 2 de dezembro de 1882, por ser data do aniversário do Imperador
D. Pedro II (SOUZA FILHO, p. 151).. Somente usava algodão da zona
sorocabana, “comprado a 2$000 por arroba”. (ALEIXO IRMÃO,
p. 258)
Segundo SOUZA FILHO,
A compra do maquinismo foi confiada a Alexandre Marchisio, técnico
inglês em fiação e tecelagem, nascido na ilha de Malta.
Os equipamentos, adquiridos em Manchester , Inglaterra, chegaram em Santos
a 12 de abril de 1882 e foram por ele montados. Dois meses mais tarde,
os 45 teares, com dois mil fusos, estavam em condições de
produzir. Em 5 de maio daquele ano, no primeiro “Diário de
Sorocaba”, Manoel Januário de Vasconcelos noticia que no
dia anterior, com o funcionamento da fábrica, “viu a primeira
peça de tecido saída dos teares, isto é, o primeiro
vagido da tão importante indústria no sul da província”.
(SOUZA FILHO, p. 150)
Por conta da estrada de ferro e da Fábrica do Fonseca, a cidade
recebeu, por duas vezes, na década a visita da família imperial
(ALMEIDA, p. 61).
BADDINI assim resume as alterações ocorridas na cidade,
no período:
Na década de 1880, com as novas expectativas econômicas trazidas
com a ferrovia em Sorocaba, os investimentos foram direcionados para outras
atividades urbanas. Foram instaladas na cidade casas especializadas, tais
como padarias, confeitarias, charutarias, depósitos especiais de
produtos importados de outras províncias e da Europa, casas de
comissões que lidavam com a expedição de mercadorias
pela estrada de ferro. Também proliferaram, gradualmente, as manufaturas
e fábricas, que aproveitavam a proximidade com a estrada de ferro
para conquistar novos mercados e expandir a produção. Em
1864, havia quatro fábricas no município: uma de chapéus,
duas de velas de cera e uma de tecidos (...). Em 1870, eram seis: duas
de chapéus, duas de vela de cera, uma de fumo e uma de tecidos,
pouco depois desativada. Em 1873, o Almanak da Província acusa
apenas cinco: duas de chapéus, uma de velas de cera e duas de “seges
e trolys” (...). Dez anos mais tarde, eram doze: duas de cerveja,
três de chapéus, uma de vinagre, uma de licores, uma de pólvora,
uma de tecidos, uma de velas de cera e duas de vinho (...). Em 1887, eram
18: três de cerveja, quatro de chapéus, duas de licores,
duas de redes, uma de tecidos, uma de velas de cera, quatro de vinho e
uma de vinagre (...). Nesta relação, ainda faltam duas fábricas
de massas, uma de café em pó e uma de louças, organizadas
entre 1885-87, e outras duas fábricas de vinho, que como as outras,
utilizavam matéria-prima produzida na região. Somam-se,
assim, 24 estabelecimentos industriais no final do Império.
Estes demonstram o incremento do comércio urbano e acompanham as
investidas de municipalidade para racionalizar os usos da cidade, inclusive
o trânsito de animais. As posturas referentes à passagem
e divagação de tropas pela cidade mostram empecilhos da
urbanização. Embora a Câmara garantisse o trânsito
e parada de animais em alguns pontos do centro urbano, postergando a “macadamisação”
de ruas e largos utilizados pelos condutores, criava novas condições
de uso desses espaços. (BADDINI, p. 183-184)
As modificações na vida do sorocabano, são mostradas
por ALMEIDA;
A vida do cidadão sorocabano, que fôra a mais pacata possível,
tirante os dois meses da feira, começou a modificar-se, entre 1870
e 1875, quando os cabriolés, espécie de carrinho com uma
mola de pau entre o eixo e o assento único, os tílburis,
carrinhos cobertos, de duas rodas, os carros de praça e os trolis
deram de aproveitar o macadam para as suas desabusadas correrias.
Pelas estradas municipais trafegaram os trolis, às vezes de dois
assentos fora a boleia, e as senhorinhas, em bando, com seus grandes guarda-sois,
viajavam para as chácaras e fazendas ruidosamente.
A primeira cachoeira pública foi na atual rua José Bonifácio,
antes rua da Amargura, então rua da Cachoeira. Os Nunes de Oliveira
tinha hotel e empreza de carros de praça e trolis na rua do Bom
Jesus. Os particulares, cavalheiros e amazonas que até aí
montavam com grande empáfia em seus corcéis, abandonaram
esta bela tradição em troco dos carros de quatro rodas.
Aliás, antes de 1850 já havia coches apenas por luxo.
Às 8 horas tocava a recolhida e saia à rua a patrulha. Noite,
silêncio, serenatas de “Já tudo dorme”...
Em Sorocaba não houve colonos italianos de fazendas e, sim, cidadãos
negociantes, cocheiros, carroceiros, vendeiros, alfaiates, sapateiros
mascates, os quais já davam à cidade um ar cosmopolita,
por sinal que às vezes provocavam algum barulho, por mera distração...
As colônias síria e hespanhola, à parte um ou outro
caso isolado, não existiam antes de 1889. Numerosa, sim, era a
colônia alemã, com os seus chapeleiros e cervejeiros. Mais
numerosa a colonia portuguêsa, sempre recebendo novos rapazes caixeiros,
futuros genros e sócios, troncos de importantes famílias.
Em 1886, com o sanatório do médico Nicolau Vergueiro aumentou
esse aspecto de cidade movimentada e garrida. (ALMEIDA, p. 50)
É neste clima que está inserida a educação
escolar.
3. A educação escolar
Em nosso artigo citado, registramos que havia, na década de 1870,
havia duas escolas públicas primárias masculinas e duas
femininas (GONZÁLEZ e SANDANO, p. 54). Havia, também, duas
escolas particulares, uma para cada sexo e um colégio (ALMEIDA,
p. 46).
Na década que estamos estudando, a educação escolar
estava muito valorizada.
O Presidente da Província de São Paulo, em seu relatório
anual à Assembléia Legislativa Provincial, no dia 13 de
janeiro de 1881, assim se manifestava a respeito da educação:
Penso que é tempo de fazer quanto se deva e possa para diffundir
a luz do ensino por todas as camadas da população.
É a obra mais meritória da actualidade. E quem, como eu,
não possa, em sua passagem pelas regiões officiaes, por
outro modo recommendar-se, terá adquirido direito ao reconhecimento
de seus concidadãos se deixar marcos que indiquem haver trabalhado
na grande obra de fazer com que a instrucção alcance a todos,
despertando assim as intelligencias adormecidas, desterrando a ignorancia,
e preparando paras as massas populares uma situação de verdadeira
igualdade.
A escóla pode resumir o elogia de uma administração,
como sem a escóla a Provincia nunca terá a posição
de proeminencia, a que aspira. (SÃO PAULO [PROVÍNCIA]. 1881,
p. 6-7).
Outra manifestação a respeito do valor da educação,
nos dá a Professora Januaria de Oliveira Simas:
Convencida da summa vantagem da Instrucção Publica, baze
fundamental da sociedade humana, conscia de que não ha paiz algum
que se tenha elevado á todos os conhecimentos humanos, que não
se tenha desvelado em dar acurada instrucção para o povo;
assim, reconhecendo isto, applico todo o cuidado e desvélo, regendo
esta aula com a maior assiduidade e empenhado esforço.
Assim, com a educação sendo valorizada pela sociedade e,
também, considerando as alterações ocorridas na sociedade
sorocabana, a educação escolar teve um grande incremento.no
número de escolas públicas e escolas particulares.
A administração da educação escolar era feita
pelo Inspetor de Distrito da Instrução Pública, subordinado
ao Inspetor Geral da Instrução Pública da Província.
A partir de 1884, com a reforma da instrução na Província,
a sua administração passa a ser feita por “um conselho
director e (...) conselhos municipaes constituídos, em sua maioria,
por eleição, em que tomam parte as pessoas mais interessadas
no desenvolvimento do ensino; (...) divisão da província
em 12 disctrictos escolares, nomeando-se para cada um, mediante concurso,
um delegado literario (...). (SÃO PAULO [PROVÍNCIA]. 1885,
p. 3)
Em Sorocaba, foi designado Delegado literário o Sr. Antonio Gonzaga
Sêneca de Sá Fleury, que foi substituído, por razões
políticas, em 1885, pelo Dr. Coriolano d’Utra (ALEIXO IRMÃO,
p. 291).
Em documento de julho de 1885, o Inspetor de Distrito, Antonio Gonzaga
Sêneca de Sá Fleury, assim informava à Inspetoria
Geral da Instrução Pública sobre a eleição
e indicação de membros para o Conselho Municipal:
Em cumprimento ao ordenado pr. V. Sª. em circular nº. 312 de
28 de Maio ultimo, acompanhada do exemplar do Acto da Prezidcia. De 2
do mmo. Que reformou a instrm. Publca. d’esta Provcia., tenho a
honra de participara V. Sª. que a 20 de Junho pp. publiquei edital,
chamando os paes tutores e protectores do menores e orphãos, matriculados
nas escolas Publicas e particulares, e seus respectivos Professores, de
ambos os sexos, para comparecerem a 2 do corr. As 11 horas da manhã,
(...) a fim de proceder a eleição dos 2 Membros do Conselho
Mal. da instrm. Publca. d’esta cide. (...) Reunidos alguns dos eleitores,
Professores, Publcós. E particulares de ambos os sexos, procedi
com as solennidades legaes de eleição, obtendo o abaixo
assignado 16 votos e Dr. Antonio Je. Ferrª. Braga 12 votos. Assim
ms. o Dr. Je. Franco. Uchoa Cavalcanti, 2, e Mel. Nogrª. Padª.
2. Havendo votado 16 eleitores. A Camª Mal. em sesão de 5
elegeu o 3º Membro Dr. Oliverio Pilar. (...)
3.1 Escolas públicas
Das quatro escolas públicas mantidas pela Província, registradas
no final da década de 1870, Sorocaba passa ter, no período
estudado, 12 escolas públicas primárias, sendo 8 destinadas
ao sexo masculino e 4 para o sexo feminino. Há um total de 556
alunos, dos quais, 438 são considerados freqüentes e 75 não
freqüentes, além de 43 eliminados.
Portanto, a freqüência dos alunos representava 78% dos matriculados,
o foi um grande avanço em relação à freqüência
dos alunos estudada nos períodos anteriores .
As escolas primárias funcionam, ainda, nas casas alugadas pelos
professores, para sua residência.
As escolas continuavam com problemas quanto a existência de móveis
e utensílios para o ensino – problema este detectado durante
todo o período por nós estudado, a partir de 1850.
Forão providas de moveis e utensilios as 1ª e 2ª cadras.
do sexo masculº. em tempos idos, e a 3ª cadrª. quando foi
installada; a 1ª e 2ª cadrª. do sexo femenino forão
tambem suprridas de moveis e utensilios em épocha bem remota: pelo
que estas 5 cadras. tem moveis e utensilios tão velhos e extragados
que reclamão com urgencia outros p. o substituir ou augmentar seu
nº. As outras 4 cadras. sendo a 3ª do sexo femenino, a das Capellas
do Espírito Santo do Cerrado e de N. Srª. Apparecida, do sexo
masculiº. e a do bairro Jundiaquára do sexo femnº., nunca
receberão movel ou utensilio algum, a excepção desta
ultima que recebeo seus livros para as meninas estudarem, e é um
tanto edificante ver-se os menos. e as menos. assentados em tócos
de pau, banquinhos, e de diversos tamanhos e modelos.
Esta situação começa a ser resolvida no ano de 1883:
Estão providas de moveis e utensilios, as 1ª, 2ª e 3ª
cadras. do sexo masculº. desta cidade, as 1ª e 2ª do sexo
femenº. Os moveis da 1ª e 3ª do sexo masculino a lem de
velhos e estragados estão incompletos. O mmo. Acontece com os moveis
da 2ª cadrª. do sexo femenino.
A 4ª cadeira desta cidade, as das Capellas do Cerrado e Apparecida,
e as dos bairros de Jundiaquara e do Sarapuhy, todas do sexo masculino,
não tem movel nem utensilio algum.
É pois de urgencia e de grde. necesside. serem providas de moveis
e utensilios, as sete cadeiras descriptas, sendo 5 do sexo masculº
e 2 do femenº.
Os professores são bem conceituados junto ao Inspetor. Entre os
professores, cujos nomes são nomeados nos documentos por nós
consultados, há, apenas, um normalista. Encontramos, também,
dois padres. A remuneração dos professores é feita
por sua formação, sendo que o professor normalista tem remuneração
maior.
Com qto. pareça superflua a informação exigida no
final do 2º periodo da circular nº 311, citada, pr. dever constar
dos assentos d’essa repartição e ser firmados em lei
os vencimtos. dos professores, cumpro o determinado pelo modo segte.:
O Professôr da 3ª cadrª. Mel. dos Reis, que é normalista
vence annualmte. 1:800$000; os professores da 2ª cadrª. Pe.
Antº Augto Lessa e da cadrª do Cerrado Pe. Joaqm Glvs Pacco
vence cada um annualme. a qtia. de 1:500$000. O Professor da 1ª cadrª
Mel. Joaqm de Szª. Guerra, vence 850$000 e o da capla. da Apparecida
João Pires de Lemos vence 650$000. As Professoras da 2ª cadrª.
D. Januaria de Olª. Simas e a da 3ª cadrª. D. Gertrudes
Pires de Almdª. Mello vence cada uma 850$000 pr anno, e as Professôras
da 1ª cadrª. D. Vicentina Adelaide de Vascós. e da cadrª.
de Jundiaquára, D. Zulmira Ferrs do Valle, vence cada uma pr anno
650$000.
As escolas públicas tinham 5 horas diárias de funcionamento,
assim divididas, no inicio da década:
A primeira hora é reservada para o ensino da Calygraphia e da leitura
de manuscripto; a 2ª e 3ª ao manuscriptos impressos; a 4ª
de Arithmetica e Systema – Metrico; a 5ª para rever-se as lições
passadas no dia passar outras para o dia contiguo. O ensino da doutrina
é feito nos sabbados. Tanto antes como depois da aula costuma-se
rezar Oração Dominical.
Já, em 1889, as atividades eram assim indicadas pela Professora
Escolástica Rosa de Almeida :
Matriculei na minha escola de 7 de Janeiro a 1 de Junho do corrente anno,
72 alumnas. Foram eliminadas 10 por motivos diversos como estão
indicados no mappa. Estas alumnas matriculadas e frequentes acham-se divididas
em 3 classes do modo seguinte:
1ª Classe
A 1ª Classe pertencem as alumnas que lêm expressivamente um
impresso e manuscripto, analysam pequenos trechos e têm noção
de sujeito e predicado. Escrevem cursivo e ditado, fazem exercicios sobre
as 4 operações fundamentaes. Saem toda a Geographia do Brasil;
de desenho linear conhecem até polygonos; sobre educação
religiosa estão na segunda parte do cathecismo, finalmente de canto
choral já conhecem figuras, claves, valores das notas, pausas e
cantam exercicios faceis. A respeito de trabalhos de agulha já
cosem soffrivelmente.
2ª Classe
Compõe esta classe das alumnas lêm manuscripto e impresso,
escrevem bastardo e bastardinho, sabem de cór a primeira parte
do cathecismo, fazem addicção, subtração e
multiplicação de numeros inteiros. Cantam somente em choro.
3ª Classe
As alumnas desta classe lêm somente impresso, escrevem traços
na lusa algumas e outras no papel, etc.
Em relação ao ensino secundário, não havia
escola alguma, segundo o Inspetor do Distrito de Sorocaba:
Não existe aula alguma de instrucção segundaria:
e entretanto ella é mto. precisa e ouso pedir á V. Sª.
q. se digne propôr isso a Assemblea Proval, ou ao Exmo. Dr. Conselhor.
Prezide. desta Provcia., pr. qanto. perdeo esta cide. com a suppressão
da aula segundaria aqui existente de que foi Profor. o findo. Luis Augto.
de Vascos.
Assim, a Câmara Municipal resolveu criar, em 1886 , o Liceu Sorocabano,
sendo seu diretor e professor de todas as matérias (Português,
Francês, Latim e Aritmética) o Professor Artur Gomes, que
foi nomeado em 1887 e iniciou as aulas em 1888 (ALMEIDA, p. 46).
No início das aulas, estavam matriculados 39 alunos. Por determinação
da Câmara foram adotados os compêndios utilizados no Curso
Anexo à Faculdade de Direito de São Paulo . Este foi o início
de um envolvimento muito grande do governo municipal com a educação
escolar, que perdura até os nossos dias.
3.2 Escolas particulares
Enquanto na década anterior tínhamos 3 escolas particulares,
em 1883, o Inspetor de Distrito registra 5:
Existem n’esta cide. 5 aulas particulares, das quaes 3 são
mystas, e 2 do sexo masculº. das quaes uma é nocturna, e são
as segtes.: = sexo masculino = Externato regido pelo cidadão Ignácio
de Azevedo Coutinho, installado a 10 de 7brº pp. onde leciona 1as.
letras grammatica Portugueza, arithmetica, Frances, e Hystoria Patria,
pelo methodo simultaneo, existindo matriculados 22 alumnos: sendo 18 freqtes.
Aula nocturna de N. Srª. da Ponte, sustentada por Manuel José
da Fonseca, installada a 25 de Junho pp. e regida plo. Cidadão
Germano de Pilar França somte. 1as. letras e para os empregados
menores da Fabrca. de tecidos de N. Srª. da Ponte, na qual existem
matriculados, 26 alumnos, sendo todos elles frequentes. = Mystas = D.
Joaquina Genenbina de Oliveira, ensina 1as. letras e prendas domesticas,
tendo 24 alumnos matriculados e frequentes sendo 20 do femenino e 4 do
masculino.
D. Maria das Dores de Araújo Pavão, somte. de 1as. letras,
tendo 14 alumnos matriculados e freqtes.: sendo10 do sexo femenº.
e 4 do masculino.
D. Belmyra Cerqueira Leite – Religião Protestante –
instalada a 1º de 8brº. pp. onde leciona Portugues, Frances,
Ingles, Geographia, historia caligraphia, arithmetica e metrica. Existem
40 alumnos matriculados e freqtes. sendo 24 do sexo femenº e 16 do
masculº.
Existem pr. tanto nas 5 escolas particulares, matriculados 126 alumnos
de ambos os sexos não sendo freqtes. 4. Nestes pertencem ao sexo
masculº. 72, e ao femenº. 54 – sendo estas todas freqtes.
e d’aquelles 4 não freqtes.
Na relação de escolas particulares, podemos realçar:
- uma escola noturna mantida por Manoel José da Fonseca, proprietário
da Fábrica Nossa Senhora da Ponte, criada no dia da inauguração
da Fábrica (ALEIXO IRMÃO, p. 258);
- uma escola protestante.
BADDINI faz referências a outras escolas, como conseqüência
de associação da população urbana:
A instrução particular foi outra modalidade de associação
da população urbana. A primeira iniciativa foi da Loja Perseverança
III em 1870, que organizou aulas noturnas de primeiras letras gratuitas
para os moradores; no entanto, não foi duradoura. Na década
de 1880, o Club Científico e Literário manteve, entre 1882
e 1885, uma escola noturna para alfabetização de adultos
e crianças. Em 1882, também foi organizada uma aula noturna
para os operários da fábrica de tecidos Nossa Senhora da
Ponte, inaugurada naquele ano. Em 1888, foi reorganizada a escola noturna
de primeiras letras mantida pela Perseverança. (BADDINI, p. 189)
Já, Aluísio de Almeida faz referência à existência
de 20 escolas particulares, em 1887 (ALMEIDA, p. 46). No entanto, estas
escolas particulares tinham existência curta. À exceção
das escolas ligadas às associações, o fato parece
dar razão à afirmação de que os professores,
que abriam estas escolas, “por não terem outro ofício,
se aproveitavam da liberdade de ofícios e profissões estabelecida
pela Constituição de 1824, e peregrinavam, de cidade em
cidade, abrindo escolas (...)”. (MANOEL, p. 27).
4. Considerações gerais
O período estudado nos mostra Sorocaba em grandes transformações
econômicas e sociais. A estrutura urbana se modifica. A cidade vai
se tornando um centro urbano de expressão, como mostra a visita
da família Imperial por duas vezes, no período.
A educação passa, também, por mudanças. Há
mudanças em relação à sua valorização
pela população e há mudanças, especialmente,
no aspecto numérico.
Nas escolas mantidas pela Província, há um aumento considerável
de seu número: de 4, no final da década anterior, chegamos
a 12 na década estudada. O número de alunos passa de cerca
de 150 a mais de 500. No entanto, esse atendimento, além de ser
apenas referente à instrução primária, é
feito de modo bastante precário, no que se refere às instalações
para as classes. Não há, também, o atendimento aos
candidatos à instrução secundário.
O município procura suprir a lacuna deixada pela Província
e cria um Liceu Municipal.
A escola particular, precariamente e de modo intermitente, vai, também,
suprir a falta de escolas necessárias à população.
Verificamos, também, que, neste período por nós estudado,
já há uma melhor organização e início
de consolidação da educação escolar na cidade
de Sorocaba.
REFERÊNCIAS
ALEIXO IRMÃO, José. 1969. A Perseverança
III e Sorocaba. Vol. 1: da fundação à proclamação
da república. Sorocaba: Fundação Ubaldino do Amaral,.
ALMEIDA, Aluisio de. 1951. História de Sorocaba – II volume
– 1822-1889. Sorocaba: Gráfica Guarani.
BUFFA, Ester. 2002. História e filosofia das instituições
escolares. In: ARAÚJO, José Carlos Souza & GATTI JÚNIOR,
Décio (Organizadores). Novos temas em história da educação
brasileira. Instituições escolares e educação
na imprensa. Campinas: Autores Associados, Uberlândia: EDUFU.
BADDINI, Cássia Maria. 2002. Sorocaba no império: comércio
de animais e desenvolvimento urbano. São Paulo: Annablume.
MANOEL, Ivan A. 1996. Igreja e educação feminina –
1859/1919 – a face do conservadorismo. São Paulo: Editora
da Universidade Estadual Paulista.
SÃO PAULO [ESTADO]. 1890. Exposição apresentada ao
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no dia 18 de Outubro de 1890. São Paulo: Typ. Vanorden & Comp.,
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SÃO PAULO [PROVÍNCIA]. 1880. Relatorio apresentado á
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(23/06/05).
SÃO PAULO [PROVÍNCIA]. 1881. Relatorio apresentado á
Assembléa Legislativa Provincial de S. Paulo pelo Presidente da
Provincia Laurindo Abelardo de Brito no dia 13 de Janeiro de 1881. Santos:
Typographia a vapor do Diario de Santos, p. 6-40. <http:brazil.crl.edu/bsd/bsd/1025/000002.html>
(23/06/05).
SÃO PAULO [PROVÍNCIA]. 1882. Relatório apresentado
á Assembléa Legislativa Provincial de S. Paulo pelo 1º
Vice-Presidente da Provincia Conde de Três-Rios e apresentado no
acto da installação da mesma Assembléa pelo 4º
Vice-Presidente Dr. Manoel Marcondes de Moura e Costa. Santos: Typographia
a vapor do Diario de Santos, p. 22-30. <http:brazil.crl.edu/bsd/bsd/1026/000002.html>
(23/06/05).
SÃO PAULO [PROVÍNCIA]. 1883. Relatorio com que passou a
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Barão de Guajará o Vice-Presidente Visconde de Itú.
São Paulo: Typographia do Commercio, p. 11-14. <http:brazil.crl.edu/bsd/bsd/u1133/000002.html>
(23/06/05).
SÃO PAULO [PROVÍNCIA]. 1884. Falla dirigida á Assembléa
Legislativa Provincial de S. Paulo na abertura da 1ª Sessão
da 25ª Legislatura, em 16 de Janeiro de 1884, pelo Barão de
Guajará. São Paulo: Typ. Da “Gazeta Liberal”,
p. 11-14. <http:brazil.crl.edu/bsd/bsd/1028/000002.html> (23/06/05).
SÃO PAULO [PROVÍNCIA]. 1885. Falla dirigida á Assembléa
Legislativa Provincial de S. Paulo na abertura da 2ª Sessão
da 26ª Legislatura, em 10 de Janeiro de 1885, pelo Presidente Dr.
José Luiz de Almeida Couto.
São Paulo: Typ. Da “Gazeta Liberal”, p. 3-7. <http:brazil.crl.edu/bsd/bsd/1029/000002.html>
(23/06/05).
SÃO PAULO [PROVÍNCIA]. 1886. Relatorio apresentado á
Assembléa Legislativa Provincial de S. Paulo pelo Presidente da
Provincia no dia 15 de Fevereiro de 1886. São Paulo: Typographia
a Vapor de Jorge Sckler & C., p. 3-14. <http:brazil.crl.edu/bsd/bsd/1030/000002.html>
(23/06/05).
SÃO PAULO [PROVÍNCIA]. 1887. Relatorio apresentado á
Assembléa Legislativa Provincial de S. Paulo pelo Presidente da
Provincia Barão do Parnahyba no dia 17 de Janeiro de 1887. São
Paulo: Typographia a vapor de Jorge Seckler & Comp., p. 47-66. <http:brazil.crl.edu/bsd/bsd/1031/000002.html>
(23/06/05).
SÃO PAULO [PROVÍNCIA]. 1888. Relatorio apresentado á
Assembléa Legislativa Provincial de São Paulo pelo Presidente
da Provincia Exm. Snr. Dr. Francisco de Paula Rodrigues Alves, no dia
10 de Janeiro de 1888. São Paulo: Typographia a vapor de Jorge
Seckler & Comp., p. 11-22. <http:brazil.crl.edu/bsd/bsd/u1133/000002.html>
(23/06/05).
SÃO PAULO [PROVÍNCIA]. 1889. Relatorio apresentado á
Assembléa Legislativa Provincial de São Paulo pelo Presidente
da Provincia Dr. Pedro Vicente de Azevedo, no dia 11 de Janeiro de 1889.
São Paulo: Typographia a vapor de Jorge Seckler & Comp., p.
55-75. <http:brazil.crl.edu/bsd/bsd/1033/000002.html> (23/06/05).
SOUZA FILHO, João Dias de (Sup.). 2004. Sorocaba 350 anos –
uma história ilustrada. Sorocaba: Fundação Ubaldino
do Amaral.
Documentos
Ofício encaminhado ao Inspetor Geral da Instrução
Pública, por Januaria de Oliveira Simas, professora da 3ª
cadeira do sexo feminino, da cidade de Sorocaba, em 31 de maio de 1881.
Ofício encaminhado ao Inspetor Geral da Instrução
Pública, por Venâncio José Fontoura, professor da
2ª cadeira do sexo masculino, da cidade de Sorocaba, em 4 de junho
de 1881.
Ofício encaminhado ao Inspetor Geral da Instrução
Pública, por João Dias Vieira, professor público
da cidade de Sorocaba, em 28 de maio de 1881.
Ofício encaminhado ao Inspetor Geral da Instrução
Pública, por Gertrudes Pires de Almeida Mello, professora da 3ª
cadeira do sexo feminino, da cidade de Sorocaba, em 1 de junho de 1881.
Ofício encaminhado ao Inspetor Geral da Instrução
Pública, por Gertrudes Pires de Almeida Mello, professora da 3ª
cadeira do sexo feminino, da cidade de Sorocaba, em 1 de novembro de 1881.
Ofício encaminhado ao Inspetor Geral da Instrução
Pública, por Zulmira Ferreira de Mello, professora da cadeira do
sexo feminino, do Bairro de Jundiaqura, da cidade de Sorocaba, em 1 de
novembro de 1881.
Ofício encaminhado ao Inspetor Geral da Instrução
Pública, por Antonio Gonzaga Sêneca de Sá Fleury,
Inspetor do Distrito da Instrução Pública de Sorocaba,
em 14 de novembro de 1882.
Ofício encaminhado ao Inspetor Geral da Instrução
Pública, por Antonio Gonzaga Sêneca de Sá Fleury,
Inspetor do Distrito da Instrução Pública de Sorocaba,
em 25 de novembro de 1883.
Ofício encaminhado ao Inspetor Geral da Instrução
Pública, por Antonio Gonzaga Sêneca de Sá Fleury,
Inspetor do Distrito da Instrução Pública de Sorocaba,
em julho de 1885.
Ofício encaminhado ao Diretor da Instrução Pública,
por Escolástica Rosa de Almeida, professora da primeira aula do
sexo feminino, da cidade de Sorocaba, em 1 de junho de 1889.
Relatório do Lyceu Municipal de Sorocaba – 1888, apresentado
pelo Professor Arthur Gomes.