Giuliana Reis Diniz Barros (Universidade do Porto,
Portugal - FPCE)
O objectivo deste trabalho é refletir sobre o processo
de construção sócio-histórica da concepção
de criança deficiente, a partir dos discursos dos saberes médico-psicológicos,
pedagógicos e sociológicos. Para isso, foram analisadas
as diferentes concepções de criança com deficiência,
publicadas nos artigos das Revistas “Temas sobre Desenvolvimento”
(Brasil), “Noesis” (Portugal) e “Integração”
(Brasil), no decénio de Julho de 1991 a Junho de 2001. Esses três
periódicos deram elementos importantes para conhecer as concepções
construídas acerca da criança deficiente.
Ao rever as concepções de deficiência, essas três
tendências são apresentadas de modo destacado, a saber: Na
concepção médico-psicológica, a deficiência
aparece como algo predominantemente atribuído como inerente a criança,
além de caracterizar o seu desenvolvimento ou o seu comportamento.
Na concepção pedagógica, não se focaliza o
problema apenas na deficiência, enfatizando-se o ensino e a escola,
bem como as formas e condições de aprendizagem. Enquanto
isso, na concepção sociológica, a deficiência
é tida como um fenómeno construído no contexto social,
que não deve ser entendida unicamente como uma qualidade atribuída
a determinada criança, mas sim compreendida a partir de um contexto
social. Ou seja, nesta tendência deve-se abordar a deficiência
de uma forma que possibilite a ampliação do foco de análise,
deixando de ser focalizada somente na criança, e que consiga analisar
as representações sociais atribuídas a ela.
A escolha deste objecto de estudos pretende contribuir para a procura
de caminhos em superação de concepções que
sustentam os modelos organicistas, predominantes na Medicina. E também,
como tentativa específica dessa procura, explorar possibilidades
de uma linha de investigação que se apoia em teses da abordagem
histórico-cultural.
A presente investigação, no entanto, deslocou o eixo da
discussão das possíveis etiologias do quadro clínico
para uma outra discussão. A Medicina limita-se ao elevar à
categoria clínica certas manifestações comportamentais,
uma vez que isso requer a busca de um novo paradigma. Daí que a
Medicina actual se configure entre o diagnóstico, prognostico e
tratamento.
A questão é, independentemente do procedimento avaliativo
utilizado para se chegar a conclusão de determinada deficiência,
estes critérios dissolvem as peculiaridades, colocando sob um mesmo
rótulo uma variedade de condições de interacções
e de desenvolvimento dos sujeitos. O conhecimento de tais condições
seria, entretanto, de fundamental importância tanto para o prognóstico
como para o tratamento. Ademais, há problemas de se conceber sempre
a avaliação como busca de indicadores estáveis de
quadro de “defeitos ou distúrbios”, negligenciando-se
a observação das possibilidades de funcionamento da criança.
Vygotsky (1987) criticou fortemente essa característica dos procedimentos
diagnósticos, no âmbito de seus trabalhos sobre sujeitos
com deficiência (física, mental, sensorial) ou com outros
problemas de desenvolvimento. Segundo ele, o diagnóstico tradicional
cristaliza o que deve ser visto como um processo e como parte da dinâmica
do desenvolvimento. Assim, a deficiência é reificada, e a
consequência do diagnóstico, orientada somente para a falta
e para o não, é estabelecer limites para o desenvolvimento
do sujeito. Portanto, resulta o estabelecimento de metas negativas, na
esfera social e educacional. Ao invés disso, a avaliação
diagnostica deveria proporcionar conhecimento sobre as possibilidades
e ou potencialidades de funcionamento e construir condições
sociais de superação.
Este estudo nos possibilitou a compreensão de como a criança
deficiente continua sendo objecto de estudo, pelos saberes médico-psicológicos,
pedagógicos e sociológicos. As concepções
de criança deficiente, com base nos artigos examinados, foram as
seguintes:
1º) Concepção médica-psicológica da deficiência:
a criança deficiente é interpretada como um atributo inerente
ao indivíduo. Pode tomar como referência o desvio de um padrão,
de uma média de normalidade ou a presença de alguma falha
ou limite que levou a um mau funcionamento geral ou a aspectos específicos.
A deficiência está centrada no organismo da criança,
nessa concepção o desenvolvimento da criança pára
ou se espera muito pelo processo de maturidade. Esses estudos publicados,
estavam relacionados com o desenvolvimento psicológico da criança
com deficiência e alguns outros estudos relacionados com os aspectos
epidemiológicos e genéticos, escritos por profissionais
especialistas da área da saúde, e, portanto, em linguagem
muito técnica.
2º) Concepções pedagógicas: a criança
deficiente é interpretada como decorrente de factores sociais,
emocionais e educacionais, os quais podem estar prejudicando ou ocasionando
dificuldades às crianças. Os factores causadores da deficiência
não são simplesmente os orgânicos, mas o foco de interpretação
ainda recai sobre o próprio indivíduo. Embora os factores
ou as explicações para suas dificuldades sejam externos,
nessa concepção se deve estimular todo o processo de aprendizagem.
Ao invés de buscar o defeito na criança, sua falha, o olhar
educacional, procura o que ela já sabe, o que tem, o que pode aprender
a partir daí. O profissional da educação tenta mais
do que tudo fazer com que a criança progrida. 3º) Concepções
sociológicas: a deficiência é interpretada com base
na complexa interacção entre o indivíduo e o social.
A deficiência, desse ponto de vista, não está instalada
na criança, não se relaciona directamente ao atributo, mas
depende da interpretação de uma audiência. Não
é, portanto, universal nem definitiva e, para compreendê-la,
faz-se necessário incluir o papel da audiência.
O que foi apontando no decorrer de todo o trabalho é exactamente
a necessidade de uma ruptura, que permita tecer novas formas de olhar
o mundo e as crianças, permitindo enxergá-las em toda sua
individualidade e sua totalidade, como sujeitos históricos que
têm direito a serem respeitados. Reflectiu-se, além disso,
sobre as consequências de um olhar científico sobre a criança
que classifica, diagnostica e tenta institucionalizar um olhar para a
criança como incapaz.
Após este estudo, é defendida aqui uma concepção
de criança deficiente que pressupõe que, mais do que características
pessoais independentemente de dificuldades enxergáveis apresentadas
pela criança considerada deficiente, o sucesso escolar e a integração
social são determinados pelas condições concretas
de vida, pelas relações que se estabelecem com essa criança.
Omote considera como importante:
mais do que olhar para a deficiência e examiná-la, determinante
para se compreender algo acerca da deficiência, é preciso
olhar para a colectividade que o indica como deficiente, encaixando-o
em uma categoria de desviante e tratando distintivamente. Ninguém
é deficiente por si só, alguém é deficiente
perante uma audiência e dentro de determinada circunstância.
(Omote, 1983:7).
Devemos tentar enxergar como ela é, seus desejos
e sonhos, suas tristezas e mágoas, suas possibilidades e os obstáculos
que enfrentam.
A concepção que se tem da criança deficiente, assim
como de todos os outros processos que ocorrem na sociedade, depende de
que ponto se olha a criança. O que se enxerga é aquilo que
nossa concepção política e filosófica do mundo
nos permite enxergar. Mas, infelizmente, a maior parte dos profissionais
que lida com a criança ainda está presa nas concepções
médicas.
Bibliografia:
OMOTE, S. (1983). Aspecto sócio-familiar da deficiência
mental. Revista marco v.1, nº1, pp. 07-17.
VYGOTSKY, L. S. (1987). História del desarrollo de las funciones
psíquicas superiores. Cuba: Editorial . Cientifico Técnica.