Benedita de Almeida - Universidade Estadual do
Oeste do Paraná-UNIOESTE
Neste trabalho, analiso processo de avaliação
de um texto escrito para enlaçar sujeitos envolvidos num programa
de educação continuada de professores, segmento de um projeto
de extensão universitária. O discurso dos professores revela
um movimento de recusa às ações de formação
continuada. O fio da escrita busca enlaçar a dispersão das
diferentes letras que instituem o processo, evidencia o impasse do desejo
dos sujeitos e a necessidade de quem se forma de se comprometer com a
própria formação, para se inscrever na ordem do desejo.
Aponta caminhos para processos de educação continuada de
professores, que considerem a importância da transmissão
na ação formadora, para não se constituírem
em vozes de verdade e de poder.
Iniciando a interlocução
Neste texto, apresento algumas reflexões sobre um processo de formação
de professores integrantes de programa de educação continuada
– Programa de Formação de Professores da Educação
do Campo –, segmento de um projeto de extensão universitária
da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), desenvolvido
em parceria com uma Secretaria Municipal de Educação e uma
ONG especializada em assessoria rural (ASSESOAR) . Analiso anotações
realizadas durante três encontros de acompanhamento a um grupo de
professores de escolas do campo, seus supervisores e diretores. Pela escrita,
procuro encontrar, nos discursos dos envolvidos, os significados que conferem
ao programa e a sua própria formação.
O Programa de Formação de Professores da Educação
do Campo, concebido em 2000, como forma de potencializar a dimensão
educativa no desenvolvimento do campo, desenvolve ações
de educação continuada a sete escolas (de pré-escola
a 8ª série) situadas em comunidades de agricultores do município
de Francisco Beltrão, no Sudoeste do Paraná. Tem como eixo
central o registro e a reflexão sobre a prática, com encaminhamentos
de planos de ação construídos coletivamente, num
processo de formação permanente, de avaliações
constantes e de planejamento de novas ações, a partir das
problemáticas levantadas pelos profissionais das escolas. Sua dinâmica
prevê acompanhamento periódico às escolas pelas parcerias,
encontros mensais com as equipes gestoras (direção e supervisão
) e dois encontros anuais, em forma de Seminário, com todos os
integrantes. Os Seminários de Formação são
momentos de formação em que, além do tratamento de
temáticas específicas selecionadas pelas escolas, realiza-se
avaliação das ações e necessidades do Programa,
para configurar os próximos planejamentos (UNIOESTE, 2004).
O projeto inicial do programa de educação continuada previa
uma avaliação coletiva do processo depois de um determinado
período, o que ocorreu em maio de 2004, num Seminário de
Formação, com duração de oito horas, do qual
participaram as equipes de todas as escolas e das parcerias. Nesse encontro,
as escolas identificaram duas questões centrais para o Programa:
a necessidade de estudos para qualificar a prática e de unidade
conceitual das parcerias nas ações de formação
(conforme a fala do relator do grupo: as assessorias precisam falar a
mesma língua). Como resultado, naquele momento, definiu-se a escrita
de um texto-base, que apresentasse fundamentos teóricos para articular
as ações das parcerias entre si e com as escolas, ou seja,
que representassem o olhar com que os integrantes do Programa consideram
a prática pedagógica. A tarefa de escrita foi passada para
as assessorias.
A escrita desse texto-base surgiu, portanto, como decisão coletiva
de todos os participantes, a partir da necessidade de unidade teórica
apontada pelas escolas e reconhecida pela Universidade, haja vista que
sempre foram perceptíveis diferenças conceituais e metodológicas
nos modos de atuação dos diferentes integrantes do Programa.
Essas diferenças referiam-se, especificamente, à consideração
do conhecimento como objeto escolar e seu papel na formação
de pessoas, à desconsideração da autonomia das escolas
na definição de suas problemáticas e encaminhamento
das ações, ao desenvolvimento de ações formativas
paralelas, à revelia de outros parceiros, e orientações
pouco democráticas, desprezando um princípio fundamental
ao Programa, a relação compartilhada e a construção
processual da prática educativa. Impossível uma homogeneidade
no pensar de diferentes sujeitos, mas num trabalho conjunto de formação
de professores, alguns princípios comuns precisam ser definidos
e considerados.
O texto foi escrito por seis docentes da UNIOESTE, um representante da
Secretaria Municipal de Educação e um da ASSESOAR, sem a
participação das equipes das escolas. Por consenso, definiu-se
o materialismo histórico, que fundamenta as teorias críticas
e progressistas, como concepção norteadora. Resultou em
um documento de onze páginas, estruturado em oito itens: um breve
histórico do Projeto Vida na Roça, o referido projeto de
extensão em que o Programa se insere e de que se origina; algumas
considerações sobre questões que permeiam os meandros
da formação continuada de professores; a proposição
de uma concepção de educação que atendesse
a princípios de emancipação humana; a indicação
da educação do campo como referência para articulação
da prática pedagógica ao contexto sócio-cultural
de seus sujeitos; as justificativas para a definição de
uma concepção teórico-metodológica no interior
do Programa; os aspectos centrais da concepção teórico-metodológica
dialética; a definição de princípios orientadores
às parcerias e as proposições centrais ao desenvolvimento
do Programa. As considerações finais sobre o documento deixam
clara sua materialidade como decorrência do próprio movimento
de formação, de suas finalidades e perspectivas.
Escrito, o texto precisava ser analisado e avaliado pelas escolas, para
que apresentassem suas contribuições e pudessem torná-lo,
efetivamente, uma representação de suas expectativas quanto
ao Programa de Formação. Como sujeitos centrais do processo,
os professores precisavam conhecer seu conteúdo, mais ainda, se
reconhecer e se colocar neles, pois, além de conduzir as ações
das parcerias, o documento deveria refletir os anseios das escolas e apontar
caminhos para o trabalho e a formação docente. Para isso,
foram organizados cinco encontros de avaliação, dentre os
quais participei ativamente de três, no período de 10 de
agosto a 28 de setembro de 2004. O primeiro, com os diretores e supervisores
das escolas, o segundo, reunindo três escolas, e o último
com uma escola. Não participei dos dois outros encontros, que tiveram
sua coordenação a cargo das outras assessorias.Tal organização
respeitou a agenda, a possibilidade e as sugestões dos participantes.
São desses encontros as anotações que aqui analiso
e que representam a manifestação discursiva dos participantes
em relação ao texto-base do Programa de Formação
de Professores da Educação do Campo.
A análise que aqui realizo pauta-se pela consideração
da centralidade da linguagem na constituição da subjetividade
e da formação humana, idéia que me é muito
cara e clara. Com pesquisa na temática leitura e formação
de professores, o material que analiso se mostra fértil para me
oferecer respostas à questão que fundamenta minha escrita,
assim formulada: esse exercício de escrita pode me revelar as causas
da enorme resistência manifesta pelos professores em relação
ao Programa de Formação de Professores da Educação
do Campo? Escrita em que várias letras que se sobrepõem,
numa complexa relação de sujeitos, precisarão se
entrelaçar – o documento do Programa, as falas dos professores,
minhas anotações sobre os encontros e este texto que se
delineia –, demonstrando por seus enunciados e enunciadores o desejo
inconsciente dos sujeitos calcados e tecidos na ordem da linguagem, cuja
centralidade considero nesse movimento e nesta escrita.
Tomo alguns excertos das anotações, materializados pelas
falas dos professores, que se revelam forças explosivas de suas
relações com o Programa, materializado no documento, e busco
alcançar o sentido que conferem ao processo. Refiro-me, com processo,
a todas as dimensões que compõem essa trama, a prática
pedagógica dos professores, as relações interpessoais
dos profissionais de cada escola, suas relações com as parcerias
e das parcerias entre si, os encontros de estudo e acompanhamento, as
expectativas e concepções de formação e de
formação continuada dos sujeitos envolvidos, o texto do
Programa e o próprio Programa, entre outras possíveis.
Contexto e motivação deste texto apresentados, organizo-o
em três seções, além dessa introdução.
Na primeira, descrevo e analiso algumas falas dos sujeitos em relação
ao documento do Programa, pelas quais se revela o movimento de resistência,
e tento explicitá-la. Na segunda, apresento algumas considerações
sobre o processo de educação continuada produzido a partir
daquela vivência. Concluo o texto, analisando como o fio da escrita
pode enlaçar a dispersão das diferentes letras que instituem
o processo, mas, também, pode se revestir de uma vontade de verdade
que, ao legitimar algumas vozes, distancia sujeitos e desejos.
Sujeitos, vozes, palavras, letra... revela-se a resistência
Minhas primeiras impressões, ouvidas as falas dos professores e
lidas as anotações dos encontros, foram de uma grande preocupação,
por elas denunciarem um movimento de recusa e resistência, por grande
parte dos envolvidos, em relação ao documento, ao Programa,
portanto, que ele representa, ao mesmo tempo em que revelam, interligados,
problemas na interlocução necessária entre as equipes
que trabalham em cada escola. Resistência para um programa de formação
não é ação que cause surpresas e nem é
inaugural no processo que analiso. A forma e o momento como se revela,
contudo, é que me provocam.
Para que isso fique mais claro, explico que, depois do texto ser escrito,
reunimo-nos as parcerias (cinco representantes) e os diretores e supervisores
das sete escolas (catorze pessoas), para que esses últimos manifestassem
suas impressões sobre o documento, tendo em vista as definições
do Seminário de maio/2004, e sua possibilidade de representar as
expectativas dos professores para o processo de formação
continuada. Para tanto, a pauta de análise recaiu sobre a adequação
de sua linguagem e conteúdo, ou seja, para que dissessem se aquele
documento servia como base para o Programa, se sua linguagem e conteúdo
seriam entendidos pelos professores, que modificações seriam
necessárias, antes de ser-lhes apresentado.
Acho conveniente destacar que isso nunca se caracterizou como forma de
subestimar as capacidades intelectuais dos envolvidos, mas representou,
sempre, uma preocupação em ter um texto que efetivamente
fosse subsídio às ações de formação
continuada, que se tornasse palavra viva representante, realmente, do
Programa e de seus sujeitos. Havia, também, a preocupação
de mostrar um necessário comprometimento com o saber, com o estudo,
afinal eles são um dos “estofos” de todo processo educativo
escolar, os professores desejavam qualificar suas práticas, e existe
um desdém claramente manifesto por esse aspecto, por uma parceira,
a ASSESOAR.
Nesse primeiro encontro, sem a participação dos professores,
vale lembrar, o texto foi lido e analisado; diretores e supervisores apontaram
dificuldades em relação à linguagem e ao conteúdo
e a necessidade de enfrentá-las, apontaram elementos que deveriam
ser acrescentados para contemplar melhor suas necessidades; enfim, apresentaram
algumas contribuições à produção final
do documento, sem manifestar completa aceitação do material.
Exemplifico com algumas das falas:
De início, tranqüilo. A parte das concepções
teórico-metodológicas é mais difícil (S1)
.
A linguagem não é a do dia-a-dia, mas se estudarmos, relermos,
vamos compreender (S2).
Falta ligação com a práxis, precisa estabelecer relações
entre o texto e o conhecimento que temos (S3).
É um conhecimento novo que vamos ter que acostumar e aprender.
Só acredito no desenvolvimento do campo com a possibilidade de
conhecimento. Isso foi negado, historicamente. Se não entendemos
essa linguagem, muita gente entende. Nós temos que entender. Os
alunos chegam pequenininhos, com as mesmas dificuldades dos pais... Se
não dermos conta do conhecimento, continuamos a manter a exclusão
(S4).
Falta apresentar uma reflexão sobre o educando, que poderia ser
contemplada no item concepção metodológica, quando
se refere ao “ser humano”, acrescentando “em formação”,
e acrescentar um tópico “Estado e Sociedade”, para
relacionar o Programa com as políticas públicas (S5).
Ressalto, naquele momento, uma certa positividade dos argumentos. Parece-me
que os enunciados do texto podem encontrar ressonância nas vozes
dos sujeitos. Os indicativos que apresentam para reformulação
do documento (S5) e para a possibilidade de o grupo agregar conhecimento
de teorias pedagógicas e mesmo a valorização do esforço
para realmente considerar o conhecimento em suas vivências profissionais
e pessoais parecem concorrer para isso (S2). Uma análise mais atenta,
entretanto, aponta que não é uma aceitação
integral. As observações de S1 e S2 indicam dificuldades
no texto e condicionam sua compreensão/aceitação
à realização de estudos. S3 critica-o de forma velada,
não encontra relações entre ele e o seu conhecimento,
ou seja, o texto e S3 falam línguas diferentes. Mas é a
fala de S4, a princípio escamoteada em aceitação,
que mais explicitamente revela a ausência do desejo de se enlaçar
com o texto e o conhecimento nele contido. Reitera diversas vezes sua
necessidade, distanciada, porém, de seu envolvimento pessoal, pelo
uso abundante que faz da forma imperativa, querendo configurar, para si
mesmo a força de uma imposição.
Considero perfeitamente plausíveis as dificuldades que relacionam
quanto à “linguagem” e ao “novo”, posto
que ambos têm relações estreitas na constituição
de conhecimentos, ação que implica reunir e relacionar elementos
da experiência atual de leitura desse documento com seus implícitos
de memória, pela compreensão. Como uma “base de dados”,
a memória discursiva sempre interferirá no grau de compreensão
e de conhecimento do sujeito. Nesse processo, a linguagem é fator
de mediação. Lembro Bakhtin (2002), para quem “afinal,
compreender um signo consiste em aproximar o signo apreendido de outros
signos já conhecidos; em outros termos, a compreensão é
uma resposta a um signo por meio de signos” (p. 33-4), ou seja,
pela linguagem, por associações, os conhecimentos são
ativados, relacionados, recuperados e atualizados. Nesse primeiro contato
com o documento, são frágeis os elos de relação.
Seu novo texto traz uma nova voz, que ainda não encontra eco para
se inserir na rede de sentidos dos sujeitos. Trata-se de um conhecimento
novo, que precisa ser construído, o que o grupo reconhece, mas
falta assumir o compromisso para compor a trama.
Eles sabem que precisam estudar, até solicitaram estudos para qualificar
a prática. Ao serem-lhes apresentados alguns princípios
gerais para “início” de estudos, porém, centram-se
nas dificuldades, quer dizer, revelam uma real ausência de vontade
para fazê-lo. Ao mesmo tempo, como gestores de escolas, que são,
talvez não queiram se expor, prefiram deixar o texto passar, antes,
pelo crivo da análise dos professores; omitem-se em se apoderar
do poder de decidir sobre a validade do documento e interditam o discurso
do Programa, um espaço do outro. Ou seja, excluem-se da materialidade
do discurso por um procedimento que confere ao sujeito o privilégio
do direito de dizer ou não qualquer coisa . Com isso, a alegada
vontade de estudos e de ver uma unidade epistemológica no Programa
de Formação esvazia-se, e o que se evidencia é o
desejo que não deseja ser satisfeito, uma ordem do inconsciente
que Lacan (apud RIOLFI, 2004) apresenta como característica do
desejo humano.
Próximas tarefas: reformulação do texto pelas parcerias,
a partir das contribuições das equipes de direção
e supervisão, distribuição às equipes para
leitura por todos nas escolas e agendamento de encontros, com a presença
dos professores, que deveriam trazer suas avaliações sobre
o texto para análise e, assim, o grupo partir para a finalização
do documento. Foi a estratégia encontrada para garantir a participação
de todos na escrita.
Novo encontro. Dessa vez, reunimo-nos as parcerias (dois docentes da Universidade,
um representante da Secretaria e um da ASSESOAR) e os grupos de três
escolas (três diretores, três supervisores e trinta e dois
professores). De início, um imprevisto, apenas uma das escolas
tinha lido o texto, fato que revela problemas na interlocução
necessária entre as equipes que trabalham nas escolas, uma vez
que o trabalho de direção e supervisão pressupõe
essa articulação, e se combinara a leitura prévia.
Mais, ainda, esse fato parece confirmar a pretendida omissão desses
gestores em relação à avaliação do
texto, um boicote (ao texto e a si mesmos). Garantiu-se um tempo para
a leitura, por todos, e partiu-se para a discussão, tomando os
mesmos elementos de análise da reunião anterior (linguagem,
conteúdo e estrutura do documento).
É nesse momento que acontece a enunciação, em que
um enunciado, proferido por S6, aparece qual uma explosão e dá
um novo sentido à situação e às relações
. No discurso concreto de S6, destaco seus enunciados:
O texto é difícil, é muito acadêmico. E posteriormente:
É muito acadêmico, difícil, do jeito que está,
não dá vontade nenhuma de ler.
e, neles, um significante deliberadamente colocado para apresentar sentido:
acadêmico. Sentidos que busco decifrar, considerando o enunciado
como uma instância passível de polifonia, isto é,
na qual podemos encontrar diferentes vozes que se presentificam em rede,
os enunciadores (DUCROT, 1987). Ou seja, além de S6 autor da frase
e S6 locutor que a pronunciou, podemos encontrá-lo, ainda, como
um enunciador que diz o significante acadêmico, mas que remete à
outra coisa – à Universidade, que o produz; como um enunciador
da intenção de atacar/xingar o texto; um que acha difícil
o texto acadêmico, que é da Universidade e, por último,
um enunciador que, portanto, não se prontifica a estudar/analisar
o texto. Dessa forma, revela sua incapacidade de compreendê-lo,
aceitá-lo ou dar-lhe credibilidade. Com isto, deixa claro não
gostar e não querer ler coisas que venham da Universidade, que
essas “coisas” não contribuem ou não servem
para o seu trabalho, que o texto e o Programa não servem para nada
e que não pretende considerá-los. Mais, ainda, coloca-se
contra qualquer tipo de estudo, pois, pela sua compreensão, estudo
e teoria são coisas acadêmicas, da Universidade.
O que produz o efeito de sentido no significante acadêmico, no discurso
de S6, é sua relação metonímica com universidade
(o texto acadêmico como parte do todo Universidade) , que explicita,
no dito, uma referência a quem produz o tipo acadêmico de
texto. Pela relação dos semas (universidade/acadêmico),
a relação metonímica resvala para uma instância
metafórica e para a revelação do impasse do desejo.
Creio importante destacar que S6 não manifestou, em nenhum momento,
qualquer divergência de opinião em relação
ao texto, nem situou ou apontou qualquer dificuldade específica;
apenas fixou-se no bordão “é difícil/acadêmico”.
Da sua fala, portanto, posso concluir que o significante representa o
paradoxo do desejo inconsciente de não desejar ser satisfeito,
ao dizer algo que talvez não soubesse querer dizer. Trata-se, aqui,
da dependência da palavra em relação à letra
“[...] esse suporte material que o discurso concreto empresta da
linguagem” (LACAN, 1996, p. 225), que marca o sujeito; e do efeito
do significante, também uma ação da ação
da letra.
Por outro lado, posso considerar, também, no episódio, um
caso de heteroglossia, conceito que Bakhtin (2002) descreve como a interação
de múltiplas perspectivas individuais e sociais, de vozes dissonantes.
Nesse sentido, o discurso do programa de formação traria
implícitas as vozes com que os professores construíram suas
representações de universidade e que, no caso do episódio
descrito, parece ser a de quem tutela as escolas e seus profissionais,
por um mecanismo simbólico de poder de quem detém o conhecimento.
Ou seja, parece ficar evidente que faltou aos envolvidos no programa considerar
uma relação efetivamente dialógica entre todos os
participantes do processo: professores e formadores, como parceiros. O
texto contém vozes sobrepostas, de alguns que falam sobre os outros
e sua formação, aparentemente com total domínio da
situação, como vozes em competição. Ao mesmo
tempo em que tomam a voz para apresentar demonstrações discursivas
com características e valores semânticos negativos, os professores
podem estar, com essa mesma voz, gritando para serem ouvidos.
Acho importante destacar uma fala que, a meu ver, desloca o sentido e
o rumo da interlocução pretendida naquele encontro. Uma
professora, S7, considera o texto difícil e que precisa de sinônimos.
Cita, como exemplo:
O que é “viés ”?
Creio que posso considerar o deslocamento do foco de discussão
da análise séria do conteúdo do texto, para algo
totalmente desprovido de sentido naquele contexto, ou seja, S7 desloca-se
do discurso para o vácuo, para o nada, retira-se da discussão.
Quando, em seguida, acrescenta, ainda, que a escola:
Não tem estrutura, não há material, nem internet,
que precisa de uma pessoa para coordenar o Programa, para providenciar
os materiais, quando é preciso...
continua fora do discurso (o laço que unia aquele grupo de pessoas),
resiste a nele entrar e procura, fora de si e do discurso, explicações
para possíveis encaminhamentos ao seu trabalho, suas dificuldades,
sem pensar na possibilidade de encontrá-los no documento em análise.
Em nenhum momento, o texto se refere a necessidades de materiais, pelo
contrário, busca, mais, apresentar algumas concepções
e princípios gerais que deveriam, naquele momento, passar pelo
crivo de cada participante, para aceitá-lo, substituí-lo,
retirá-lo ou transformá-lo, ações que demandam
esforço e inserção do sujeito nas tramas do discurso.
Além de, pela linguagem, deslocar-se do discurso, S7, com esse
enunciado, também desloca sua possibilidade de ação
pedagógica e seu papel de professora para fora de si, negando-se
como sujeito do processo de formar pessoas e de formar-se, abriga-se em
significantes alheios, pois precisa de “estrutura, de materiais...”
que alguém de fora deva prover, isto é, sua não adesão
ao processo de formação pretendido pelo Programa é
atribuída às condições (falta de). Não
estaria eu a exagerar se afirmasse que seus alunos certamente “não
aprendem porque não têm condições psicológicas,
interesse, suas famílias são desestruturadas etc”.
Esse aspecto da culpabilização do outro tem permeado o discurso
da prática pedagógica e impedido os educadores de tomar
nas suas mãos as responsabilidades de seu fazer e saber, o que
lhes permitiria perceber as finalidades e os compromissos do trabalho
educativo, bem como a necessidade de esforços para o empreendimento
de formar pessoas, seja o aluno ou a si próprios. Quero dizer,
com isso, que os professores reclamam por uma autonomia, mas não
a entendem como uma relação de interação e
diálogo entre convicções e finalidades de seu trabalho,
que autonomia não se outorga, se constrói, e que essa construção
exige que um sujeito nela se empenhe. Sem desconsiderar a importância
das condições sócio-estruturais em que a ação
docente se insere, há, no entanto, uma condição primeira:
há que se ter desejo e esforço.
Outros enunciados de teor semelhante se apresentaram nesse encontro, mas
acredito que o descrito seja suficiente e representativo para os objetivos
desta escrita. Vale destacar, também, que a ausência de revides
para os comentários apresentados, a não ser pelos integrantes
de apenas uma das escolas, naquele momento revelava concordância
com o que se dizia.
O terceiro encontro realizou-se com a equipe de apenas uma escola, cujos
professores também não tinham ainda lido o material. A reiteração
desse elemento torna-se muito significativa do trabalho e interlocução
que (não) são promovidos pelos gestores das escolas e da
intenção implícita de boicotar o Programa, pelo seu
texto. Nesse grupo, a leitura não provocou nenhuma manifestação.
O texto foi simplesmente estudado, quer dizer, o grupo não entrou
no jogo de avaliá-lo ou contribuir para sua consolidação,
manteve-se fora do desejo e do laço. Ao final, desenvolve-se uma
“conversa fiada” e uma fala aparentemente despropositada de
S4:
[...] E a universidade que não muda...
Sua descontextualização é aparente, pois o significante
universidade parece estar deliberadamente confirmando o impasse do desejo
de S4 se enlaçar com o texto e com estudos, como tentara demonstrar
na fala anterior (p. 6 deste texto).
Não participei dos dois outros encontros de avaliação
(três escolas), que ficaram a cargo da Secretaria, mas os resultados
não foram diferentes ou satisfatórios. Neles, estudou-se
o texto, e não houve contribuições ou qualquer destaque
significativo.
Acreditava que os professores lessem o documento do Programa com seriedade
e que realmente contribuíssem com sua produção final;
que se posicionassem diante daquele escrito e da sua validade.
Responder a essa questão exige, no entanto, transitar por um saber
que a sustenta. Exige que os sujeitos tenham claro para si mesmos as dificuldades
que encontram no trabalho cotidiano, o significado de tais dificuldades,
suas relações com o contexto da prática e, como conseqüência,
que se questionem sobre seus próprios saberes, ao debruçarem-se
sobre suas inquietações na busca de explicações
para os resultados que conseguem ou não em termos das aprendizagens
de seus alunos. Exige que se leiam e se exponham. Há que se considerar,
também, que a escrita do texto e a necessidade de estudo foram
uma definição coletiva, anônima, criada com a força
que tal aspecto impulsiona às decisões. Até que ponto
cada um dos professores, individualmente, concorda com ela ou se vê
nela representado?
A resistência explicitada produz uma saída
tangencial
Tangencial porque procurei, no documento, canais que permitissem iniciar
um trabalho com uma escola, considerando, simultaneamente, a implementação
do Programa e os significantes dos professores.
De alguma forma, a resistência explícita por S6 contém
elementos de sua experiência profissional que a pesquisa sobre educação
continuada de professores já descobriu: a percepção
de que a pesquisa acadêmica não consegue atingir os problemas
e temas mais importantes e mais próximos de seu trabalho, o domínio
pelo professor de métodos e recursos para investigar esses assuntos
fundamentais, mas que a rotina diária, porém, não
lhe permite o necessário distanciamento para sistematização
e fundamentação de seus saberes, da importância dos
saberes de experiência e da percepção da necessidade
de sua expansão, cujos recursos nem sempre vêm da pesquisa
acadêmica (LÜDKE, 2001). Evidencia, também, que não
são textos, bem ou mal escritos por outros, que vão afetar
o trabalho do professor.
Entre as “proposições ao desenvolvimento do Programa”,
recortei alguns itens que tratam da organização do currículo
e do papel da pesquisa nas escolas e na formação do professor,
para propor um projeto coletivo. Propus o desenvolvimento de um projeto
coletivo de trabalho à escola que reconheceu a validade do documento
para dar conta de suas necessidades práticas e teóricas,
embora propondo contribuições e reformulações,
o que revela que seus professores o consideraram seriamente.
A proposta prevê práticas de intervenção didática
que fortaleçam a aprendizagem, a ampliação e a socialização
do conhecimento e a sistematização das práticas pedagógicas
desenvolvidas pelos professores, como meio de torná-las um dos
elementos essenciais da formação, como propõe o Programa.
Os professores precisarão observar e registrar as dificuldades
e avanços dos alunos; precisarão escrever sobre suas atividades,
analisando as experiências, tecendo comentários. Espero que
a escrita lhes permita explicitar, problematizar, relacionar, teorizar,
conhecer e conhecerem-se. Os estudos deverão surgir como conseqüente
necessidade do processo.
Apresentei-lhes apenas uma condição inicial, que o projeto
fosse pensado a partir dos conteúdos que trabalhariam no bimestre,
e não o contrário, como é usual, e que eles fossem
levados para o momento de planejamento coletivo.
A boa receptividade do grupo dessa escola – nove professores e o
diretor – e o entusiasmo com que se envolveu na escolha da temática,
no planejamento de atividades, na articulação com os conteúdos
do bimestre e no desenvolvimento das ações parecem revelar
importantes indicativos para processos de formação. O conhecimento
(saber) é necessário, afinal não se justifica a existência
de escolas sem ele, pois a relação entre sujeito e conhecimento
compõe a finalidade da instituição escolar; e formação
envolve conhecimento, mas só ocorre com o envolvimento das pessoas,
com um nível de esforço, com um movimento de desejo. E como
instalar esse desejo de formação naqueles que se pensam
já prontos, formados, com suas certezas e verdades cristalizadas,
porque não se reconhecem como sujeitos de desejos? Tomando o dialogismo
como princípio de formação, acredito, com Bakhtin
(2000), que a formação pressupõe a recusa a uma última
palavra, pois, na constituição humana pela linguagem, uma
palavra provocará sempre novas respostas.
Assim, concordo com a idéia de Riolfi (2004, p. 4) sobre a formação,
quando diz da necessidade de que quem esteja sendo formado “possa
ser atravessado pelos significantes da área que se propõe
estudar”, movimento em que produzirá seus novos significantes,
que também o constituirão. Talvez seja este um dos caminhos
para que o desejo se instaure, ter e ser os seus próprios significantes,
para não se alienar nos alheios.
Que significantes têm permeado os processos de formação,
tanto de professores, quanto de seus/nossos alunos? Ensino é a
palavra-chave dessa operação. Lacan propõe a transmissão,
ação que o formador executa e que produz efeitos em quem
está em formação. Diferente de ensino, a transmissão
pressupõe atitudes, que a pessoa se implique com o processo, pondo
algo de si nele. Logo, a idéia de formação precisa
ser radicalizada por uma ordem outra de significantes, para inscrever
nos sujeitos a instância do desejo.
Pode ser que o significante “conteúdo” tenha proporcionado
isso aos sujeitos das escolas que acolheram com tanto entusiasmo uma proposta
de ação que, segundo a fala de um deles, os faria terminar
o ano “com brilho nos olhos”. Dar conta dos conteúdos,
fazer seus alunos aprender, encontrar estratégias para o trabalho
do dia-a-dia – viver a experiência educativa, enfim –,
isso tudo precisa de um grande comprometimento dos professores, de torná-los
agentes, mas precisa, primeiro, constituir seus significantes e seu desejo.
Entrelaçando a escrita
O ritual de se ter um texto como voz de verdade está na origem
deste escrito. O desencontro das vozes de formadores e professores, grafadas
inicialmente num caderno, desencadeia um processo em que minhas palavras
se revolvem inquietas porque não querem aceitar a aparente ausência
de vontade de agir, de resolver, que se insinua naquele momento e vai
tomando corpo, à medida que as vozes dos professores vão
indicando que tomam os enunciados do Programa como um discurso com o poder
de instituir o real, como prática que se pretende o discurso de
verdade, que autorizaria ou não suas práticas, e que isso
basta para que desejem excluí-lo, boicotá-lo, ignorá-lo.
A não-leitura do texto vai apontando uma não-leitura de
si e um não-desejo de se deslocar para posições desconhecidas
e criar um lugar novo, que suas contribuições resultariam.
O texto pode até não ser o conveniente para o Programa,
ou talvez o Programa nem necessite de textos. Creio, no entanto, que,
qualquer que fosse o encaminhamento dado para resposta às questões
que o originaram, o impasse seria o mesmo.
A credibilidade para um saber, para um conhecimento que tome como referência
a prática dos professores requer que eles possuam seus significantes
sobre ela. Se não os têm, não serão os alheios
que os libertarão da alienação em que se movem, para
se constituírem sujeitos de linguagem e com ela se produzirem sujeitos
de desejo, que instituem seu próprio discurso, sua palavra/ação
que os inscreveria numa ordem outra.
Retomo uma fala dos professores, na origem do processo de escrita do documento
do Programa – “a mesma língua” –, e procuro
situá-la. O texto escrito quer organizar o domínio da atividade
do professor. Pode ser elemento articulador dos diferentes discursos /
“língua”, mas, com certeza, torna-se, no nível
simbólico, impregnado do poder de legitimar verdades com poderes
de controle, se é escrita de uns para outros. Nesse caso, surge
a resistência, como espaço pessoal de contestação
à lógica de uma suposta dominação, pelo qual
os sujeitos não permitem a mediação do processo socializador,
subvertendo-o (GIROUX, 1997, p. 199).
“A mesma língua” pode ser entendida como o desejo comum
de uma formação que contribua para os professores, mas o
documento escrito pode ter produzido uma ordem de racionalidade numa arena
em que transitam subjetividades, daí o descrédito e o não
conseguir enlaçar. Ao ser escrito, portanto, torna-se um objeto
autônomo, provido do poder de domínio. A relação
dos professores com o texto-documento, desse modo, instaura-se em uma
ordem, na qual suas subjetividades não desejam penetrar e encontrar
seus sentidos, embora se tenha criado uma possibilidade de entrada nele,
com autoria, para que seus fios se entretecessem com a letra / “língua”
de cada um e para que se tornasse um liame de todo o grupo. Um outro fio,
o de minha escrita, enlaça toda a dispersão das diferentes
letras que configuraram o processo. Penetrá-las, escrevendo-as,
permitiu a explicitação do jogo de contradições
que permeia seus sentidos e seus sujeitos.
Referências bibliográficas
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