Valdelice Borghi Ferreira - Universidade de Sorocaba-
Uniso.
I INTRODUÇÃO
Este estudo é parte da pesquisa, em andamento,
que privilegia, como recorte espacial e temporal, a cidade de Sorocaba,
S.Paulo, no período de 1889 a 1920, tendo como norte a investigação
do significado do movimento operário para a história da
educação escolar do município. O estudo, associado
a outros, objetiva contribuir para o redesenhamento da história
da educação e história dos movimentos sociais na
região, para a sistematização de fontes documentais,
uma vez que sua dispersão, aliada à má conservação
é um problema que persiste e dificulta a pesquisa sobre a história
da cidade,e, também, para a superação do caráter
lacunar da história da educação escolar da cidade
de Sorocaba.
Neste recorte pretendemos dar visibilidade ao tratamento dado pela imprensa
à educação escolar, enfocando de maneira especial
a imprensa operária, representada pelo jornal O Operário,
que circulou no município no período de 1909 a 1913. O privilegiamento
das especificidades locais e regionais, sem dúvida, não
poderá deixar de considerar suas relações com a totalidade,
com o universal ( SANFELICE,2002).
Objetivamos com isso, refletir sobre o passado educacional, reflexão
esta, direcionada por novos interesses e procedimentos de análise,
não fundamentados apenas na historiografia que prioriza os discursos
legais ou que considera a escola como instituição atemporal,
mas, sim, procurando entender a escolarização da sociedade
em sua perspectiva histórica.(VIDAL; HILSDORF, 2001).
Na compreensão de Gatti Junior
Atualmente, percebe-se que há um afastamento da
produção proveniente do campo da história da educação
do caráter prescritivo e justificador de antes e um redirecionamento
no caminho da elaboração de interpretações
sobre o passado educacional brasileiro em sua concretude, mediante consulta
a uma série enorme de fontes primárias e secundárias
que não mais apenas a legislação educacional (GATTI
JUNIOR, 2002,p.16).
Nessas reflexões reconhecemos a importância
da imprensa enquanto fonte documental,seja ela especializada, pedagógica,
ou representada por jornais ou outras publicações empresariais.
A análise dessas publicações proporciona condições
para a compreensão de uma realidade educacional, na maioria das
vezes não materializada nas fontes tradicionais.
II CONTEXTUALIZAÇÃO
Para maior compreensão do tema entendemos como
necessária uma breve contextualização do espaço
delimitado para o estudo.
No período enfocado deu-se o início da industrialização
de Sorocaba e de S.Paulo e a inserção desses espaços
no modo de produção capitalista industrial, de exportação
de mercadorias, principalmente têxteis (capitalismo concorrencial
), fase já ultrapassada nos países mais avançados.
O final do século XIX, assistiu ao nascimento do capitalismo monopolista,
industrial e bancário, que se integram, formando o capital financeiro,
que leva à partilha do mundo entre os grupos capitalistas (LENIN,
1987). Inicia-se um período de imigração para a América
(fazer a América), nos países de menor concentração
industrial, caso da Itália, Espanha, Portugal, regiões “onde
predominava a pequena indústria de propriedade individual ou familiar,
na qual a organização do trabalho se baseava amplamente
em trabalhadores qualificados, nos ex-artesãos convertidos em assalariados”
(FAUSTO, 1976, p.67).
A entrada de imigrantes no Brasil e, principalmente em S.Paulo,.vai contribuir
para o processo de industrialização, ampliando o mercado
de trabalho e de consumo, aplicação de poupança no
comércio e na indústria, uma vez que havia dificuldades
quanto à posse de terras (FAUSTO, 1976). O imigrante pobre tinha
como objetivo alcançar melhor condição de vida, ou
mesmo tornar-se proprietário; seus anseios foram frustrados pela
sociedade que negava muitas vezes direitos mínimos de uma vida
digna. A realidade encontrada favoreceu o surgimento dos movimentos operários
e as cidades ofereciam o ambiente propício para a expansão
do ideário revolucionário Ao lado dos trabalhadores vieram
também intelectuais, principalmente anarquistas, provenientes de
países onde o movimento libertário alcançou alguma
expressão, como a Itália, Espanha e Portugal. É importante
reconhecer que o movimento operário ganhou expressão com
a criação de organizações, partidos, centros
operários, sindicatos, que atuavam na organização,
incentivo e divulgação do ideário revolucionário.
No que se refere à educação, os congressos, partidos
e centros operários das várias correntes ideológicas
defendiam suas idéias, que aparecem esparsas nos seus programas,
em meio à defesa de direitos trabalhistas, com ênfase na
questão salarial e jornada de trabalho. O Programa do Centro Operário
Radical, de 1892, determinava, em seu ponto 7°, a necessidade de “Reforma
do ensino. Instrução primária obrigatória.
(CARONE, 1973, p.222). O Partido Socialista Brasileiro, de 1902, que aglutinou
tendências marxistas e anarquistas, apresentou em seu Programa,
o ponto n° 9, reconhecendo a necessidade de instrução
laica e obrigatória até os 14 anos, e a criação
de escolas rurais e profissionais e noturnas para os operários
(CARONE, 1973, p.232). O I Congresso Operário, de 1906, demonstra
a sua preocupação com a educação, na resolução
tomada no Tema 7, da sub-divisão “Sobre ação
operária”, considerando que a escola oficial difunde apenas
idéias burguesas, aconselha aos sindicatos a criação
de escolas para os operários, apropriadas à sua educação(
PINHEIRO; HALL, 1979,p.53)
O 2º Congresso Estadual Operário de S.Paulo, realizado em
1908, discutiu a necessidade de criação de escolas por e
para operários no Tema nº 22: “É útil
a fundação de escolas?”, concluindo que os sindicatos
e as Federações Operárias deveriam encarregar-se
da fundação de escolas livres (RODRIGUES, 1969,p.24) Em
1919, foi criado o Partido Comunista do Brasil pelos anarquistas José
Oiticica e Edgard Leunroth e em 1922 foi criado o Partido Comunista de
modelo russo (CARONE, 1973.p.257). No programa do partido de 1919, sobre
educação, constam a obrigatoriedade do ensino integral até
os 20 anos, para todos e a necessidade da educação profissional,
que deveria acompanhar a educação mental. (CARONE, 1973,
p. 255 e 256).
Fazendo um breve recorte para a situação educacional brasileira
no período delimitado para o estudo, constatamos que o país
caracteriza-se pela dependência econômica externa, que se
refletia na estrutura social e, conseqüentemente, na organização
escolar. Foram várias as reformas realizadas na organização
escolar, revelando “uma oscilação entre a influência
humanista clássica e a realista ou científica” (RIBEIRO,
1993, p.79) – Código Epitácio Pessoa (1901), reforma
Rivadávia (1911), reforma Carlos Maximiliano (1915), e um pouco
mais tarde, a reforma Luis Alves/Rocha Vaz (1925). Os problemas, como
o analfabetismo, se agravaram, sem que as reformas apresentassem soluções.
Campanhas e movimentos foram encetados em defesa da escola primária,
vista como base da nacionalidade – o combate ao analfabetismo relacionava-se,
assim, ao ensino do civismo ( RIBEIRO, 1993, p.83).
Surgiram os grupos escolares, mas grande parte da população
continuou marginalizada. As manifestações urbanas, principalmente
dos trabalhadores, refletiam seu descontentamento e a organização
escolar vigente também passou a ser questionada. Carvalho considera
que a época caracterizou-se pela difusão de novos modelos
pedagógicos, pela introdução de instituições,
como os grupos escolares, que conviverão e contrastarão
com as práticas das escolas isoladas, bem como de introdução
de modelos escolares não institucionalizados, como as escolas de
imigrantes (CARVALHO, 2003,p.323).Lembramos que muitas dessas escolas
foram criadas pelas Ligas Operárias, inspiradas na tendência
pedagógica libertária (RODRIGUES, 1972).
Para Nagle as transformações econômicas e sociais
favoreceram o surgimento da crença de que, o Brasil alcançaria
o progresso, se grande parte da população tivesse acesso
à educação escolar, sendo então, necessária
ampla disseminação das instituições escolares.
É a fase do “entusiasmo pela educação”,
seguida, posteriormente nos anos 20, pela fase do “otimismo pedagógico”.
A instrução, em todos os níveis, assume uma posição
de destaque cada vez maior (NAGLE, 2001, p. 134-135).
Em relação ao cenário local, constata-se que a cidade
de Sorocaba participou ativamente do movimento operário na primeira
república, ação que se estendeu até 1964,
encerrando-se com o golpe militar. A militância operária
rendeu à cidade o epíteto de Moscou Paulista ou Brasileira.
Apesar de fazer parte do cenário histórico brasileiro desde
1654, destacando-se em muitos momentos, Sorocaba tem sua história
comumente relacionada ao Ciclo do Tropeiro, nos séculos XVIII e
XIX. Com o final das feiras de muares (1897), a cidade não viveu
um período de decadência, pois, já estava direcionada
a outras atividades econômicas – como a indústria têxtil.
Com o desenvolvimento da Guerra da Secessão nos Estados Unidos
(1861-1865) e a conseqüente decadência na produção
do algodão, o Brasil passa a fornecer matéria prima às
indústrias da Inglaterra. Sorocaba se destaca, plantando o algodão
já herbáceo, iniciando uma nova fase na sua economia. Além
da exportação do algodão a cidade desenvolveu processo
de mecanização no descaroçamento, sendo uma das primeiras
cidades do interior da Província a possuir esse tipo de fábrica
(Canabrava, apud Silva, 2000, p.50). O final da guerra civil restabelece
a produção americana e o abastecimento do mercado europeu;
os preços sofrem queda. Em 1875 foi fundada a Estrada de Ferro
Sorocabana, ligando a cidade a S.Paulo, como uma das formas de incentivar
a produção local. A grande produção de algodão,
a falta de mercado externo e o acúmulo de capital comercial,foram
fatores decisivos para o desenvolvimento industrial que se processará
a seguir.
Em 1882 foi fundada a Fábrica Nossa Senhora da Ponte, com máquinas
de Manchester, Inglaterra; as fábricas Votorantim e Santa Rosália,
são de 1890 e a Santa Maria foi fundada em 1896 (ALMEIDA, 1969).
Em 1904, a cidade foi saudada em discurso festivo, como a “Manchester
Paulista” (SILVA, 2000, p.82). As fábricas, com exceção
da Votorantim e S. Rosália, eram centrais, centro onde também
se expandia o comércio. Os operários se instalavam em bairros
próximos às indústrias, muitas vezes em vilas construídas
para esse fim, como a Votorantim, S. Maria e S. Rosália. Outras
indústrias se desenvolveram ao lado das têxteis: óleo,
calçados, malhas, banha, chapéus, enxadas, etc... A cidade
inseria-se no modo de produção capitalista industrial, de
exportação de mercadorias. Duas características diferenciam
o processo de industrialização de Sorocaba: a industrialização
antecipa-se ao processo do país e não teve como fator gerador
o capital acumulado com o plantio e exportação do café.
Na cidade, o capital foi gerado no comércio tropeiro, plantio e
exportação de algodão e participação
de imigrantes, italianos, espanhóis, alemães, suíços
e outros. Também, deve-se destacar o emprego de capitais de paulistas
associados a imigrantes, “homens ricos que tiveram de empregar seu
dinheiro em vista da inflação....e achavam Sorocaba a “
cidade do futuro”. É a boa face da medalha do Encilhamento”
(ALMEIDA 1969). Os imigrantes que vieram para Sorocaba eram, principalmente,
italianos e espanhóis. Os italianos se instalaram sobretudo no
bairro do Além Linha e os espanhóis, no bairro do Além
Ponte - a denominação, conservada até hoje, é
devida à Estrada de Ferro Sorocabana, cujas linhas cortam a cidade,
e à ponte sobre o Rio Sorocaba.
De acordo com registros bibliográficos e em periódicos da
imprensa local, a participação operária nos movimentos
reivindicatórios foi intensa, no período estudado.
Objetivando dar maior visibilidade às questões que envolvem
a escolarização na imprensa, torna-se necessário
um recorte sobre a situação educacional em Sorocaba. No
período estudado a realidade escolar era bastante diversificada.
Havia grupos escolares, escolas isoladas (em sua grande maioria), escola
particulares laicas e confessionais. A Constituição de 1891
deixava aos estados a competência da educação, não
legislando sobre a obrigatoriedade ou gratuidade do ensino primário.
A Lei nº 88, de 08-09-1892, que reformulou a Instrução
Pública do Estado de S.Paulo, torna o ensino primário obrigatório,
dos 7 aos l2 anos. Com o Decreto nº 248, de 26-09-1894, várias
escolas isoladas passam, quando há possibilidade, a funcionar em
um só prédio, o Grupo Escolar, trazendo alterações
positivas, como a divisão dos alunos em séries, funcionando
em classes diferentes. O primeiro grupo escolar de Sorocaba funcionou
somente em 1896 (Antonio Padilha) e o segundo, apenas em 1914 (Visconde
de Porto Seguro), ambos na região central, com poucas vagas, ocupadas
por crianças das famílias de maior prestigio da cidade.
Os mais pobres continuavam a freqüentar as escolas isoladas, quando
havia, inclusive nos bairros com predominância de população
operária, Além Ponte e Além Linha. Somente em 1919
surgiu o terceiro grupo escolar, Senador Vergueiro, no Além Ponte,
bairro com população predominantemente operária.
A pressão para a criação de grupos escolares foi
grande e registrada pela imprensa. Para minimizar o problema, o Estado,
através do Decreto 1239, de 30-09-1904, autorizou a criação
de escolas no perímetro urbano; três escolas são criadas,
no centro, freqüentadas por filhos de estrangeiros ou naturalizados
e da classe economicamente mais desenvolvida (MENON,2000).
De acordo com o Relatorio Anual da Prefeitura Municipal de Sorocaba, de
1919, a cidade contava com uma população urbana de 20.000
habitantes e de 20.600 nos bairros. Na população urbana
havia 2530 crianças em idade escolar, das quais, 1348 iam à
escola (53,2%); nos bairros havia 2606 crianças em idade escolar,
das quais, 937 estavam matriculadas nas 29 escolas isoladas existentes.
Para o atendimento da população, até 1918, havia,
como visto, dois grupos escolares, com 36 classes, quatro escolas urbanas
mistas, quatro escolas noturnas distritais, sete distritais, 12 rurais,
10 municipais, um colégio particular (Santa Escolástica),
e dois cursos noturnos particulares. As escolas particulares eram pagas
e muitas tiveram vida efêmera. Havia escolas italianas, escolas
protestantes freqüentadas por suíços,alemães
e brasileiros, e escolas católicas, destacando-se o Colégio
Santa Escolástica, criado em 1906, para meninas da elite (MENON,
2000). São inúmeros os anúncios sobre abertura de
escolas de primeiras letras (inclusive noturnas), de preparo para academias,
externatos para alunos de várias nacionalidades, publicados nos
jornais como O Ypiranga, Jornal do Commercio, O Sorocabano, O 15 de Novembro,
incluindo O Operário.A Maçonaria, por meio da Loja Perseverança
III, criada por dissidência da Loja Constância, foi pioneira
no ensino primário particular gratuito e noturno, para analfabetos
que trabalhavam no período diurno. A escola foi inaugurada em 07
de setembro de 1869, antecipando-se ao poder público, sendo posteriormente
aberta à freqüência de escravos (IRMÃO, 1969).
A necessidade de escolas noturnas era insistentemente lembrada pela imprensa
representativa dos operários. Em 1910, o governo estadual autorizou
o funcionamento de uma escola noturna, para os operários das fábricas
S. Rosália e N. Senhora da Ponte, fato que necessita ser pesquisado,
uma vez que há apenas algumas referências.
Os dados levantados evidenciam a precariedade do atendimento escolar no
município, fato que foi amplamente discutido pela imprensa local.
III A EDUCAÇÃO ESCOLAR NA IMPRENSA
Nossa intenção neste recorte é a
de proporcionar uma visão, embora parcial, acerca das reivindicações
no campo da educação, realizadas pela população,
investigando jornais que circularam na época, representativos de
grupos operários ou empresariais.
Constata-se que a imprensa, além dos sindicatos, foi um dos principais
meios de divulgação das lutas operárias, notadamente
do ideário anarquista, uma vez que não tinham representantes
legais que os defendessem e não contavam com o apoio da imprensa
burguesa. Foram muitos os periódicos fundados de norte a sul do
Brasil, nas capitais, proliferando também nas cidades interioranas
que concentravam grande número de operários, principalmente
no Estado de S.Paulo. Edgar Rodrigues apresenta um amplo levantamento
sobre a Imprensa Social do Brasil até 1922 (RODRIGUES, 1972,p.425-444),
relacionando inúmeros jornais dos trabalhadores, tendo a denominação
“O Operário” e suas variações, como Voz
Operária, Luta Operária e outros, a preferência de
grande parte dos editores. Os jornais, além de distribuídos,
eram lidos em voz alta para os operários analfabetos e publicavam
artigos políticos, textos sobre conferências, conselhos,
denúncias sobre abusos praticados pelos patrões, notícias
sobre greves, reivindicações salariais, protestos contra
as longas jornadas de trabalho, incluindo o trabalho infantil e o feminino.
Deve ser lembrado que, embora expressando os problemas e necessidades
dos operários, os jornais não eram, necessariamente, produzidos
por eles, mas, também, por intelectuais, vinculados ou não
à ligas ou sindicatos operários. Sobre o jornal operário
constata-se que
O seu valor como documento vivo desse período é incontestável
porque é, acima de tudo, informativo e foi o resultado de uma participação
efetiva do individual e do coletivo no processo histórico( FERREIRA,1988,p.13).
Para Ferreira “o jornal foi um instrumento de informação,
conscientização e mobilização”(FERREIRA,
1988,p.06).
A pesquisa, em seus primeiros momentos, está sendo direcionada
à análise de jornais , do município de Sorocaba,
em especial, o jornal O Operário, publicado entre 1909 a 1913,
que se definia como “Orgam de defeza da classe operária,
noticioso, litterário e de combate”. Sua redação
localizava-se à Rua Coronel Cavalheiros, nº 23, e era publicado
quinzenalmente, passando depois a semanal. Em 1911 acrescentou ao título
o lema “Liberdade e Instrucção”; em 1913, definiu-se
como “Semanário de Combate” e, no mesmo ano, em seus
últimos números, como “Orgam Imparcial”. Tinha
como bandeira a defesa dos direitos dos operários; inicialmente
o semanário teve orientação socialista, passando,
posteriormente, para a anarquista (BARREIRA, 2003). Seus redatores, em
cores fortes, denunciavam a exploração das crianças
nas fábricas, os abusos contra as mulheres por seus chefes, a necessidade
de educação dos filhos dos operários, mas também
dos adultos; denunciava os castigos corporais, e a exploração
econômica através da utilização de vales e
cartões de pagamento, sistema que obrigava os operários
a realizar suas compras de gêneros alimentícios e outros,
nos armazéns das fábricas, evidentemente com prejuízo
para os trabalhadores.
As condições de trabalho nas fábricas eram as mesmas
das grandes cidades: baixos salários, 14 horas de trabalho, inclusive
para crianças e mulheres; não havia descanso remunerado,
faltavam escolas para as crianças e adultos analfabetos, as condições
de higiene deixavam muito a desejar e o atendimento médico era
péssimo. A imprensa denunciava a situação:
[...] o operariado é victima dos mais torpes abusos,
e das mais dolorosas ingratidões. O operariado é um leão
que dorme, mais um dia hade acordar lançando abaixo a bastilha
dos exploradores....A nossa questão é nas fábricas
de tecidos, porque são nellas que labutam pela vida milhares de
jovens expostos a tuberculose e as engrenagens das máquinas. Por
que é nellas que vivem essa immensidade de meninos pobres que necessitam
da luz bendicta da instrucção, o guia abençoado do
estudo da vida. (O Operário, nº 94, 1911,p.1).
Em contrapartida, atuava a imprensa conservadora que
defendia os “interesses burgueses” dos empresários.
Em artigo relatando a visita à Fábrica de Fiação
e Tecidos S. Rosália, após inúmeros elogios, o redator
registra:
O compartimento do fabrico do fio e sobremodo digno de visitar-se. Antes
de tudo, funcionavam quatro machinas, com 150 fusos cada uma; e finalmente,
duas machinas, trabalhando em cada uma 350 fusos. Aqui manusêa-se
o fio para morim, desde o número 20 até a 28. Nestas últimas
machinas, só operam crianças, meninos ágeis, que
é uma viva satisfação ver para alli occupados, aproveitando
santamente o tempo que outras malbaratam na ociosidade, na precocidade
do vicio.
Os operários que presentemente trabalhavam no estabelecimento,
montam a 120 homens e mulheres. Os meninos, de ambos os sexos, são
de número de 90. De novo, santa escola do trabalho! Vimol-os alli
entretidos, deligentes, numa faina suave, que de maneira alguma lhes pode
prejudicar as organizações débeis, em vista do dinuto
dispêndio de fôrças que demanda. (O 15 de Novembro
, n° 651, 1899, p. 01.
Evidencia-se nos reclamos dos trabalhadores, a preocupação
com a instrução e a visão da escola como um canal
para a liberdade, para uma vida melhor para seus filhos.
[...].escolas para os operários é a coisa
mais necessária e mais santa que se possa imaginar, porque se abre,
é um cárcere que se fecha. [...] é n’ella que
se reconhece o valor da liberdade. Existem nessas fábricas uma
quantidade enorme de creanças que estão na edade de freqüentarem
escolas. Coitados...criam-se nas fábricas...nesses antros de entorpecimento
sem nunca lembrarem-se que com a instrução e a força
de vontade poderiam melhorar essas suas sortes (O Operário, n°
96, 1911, p.02).
Observa-se, ainda, que uma das bandeiras do operariado
era a diminuição das horas de trabalho infantil (e não
particularmente sua eliminação), para que a criança
pudesse estudar.
[...]é triste para mim e outros que como eu se
prezam em ser sorocabanos [...] ver uma multidão de pequenos, completamente
analphabetos, trabalharem numa escura fábrica, desde às
5 horas da manhã até às 7 horas da noite...Pobres
creanças! Que ser´a d’ellas, assim ignorantes, por
esse mundo de Deus? [...] devemos trabalhar pela victoria de nossa causa,
devemos luctar pelas 8 horas de trabalho pois, com a diminuição
das horas nos seus trabalhos elles terão tempo para se instruir
para aprender a distinguir o bem do mal. Pois bem companheiros, não
poupemos esforços para luctar em prol das 8 horas, ellas serão
uma mensagem divina que nos livrará deste captiveiro e nos dará
tempo para nos instruir (O Operário, n° 44, 1910, p.02)..
Em 1911 foi deflagrada uma greve reivindicando a diminuição
da jornada de trabalho para 8 horas. O movimento trouxe como conseqüência
a diminuição da jornada de trabalho para 10 horas, fato
que facilitou a freqüência dos operários e das crianças
às aulas. O artigo “Escolas Nocturnas” registra que
com o novo horário das fábricas,
reforçou-se o elemento escolar nas escolas nocturnas da Perseverança
III. [...] por quanto elle representa o effeito da grave que teve como
unico objetivo a instrucção da classe menos favorecida da
sociedade.
O artigo tece elogios ao “elemento massonico local”,
reconhecendo que
Essa grande instituição, abrindo escolas
para os míseros sedentos de luz, não faz mais do que abrir
as portas do grandioso templo, onde residem o absuluto que é Deus.
(O Operário, nº 97, 1911, p. 2)
É interessante observar que, em algumas publicações,
os redatores procuram esclarecer os operários sobre o perigo representado
pela Igreja, associada à velha ordem patrimonialista. Entretanto,
em muitos textos, como os aqui apresentados, é freqüente,
entre as expressões de revolta, a utilização de frases
relacionadas a Deus, ou condicionando a obtenção de benesses
à intervenção divina. Essas manifestações
sugerem, talvez, a possibilidade de uma compreensão não
muito clara da ideologia anarquista, fato que necessita de estudos mais
amplos.
Pode-se constatar, em vários números do jornal, a preocupação
de seus redatores com a atualidade dos informes, não só
locais, mas também mundiais, cumprindo seu papel de instrumento
de informação e de mobilização. Em relação
à educação, nota-se essa conexão na participação
da cidade nos protestos contra a prisão de Francisco Ferrer y Guardia,
fundador da Escola Moderna de Barcelona, e nos comícios de solidariedade
quando de seu fuzilamento, em 1909, movimentos estes, organizados em todo
o Brasil. No artigo “Comício de Protestos” encontramos
Enquanto aqui nesta cidade tratamos de fazer chegar ao
conhecimento dos operarios as ideas liberaes, lá fora, pratica
o governo do despótico Affonso XIII, um crime bárbaro mandando
fuzilar pelos seus lacaios uma das maiores glorias desse seculo –
Franciso Ferrer [...] Sorocaba protestou contra esse acto de selvageria
fallando brilhantemente sobre o horroroso e barbaro fuzilamento, em comício
no largo da Matriz, ante-hontem, as 8 horas da noite [...] ( O Operário,
de 17/10/1009, pág 03).
O mesmo artigo descreve a passeata realizada pelas ruas
do centro da cidade, os inúmeros discursos e as homenagens prestadas
na Photografia Luxardo, diante do retrato de Ferrer. Os redatores lamentam
o fato de a Espanha não ser um “paiz livre, sem o beija pe
do Vaticano”, enviando “pezames aos hespanhoes que trabalham
pelo ideal do immortal Ferrer”.
Os redatores, em vários artigos, demonstram a preocupação
com a educação escolar e a necessidade da criação
de escolas, mas também com a divulgação de atividades
educativas . O jornal nº 134, de 1912, p. 2, noticia uma reunião
da União Operária, com apresentação de vários
oradores, todos operários , discutindo temas de interesse da classe.
Uma das oradoras, Luiza Candiotta, falou sobre a Escola Moderna e seu
valor.
O jornal funcionava também como instrumento de educação
da classe operária, procurando conscientizá-lo de sua realidade,
instruindo-os na perspectiva de uma vida melhor.
Os operários em sua maioria detestam a instrucção
e acceitam tudo quanto é crendices religiosas, tudo quanto é
charlatanismo politiqueiro sem o mínimo analyses, sem a mínima
reflexão. [...] é o caso desses imbecis que detestam a crencia
para entregar-se desenfreadamente as supertições e crendices
populares detestando as organizações que é uma escola
onde todos podem trocarem idéias e adquirir pratica e conhecimentos
para a aluta de se emancipar [...] [...] chega o Domingo apos seus dias
de trabalho rude e pesado que deviam procurar o descanso e aproveitar
o tempo na cultivação do seu intelecto, lerem, associarem-se
para as coisas úteis, não, procuram gastar todo o fructo
do trabalho em jogos de cartas, nas libações alcoolicas,
etc... (O Operário, nº 166, 1913, p. 1).
O Jornal O Operário teve importante papel na organização
da Liga Operária de Sorocaba, cujos estatutos foram aprovados em
18/11/1911; dela faziam parte o diretor e redatores do jornal (O Operário,
24/9/1911, p.2). A “Liga” foi responsável pela criação
de uma escola noturna para crianças operárias, tendo como
professor Joseph Revier, também colaborador do jornal (O Operário,
1º/5/1912, p.2). Edgar Rodrigues registra a existência da Escola
da Liga Operária de Sorocaba, que teria sido “fundada em
21/11/1911” (RODRIGUES, 1972. p.448). O mesmo autor registra que
em 15 de setembro de 1911, a ”Liga Operária de Sorocaba,
que havia sido fechada pela polícia, inaugura a sua escola noturna
com grande freqüência de alunos”. “O Operário”,
datado de 14/4/1912, p.2, registra a “criação de uma
escola moderna em Votorantim, para ambos os sexos e, uma outra em S.Rosália”.
A criação e o funcionamento dessas escolas serão
objeto de pesquisa.
Os estudos, até o momento, constatam que foi significativa a participação
da imprensa empresarial, “burguesa”, na defesa da instrução
pública.
O Jornal do Commercio, “Orgam Commercial” e noticioso, de
publicação semanal e que se definia como “despretenciosos,
não se filiando a seitas políticas, religiosas”; registra
no artigo “ Instrucção” que
[...] é necessário que os templos de ensino
nem uma hora sequer cerrem suas portas. Escolas diurnas para os meninos
jovens que não têm ocupação livrando-os assim
da vadiagem; escolas noturnas para os operários e toda a classe
do trabalho, que labutam durante o dia ganhando a vida e o pão.
Alimentar durante o dia o corpo com o pão ganho na fabrica ou na
oficina e durante a noite alimentar o espírito com a instrucção,
que também alimenta (Jornal do Commercio, nº 3, 16/01/1910,
p. 2
No artigo “ Pela Instrucção”
encontramos
Sorocaba tem palpitante necessidade de mais um grupo,
pois sua população é ainda maior que a de Piracicaba
e Jundiahy, cidades que possuem mais de um estabelecimento de instrucção
primaria funccionando com toda regularidade. Era de esperar-se, mesmo,
da acção prompta e efficaz dos seus ateis dirigentes políticos,
que jamais desmentiram os patrióticos intuitos que os animaram
sempre, pois não era admissível que um assumpto de tal relevância
fosse preterido, sabendo-se que a creação de tais estabelecimentos
depende unicamente dos nossos representantes no congresso estadual, delles
que têm o restricto dever de ascultar cuidadosamente as necessidades
publicas e suprill-as com a mais prompta brevidade e precisão.
( Cruzeiro do Sul, 04/02/1914, p.01).
A falta de escolas públicas profissionalizantes
foi motivo de discussões em muitos jornais, sendo digno de registro
o protesto jocoso, publicado pelo Jornal O Sorocabano “ Organ do
S.C. Sorocabano”.
Sorocaba vai ser mais uma vez preterida! É nos
doloroso dizer que infelizmente não temos quem se interesse lá
na Câmara Federal pelo nosso progresso.
Ao passo que Botucatu que invejamos tem alguém por si, com uma
Escola Normal, Escola Superior de commercio reconhecida pelo governo Federal,
etc.
Sorocaba tem um manicomio (a sua custa) e tem... vontade de ter uma Escola
Profissional.
E o povo da cidade de Sorocaba que concorre com os cofres da União,
com renda superior a do Estado do Espírito Santo.
É possível que o Governo Federal com a criação
de Escolas de Aprendizes de Artífices, localize uma em... Assis
e Chavantes (Jornal O Sorocabano,nº 16, de 14/11/1920).
A criação de uma Escola Normal na cidade
motivou, durante anos, redatores dos jornais de várias tendências.
O jornal Cruzeiro do Sul, empresarial, manifestou-se sobre a intenção
do governo estadual de instalar três escolas normais em “Caçapava,
Lorena e a terceira não se sabe”. Questionava o motivo de
não
[...] ser installada em Sorocaba, que é uma cidade
grande, populosa, commerciante e industrial e, por conseguinte, uma das
localidades que concorrem com maior renda para o Estado. [...] Demais,
Lorena é uma cidade bem menor e de muito menos importância
do que Sorocaba e Caçapava não lhe leva superioridade alguma.
Sorocaba,está, portanto, em perfeitas condições para
a instalação da escola.
O artigo termina incentivando a população
à mobilização :
[...] indispensável se torna, é que o povo
trate de imitar o procedimento do povo de Caçapava e Lorena, dirigindo
ao governo um abaixo assignado. Trabalhe mais um pouco, seja um pouco
mais animado do que é, não se contente em fallar unicamente
pelas columnas dos jornaes (Cruzeiro do Sul, 24/07/1912,p.01)
A leitura dos jornais, de anos e tendências diversas,
permite observar o sentimento de frustração da cidade, constantemente
preterida pelos governos estaduais na escolha para instalação
de grupos escolares, escolas profissionais e a escola normal.
IV ALGUMAS CONSIDERAÇÕES
O estudo, embora parcial, permite-nos reiterar a importância
da imprensa,e, particularmente do jornal, enquanto fonte documental. A
imprensa, enquanto objeto de análise, proporciona o acompanhamento
das discussões sobre a educação escolar, sob diversas
óticas, contribuindo para o desvelamento da realidade escolar do
município, no período de 1889 a 1920. Revela, também,
a valorização da instrução, via escolarização
pública e a necessidade de sua expansão, espelhando, como
visto, a realidade nacional daquele momento histórico. Este estudo,
necessariamente, será aprofundado, e, certamente, revelará
outros aspectos importantes para a história educacional da cidade.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALMEIDA, Aluísio de. História de Sorocaba.
Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de
Sorocaba. 1969.
BARREIRA, Luiz Carlos. Teares parados tecem a escola do amanhã:
a luta dos tecelões sorocabanos no início do século
XX, pelo direito à educação. Anais Eletrônicos
do XXII Simpósio Nacional de História. João Pessoa,
PB: Universidade Federal da Paraíba, jul/ago.2003.
CARONE, Edgard. A Primeira República. SP: Difusão Européia
do Livro, 1973.
______ A República Velha. Instituições e Classes
Sociais. SP: Difusão Européia do Livro, 1975.
CARVALHO, Marta Maria Chagas. A escola e a República e outros ensaios.
Bragança Paulista, SP: EDUSF, 2003.
DEAN, Warren. A industrialização de São Paulo: 1880-
1945. SP: Editora Universidade de São Paulo, 1971.
FAUSTO, Boris. Trabalho urbano e conflito social. R.J: DIFEL, 1976.
FERREIRA, M. Nazareth. Imprensa operária no Brasil. S.Paulo: Ática,
1988.
GATTI Junior, Décio. A história das instituições
educacionais: inovações paradigmáticas e temáticas.
In: ARAUJO, José Carlos & GATTI Júnior, Décio
(orgs). Novos temas em história de educação brasileira.
Instituições escolares e educação na imprensa.
Campinas, SP: Autores Associados; Uberlândia, MG: Edufu, 2002.
HARDMAN, Foot; LEONARDI, Victor. História da indústria e
do trabalho no Brasil. São Paulo: Editora Ática, 1991.
IRMÃO, José Aleixo. A Perseverança III e Sorocaba.
Sorocaba,SP: Fundação Ubaldino do Amaral, vol I, 1969.
LENIN, Vladimir Ilich. O imperialismo: fase superior do capitalismo. SP:
Editora Global, 1987.
LOMBARDI, José Claudinei (org). Pesquisa em educação.
História, Filosofia e Temas Tranversais. SP: Autores Associados,
1999.
MENON, Og Natal. A Educação escolarizada em Sorocaba entre
o Império e a República. Tese de Doutorado. PUC/São
Paulo,2000.
NAGLE, Jorge. Educação e Sociedade na primeira República.
São Paulo: E.P.U/ MEC, 1974.
PINHEIRO, Paulo Sérgio; HALL, Michael M. A classe operária
no Brasil: 1889-1930. Documentos, vol. 1.
São Paulo: Editora Alfa Omega, 1979.
RIBEIRO, Maria Luisa Santos. História da Educação
Brasielira. SP: Autores Associados, 1993.
RODRIGUES,Edgar. Nacionalismo & Cultura Social: 1913-1922. Rio de
Janeiro: Laemmert, 1972.
______. Socialismo e sindicalismo no Brasil: 1675-1913. RJ: Laemmert,1969.
SANFELICE, José Luis.História de instituições
escolares: apontamentos preliminares. Quaestio – Revista de Estudos
de Educação. Universidade de Sorocaba, vol 4, nº 1,
2002.
SILVA, Paulo Celso. De novelo de linha à Manchester Paulista –
Fábrica têxtil e cotidiano no início do século
XX em Sorocaba. Sorocaba, Projeto LINC, 2000.
VIDAL, Diana G.; HILSDORF, M. Lúcia(orgs). Brasl 500 anos: Tópicas
em História da Educação. S.Paulo: Edusp, 2001.
SOROCABA. Jornal O Operário. Edições
de 1909 a 1913. Gabinete de Leitura Sorocabano.
______. Jornal O 15 de Novembro. Gabinete de Leitura Sorocabano.
______ Jornal Cruzeiro do Sul. Gabinete de Leitura Sorocabano e Fundação
Ubaldino do Amaral.
SOROCABA.Jornal Ypanema. Gabinete de Leitura Sorocabano.
______.Jornal Diário de Sorocaba. Gabinete de Leitura Sorocabano.
______Jornal O Sorocabano. Gabinete de Leitura Sorocabano.
______Jornal A Cidade de Sorocaba. Gabinete de Leitura Sorocabano.
______Jornais: Ypiranga, Taba, Aymoré, Arara, Bohemio, Atalaia,
O Mosquito, Corneta. .Gabinete de Leitura Sorocabano.