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| ALFABETIZAÇÃO,
MEMÓRIA E FORMAÇÃO DE PROFESSORES: AS CRIANÇAS
COMO NARRADORAS DA HISTÓRIA DA ESCOLA
Mairce da Silva Araújo UERJ/FFP O presente trabalho foi elaborado a partir das experiências vividas na pesquisa “Alfabetização, Memória e Formação de Professores”, tendo como foco central as oficinas de “resgate da memória da escola”, desenvolvidas na Escola Municipal Raul Veiga, campo de pesquisa do projeto. Desenvolvido a partir de agosto de 2004, o projeto articula-se ao Núcleo de Pesquisa e Extensão: Vozes da Educação: memória e história das escolas de São Gonçalo e tem como objetivo central: contribuir para o fortalecimento de novas práticas de leitura e escrita na escola, a partir do resgate da memória e história de seus sujeitos, e ainda possibilitar um movimento de reflexão dos/as professores/as acerca de sua própria história com vistas a garantir a sistematização e organização dos registros dessa memória. Uma breve descrição dos caminhos trilhados na pesquisa A entrada oficial na escola E. M. Raul Veiga, escolhida
pelo Núcleo para a construção da parceira de resgate
de memória nas escolas em função do fato de ser a
escola mais antiga da rede municipal de São Gonçalo, se
deu a partir de um contato inicial com a direção da escola
que nos encaminhou às coordenadoras pedagógicas. Buscando
a constituição de um grupo de trabalho pesquisadoras da
universidade- pesquisadoras da escola apresentamos e discutimos a proposta
da pesquisa em algumas reuniões de professores onde também
procurávamos exercitar uma “escuta sensível”
(BARBIER, 1985) para as demandas da escola. A constituição
do grupo de trabalho, movimento que ainda requer um processo lento de
construção de parceria, tem se apoiado mais diretamente
no envolvimento das duas coordenadoras pedagógicas da escola e
de algumas professoras que se mobilizaram pela proposta do projeto. Uma
professora criou um instrumento de investigação sobre a
memória da escola envolvendo seus alunos, coletando dados que enriqueceram
e alimentaram o acervo da escola. Além disso, as professoras envolvidas
com o movimento da pesquisa também levaram a proposta de implantação
dos núcleos de memória para as outras escolas da rede municipal
onde também trabalham. Alguns dados sobre a escola: A rede municipal de ensino de São Gonçalo é composta de 63 escolas , distribuídas por seus 5 distritos. A Escola Municipal Raul Veiga, a primeira escola da rede, pertence ao 3º Distrito – de Monjolos – e permanece como a única escola municipal do bairro, que também recebeu este nome em homenagem ao engenheiro e político Raul de Moraes Veiga, personagem influente no meio político do Estado Fluminense nas décadas de 1910 e 1920. O ato de criação da escola data de 1937,
sendo que anteriormente já ‘existia’, não legalizada,
sempre contando com espaços cedidos por fazendeiros e igrejas,
até que uma dessas chácaras foi comprada pelo então
prefeito da época Dr. Gilberto Afonso Pires e se tornou sede da
escola até o momento. Atualmente, a escola funciona em três turnos (manhã,
tarde e noite), atendendo a 938 alunos nas séries do Ensino Fundamental
e nas turmas de jovens e adultos, com um total de 32 turmas. A organização
pedagógica da escola se estrutura com 55 professores/as (15 para
o ensino primário e 40 para o ensino fundamental), dois diretores
(geral e adjunto), duas coordenadoras pedagógicas, duas orientadoras
educacionais e cinco coordenadores/as de turno; além de cerca de
35 funcionários (inspetores de alunos, merendeiras, etc.). O depoimento de um professor da escola ilustra bem o sentimento de desânimo: “Há pouco tempo revi uma foto de uma ex-diretora da escola, na festa de inauguração da maquete do novo prédio da E. M. Raul Veiga. A festa foi só para a maquete, a obra nunca saiu”.(fala de um professor da escola). Há uma promessa de anos da Prefeitura de construir um novo prédio para abrigar a escola, no entanto, tal projeto ainda não saiu do papel. A construção deste novo local para a escola seria a solução de vários problemas entre outros: a precariedade das instalações e a falta de espaço físico, que suscitou a utilização de um anexo, para abrigar as turmas do primeiro segmento do ensino fundamental, num porão cedido por uma igreja próximo a escola. Recolhendo Memórias e Depoimentos: as crianças constroem memórias da escola Ao planejar as oficinas com objetivo de conhecer o olhar das crianças sobre o passado e o presente da escola, selecionamos como ponto de partida a obra infantil “Guilherme Augusto de Araújo Fernandes” (Fox, 1995), cuja temática trata da perda e do resgate da memória. Começamos a oficina lendo a história para as crianças. Guilherme é um menino “bem novo” que quer ajudar uma senhora “bem velha” e muito amiga a resgatar sua memória, já que os acontecimentos marcantes de sua vida estavam caindo no esquecimento. Envolvido em ajudá-la, ele vai perguntando a diversas pessoas “o que é memória?” e a partir daí, vai recolhendo objetos que possam ajudar sua amiga a reconstruir suas histórias de vida e sua memória pessoal. Num segundo momento, indagamos às crianças o que seria memória para elas e pedimos que relatassem lembranças e histórias da escola. Ao mostrar-nos os materiais referentes à memória da Escola Raul Veiga que haviam trazido para a oficina (pois fora previamente solicitado, a partir de visitas às salas de aula) nos deparamos com fotos, deles mesmos, em momentos festivos vividos na escola. Cada foto mostrada ao grupo vinha acompanhada de uma história: a do primo, a da coleguinha com a qual dançara quadrilha na festa junina, a do uniforme novo, entre outras. A foto tirada no ano anterior era relembrada como uma foto muito antiga, de quando “ela era pequenina”.... Diante de nossa expectativa de recolhermos documentos, fotos, objetos, histórias, casos que remetessem à memória mais antiga da escola, das quais, evidentemente, não faziam parte diretamente, as crianças respondiam se colocando como sujeitos desta memória e retratavam a sua própria experiência com a escola. As crianças nos mostravam que também faziam parte da memória da escola e que a memória que têm da escola é constituída a partir do momento que entram na escola, que começam a fazer parte dela! Ao levar os retratos que resgatavam as experiências vividas por elas na escola, as crianças assumiam o papel de contadores da história da escola a partir de seu ponto de vista, colocavam-se como atores na produção desta história. A vivência na oficina nos obrigou a refletir sobre os desafios que a pesquisa coloca quando se lida com as crianças. Demartini (2004), reiterando a importância cada vez maior, em nossos dias, de aprender a ouvir as crianças e os jovens, como condição para encontrar soluções aos graves problemas que a sociedade brasileira atravessa, questiona; até que ponto estamos escutando suas vozes, muitas vezes caladas? Ao entendermos que uma criança, pertencente a qualquer grupo social, mesmo num breve espaço de tempo, tem uma memória construída – e nossas crianças na oficina mostravam isso – ouvir os relatos infantis nos coloca diante de novos referenciais fundamentais para um conhecimento mais amplo da realidade. É a partir do relato das crianças trabalhadoras, por exemplo, que Martins (1991) nos alerta sobre a supressão da infância, sobre a diferença entre as “crianças que não têm infância” das “crianças que têm infância”. Por outro lado, refletindo sobre “as memórias” que as crianças traziam para nós, redescobríamos, que o espaço das oficinas, inicialmente, pensado como um ambiente alfabetizador para as crianças, estimulador de novas práticas de leitura e escrita na escola articuladas a pesquisa e registro da própria história, se configurava, igualmente, alfabetizador para nós pesquisadoras, à medida que nos instigava a novas reflexões sobre o processo da pesquisa. As crianças como narradores da história da escola No terceiro momento da oficina as crianças foram divididas em três grupos e receberam tarefas diferenciadas: “Tirando fotos: outros olhares sobre a escola” Ao primeiro
grupo de alunos (as) foi proposto que fotografassem a escola. A organização
ficou por conta do grupo que começou por elaborar um roteiro indicativo
dos espaços a serem fotografados e dos responsáveis pela
fotografia. Duas questões norteavam a organização
do roteiro: a preocupação de que todos os participantes
do grupo fizessem pelo menos uma foto e quais os lugares mais significativos
para fotografar. Elegeram a frente da escola, a secretaria, a sala da
direção, como tais lugares. Marcando a disputa meninos /
meninas também fizeram questão de “constatar”
e registrar a diferença entre os banheiros feminino e masculino.
“Conhecendo e imaginando histórias da escola” Ao segundo grupo foi proposta uma entrevista, que deveria ser feita com algum funcionário da escola que pudesse compartilhar suas memórias e histórias vividas na escola. Este grupo também se reuniu e organizou um roteiro de perguntas a serem feitas, escolheram a diretora adjunta e com posse do gravador foram entrevistá-la e ficaram entusiasmados com as descobertas feitas sobre a história da escola. Como foi o caso das descobertas sobre sua fundação (através da doação de uma sala) ou do porque do nome da escola homenagear o político Raul Veiga – o que remonta a uma época onde era recorrente batizar os estabelecimentos de ensino com nomes de “gente importante”, de eventos históricos, de indivíduos que tiveram participação influente na história. Abaixo, a transcrição da entrevista, realizada por elas, nos mostra que as crianças assumiram o papel de entrevistadores para recolher dados sobre os acontecimentos que marcaram a história da escola e nesse processo também se apropriavam dessa história. - Há
quantos anos a senhora trabalha na escola? A declaração de Marcela, a entrevistadora, sobre as informações a respeito da origem da escola, adquiridas durante a entrevista, confirma o engajamento das crianças no processo de resgate da memória: Eu gostei da história que a diretora adjunta contou que teve uma professora que deu uma casa para começar o Colégio Raul Veiga. Por outro
lado, para construir o roteiro com as perguntas da entrevista, as crianças
tiveram que superar suas dificuldades com a escrita. Se, num primeiro
momento, o desânimo prevaleceu, quando motivadas a se tornarem “crianças-memórias”
percebendo que poderiam sim realizar esse trabalho, mostraram-se confiantes
e determinadas a fazê-lo. O terceiro grupo seria o responsável pela produção de um mural, que seria feito a partir do material produzido pelos outros grupos, mas, devido à agitação geral que tomava conta das crianças, esta atividade não foi desenvolvida em sala de aula. Pedimos a este grupo de alunos que desenhassem o lugar que mais gostavam na escola. Isso resultou numa grande “farra” entre eles, que, em sua maioria, escolheu a quadra como seu lugar favorito, alegando “Eu gosto da quadra, pois é lá que eu brinco”, como disse Petrick. Contudo,
um outro desenho nos chamou atenção: o desenho de Ewerthon,
ao representar a escola como um híbrido casa/escola/igreja com
a inscrição “O Raul Veiga era assim”.
A representação de Ewerthon sobre a escola no presente nos remete ao passado. Revendo o histórico das escolas de São Gonçalo, percebemos que estas não possuíam um prédio especial para funcionar, eram encontradas em casas, permanecendo nelas, em alguns casos, até os dias de hoje. Como já afirmamos anteriormente, esse é o caso da E. M. Raul Veiga: funciona em um espaço físico pequeno, onde antes era uma granja e, mais recentemente, como medida – paliativa – do governo, para criar mais vagas na escola, lançou mão de um anexo, ocupando o porão do prédio de uma igreja, que se encontra próxima à escola. Talvez esteja aí a resposta para os desenhos das crianças, ao expor suas representações de escola a partir de um misto casa/escola/igreja “naturalizando” essa imagem como a imagem do espaço escolar. Contudo, é importante refletir sobre as implicações dessa “naturalização”: pois, se é a partir desse imaginário que as crianças constroem seus referenciais e criam suas memórias da escola, que concepção de escola vai ficar marcada para as crianças? Algumas conclusões provisórias sobre a experiência vivida: Janela sobre o erro Ocorreu
no tempo das noites longas e dos ventos de gelo: certa manhã floresceu
o jasmim do Cabo, e no jardim da minha casa, o ar frio impregnou-se de
seu aroma, nesse dia também a ameixeira floresceu e as tartarugas
despertaram. Após a realização das oficinas com as crianças vivíamos o sentimento da derrota. O desenvolvimento conturbado da oficina e a agitação das crianças, em nossa primeira avaliação, influenciara o rendimento da atividade, que não produziu os resultados esperados. O processo de reflexão sobre o vivido, entretanto, nos mostrou o que não enxergáramos no primeiro momento: as crianças como sujeitos produtores de memória. Ressignificando a experiência vivida e aprendendo com Galeano a abrir uma janela sobre o erro talvez possamos afirmar que graças aos “atropelos” na seleção de algumas atividades, ou no modo de desenvolvê-las com as crianças, pudemos rever nossos próprios pressupostos e entender melhor o desafiante processo de produção da memória da escola. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA: ARAÚJO,
Mairce da S. Alfabetização tem conteúdos? In: GARCIA,
R. L. (org.) A formação da professora alfabetizadora: reflexões
sobre a prática. São Paulo: Cortez Editora, 1996. BARBIER,
René. A pesquisa-ação na instituição
educativa. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985. |
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