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EDUCAÇÃO
INFANTIL E LINGUAGEM ESCRITA:CONCEPÇÕES PRESENTES EM PRODUÇÕES
ACADÊMICAS
Adriana Bragagnolo – Universidade Luterana
do Brasil - brag_adri@yahoo.es
Ao situar a infância historicamente, é visto
que inúmeros foram os esforços para a conquista de um espaço
de direito na sociedade para a criança, especialmente para as menos
favorecida, pois as condições e as possibilidades de acesso
às instituições se constituíram efetivamente
num contexto, em que as assistencialismo predominou ao invés de
uma educação de respeito ao desenvolvimento infantil. Somente
com um novo olhar para a concepção de infância e com
as lutas travadas pela implantação de instituições
que permitissem considerar a criança como um sujeito merecedor
de cuidados e educação, percebemos mudanças nesse
quadro.
Atualmente, vivemos um tempo de importantes discussões na busca
de espaço e qualidade na educação da criança
de zero a seis anos. Mas algumas contradições revelam que
embora as iniciativas e o compromisso que temos com a criança venham
consolidando um novo caminho para a educação infantil, seria
ilusório dizer que seus direitos estão realmente sendo assegurados.
Em razão de algumas políticas públicas andarem na
contramão dos direitos da educação infantil, a criança,
o sujeito mais interessado, encontra-se distante dos resultados das lutas
e, apesar dos relevantes esforços para amparar a infância,
ainda não se garante um atendimento ideal à criança
nessa fase.
Assim, emerge um movimento entre as pessoas que se interessam pela área
da infância, as quais discutem, estabelecem redes de contato, organizam-se
em coletivos , lutam pela mesma causa, refletem e trazem uma diversidade
de opiniões, concepções e referenciais que acabam
por orientar conhecimentos e ações. Entre eles, estão
professores, pesquisadores, representantes de órgãos legais
e profissionais da educação infantil que, em sua maioria,
buscam sem esmorecer encontrar soluções para que a infância
ganhe maior significado e respeito em meio a uma sociedade que reproduz
e impõe um modelo estabelecido de acordo com os interesses do mercado.
Esses sujeitos produzem conhecimento através de debates, estudos
e produções, e suas concepções deverão
refletir de forma emblemática no cotidiano infantil, o que expressa
uma relação próxima entre os sujeitos que envolvidos
nas relações de saberes e fazeres da educação
infantil.
Assim, o presente trabalho apresenta resultados de uma pesquisa no campo
da educação infantil a respeito das concepções
que circulam nos meios acadêmicos acerca da linguagem escrita dada
sua influência na formação dos professores.
Inquieta saber, que além de no processo de formação
dos professores, poder ser relativa a maneira como os conhecimentos são
apropriados por estes, as propostas das escolas geralmente são
elaboradas com base em documentos ou em estudos produzidos por pesquisadores
em educação. Alguns desses estudos (realizados em meios
acadêmicos ou não) caracterizam-se por maior abrangência
e podem condicionar fortemente os fazeres de uma escola, a qual se apropria
de falas e conhecimentos que se tornaram oficiais. Desse modo, conhecimentos
que não são parte de certos documentos ou produtos de pesquisas
nem chegam a ser discutidos nos espaços escolares, de tal modo
que geralmente os professores atêm-se a um trabalho com modelos
estabelecidos, cujas fontes e razões lhes são desconhecidas.
Além disso, o drama de alguns professores se amplia quando, em
determinadas escolas, as exigências a serem “cumpridas”
a respeito do trabalho pedagógico tornam-se incompatíveis
com suas concepções teóricas. Assim, sem espaços
coletivos de discussão, diante de uma situação incômoda,
geralmente eles se sujeitados a processos de ensino e aprendizagem que
demonstram rupturas na relação entre teoria e prática,
além de evidenciarem-se aspectos formais numa etapa onde o encantamento
e o desejo pelas descobertas prevalecem.
Permite-se afirmar que, o cotidiano de um grupo de crianças pequenas
possui vida. Participando ativamente do processo de aprendizagem, elas
surpreendem e estão a nos desafiar nos mais diferentes momentos.
Deparamo-nos com crianças embevecidas pelo conhecimento, lendo,
narrando histórias e fatos, rabiscando, construindo hipóteses,
produzindo escritas, questionando a seu respeito e refletindo. Numa turma
de educação infantil, cada criança possui um tempo
diferente e trilha o seu caminho ao construir diferentes linguagens. Entre
choros e gargalhadas, elas estão descortinando o mundo da escrita
e esperando que os sujeitos ao seu redor, entre eles o professor, compartilhem
desses momentos. Assim, o professor encontra-se no meio dessa trama e
precisa dar conta de propostas e possibilidades, visto que é um
contexto que se movimenta todos os dias, que muda de lugar a todo o momento,
que implica novas respostas e muito conhecimento.
Como visto, a educação infantil caracteriza-se por surpreender,
desafiar e inquietar o que se sabe. Encerra uma trama de conhecimentos
e habilidades numa idade que requer indispensável atenção
e que se constitui como um período em que as possibilidades de
aprendizagem são imensas, pois é justamente quando mais
a criança se encontra disponível ao conhecimento.
Em razão da falta de conhecimento frente aos aspectos que comportam
o desenvolvimento da criança, preocupam as concepções
que parecem ignorar a importância da linguagem escrita na educação
infantil. Falar em desenvolvimento da linguagem escrita significa compreender
a língua como objeto social de conhecimento; significa apostar
na criança como um sujeito que, através da interação
social, num processo contínuo de alfabetização, é
capaz de apropriar-se desse objeto simbólico: a escrita. É
com esse olhar que esta pesquisa organiza o seu referencial teórico.
Não direciono o entendimento para crianças alfabetizadas
e, sim, quando se trata de educação infantil, a processos
de alfabetização. A escrita é uma linguagem tão
necessária e fascinante quanto as outras, mas o processo de sua
aquisição é algo bastante complexo, que exige conhecimentos
do professor para que ele possa compreender, perceber as mudanças
qualitativas e intervir no caminho que a criança trilha ao se apropriar
desse objeto.
Compreendendo o processo de desenvolvimento da linguagem escrita como
um processo espontâneo na instituição infantil, reconhecemos
a importância social e política desse processo, permitindo
que a criança, nos anos posteriores, tenha condições
de construir elementos necessários ao seu processo de aprendizagem.
Num ambiente rico de possibilidades, entre as mais variadas linguagens,
com professores determinados e propostas interessantes, assumimos um compromisso
com essas crianças. Mas isso implica conhecimentos elaborados,
pois não bastam concepções dispersas e difusas.
Por essas razões, considero pertinente recompor, no campo da educação
infantil, as discussões existentes a respeito do desenvolvimento
da linguagem escrita, localizando elementos que estão sendo considerados,
deslocados ou desconsiderados.
Os caminhos da pesquisa
A investigação ora exposta busca, assim,
com base num enfoque qualitativo e utilizando-se da pesquisa documental,
abordar as contribuições que as produções
acadêmicas elaboradas entre 2000 e 2003 oferecem para os sujeitos
da área da educação infantil a respeito do desenvolvimento
da linguagem escrita.
Nos momentos iniciais da pesquisa, paralelamente aos estudos bibliográficos,
investimos na busca das fontes documentais. A primeira etapa do trabalho
consistiu num estudo exploratório cujo foco foram as discussões
sobre a linguagem escrita e a educação infantil nos meios
acadêmicos que desenvolveu-se através de um mapeamento que
visava identificar, em nível de Brasil, focos de discussão,
sistematizações existentes e tipos de documentos que estariam
sendo produzidos referentes ao tema exposto. Para tanto, foram realizadas
algumas ações: a) contato com pesquisadores na área
da educação infantil e alfabetização e com
participantes de grupos de pesquisa de universidades brasileiras (UFSC,
USP, UFF, UFRJ, Unicamp, Univali, UFRGS, Unijui, PUC/RS, PUC/RJ, UFSCAR,
Unirio); b) busca de publicações, produtos de eventos de
pesquisa, como os Anais da Reunião Anual da Anped, do Congresso
Nacional de Leitura (Cole), do Congresso Paulista de Educação
Infantil (Copedi), entre outros; c) busca de publicações
em periódicos e rastreamento nos bancos de dados das universidades
para a localização de teses e dissertações
sobre o tema.
Com base no mapeamento inicial, percebemos que, nos últimos quatro
anos, foram poucas as produções e os estudos realizados
que estabelecem diálogo entre esses dois temas. Por isso, partimos,
para aproximações com trabalhos que pudessem contribuir
com a área da educação infantil pelo fato de tratarem
do processo de desenvolvimento da linguagem escrita de forma mais abrangente.
Mesmo mantendo o foco na educação infantil, foi relevante
buscar e incluir trabalhos que ampliassem o sentido do processo de alfabetização,
inclusive por acreditarmos que esse ocorre numa trajetória ampla,
que inicia desde as primeiras relações que a criança
estabelece quando pequena e transcende a aprendizagem da primeira série
do Ensino Fundamental.
Assim, foram selecionados, no conjunto de produções, mais
de cem textos. Os trabalhos, pôsteres, minicursos e sessões
especiais dos anais das reuniões anuais da Anped permitiram-nos
um leque de possibilidades para análise, com significativos elementos
a respeito do tema em análise. Quanto às publicações
em periódicos, uma quantidade significativa de material foi encontrada,
principalmente na área de linguagem [e uma certa ausência
na área de educação infantil]; assim, indo ao encontro
de resumos de teses e dissertações, percebemos a quantidade
de pesquisadores interessados, em nível de mestrado e doutorado,
pelos problemas relativos à educação da infância.
Apesar de poucos trabalhos voltados ao estudo da linguagem escrita, encontramos
uma variedade de temas que se aproximam das questões aqui propostas,
no entanto, pela preocupação em focalizar o que fora delimitado
por esta pesquisa, a seleção teve de ser rigorosa. À
medida que rastreávamos o material à luz dessa preocupação,
chegamos ao número de trinta e nove publicações.
Com o estudo e fichamento do material, formamos um banco de dados, o qual
possibilitou a elaboração de três categorias descritivas:
saberes docentes, inquietações pedagógicas e compromisso
social e político com a alfabetização. Essas constituíram
uma primeira matriz de análise das fontes documentais, a qual retratou
interligações entre as informações obtidas
nos documentos a partir das leituras, pôs em evidência os
conceitos apresentados, os referenciais teóricos, o tipo de pesquisa
e as hipóteses dos pesquisadores.
Por esse estudo descritivo, podemos notar que as categorias saberes docentes
e compromisso político e social trazem assuntos que permeiam a
questão central da pesquisa, contudo mantêm o foco em temas
secundários, sem necessariamente recompor e problematizar as questões
relevantes do processo de desenvolvimento da escrita na educação
infantil.
Portanto, frente à ausência naquelas produções,
a categoria inquietações pedagógicas tornou-se central
em nosso trabalho, por trazer elementos de maior relevância para
nosso estudo e pelo referencial teórico disposto nele. Sobre essas
produções nos debruçamos para, então, proceder
a uma análise mais rigorosa de seu conteúdo. As dezessete
produções (Quadro 1) trazem questões que envolvem
o processo de alfabetização e, em alguns momentos, estabelecem
relações entre a educação infantil e os anos
iniciais do ensino fundamental.
A respeito das inquietações pedagógicas:
desvelando concepções
A categoria descritiva inquietações pedagógicas
revela as questões que tecem o processo de aprendizagem, com idéias
que se aproximam da educação infantil e do ensino fundamental
e constituem os mais diversos elementos presentes no desenvolvimento da
linguagem escrita, sustentando-se em referenciais teóricos e ações
do cotidiano escolar. São dezessete trabalhos, que muita propriedade
contribuem para o campo da educação, conforme Tabela 1.
Tabela 1 - Documentos da categoria inquietações
pedagógicas
| Documentos |
Ano
de publicação
|
|
Anped
Periódicos
Teses
e dissertações
Totais
|
2000 |
2001 |
2002 |
2003 |
TOTAIS |
|
1
-
2
3 |
1
-
5
6 |
1
1
-
2 |
6
-
-
6 |
9
1
7
17 |
Sobre os
referenciais teóricos dessas produções, dos dezessete
trabalhos, onze estão alicerçados na teoria histórico-cultural,
principalmente fazendo referência aos estudos de Lev Semionovich
Vygotsky e Alexander Romonovich Luria. Apresentam aspectos gerais do processo
de aquisição da linguagem escrita pressupondo elementos
que: a) permitem a aproximação com o faz-de-conta em narrativas
e com o lúdico, compreendidos como uma atividade propícia
a um contexto favorável ao desenvolvimento infantil; b) trazem
a pré-história da linguagem escrita, com a compreensão
de que a criança desde cedo amplia o espaço de simbolismo
comum, e evidenciam a relação entre pensamento e linguagem.
Da mesma forma, Mikhail Bakhtin é citado em seis produções,
nas quais há relações com a fala e com a comunicação
através da palavra e do diálogo. O lúdico é
visto como prática discursiva, evidenciando-se a importância
da linguagem nas situações imaginárias. Esse referencial
dialoga com a teoria histórico-cultural e construtivista, e sustenta
a discussão com autores contemporâneos como: Magda Becker
Soares, Mirian Lemle, Marta Kohl Oliveira, Luis Antônio Marcuschi.
No conjunto das produções revelam-se os conceitos que trazem
a relação entre pensamento e linguagem, a importância
da mediação, da interação social e da intervenção
nesse processo e a contribuição da linguagem na reestruturação
do pensamento. Nessa perspectiva, há uma preocupação
evidente com o desenvolvimento das funções psicológicas
superiores, sobretudo da memória, com a compreensão da zona
de desenvolvimento proximal e com o desenvolvimento do simbolismo. A escrita
é vista como objeto cultural que possui uma relação
ampla com a educação infantil, num processo de aquisição
de significados. Além disso, trata-se de narrativas, diálogo,
na educação infantil, letramento, relação
teoria e prática, psicomotricidade e rota fonológica na
alfabetização.
As produções tomam por base diferentes tipos de pesquisa
- pesquisa-ação, pesquisa etnográfica, construtivista,
bibliográfica, documental - utilizando-se de métodos de
observação, questionários, vídeos, entrevistas,
produção de textos, mapeamento no campo semântico
e aplicação de técnica de associação
livre de palavras.
As hipóteses das pesquisas das produções mostram
uma teia de questões que possibilitam pautar-se, inicialmente,
na problematização das questões sobre o conhecimento
difuso a respeito do processo de desenvolvimento da linguagem escrita
e na expressão dos limites existentes entre teoria e prática,
especialmente no que diz respeito à crítica às práticas
tradicionais. Diante disso, defendem-se nessas produções
a abertura a práticas mais diversificadas de escrita e leitura
nos mais diversos espaços e a possibilidade de, com novos discursos
e compreendendo a alfabetização de forma ampla, romper com
a prática existente e buscar a atualização dos professores.
Seguindo o processo de pesquisa, ao desvendar o conteúdo manifesto
nas produções, possibilitou-se verificarmos o que as produções
estão dizendo, como estão dizendo, para quem e de que lugar
passam suas mensagens, com base nas seguintes categorias analíticas:
1) Concepções de linguagem; 2) Língua escrita, um
objeto de conhecimento; 3) Processo de alfabetização; 4)
Interação social; 5) Consciência da língua.
No processo de análise e de exposição, a aproximação
dos textos através da articulação dos dados e do
referencial teórico foi-nos permitindo elucidar possíveis
elos e aspectos que apontaram para possibilidades de resposta à
pesquisa.
Diante disso, a exposição dessa análise está
organizada em torno de quatro eixos: a linguagem como produção
humana e prática social, a linguagem e as funções
cognitivas, a relação entre lúdico e linguagem e
o professor e seu saber a respeito da linguagem. As produções
estarão sendo mencionadas com o uso de seus respectivos códigos
, pois consideramos importante realizar essa chamada para abordá-las
nos momentos em que estão sendo referidas.
a. A linguagem
como produção humana e prática social
Uma das abordagens
presentes nas produções diz respeito à linguagem,
a qual é considerada uma produção da humanidade e
constituída como prática social. Isso pode ser visto na
produção POGTAL0307 , que percebe a linguagem como interação
social, como possibilidade de a criança tornar-se sujeito através
dela. Com um saber solidário, construído através
do coletivo, num processo no qual os falantes, produtores da língua,
se tornam sujeitos e autônomos de sua trajetória, considera-se
que eles, nesse contexto, constituem-se como seres sociais.
A produção POGTAL0105 , por sua vez, também tratando
da importância da interação e da prática social
da língua, mas pressupondo que pode haver um jogo discursivo e
um processo de silenciamento no contexto de sala de aula de alfabetização,
este considerado como um espaço de construção do
sujeito como ser social, preocupa-se com as relações que
se estabelecem nas interações verbais. É possível
dizer que há um processo em sala de aula permeado por mecanismos
de controle presentes no discurso. Assim, preocupa-se com o espaço
de construção discursiva dado ao aluno no processo de alfabetização
e aponta a importância da construção da fala nessa
trajetória. Por essas razões, defende o não-silenciamento
da fala da criança, ou seja, a emergência de um olhar especial
aos conhecimentos lingüísticos e de uma postura que permita
o direito de espaço à fala.
Referindo-se a praticas sociais de leitura e escrita, a produção
MCGTAL031 demonstra que, com o alargamento de práticas cada vez
mais diversificadas de leitura em diferentes espaços e em múltiplas
dimensões, ou seja, através da língua oral, da língua
escrita, da cibernética e das linguagens não-verbais, o
sujeito se constitui inclusive no espaço extra-escolar por desejo
e necessidade. Da mesma forma, isso se revela na produção
SEGTAL0301 , que trata de variadas práticas sociais de leitura
e escrita, fazendo menção à relação
existente entre letramento e alfabetização. O texto remete
às mudanças conceituais que ocorreram a respeito da linguagem
escrita, principalmente nas últimas décadas e retrata a
compreensão de letramento e alfabetização como processos
que se aproximam, e ao mesmo tempo possuem especificidades.
Ao conceber o conceito de língua escrita, tomamos a produção
TRGTAL0305 , que a considera como um objeto social de conhecimento construído
pela humanidade: “As idéias, valores, crenças, tradições,
o saber fazer, enfim, as criações humanas se eternizam e
podem ser recuperadas por meio da escrita” (p. 1). A preocupação
com a aprendizagem da escrita se dá pelo fato de que sua democratização
é insuficiente e sua distribuição é desigual,
sendo fundamental o acesso a todos os indivíduos da sociedade.
A produção AREDSO0207 , por sua vez, realiza uma retomada
da trajetória teórica a respeito do processo alfabetização,
desconsiderando perspectivas insuficientes para dar conta desse processo
em razão do fracasso escolar e apontando, sobretudo, que os referenciais
construtivistas, orientados por pressupostos interacionistas, na perspectiva
psicogenética, na tentativa de conceber a alfabetização
com novas formas, possibilitaram a reflexão a respeito da participação
da criança no processo de aprendizagem e na prática dos
professores ( p. 144).
Diante desses elementos presentes nas produções, partimos
para algumas reflexões que nos possibilitam estabelecer um confronto
teórico entre as concepções presentes nas produções
e os referenciais que guiam esta pesquisa.
Inicialmente, tomamos a concepção de Geraldi (1999, p. 41),
que aponta a linguagem como uma forma de interação, situada
como o lugar de constituição de relações sociais,
ou seja, o espaço onde os falantes se constituem como sujeitos.
Estabelecendo a relação entre sujeito e linguagem na perspectiva
social, leva-se em conta o contexto da sala de aula como o espaço
da construção desse sujeito. Portanto, é nesse espaço
que se constituem relações fundamentais num processo de
alfabetização, independentemente da fase desse processo,
mas com base na qualidade da relação dos sujeitos com a
linguagem. Buscamos em Smolka (1999, p. 29) a concepção
de alfabetização que implica leitura e escritura e que a
concebe como momento discursivo, pois o próprio processo de aquisição
vai ocorrendo em espaços de interlocução e de interação.
Sendo o foco do trabalho o processo de alfabetização e a
educação infantil, mesmo ausente de forma direta em algumas
produções, reiteramos a importância de dar espaço
à fala, de respeitar as diferenças culturais, de proporcionar
a interação social e momentos de intervenção.
Ainda, mesmo que com pouca ênfase nas produções, ressalta-se
a relevância de compreender que criança de educação
infantil, nessa situação, é um sujeito da linguagem
e de seu processo de conhecimento.
Nesses espaços de interação destacamos também
as situações em que pode haver relações de
poder presentes nos discursos, pois a criança, ao ingressar na
escola, falando com um dialeto referente a seu ambiente cultural e diferente
do padrão culto, acaba por abandonar seu discurso, construído
até então. Essa é uma questão relevante na
prática social da linguagem em sala de aula de crianças,
principalmente em processo de alfabetização, as quais estas
precisam ser compreendidas do ponto de vista de variação
lingüística. Assim, buscamos as palavras de Possenti:
a) todas as línguas variam, isto é, não existe nenhuma
sociedade ou comunidade na qual todos falem da mesma forma; b) a variedade
lingüística é o reflexo da variedade social, como em
todas as sociedades existe alguma diferença de status ou de papel
entre indivíduos ou grupos, estas diferenças se refletem
na língua.(1999, p.33)
Nessa mesma direção, emerge numa das produções
o conceito de letramento e, nesse ponto tomamos de Soares esse conceito,
ao definir a pessoa como letrada tanto na dimensão de suas capacidades
de leitura e escrita individual, como na de um sujeito participativo,
capaz de fazer uso social da leitura e da escrita. Letramento, assim,
é o “estado ou condição de quem interage com
diferentes portadores de leitura e de escrita, com diferentes gêneros
e tipos de leitura e de escrita, com as diferentes funções
que a leitura e que a escrita desempenham na nossa vida” (SOARES,
1998, p. 44). Nesse sentido, pensamos que, se há uma associação
entre esses dois processos - alfabetização e letramento
- e a criança, desde o seu nascimento, envolve-se em práticas
sociais de leitura e de escrita, da mesma forma é capaz de estabelecer
determinadas relações que envolvem o processo de alfabetização.
Essa constatação nos permite assim, refletir sobre a ausência
de discussão a respeito da criança de educação
infantil nessa dimensão.
Participando dessas práticas e freqüentando escola ou não,
em ambientes com sujeitos que realizem intervenção, algumas
dessas crianças já estão em processo de alfabetização.
Em segundo lugar, nossa preocupação diz respeito à
formação de professores. O que incide nas produções
é um direcionamento ao ensino fundamental, o qual tem sido contemplado
nos campos de pesquisa. Essa é uma questão que nos inquieta,
pois justamente ao professor de crianças de zero a seis anos são
necessário muitos conhecimentos a respeito desse tema... É
necessário que a discussão esteja em pauta.
As reflexões a respeito da produção escrita, concebida
como apoio à memória, sistematizadas numa das produções,
cujo tema se volta para crianças em fase inicial de alfabetização,
permitem incitar inquietações não pela pesquisa realizada
ou pelas considerações pertinentes apontadas entre as referências
que emergem das produções e dos quadros teóricos,
mas pela ausência de preocupação com a aprendizagem
da criança, independentemente do lugar que ela ocupa no sistema
de ensino. Com a construção de rabiscos, marcas e símbolos,
é possível perceber que a criança hoje, diante do
universo cultural em que se encontra, é capaz de produzir a escrita.
Diante de um trabalho dotado de intencionalidade pode estar realizando
essas produções equivalentes às formas culturais
da escrita ainda com maior nível de conceitualização.
Reiteramos a importância de compreender o processo de alfabetização
como um período amplo, no qual a criança pode, imersa no
ambiente cultural, pensar sobre a escrita e, de acordo com a qualidade
das intervenções, na escola ou não, iniciar seu processo
de alfabetização.
Por essas razões, considera-se pertinente estarmos atentos às
discussões que se colocam em pauta tanto nos cotidianos escolares
quanto nos meios acadêmicos, pelo fato de não ignorarmos
processos que estão ocorrendo a nossas vistas com muita vida quando
nos referimos à criança. Essas considerações
nos permitem pensar que as produções acadêmicas podem
estar aceitando uma cisão entre educação infantil
e ensino fundamental, num plano para além do institucional, isto
é, no âmbito teórico. Percebe-se a criança
atrelada à escola formal e com o rosto da instituição,
visto que há uma formalidade maior ao se fazer referência
ao ensino fundamental do que quando se trata de educação
infantil. Essa ruptura parece obscurecer um olhar mais atento ao cotidiano
inacabado, colorido, que muda de lugar a todo o instante e que, literalmente,
vive.
b. A linguagem
e as funções cognitivas
Um conjunto
de produções possibilita compreender a linguagem atrelada
a suas funções cognitivas, revelam a importância da
interação e a contribuição da narrativa. Nesse
contexto, a narrativa emerge como um dos principais elementos. É
possível encontrar esse elemento na produção DIUFRN0109
, quando considera que uma das possibilidades desafiadoras na escola com
as crianças pequenas se concretizou pelo reconto de histórias,
considerado como uma modalidade de produção textual em que,
na mesma perspectiva, a criança, no processo de constituição
social, vai se tornando sujeito de sua aprendizagem. A criança,
nessa atividade, reconstrói o sentido de uma história recém-narrada,
retoma o seu conteúdo e o modo de organização de
informações através do pensamento, fazendo uso de
funções cognitivas em condições de mediação
organizadas pela professora. Tal produção remete os estudos
ao universo da educação infantil, que valoriza a capacidade
de produção das crianças pequenas e revela a possibilidade
de ampliação do número de informações
recordadas pela memória. A reflexão sobre os recontos da
história, demonstra que a ação de recontar permite
a construção de sentido e contribuições na
estruturação da linguagem em crianças pequenas, além
do seu encontro e familiarização com a linguagem literária.
Na mesma perspectiva, a produção TRGTEI0307 , com um olhar
fascinante, revela que a narrativa é considerada como fonte de
memória, com a qual, desde muito pequena, a criança é
capaz de estar em contato. Durante o processo de narração,
há uma comunicação verbal e, para que ocorra interação,
considera que há uma “conspiração narrativa”
que compõe a voz, a presença e a imaginação.
Esses três elementos nos remetem a uma concepção de
narrativa. Segundo a produção analisada,
durante a narração, a troca não ocorre apenas no
plano da linguagem, mas também através do ar: pelo sopro
compartilhado em que vibra a voz de quem fala no ouvido de quem escuta
pelo calor físico gerado pelos gestos de quem conta e de quem reage,
pela vibração motriz involuntária - arrepios, suspiros,
sustos - causadas pela emoção que a história desencadeia.
(p.3).
Referindo-se à voz, que “através das narrativas, as
crianças vão se constituindo como sujeitos culturais e tecendo
suas experiências. Desde o berço, a criança é
capaz de produzir narrativas e a relação que se estabelece
entre ela e a linguagem procede de uma forte relação com
as questões culturais; portanto, é evidente a concepção
de que a linguagem deve estar presente, por meio das histórias,
no cotidiano infantil desde cedo, visto que contribuem para enriquecer
o vocabulário.
A presença, como outra forma de interação, significa
entrega ao encontro com a criança. A produção informa
sobre a profunda relação existente entre adultos e crianças
nos momentos de contar e ouvir histórias, o que provoca significativas
mudanças conceituais. Através da palavra, possibilita-se
que recursos expressivos como o estalar de dedos, a pausa inesperada,
o arregalar de olhos (p. 7), desenvolvidos durante as narrativas, sirvam
de intervenção para o desenrolar da imaginação.
A imaginação, por sua vez, significa o desejo de saber o
que vem depois, o desejo do conhecimento; assim, o desejo confunde-se
com a expectativa da virada das páginas... A produção
analisada refere a importância da imagem particular e subjetiva
criada pela criança e a importância de ela perder o receio
de contar histórias “de cabeça”. Acrescenta
a importância do espaço que se proporciona para que a criança
expresse suas experiências pessoais e construa suas histórias
(p. 9).
A produção revela que, pela intervenção do
outro, é grande a contribuição das narrativas para
o processo de alfabetização, as quais fazem parte da trajetória
que a criança percorre ao construir conceitos em suas hipóteses
de leitura. Na entrega do jogo narrativo na educação infantil,
é possível perceber que professores e crianças ampliam
um espaço simbólico comum; há uma cumplicidade entre
seres que se tornam narrados e narrantes, ou seja, entre os sujeitos que
fazem parte desse conjunto da conspiração, com implicações
que favorecem suas vidas (p.10).
A produção TRGTAL0305 revela que a escrita pode exercer
controle sobre a ação das crianças, sendo concebida,
assim, como um meio para que interpretem e lembrem suas histórias.
Isso significa que, com o reconto de histórias, torna-se possível
que a criança, ao elaborar grafias de palavras cuja escrita não
esteja em seu domínio, atribua significado a essas.
Diante do exposto, podemos dizer que a criança se apropria da escrita
e se utiliza deste conhecimento para recordar, orientar a leitura e tomar
consciência, ou seja, refletir sobre a mesma (p. 9 e 13). O texto
revela que as crianças realizam a leitura de textos rememorando
as histórias que motivaram os registros e que utilizam a escrita
para lembrá-los. Ao compreenderem que podem usar a escrita para
recordar, as crianças buscam interpretá-la, mas essa compreensão
não é suficiente para realizarem a atividade, pois é
necessário que se apropriem das normas que regulam a escrita alfabética
(p. 23). Por isso a importância da intervenção no
processo de desenvolvimento da escrita na criança, sobretudo na
orientação de um ensino que possibilite a capacidade de
lembrar e recordar, ou seja, refletir sobre a língua, tomar consciência
das estruturas sonoras das palavras e possibilitar avanços em seu
percurso de aprendizado.
A produção AREDSO0207 considera a escrita como um sistema
de signos que serve de apoio às funções intelectuais,
especificamente à memória, perspectiva essa que traz uma
relação estreita com a consciência da linguagem. Assim,
ao conceber que a linguagem é um sistema de signos que serve de
apoio às funções intelectuais se reconhece que as
crianças podem estabelecer uma relação funcional
com a escrita, usando-a como recurso mnemônico. Baseada na teoria
histórico-cultural, principalmente nos estudos de Luria, trabalha
com a língua escrita concebida como um processo de apropriação,
mais especificamente, pelas formas culturais de escrita aprendidas na
escola, tomando para a pesquisa crianças na fase inicial de alfabetização,
no universo da primeira série do ensino fundamental. Concebe, também,
na mesma perspectiva, que a escrita exige que as crianças comecem
a tomar consciência da linguagem, pois as tentativas de sua organização
a partir do oral possibilitam que se estabeleçam relações
funcionais com os registros para que estes possam auxiliar na memória
das produções infantis (p.156). Admite que a criança
necessita pensar sobre a linguagem e que a aprendizagem da escrita requer
essas tomadas de consciência dos diversos aspectos do funcionamento
lingüístico.
Noutra perspectiva, a produção TEUSP0002 compreende que
o treino da consciência fonológica pode ajudar na aquisição
da linguagem escrita. Justificando a escassez de instrumentos de avaliação
padronizados e utilizando-se de leitura, ditado e consciência fonológica
através do teste prova de consciência fonológica,
no universo de crianças de educação infantil e ensino
fundamental, de nível sócioeconômico médio,
foram percebidos ganhos em consciência fonológica, o que
significa que o treino da mesma, como denomina a autora, auxilia no processo
de aprendizagem. Reforça a importância da rota fonológica
nos estágios iniciais da alfabetização e demonstra
que o fornecimento de instruções fônicas explícitas
às crianças facilita a aquisição da leitura
e escrita.
Com base nas considerações presentes nas produções
acadêmicas, buscamos em Kato e Moreira a importância da prática
mencionada a respeito de leituras de histórias para crianças.
As autoras contribuem com nossa reflexão dizendo que
Ouvindo histórias,
a criança aprende pela experiência a satisfação
que uma história provoca; aprende a estrutura da história
passando a ter consideração pela unidade e seqüência
de texto; aprende associações convencionais que dirigem
as nossas expectativas ao ouvir histórias: o papel esperado de
um lobo, de um leão, de uma raposa, de um príncipe; aprende
convenções lingüísticas de histórias,
como delimitadores iniciais e finais, e. g., era uma vez... e estruturas
lingüísticas mais elaboradas típicas da linguagem literária.
(1997, p. 41).
Diante desses aspectos, ao se trabalhar com a narrativa, as produções
tratam também da reflexão da língua, aspecto considerado
fundamental no desenvolvimento da criança. As produções,
baseadas nos estudos de Vygotsky, buscam resgatar a importância
das tomadas de consciência, principalmente analisando distinções
entre a linguagem oral e escrita. Assim, pela relevância dessa questão,
trazemos as palavras desse autor:
La consciencia y la intención rigen en linguaje escrito e su empleo
son asimilados por el niño consciente y voluntariamente, a diferencia
de la utilización y la assimilacón inconsciente del aspecto
sonoro del linguage. El linguaje escrito obliga al niño a actuar
de un modo más intelectual. Le obliga a tomar consciencia del proprio
processo del habla. Los motivos del linguage escrito son más abstratos,
más intelectuales, están más alejados de la necessidad.
(VYGOTSKY, 1982, p. 232) .
Para Vygotsky, existe próxima relação entre linguagem
e consciência, pois, no que se refere à língua oral
e escrita, considera-se como elemento fundamental a tomada de consciência
a respeito da estrutura sonora da palavra e dos processos que envolvem
a língua. Segundo o autor, a consciência rege a língua
escrita da criança desde cedo; os signos da escrita são
assimilados pela criança consciente e voluntariamente de forma
diferente da assimilação inconsciente dos aspectos sonoros
da linguagem (VYGOTSKY, 1982, p.232). Disso decorre a importância
da relação entre estes dois elementos: consciência
e linguagem.
Buscando em Kato, Moreira e Tarallo (1997, p. 27) referências a
respeito da capacidade de refletir sobre a língua, vimos que tratam
do processo de construção da linguagem escrita como um processo
de compreensão e produção de idéias, no qual
a criança aprende a refletir sobre ela, e entendem como consciência
metalingüística essa capacidade de refletir sobre a língua.
Nesse sentido, também Geraldi nos chama atenção para
a importância da consciência da língua:
Entretanto,
uma coisa é saber a língua, isto é, dominar as habilidades
de uso da língua em situações concretas de interação,
entendendo e produzindo enunciados, percebendo as diferenças entre
uma forma de expressão e outra. Outra, é saber analisar
uma língua, dominando conceitos e metalinguagens a partir dos quais
se fala sobre a língua, se apresentam suas características
estruturais de uso. (1999, p. 46).
Portanto, a criança de educação infantil, imersa
nessas práticas, é capaz, desde cedo, de refletir sobre
a língua, conforme suas possibilidades e de acordo com a intencionalidade
do trabalho e da interação realizada com ela. Esse refletir
não significa formalizar atividades ou desconsiderar o encantamento
desta fase de vida, mas permitir que ela possa brincar com a língua
oral e escrita.
As produções revelam a importância da narrativa e
diversas são as considerações sobretudo atribuindo
relevância às questões culturais, no entanto é
fundamental trazer um fato não mencionado nos textos. Como parte
de um processo de alfabetização, em que a experiência
da narrativa, com a diversidade de suas formas, possibilita, além
do processo de interação, um dos principais processos no
percurso da linguagem, existe sobretudo a possibilidade de representação,
visto que sua contribuição vai além de resgates culturais
e de ser instrumento para funções intelectuais. A narrativa
busca, também, transformar a escrita em objeto simbólico.
Nessa perspectiva, as exposições permitem pensar que a estruturação
da linguagem, tanto oral quanto escrita, ocorre por via da relação
com o social. O próprio objeto da escrita é uma invenção
histórico-cultural, de modo que, desde o início está
presente em nosso meio. Ferreiro considera que qualquer escrita é,
do ponto de vista material, “um conjunto de marcas intencionais
sobre uma superfície” (1995, p. 164). No entanto, nem todo
o conjunto de marcas constitui uma escrita; são as práticas
sociais de interpretação que as transformam em objetos lingüísticos
(FERREIRO, 1995, p. 156).
Essas marcas, de acordo com Ferreiro, são opacas até um
interpretante permitir que a criança, em sua trajetória,
estabeleça relações entre essas marcas e uma certa
produção lingüística (FERREIRO, 1995, p. 165).
Por meio de um processo de intervenção na leitura e na escrita,
a criança tem a possibilidade de passar da “escrita-conjunto-de-marcas
à escrita-objeto-simbólico” (165) com o apoio de um
interpretante, ou seja, de alguém capaz de introduzir a criança
num mundo mágico. Nas palavras da autora,
o interpretante
informa à criança, ao efetuar esse ato aparentemente banal
que chamamos de “um ato de leitura”, que essas marcas tem
poderes especiais: basta olhá-las para produzir a linguagem. O
ato de leitura é um ato mágico. O que existe por trás
dessas marcas para que o olho incite a boca a produzir linguagem? Certamente,
é uma linguagem peculiar, bem diferente da comunicação
face a face. Quem lê não olha para o outro, mas para a página
(ou qualquer outra superfície sobre a qual as marcas foram realizadas).
Quem lê parece falar para outro, porém o que diz não
é a sua própria palavra, mas a palavra de um “Outro”
que pode ser desdobrada em muitos “Outros”, saídos
não se sabe de onde, também escondidos atrás das
marcas. De fato, o leitor é um ator: empresta sua voz para o texto
ser re-presentado (no sentido etimológico de “tornar a apresentar-se”).
Portanto, o interpretante fala, mas não é ele quem fala;
o interpretante diz, porém o dito não é seu próprio
dizer mas os fantasmas que se realizam através de sua boca. (FERREIRO,
1995, p. 165).
Esse momento mágico, encantador para a criança, conduza
que o mesmo texto torne a representar-se diversas vezes diante das mesmas
marcas. O fato de a criança ficar fascinada pela leitura e releitura
da mesma história ocorre porque “a escrita fixa a língua,
controla-a de tal maneira que as palavras não se dispersam, não
se desvanecem nem são substituídas umas pelas outras. As
mesmas palavras, uma e outra vez; grande parte do mistério reside
nesta possibilidade de repetição, de reiteração,
de representação” (FERREIRO, 1995, p. 166). A intervenção
deste sujeito denominado por Ferreiro de "interpretante", é
fundamental para que a escrita como um objeto opaco, ou seja, marcas como
objetos físicos, possa ser transformada num objeto simbólico,
isto é, marcas que evocam uma linguagem. (FERREIRO, 1995, p. 166)
O drama de muitas crianças, segundo Ferreiro, é o fato de
não poderem contar com interpretantes nos seus primeiros anos e,
mesmo ao chegarem na escola, não os encontram. A professora não
age como intérprete nem como interpretante, e, sim, como decodificadora.
A magia, o mistério, o desafio a ser superado são substituídos
por famílias silábicas e soletrações, que
reduzem o mistério a um treinamento; então, e “a palavra
dissolve-se em componentes que destróem o signo lingüístico”
(p. 168). Ao agir como interpretante, além de conduzir um caminho
à transformação de marcas escritas em objetos lingüísticos,
a professora estaria possibilitando uma relação mais próxima
entre si, a criança e a língua. Dessa forma, considera-se
a interação social indispensável nesse processo de
conversão de tais marcas em objetos simbólicos.
Para que a língua se transforme em objeto vivo, interessante e
significativo, há que se contar com o professor como interpretante,
este sujeito que ocupa um espaço fundamental na escola e que possui
um papel imprescindível nesse cenário. Independentemente
do ambiente sociocultural em que se encontram, as crianças estão
convivendo com a escrita e construindo suas hipóteses, no entanto,
algumas precisam contar com a escola para construir ferramentas conceituais
a respeito da escrita, pois talvez seja nela que encontrem as únicas
formas de intervenção. Na medida em que elas encontram oportunidade
de, antes do ensino fundamental ou durante as primeiras experiências
na alfabetização, contar com alguém que previamente
prepare o mágico, o misterioso e o desafiador, possivelmente poderão
contar com melhores possibilidades de tratar a escrita como um objeto
simbólico.
c. A relação
entre lúdico e linguagem
Aborda-se
neste ponto o aspecto lúdico atrelado à linguagem, questão
evidente nas produções acadêmicas. A produção
TRGTEI0002 apresenta o papel da linguagem no faz-de-conta, que estabelece
a relação da fala da criança orientando a ação
e permitindo a regulação do intercâmbio entre seus
parceiros. O faz-de-conta é caracterizado pela dimensão
imaginária, a qual possui vínculo com o real, que se origina
do vivenciado e do conhecido; é inicialmente orientado pela memória
e caracteriza-se pelas possibilidades de operar com a recombinação
de elementos da realidade, criando situações virtuais. Nesse
sentido, a linguagem possui um papel fundamental nessas relações
e é abordada como compondo a estrutura interna da situação
das brincadeiras, orientando a ação, e pela palavra, sustentando
a criação imaginária. A produção em
foco explicita que a linguagem articulada com o brincar estabelece uma
relação com a imaginação e o faz-de-conta,
com aspectos cognitivos e afetivos. Ao tratar do jogo imaginário
na infância, expõe-se a idéia de que o brincar, fazendo
parte do processo de socialização, como objeto cultural,
possibilita maiores relações para a criança se apropriar
de códigos culturais, situar-se e transformar o vivenciado (p.
3).
Na produção TRGTEI0306 , a linguagem é vista como
prática discursiva, cujo desenvolvimento ocorre concomitantemente
com o desenvolvimento dos estágios do desenvolvimento do jogo.
Essa produção traz autores que abordam o jogo e a linguagem.
O lúdico aparece relacionado com a apropriação de
significações culturais a respeito do contexto social no
qual a criança está inserida e, ao considerar o jogo também
como prática discursiva em seus processos interativos, destina
atenção às relações de linguagem verbal.
A produção estabelece contornos do enquadre do discurso
lúdico em relação ao pedagógico, identificando
os recursos simbólicos e o modo como estes se articulam para construir
sentido, sobretudo o papel da linguagem verbal e os aspectos dialógicos
expressos na cena enunciativa lúdica nesse processo. Sublinha os
processos de apropriação de significados que ocorrem no
jogo e o lugar deste na escola do ponto de vista das crianças (p.
16).
De outra forma, a produção DICUNJ0106 expressa a importância
do lúdico também através da vivência de experiências
psicomotoras, proporcionando à criança de quatro a seis
anos resultados positivos em seu desenvolvimento, concebendo a linguagem
como um espaço de constituição social de seus sujeitos.
A psicomotricidade, como um instrumental teórico e prático
de trabalho, pode auxiliar na educação infantil possibilitando
avanços na trajetória da criança a respeito de diversificadas
áreas, especialmente o desenvolvimento de um pensamento reflexivo.
Está implícita a importância do trabalho com o meio
e as relações culturais, a ação sobre esse
meio e as influências comportamentais. Levando em conta que a infância
traz uma história de assistencialismo, equivocadamente, pensou-se
no compromisso da alfabetização com um preparo para o ingresso
na primeira série, tornando-se, assim, uma meta. Para atingir essa
meta, na produção em foco considera-se que se deixou de
trabalhar a relação com o ambiente externo, a ação
sobre o meio e as influências comportamentais. Por isso, propõe
uma reflexão sobre a metodologia utilizada na educação
infantil envolvendo a psicomotricidade e a observação de
técnicas utilizadas no atendimento às crianças como
contribuições para a formação global dessas.
Revela, assim, uma postura atrelada ao processo de reflexão, à
descoberta, à curiosidade, à produção do conhecimento,
à relação com o ambiente externo e à ação
sobre o meio.
Perante as reflexões apresentadas nas produções,
buscamos em Vygotsky o pressuposto de que no brinquedo a criança
cria uma situação imaginária. Assim, segundo o autor,
“a ação numa situação imaginária
ensina a criança a dirigir seu comportamento não somente
pela percepção imediata dos objetos ou pela situação
que a afeta de imediato, mas também pelo significado dessa situação”
(1991, p. 110). O autor permite-nos refletir também sobre a importância
do faz-de-conta, compreendido como um aspecto fundamental no desenvolvimento
do simbolismo e tendo conseqüências para o desenvolvimento
da linguagem. Na fase de zero a seis anos, o faz-de-conta pode ser explorado
de inúmeras formas. Segundo Vygotsky, “consideramos a brincadeira
do faz-de-conta como um dos grandes contribuidores para o desenvolvimento
da linguagem escrita” (1991, p. 125).
Chama atenção também a diversidade de conceitos referentes
ao lúdico quando associado à linguagem. Tratamos do brincar
como um dos elementos fundamentais no desenvolvimento infantil e preocupa-nos
a forma como este, hoje, está sendo tomado como objeto de conhecimento
tanto nos programas de formação quanto na escola. Há
razões sérias e comprometidas que implicam sustentação
teórica que legitime as falas sobre o tema, pois, no cotidiano
infantil, regado de faz-de-conta, brincadeiras, jogos imaginários,
momentos lúdicos..., estão crianças e professores
que necessitam de propostas pedagógicas claras e intencionais no
desenrolar do processo de alfabetização.
d. O professor
e seu saber a respeito da linguagem
A abordagem
presente refere-se às produções que direcionam seu
olhar para o professor e a relação que estabelecem com os
elementos que se aproximam da linguagem. Assim, com o foco no professor
, a produção TEUFCE0104 busca retratar a construção
de significados na aprendizagem da língua escrita, compreendendo
a ludicidade como um elemento formador básico do alfabetizador.
Toma como significativa a apropriação dessa concepção
pelo professor e o papel da própria ludicidade e evidencia a importância
de um processo de formação continuada que possibilite aos
professores a presença do brinquedo no âmbito da teoria e
da prática.
A produção TEUPUC0001 constata a relação entre
psicologia e alfabetização na ótica dos professores.
Com base na psicologia histórico-cultural, desvelam-se as funções
psicológicas superiores, ou seja, "funções tipicamente
humanas" como denominadas por Vygotsky, e a importância da
escolarização na constituição do psiquismo.
Os estudos também direcionam seu foco ao professor, investigando
a forma como este recria as teorias psicológicas que fundamentam
sua ação, e apresentam a linguagem na concepção
de um processo de inserção social e cultural, considerando
sua relação com o pensamento.
Apontando para práticas avaliativas no processo de ensino-aprendizagem
da leitura e da escrita, a produção DIUFPA0105 retrata a
didática das línguas como um conjunto dos discursos sobre
o ensino-aprendizagem das línguas e concebe a avaliação
formativa como mediadora na aquisição de conhecimentos lingüísticos,
principalmente no desenvolvimento de competências da linguagem.
Com base em estudos que se debruçam sobre as concepções
e práticas dos docentes a respeito do processo ensino-aprendizagem
da língua escrita, constata a presença de mais práticas
a respeito da língua escrita construtivas/comunicativas e interativas
do que de práticas reprodutivistas e individuais na aprendizagem
dos alunos, o que possibilita maior grau de situações didáticas
suscetíveis de favorecerem práticas avaliativas formativas
no processo da leitura e da escrita.
Da mesma forma, a produção POGTAL0204 evidencia sua preocupação
com o conhecimento dos professores. Considerando que a criança
possui saberes em relação à escrita e é vista
como um sujeito que produz conhecimento, compreende que a alfabetização
é parte da evolução do sistema de idéias construídas
por elas sobre a natureza da língua enquanto objeto social. Assim,
confirma pressupostos inerentes à teoria de Piaget no que se refere
à língua escrita, concebendo esse processo na perspectiva
construtivista, na qual os princípios conceituais fundamentam-se
também na evolução dos sistemas de idéias
que as crianças constroem sobre a natureza da língua escrita
enquanto objeto social (p.1).
A produção DIUMF0104 , por sua vez, traz a relação
entre a educação infantil e a primeira série do ensino
fundamental no que diz respeito ao desempenho da criança na aquisição
da leitura e da escrita e às práticas educativas desenvolvidas
por seus professores. Constata relações de progresso e continuidade
entre ambos e reitera a importância de os professores estarem preparados
para orientar sua ação pedagógica através
de avaliação qualitativa do desempenho do aluno. Concebe
a necessidade de os cursos de formação e atualização
desses professores viabilizarem meios para que eles tenham mais acesso
a conhecimentos e estudos já desenvolvidos para que sejam aplicados
em sala de aula.
Diante disso, ao perceber a preocupação expressa nas produções
quanto ao conhecimento dos professores, tendo em vista alguns aspectos,
como a relação com o lúdico, a avaliação,
as funções intelectuais e principalmente o desenvolvimento
da linguagem, permite-nos refletir acerca de seu processo de formação.
Preocupa-nos sim, o fato de professores envolvidos com crianças
em fase de alfabetização possuírem conhecimentos
difusos a respeito da linguagem escrita, pois disso depende sua ação
pedagógica.
Frente aos saberes implicados na trajetória do professor de educação
infantil, é fundamental compreender a importância dos momentos
de interação com suas crianças e da forma e momento
da intervenção. Nesse sentido, ao tratar da linguagem como
uma prática social ou como uma produção de conhecimento,
que vai se constituindo no processo de alfabetização, buscamos
em Ferreiro, quando prefacia Delia Lerner, a noção de intervenção
docente, visto que considera fundamental este papel do professor no processo
de alfabetização, como nos remetem as produções.
No entanto, ressaltamos esta noção no que diz respeito ao
momento em que o professor silencia e procura deixar o aluno refletir:
A noção de intervenção docente. Em seus capítulos
dita intervenção é conceitualizada fundamentalmente
em termos de “dizer” ou “fazer”. Mas o silêncio
pode ser conceitualizado não como uma ausência de intervenção,
e sim como um tipo particular de intervenção, muito poderoso
em certos casos porque pode suscitar uma interrogação nada
banal nos alunos: “por que a professora se manteve calada?”.
Acho que o silêncio como intervenção pedagógica
merece ser considerado explicitamente. Vamos nos entender: não
qualquer silêncio, já que há silêncios e silêncios...
Não é o silêncio do laissez faire nem o silêncio
do desconcerto total por parte do docente. Refiro-me por exemplo, a certos
momentos (que Delia e outras colegas conhecem muito bem) onde a professora
assume conscientemente o tempo necessário para que as crianças
encontrem uma solução, ou quando ela fica junto ao grupo
em atitude de reflexão. (FERREIRO,2002, p. 9).
Além disso, as produções revelam a importância
de processos de formação, de mudança de postura,
de construção de novos significados, da maneira como se
compreende a aprendizagem da criança e de suas dúvidas.
Nesse sentido, cada professor constrói sua trajetória de
formação e, apesar de não centrarmos o foco de discussão
desta pesquisa nos saberes docentes, consideramos pertinente a presença
desse aspecto, pois, no processo de cada professor, individual ou coletivo,
há um tempo e um espaço de compromisso com a criança,
com a alfabetização e consigo mesmo. Ressalta Dickel:
O tempo da professora (assim como o da criança) não é
um tempo homogêneo, nem se comparado ao de seus pares, tampouco
se comparado ao dos responsáveis pelas propostas de formação.
É um tempo marcado por sua história, por sentimentos, conquistas,
dúvidas, temores. Não pode ser tratado como espaço
ao qual se vão agregar respostas rápidas e permanentes,
previamente elaboradas por sujeitos estranhos a essas trajetórias.
O tempo de um “processo” é um tempo que pode ser organizado,
mas não passível de segmentação para controle;
pode ser acompanhado, mas não objeto de delimitações
prévias; é campo de exercício de um poder que deve
ser interrogado constantemente sobre a pertinência das opções
e dos caminhos assumidos, sobre a capacidade de produzir autonomia e de
suscitar nos sujeitos um campo amplo de perspectivas. (2001, p.19).
Assim, o tempo dos professores de educação infantil incita
novas posturas e significa o tempo de estarem fazendo parte de processos
de formação inicial ou continuada. Nesses processos, preocupam
o tipo de discussão presente, ou não, as concepções
e as falas que orientam esses professores. É possível dizer
que, por meio da produção acadêmica, podemos enunciar
concepções de linguagem suficientemente sustentáveis
para dar conta da problemática a respeito desse tema, mas, quando
nos deparamos com o cotidiano - vivo, transparente, cheio de inquietudes
-, percebemos que as concepções oferecidas podem demonstrar
elementos incompatíveis. Nesse sentido, mesmo diante da grandeza
de contribuições que as produções acadêmicas
podem oferecer, o processo de formação dos professores implica
uma teia de relações entre seus conhecimentos, seus limites
e novas possibilidades de um trabalho coerente com as exigências
da educação da infância.
Algumas considerações
Recompor as discussões a respeito do desenvolvimento da linguagem
escrita no campo da educação infantil, através de
produções acadêmicas, localizando os elementos que
se sobrepõem, buscamos nesse processo de pesquisa trazer para o
debate os referenciais e as concepções que estão
a guiar e a influenciar a formação dos professores e o cotidiano
escolar.
Apontam-se alguns limites... A aquisição da língua
escrita entre crianças de educação infantil parece
ser uma indagação que pouco permeia as produções
acadêmicas nesse momento histórico, segundo o material selecionado
para esta pesquisa. Acreditamos que as produções não
dizem inverdades e trazem elementos fundamentais para a área da
educação, mas fazemos perguntas diferentes. Produções
que sistematizam sobre a educação infantil referem-se pouco
à alfabetização e produções que trabalham
com desenvolvimento da linguagem escrita e alfabetização
incluem apenas alguns aspectos relacionados à educação
infantil em seus trabalhos. É evidente que o debate a respeito
da aquisição da linguagem escrita na educação
infantil seria fundamental numa sociedade em que muitas crianças
possuem poucas oportunidades de intervenção em seu cotidiano.
Para muitas, possivelmente, nem a escola será esse espaço,
pois sabemos que algumas dessas crianças, mesmo freqüentando
o ambiente escolar e participando de processos de alfabetização,
não estarão tendo um futuro garantido com condições
dignas. Se a escola não oferecer oportunidades de um trabalho com
qualidade e se o debate a respeito deste tema, orientando os professores
e trazendo novos enfoques, não estiver em pauta, que compromisso
teremos?
O conjunto de elementos da análise desta pesquisa remete-nos questionar:
não haveria um certo descompasso entre o cotidiano da criança,
que se move durante todo o tempo, que possui vida própria, e nosso
olhar acadêmico. Possivelmente, essa ruptura ocorra porque fomos
historicamente acostumados a enxergar a escola, o formal, a instituição.
A criança rompe com isso e encontra-se em outro patamar, com outras
formas de aprender, construindo conhecimento de uma maneira para a qual
é necessário um olhar mais atento. Por essa razão,
talvez a formação dos professores se situe nas produções
efetivamente direcionadas para o ensino fundamental. Diante de um olhar
voltado para o que está institucionalizado e marcado pela escolarização,
a formação torna-se um processo relevante somente ao que
está visível. A educação infantil, onde crianças
de zero a seis anos produzem conhecimento, mas de forma espontânea,
é parte das instituições, no entanto, possivelmente,
esse espaço ainda seja visto com grande distanciamento do espaço
de produção de conhecimento da Educação Básica.
Assim, pensamos nas crianças. Aumenta o drama daquelas que não
encontram sujeitos que as motivem e as ajudem a transformar de maneira
viva a escrita em objeto social. Se as crianças conhecem a língua,
brincam e refletem sobre ela, possibilita-se que estabeleçam uma
relação funcional com a escrita. Se há conhecimento
por parte dos professores para assumir responsabilidades e se percebermos
a riqueza numa criança descobrindo de maneira prazerosa e com os
olhos brilhantes a escrita, talvez possamos compreender que esta, mais
tarde, também poderá ser um sujeito com mais espaço
e mais direitos à palavra na escola e fora dela. Tomamos aqui o
pensamento de Lerner:
O necessário é fazer da escola uma comunidade de escritores
que produzem seus próprios textos para mostrar suas idéias,
para mostrar sobre os fatos que os destinatários necessitam, ou
devem conhecer, para incitar seus leitores a empreender ações
que consideram valiosas, para convencê-los da validade dos pontos
de vista ou das propostas que tentam promover, para protestar ou reclamar,
para compartilhar com os demais uma bela frase ou um bom escrito, para
intrigar ou fazer rir... O necessário é fazer da escola
um âmbito onde leitura e escrita sejam práticas vivas e vitais,
onde ler e escrever sejam instrumentos poderosos que permitam repensar
o mundo e reorganizar o próprio pensamento, onde interpretar e
produzir textos sejam diretos que é legítimo exercer e responsabilidades
que é necessário assumir. (2002, p. 18).
Nessa perspectiva reiteramos que as produções sinalizam
de várias formas, através de diversos caminhos de pesquisa,
elementos fundamentais. Elas tratam de interação social,
de tomadas de consciência, de intervenção, mediação,
diálogo, ludicidade. Revelam a importância do olhar o outro,
de aspectos sociais culturais, históricos, políticos, de
práticas sociais, de produção de conhecimento, de
relações que se estabelecem entre a formação
dos professores e o cotidiano em que a escola, com a multiplicidade de
redes, se insere. Isso significa apostar num tempo e num espaço
de intervenção no campo da educação, significa
romper com rupturas que segmentam os processos educacionais e respeitar
a criança pequena
Assim, esperamos estar trazendo subsídios para a área da
educação e, parafraseando Ricardo Rossato ao se referir
ao sujeito que está na universidade, podemos ousar nos incluir
dizendo que o pesquisador “é aquele que faz a leitura de
seu tempo, oferece respostas e ajuda a definir seu tempo”, ou seja,
é aquele que está disposto a “construir a totalidade
a partir da práxis, da crítica e da história”,
pois nós, envolvidos com a ciência da educação,
temos um compromisso com os sujeitos de nossa vida profissional, principalmente
com aqueles professores e aquelas crianças possuem e voz e esperam
espaço para serem ouvidas.
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a alfabetização como processo discursivo. 8. ed. São
Paulo: Cortez; Campinas, SP: Editora da Unicamp, 1999.
SOARES, Magda. Letramento e alfabetização: as muitas facetas.
In: ANPEd Nacional, 26, 2003, Poços de Caldas. Anais. Poços
de Caldas, 2003, p. 1-18.
TUDGE, Jonathan; ROGOFF, Barbara. Influencias entre iguales en el desarrollo
cognitivo: perpectivas piagetiana y vygotskiana. In: BERROCAL, Pablo Fernández;
ZABAL, Maria Ángeles Melero (Comp.). La interacción social
en contextos educativos. Madrid: Siglo Vientiuno de España Editores,
S.A., 1995. p. 99-126.
VYGOTSKY, L.S. A formação social da mente. São Paulo:
Martins Fontes, 1991.
______. Obras escogidas. Tomo II. Madrid: Visor Distribuiciones, 1982.
APÊNDICE
A - Quadro 1 – Documentos da categoria central, selecionados para a análise.
| TIPO DE DOCUMENTOS |
|
DESCRIÇÃO |
| |
|
|
| Trabalho |
TRGTAL0305 |
GT
Alfabetização, Leitura e Escrita – 2003 |
| |
TRGTEI0306 |
GT
Educação da Criança de 0 a 6 - anos – 2003 |
| Trabalho |
TRGTEI0307 |
GT
Educação da Criança de 0 a 6 anos – 2003 |
| |
|
|
| Pôster |
POGTAL0105 |
|
| Pôster |
POGTAL0307 |
GT
Alfabetização, Leitura e Escrita – 2003 |
| Sessão
Especial |
|
GT
Alfabetização, Leitura e Escrita – 2003 |
| Minicurso |
|
GT
Alfabetização, Leitura e Escrita – 2003 |
| Dissertação |
DIUEMF0104 |
Universidade
Estadual Paulista de Mesquita Filho – 2001 |
| Dissertação |
DIUFPA0105 |
Universidade
Federal do Pará –2001 |
| Dissertação |
DICUNJ0106 |
Centro
Universitário Nove de Julho – 2001 |
| Dissertação |
DIUFRN0109 |
Universidade
Federal do Rio Grande do Norte – 2001 |
| Tese |
TEPUC0001 |
PUC
- São Paulo – 2000 |
| Tese |
TEUSP0002 |
Universidade
de São Paulo- 2000 |
| Tese |
TEUFCE0104 |
Universidade
Federal do Ceará – 2001 |
| Artigos |
AREDSO0207 |
Educação
& Sociedade – 2002 |
APÊNDICE
B - Lista das fontes documentais que constituíram o corpo empírico
do trabalho
TRABALHOS APRESENTADOS NA REUNIÃO ANUAL DA ANPED
Nº 01
GÓES, Maria Cecília Rafael de UNIMEP
Ano: 2000 O jogo imaginário na infância: a linguagem e a
criação de personagens.
Nº 02
FRANCO, Marco Antônio Melo; CASTANHEIRA, Maria Lúcia
Ano: 2001 Práticas Discursivas: A construção da fala
dos alunos em uma sala de aula de alfabetização.
Nº 03
MACHADO, Laeda Bezerra; CARVALHO; Maria do Rosário Fátima
UFPE
Ano: 2002 Construtivismo entre alfabetizadores: algumas reflexões
sobre o campo semântico de suas representações.
Nº 04
CONTIJO, Claudia Maria Mendes UFES
Ano: 2003 A escrita e a leitura de textos na fase inicial da alfabetização
Nº 05
GIRARDELLO, Gilka. UFSC
Ano: 2003 Voz, presença e imaginação: a narração
de histórias e as crianças pequenas.
Nº 06
MARTINS, Aracy. UFMG
Ano: 2003 Práticas leitoras: diferentes instâncias e contextos
de leitura.
Nº 07
MONTEIRO, Hilda; UNICEP BRANDE, Carla. UFSCar
Ano: 2003 O olhar dos alunos sobre os processos de tempos de aprendizagem
da linguagem escrita.
Nº 08
SOARES, Magda UFMG
Ano: 2003 Letramento e alfabetização: as múltiplas
facetas.
RESUMOS DE DISSERTAÇÕES E TESES
Nº 09 CAPOVILLA, Alessandra Gotuzo Seabra. USP
Ano: 2000 Leitura, escrita e consciência fonológica: desenvolvimento,
intercorrelações e intervenção. Tese
Nº 10
CARVALHO, Diana Carvalho de PUC/SP
Ano: 2000 A relação entre psicologia e alfabetização
sob a óptica dos professores. Tese
Nº 11
ADORNI, Dulcinéia da Silva. UEPJMF
Ano: 2001 Da educação infantil ao ensino fundamental: o
desempenho da criança na aquisição da leitura e da
escrita e as práticas educativas nestes dois níveis do ensino
básico.
Nº 12
BRAGA, Adriana Nabahan. Centro Universitário Nove de Julho
Ano: 2001 A psicomotricidade na educação infantil: elementos
para a formação cidadã da criança. Dissertação
Nº 13
PORTO, Bernardete de Souza UFC
Ano: 2001 Bola de meia, bola de gude – a criatividade lúdica,
a jornada e a prática pedagógica do professor-alfabetizador.
Tese
Nº 14 FREITAS, Alessandra Cardozo de UFRN
Ano: 2001 Os filhos da carochinha: a contribuição da literatura
na estrutura da linguagem em crianças de educação
infantil. Dissertação
Nº 15
TRESCASTRO, Lorena Bischoff. UFP (Pará)
Ano: 2001 A avaliação nas práticas de alfabetização:
um estudo sobre o processo de ensino-aprendizagem da leitura e da escrita
em classes de ciclo básico. dissertação
ARTIGOS DE PERIÓDICOS
Nº 16 CARVALHO, Marlene UFJF
Ano: 2001 Revisitando as metodologias de alfabetização:
professoras falam sobre sua prática.
Nº 37
CONTIJO, Claudia Maria Mendes; LEITE, Sérgio Antônio da Silva
Unicamp
Ano: 2002 A escrita como um recurso mnemônico na fase inicial da
alfabetização escolar: uma análise histórico-cultural.
APÊNDICE
C - Identificação das produções citadas no
texto
A identificação
das produções citadas no texto segue a seguinte padronização:
Documentos
das reuniões Anuais da ANPEd
Ex.: TRGTAL0001
TR ____ __
___ tipo de material (cf. Quadro 1 – trabalho);
__ GTAL __ __ grupos de trabalho (cf. Quadro 2 - Grupo de Trabalho Alfabetização
Leitura e Escrita);
__ __ 00 __ ano em que foi produzida;
__ ____ __ 01 nº da série que lhe foi destinado na catalogação.
Resumos de teses e dissertações:
Ex.: DIUFBA0001
DI _____
__ __ tipo de material (cf. quadro 1 – dissertação);
__ UFBA __ __ Universidade ao qual a produção está
vinculada (cf. quadro 3 – Universidade Federal da Bahia);
__ _____00 ___ ano em que foi produzida;
__ ______ __ 01 nº da série que lhe foi destinado na catalogação.
Artigos de periódicos:
Ex.: AREDSO0002
AR ____ __
__ tipo de material (cf. quadro 1 – artigo);
__ EDSO __ __ nomencaltura do periódico (cf. quadro 4 – Educação
& Sociedade);
__ ____ 00__ ano em que foi produzido;
__ _____ __ 02 nº da série que lhe foi destinado na catalogação.
Quadro
1
|
TR |
Trabalho |
| PO |
Pôster |
| SE |
Sessão
especial |
| MC |
Minicurso |
| DI |
Dissertação |
| TE |
Tese |
| AR |
Artigo |
Quadro
2
|
GTAL |
Grupo
de Trabalho Alfabetização, Leitura e Escrita |
| GTEI |
Grupo
de Trabalho Educação da Criança de 0 a 6 anos |
Quadro
3
|
UFRJ |
Universidade
do Estado do Rio de Janeiro |
| UEMF |
Universidade
Estadual Paulista de Mesquita Filho |
| UFPA |
Universidade
Federal do Pará |
| CUNJ |
Centro
Universitário Nove de Julho |
| UFU |
Universidade
Federal de Uberlândia |
| UFRN |
Universidade
Federal do Rio Grande do Norte |
| PUC |
Pontifícia
Universidade Católica - São Paulo |
| USP |
Universidade
de São Paulo |
| UFC |
Universidade
Federal do Ceará |
| UFBA |
Universidade
Federal da Bahia |
Quadro
4
|
PUC |
Revista
Quadrimestral – PUCRS |
| EDSO |
Educação
& Sociedade |
| EDPE |
Educação
e Pesquisa |
| EDRE |
Educação
em Revista |
| CAPE |
Cadernos
de Pesquisa |
| EDTR |
Educação
& Trabalho |
| PRPE |
Presença
Pedagógica |
|
|