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PRÁTICAS
ESCOLARES DE ALFABETIZAÇÃO: O TROCA-TROCA PRODUZINDO IDENTIDADES
Mirtes Lia Pereira Barbosa – PPGEdu/ UFRGS
Para problematizar a temática da alfabetização,
faz-se necessário pensá-la não apenas como elemento
exclusivamente escolar mas, sobretudo, como parte de uma trama política
interessada em gerir a população. É desta forma que
inicio este texto, recorte de uma pesquisa de dissertação
de mestrado realizada em uma escola municipal da rede pública de
Porto Alegre/RS e que se preocupa em refletir sobre como as práticas
escolares posicionam os sujeitos que nelas estão inseridos. Esta
pesquisa está situada na linha dos Estudos Culturais em Educação,
sob uma perspectiva foucaultiana e se caracteriza por uma produção
de dados de inspiração etnográfica.
O que significa, afinal, pensar a alfabetização como parte
de uma trama política que se preocupa em gerir a população?
Utilizo-me, para responder esta questão, da diferença e,
ao mesmo tempo, da articulação que Foucault (2002a) faz
entre tecnologia disciplinar e tecnologia de regulação,
ou seja, a diferença entre a disciplina e o que ele chama de biopoder.
Para a disciplina o foco é o corpo do indivíduo, ele é
individualizado, controlado de forma a se constituir como um corpo dócil
e útil. Já a tecnologia do biopoder se preocupa com a população.
Sua preocupação não está mais unicamente concentrada
no corpo do indivíduo, mas na vida das populações.
Esta tecnologia começa a se tornar preocupação na
sociedade no final do século XVIII e durante o século XIX,
quando o Estado passa a se interessar em fazer viver a população.
Esta preocupação implicava, sobretudo, em criar estratégias
de controle e regulação da massa populacional através
de programas como controles estatísticos, campanhas de natalidade,
de aprendizado de higiene e medicalização da sociedade.
Já desde esta época – o período de industrialização
– como muito bem nos aponta Foucault (2002a), a preocupação
com a vida implicava um olhar sobre a velhice, as enfermidades, as diversas
formas de anomalias, enfim, sobre o indivíduo que sai do campo
da produtividade exigindo uma atividade do Estado na produção
de mecanismos como seguros, poupança individual e coletiva, entre
tantos outros que se estendem até os dias atuais. Entre os mais
conhecidos estão as campanhas de amamentação e as
do Ministério da Saúde sobre HIV/AIDS , gravidez na adolescência,
drogas, etc.
As campanhas de Alfabetização lançadas pelo Ministério
da Educação, no Brasil, a partir da década de 40
com o intuito de atingir, em sua maioria, jovens e adultos analfabetos
que não tiveram oportunidade de freqüentar a escola ou que
por outros motivos a abandonaram antes mesmo de se alfabetizarem, representam,
também, uma forma de controle da população. Alfabetizar
o máximo possível uma população, seguindo
o pensamento do biopoder, se caracteriza num investimento que intenciona
gerir a população de tal forma que, alfabetizada, possa
se autogovernar. Essas campanhas visaram e visam, no formato de programas,
ações como Educação de Jovens e Adultos(EJA)
e Movimento de Alfabetização (MOVA) , a “instaurar
e disseminar, o mais amplamente e ao menos custo possível, o poder
disciplinar das populações” (VEIGA-NETO, 1995, p.
48).
Mas, poderiam me perguntar, o que a alfabetização das escolas
tem em comum com estas campanhas já que seus currículos
pensam a alfabetização direcionada às crianças
que nela estão entrando. É justamente aí que se encontra
um dos pontos de articulação entre disciplina e biopoder.
É preciso, através da disciplina escolar que age sobre os
corpos dos indivíduos singularizando-os, investir numa tecnologia
que, de certa forma, possa garantir a ordem da população.
A escola ao mesmo tempo em que quadricula, classifica e localiza os corpos,
age sobre eles visando o controle da massa populacional através
do saber. Podemos interpretar que a alfabetização “muda
a relação que o indivíduo estabelece com os saberes
[...] é uma forma topologizada de nos relacionarmos com os saberes,
e por isso, já prepara topologicamente nosso entendimento do mundo”(VEIGA-NETO,
1995, p.48).
Os saberes distribuídos na escola hierarquicamente determinam que
a alfabetização é elemento fundamental de acesso
a uma certa linguagem, homogeneizante, instituída na sociedade
e que faz dividir entre aqueles que têm e que não têm
acesso a esta linguagem. No caso aqui apresentado, entre os alfabetizados
e os não-alfabetizados.
Graff (1990), ao citar Olson e seu artigo O mito do Alfabetismo, destaca
que “a moeda corrente da escola é constituída de palavras
– palavras [...] que são moldadas de acordo com as exigências
do alfabetismo.”(p. 33) Em seus estudos fica evidente que o alfabetismo
está socialmente vinculado ao discurso de ascensão social
e que, dominando a leitura e a escrita, o indivíduo atingiria a
razão, possibilitando-o melhorar de vida. Este discurso aparece,
também, na mídia como nos aponta Schmitd (1999) em sua pesquisa
de mestrado intitulada A Educação nas lentes do jornal.
Ao realizar uma análise fotográfica e textual de reportagens
de jornal a respeito dos discursos que representam a Educação,
a autora nos mostra, em várias delas, a condição
de necessidade de acesso à escola e à alfabetização
como condição fundamental para ser feliz e bem sucedido
na vida em sociedade. “As campanhas de alfabetização
associadas à conquista da cidadania e ao desenvolvimento, são
um tema recorrente na imprensa brasileira [...] aqueles que são
alfabetizados correspondem ao padrão hegemônico, ou seja,
são os normais, são aqueles que adquiriram o ‘verdadeiro’
conhecimento” (SCHMITD, 1999, p.33).
Ser alfabetizado, ou não, determina quem é civilizado. Busco
aproximar estas discussões do que Elias (1994) escreve sobre o
processo civilizador. O autor, ao discutir os processos pelos quais o
conceito de civilização se constituiu na sociedade Ocidental,
apresenta como os hábitos de vida da população eram
controlados. Para ser civilizado era necessário compreender e seguir
determinados padrões, entre eles os hábitos à mesa,
modos de falar, cuidados com o corpo, comportamento, padrões de
agressividade, modos de lidar com a sexualidade, entre outros. Da mesma
forma, me permito pensar que a condição de ser ou não
alfabetizado confere aos sujeitos uma certa posição na sociedade.
Sobre isso, ainda cito Trindade (2004, p.392-393) que, ao analisar os
discursos de alfabetização em cartilhas nos períodos
entre 1890 a 1930, nos alerta que este processo civilizador “começa
a tomar corpo entre nós” sendo que uma das formas se configuraria
através de três práticas disciplinares implantadas
pelo Estado do Rio Grande do Sul no século XIX: “as constituições,
os manuais de urbanidade e as gramáticas escolares”.
Tão cedo as crianças ingressavam na sociedade, já
eram submetidas ao ensino do que era certo ou errado, às formas
como deveriam se comportar nos diferentes locais que por ventura viessem
a freqüentar. A mesma autora ainda nos falará a respeito da
escolarização da alfabetização nos apresentando,
através de textos de cartilhas, que a escolarização
das crianças ia muito além de saber ler e escrever, já
que era preciso ser um/a bom/a cidadão/ã, e o domínio
da escrita e da leitura, em algumas destas obras didáticas, aparecia
como condição para ser “reconhecido como gente”(TRINDADE,
2004, p.432). Isto é, ser reconhecido como “normal”.
Nesta mesma linha de pensamento posso dizer que, na atualidade, ser alfabetizado
é condição de civilização, pois o conhecimento
chega de forma diferente, mais organizado e muito mais rápido àqueles/as
que estão alfabetizados/as. Para os indivíduos que não
compartilham desta habilidade da leitura e da escrita, num mundo onde
saber ler e escrever sob diversas condições torna-se cada
vez mais elementar, onde a informação chega, muito mais
através da escrita do que pela imagem – que sempre vem acompanhada
da escrita – (SCHMITD, 1999), sua posição social torna-se
condição de anormalidade.
Propostas pedagógicas que hoje circulam nos meios educacionais
e em formação profissional para professores/as situam a
alfabetização como um dos meios de acesso e interpretação
do mundo e dos diferentes saberes de uma outra forma. Vejo nestas propostas
um investimento sobre a alfabetização como uma forma de
viver “a custos menores e eficiência maiores” (VEIGA-NETO,
1996, p.48).
Buscando ainda a contribuição de Veiga-Neto(1995) sobre
estas questões ele nos mostra que o alfabetismo torna muito mais
acessíveis os conteúdos de uma cultura e que “molda
as formas como essa cultura chega a nós, como nós a recebemos
e como nós somos conformados por ela” (p.48).
A escola, espaço de disciplinamento, cumpre o papel de investir
no indivíduo, de alfabetizá-lo, cumpre a função
de colocar em prática aquilo que os projetos de sociedade vislumbram
alcançar para o melhor governo das pessoas: a homogeneidade. Dar
acesso à leitura e à escrita permite uma circulação
muito maior de conhecimentos direcionados ao controle da população
e que atingem, de uma forma ou outra, cada um dos indivíduos. A
relação com o saber se modifica e é muito diferente
para uma cultura da oralidade (VIÑAO FRAGO, 2002) em relação
a uma cultura da escrita e da leitura. Veiga-Neto(1996) observa que para
o sujeito que não lê será preciso lembrar ou, ainda,
perguntar onde está o conhecimento necessário; já
para o alfabetizado será apenas necessário procurar onde
está o conhecimento.
Para os que não alcançam o esperado no tempo previsto ou
que, por algum motivo, escapam do controle da escola, sua condição
será de anormal, ou seja, este passa a ser o outro, aquele como
diz Schmitd (1999) “que vive em outro mundo ou está fora
deste mundo”(p.33). Constitui-se, aos poucos, como o outro escolar,
o outro familiar, o outro da sociedade.
Vemos, assim, os esforços se multiplicarem na escola. Todos (escola,
família, especialistas) parecem se unir a favor da alfabetização.
No caso de não alcançarem o que as propostas curriculares
estabelecem como padrão e o que as pedagogias têm definido
como verdades na aprendizagem da alfabetização , os/as alunos/as
são nomeados/as como não-alfabetizados/as, o que pressupõe
que seu inverso existe e é culturalmente mais aceito.
O Troca-troca produzindo identidades
As escolas, ao se tornarem espaços de investimento
nos sujeitos, têm se utilizado de diversas estratégias para
pôr em prática o quê discursos pedagógicos têm
considerado como eficiente para a aprendizagem. Na área da alfabetização
uma das propostas que mais visibilidade tem tido é a classificação
dos/as alunos/as por níveis de escrita conhecidos através
das pesquisas e trabalhos publicados de Emília Ferreiro e Ana Teberosky
.
O Troca-troca aqui apresentado é uma prática de alfabetização
que a escola pesquisada utiliza como estratégia de aprendizagem
da leitura e da escrita. Tem por objetivo reagrupar as turmas de A30 ,
num dia da semana. Neste caso, acompanhei a reorganização
das turmas em grupos a partir de níveis de escrita assim denominados:
pré-silábicos, silábicos, silábico-alfabéticos
e alfabéticos. As professoras fazem, antes, uma classificação
dos/as alunos/as de sua turma, para depois distribuí-los/as em
grupos considerando o nível de aprendizagem da escrita. Cada professora
fica responsável por um nível e esta planeja atividades
“adequadas” para trabalhar com estes/as alunos/as com a intenção
de contribuir para o avanço de sua aprendizagem. Esta atividade
deve durar em torno de dois períodos .
Acompanhei o grupo de alunos/as classificado como pré-silábico:
Os/As 20 alunos/as classificados/as no nível pré-silábico,
entram na sala e sentam aleatoriamente.
-Oi gente! Para quem não me conhece, meu nome é Sandra.
Hoje nós vamos fazer uma atividade diferente.Vou colocar aqui na
frente o alfabeto para quem precisar consultar as letras ou se tiver dúvida.
(abre um cartaz e cola no quadro)
Para iniciar, entrega uma folha com atividades e ao passar de classe em
classe pergunta:
-Tu, como é teu nome?
O aluno responde.
- Quem tiver dificuldade, me chama, tá?É para fazer sozinho,
cada um faz o seu. Deixa ele fazer sozinho. (Diz para um aluno que tenta
explicar o que é para fazer na folha).
Chega em Henrique e inicia uma intervenção para que ele
possa escrever a palavra cachorro.
- Vamos pensar. Cachorro. (segmentou a palavra dando ênfase ao valor
fonético representado pela combinação das letras
ch)
Henrique não responde nada...
- Pensa, então, depois eu volto aqui.
Um dos alunos se junta com outro colega para trabalhar junto. A professora
então lhe diz.
- Quem sabe tu senta aqui para trabalhar sozinho?
- Oh, professora. Separa esses dois aqui! (um aluno reclama sobre dois
colegas que conversavam)
- Separa as classes. (ela indica para os dois meninos)
- Pedro, o trabalho é individual, tá?(diz para outra criança)
- Está na hora de prestar atenção. Está brincando,
colocando adesivo e não presta atenção.(diz para
um menino que estava com alguns adesivos de campanha eleitoral).
A professora, após circular pela sala, senta-se ao fundo, quase
ao meu lado e passa a chamar as crianças para fazer leitura e corrigir
as atividades. Aos poucos uma fila forma-se a sua frente e, eventualmente,
a professora chama a atenção de algum/a aluno/a. Após
a leitura e realização da tarefa, esta fica com a professora
como registro da produção de cada aluno/a. Durante a atividade,
as crianças iam até a frente do cartaz que ela colocou com
o alfabeto, contavam as letras, voltavam para seus lugares, retornavam
ao cartaz, conversavam com colegas no meio do caminho. Um aluno que ela
havia mandado retornar e refazer diz:
- Ah, professora!Eu não consigo.
- Consegue sim. É só pensar. (responde a professora)
- Olha só, tu não pára de conversar (diz a professora
para um aluno que vai até sua mesa). Está perdendo um momento
precioso de aprender, aprender a ler, escrever para depois ter um monte
de livro para ler.
O aluno não responde.
Henrique vai até sua mesa tendo realizado muito pouco de atividade
em sua folha. Ela, então, lhe pergunta:
-Tu acha que valeu a pena ter vindo e trabalhado comigo? Rendeu?
Ele responde:
- Não
- Por quê?
- Porque eu demorei
- E por quê?
- Por que eu estou pensando.
- Pensando ou conversando?
- Pensando.
- E tu acha que a professora Lúcia (professora de Henrique) vai
ficar feliz com a tua produção?
Ele diz que sim com um movimento de cabeça.
-Tem certeza?
-Tenho.
- Então vai lá na sala e mostra para ela. Depois, me diz
o que ela te falou.
Logo acaba o período e as crianças retornam para suas salas
de aula.(DIÁRIO DE CAMPO,19/08/2004)
Considero
este agrupamento por níveis de escrita uma sub-enturmação,
que define com maior exatidão a possibilidade de homogeneidade
no que se refere à leitura e à escrita, permitindo uma ação
mais específica do especialista sobre cada indivíduo. Um
tipo de estratégia disciplinar de exame que visa, de uma forma
mais rápida, normalizar os sujeitos e diminuir seu padrão
de desvio a partir de atividades consideradas diferentes das que habitualmente
são realizadas. É posta em ação, visto que,
para o grupo que acompanhei, formado por pré-silábicos,
a aprendizagem de escrita está muita aquém daquela prevista
pela proposta dos ciclos e da escola, para as turmas de A30.
Esta prática exemplifica o que falava no início desta proposta
sobre a importância da alfabetização na escolarização
das crianças. Um esforço por parte das professoras se manifesta
nesta forma de organização dos grupos para que possam se
alfabetizar melhor, com maior eficiência. Ao mesmo tempo em que
se divide por grupos, se individualiza os sujeitos, pois repetidamente
é dito que as atividades devem ser feitas sem cooperação
e cada um está sendo observado, avaliado e registrado já
que cada atividade será guardada pela professora para que, mais
adiante, se possa anotar o nível de aprendizagem em que cada aluno/a
se encontra, bem como os avanços realizados por cada um/a nesse
nível ou para o nível posterior.
Tal organização põe em evidência o que Foucault
( 2002b) chama de ritual de exame: um ritual que visualiza objetivando
os indivíduos, estabelecendo uma relação de poder
que ”torna possível algum saber”(p.154). Este poder
disciplinar se faz invisível através de seus ritos, métodos,
propostas, organizações dos objetos e o que se torna sempre
visível é o objeto a ser observado, descrito, documentado,
normatizado, individualizado para que o máximo de saber possa ser
extraído sobre ele de forma a normalizá-lo.
Temos, assim, um tipo de disciplina que exige que o sujeito pense sobre
sua própria ação, que faça sozinho, porque
é só pensar que consegue, é preciso tentar, fazer
individualmente, provar para si mesmo que é capaz. E ao dizer para
Henrique: tu não pára de conversar, está perdendo
um momento precioso de aprender a ler, escrever para depois ter um monte
de livro para ler, a professora demonstra uma preocupação
com o que se reconhece como “autonomia” das crianças
e que deve ser apresentada no decorrer do seu desenvolvimento. Autonomia
que reconheço aqui de auto-governo pois, na medida em que se criam
estratégias para que os sujeitos se alfabetizem, se criam também
saberes sobre como aprendem, estabelecendo cada vez mais comparações,
classificações a partir de níveis de aprendizagem.
Constitui-se, dessa forma, um governo dos corpos que visa ensinar-lhes
a agir em relação a si para que se tornem auto-normalizados.
Como nos aponta Larrosa (2002) “a Pedagogia não pode ser
vista já como um espaço neutro ou não-problemático
de desenvolvimento ou a melhoria do auto-conhecimento, da auto-estima,
da autonomia, da auto confiança, do autocontrole, da auto-regulação,
etc.”(p.57), mas deve ser vista como um elemento que produz formas
de “experiência de si nas quais os indivíduos podem
tornar-se sujeitos de um modo particular”(p.57).
Assim, percebo que as práticas e falas das professoras, em diversos
momentos, salientam a preocupação de fazer o indivíduo
entrar em um processo de auto-reflexão, levando-o a e se reconhecer,
se observar, se vigiar, num processo contínuo de aprender a ver-se
e julgar-se.
A prática disciplinar não apenas visualiza o sujeito aluno/a,
mas, também, produz uma identidade de professor/a a partir daquilo
que o discurso pedagógico dos e nos Ciclos determinam quanto ao
que e como deve ser feito para que os/as alunos/as desenvolvam as habilidades
de escrita e leitura. Assim, o ver-se e julgar-se também são
direcionados aos/às professores/as. Walkerdine(1999), ao falar
sobre a prática da Sala da Aula, pontua como os discursos da Psicologia
do desenvolvimento produzem uma certa identidade de professora. Vai nos
dizer que “o sistema de regulação e normalização
produz aquilo que conta como “boa pedagogia”. Ele produz,
portanto, aquilo que conta como “um/a bom/boa professor/a’’(p.197).
Nesta mesma direção, ainda, nos explica que os métodos
de ensino determinam o que conta como conteúdo a ser ensinado,
o que é ou não permitido no interior das práticas
pedagógicas, ensinando aos/às professores/as formas de perceber
os/as alunos/as e seus desempenhos escolares.
Na seqüência das cenas apresentadas pode-se perceber uma dada
forma de entender a aprendizagem dos/as alunos/as que exige determinadas
respostas por parte das crianças, certos tipos de comportamentos
que, segundo as profissionais, vão auxiliar no desempenho escolar
como o silêncio, a concentração, a seriedade.
Foi tentando colocar em destaque alguns pensamentos que me parecem tão
radicalmente naturais sobre a Pedagogia e as práticas escolares
de alfabetização que fui constituindo esta escrita, procurando
articular as práticas escolares e os seus efeitos na produção
de identidades nos indivíduos que a elas estão submetidos.
Estas questões não têm o caráter de dizer se
as proposta escolhida como “estratégia” para construção
da leitura e escrita é boa ou ruim, se as práticas realizadas
pelas professoras da escola devem ou não continuar deste modo.
Não foi nesta condição que procurei me posicionar,
muito menos foi a de trazer questões prontas e soluções
salvadoras para o que pode ser feito. Procuro, isto sim, problematizar
o que está naturalizado para que aquilo que parecia tão
natural torne-se mais difícil de aceitar, de realizar enquanto
prática escolar.
Procuro apontar e problematizar aquilo que é o mais comum, habitual
e por isso mais difícil de ser problematizado “porque se
converteu em hábito para nós, em costume, em identidade.
É preciso converter aquilo que somos em problema, o habitual em
insuportável, o conhecimento em desconhecido, o próprio
em estranho, o familiar em inquietante[...]” (LARROSA apud SOUZA,
2001, p.125-126), descobrindo, assim, como nos transformamos no que somos.
Para tanto, deixo aqui algumas questões a serem pensadas pelos/as
professores/as que trabalham com práticas de alfabetização
ou com tantas outras práticas que conformam a escola atual e que
se empenham em fazer aquilo que lhes ensinaram como “o melhor”,
“o mais adequado” para a aprendizagem das crianças
e o “sucesso” de seu trabalho: o quê tenho utilizado
como “métodos”, “técnicas” para
a aprendizagem de meus/minhas alunos/as? Por que fiz estas escolhas? Como
as práticas vivenciadas me constituem como professor/as e como
estas práticas constituem meus/minhas alunos/as? Que marcas estão
produzindo nossos corpos?Tudo isso que hoje faço poderia ser diferente?
REFERÊNCIAS
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