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DISCURSO
JORNALÍSTICO ACERCA DA INCLUSÃO ESCOLAR: UMA ANÁLISE
POSSÍVEL
Cláudia
Alaminos - Faculdade de Educação da Universidade de São
Paulo (FEUSP)
1) Introdução
Este trabalho
tem como objetivo principal realizar a análise de parte de um texto
jornalístico publicado na revista Época, em 13 de setembro
de 2004, intitulado “Os novos colegas de turma”, de Paloma
Cotes.
Muito tem se falado sobre a inclusão escolar e a escola inclusiva,
especialmente no que diz respeito à proposta de mudanças
a serem realizadas na escola regular de maneira que ela possa receber
alunos deficientes.
Cabe aqui a formulação de algumas questões: A sociedade
realmente está interessada e preparada para promover a inclusão
dos deficientes? A escola tem feito os esforços cabíveis
para receber os, atualmente chamados, alunos com necessidades educacionais
especiais? De que maneira tem ocorrido à inclusão escolar?
Neste sentido, se justifica uma reflexão a respeito de quais mudanças
educacionais têm sido contempladas e quais têm sido deixadas
de lado nos processos de inclusão escolar.
Segundo Skliar (2001) há a previsão de que as mudanças
em educação, em geral, e não apenas no que diz respeito
à inclusão, ocorrem em quatro etapas que deveriam se suceder
na sua implantação, mas que nem sempre a sucessão
de etapas ocorre da maneira pretendida.
O autor indica que prevalece a idéia de que os textos legais são
os fundamentos principais para a ocorrência das mudanças
educacionais. Após as mudanças legais, deve haver modificações
naquilo que o autor chama de códigos pedagógicos, representados
pelos currículos e pelos programas de formação de
professores os quais, ao invés de contestar o status quo, na maioria
das vezes revestem-se pelos discursos técnicos que se colocam na
posição de mantenedores dos saberes necessários para
a implantação das novas práticas educativas. Na terceira
etapa ocorrem mudanças das representações, as quais
resultam de uma suspeita a respeito dos mecanismos de representação
de um modelo de aluno e das funções da escola e dos professores
no processo educativo em vigência na ocasião. Na quarta e
última etapa ocorrem mudanças das identidades dos professores,
das escolas e dos alunos, ou seja, dos sujeitos que são objetos
das mudanças.
No mesmo artigo, Skliar aponta para a necessidade de inversão deste
processo, pois considera ingênua a crença em que as mudanças
operadas nas disposições legais e nos códigos pedagógicos
possam “naturalmente” ocasionar mudanças nas representações
e nas identidades.
Ao focalizarmos especificamente as mudanças em relação
àqueles que apresentam alguma deficiência, podemos evidenciar
que mesmo seguindo as etapas citadas acima, a sucessão de termos
e tratamentos não é sem conseqüências. Lajonquière
(2001, p.48) refere-se às implicações que essas mudanças
trazem:
“[...]
Como sabemos, aos idiotas lhes era reservado o asilo psiquiátrico,
aos imbecis os trabalhos manuais no ateliê, aos DM e débeis
mentais a simplicidade do tédio de escolas muito especiais, enquanto
que agora às ”crianças com necessidades educativas
especiais“ se lhes prescreve o direito de freqüentarem a escola
comum, graças à disponibilidade de maiores ou menores aggiornamentos
ou recursos especiais de natureza diversa. Assim, não podemos menos
que saudar com satisfação os fatos de que a última
mudança de nomenclatura na matéria possa vir implicar para
uma criança a oportunidade de passar sua infância na escola,
no pátio e no parque.”
De Certau
(1974) diz que os movimentos contestatórios são, em seu
início, movimentos de negação, pois as suas causas
contradizem o instituído, o senso comum e valores sócio-culturais.
A negação da situação em vigência permite
uma identificação entre os componentes do movimento. Um
desejo de querer existir aparece com a tomada de consciência da
opressão sofrida, o que culmina com o objetivo de quebrar o círculo
da cultura. Para atingirem seu objetivo, o grupo minoritário tem
que conquistar a palavra e falar de um lugar do qual seja-lhe possível
exprimir-se. Como disse Foucault nas primeiras páginas de A Ordem
do discurso: “O discurso não é apenas aquilo que traduz
as lutas ou os sistemas de dominação, mas é aquilo
pelo qual e com o qual se luta, é o próprio poder de que
procuramos apoderar-nos”. Os dois autores citados indicam que o
direito ao discurso está irremediavelmente ligado ao reconhecimento
e ao poder, lugares que não são oferecidos aos grupos minoritários.
Acreditamos que um estudo que privilegie a análise de um texto
jornalístico sobre inclusão se justifique, pois, segundo
Barbosa (2004), o jornalismo ocupa o lugar de um sistema de produção
cultural e, como tal, tem o poder de organizar, reorganizar e confrontar
os diferentes discursos sobre um referente. Assim, o jornalismo é
um instrumento que interfere na sociedade e, de acordo com Romão
e Tfouni (2002), o discurso jornalístico cria no leitor uma ilusão
de objetividade e imparcialidade ao informar e comunicar uma novidade,
ele cria estratégias para fazer a informação parecer
segura, confiável e fiel aos fatos, com a intenção
de fixar o seu dizer como inquestionável e como uma opinião
universal compartilhada por todos. Além disso, Indursky (2003)
ressalta que o discurso jornalístico não mostra os sentidos
dos excluídos e mesmo dando-lhes a palavra, ao simular ser um espaço
democrático, apaga dos excluídos seus sentidos e dá
voz ao que está de acordo com a ideologia do veículo em
questão.
2) Histórico
2.1) Tratamento
destinado às pessoas com deficiência
Através
de dados históricos, pode-se constatar que desde os tempos antigos
até os dias atuais a pessoa com deficiência é, em
geral, marginalizada e aviltada em seus direitos de cidadã. Idéias
pré-concebidas são, em boa medida, responsáveis por
essa marginalização. No entanto, mesmo assim, percebe-se
que ao longo do tempo e nas diferentes sociedades, a deficiência
foi vista de diferentes maneiras.
Segundo Bianchetti e Freire (1998), nas sociedades primitivas, caracterizadas
pelo nomadismo, a impossibilidade de busca individual de satisfação
das necessidades básicas e a necessária ajuda à comunidade,
levavam ao abandono e até ao extermínio de quem não
pudesse colaborar efetivamente com o grupo. Na Antigüidade Clássica,
com o ideal espartano de anseios voltados à guerra, à estética,
à perfeição do corpo e à força; há
indícios de que uma pessoa que apresentasse qualquer manifestação
contrária a esses ideais era eliminada. Pessotti (1984) refere
que na Idade Média surge a dicotomia corpo e alma e, com ela, o
indivíduo que não se enquadrasse no padrão considerado
normal ganhava direito à vida, porém passava a ser estigmatizado.
No entanto, Ginzburg (1989b) afirma que as perseguições
aos leprosos, às bruxas e feiticeiras, entre outros socialmente
estigmatizados, culminavam com a tortura e morte dessas pessoas que muitas
vezes, mesmo negando as acusações contra elas, não
tinham direito de defesa e eram sumariamente eliminadas com a justificativa
de que se tratava de uma purificação da sociedade e que
as únicas culpadas pelas mortes eram as próprias pessoas
mortas. Esse estudo histórico demonstra que a dicotomia corpo e
alma não era uma garantia de que os diferentes sobrevivessem; se
houvesse qualquer indício de adoração, possessão
ou intervenção demoníaca, a eliminação
era justificada.
O despertar da atenção para a questão da habilitação
e reabilitação da pessoa com deficiência para o trabalho
aguçou-se a partir da Revolução Industrial, momento
em que as guerras, epidemias e anomalias genéticas deixaram de
ser as únicas causas das deficiências, e o trabalho em condições
precárias, passou a ocasionar acidentes mutiladores, assim como
doenças profissionais, o que resultou no tratamento dos doentes
e na reabilitação dos acidentados.
As duas Guerras Mundiais também impulsionaram o desenvolvimento
da reabilitação científica, não só
pela carência de mão-de-obra surgida no período pós-guerra,
mas também pela necessidade de propiciar uma atividade remunerada
e uma vida social digna aos soldados mutilados.
Jannuzzi (1992) refere que o trabalho pedagógico com o deficiente
em instituição escolar não existiu desde o princípio,
mas a partir do momento em que a complexidade da sociedade o exigiu. A
autora ressalta que a definição de quem era considerado
anormal era ampla: os tímidos, os indisciplinados, os preguiçosos
e os desatentos encontravam-se na categoria de anormais . A ação
pedagógica diante destas crianças reproduzia, ao menos em
parte, as expectativas históricas da época, principalmente
as chamadas medidas eugênicas.
O movimento de normalização, como tentativa de integrar
a pessoa com deficiência ao meio social tinha como objetivo auxiliar
as pessoas com deficiência a ter uma existência o mais próxima
possível da normalidade, de maneira que apresentassem condições
de convivência na sociedade.
Novos modelos institucionais foram implementados visando à promoção
e a transferência de responsabilidades e auto-suficiência
para a pessoa com deficiência. Estabelece-se o movimento da inclusão,
que prevê a reorganização da sociedade de forma a
garantir o acesso de todos os cidadãos, deficientes ou não,
à educação, à saúde, ao lazer, à
cultura e ao trabalho, este movimento preconiza que a pessoa com deficiência
tem direito ao acesso a qualquer recurso da comunidade com o devido suporte.
A grande diferença entre a integração e a inclusão
reside no aspecto de que, enquanto na integração se procura
modificar o deficiente para a vida em comunidade, na inclusão,
além de se investir no processo de desenvolvimento do sujeito,
busca-se a criação imediata de condições que
garantam o acesso e a participação dessa pessoa na vida
comunitária, através de suportes físicos, psicológicos,
sociais e instrumentais (Aranha, 2001).
Ao tomarmos contato com as mudanças no tratamento e nos direitos
atribuídos às pessoas com deficiência em diferentes
épocas vividas pela humanidade, somos remetidos a Foucault em,
A Arqueologia do Saber (1969), que afirma que a possibilidade de falar
algo não é um dado pois, não se pode falar de qualquer
coisa em qualquer época. Na mesma obra, o autor confirma esta afirmação
quando define prática discursiva:
“Finalmente,
o que se chama “prática discursiva” [...] é
um conjunto de regras anônimas, históricas, sempre determinadas
no tempo e no espaço, que definiram em uma dada época e
para uma determinada área social, econômica, geográfica
ou lingüística, as condições de exercício
da função enunciativa ”. (Foucault, 1969: 133)
Dessa forma,
pode-se compreender a modificação do discurso sobre um referente,
no caso, o tratamento dispensado às pessoas com deficiência,
como um exercício da função enunciativa, que modifica
o enunciado sobre este mesmo referente de acordo com o momento histórico.
O sujeito que produz o enunciado é permeado por uma ideologia e
pela mudança das condições de produção.
2.2) Direito
à educação
De acordo
com Cury (2002), o direito à educação, previsto em
lei, surge no final do século XIX e início do século
XX, na Europa. No Brasil, o ensino fundamental é tido como um direito
é reconhecido em 1934 e, como um direito público subjetivo
, a partir de 1988 e é inegável que esse direito caminhe
em direção da diminuição das desigualdades
sociais e da discriminação, especialmente das classes social
e economicamente menos privilegiadas..
Ainda de acordo com o autor, como os anos passados na escola são
responsáveis por uma dimensão que funda a cidadania, os
países que têm políticas que visem à participação
de todos nos espaços sociais, políticos e de trabalho apresentam
disposições legais que instituem a educação
como um direito, pois essa participação só pode ser
realizada por cidadãos.
Ao analisar a trajetória dos direitos, utilizando como referencial
teórico Cidadania, classe social e status de Thomas Marshall, Cury
diz que, na Inglaterra, os direitos civis se estabeleceram no século
XVIII, os políticos no século XIX e os sociais no século
XX. Os diferentes tipos de direitos são concebidos lentamente e
cada um surgido é agregado ao grupo dos anteriores; por essa evolução
lenta e gradativa, podem ser considerados como tesouros da humanidade
e, por conseguinte, não é cabível que alguém
não tenha a possibilidade de herdá-los. Segundo Marshall
(1967, in Cury, 2002) a educação é um pré-requisito
necessário da liberdade civil e, assim, um pré-requisito
do exercício de outros direitos.
Estas observações nos levam a refletir sobre o porquê
dos direitos dos deficientes, em especial o direito deles à escolarização,
terem aparecido tão tardiamente. Isso nos leva à constatação
de que os estereótipos sociais colocam os deficientes numa situação
de anormalidade e inferioridade em relação ao grupo considerado
normal. Tais estereótipos não permitem que os deficientes
sejam considerados como iguais ou até mesmo como humanos. Deste
fato decorre que os deficientes não sejam “visíveis”
socialmente, e que por esta “invisibilidade” não lhes
seja dado o direito de falar de si mesmos, de suas capacidades e de suas
limitações.
Ao relacionarmos o direito à educação com o discurso
nos remetemos a Foucault (1971) que ressalta que a Educação
pode ser o instrumento de direito através do qual toda pessoa pode
ter acesso a qualquer discurso e que o sistema educativo é um modo
político de manter ou modificar a apropriação dos
discursos com os saberes e poderes inerentes a eles.
Como uma conclusão possível do que vimos até agora,
a trajetória do direito à educação se pauta
numa igualdade básica entre todos os seres humanos, igualdade essa
da qual se nutriram as teorias e os movimentos de cidadania e de democracia
do século XX.
No entanto, no final desse século, observa-se o início de
um movimento em defesa das diferenças, dentre os quais pode se
citar a inclusão escolar que, ao invés de negar as diferenças
e o preconceito, realiza uma tentativa de encará-los e minimizar
a discriminação. Deve-se ressaltar que mesmo observando
as diferenças como possibilidades de existência humana, a
inclusão não possibilitará a não-segregação
dos deficientes se a igualdade essencial entre todos os seres humanos
não for tomada como premissa, pois é essa igualdade que
permite pensar que a exclusão de qualquer pessoa dos direitos sociais
e humanos é inadmissível.
3.0) Análise
do discurso
Foucault
(1969) define discurso como um conjunto de padrões anônimos,
sempre determinados no tempo e no espaço. Esses padrões
definem as condições de exercício da atividade enunciativa.
Esta definição de discurso nos leva a conceber que a possibilidade
de falar algo não é incontestável e Foucault completa,
na mesma obra, dizendo que não se pode falar sobre qualquer coisa
em qualquer época.
A afirmação anterior relaciona-se intimamente com a anterioridade
da linguagem, isto é, ao fato de que, salvo raras exceções,
ninguém diz nada completamente desvinculado de algo que ouviu antes,
o que caracteriza a dificuldade de se produzir um discurso que seja novo.
Além disso, pode-se entender que há uma modificação
gradativa nos enunciados que podem ser ditos nas diferentes épocas,
isto é explicado pelo fato de que uma palavra é dita e substituída
a partir de complexos mecanismos de interdito (FOUCAULT, 1971).
No capítulo II da Arqueologia do Saber (1969), Foucault afirma
que a Análise do Discurso (daqui para frente AD) procurará
identificar as regras anônimas que definem as condições
de existência dos acontecimentos discursivos e as regularidades
existentes na diversidade desses acontecimentos.
Segundo Orlandi (2001), a AD promove a articulação entre
o lingüístico, o sócio-histórico e o ideológico.
Dessa forma, a disciplina coloca a linguagem em relação
com as produções sociais. Pode-se dizer que não há
discurso sem sujeito, no entanto, não há sujeito sem ideologia,
tal fato serve de justificativa para o envolvimento dos fatores subjetivo,
social e ideológico privilegiados pela AD na sua forma de lidar
com os fatos de linguagem.
Ainda de acordo com a autora, o simbólico, lingüístico
por excelência, é um tipo de produção social,
cuja prática dá significação ao real. Ao se
adotar essa concepção, o discurso pode ser definido como
a materialidade do simbólico.
Ao invés de adotar os conceitos da Lingüística e das
Ciências Sociais, a AD propõe-se a repensá-los, questionando,
na Lingüística, a negação da historicidade inscrita
na linguagem e, nas Ciências Sociais, a noção de transparência
da linguagem sobre a qual se assentam as teorias produzidas nestas áreas.
A AD possibilita a busca dos processos de produção do sentido
e de suas determinações histórico-sociais. Esta pressuposição,
portanto, reconhece que há uma historicidade na linguagem que não
permite pensar a existência de um sentido literal num discurso.
Além de levar em conta as condições histórico-culturais
na produção de um discurso, a AD leva em consideração
a noção de sujeito da psicanálise, especificamente
da psicanálise de orientação lacaniana, que prevê
que o discurso escapa à intencionalidade do locutor, além
de uma ideologia que perpassa este sujeito da qual ele não escapa,
traduzida pela noção de assujeitamento de Althusser (2003).
A AD, ao levar em consideração a materialidade da língua,
aborda as produções lingüísticas como um palco
no qual se manifestam as relações de força e de sentidos
que demonstram uma disputa de natureza ideológica. Assim, a AD
permite uma compreensão das relações estabelecidas
entre o lingüístico e as definições sócio-históricas,
o que pode levar o analista a se aproximar das determinações
ideológicas que atuam nos processos de construção
de sentidos.
Cabe ainda citar o conceito de polifonia de Ducrot (1980), autor freqüentemente
trazido para contribuir com a AD, que toma por pressuposto que qualquer
texto é constituído por uma pluralidade de vozes que podem
ser atribuídas a diferentes locutores nos discursos relatados ou
a diferentes enunciadores, quando o locutor se inscreve no texto através
de perspectivas ideológicas. O dito e o não dito são
definidos a partir dessa perspectiva.
Trabalharemos aqui com parte de um texto jornalístico publicado
em uma revista de semanal de grande circulação que trata
da inclusão escolar. Ele relata as mudanças que atualmente
têm ocorrido no sistema educacional, para que todos possam freqüentar
a escola.
Trabalhar com um texto que trata de questões relativas à
inclusão escolar implica trabalhar com a questão da possibilidade
de recepção de alunos deficientes na escola, das possibilidades
de discriminação e de inclusão social dos mesmos,
ou seja, os sentidos que a exclusão e a inclusão tomam em
diferentes discursos.
4) Descrição
dos dados
O texto a
ser analisado neste trabalho chamou nossa atenção por estar
diretamente vinculado ao nosso tema de pesquisa no mestrado, a inclusão
escolar, o que nos levou a arquivá-lo. O texto apresenta fotografias
de pessoas com alguma deficiência em situações de
alegria e aceitação, em locais que parecem ser escolas.
Considerando-se as contribuições que a AD oferece, no presente
trabalho nos debruçaremos sobre parte do texto da jornalista Paloma
Cotes, publicado na revista Época em 13 de setembro de 2004, intitulado
“Os novos colegas de turma”. Os três primeiros parágrafos,
parte do texto que será analisada, serão transcritos integralmente
e terão suas linhas numeradas com o objetivo de facilitar remissões
posteriores.
(Parágrafo
1)
| 1 |
Mais de 24 milhões de pessoas têm alguma
deficiência, física ou mental no |
| 2 |
Brasil. Elas representam 14,5% de toda
a população, segundo o IBGE. Ape- |
| 3 |
sar dessa presença maciça, quando o assunto
é educação, os números do |
| 4 |
Ministério da Educação (MEC) mostram uma
realidade excludente. Dos mais |
| 5 |
de 57 milhões de alunos matriculados nas
redes pública e particular, apenas |
| 6 |
500 mil são deficientes. Isso significa
que, nesse mar de estudantes, os defi- |
| 7 |
cientes não chegam a 1% dos brasileiros
que ocupam as salas de aula. |
(Parágrafo
2)
| 1 |
Apesar das estatísticas desalentadoras,
há alguns bons sinais de mudança. |
| 2 |
Entre 2002 e 2003, o número de matrículas
de alunos deficientes em salas re- |
| 3 |
gulares – e não mais em classes especiais
– cresceu 31%, segundo o MEC. |
| 4 |
Na comparação entre 2002 e 2003, aumentou
em 27,6% o número de esco- |
| 5 |
las que passaram a aceitar estudantes que,
antes, recusavam. |
(Parágrafo
3)
| 1 |
Neste ano, o Censo Escolar do MEC identificará,
pela primeira vez na história |
| 2 |
em que série está cada um dos deficientes.
“Antes, os dados mostravam ape- |
| 3 |
nas quantos eles eram na escola”, diz Cláudia
Pereira Dutra, secretária de |
| 4 |
Educação Especial do MEC. “Não sabíamos
em que série estavam, nem se |
| 5 |
permaneciam ou não nas salas de aula”.
O governo promete mais: até 2006 |
| 6 |
todas as escolas brasileiras terão de ser
inclusivas. |
Trata-se
de um texto veiculado num suporte jornalístico de prestígio
(revista Época) e que, portanto traz consigo uma carga de saber
e de intervenção na sociedade, propondo a esta uma compreensão
dos fatos ideologicamente marcada, pois de acordo com Osakabe (1975) discursos,
como o jornalístico, nem sempre são exclusivamente informativos,
eles usualmente são proferidos para atingir algum objetivo que
quase sempre está relacionado com as ações de persuadir,
convencer ou impressionar o leitor.
Nosso objetivo é proceder à análise do texto e buscar
indícios das visões preconceituosa e assistencialista endereçadas
tradicionalmente aos deficientes. Entretanto, devemos ter em mente a impossibilidade
de se fazer uma análise do discurso a partir de um lugar neutro,
pois quem ocupa o lugar de analista do discurso, deve buscar assumir sua
posição interpretativa e se reconhecer nos sentidos que
produz.
5) Análise
dos dados
Ao pressupormos
que o discurso tem o poder tanto de reproduzir a sociedade quanto de contribuir
para transformá-la, podemos pensar na dialética existente
entre os diferentes discursos e as ações sociais, o que
nos leva ao entendimento de que a prática discursiva não
deixa de ser uma prática política com o poder de estabelecer,
manter e transformar as relações de poder.
Ao procedermos à análise do discurso, de acordo com Foucault
(1971), devemos dar relevância aos efeitos de sentido de que podem
estar constituídos os vários discursos. Os efeitos de sentido
estão relacionados ao que Pêcheux (1969, in Gadet & Hak,
1993) define como interdiscurso, que é o efeito da interpretação
ideológica, aquilo que já está construído
ao nível da memória e o local das formulações
imaginárias que determinam os lugares que o destinador e o destinatário
atribuem a si e ao outro, lugares estes que fundarão as estratégias
do discurso.
Como um resumo possível do texto completo podemos relatar que,
aparentemente, o objetivo é informar o leitor sobre a existência
da inclusão escolar e, para tanto, a jornalista, utiliza-se de
dados estatísticos e relatos aos quais mescla falas de pessoas
envolvidas com o tema. A autora, em nenhum momento, coloca qualquer comentário
seu, o que dá pistas sobre a tentativa de afastar um envolvimento
pessoal que possa revelar a sua opinião sobre o assunto.
No primeiro parágrafo observa-se a utilização de
dados estatísticos alarmantes, especialmente ao comparar o número
total de deficientes no Brasil (mais de 24 milhões) com o número
de alunos deficientes matriculados nas escolas públicas e particulares
do país (apenas 500 mil). A inquestionabilidade das informações
numéricas pode levar o leitor à sensação de
estarrecimento. No entanto, do número total de deficientes no Brasil
não é revelado qual percentual está em idade escolar
para que uma comparação possa ser estabelecida. Além
disso, na linha 3, o uso da expressão “quando o assunto é
educação” reitera as vozes do senso comum que se colocam
contra a escola, ou seja, nesta parte do texto a escola pode ser tomada
como deficiente também no que concerne à inclusão.
No parágrafo 2, a autora continua a utilização de
dados estatísticos, no entanto, ao contrário do parágrafo
1, há um caráter positivo nos dados e conjuntamente aparece
o nome do MEC, o que possibilita que o leitor credite o aumento do número
de deficientes matriculados tão somente na conta do ministério.
Ainda neste parágrafo o fato de ocorrer o aumento do número
de matrículas parece ser suficiente, o aparenta ser mais a repetição
de um discurso “politicamente correto” do que uma postura
a favor da inclusão.
No parágrafo 3 observa-se uma construção que de alguma
forma reitera e exaltação da atuação do MEC
encontrada no parágrafo 2. Na linha 5 a expressão “o
governo promete mais” pode remeter a sentidos que vêm de competição,
como se falasse de um time que está ganhando e que promete que
assim continuará, obviamente se permanecer no poder.
O restante do texto traz casos de inclusão que, “apesar”
das dificuldades, têm final feliz.
Além do texto, há uma seqüência de quatro fotografias
na matéria que não nos parece ser aleatória.
Na primeira há apenas uma pessoa deficiente, de aspecto bastante
prejudicado em um local que pode ser ou não um espaço escolar
(Fotografia 1).
Fotografia 1
A segunda
fotografia mostra uma menina com Síndrome de Down numa sala de
aula, no entanto o fundo está fora de foco (Fotografia 2).
Fotografia
2
A terceira
fotografia mostra em segundo plano uma moça que segundo a matéria
tem problemas neurológicos graves, no entanto, a deficiência
não é visível (Fotografia 3).
Fotografia
3
A quarta,
e última fotografia, mostra um grupo de jovens com a presença
quase imperceptível de uma moça com Síndrome de Down
(Fotografia 4).
Fotografia 4
Esta seqüência
pode nos remeter à idéia de que o deficiente, para que possa
participar da escola regular, deve ter a sua imagem dissolvida. A sucessão
das fotos dá a sensação de que a deficiência
só pode ser aceita se ela for imperceptível. Podemos pensar
que a inclusão só será bem sucedida a partir do apagamento
das diferenças.
6) Discussão
Ao analisar
o texto pudemos constatar a relevância do Paradigma Indiciário
(GINZBURG, 1989) que propõe que aquilo que é dito guarda
marcas daquilo que é silenciado. Relacionando o paradigma de Ginzburg
com a Análise do Discurso pode-se argumentar que a interpretação
deve extrapolar o enunciado, pois dados vistos como menores ou irrelevantes
na interpretação normativa de um texto podem fazer completa
diferença na análise do discurso.
Como já dissemos, o discurso jornalístico cria naquele que
o lê uma noção de objetividade e de imparcialidade.
O objetivo é dar um caráter de irrefutável ao discurso
que produz.
O texto analisado neste trabalho não foge à regra, revela-se
adequado às características do discurso jornalístico.
Observa-se que no texto a autora não coloca posições
pessoais, o que dá a entender ao leitor que o acontecimento discursivo
aconteceu por si, funcionando como uma fotografia que captura uma realidade
em determinado momento. Essa condição do texto produz a
ilusão de que ele traz uma verdade única e incontestável.
Neste caso, a jornalista Paloma Cotes assina o texto e revela-se como
sujeito enunciador, mas tenta realizar um afastamento subjetivo do texto.
É como se não houvesse nada de pessoal no texto e que, por
não apresentar uma intervenção subjetiva da autora,
pudesse lhe ser atribuído um significado único e transparente,
sem a interferência de fatores sociais ou ideológicos.
No entanto, ao realizarmos a análise, pudemos perceber vários
pontos, que apesar de não estarem materializados no texto encontram-se
implícitos ou pressupostos, como por exemplo, o cunho político
dos exemplos de ações de inclusão realizadas pelo
MEC. Ao mesmo tempo, no fato de não citar que há uma legislação
em vigor sobre a inclusão escolar há uma pressuposição
de que os deficientes são aceitos nas escolas apenas pela boa vontade
dos educadores ou pela insistência e peregrinação
dos pais. Além disso, o tom de exclamação presente
nos parágrafos analisados pode evidenciar a situação
de pasmo em que se encontrava a autora ao se deparar com as questões
da inclusão escolar.
Outra constatação interessante é que em nenhum momento
houve a evidência de que os deficientes nem sempre tem déficits
intelectuais e cognitivos e que, portanto têm a mesma capacidade
de aprendizagem que os não deficientes, como é o caso dos
surdos, dos cegos ou daqueles com comprometimentos motores, por exemplo.
Implicitamente, todos os tipos de deficiência foram aglutinados,
o que indica que todos os deficientes são tomados como incapazes
de aprender.
Pudemos então verificar que, mesmo adequando-se ao discurso que
intencionava produzir, a autora não se isentou e verificou-se um
conjunto de manifestações subjetivas nos implícitos
e nos pressupostos do texto.
7) Considerações
finais
Apesar da
aparência positiva e desejável da inclusão escolar
mostrada tanto pelo conteúdo do texto quanto pela apresentação
das fotografias que compõem o artigo jornalístico analisado,
pudemos perceber, através da Análise do Discurso, que o
texto dá indícios de que a visão da jornalista e
da revista na qual o artigo foi publicado ainda tem raízes nas
representações de menos-valia atribuídas aos deficientes.
Temos observado em nossa prática que esta não é uma
postura adotada apenas pela mídia. Vivenciamos resistência,
rechaço e preconceito tanto em relação aos deficientes
quanto à inclusão no interior das escolas, no contato com
profissionais da educação, com pais de alunos sem deficiência
e com os próprios alunos.
Este dia-a-dia compartilhado com vários processos de inclusão
escolar nos tem indicado que a sociedade ainda se mantém no paradigma
da exclusão dos deficientes. Via de regra, as concepções
e o tratamento destinado aos deficientes ainda têm por base os pilares
do preconceito, da exclusão e do assistencialismo; pilares esses
que já estavam erigidos há séculos atrás.
Não pretendemos aqui afirmar que não houve mudanças,
elas são evidentes e se comprovam até mesmo pela publicação
de um artigo como o analisado neste estudo. O que queremos ressaltar é
que ainda há um longo caminho a percorrer para que os deficientes
não sejam considerados menos humanos e dignos de direitos que os
não deficientes.
Pudemos perceber que a Análise do Discurso, por suas bases epistemológicas,
pode ser um instrumento privilegiado no sentido de expor que atrás
de artigos aparentemente bem-intencionados ou de textos legais bem elaborados
ainda há um discurso regendo as relações com os deficientes
que se preserva vinculado à segregação e ao não
reconhecimento da alteridade deficiente.
8) Referências
bibliográficas
ALTHUSSER,
Louis. Aparelhos ideológicos de estado. Rio de Janeiro: Edições
Graal, 1985, 2a edição.
ARANHA, Maria Salete Fábio. Projeto Escola Viva: alunos com necessidades
educacionais especiais; visão histórica. Brasília:
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