Solange Moraes Barreto Borges - Oficina da Palavra
- 2004
Este trabalho tem como objeto de pesquisa a leitura de
onze anúncios publicitários veiculados pelo jornal Folha
de São Paulo como uma estratégia didática para ensinar
a ideologia subjacente a todo discurso. O discurso publicitário,
por ser naturalmente ideológico, possui um significado e deveria
remeter o leitor sempre à percepção de seus jogos
intertextuais produzidos na criação. Mas o que acontece
é o contrário. O leitor de jornal normalmente despreza a
publicidade desse veículo de comunicação em detrimento
da notícia, da reportagem ou da crônica argumentativa, deixando
de percebê-la como um sistema de valores, opiniões e representações
organizado para persuadir e induzir o consumo. A importância desse
estudo está na possibilidade que ele apresenta de o aluno/leitor
obter um novo olhar sobre a publicidade presente na mídia jornalística,
tornando-se um cidadão crítico, formador de opinião
e, acima de tudo, consciente de suas decisões.
A presença dos meios de comunicação
e das tecnologias de informação na sociedade diversificou
as estratégias de aprendizagem e fez com que os professores mudassem
sua metodologia de ensino, priorizando a leitura crítica da representação
da realidade veiculada nessas mídias. Fazer uma leitura crítica
significa perceber a ideologia subjacente a cada discurso. Entende-se
a ideologia como um sistema de valores, opiniões, representações
mais ou menos explícitas, organizadas para induzir comportamentos
ou práticas na sociedade, ou seja, como um sistema de significação.
As formações ideológicas têm que ser exteriorizadas,
difundidas, assimiladas e isso só é possível por
meio do discurso, pois ele é o ponto de articulação
dos processos ideológicos e dos fenômenos lingüísticos,
sendo a linguagem interação e um modo de produção
social . Todo discurso possibilita a compreensão dos usos da linguagem
produzidos na criação, causando um efeito no receptor, atingindo-o
intuitiva e sensivelmente, levando-o a identificar-se e até alterar-se.
Analisar o discurso, então, significa localizar o campo de constituição
do significado e a ideologia presentes no objeto de estudo, neste caso,
o jornal.
Pensar estratégias de ensino da língua a partir do jornal
pressupõe assumir a língua enquanto enunciação,
isto é, assumir não os textos isolados, mas situados dentro
de um suporte que ganha sentido dentro de uma interação,
pois os textos de jornal não são autônomos: dialogam
entre si, dependem um do outro e ganham sentido na relação
que se pode estabelecer entre eles.
O objetivo deste trabalho é mostrar a ideologia presente nos anúncios
publicitários do jornal Folha de São Paulo, veiculados no
próprio jornal Folha de São Paulo, no período entre
1997 e 2004, mostrando como os “valores” vendidos pela empresa
contribuem para persuadir o consumidor, interferindo na sua decisão.
Dessa forma, percebendo o discurso publicitário como um discurso
ideológico e fazendo uma leitura crítica, o leitor pode
não se deixar enganar pelo anúncio, fazendo suas próprias
opções de compra. Trata-se de analisar o texto publicitário
em relação à sua situação de enunciação.
Isso permite quebrar os esquemas adotados pelas escolas e levar o aluno
a uma atividade de reflexão onde ele perceba não apenas
o texto, mas a sua posição de leitor crítico.
Embora o jornal seja um conjunto dinâmico de diferentes textos,
o publicitário veiculado nele muitas vezes é esquecido pelo
leitor que se prende mais às notícias, reportagens e crônicas
argumentativas. Mas enquanto o leitor supõe que não percebeu
o anúncio, ele está ali, bem próximo, agindo sob
seu (in)consciente.
Os onze anúncios examinados neste trabalho pertencem ao jornal
Folha de São Paulo e divulgam a própria empresa. Por meio
da leitura do texto e da imagem presente em cada um percebe-se que a empresa
preocupa-se apenas com um tipo de destinatário: o formador de opinião.
Para que esse destinatário acate e realize o que a mensagem publicitária
está sugerindo, foram adotados recursos retóricos a fim
de persuadi-los.
Esses recursos são específicos para o convencimento e estão
no nível da linguagem – nas ambigüidades, nos implícitos,
nas ironias, no uso dos verbos, na adjetivação, na força
da própria palavra – e no nível da imagem –
exaltando sempre a sua relação com o texto verbal. Usar
os recursos retóricos é usar a comunicação
para definir a realidade do modo como se ‘deseja’ que ela
seja vista .
A produção publicitária no âmbito jornalístico
é complexa e rica em significações. Dessa forma,
torna-se fundamental o papel do professor com seus projetos de leitura
voltados para a formação da cidadania. É ele o mediador,
o orientador da postura crítica do aluno, de modo que a sua visão
dos textos jornalísticos e das imagens não seja de submissão
ou de encantamento, mas de posicionamento crítico.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ABREU, Antônio Suárez. A arte de argumentar.
São Paulo: Ateliê Editorial, 1999.
BRANDÃO, Helena H. Nagamine. Introdução à
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CARVALHO, Nelly de. Publicidade: a linguagem da sedução.
2ª ed. São Paulo: Ática, 1998.
REBOUL, Olivier. Introdução à Retórica. São
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VESTERGAARD, Torben e SCHRODER, Kim. A linguagem da propaganda. 2ª
ed. Tradução> João Alves dos Santos e Gilson César
Cardoso de Souza. São Paulo: Martins Fontes, 1996.