Roselene Aparecida de Macedo?
Partindo do pressuposto de que o leitor ocupa posição
determinante do sistema literário e da história da leitura
e de que pelos dados pessoais é possível obter dados locais
e mais gerais sobre leitura, sob a perspectiva da investigação
narrativa, a temática enfocada na pesquisa que realizei durante
o curso de doutorado em Estudos Literários girou em torno da forma
como nove leitores piracicabanos liam e concebiam a leitura, entre os
anos 30 do século XX até os primeiros anos do século
XXI.
De acordo com o apontado por Darnton (1992b), os elementos internos e
externos sobre a leitura - onde, quando, porque e como - podem ajudar
a compreender como o homem tem lido e, por conseguinte, podem nos aproximar
de um entendimento de como ele compreende a vida. Para ilustrar essa idéia
é possível tomar o exemplo citado por esse autor (1992a,
p. 7), segundo o qual as pesquisas sobre o que se lia no Antigo Regime
foram responsáveis pelas indicações sobre as modificações
da ideologia monárquica e as origens ideológicas da Revolução
Francesa.
Conforme sugere Darnton (1992b, p. 202-203-229), os estudos sobre a história
da leitura possibilitam também desenvolver uma teoria da reação
do leitor, ou seja, “a teoria pode revelar a variedade nas reações
potenciais a um texto e a história pode mostrar que as leituras
realmente ocorreram dentro dos limites de um corpo imperfeito de evidência”.
Da mesma maneira pensam Lyons e Leahy (1999) ao considerarem
que a história da leitura se constitui como um estudo das normas
e práticas que determinam as respostas dos leitores àquilo
que lêem. Por isso, embora o propósito não tenha sido
o de analisar a reação do leitor diante de um texto específico,
especialmente os subsídios proporcionados pela Teoria Literária,
foram fundamentais para o estudo realizado.
Para aprofundar um pouco mais os estudos sobre história oral, fazendo
uso de uma bolsa CAPES, durante os meses de março a junho de 2003,
tive oportunidade de realizar um estágio, na Università
di Roma, La Sapienza, em Roma, sob orientação do professor
Alessandro Portelli, do departamento de anglística, na Università
Degli Studi di Roma “La Sapienza” e membro do conselho da
Associação Internacional de História Oral, autor
de inúmeros artigos e livros sobre o tema.
Os conteúdos encontrados em entrevistas feitas em Roma levaram-me
a pensar em outras realidades do mundo. E, por ter sido possível
notar algumas aproximações entre os modos de ler e de conceber
a leitura entre os piracicabanos e os italianos, a título de ilustração,
atrevi-me a incluir algumas dessas entrevistas na pesquisa realizada.
Nas entrevistas concedidas pelos piracicabanos e pelos italianos, busquei
obter dados sobre os modos de ler, especialmente sobre o lugar e o momento
destinados à leitura, ter algum dado sobre as contribuições
da escola e da família para desenvolverem-se como leitores, saber
de que maneira tinham acesso ao que liam, ou seja, se emprestavam, compravam
e, se compravam, de que maneira era feita a aquisição do
que liam. Busquei saber, ainda, o que liam e o que os levava a fazer suas
escolhas. Procurei conhecer como era apresentado, fisicamente, o que liam:
o formato dos livros, se eram ilustrados, como eram suas encadernações.
Mostrou-se interessante também obter informações
sobre o papel da biblioteca pública municipal em suas vidas de
leitores, e sobre a constituição física das bibliotecas
que freqüentavam. Julguei que seria importante descobrir em que medida
os meios de comunicação mais modernos, como o computador,
havia, ou não, modificado o acesso à leitura e o modo de
ler.
Iniciava as entrevistas, pedindo para que os sujeitos se identificassem,
dizendo o nome, a idade e a profissão e, em seguida, com uma questão
aberta, pedia para que contassem, sem necessariamente seguir uma ordem
cronológica, as suas recordações sobre leitura. Se
os sujeitos não tocassem em assuntos de meu interesse, tendo alguma
oportunidade, eu os induzia diretamente e procurava saber o que pensavam.
Naturalmente as perguntas iam surgindo, à medida que necessitava
esclarecer algo daquilo que diziam, ou que silenciavam. Por esse motivo,
no decorrer das entrevistas, esse roteiro inicial precisou ser modificado,
já que, em algumas entrevistas, certas questões mostraram-se
pertinentes e outras, improcedentes. Em outros casos, algumas das revelações
que faziam, forneciam novas pistas e possibilidades para ampliar os questionamentos
iniciais.
Feita a seleção dos dados que, para mim eram considerados
importantes, procedi aos comentários sobre as falas dos entrevistados.
Uma das partes abordava assuntos relacionados aos espaços onde
os leitores realizavam suas leituras: no âmbito familiar, escolar
ou na biblioteca. A outra, a assuntos ligados às diferentes formas
de lembrar; à importância de aprender a ler e à experiência
da leitura, à compreensão de como se dá a relação
entre os objetos da leitura e às formas de relacionarem-se com
eles e, ainda, algo sobre as formas de aquisição dos materiais
de leitura.
Acreditando que os modos de ler podem trazer indicações
sobre os modos de conceber a leitura e o inverso também pode acontecer,
apenas por uma questão didática, fiz uma separação
dos assuntos das duas últimas partes do texto da pesquisa. Por
não ter tido a preocupação em escrever, separadamente,
sobre história ou sobre leitores, uma vez que as histórias
contêm os leitores, assim como os leitores estão imersos
nas histórias, tal pesquisa situou-se na fronteira em que se cruzam
os modos de ler e conceber a leitura, e procurou desenvolver, tanto uma
história da leitura como uma teoria da reação do
leitor, ocasionada pela experiência da leitura.
Dentro desse horizonte, pelas histórias de alguns dos moradores
de Piracicaba e de alguns dados bibliográficos, foi possível
conhecer aspectos locais e outros mais gerais sobre leitura.
No aspecto mais particular, uma das premissas conclusivas alcançadas
foi que a família pode agir como incentivadora para que os leitores
adquiram o gosto pela leitura. Alguns dos entrevistados receberam incentivo
em casa, dos pais ou de outros familiares e, em alguns casos, até
passaram a ter os mesmos comportamentos dessas pessoas:
Minha mãe sempre teve um monte de livros dela [de Agatha Cristie].
Ela sempre gostou de ler (...) Minha mãe sempre falava [sobre o
conteúdo dessa leitura]. Um dia eu tive curiosidade e comecei a
ler. Acho que Agatha Cristie tem um jeito de escrever que puxa você
pro livro, porque ela só revela o assassino, ou qualquer outra
coisa, bem no final do livro, então você fica querendo saber
o que vai acontecer. Acho bem legal...
Outros, embora não tivessem “herdado” de algum dos
familiares o preferência por algum autor, por terem vivido em um
ambiente propício para sua realização, acabaram por
desenvolver o hábito de ler:
Ele [o pai] lia, às vezes, em voz alta pra minha mãe, minha
mãe estava costurando, fazendo alguma coisa e meu pai lia em voz
alta pra minha mãe, e comentava. E eu me lembro, que, às
vezes, meu pai chorava, quando lia alguma coisa, ele se comovia com relatos,
fatos verídicos de guerra, de heroísmo, de batalhas, essas
coisas...
Apenas um dos recordadores adquiriu o gosto pela leitura por si só
ao longo da vida. Quando criança dispunha apenas dos almanaques
ofertados pelas farmácias e, na escola, nem os professores lhe
indicavam livros para ler.
Do que esses leitores deixaram entrever, a forma de ler preferida é
a solitária. As leituras coletivas aconteciam no ambiente familiar
apenas quando os leitores tinham pouca idade. O pai, e na maior parte
das vezes a mãe, lia as histórias infantis para seus filhos
pequenos. Tendo a possibilidade de lerem “sozinhos” optaram
por fazer suas leituras em ambientes tranqüilos, dentro de suas casas,
na maioria das vezes no quarto e, mesmo quando estavam em suas camas,
sentados:
Cama e poltrona no meu quarto, sempre... Sempre, sempre... às vezes
é na sala, sempre assim... Gosto de ler sozinha e em silêncio,
sempre, sempre.
Quando os leitores tomam algum livro emprestado de bibliotecas públicas,
em geral, o levava para casa, para que possa ser lido sem a presença
de outras pessoas. A freqüência à biblioteca pública,
ao menos para os leitores entrevistados, aconteceu quando freqüentavam
a escola, durante a fase infanto-juvenil ou quando não tinham possibilidades
de adquirir os livros de que necessitavam.
Os entrevistados mais novos diziam recorrer à Internet, em suas
casas, para buscar notícias sobre o mundo ou sobre o país,
ou dados para a realização de alguma pesquisa escolar.
Por essas declarações foi possível entrever que a
biblioteca desempenha papel importante, principalmente na vida de pessoas
que não possuem recursos para dispor de todos os materiais de leitura
de que necessitam.
Uma nova premissa conclusiva foi alcançada pelas falas de alguns
dos entrevistados. Leitores mais jovens mostraram ter clara a distinção
entre o que é o que não é literário e, admiravelmente,
lidam com esse conceito, até sem conhecê-lo. Alguns leitores,
embora não usem o termo literariedade, mostram conhecer essa idéia,
quando dizem valorizar mais a maneira como são escritas as histórias
do que propriamente o seu enredo:
Do ponto de vista de como as histórias eram tratadas, os “best
sellers” eram como uma reta sem graça pra mim. Agora, a distinção
entre um outro tipo é exatamente essa: os clássicos, vamos
chamar assim, acho que eles nos prendem. Mesmo que você saiba o
que vai acontecer, por exemplo, o livro do Aluísio Azevedo, eu
li duas vezes porque o jeito como a história é contada prende.
É o caminho, não exatamente onde você chega, mas é
o modo como você chega.
Pela maneira como outros entrevistados caracterizaram um bom livro, foi
possível concluir que a maturidade do leitor pode ser alcançada
não pela quantidade, mas pela qualidade de sua leitura. Essa observação
ficou evidente a partir da fala de um adolescente, quando ele se manifestou
dizendo que:
(...) não adianta você pegar a melhor história do
mundo e pôr alguém, um “Zé Ninguém”
para escrever, que não vai saber escrever. Um livro bom é
um livro escrito por um escritor bom. Quem sabe escrever, sabe pegar palavras
que não tem nada a ver e empregá-las dentro do assunto.
Mesmo não tendo nada a ver, consegue fazer com que ela se encaixe
dentro do assunto de um jeito que fique tudo a ver e que não “encha
lingüiça”, mas que não seja também superficial.
Pude constatar que, em geral, também nessa cidade, a escola tem
desempenhado papel pouco importante para o desenvolvimento dos leitores
entrevistados. Mesmo indicando livros de ficção, de autores
considerados da “alta” literatura ou da literatura juvenil,
os leitores, em suas entrevistas, fazem distinção entre
os livros de suas preferências e os indicados pelos professores
de Língua Portuguesa ou de Literatura, denominando esses últimos
de “livros de escola”.
Quando perguntei como faziam as leituras dos livros “de escola”,
ou seja, dos livros “indicados” pelos professores, os memorialistas
confessaram-me que, normalmente, as fazia com má vontade, por obrigação,
porque normalmente os livros são “chatos”. Muitas vezes,
mesmo que não estejam gostando da leitura, não abandonam
o livro, nesses casos, “pulam páginas”, “lêem
rápido” ou “não prestam atenção”:
Eu li “Volta ao mundo em oitenta dias” na versão original
. Nossa! Você pula dez capítulos e a história continua
tendo o mesmo sentido! Dez capítulos “enchendo lingüiça”...
Daí eu pulo... Eu pulo, leio um parágrafo, leio outro...
Na “Volta ao mundo em oitenta dias” eu não pulei porque
ia ter prova, mas li rápido, sabe?(...) Quando faço isso,
eu paro e penso: Nossa, eu não lembro nada do que eu li!
Mas, fazendo um balanço dos livros indicados pela escola, um outro
entrevistado considera que, mesmo essas leituras “chatas”
acabam “ajudando”. Admite, por outro lado que, se os professores
permitissem que os próprios alunos escolhessem os livros, “ajudaria”
muito mais ainda. Disse também que a atitude de seus professores
acaba “espantando” alguns de seus colegas, o que os leva a
não querer ler nem esses e tampouco nenhum outro livro. De uma
maneira bem humorada, tenta achar uma justificativa para explicar a atitude
do professor em agir assim:
(...) A escola não pode dar um livro que eu goste e o resto não
goste. Então ela tem que dar um que ninguém goste. Pronto,
não contentou ninguém! (...)
No que diz respeito ao trabalho com leitura, conforme foi descrito por
alguns entrevistados, em algumas escolas da rede particular de Piracicaba,
ainda o aluno é “treinado” para ir bem nos exames para
ingresso no ensino superior:
Na escola é assim... tem um professor que só trabalha com
livros que vão cair na FUVEST . Então, quando sai a lista,
ele fica o ano inteiro falando. Ele conta toda a história, ele
usa bastante a aula pra contar a história e depois ele passa o
resumo inteiro. Então, se você não quiser, você
não precisa ler o livro, que ele já passa tudo. Só
se você tiver algum interesse em ler... Eu li dois, porque eu quis,
eu gostei da história: “O Primo Basílio” e “Memórias
Póstumas”. Ah, eu gostei, também... foi o primeiro
livro que ele explicou, daí eu queria ler, pra ver se ajudava mais,
mas deu na mesma...Também é raro minhas amigas lerem algum
livro, a aula dele é bem legal.
Esse relato torna-se interessante, quando se pensa que as condições
econômicas podem determinar um ensino de “boa” qualidade.
No caso, esse relato foi dado por uma aluna de escola da rede particular
de ensino.
Quando alguns dos entrevistados italianos enfocaram a leitura na escola,
revelaram que as práticas pedagógicas de seus professores
não se diferenciam muito do que revelou esse piracicabano:
...sicuramente lo stimolo veniva della scuola: “leggete questo,
ve lo portate pe’ le vacanze”. Però, poi me so’appassionato,
ho cominciato a leggelo da solo. A scuola m’hanno dato solo il filone,
poi ho continuato a tutti i libri del filone che m’hanno dato a
scuola .
Embora os leitores mais jovens tivessem acesso a jornais, gibis e revistas
e aos meios de comunicação mais modernos, como o computador,
por exemplo, o culto ao livro impresso, na forma como se conhece hoje,
continua existindo. Conforme os sujeitos entrevistados indicaram, preferem
tê-lo às mãos, para poder estabelecer com ele algum
tipo de contato físico. Alguns deles, mesmo sendo usuários
do computador, declararam nem mesmo saber o que vem a ser um e-book. Ao
perguntar a um adolescente piracicabano se ele lia e-books, manifestou-se
assim: “O que é?!” Quanto perguntei a um outro se ele
preferiria o livro eletrônico, disse:
O livro nas mãos é muito melhor! (...) É legal você
sentir ele, dá mais emoção do que pegar o livro na
Internet, além do que eu nunca confio em tudo que vejo. Eu nunca
tenho certeza se o texto que está na Internet é realmente
a história. Então, eu prefiro pegar o livro e sentir ele.
(...) Acho que você ter o livro nas mãos dá mais emoção,
porque ele pode ser grande ou pequeno, vai ser mais portátil, além
dos desenhos da capa, às vezes não tem no meio, mas tem
na capa. É muito legal ficar pegando nos livros. (...)
E, para adquiri-los, esses leitores continuam preferindo sair de suas
casas e ir até as livrarias. Piracicaba, porém, não
oferece muitas opções de lugares onde esses livros possam
ser comprados. A comercialização de material impresso não
costuma sobreviver por muito tempo nessa cidade. As livrarias chegam a
existir por alguns anos, mas acabam por desaparecer quando uma nova é
instalada.
É evidente que os altos preços dos materiais impressos coíbem
a sua compra e esse motivo poder ser uma possível explicação
para a existência de um número reduzido de livrarias na cidade.
Constitui-se ainda como uma interrogativa, no entanto, saber por que a
maioria dos entrevistados daquela cidade não tem o hábito
de freqüentar ou adquirir seu material de leitura nos estabelecimentos
onde são vendidos livros usados.
Pelos dados mostrados quando os sujeitos tratam sobre os tipos de leitura
que preferem realizar, com alguma reflexão torna-se possível
chegar à conclusão de que a indústria cultural contribui
para a manifestação desse tipo de comportamento.
Até se tornarem leitores autônomos e, a partir daí,
manifestarem as suas próprias escolhas, muitos podem ser influenciados
pelos apelos de mercado. Esse mercado, por sua vez, atua no sentido de
fazê-los comprar os livros “da moda”, os quais, no momento
em que são lançados, ainda não estão disponíveis
em segunda mão.
Essa interpretação é baseada no fato de alguns dos
sujeitos entrevistados terem lido os mesmos materiais de leitura quando
tinham a mesma faixa etária. Os leitores piracicabanos e italianos
mostraram que alguns livros e coleções marcaram gerações.
Hoje, nessas duas diferentes sociedades, por exemplo, o que tem se apresentado
como leitura preferida é a série Harry Poter, da autora
J. K. Rowling.
No que se refere a aspectos mais gerais ligados ao assunto leitura, desde
a invenção de Gutenberg, o consumo dos materiais impressos
só tem aumentado. Em decorrência de haver um maior acesso
a eles, nunca, segundo pesquisa realizada por Anne-Marie Chartier e Jean
Hébrard (BELO: 2002, p. 21), em nenhuma outra época, as
pessoas leram tanto como atualmente.
Contudo, pelos dados colhidos ao longo desta pesquisa por meios bibliográficos
mostrou que o mau desempenho da leitura é um problema que afeta
muitos leitores em diferentes sociedades.
Recentemente, a prova convincente de que a leitura, de modo geral, vem
sendo tratada de modo insatisfatório em nosso país, foi
o lugar de último colocado entre os trinta e dois países
participantes do teste patrocinado pela Organização para
a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Realizado
pela primeira vez em 2000, o Pisa (Programa Internacional de Avaliação
de Alunos) divulgou relatório em dezembro de 2001, revelando que,
entre os países participantes do teste, o Brasil é o pior
da turma. Ampliando ainda mais esses dados, segundo números apontados
pelo III Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional (Inaf), apresentado
em Setembro de 2003, pelo Instituto Paulo Montenegro e pela ONG Ação
Educativa (RODRIGUES: 2003, p. 16-17), apenas um quarto da população
brasileira, entre quinze e sessenta e quatro anos demonstra domínio
pleno da compreensão de textos. Para a maioria, 67%, a conquista
da leitura limita-se à localização de informações
simples em enunciados com uma só frase ou à capacidade para
identificá-las em textos curtos. O grupo restante, 8%, não
consegue sair do ponto de partida, impedido pelo analfabetismo próprio
ou funcional.
Estando cientes de que o analfabetismo pode custar caro, países
capitalistas investiram em outras pesquisas, a fim de conhecer qual o
desempenho da leitura entre sua população. Nos Estados Unidos,
por exemplo, um outro estudo recente sobre o analfabetismo funcional revelou
que um em cada oito adultos não era capaz de ler (MARIA: 2002,
p. 17).
Como enfatizou Castro (2002), ao comentar os resultados do Pisa, o fato
de apenas 1% de brasileiros de elites serem capazes de ter uma compreensão
perfeita dos textos escritos, confirmam que a incapacidade de decifrar
um texto escrito não se deve à pobreza, mas a um erro sistêmico
no modo de ensinar. Justamente por esse motivo, a preocupação
com o desempenho da leitura, conforme alguns dados apresentados por Maria
(2002, p. 17-18-19- 20), atinge até mesmo os países mais
ricos, como o Canadá, a França, Estados Unidos e Reino Unido.
Alguns leitores, como foi o caso dos sujeitos entrevistados neste estudo,
conseguiram transgredir barreiras e tornarem-se leitores. Pelo que as
pesquisas indicam, uma grande parte da população brasileira,
composta por pessoas tidas como “alfabetizadas”, não
são capazes de, ao menos, elaborar sentido a partir da identificação
de palavras.
Para a análise do que se mostrou ser um problema comum em diversos
países, é preciso levar em conta que ele não se relaciona,
em âmbito geral, ao fato dos leitores não lerem e tampouco
a questões de ordem estritamente econômicas.
Eliminando-se esses fatores, é possível pensar que a leitura
extensiva, feita tão somente para a acumulação de
conhecimento, não proporciona a interação entre o
texto e aquele que o lê e muito menos contribui para o desenvolvimento
do sujeito, seja no aspecto pessoal como no social.
Em âmbito mundial, algumas sociedades vêm passando por processos
de transformação, o que as faz tornarem-se mais complexas.
Os dados trazidos para o universo desta pesquisa mostram que, em função
das transformações ocorridas nessas sociedades, os níveis
de exigência com relação ao desempenho da leitura
também se modificaram, fazendo nascer uma mudança de ordem
conceitual sobre a alfabetização.
Hoje, o termo letramento que, em termos práticos, não se
vincula mais à idéia mecânica de codificação
e decodificação de signos, mas liga-se à idéia
de saber viver no estado ou condição de saber ler e escrever
e processar as informações adquiridas pela leitura e aplicá-las
a situações próximas da vida real, começa
a pedir licença para entrar nas instituições de ensino.
Dentro do universo analisado, entre outras medidas a serem analisadas,
mostra-se importante, principalmente no contexto escolar, lugar privilegiado
do saber e da difusão da leitura, pensar em maneiras de oferecer
ao sujeito aprendente, a possibilidade de interagir com o texto, para
o desenvolvimento da cognição e de outras habilidades, necessárias
para o desempenho da autonomia e da liberdade.
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