Warley da Costa - Universidade Federal do Estado
do Rio de Janeiro - UNIRIO
O presente trabalho pretende aprofundar a discussão
da leitura das imagens da escravidão reproduzidas nos livros didáticos
de História do Ensino Fundamental e a produção de
valores e representações a cerca da etnia negra no Brasil.
Ele foi elaborado para efeito de apresentação neste evento,
e desenvolvido a partir da pesquisa em andamento no Curso de Mestrado
em Educação da UNIRIO. O objetivo central da pesquisa é
investigar a influência das imagens da escravidão reproduzidas
nos livros didáticos de história do Ensino Fundamental da
Rede Pública do Rio de Janeiro na formação identitária
do aluno e na construção de suas representações
sobre o ser negro no Brasil considerando o universo escolar. Serão
entrevistados ex-alunos de Escolas da Rede Municipal, que freqüentaram
a sexta-série de Escolas Municipais do Rio de Janeiro nos meados
da década de 1990 e que tiveram acesso aos livros didáticos
de História selecionados. As análises até então
realizadas foram norteadas pela pesquisa bibliográfica e análise
dos conteúdos dos textos/imagens dos livros didáticos selecionados
que constituem-se objeto de pesquisa. Foram selecionados três livros
didáticos a saber: Os Caminhos do Homem, de Adhemar Marques da
Editora Lê; História, de José Roberto Martins Ferreira,
Editora FTD e História Integrada, de Cláudio Vicentino,
da Editora Scipionne, todos da sexta série do Ensino Fundamental.
O tema escravidão, inseria-se nesses volumes, pois havia indicação
desse conteúdo nas Bases Curriculares da Rede Municipal para esta
série. Não consideraremos ainda entrevistas, pois por encontrarem-se
em processo de andamento, não reunimos material suficiente para
uma avaliação consistente. O trabalho ora apresentado, está
estruturado em três eixos principais: o primeiro deles tratará
da importância do processo de leitura das imagens e do impacto causado
por essa informação; o segundo eixo, discutirá a
apropriação do recurso imagético no ambiente escolar
através do uso constante do livro didático de história
especialmente no ensino fundamental,. E, por último, trataremos
do olhar dos nossos alunos sobre as imagens da escravidão nos livros
de história, voltando-se também sobre o olhar de quem as
produziu no século XIX e de quem as selecionou nas publicações
recentes dos anos 1990.A importância da imagem no ato de aprender
é inquestionável. Para a produção de cada
imagem, uma intenção de seu autor, para sua utilização,
outro sentido.A leitura da imagem proporciona ao receptor um sentido,
um significado próprio de acordo com suas vivências.
Segundo John Berger “nunca olhamos apenas uma coisa, estamos sempre
olhando para as relações entre as coisas e nós mesmos”
(Apud LEITE, 1993, p. 31). Neste sentido é inevitável que
uma gravura possa estabelecer relações entre o presente
e o passado, tendo como mediadora a memória.A leitura de imagens
induz o espectador a estabelecer uma rede de significações
de acordo com experiências individuais, socializando valores e elaborando
saberes e identidades coletivas. Para Miriam Leite, “Isso ocorre
no caso de imagens de conjuntos de objetos, retratados de uma pessoa ou
pequenos grupos , e mais se acentua a tendência quando a imagem
é lida como documentação de um inter-relacionamento
social , quando é preciso recriar uma realidade em função
de um nível preponderante da experiência, da memória
que organiza, desorganiza e reorganiza aquilo que o tempo, seu maior inimigo,
vai destruindo.(LEITE, 1993) Imagens, fragmentos do todo, não podem
ser percebidas desarticuladas do universo social em que estiveram inseridas
quando produzidas.
Ao mesmo tempo, elas falam por si e revelam aspectos isolados em seu contexto.
“O conhecimento prévio do todo, da cultura ou de seu aspecto
estudado, não pode ser negligenciado. Longe de ser um resultado
de abstrações, a partir da imagem concreta, é a proposta
que permite a leitura dos casos individuais. Estes, muitas vezes, são
reflexos capilares do todo, que se exprimem em seus fragmentos.”
.(LEITE, 1993) Neste sentido, ao tratar do modos de ler as gravuras da
escravidão, convém observar alguns aspectos fundamentais,
como o citado acima, indagando o que elas nos dizem a respeito das culturas
em que foram produzidas e observar a finalidade de sua produção.
Quais foram os objetivos do pintor? Ilustrar texto? Ornamentar determinada
peça de arte (como os vasos ou sarcófagos), ou registrar
o presente vivido para a posteridade ou outras sociedades? O mosaico que
ornamentava as igrejas no século VI por exemplo cumpria o objetivo
de informar aos fiéis as mensagens sagradas, uma vez que a maioria
da população não dominava o código verbal
e que a Igreja necessitava difundir seus ensinamentos. “Como explicou
o Papa Gregório Magno, ‘as pinturas podem fazer pelos analfabetos
o que a escrita faz para os que sabem ler”. (Woodford, 1983). Neste
caso, o recurso imagético substitui o texto escrito, cumprindo
sua função social. No caso das imagens da escravidão
encontradas nos livros de história de ensino fundamental, convém
analisar a intenção de quem as reproduziu nesses livros,
mas antes de tudo, de quem as pintou no século XIX. Observamos
que são em sua maioria de autoria de Johann Moritz Rugendas e Jean-Baptiste
Debret, artistas do século XIX, que retrataram o cotidiano do Brasil
desse período. Estas obras representam um verdadeiro tesouro para
a historiografia brasileira, pois em que mesmo com o olhar enviesado de
europeu, não deixaram de reproduzir o negro e o índio na
realidade brasileira, causando muitas vezes desconfiança entre
as autoridades. Ao olhar cuidadoso de Debret, por exemplo, não
escapou nenhum detalhe: de ricos comerciantes a simples escravos, das
famílias mais tradicionais às mais pobres. A rede de informações
se estende também ao cardápio, às atividades econômicas,
aos ritos, às festas numa descrição minuciosa, dos
hábitos e costumes brasileiros. Havia em seu trabalho a preocupação
em retratar para o europeu a realidade brasileira desmistificando o exotismo
da sociedade brasileira para o Velho Mundo. Suas pinturas eram acompanhadas
por textos explicativos elaborados pelo próprio pintor. Texto-imagem,
imagem- texto se complementam. O texto descritivo carece da imagem para
confirmar o dito e não dito. Influenciado pelo neoclassicismo de
Jean-Louis David, seu primo, Debret justificava a veracidade de suas obras
pelo fato do artista estar testemunhando o fato que está pintando.
Trata-se do realismo-empírico cujo princípio básico
é a observação direta do pintor. “A composição
se dava por etapas e o produto final deveria ser a tradução
mais perfeita desse trabalho minucioso. Nele reinariam o equilíbrio,
a força e a pureza da arte pictórica. A arte teria, então,
a oportunidade de expressar verdades inquestionáveis e eternas,
valores associados a uma moral regenerada e que espelhavam um novo sentido
ético.A questão do realismo neoclássico e, portanto
o grande elo entre a inspiração davidiana de Debret e sua
experiência no Brasil. (LIMA, 2004, p.18) Debret chegou ao Brasil,
convidado a integrar a Missão Artística Francesa que tinha
como objetivo organizar um grupo de artistas e mestres que pudessem implantar
no Rio de Janeiro, sede do governo português nesta época,
uma escola de artes e ofícios. Esta iniciativa tinha um caráter
não-oficial e ocorreu num momento de grandes mudanças tanto
para o Brasil como para a França.
Os franceses tinham acabado de restaurar a monarquia após a queda
de Napoleão Bonaparte e as relações diplomáticas
entre França e Portugal tendiam a se estreitar após 1814.
Por outro lado, o Brasil após a vinda da Família Real, fora
elevado a categoria de Reino Unido, o que lhe retirava a condição
de colônia abrindo a perspectiva de se tornar um país independente.
A aproximação da França com o Brasil também
pode estar relacionada ao fato dos franceses pretenderem neutralizar a
ascendência econômica inglesa sobre o Brasil. Apesar de todas
as explicações para a vinda dos artistas franceses para
o Brasil, fato é que, eles vieram e foram muito bem recebidos pelo
Governo Português aqui instalado. “... a vinda da Missão
Francesa e a fundação da Academia teve como um dos seus
objetivos a tentativa de reverter a imagem preconceituosa conferida ao
artista brasileiro no contexto social da época. O artista plástico
era visto com desprezo, pois seu trabalho de origem manual era associado
às artes mecânicas que, por sua vez, eram destinadas aos
escravos. (LOPES, 1996) A inauguração da Academia Imperial
de Belas Artes em 1816, amenizou o preconceito em relação
aos pintores, a classe dominante no Brasil, passou a ver nessas manifestações
artísticas a possibilidade de aproximação com a cultura
européia, incluindo as artes na educação de seus
filhos. O artista adquiria aos poucos um certo prestígio junto
à elite brasileira. O período em que Debret viveu no Brasil,
foi o período em que o Brasil passou a se configurar enquanto Estado
Nacional. Foi o período de transição entre Colônia
e Império. Era necessário construir uma nova imagem desse
novo país. A preocupação em valorizar a imagem do
Brasil afastando o estigma de país exótico, talvez tenha
sido uma iniciativa do próprio pintor. Segundo Valéria Lima,
“Debret particularizou a experiência histórica brasileira,
desenvolvendo sobre ela um discurso que não se pode pretender completo,
mas o resultado de um empreendimento pessoal movido pela intenção
de elaborar, segundo ele, uma “biografia nacional”. Queria
oferecer aos estrangeiros um panorama que extrapolasse a visão
de um país exótico e interessante apenas do ponto de vista
da história natural. (LIMA, 2004, p. 27) Debret, além de
compor a Academia de Artes, tinha a função de cenógrafo
oficial da corte. Ele foi o responsável por documentar importantes
momentos da história da Casa de Bragança no Brasil. O seu
testemunho visual, captando cenas através da sensibilidade de seu
olhar, colecionaram obras que se configurariam na performance do país
recém emancipado. Johann Moritz Rugendas, de origem alemã,
foi outro famoso pintor responsável por criar uma imagem do país
para o exterior, desembarcou ainda muito jovem no Brasil. Participou da
expedição científica do barão Georg-Heinrich
Von Langsdorff sem muita experiência profissional ou conhecimento
do Brasil. Rugendas separou-se da expedição por desentendimentos
com Langsdorff, permanecendo no Brasil por um curto período (!822-1825)
retornando apenas no II Reinado em 1945. Essa expedição
se estenderia a grande parte da América Latina e do México.
A influência do cientificismo sobre o trabalho de Rugendas é
visível, demonstrando equilíbrio entre a acuidade da observação
e a criatividade inerente a qualquer produção artística.
Publicou em 1835 Viagem Pitoresca através do Brasil, onde procurou
criar uma imagem positiva do país para o Velho Mundo. Alguns autores
apontam certa distorção no trabalho do artista, que supostamente
por interesses comerciais forçou a criação de um
ideário ao gosto europeu. Rugendas esmerou-se em atender a um público
ávido pelo pitoresco. Temos, portanto, longe porém de um
livro de caráter documental. (DIENER, 2004, p.15) Rugendas nunca
se esforçou para provar o realismo de suas composições
nem pintar um retrato fiel do Brasil, o caráter romântico
predominou em seu trabalho. Assim como podemos explicar a função
dessas pinturas no limiar do século XIX, também podemos
explicar sua utilização como recurso pedagógico no
século XX. A apropriação das imagens no ambiente
escolar passa basicamente pelo uso intensivo do livro didático.
A imagem se configura como um importante recurso pedagógico sendo
amplamente utilizada nas edições mais recentes dos livros
didáticos de história para o ensino fundamental. “As
crianças têm necessidade de ver as cenas históricas
para compreender a história.É por essa razão que
os livros de história que vos apresento estão repletos de
imagens.” (LAVISSE, apud BITTENCOURT, 1997, p.75) Para Ernest Lavisse,
historiador francês do século XIX e autor de livros didáticos,
“ver as cenas”, possibilita uma melhor compreensão
dos conteúdos escritos além de facilitar a memorização
dos fatos. A utilização de imagens de uma maneira geral
nos livros didáticos, cumpre os objetivos de reforçar o
texto e torná-lo mais atraente para o mercado. Observamos que,
ultimamente, o mercado editorial privilegiou o uso de imagens como ilustração
do texto. A grande quantidade de imagens, pode ser justificada pela grande
demanda da cultura visual contemporânea. “O caráter
mercadológico e as questões técnicas de fabricação
da obra didática interferem no processo de seleção
e organização das imagens e delimitam os critérios
de escolha, na maioria das vezes, das ilustrações.(...)
Os livros didáticos não podem ser caros, mas necessitam
de gravuras, como pressuposto pedagógico da aprendizagem, principalmente
para alunos do ensino elementar.” (BITTENCOURT, 1997, p.76) Verificamos
que há uma grande quantidade de gravuras nos livros de ensino fundamental,
diminuindo consideravelmente essa quantidade nos livros de ensino médio.
Ao abordar o tema escravidão, observamos a abundância de
imagens nos livros que parecem nos querer, não apenas informar,
mas reforçar as condições de vida dos cativos.
No Ensino fundamental, o assunto é tratado com mais ênfase
na sexta série quando é apresentado ao aluno o mundo colonial.
O escravo aparece neste contexto vinculado ao sistema colonial como uma
“peça”. A vida dos afro-brasileiros só será
mencionada novamente nos currículos na ocasião da abolição
da escravidão (final do século XIX), sendo um dos últimos
temas abordado na sétima série. O livro didático
constitui-se em um recurso amplamente utilizado pelo professor e tornou-se
comum no ensino fundamental nas escolas públicas, principalmente,
a partir da obrigatoriedade da distribuição gratuita pelo
Governo Federal, através do PNLD (Programa Nacional do Livro Didático-implantado
a partir de 1994). Considerando que, desempenha um papel significativo
na formação ideológica e cultural no cotidiano escolar,
seus textos e imagens passam a ser um forte referencial para quem o lê.
Como um importante instrumento de trabalho em sala de aula, constata-se
que, muitas vezes, professores e alunos o têm como única
fonte de informação, e que funciona como sistematizador
dos conteúdos da proposta curricular oficial. “O livro didático
tem sido, desde o século XIX, o principal instrumento de trabalho
de professores e alunos, sendo utilizado nas mais variadas salas de aula
e condições pedagógicas, servindo como mediador entre
a proposta oficial do poder e expressa nos próprios currículos
e o conhecimento escolar ensinado pelo professor”. (BITTENCOURT,1997,
p.72/73) O livro didático funciona também como mediador
entre o saber acadêmico e o conhecimento escolar. Neste caso, os
autores tentam veicular informações numa linguagem mais
acessível ao leitor, aproximando-se mais de sua realidade. Muitas
vezes, o resultado é a simplificação exagerada descaracterizando
determinados conceitos, ou mascarando outros. Desta forma, ele pode contribuir,
para que no processo cognitivo de apreensão do conhecimento, determinados
valores sejam reforçados de forma estereotipada, influenciando
negativamente na formação identitária de alunos e
professores. Por isso, consideramos de extrema importância a análise
de seus textos e imagens. Nos livros de história analisados, selecionamos
17 imagens dos pintores oitocentistas e verificamos que estão relacionadas
ao teor do texto, ora ilustrando, ora reforçando seu conteúdo.
Todas elas retratam aspectos negativos da vida dos escravos no final do
período colonial e início do Império. Elas explicam
a trajetória de vida dos escravos africanos explícita no
texto verbal, caracterizando a visão historiográfica de
seus autores. Nos livros examinados há a predominância de
um discurso que prioriza as estruturas econômicas atribuindo a elas
o desenvolvimento político e social. Seus textos e imagens revelam
a tendência da historiografia dos anos setenta. Nesta visão,
a escravidão está inserida a num contexto mais abrangente,
apresentando o escravo como uma simples peça da engrenagem: o escravo
passivo e massacrado pelo sistema. Esses estudos reduziam a escravidão
a um insignificante aspecto do sistema colonial a serviço do capitalismo,
produzindo conceituações teóricas generalizantes.
Nesta ótica, a imagem do escravo aparece como objeto ou mercadoria,
o escravo tratado como simples peça imóvel e passiva. O
elemento escravo aparece somente vinculado ao latifúndio e à
monocultura, estabelecendo uma relação direta com o mercado
externo. A sociedade escravista se apresenta polarizada entre senhores
e escravos, sem considerar as especificidades nascidas ao longo do tempo.
Nessa linha de pensamento segue Fernando Novaes e a Escola Sociológica
Paulista. Em Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, o escravo é
retratado como ser desprovido de raciocínio, ou de qualquer sentimento
humano. Incapaz de criar ou produzir por conta própria “
o escravo era uma ‘coisa’, sujeita ao poder e à propriedade
de outrem, e, como tal, ‘havido por morto’, privado de todos
os direitos e sem representação alguma, (...) (CARDOSO,
1977 p. 87) Ao se tornar propriedade de outrem, perdia a capacidade de
criar consciência da realidade que o cercava e de reagir como ser
humano. Na tentativa de denunciar o escravismo, essa visão acaba
por reproduzir o discurso da classe dominante, que se valia de tais argumentos
para justificar os maus tratos. Entendemos que o discurso de denúncia
é também uma tentativa de se opor à chamada democracia
racial defendida por Gilberto Freire e muito criticada na década
de 1970. Novas abordagens da história social nos anos 1980 modificaram
a visão que tínhamos acerca do trabalho escravo e do dia
a dia da sociedade brasileira. Os trabalhos produzidos especialmente nos
anos próximos ao centenário da escravidão tentam
resgatar outra face do cativeiro. O escravo aparece não apenas
como figurante, mas como sujeito capaz de interferir na realidade social.
Firma-se como aquele que não deve apenas ser considerado “coisa”
pois trabalha, tem vida afetiva própria, constrói família
e negocia. É também aquele que não depende apenas
de abolicionistas ou redentores para libertá-lo. Esses estudos
apontam para a importância do papel desempenhado pelo escravo como
agente histórico. As imagens da escravidão nos livros de
história, em consonância com o olhar historiográfico
dos anos 1970, reforçam a trajetória de vida sofrida, reduzindo
os quase quatro séculos de escravismo a momentos de permanente
dor. Decerto, não se pode mascarar a realidade, nem muito menos
afirmar que não houve sofrimento no cativeiro. A própria
condição de escravo, já retira do homem a sua dignidade.
Ignorar porém alguns aspectos da cultura, das relações
sociais e afetivas que se estabeleceram na sua vivência cotidiana,
é simplificar bastante a dinâmica da nossa História.
Mesmo sob o cativeiro, os escravos criaram relações sociais
específicas como amizade, solidariedade e amor. Nos livros, as
imagens selecionadas reproduzem apenas cenas dramáticas: castigos
corporais, fugas e torturas. O título de um capítulo dedicado
à escravidão do livro de Ferreira Martins para a sexta série
reforça essa visão: Escravidão, o sofrimento que
produz riqueza. A obras reproduzidas neste capítulo são
o mercado de escravos, açoite e fugas. As denúncias podem
ser interessantes, mas relegam ao escravo o papel de agente absolutamente
passivo. Sem movimento próprio, sem nenhuma possibilidade de autonomia,
ele se transformaria num ser desprovido de qualquer ação
humana. Adhemar Marques no livro Os Caminhos do Homem também transmite
essa idéia: “Não havia possibilidade de o escravo
deixar sua condição. Era escravo, do nascimento à
morte. Somente em ocasiões especialíssimas ele conseguia
sua libertação(alforria). “(MARQUES, 1991:136). As
imagens acompanham o texto: Capitão do Mato (Debret) trazendo um
fugitivo acorrentado e Negros no tronco (Debret). Dos artistas-viajantes
, as obras que traduzem festas ou irmandades, que expressam sentimentos
como solidariedade e autonomia escrava, estão descartadas. O olhar
europeu sobre os quadros dos artistas oitocentistas, certamente tiveram
um papel importante na percepção que os habitantes do Velho
Mundo construíram sobre o Novo Mundo. O retrato do passado, de
sua origem, estampado nos livros didáticos, não escaparam
ao olhar atencioso dos nossos alunos da escola pública. Neste sentido
é inevitável que a partir da leitura de uma gravura possamos
estabelecer relações entre o presente e o passado, tendo
como mediadora a memória. O contato com a imagem conduz o leitor
a selecionar lembranças comuns, e significados realçados:
“Se a memória é seletiva tanto quanto a historiografia
o é, se lembranças e esquecimentos não se excluem,
mas se complementam nas relações de conhecimento com o vivido
individualmente ou coletivamente, as redes de sociabilidades nas quais
nos inserimos, como criadores e criaturas igualmente interferem no jogo
inconsciente do que deve ser lembrado e do que deve ser esquecido.(REZNICK,
2003) A identificação com o passado, a partir das cenas
dos artistas-viajantes, pode ter um significado negativo na medida que
revela apenas uma face depreciativa da cultura afro-brasileira:.De acordo
com Hall, “As identidades parecem invocar uma origem que residiria
em um passado histórico com a qual elas continuariam a manter uma
certa correspondência. Elas têm a ver entretanto, com a questão
da utilização de recursos da história, da linguagem
e da cultura para a produção não daquilo que nós
somos, mas daquilo no qual nos tornamos. Tem a ver não tanto com
as questões “quem somos nós” ou “de onde
nós viemos”, mas muito mais com as questões “quem
nós podemos nos tornar”, “como nós temos sido
representados” e “como essa representação afeta
a forma como nós podemos representar a nós próprios”.
(HALL, 2000, p. 108-109) A discussão sobre a prática docente
e a produção curricular está presente tanto em nível
acadêmico como no espaço escolar. A leitura das imagens da
escravidão por nossos alunos implica na leitura de mundo dos pintores
viajantes do século XIX, depende da seleção das cenas
do cotidiano feitas por esses artistas, e depende sobretudo da seleção
dos atores-editores dos livros didáticos. Passa desta forma pelo
interesse do mercado editorial, pelas tendências historiográficas
e ainda por cima pelo uso que o professor, enquanto mediador de conhecimento,
faz dela em sala de aula. a convivência com grupos de alunos, em
sua maioria afro-descendentes, originários de comunidades pobres,
nos permite observar o estigma em relação ao papel do negro
na escola. Eles não se reconhecem nem são reconhecidos como
pessoas que poderiam intervir em determinada realidade. O preconceito
racial e social é um componente perceptível e se manifesta
freqüentemente no dia a dia, nas relações entre os
grupos, quer através de brincadeiras, quer através das disputas,
e principalmente em momentos conflituosos: a memória de quase quatrocentos
anos de escravidão permanece acesa consolidando valores culturais
depreciativos em relação ao negro, colocando à prova
a nossa democracia racial. O pesado legado cultural do escravismo está
estampado na memória coletiva através das representações
do passado. São conceitos e valores repassados de geração
a geração, expressos por palavras, gestos, imagens e silêncios.
As inovadoras propostas curriculares e as novas tecnologias disponíveis
como recurso pedagógico não deram conta das deficiências
do sistema educacional como um todo e não conseguiram superar as
marcas e estigmas herdados de geração à geração.
Nas entrelinhas, no dia a dia, num simples olhar, estamos reforçando
conceitos e construindo identidades culturais. A reflexão sobre
tênues movimentos, sobre o silêncio, sobre as pequenas coisas
pode contribuir para a formação de sujeitos críticos.
A simples gravura estampada em um dos muitos livros de história,
pode ter muito a nos dizer. Dessa forma, a representação
elaborada sobre o papel do negro na sociedade brasileira desde os tempos
da escravidão repassada pela escola, pode afetar a representação
que o adolescente faz de si mesmo? Pode reforçar preconceitos em
relação ao papel social do negro? Verificar em que medida
a leitura das imagens da escravidão dos pintores do século
XIX como recurso visual, pode contribuir para a produção
do auto-preconceito e de uma imagem negativa em relação
ao ser negro no Brasil é um tema instigante que pretendemos aprofundar
a partir da voz dos próprios alunos à luz de um maior aprofundamento
teórico no decorrer da pesquisa de dissertação.
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