Marco Antonio Leandro Barzazo - Universidade Estadual
de Feira de Santana – UEFS e UNICAMP
Podem humanizar as ciências e aproximá-las
dos interesses pessoais, éticos, culturais e políticos;
podem tornar as aulas de ciências mais estimulantes e reflexivas,
incrementando assim a capacidade do pensamento crítico; podem contribuir
para uma compreensão maior dos conteúdos científicos;
podem contribuir um pouco para superar o “mar de falta de significação”
que diz ter inundado as salas de aula de ciências, onde se recitavam
fórmulas e equações, onde poucos conheciam seu significado;
podem melhorar a formação do professor contribuindo ao desenvolvimento
de uma epistemologia da ciência mais rica e mais autêntica,
isto é, de maior compreensão da estrutura da ciência
e seu lugar no marco intelectual das coisas”
(Mathews, p. 256)
O presente trabalho apresenta um relato da experiência
ocorrido no curso de formação continuada dos professores
de Ciências (Biologia, Química e Física) , da Rede
Estadual de Ensino da cidade de Piracicaba, no Projeto de Formação
Continuada Teias do Saber, sob a responsabilidade da Faculdade de Educação
da UNICAMP.
Neste curso, o objetivo principal era subsidiar os/as professores/as quanto
à discussão da História das Ciências. Compreendendo
as limitações de abordar um tema amplo em um curto período
de tempo, procurei fazer um recorte da temática, tendo o saneamento
básico como o fio condutor.
Considerando o livro didático uma ferramenta muito utilizada no
cotidiano da sala de aula e que, muitas vezes, seleciona/organiza o conteúdo
a ser abordado, desenvolvi uma atividade de análise desse material
procurando contribuir para uma reflexão crítica e maior
aproveitamento.
A partir da segunda metade da década de 1990, o governo federal
brasileiro, através de políticas do Ministério da
Educação , desenvolveu o Programa Nacional do Livro Didático
(PNLD), com a intenção de avaliar os livros do ensino fundamental,
que são distribuídos nas escolas públicas, aos alunos
regularmente matriculados.
Considero que essa iniciativa tenha sido significativa pois contribui
para que os livros didáticos distribuídos, em sua grande
parte, para alunos da classe popular, tenham maior qualidade já
que, até então, os alunos da rede pública não
utilizavam esse material pois o preço era alto, bem como, muitos
deles continham graves erros conceituais que nada ajudavam na aprendizagem
dos estudantes.
Na atividade desenvolvida no curso que descrevo no presente trabalho,
não tive o objetivo de fazer uma análise dos erros conceituais,
nem realizar julgamentos polarizados em abordagem certa ou errada mas,
de procurar perceber como a História da Ciência e, especificamente,
o saneamento é abordado para que, a partir dos resultados obtidos,
possamos estar refletindo, planejando e pondo em prática, projetos
que visem a melhoria das condições formativas dos professores
de Ciências.
A turma foi dividida em seis grupos com 4 a 5 integrantes e cada um deles
respondeu as seguintes perguntas:
1. Como a questão do saneamento é apresentada?
2. De que maneira as imagens de saneamento são apresentadas?
3. Há textos complementares com atualidades, curiosidades sobre
saneamento?
4. De que maneira a avaliação sobre saneamento?
5. De que maneira os personagens da Ciência são apresentados?
6. Que doenças sanitárias são destacadas? De que
maneira são abordadas?
Cada grupo recebeu um livro didático , da 5ª e 6ª séries
do ensino fundamental, que são aqueles em que o conteúdo
de saneamento básico é abordado, com maior predominância.
A partir dessas questões, os professores colheram os dados e apresentaram
os resultados oralmente e por escrito, como será exposto a seguir:
A) Como a questão do saneamento é apresentada
De uma maneira geral, os livros abordam a questão do saneamento
básico de maneira muito ampla. Considerando a quantidade de vezes
abordada, o tratamento da água, esgoto e lixo aparecem nessa ordem.
Destaco alguns comentários dos professores:
“O abastecimento de água é bem abordado no livro,
abrangendo os tipos de água (salgada, mineral, potável...),
a importância da água no corpo, formas de purificar a água
e estações de tratamento”.
“O livro aborda o assunto água na 6ª série de
maneira ampla, desde a sua existência e composição,
até a sua forma de tratamento (saneamento básico)”.
“O livro apresenta bem a questão do tratamento de esgoto,
ilustrando como deve ser feito nas cidades (estação de tratamento
de esgoto) e no campo (fossas), mostrando, também, quais as conseqüências
do esgoto não tratado”.
“A questão da remoção do lixo é pouco
explorada, restringindo-se a dizer que é algo importante, e que
o governo deve providenciar a remoção do lixo para aterros
sanitários. Faltou explorar a reciclagem do lixo”.
A partir do que foi exposto, ratifico que os/as professores/as apontaram
para uma maior quantidade na abordagem sobre o tema água. Até
mesmo em suas considerações sobre o saneamento, no decorrer
da nossa aula no curso, a água ganha maior destaque seja nos exemplos
metodológicos que eles utilizam em suas salas de aula ou na ênfase
ecológica, considerando o desperdício, o esgotamento e a
poluição.
Além dos itens destacados, aponto a questão da distribuição
da água como um fator que merece maior evidência nos livros
didáticos e, conseqüentemente, uma discussão ampliada,
principalmente porque o livro didático atinge, em sua maior parte,
alunos/as oriundos/as das camadas populares e que, muitas vezes, a água
é abordada na sala de aula mas está ausente nas torneiras
de suas casas.
Essa discussão merece maior aprofundamento, juntamente com professores/as
de outras disciplinas como Geografia e História, para melhor compreensão
de como a água é distribuída na cidade e na zona
rural e, ainda, o porquê que em certas áreas as pessoas recebem
uma quantidade maior e melhor, em detrimento de outras.
Tratando-se de saneamento básico, essa reflexão torna-se
crucial, tendo em vista que, como foi evidenciado, a questão do
esgoto e lixo aparecem em menor proporção. Considerando
que os/as professores/as, geralmente, só abordam o que está
incluído nos livros didáticos, então, pouco será
abordado acerca da distribuição, ou seja, por que em determinados
pontos da cidade há tratamento de esgoto eficiente enquanto que
em outras partes, as valas ficam a céu aberto, provenientes de
casas sem canalização? Por que o lixo é coletado
regularmente em determinados bairros e é precariamente recolhido
ou até mesmo isso não acontece em outros?
Extraí de um livro didático, um trecho que aborda a questão
das condições de saneamento básico, enfatizando o
aspecto da distribuição:
“As informações dos governos mostram como são
desoladoras as nossas condições de saneamento: apenas 70%
das residências das cidades possuem abastecimento de água,
e na zona rural esse valor não vai além de 15%.
Com relação ao esgoto, apenas 53% das residências
da zona urbana estão ligadas à rede de esgoto, ou então,
possuem fossa séptica. Na zona rural a porcentagem de residências
que possui fossa séptica cai para 5%” .
Note-se a discrepância marcante da proporcionalidade do saneamento
básico ofertado em diferentes locais entre cidade e campo. Para
uma possível explicação a ser debatida em uma aula
de Ciências, deve-se recorrer à história do saneamento
para explicar os ideais de progresso, modernidade, civilização
do final do século XIX e início do XX para melhor compreensão
de quem fazia parte da área limpa, arejada da cidade e que parte
da população vivia em cortiços, áreas fétidas
e sujas (Hochman 1998 e Rezende e Heller 2002).
A citação acima destacada, encontra-se no final do capítulo,
em um BOX intitulado “Saneamento básico x verminose”,
como leitura complementar. Considero que essa estruturação
poderia ser revista tendo em vista que, na maioria das vezes, as leituras
complementares são pouco utilizadas já que os/as professores/as
necessitam, muitas vezes, de “dar conta do conteúdo”,
considerando apenas o conteúdo abordado na parte principal do texto.
B) As imagens de saneamento
Nos últimos anos, as imagens têm tido merecido destaque nas
pesquisas no campo da Educação em Ciências, como pode
ser observado nas apresentações de trabalhos dos Congressos
realizados desde o final da década de 1990 . Dentre os diversos
materiais utilizados nas análises imagéticas, como jornais,
revistas de divulgação científica, vídeos
etc, o livro didático tem recebido grande destaque (Carneiro, 1997;
Martins et alli, 2001 e Macedo, 2004). Isso é muito importante
pois seja em qualquer dessas ferramentas, as imagens contribuem significativamente
para a aprendizagem dos conteúdos de Ciências, escapando
da utilização meramente ilustrativa, conforme é anunciado
nos resultados apresentados em diversos trabalhos de pesquisa.
Procurando inserir essa discussão no escopo do presente trabalho,
procurei perceber como as imagens sobre saneamento são apresentadas.
A seguir, há alguns comentários dos/as professores/as:
“Voltadas para profilaxia. Desenhos: ciclos reprodutivos e seus
hospedeiros. Desvinculados do cotidiano”.
“Os esquemas são ilustrativos, de fácil entendimento
e interpretação, apresentando fotos de locais como estação
de tratamento e que está bem próximo da realidade do aluno”.
“A impressão gráfica é feita em papel couché
e as imagens/ilustrações são fotos ilustrando a realidade
(situações reais) e de excelente qualidade. Os ciclos dos
parasitas são apresentados em desenhos coloridos e de bom tamanho”.
Note-se a preocupação do/a professor/a em destacar que as
imagens são de desenhos dos ciclos reprodutivos dos parasitas e
sua relação com os hospedeiros e que há uma lacuna
na ausência de imagens acerca da realidade em que muitos/as alunos/as
vivem. Em outro relato, já é comentado o oposto.
As respostas são de dois livros diferentes. Por essa razão,
defendo que as imagens sejam um dos critérios na escolha do livro
didático, pelos/as professores/as. Além de contribuir para
a aprendizagem do/a aluno/a, elas devem estar associadas à realidade
seja de sua moradia ou do bairro em que os/as alunos/as vivem.
C) Textos complementares com atualidades, curiosidades
sobre saneamento e história das ciências
A partir dos livros analisados, poucos foram os que traziam textos complementares
sobre a questão do saneamento. Considerando que as edições
da maioria dos livros investigados foram editadas a partir da metade da
década de 1990, o destaque principal era para a doença do
Cólera , especificando sua origem, sintomas, transmissão
e tratamento.
Outro texto complementar trata da descoberta da vacina , explicando o
estudo investigativo de Edward Jenner.
“Há livros que apresentam boxes como: fique mais informado,
sugestões de sites e desafios”.
Essa parte nos capítulos dos livros é importante para fornecer
assuntos atualizados aos/às alunos/as, ou que estes/as tenham a
oportunidade de conhecer o tema a partir de uma perspectiva histórica
comparando ou explicando melhor a atualidade.
D) Como a avaliação sobre saneamento é
apresentada
No final de cada capítulo do livro, a avaliação acerca
do conteúdo apresentado é feita de diferentes maneiras para
que o/a professor/a tenha uma idéia sobre a aprendizagem do/a aluno/a.
O objetivo dessa questão foi de analisar como essa avaliação
é proposta, principalmente em relação ao saneamento
básico. Os resultados são apresentados, a seguir:
“É apresentada de forma ampla, voltada para a cidadania,
onde o aluno é convidado a pensar e refletir, dando a sua opinião”.
“Durante o capítulo são feitas indagações
para que o aluno reflita sobre o assunto e busque respostas e complementações”.
Há um tipo de avaliação que marca a tendência
tradicional de ensino com questionários apresentando perguntas
em que as respostas são encontradas com exatidão no texto,
como por exemplo: “qual o nome da cabeça da tênia?
Qual o nome da larva da tênia? Quais medidas podemos tomar para
evitar uma infestação de esquistossomo? Quais medidas de
higiene podemos tomar para evitar as infestações de nematelmintos?
Etc.
Porém, há outros tipos de atividades avaliativas que não
estão pautadas em perguntas que privilegiam a memorização
mas, que explora do aluno, sua capacidade investigativa para maior aprofundamento
do assunto, como é evidenciado, a seguir:
“Redija um relato sobre a descoberta da penicilina por Alexander
Fleming. Que pesquisa ele fazia na época? Que fato levou à
descoberta? O acaso teve alguma participação nisso?”
“Pesquise na biblioteca da escola ou numa biblioteca pública
quem foi Carlos Chagas. Escreva um texto de pelo menos dez linhas contando
o que você descobriu”.
“Faça uma pesquisa e descubra qual é a relação
entre o cientista Robert Koch e as bactérias. Escreva, em papel
à parte, um pequeno texto contando tudo que descobriu”.
Outros tipos de avaliação são apresentados na obra
“Ciências Naturais, aprendendo com o cotidiano” de Eduardo
Leite Canto, que merecem destaque no presente trabalho:
“Leia o seguinte trecho do discurso de uma autoridade: ´a
transmissão de verminoses está freqüentemente relacionada
à falta de infra-estrutura de saneamento, que facilita a propagação
de tais doenças´. a) Procure em um dicionário as palavras
infra-estrutura e saneamento, e escreva o significado delas em seu caderno;
b) Conhecido o significado dessas palavras, diga o que você entendeu
da frase acima; c) Baseando-se naquilo que você já viu e
estudou na sua vida, dê exemplos do que vem a ser a ´falta
de infra-estrutura de saneamento ´; d) Na sua opinião, qual
é a situação da sua cidade quanto às condições
de saneamento?”.
Ao longo do capítulo, algumas atividades são propostas,
como: “Reflita sobre suas atitudes: você toma cuidado com
os alimentos que ingere ou nem se preocupa com isso?”
Assim, considero importante a análise de tais propostas avaliativas
para que os alunos possam ampliar a discussão do tema abordado,
não priorizando apenas a memorização, além
de poder ter a oportunidade de buscar na história do bairro, as
condições de saneamento ao longo dos anos.
D) Como os personagens da Ciência são apresentados
Muitos personagens da Ciência estão direta ou indiretamente
ligados com a questão do saneamento, da higiene, como: Oswaldo
Cruz e Carlos Chagas, no Brasil e Pasteur, em âmbito internacional.
Poucos de nós, mesmo nos cursos de graduação na área
das ciências naturais pouco ou nada ouvimos falar de Belisário
Pena, Miguel Couto e Afrânio Peixoto, por exemplo, que foram personagens
brasileiros que muito contribuíram para que se conhecesse mais
sobre as condições de vida no interior do Brasil, marcada
pelas precárias condições de vida da população.
Alguns personagens foram encontrados nos livros didáticos analisados.
Dentre eles estão: Charles Darwin; Robert Koch; Lineu; Carlos Chagas,
Jenner, Alexandre Fleming e Vital Brasil. O primeiro foi o que apareceu
mais vezes. Os outros apareceram em menor proporção. Em
relação aos sanitaristas, Carlos Chagas foi encontrado poucas
vezes e Oswaldo Cruz não se encontrava em nenhum livro analisado.
É imperativo destacar que tais personagens aparecem como grandes
como grandes cientistas que contribuíram muito para a ciência
brasileira. Porém, os livros didáticos não abordam
as dificuldades encontradas pelos cientistas na realização
de suas pesquisas. Outra questão que não é tratada
nesses materiais é a participação da mulher como
pesquisadora.
E) As doenças sanitárias que são
destacadas e de que maneira são abordadas
Geralmente, nos livros didáticos de Ciências, os conteúdos
relacionados com as doenças parasitárias privilegiam os
ciclos de vida de tais organismos, as características anatômicas
do verme e a profilaxia. Sabe-se que muitas doenças causadas por
parasitos têm uma história que explica os altos índices
de mortalidade; a endemia; a razão e o período de maior
incidência; como que elas foram combatidas; entre outras características
necessárias para os/as alunos/as de Ciências e Biologia,
na educação básica.
As doenças destacadas na análise dos/as professores/as são:
esquistossomose, teníase, cisticercose, amarelão, ascaridíase,
malária, doença de Chagas, cólera, ancilostomose
e oxiurose. Um dos professores respondeu que, em suas aulas, essas doenças
são:
“ensinadas a partir de um roteiro: denominação, desenvolvimento
e reprodução, profilaxia, tratamento, combate”.
Há professores/as que, pela resposta apresentada, privilegiam a
linguagem, os destaques de como as doenças são apresentadas
no livro didático:
“O autor apresenta sintomas, modos de se adquirir a doença,
profilaxia e o ciclo do parasita. Tudo isso é apresentado de maneira
clara, de fácil linguagem e complementada com excelentes ilustrações”.
Reporto-me à música Esquinas, do cantor e compositor Djavan,
e questiono: como o/a professor/a pode ampliar a discussão, abordando
a história dessas doenças, no Brasil e no mundo, se eles/as
não tiveram essa formação? Se o que se privilegia
nas aulas de Parasitologia e Zoologia, nos cursos de graduação
da área de ciências naturais é, justamente, o que
está sendo reproduzido nos livros didáticos?
Após a apresentação dos grupos, houve uma ampla discussão
sobre o conteúdo dos livros didáticos, enfatizando no debate,
os interesses mercadológicos das editoras, a proposta de avaliação
do MEC e a análise criteriosa que deve ser feita, pelos/as professores/as,
no momento da escolha dos livros.
Além disso, tratando-se mais especificamente da discussão
acerca da História das Ciências, debatemos sobre a questão
curricular, abordando que este deve ser construído com a participação
da comunidade escolar, incluindo professores/as, alunos/as, coordenação
pedagógica, diretoria e pais de alunos.
Muitas vezes, os/as professores/as seguem as orientações
curriculares oriundas das secretarias estaduais ou municipais de educação
ou até mesmo do âmbito federal, como é o caso dos
Parâmetros Curriculares Nacionais, que surgiram no final da década
de 1990, no governo Fernando Henrique Cardoso e ainda é mantido
pela atual política do Governo Lula.
Nas reuniões pedagógicas em que os professores se reúnem
para a organização do planejamento anual, algumas perguntas
devem orientar a discussão: que currículo estamos pensando?
Para quem? Por que esse tema e não outro? Nesse momento, é
oportuno que professores/as lancem a idéia de trabalhar determinados
temas à luz da História das Ciências, contemplando
não só a área das ciências naturais mas agregando,
também, a de ciências humanas pois, como afirma Berticelli
(1999): “Afinal, a questão do currículo é a
questão central que diz respeito àquilo que a escola faz
e para quem faz ou deixa de fazer” (p.174).
Outro ponto discutido foi o porquê que a História das Ciências
não é enfocada nas aulas de Ciências. Todos/as os/as
professores/as responderam que isso ocorre devido à reduzida carga
horária que, inclusive, não permite que todo o conteúdo
programático da disciplina seja cumprido.
A partir dessa resposta, procuro refletir: por que esses conteúdos
abordados no livro didático e, conseqüentemente nas aulas,
são os que merecem ser “cumpridos”? Quem escreve os
livros didáticos? Qual a visão de Ciência que esses
autores possuem? Que interesses estão em jogo? Por que não
excluir determinados conteúdos e incluir outros, por exemplo, relacionados
com a História das Ciências?
Essas e outras perguntas surgem e não necessitam de uma resposta
imediata mas, norteiam uma reflexão que deveria estar presente
nas reuniões de planejamento dos professores pois trata-se de uma
discussão curricular, da história das disciplinas e dos
conteúdos escolares.
Ao longo desse trabalho pude trazer algumas contribuições
referentes à História da Ciência e, mais especificamente,
ao saneamento básico. Minha conclusão, primeira, é
de que essa área ainda é pouco explorada nas aulas de Ciências
da educação básica e que isso se deve, principalmente,
à lacuna existente na formação inicial dos professores
de Ciências e que por essa razão, é necessário
investir na formação continuada de professores trazendo
diferentes temáticas para serem discutidas e, dessa forma, possibilitar
que elas sejam incluídas no cotidiano da sala de aula.
Recorro a Mathews (1994), para defender a inclusão da História
das Ciências nos cursos de formação do professor.
Esse autor citou em seu célebre artigo que a importância
da HFS não é novidade pois, desde 1929, um livro que destinava-se
a professores de Ciências dizia que para esse profissional ser bem
sucedido, é aquele que:
Conhece sua própria disciplina (...) conhece muito sobre outros
ramos da ciência (...) sabe como ensinar (...) é capaz de
expressar-se claramente (...) possui capacidade de manipulação
(...) é criativo tanto nas aulas teóricas como para o laboratório
(...) possui raciocínio lógico (...) é um pouco filósofo
(...) é um bom historiador que pode se sentar com um grupo de alunos
e falar das equações, da vida e trabalhos de gênios
como Galileu, Newton, Faraday e Darwin.
A partir do presente trabalho, ratifico da necessidade de ampliar a visão
de Ciência, de modo que ela contemple os aspectos econômico,
político, cultural e social pois, investigar a questão do
saneamento meramente pelo aspecto técnico ou incluindo apenas uma
relação de doenças parasitárias com seus respectivos
ciclos vitais dos parasitos envolvidos, pouco contribui para uma aprendizagem
de qualidade.
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