Amélia Aparecida Barbosa
Temos como proposta inicial discutir o trabalho de situações
de letramento na educação infantil dentro de uma perspectiva
discursiva, que leva em consideração as múltiplas
linguagens do sujeito-aluno e suas interações com o resultado
de suas expectativas, acreditando ser importante focar a função
pedagógica da pré-escola num trabalho que tome a realidade
e os conhecimentos infantis como ponto de partida visando ampliá-los
para que, através de atividades, tenham um significado concreto
para a vida das crianças.
Brincar é, sem dúvida alguma, o mais importante trabalho
da criança na construção de seus conhecimentos. Vemos
aqui o diferenciar da educação infantil praticada em escolas
que recorrem a este mote para justificar a inconsistência do planejamento
das situações onde a ludicidade deveria estar ligada o desenvolvimento
infantil e aquelas onde os jogos simbólicos são explorados
através de ações planejadas para que os sujeitos
atuem como produtores de sentidos e se constituam na busca de ampliar
e assegurar novos conhecimentos.
Ao propiciarmos à criança situações nas quais
mantenham contato prazeroso com jornais, revistas, livros, músicas,
fantoches, estaremos auxiliando no despertar do interesse em relação
à escrita. Materiais que são utilizados sem muito propósito
podem dar origem à atividades que explorarão tanto a ludicidade
quanto o potencial discursivo da criança, isto por possibilitar
a reflexão e a busca de solucionar problemas tal como apresentamos
nas atividades que envolveram o computador, filmes e cantinhos de atividades
diversificadas.
A forma como o professor interpreta as normas que regulam seu trabalho
dentro da unidade de educação infantil também influi
nos resultados ao final do ano letivo, o tomar como exemplo os dizeres
“educação infantil não alfabetiza” e
“ a criança tem que brincar” pode fazer com que o educador
não aproveite situações de brincadeira que surgem
a partir das explorações das próprias crianças
dos materiais que lhes são oferecidos, mas, por outro lado, pode
também trazer intervenções e resultados bastante
significativos.
Partindo desta perspectiva optamos por trabalhar a partir de situações
de letramento e não nos moldes correntes de alfabetização
adotados pela rede municipal de Hortolândia/SP, alicerçando-nos
em Kleiman (2002) para sustentar nossa prática e em Eckert-Hoff
(2004) ao relacionarmos o papel iodeológico do discurso do professor,
dos dizeres de sua prática e das relações ideólogicas
de construção de sentidos que acontecem e sala de aula.
Para Kleiman (2002) o fenômeno do letramento extrapola o mundo da
escrita tal qual ele é concebido pelas instituições
que se encarregam de introduzir facilmente os sujeitos no mundo da escrita.
Pode-se afirmar que a escola, a mais importante das agências de
letramento, preocupa-se, não com o letramento, prática social,
mas com apenas um tipo de letramento, a alfabetização, o
processo de aquisição de códigos (alfabético,
numérico), processo geralmente concebido em termos de competência
individual necessária para o sucesso e promoção na
escola. Já outras agências de letramento, como a família,
a igreja, a rua como lugar de trabalho, mostram orientações
de letramento muito diferentes. Acreditamos que a educação
infantil atendendo à denominação 'educação'
carece de redimencionamento de seu caráter pedagógico levando
em consideração as dimensões lúdicas do desenvolvimento
da criança ao mesmo tempo em que considera seu papel social ao
assegurar o oferecimento de novos conhecimentos ao sujeito.
Entendendo o homem como parte do mundo no qual age sob a realidade objetiva,
passível de ser conhecida independentemente da dinâmica deste
mesmo mundo e do sujeito que busca compreendê-lo, podemos colocar
as situações de leitura e escrita como parte desta busca
de entendimento, não apenas das situações, mas da
própria imagem que o homem faz de si.
Desenvolver imagem positiva de si é um dos objetivos da Educação
Infantil e quando direcionada à linguagem, existe um encaminhamento
ao caráter funcional da linguagem. Neste sentido, recorremos a
Freire (1998) para contextualizar nossa concepção de trabalho
com letramento na Educação Infantil como complemento para
desenvolver a alfabetização em sentido amplo, o de leitura
do mundo , no qual herdando a experiência adquirida, criando e recriando
as condições de seu contexto, a criança poderá
responder aos desafios.
Compreender a função atribuída aos signos na comunicação
da criança, as fases simbólicas às quais refere Vygotsky
(1989), vem como as possibilidades de se ensinar a escrita e a leitura
às crianças pequenas, haja vista que por serem leituras
de mundo são capazes de aprender a leitura da/na escola.
Acreditamos que as atividades realizadas pelas crianças poderão
servir de base para estudos a serem desenvolvidos futuramente por tornar
possível a observação do processo de desenvolvimento
da linguagem escrita na criança em idade pré-escolar e do
caminho simbólico que ela percorre até chegar no sistema
formal de escrita, social e convencionalmente aceito.
Como analisamos, cabe valorizar a linguagem trazida pela criança
e o registro simbólico deve ser valorizado através do desenho
que sugere e desvenda a interpretação desta sobre determinados
materiais escritos, que de alguma forma podem lembrar a escrita fazendo
com que o registro mostre-se significativo e necessário à
escrita de um novo texto.
As amostragens de trabalhos podem mostrar-se tanto qualitativamente quanto
quantitativamente, há casos onde o processo percorrido para escrever
uma palavra, como o nome de Beatriz, por exemplo, demanda muito mais envolvimento
que uma atividade coletiva onde cada criança participou de parte
dela.
Porém, a interação apontada na construção
de uma lista voluntária de palavras que iniciou com uma criança
e ao final envolvia dez crianças, mostra o papel social da escrita,
seu aspecto afetivo e a necessidade do uso da linguagem como representação
no contexto social.
A proposta deste trabalho foi mostrar as relações que a
criança em idade pré-escolar estabelecem com a escrita e
a leitura em situações de brincadeira, de musicalização
e atividades de registro, percorrendo caminhos que levam desde a percepção
da necessidade de letras para representar as palavras até o uso
das palavras para mostrar que a leitura/escrita deve gerar inquietação
e necessidade na criança.
Sustentando nosso trabalho em Kleiman (2002), Kramer (1995 e 1999), Smolka
(2000), Eckert-Hoff (2004) e Vygotsky (1989), sugerimos a percepção
do ensino como organização para que a leitura e a escrita
se tornem necessárias à criança e acreditamos ter
mostrado um pouco da viabilidade de se trabalhar situações
de letramento na pré-escola, e assim encaminhar produções
significativas dos sujeitos nesta faixa de escolarização
e seu empenho em compreender e colocar-se perante a e na linguagem.
Referencial Bibliográfico
Eckert-Hoff, B.M. (2004). A leitura no contexto escolar:
em busca de produção de sentidos. In: Revista educAtiva,
vol. 1. Nova Odessa, Faculdades Net Work
Freire, P. (1998). Pedagogia da Autonomia. São Paulo, Paz e Terra.
Kleiman, A . (2002). Oficina de Leitura: teoria e prática. 9ª
ed. Campinas, SP: Pontes
Kramer, S. (1995). A política do pré-escolar no Brasil.
A arte do disfarce. 5 ed. São Paulo: Cortez
_______, S. (1999). Infância e Educação Infantil.
Campinas, SP: Papirus
Smole, K. S. (org). (2000). Resolução de problemas. 2º
vol. Porto Alegre: Artmed
Vygostsky, L.S. (1989). A formação social da mente. São
Paulo: Martins Fontes.