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DESCONCERTOS, INCERTEZAS: PROFESSORAS APRENDENDO A ALFABETIZAR
Daniela Dias dos Anjos - Pós-graduação
– FE/Unicamp - Agência Financiadora: FAPESP Resumo No âmbito das discussões acerca da formação de professores e da profissão docente, temos investigado, a partir de uma perspectiva histórico-cultural, o modo como os professores vivenciaram o início da carreira, quais experiências, sentimentos e lembranças possuem e como eles interpretam e falam hoje de seus primeiros anos como professores. Neste trabalho, a partir de trechos de entrevistas realizadas com professoras alfabetizadoras, buscaremos refletir como estas se relacionam, na prática pedagógica cotidiana, com o conhecimento acerca do processo de alfabetização a que tiveram acesso em sua formação acadêmica. Introdução Este trabalho faz parte de um projeto de pesquisa mais
abrangente, ainda em andamento, que tem investigado o modo como os professores
vivenciaram o início da profissão, quais experiências,
sentimentos e lembranças possuem e como eles interpretam e falam
hoje de seus primeiros anos como professores. Assumindo uma perspectiva
histórico-cultural, consideramos que as condições
concretas de vida dos sujeitos estão imbricadas na história
social, marcando e caracterizando modos de ação e atuação
profissional. Visando compreender as condições de realização
do trabalho do professor iniciante nas suas articulações
com o contexto histórico cultural no qual ele acontecia, optamos
por entrevistar professores que começaram a dar aulas ao longo
das últimas quatro décadas. Pesquisas sobre o professor iniciante A partir de pesquisa bibliográfica realizada encontramos
alguns autores que ao tematizar sobre o trabalho do professor iniciante
(Corsi, 2002; Guarnieri, 1996; Pizzo, 2004; Vieira, 2002) consideram diferentes
aspectos do início da profissão: as dificuldades encontradas,
relação teoria e prática, como os professores desenvolvem
seus conhecimentos, como lidam com os problemas, etc. A maioria desses
trabalhos faz uso do conceito de desenvolvimento profissional e da noção
de ciclos profissionais, buscando articulação com pesquisadores
que estudaram o desenvolvimento da profissão, tais como Huberman,
Veeman, Garcia entre outros. Estes autores investigam o que seriam ‘níveis
de desenvolvimento do professor’, e “é a partir deles
que se delineiam as investigações sobre esse tipo de professor
(iniciante), procurando abarcar vários aspectos dessa transição...”
(Guarnieri, 1996:12). O ingresso O ano em que essas professoras ingressaram na rede municipal
de Campinas (2000) foi de mudança de gestão na prefeitura,
marcado por grandes alterações na rede municipal de ensino.
Selecionamos da entrevista alguns trechos da análise que as professoras fizeram sobre esse processo de entrada na carreira. P: Como foi começar??? Essa situação evidencia a não preparação
da escola para receber os professores iniciantes. Não há
sequer um planejamento para que o professor comece no início do
ano letivo. “os programas de iniciação têm
a finalidade específica de facilitar a adaptação
e integração do novo professor na cultura escolar existente.
Trata-se de facilitar ao professor principiante o acesso à ecologia
da escola, ou seja, as intenções, estrutura, currículo,
pedagogia e sistema de avaliação que caracteriza e diferencia
a escola na qual decorrerá o seu ensino”. (Garcia, 1999,
p.122) É interessante pensar na existência de um
apoio formal aos professores iniciantes. Não estamos dizendo com
isso que só os professores iniciantes precisam de ajuda, que depois
de um tempo eles já sabem tudo, de modo algum, mas sim que a existência
de um espaço de troca, um reconhecimento de que os primeiros passos
na carreira são extremamente difíceis, poderiam contribuir
para diminuir os sofrimentos pelos quais passam professores em início
de carreira. Lima (2004) comenta sobre essa questão Desconsiderando a complexidade dos fatores que envolvem
o trabalho docente, a expectativa institucional em relação
às professoras “(... ) é a de que cheguem prontas
para o cumprimento de sua tarefa, ou seja, que se revelem aptas a dar
conta do ritual da sala de aula e que implementem adequadamente o ofício
que aprenderam como alunas.” (Fontana, 2000b, p.146) Desconcertos – Jogos de Imagens M: eu cheguei na sala de aula com um rolo de barbante
na mão e um rádio. Uma dinâmica de grupo, tinha separado
uma música do Milton Nascimento que falava da vida ... e de amor,
e de uma casinha na beira de um rio, eu falava “nossa, tudo a ver,
vamos conversar sobre a vida e sobre a infância”, ... eu sabia
que eles eram migrantes, ai eu fiz a roda. E eles me olhando muito estranhos,
ai um senhor me levou numa sala ESCURA!
T: ... eu também... tinha muita expectativa no
início do trabalho, turminha de segunda série, imaginei
aqueles alunos numa certa faixa etária, lembrando que talvez tivesse
algumas crianças que tivessem história de repetência
tal, mas, ... chego lá, separei textos de literatura infantil,
juvenil, algumas coisas que eu achei que fosse legal trabalhar e a resistência.
Mas isso eu lembro... qual é o aluno até hoje, ... ele chegou
para mim com caderno na mão e falou “isso não é
lição” Essas duas professoras, logo no início de suas
carreiras viram-se desconcertadas, questionadas por seus alunos. No decorrer
da entrevista narram que embates como estes continuaram acontecendo. Elas
concebiam a aula e as atividades de modo distinto de seus alunos, que
as questionavam acerca de suas opções. Imagens das professoras acerca do ensino da língua As professoras tinham uma imagem construída, em
parte pela formação que receberam, a partir do conhecimento
divulgado a que tiveram acesso na academia. Conhecimento este que critica
fortemente práticas “tradicionais” de ensino, como
o uso da cartilha, por exemplo. “A partir da década de 1980, com a divulgação, no Brasil, dos estudos de Ferreiro & Teberosky sobre a gênese da leitura e da escrita, as concepções tradicionais de alfabetização, baseadas na visão de que a aprendizagem da linguagem escrita é um processo de associação de símbolos gráficos a sons da fala e, por isso, um processo mecânico de repetição de letras ou sílabas e seus respectivos segmentos sonoros, passaram a ser questionadas com mais intensidade”. (Gontijo e Leite, 2002) No campo das políticas educacionais várias
propostas alternativas ao modelo tecnicista foram sendo implementadas
em todo país. A secretaria de educação do Estado
de São Paulo, por exemplo, adotou construtivismo como proposta
pedagógica, mas sem mudar as condições objetivas
de trabalho, devendo os professores abandonar as “velhas práticas
tradicionais” e repensar seus saberes. (Garcia, 1997). Então,
por que 20 anos após longos debates acerca do ensino da língua
alunos ainda espantam-se com propostas “alternativas” de trabalho?
Como a produção acadêmica é divulgada e apropriada
por políticas educacionais e professores? Que efeitos produz na
prática cotidiana das escolas? ... voltando ali no primeiro ano, de estranhamento, (...) tanto da nossa parte como da parte deles, ... acho que a gente se via meio como extra-terrestre, porque falava assim, gente virou o milênio, como assim “o bebê baba”? A gente via essas coisas na lousa, via castigo sendo dado mesmo, com criança ficando atrás de porta, mãe sendo chamada para, para sei lá, dar conta de indisciplina de aluno tal, que para gente... era uma coisa que não existia mais, era uma coisa que a gente ouvia falar quando a gente estava na primeira série enfim, mas isso existia (...). Apesar de toda a discussão e a tentativa de implementação de outras formas de ensino que contribuíram para a formação de uma imagem acerca de como deve ser o ensino da língua, essas imagens não são as únicas existentes. Elas se chocam com a imagem que os alunos possuem, imagem esta também produzida historicamente. Há práticas, modos de dizer, de fazer que vão sendo institucionalizados, divulgados, aceitos, veiculados. “(...) Na história das relações escolares, os sujeitos (alunos e professores) vão se apropriando, não sem tensão, de formas de agir e dizer. Esses modos de participação nas práticas e as imagens que eles vão refletindo vão se inscrevendo na memória coletiva e discursiva”. (Smolka e Braga, 2005, p.13) Imagens dos alunos A fala dos alunos explicita um certo modo de conceber
a aula, deixa entrever os valores sociais, marcas da produção
histórico cultural de imagens, papéis. Tanto uma criança
de 2ª série “isso não é lição”
como um adulto “isso aqui não é baile não”
apontam que a expectativa que tinham para a aula era outra. De acordo
com Bakhtin (2004) “... cada palavra se apresenta como arena em
miniatura onde se entrecruzam e lutam os valores sociais de orientação
contraditória. A palavra revela-se no momento de sua expressão,
como produto da interação viva das forças sociais”.
(p.66) “... há um ‘ideal’ da prática pedagógica que, partilhado socialmente, é distinto para cada professor. Este ‘ideal’depende dos princípios que, para cada um, constituem o ponto de referência onde se configuram os parâmetros que orientam a prática. No entanto, há um confronto entre o que foi pensado e as condições concretas das interações na sala de aula. A ação do professor decorre, em parte, das suas intenções (que se formulam, em certa medida, de acordo com o ‘ideal’). Mas as condições concretas oferecem resistência. (...)”. (Smolka e Laplane, 1993, p.80) Entretanto podemos indagar: há apenas um modo de ensinar, de alfabetizar? As formas tradicionais de ensino são totalmente descartáveis? Essa nova maneira de conceber o ensino da língua é sempre eficiente? Como na prática cotidiana ensinamos nossos alunos? Como eles aprendem? Conflitos com a formação Mariana faz uma reflexão a respeito da formação acadêmica que recebeu. M: ... às vezes eu tenho raiva desse ponto na minha formação, acho que foi de uma irresponsabilidade, acho que é de uma irresponsabilidade muito grande, fazer uma reflexão sobre alfabetização, e falar com tanta clareza que não se alfabetiza com cartilhas, e não, e dá uma série de nãos, e não te deixar nenhuma possibilidade. Não dá, não dá, não te diz por onde, então eu chegava na sala, eu cheguei com um pudor imenso de trabalhar com famílias silábicas, e depois descobri que não era pecado (...) e essa coisa de querer trabalhar com texto, de querer trabalhar com texto, e o texto assustava, por menor que fosse, por mais simples que fosse, porque eles não tinham contato com isso (...) Na formação que receberam as vozes da ciência diziam o que não podia ser feito, e além da crítica às formas tradicionais de ensino havia também uma critica a uma certa formação dos professores, buscando opor-se radicalmente à formas “tecnicistas” de ensino, veiculando um discurso de que “não há receitas”. Entretanto, uma vez que não há receitas como os modos de fazer são aprendidos? T: “(...) na nossa formação, a gente sai sabendo direitinho o que não pode, o que não pode, o que não deve, mas o que você encontra na sala de aula pede tudo aquilo que é (...)” Ao abordar questões referentes aos modos como têm
sido discutidas as mudanças nas práticas educacionais atualmente,
Fontana (2000b) nos mostra que há trabalhos na área da educação
que criticam práticas conservadoras de ensino utilizadas por professores,
como o uso da cartilha, do livro didático, entretanto, quando a
professora pedia “que lhe ensinassem como trabalhar, recebia, como
resposta, a reprimenda de que “não há receitas”...
Receitas são coisas do tecnicismo...” (p. 26). Reelaboração de conhecimentos, aprendizados A partir dos embates que viviam com seus alunos cotidianamente, Tatiane e Mariana indagam-se sobre a maneira como trabalham e reelaboram os conhecimentos recebidos em sua formação acadêmica. D: ... o que te fez cair a ficha de que tudo bem trabalhar com família silábica? M: Foi o contato com outras professoras, ver o teu trabalho
ali levando um tempão para deslanchar e ai as professoras chegam
na reunião olha gente, olha que gracinha o texto desse meu aluno
e assim, aquela folha organizada, com parágrafos e pontuação,
e letra cursiva, e os meus alunos aquela coisa caos, aquele texto tudo
grudado, e eu falava gente não é possível, (...)
e ai assim, na verdade eu só me dei por vencida mesmo, ... só
me tranqüilizei quando eu comecei a perceber que essa preocupação
com a questão fonética que estava sendo um pouco deixada
de lado, que é da necessidade da análise da palavra mesmo,
até para a comparação e produção de
outras palavras, estava sendo muito discutida por teóricos, enfim,
eu falei não, eu não estou louca sozinha, olha só,
na universidade as pessoas estão pirando em cima, eu lembro de
um Cole Embates, contatos com outras professoras, conflitos com a formação, palestra em Congresso de Leitura, são alguns dos fatores que levaram estas professoras a reelaborarem imagens, conceitos, concepções acerca do ensino da língua. Ao narrarem sobre seu início profissional percebem esse confronto de imagens existente e a mudança na maneira de trabalhar. M: (...) eu batia de frente com que eles achavam que tinha
que ser a escola, e eu chegava com uma sede muito grande de construir
uma escola ali com eles Afirmam ainda que tinham uma imagem de uma escola ideal, queriam construir uma outra escola, uma outra ordem, e vêem-se levadas a repensarem seus papéis como professoras. Entretanto não contaram com o apoio da escola para essa reelaboração. Onde o professor encontra apoio para o desenvolvimento do trabalho, dada a abrangência de fatores que envolvem a educação? Fatores como: conhecer o aluno, conhecer o contexto em que a escola está inserida, conhecer conteúdos, conhecer formas e estratégias para ensinar de maneira criativa que atraia a atenção das crianças, saber como tornar as atividades significativas, concorrendo com outros aspectos que chamam mais a atenção das crianças nos dias de hoje, como se atualizar num mundo com tanta informação, tecnologia. Como o professor aprende a lidar com todos estes fatores? “Quem, na escola, acompanha as buscas das professoras? Quem escuta o relato de suas dúvidas e a tomada de consciência de seu não-saber, assumindo a continuidade do seu processo de formação pelo/ no trabalho? Quem faz com elas a análise do seu fazer na sala de aula, mediando seu desenvolvimento profissional emergente, procurando fazê-lo avançar e consolidar-se?”. (Fontana, 2000a) Ao serem questionadas sobre a que atribuem as dificuldades enfrentadas por elas no início da profissão, afirmam: M: eu acho que tem a ver com o processo de formação,
acho que tem a ver com a construção de um ideal onde a escola
podia muito mais do que na verdade acho que ela pode, ai eu acabo me frustrando
(...) Fontana (2000b) ao trazer uma análise de sua primeira experiência como professora, que foi com uma turma de educação de jovens e adultos, mostra que não conseguia corresponder ao que eles esperavam dela como professora, às imagens que os alunos possuíam. “A ilusão do saber-fazer e a ilusão quanto ao alcance do trabalho pedagógico foram sendo desfeitas. Às vozes da ciência, marcantes no processo de formação, juntaram-se às vozes daqueles meus primeiros alunos, trabalhadores adultos, com quem e para quem me dispus a trabalhar e que apontaram o quanto eu não sabia realizar as tarefas a que me propunha, explicitando que eu esgrimava com clichês, mais do que com gestos e modos de ação concretos. Essas vozes me mostraram que os objetivos por mim priorizados nem sempre coincidiam com as necessidades daqueles a quem meu trabalho se dirigia, nem com os sentidos que elaboravam nas relações de ensino. Elas também me ajudaram a desmistificar o tom de salvação de que se revestia o discurso da ‘conscientização’ e da transformação como tarefas centrais do trabalho pedagógico (...)” (p.110) O que nos faz pensar porquê e para quem ensinamos, e pensar ainda que os alunos possuem necessidades e expectativas urgentes, emergentes, que tem que ser consideradas. Nesse acontecimento cotidiano que é a aula professoras e alunos se encontram, confrontando valores, imagens, idéias produzidas historicamente. Nesse encontro constituem-se mutuamente, ensinam e aprendem. Bibliografia Amorim, Marília. O pesquisador e seu outro. Bakhtin
nas Ciências Humanas. São Paulo: Musa Editora, 2004. |
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